Pauta
Agricultura familiar: as raízes de quem trabalha com raízes
Conceito
Como os saberes e tradições da agricultura familiar são transmitidos entre gerações e como a nova geração do campo ressignifica esses ensinamentos diante das transformações tecnológicas e sociais.
Fundamentação
O que é agricultura familiar?
A agricultura familiar é quando a própria família cuida da terra, planta, colhe e faz a gestão do que é produzido. É dali que vem o sustento e a renda de muitas famílias do campo, que vivem do que cultivam com as próprias mãos.
Agricultura familiar no Brasil
De acordo com a Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag), as propriedades de agricultura familiar somam 3,9 milhões no país, representando 77% de todos os estabelecimentos agrícolas. Já em área ocupada, são 23% do total, o equivalente a 80,8 milhões de hectares.
Além de ser um motor econômico e social, a agricultura familiar é a principal fonte de geração de emprego no campo, representando 67% das ocupações rurais, segundo o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar. Aproximadamente 77% dos estabelecimentos agrícolas no Brasil são familiares, e esses agricultores contribuem para frear o êxodo rural ao manter as populações no campo.
Ao contrário das grandes monoculturas voltadas para exportação e altamente mecanizadas, a agricultura familiar é responsável por equilibrar a produção agrícola com a sustentabilidade ambiental, promovendo práticas diversificadas e sustentáveis. Com 23% do valor bruto da produção agropecuária do país, o setor tem grande relevância tanto para o mercado interno quanto para a exportação de produtos como soja, milho, açaí e castanha.
Agricultura familiar no Rio Grande do Sul
O último Censo Agropecuário, realizado no ano de 2017 e divulgado em 2019, mostra que, em todo o território nacional, são 5.073.324 de estabelecimentos agropecuários, sendo 365.094 (7,2%) no Rio Grande do Sul, o quarto estado brasileiro no ranking do IBGE. Os dados também indicam que 83,7% dos estabelecimentos agropecuários gaúchos têm entre 0 e 50 hectares. Com relação às pessoas ocupadas pelas atividades agropecuárias no Brasil, são mais de 15 milhões trabalham no campo, sendo 992 mil no RS.
No Rio Grande do sul, 80,5% dos estabelecimentos foram considerados como de agricultura familiar, detendo 25,3% de toda a área cultivada. O estudo também aponta que a faixa etária de pessoas que vivem no campo é alta, e que o número de jovens está diminuindo, representando um problema para a sucessão rural. Em 2022, 87,5% da população do Rio Grande do Sul vivia em áreas urbanas, de acordo com o Censo Demográfico do IBGE.
Objetivo
Entender como tradição, inovação e legado coexistem no dia a dia das famílias que vivem da agricultura. A proposta é contar histórias familiares, revisitando as transformações no modo de trabalho, os desafios enfrentados e a importância das tradições que mantêm viva a agricultura familiar ao longo das gerações.
A agricultura familiar vai além de um meio de sustento; ela representa uma herança cultural que carrega valores, conhecimentos e modos de vida passados de geração em geração. No entanto, esse legado não permanece intacto, se adaptando às novas condições do setor agrícola, influenciado por avanços tecnológicos, mudanças climáticas, políticas públicas e o próprio interesse (ou desinteresse) das novas gerações em dar continuidade ao trabalho no campo.
A reportagem busca entender como o conhecimento agrícola é transmitido ao longo das gerações e o que se perde ou se transforma nesse processo. Também abordaremos o desafio de equilibrar práticas ancestrais com novas tecnologias e como diferentes gerações percebem essas mudanças, além de abordar quais são as expectativas de quem mantém viva a agricultura familiar ao longo de gerações.
Perguntas norteadoras:
- A transmissão do conhecimento agrícola ao longo das gerações
- Como o aprendizado sobre cultivo e manejo da terra é passado dentro das famílias?
- O que se manteve e o que foi perdido ao longo do tempo?
