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ONDE TUDO COMEÇA
Quando queremos entender algo, seja concreto ou imaterial, buscamos investigar as origens ou princípios daquilo que nos instiga. Ainda que o ponto de partida possa ser único, os ramos que dali saem seguem caminhos incertos. Cada um deles traz uma percepção, mas seguem conectados. Essa diversidade de visões faz com que experiências únicas floresçam e construam as bases da realidade que vivemos.
Existimos e construímos o mundo sobre as raízes que herdamos, daqueles que nos antecederam,
os quais – tão humanos quanto nós – também
existiram e construíram sobre o que herdaram.
É isso que compõe a ancestralidade. Estamos
em constante enriquecimento, porém, este fluxo
intenso também pode esconder o passado.
Nessa trama complexa, se é verdade que o ser humano desfruta do livre arbítrio para decidir sobre a própria vida, também é fato que não escolhe as condições sobre as quais se encontra. O que está em suas mãos é decidir se quer ou não entender o que lhe trouxe até aqui.
A Sextante, sempre mirando na diversidade de ideias e conceitos, deixa de olhar apenas para uma direção. A proposta é colocar o óbvio de lado ao buscar o passado para entender e vislumbrar o futuro, ver onde erramos e onde podemos chegar.
Assim como o concreto que dificulta o crescimento das raízes de uma árvore, por aqui também encontramos percalços. No meio de todo esse intrincado processo, não demos conta de abordar todos os temas que o assunto oferece. Mesmo assim, tentamos ao menos oferecer pistas do caminho para que, em meio aos galhos, folhas e frutos do presente, encontremos as nossas raízes.
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UM EMARANHADO DE ESPERANÇAS
Você sabia que embaixo da terra existe uma espécie de rede de comunicação entre as árvores e plantas? Os responsáveis por essa conexão são os fungos, ou, mais especificamente, os micélios. Eles são a parte que mantém os fungos vivos e formam, no solo, um emaranhado entre seus filetes e as raízes das plantas.
O mais interessante é que os micélios precisam fazer processos de simbiose com algumas espécies para que os fungos sobrevivam. Nessa relação, ambos ganham, pois os vegetais fornecem açúcares para os fungos, que disponibilizam nutrientes para as plantas.
A imagem dessa grande rede pode ser comparada às que tentam reproduzir as conexões da internet, com vários pontinhos unidos por fios que seguem em diferentes direções. Só que a rede de fungos, diferentemente da virtual, está sendo considerada por ecologistas como
possível fonte de material novo e sustentável, pois é esse emaranhado, estimado em mais de 450 quatrilhões de quilômetros, que ajuda a sustentar a vida na Terra.
Mas o que os micélios têm a ver com a edição 65 da Sextante? Esta revista tem como temática as raízes, sejam elas de forma literal ou simbólica. Podemos dizer que tudo que foi construído aqui faz parte de um emaranhado de ideias, de pessoas, de sentimentos, de diferentes textos, imagens e pontos de vista. Esses pontos, no entanto, se interligam por aquilo que mais gostamos de fazer: jornalismo.
Em todo o esforço empreendido para lançar esta revista, está enraizada a certeza de que o jornalismo tem uma função central numa sociedade democrática. Por isso foram entrevistados idosos, crianças, indígenas, quilombolas, ciganos, refugiados – para trazer
vozes e perspectivas que, muitas vezes, não têm espaço nos veículos tradicionais e ficam invisibilizadas.
O jornalismo no qual acreditamos é aquele que conecta essas vozes, criando resistência para sustentar o mundo que queremos – como os micélios fazem com as florestas. Se dizemos que as árvores são os pulmões do planeta, as redes de fungos são o sistema circulatório. Se a democracia é o que mantém de pé uma sociedade justa, o jornalismo que fazemos é formado por um emaranhado de raízes que buscam sustentar esse tronco, na esperança de que ele gere folhas, frutos e flores.
Confira aqui a edição impressa da revista!
Thaís Furtado
thais.furtado@ufrgs.br
Gisele Reginato
gisele.reginato@ufrgs.br