Contexto:
O objetivo da reportagem foi tratar sobre os preconceitos enraizados no Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), como racismo, homofobia e machismo. A escolha dessa pauta surge da invisibilização de minorias dentro do movimento ou, quando representadas, da forma desigual com que são tratadas, alguns pesquisadores já apontam para essas desigualdades, como é o caso do historiador Jocelito Zalla e da cantora e pesquisadora Clarissa Ferreira.
Almeida e Grossi (2019) estabelecem que a figura do gaúcho, as tradições e o contexto tradicionalista não representam de fato a história do RS, porque o tradicionalismo como é conhecido hoje começou a ser construído somente na década de 1940. As autoras ainda abordam como muitas destas construções do tradicionalismo foram feitas a partir de idealizações e com certos preconceitos em evidência:
“[…] o grande problema é que esta figura idealizada e propagada pelo tradicionalismo, leva a não problematização da história do estado, de suas contradições, desigualdades, suas lutas internas e sua multiculturalidade. Assim, a identidade do povo do estado acaba sendo representada pela figura do gaúcho inventado, incorporado e aceito pelo senso comum como histórico” (Almeida; Grossi, 2019).
O doutor em história Jocelito Zalla fala em entrevista sobre a criação da “prenda”. De acordo com ele, a companheira do gaúcho na verdade era a “china”, que era associada à uma mulher que não se casava e tinha vários parceiros, por isso foi preciso mudar esta imagem para as dançarinas dos CTGs. O historiador explica que “‘Prenda’, por sua vez, era termo corrente no meio rural para qualquer objeto de valor material, como uma adaga ou uma guaiaca (cinto) de couro trabalhada.” e a escolha desse nome é, também, uma espécie de objetificação das mulheres. Outro aspecto são os vestidos das prendas, de aspecto conservador, que devem cobrir o máximo do corpo, e que foram escolhidos sem a participação de mulheres na tomada de decisão. Tanto Zalla quanto Almeida e Grossi falam dessa objetificação da mulher pela escolha do termo “prenda” e das escolhas das roupas.
Zalla ainda reflete, em outro momento da entrevista, que o machismo neste meio não permite que outras formas de expressar masculinidade tomem espaço e, dessa forma, os CTGs podem ser pouco acolhedores para a comunidade LGBT+.
Além da criação da imagem do gaúcho, da prenda e do próprio MTG, ainda há o apagamento de povos indígenas e africanos na cultura do estado, como se eles não estivessem presentes durante a formação histórica e cultural do Rio Grande do Sul.
Por isso, o foco da reportagem é ouvir pessoas que vivem ou viveram experiências de preconceito dentro do meio tradicionalista, destacando a presença de minorias no movimento, assim como os desafios que enfrentam e as razões pelas quais essas formas de preconceito ainda persistem em 2025. Para isso, a matéria irá levantar dados sobre o tema, ouvir fontes que pesquisem o MTG e apresentar casos que ilustram a realidade enfrentada por essas minorias.
Objetivo:
O objetivo da reportagem é abordar preconceitos no tradicionalismo gaúcho, como machismo, homofobia e racismo, ao mesmo tempo que tenta entender quais as raízes culturais que fazem com que estes preconceitos apareçam até hoje.
Fontes:
Jocelito Zalla – professor de história no colégio de aplicação da UFRGS e no PPG em história. Entre as áreas de interesse dele estão “folclorismos, tradições e cultura popular; regionalismo gaúcho e gauchismos”. Deu a entrevista “A necessidade da desconstrução do machismo no universo gaúcho. Entrevista especial com Jocelito Zalla” ao Instituto Humanitas.
Clarissa Ferreira (@clarissaferreiraaaa) – cantora e violinista, doutora em Etnomusicologia; aborda um viés mais feminista no meio tradicionalista. Autora do livro “Gauchismo Líquido” que tem entre os principais temas a representação da mulher na música e literatura gaúcha. Deu a entrevista “Cultura gaúcha para todos e todas?” que foi um dos pontos iniciais para pensar a abordagem da reportagem.
João Paulo Marin – dançarino de CTG, tiktoker, LGBTQIAPN+. Faz alguns vídeos para as redes sociais falando sobre “livre arbítrio”, em que utiliza do efeito de transição para mostrar ele vestido com trajes gaúchos e, em seguida, roupas de festa e maquiagem.
Josselini Tito – Frequentadora de CTG desde a infância, coordenadora cultural da região norte de Porto Alegre e sota-capataz (quem desempenha funções administrativas) do CTG Raízes do Sul.
Perguntas norteadoras:
- Quais os preconceitos enfrentados por minorias na cultura e movimento tradicionalista gaúcho e por quê?