- O desafio de adaptação às novas tecnologias
- Como as novas gerações lidam com o avanço das máquinas e a automação no campo?
- Há resistência ou aceitação de novas práticas por parte das gerações mais velhas?
- Ficar ou partir?
- Dois jovens com trajetórias diferentes: um que escolheu permanecer no campo e outro que decidiu seguir outro caminho. Quais são os desafios e as oportunidades que influenciam essa decisão?
Possíveis fontes
- Cases de famílias que trabalham com agricultura há gerações e frequentam a Banca das Raízes da Feira Ecológica do Bom Fim (@bancadasraizesfae), aos sábados de manhã, em Porto Alegre. A ideia é visitar a feira e, também, a plantação de alguma dessas famílias;
- Ezequiel Cardoso Martins, agricultor que faz os vídeos da Banca das Raízes no Instagram;
- Heverton Lacerda, presidente da Agapan;
- Tatiana Duarte, professora de Agronomia da UFRGS e coordenadora do projeto de extensão Horticultura Urbana.
Possíveis perguntas – agricultores
- Qual a história da sua família com a agricultura? Há quantas gerações vocês cultivam essa terra? Como tudo começou?
- Que tradições e técnicas você herdou dos seus pais ou avós?
- Como era a rotina agrícola décadas atrás, comparada com hoje?
- Quais são as maiores dificuldades hoje? Como as mudanças climáticas, políticas agrícolas e tecnologias impactaram o trabalho?
- Qual é a memória mais marcante que você tem do trabalho no campo em família?
- Como as novas tecnologias têm impactado a dinâmica familiar no campo?
- Quais produtos vocês cultivam na propriedade e por que escolheram esses cultivos?
- Como garantir que o legado da sua família não se perca nas próximas gerações?
- Qual mensagem você deixaria para os membros mais novos da sua família sobre a importância de honrar suas raízes?
- Como esse vínculo com a terra/agricultura impacta sua identidade?
- Você gosta da rotina que tem?
- Como é o dia a dia do seu trabalho?
- Qual a maior alegria e o maior desafio do dia a dia da plantação?
- O que de mais valioso você aprendeu com o campo?
- Por que você planta esse cultivo especificamente? Qual a relação desse cultivo com a sua família?
- Como funcionam os investimentos na lavoura?
- Você gosta que a família dê seguimento ao ramo ou gostaria que seguissem um outro caminho?
Possíveis perguntas – Tatiana Duarte
- Quais os principais desafios do trabalho no campo atualmente?
- Como as novas tecnologias afetam ou contribuem para a agricultura familiar?
- O que representa a agricultura familiar hoje para o cenário do estado e do país?
- O que afeta hoje os resultados dos agricultores no campo?
- Como você vê o interesse dos jovens estudantes de Agronomia pela agricultura familiar? Há um movimento de valorização ou distanciamento?
- Você já acompanhou casos de famílias que trouxeram seus saberes do campo para a cidade e seguem cultivando, mesmo em outro contexto? Seus alunos, por exemplo.
- Há algo que você acha que mais pesa na decisão de jovens ficarem ou não no campo?
Possíveis perguntas – Heverton Lacerda
- Quais os efeitos ambientais que a desvalorização da agricultura familiar traz?
- Qual o impacto da agricultura familiar no meio ambiente?
- Como você avalia o papel da agricultura familiar na preservação ambiental e na construção de um modelo mais sustentável de produção agrícola?
- Você acredita que a entrada de novas gerações no campo tem favorecido práticas mais sustentáveis ou mais “tecnificadas”?
- O quanto a tradição ainda é vista como aliada da sustentabilidade no campo? E o quanto as novas tecnologias podem ameaçar ou fortalecer isso?
- Qual a importância de manter vivos a cultura e os saberes tradicionais na agricultura familiar, mesmo diante de tantas mudanças tecnológicas e climáticas?
