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A INFÂNCIA POR QUEM A VIVE

Quais são suas memórias de infância? Para muitos, são os incontáveis dias em que a grande preocupação era se o melhor amigo poderia brincar. Ou se a chuva iria atrapalhar a ida ao parque. É a época em que as responsabilidades não existiam. Nada de trabalho ou boletos para pagar, no máximo uma prova de matemática ou português para estudar, uma tarefa de casa para entregar no dia seguinte. É essa visão romântica que um adulto costuma ter quando a pergunta do início deste texto é feita.

Mas essa infância, que talvez fosse a ideal, não é possível para todas as crianças. Várias crianças convivem com preocupações e responsabilidades da vida adulta. São deslocadas das brincadeiras para o trabalho, da segurança para a violência. Seja qual for a realidade em que estejam inseridas, as crianças existem no presente. As várias infâncias não são só lembranças, são vidas. E o que as crianças pensam sobre a fase que vivem?

Tente se lembrar quantas vezes você quis participar da conversa, mas sua mãe disse “fica quieto, a mamãe tá conversando”. Ou quão menosprezado você se sentiu quando seu tio falou “não faz pergunta difícil”. Nesses momentos, sentíamos que estávamos sendo deixados de lado. E até que ponto isso é mentira? De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 19,8% da população brasileira é formada por pessoas de zero a 14 anos. Ainda assim, parece que esses mais de 40 milhões de brasileiros não têm voz. E o jornalismo é um dos responsáveis por manter as crianças silenciadas. 

Tendo esse cenário em mente, a edição número 67 da revista Sextante se propõe a dar protagonismo às crianças nas 15 reportagens das próximas páginas. Os repórteres entrevistaram crianças e também psicólogos, professores e outros especialistas para falar das diversas infâncias – a infância do brincar e da imaginação, claro, mas também a infância em seus momentos mais difíceis, enfrentando o luto e a doença.

Queremos pensar a criança como uma pessoa que pertence a um grupo e a um espaço e que se vê representada nele, com seus desejos, medos, anseios e suas vontades. A criança que não vai ser alguma coisa só quando crescer, mas a que já é, agora. A criança que se apaixona por algo e leva isso por toda a sua vida. Pensando bem, será que um dia a infância realmente nos deixa?

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Chega de jornalismo infantofóbico

Os jornalistas têm medo de crianças. Várias pesquisas no Brasil e no exterior têm constatado que elas raramente são escolhidas como fontes. E apontam alguns motivos. O primeiro é o imaginário de que elas, ao serem entrevistadas, não teriam condições de opinar sobre temas que fazem parte de sua vida. Na escola, quem dá entrevista é o professor. Sobre saúde infantil, quem fala é o médico, o psicólogo. Sobre o uso da internet, são só os especialistas que sabem de tudo.

O jornalismo esquece que as crianças usam transporte público, vão ao hospital, percebem o tráfico de drogas, notam que as árvores estão dando lugar a prédios, não gostam quando a pracinha está suja, pensam sobre a morte, sobre futebol, sobre o céu, sobre os livros que leem, o bullying que sofrem ou fazem com os colegas. Elas refletem e sentem.

O segundo motivo de os jornalistas não entrevistarem crianças é o medo de que elas sejam espontâneas demais. Adultos têm noção de como se portar numa entrevista. As crianças, em geral, não têm essa preocupação, por isso escapam do controle do repórter. A sinceridade delas pode causar constrangimento, deixando o entrevistador sem saber como agir.

A tendência, então, é controlar meninos e meninas colocando-os em posições redutoras e estereotipadas. Nas entrevistas, são engraçados, ou vítimas, ou celebridades, ou violentos. Nunca são pessoas comuns e, por isso, complexas. E cada infância é enquadrada de acordo com seu status social.

Mas há ainda um terceiro motivo para que crianças não sejam ouvidas: as possíveis consequências legais. Os advogados se preocupam tanto com a possibilidade de as empresas jornalísticas serem processadas que fazem parecer inviável entrevistar quem tem até 12 anos. No entanto, os direitos das crianças no Brasil estão ancorados no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) em três pilares: proteção, participação e representação. É claro que os jornalistas devem protegê-las, tendo cuidados específicos quando entrevistam crianças, mas também é evidente que elas fazem parte do mundo e querem participar e se verem representadas.

Esta edição da Sextante é uma tentativa de mostrar que crianças podem ser ouvidas de forma sensível e séria. Não consideramos fácil entrevistar crianças, mas consideramos necessário. E o mundo agradecerá.

Confira aqui a edição impressa da revista!

Thaís Furtado
thais.furtado@ufrgs.br

Gisele Reginato
gisele.reginato@ufrgs.br