- Quem ainda fica de fora dos espaços de cultura gaúcha e por que?
- Quais as “raízes históricas” que fazem com que estes preconceitos ainda apareçam atualmente?
- No RS temos a Parada Livre, casamento LGBT, movimentos feministas, entre tantas outras causas, por que o MTG não vem se atualizando conforme o restante da sociedade?
- Pelas pesquisas que fizemos, o MTG foi criado por volta da década de 40 e as mulheres não tiveram espaço neste processo. Pelas suas pesquisas, isso se confirma ou também havia mulheres na criação do movimento?
- Ocorreu algum tipo de objeção por parte das mulheres em relação ao uso do termo “Prenda” ou das vestimentas atribuídas às mulheres no MTG?
Ideias de fotos:
- De possíveis cases que frequentaram CTG e não vão mais por causa do preconceito, seria interessante se eles tivessem fotos de quando frequentavam. Ou se eles tiverem alguma roupa guardada, poderia ser algo mais posado com a roupa “estendida” e a pessoa, dando a entender que não é mais usado;
- Cases que ainda estão no meio do CTG pode ser tirado alguma foto em ensaio ou apresentação;
- Uma possibilidade mais simbólica seriam as roupas de CTG, ou algum centro de tradição.
Propostas multimídia:
- Infográfico com CTGs pelo RS;
- Vídeo da pessoa em algum ensaio/apresentação.
Produção para as redes:
- Alguma foto da fachada de um CTG.
- Post de uma “curiosidade”, dizendo que há CTGs fora do RS.
- Foto com itens gauchescos.
- Sugestão de filmes/séries/livros: O Tempo e o Vento; A casa das sete mulheres.
Materiais consultados:
- A origem do gaúcho e de onde vem esta cultura tão rica e tradicional
- Cultura gaúcha para todos e todas?
- Etnias do Gaúcho
- A necessidade da desconstrução do machismo no universo gaúcho. Entrevista especial com Jocelito Zalla
- Carta de Princípios MTG
- A representação da mulher no tradicionalismo gaúcho: estereótipo e subversão
- Meu eu do sul: as minorias no movimento tradicionalista gaúcho
- Confederação Brasileira de Tradição Gaúcha
Da pauta à reportagem
Quando a turma definiu o tema da edição 65 da revista sextante, logo nossa dupla sentou para alinhar qual pauta gostaríamos de desenvolver a partir da proposta dada. Definido o tema “preconceitos enraizados no tradicionalismo gaúcho”, faltava definir ainda quem seriam nossas fontes, pois não podíamos ter apenas dançarinos e frequentadores de Centros de Tradicionalismo Gaúcho (CTG).
Por ser um tema mais polêmico, tivemos uma certa dificuldade em encontrar pessoas dispostas a falar sobre preconceitos existentes em um lugar que, muitas delas, consideram sua segunda casa. Encontradas as fontes, foi preciso trabalhar em uma abordagem para que as pessoas fossem o menos evasivas possível durante as entrevistas.
Esse processo todo nos gerou um misto de sentimento, pois as histórias contadas pelas fontes demonstravam situações de preconceito, mas ao mesmo tempo observamos uma tentativa de “proteger” o CTG.
Em certo momento fomos a um CTG para fazer imagens e, ao mesmo tempo que ficamos admiradas com a dança e com a sensação de “pertencimento à cultura gaúcha”, a situação gerou certo desconforto: percebemos diversos tipos de preconceitos velados, sendo que poucos dias antes os entrevistados haviam nos dito que esse tipo de comportamento era quase nulo nesses espaços.
Além disso, passamos pela situação de ter que explicar para quem estava no CTG sobre o que era nossa reportagem. Neste momento sentimos o clima ficar mais pesado e uma certa desaprovação, mas conforme conversamos e fotografamos as pessoas, elas passaram a ser mais receptivas conosco – embora mal tocassem no assunto da matéria.
Por fim, alguns dos conteúdos que produzimos não foram os que pensamos durante a pauta. Acabamos tendo outras ideias de posts para as redes sociais e materiais multimídia, assim como parte do que pesquisamos para a pauta não entrou na reportagem. Entendemos que isso faz parte do processo: adequar os conteúdos conforme as histórias se desenrolam e as informações ficam mais nítidas.
A dupla de repórteres não frequenta de fato esse mundo tradicionalista, mas esse trabalho nos colocou para pensar o quanto estigmas e preconceitos estão enraizados em nosso cotidiano a ponto de nem percebermos mais. Será que nos acostumamos com certas atitudes ou apenas deixamos pra lá para evitar o estresse?