Sugestões de conteúdos multimídia para o site
- Vídeo-documentário curto, cerca de 3 minutos: entrevista com uma família de agricultores que trabalha no campo há gerações e pegar depoimentos do avô ou pai, por exemplo, mostrando imagens do plantio.
- Galeria de fotos interativa: retratos de diferentes gerações da mesma família no trabalho, com pequenos textos explicativos sobre mudanças que se deram ao longo do tempo.
- Infográfico do caminho da sucessão familiar no agro: dados sobre a agricultura familiar no Brasil/Rio Grande do sul, fatores que influenciam a decisão de permanecer ou sair do campo e comparação das mudanças tecnológicas no trabalho rural nas últimas décadas.
Sugestões de postagens para o Instagram
Antes do lançamento da revista
- Card/reels instigando com a pergunta: “Você continuaria a tradição da sua família no campo ou seguiria um novo caminho?”
- Enquete nos stories: “Você já se imaginou trabalhando com agricultura?” (Sim / Não / Depende) ou “Você tem familiares que trabalham com agricultura?” (Sim / Não)
- Vídeo da plantação da família visitada com foco na terra, na agricultura, nas raízes de fato, criando uma antecipação e curiosidade
- Receita com o alimento cultivado pela família entrevistada
Depois do lançamento da revista
- Reels dando destaque para uma história marcante da reportagem, com um depoimento e uma chamada para ler a reportagem completa no site.
Da pauta à reportagem
Não tem como pensar em raízes sem pensar em raiz de planta, de terra, de natureza. Quando o tema da edição 65 da Revista Sextante foi definido, decidimos explorar as raízes concretas, aquelas que sustentam a vida no campo e alimentam as cidades. Foi nesse momento que surgiu a ideia: como são as raízes de quem cultiva raízes todos os dias?
A agricultura familiar apareceu como caminho natural. Começamos a busca por uma história que revelasse os desafios e a beleza da permanência no campo. Chegamos à Feira dos Agricultores Ecologistas (FAE), no bairro Bom Fim, em Porto Alegre. Até então, nenhuma de nós conhecia a feira. A primeira visita foi uma descoberta encantadora: alimentos orgânicos, aromas, cores, famílias reunidas em torno do cultivo e da venda. Um verdadeiro patrimônio cultural da cidade, construído com as mãos e a história de quem escolheu ficar na terra.
Entre tantas bancas, nos aproximamos da família Martins, da Banca das Raízes, e fomos acolhidas por Mauro, com uma generosidade que nos marcou desde o início. Ele partilhou sua trajetória de mais de 30 anos na feira, relatando sobre as dificuldades e sobre a dignidade que a feira proporcionou, inclusive por ter seu filho, Ezequiel, trabalhando com ele. Quando entramos em contato com Ezequiel, observamos o vínculo entre gerações e as escolhas de quem decide permanecer na terra. A família Martins nos mostra que essa permanência não é estática; ela se reinventa, se adapta e se cultiva, dia após dia.
Para trazer uma leitura mais técnica, entrevistamos também Tatiana Duarte, professora da Faculdade de Agronomia da UFRGS. Ela contribuiu com uma perspectiva valiosa sobre sucessão rural, especialmente por trazer sua experiência com jovens agricultores. Seu olhar nos ajudou a entender os desafios estruturais enfrentados pelas famílias agricultoras.
A apuração foi fluida e tocante. A cada conversa, ficava mais claro que a reportagem não era apenas sobre cultivos, mas sobre escolhas, vínculos e continuidade. O maior desafio foi fazer justiça à profundidade dessa história: como traduzir em palavras o que é passado em silêncios, gestos e rotinas compartilhadas?
Ao final da produção, saímos com a sensação de que essa reportagem semeia mais do que informação. O que semeia a permanência nasceu da pauta, mas cresceu com escuta, sensibilidade e respeito. Esperamos que ela também possa florescer em quem lê, despertando um novo olhar sobre quem cultiva o alimento que chega até nós.