Como familiares de pessoas desaparecidas durante a ditadura lidaram e lidam com a falta de um reencontro com seus entes queridos?
Instituído em 09 de abril de 1964 através de um golpe, com o apoio do grande empresariado brasileiro, por latifundiários, por empresas estrangeiras instaladas no país e pelo governo dos EUA, o período da Ditadura Militar foi um dos momentos mais sombrios da história brasileira. Conforme levantado pela Comissão Nacional da Verdade e divulgado em seu relatório final, 434 pessoas morreram ou desapareceram nesse período por conta da repressão provocada pelos militares. Nomes como Carlos Marighella e Vladimir Herzog são exemplos de vítimas cujas famílias tiveram que tentar lidar com a perda, mas estão longe de serem os únicos casos.
Em 2017, a Comissão de Cidadania e Direitos Humanos e a Subcomissão da Memória, Verdade e Justiça, no Rio Grande do Sul, publicou um relatório final após meses de levantamento de informações sobre os atos praticados pelos militares durante seu tempo no poder. O grupo ouviu vítimas e organizou o documento com uma ampla contextualização, com os relatos, e com uma relação de gaúchos e pessoas de outras naturalidades e nacionalidades, mortos ou desaparecidos no Rio Grande do Sul, em outros estados da federação ou no exterior.
A reportagem, então, vai falar sobre a falta do reencontro dos familiares de desaparecidos.
Fontes
Carla Simone Rodeghero – Professora de História no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UFRGS. Possui como principais focos de estudo a ditadura, anistia, historiografia, história oral e memória. Foi coordenadora do projeto Marcas da Memória: História Oral da Anistia no Brasil, que realizou entrevistas com pessoas que foram vítimas de perseguição depois de 1964, para a constituição do acervo do Memorial da Anistia.
Liniane Haag Brum – Sobrinha de Cilon da Cunha Brum, participante ativo de movimentos estudantis e visto pela última vez pela família em junho de 1971. Liniane lançou o livro Antes do Passado – o silêncio que vem do Araguaia em 2012, refazendo o percurso do padrinho, revirando arquivos e entrevistando pessoas que o conheceram.
Suzana Lisboa – Participou durante 10 anos da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Teve o marido, Luiz Eurico Lisboa, preso e morto durante a ditadura. Com o desaparecimento registrado oficialmente em 1972, Suzana conseguiu encontrar o corpo do marido em 1979, enterrado como indigente e com nome falso. Os restos mortais, presumidamente de Luiz Eurico, foram entregues à Suzana em 1982.
Carlos Guazzelli – Advogado e coordenador da Comissão Estadual da Verdade (CEV/RS).
Sônia Haas – Publicitária, irmã de João Carlos Haas Sobrinho, morto na ditadura e cujo corpo nunca foi devolvido para família.
Perguntas
Historiadora:
- Quais eram os principais motivos dados pelos militares para a prisão de um indivíduo?
- Que períodos ao longo dos 21 anos de ditadura militar foram mais marcados pelas atuações violentas?
- Com que frequência eram pegas pessoas sem nenhum ativismo ou ligação política?
- O que se tem de percepção e registros a respeito do que era feito com essas pessoas?
- A falta de julgamentos para os militares trouxe prejuízos em relação à memória do período?
Familiares:
- Quem era XXXXXX?
- Qual a última memória que você possui dele?
- Como foi o processo de entender que estava desaparecido?
- A partir dessa percepção, como você se mobilizou?
- Como é o sentimento de lidar com uma situação assim?
Fotos e conteúdo multimídia
Entre as fotos, além daquelas com os entrevistados, pretende-se realizar algo que remeta às questões debatidas na reportagem de uma forma não literal, buscando-se uma licença poética na abordagem. Para o site, é possível organizar uma playlist específica para a reportagem, que acompanhe a leitura, com obras realizadas no período da ditadura e que referenciam as ações dos militares e a resistência das vítimas.
Redes sociais
Uma publicação a ser feita para as redes é a recomendação de obras brasileiras que abordem o período, como o livro Feliz Ano Velho. Além disso, destacar o trecho de uma fala de algum dos entrevistados como forma de chamar para a reportagem é uma outra ideia de post.
Referências
1: https://memoriasdaditadura.org.br/
2: http://www.al.rs.gov.br/FileRepository/repdcp_m505/ccdh/Relat%C3%B3rio%20Subcomissao%20Verdade,%20Mem%C3%B3ria%20e%20Justi%C3%A7a.pdf
3: http://www.dhnet.org.br/dados/dossiers/dh/br/dossie64/br/dossmdp.pdf
Da pauta à reportagem
Ao escolher a pauta para a minha reportagem, eu tinha noção de que não seria o assunto mais fácil de ser abordado. Assim como havia previsto, o contato com as fontes que eu precisava teve seus obstáculos. Como estava tentando encontrar famílias de vítimas da ditadura que fossem do Rio Grande do Sul, o número de pessoas que se enquadrava no objetivo diminuiu. Ademais, conseguir meios de contato também era mais difícil.
As duas histórias que entraram no texto, uma a menos do que havia previsto, me fizeram perceber que aqueles relatos eram muito ricos para serem contados em um espaço mínimo. Assim, conforme ia colocando as palavras na reportagem, se tornava mais complicado resumir detalhes e situações que haviam sido compartilhadas comigo. Além disso, a terceira pessoa que eu pretendia entrevistar, e a única que seria pessoalmente, acabou marcando comigo e, quando cheguei na sua casa, não me atendeu por estar dormindo, mesmo sendo no horário que havia escolhido. Essa situação e a noção de que não teria espaço suficiente para aprofundar nenhum dos casos fez com que eu mantivesse apenas os relatos da Sônia e da Suzana, além do complemento da professora Deusa. Mesmo com as dificuldades, não me arrependo em nada em ter feito essa pauta, pois ela me permitiu ter contato com histórias que não conheceria de outra forma. Ouvir os relatos das fontes apenas me motivou mais a escrever e dar mais espaço à voz de cada uma.