Sextante

Uma narrativa montada

Arte: Ana Ribeiro

Como funciona a ilusão de tempo criada pelo cinema?

A reportagem vai investigar as ilusões temporais que o cinema é capaz de produzir. O enfoque estará em três dimensões principais: filmes que se passam em outros tempos (passado ou futuro); a passagem de tempo ao longo da narrativa; e a montagem, principal elemento de construção do tempo narrativo, e responsável por criar a continuidade e a sensação de tempo linear mesmo em cenas filmadas em momentos diferentes. O objetivo é compreender os processos técnicos e criativos que sustentam essas ilusões e como elas afetam a experiência do espectador.

Filmes que se passam em outro tempo: Roteiro, maquiagem, cabelo, figurino, cenário, luz, som. Todos esses elementos participam juntos para teletransportar o espectador a um tempo diferente do tempo histórico de sua gravação. Esses elementos podem ser elaborados a partir de uma pesquisa histórica, como em “1917” (2019) e “Lincoln” (2012), da cabeça do criador, como em “De Volta Para o Futuro 2” (1989) ou “Blade Runner (1982), ou uma mistura dos dois, como em “Nosferatu” (2024) e “Maria Antonieta” (2006). Para que a ilusão seja bem sucedida, é preciso equilibrar a fidelidade histórica com escolhas narrativas que mantenham a narrativa envolvente, além de prestar atenção em pequenos erros que possam quebrar a imersão do espectador. 

O passar de tempo durante o filme: É comum que o cinema exprima uma longa passagem de tempo em um filme de uma hora e meia de duração. Para que o espectador se iluda com essa passagem, alguns recursos são utilizados, como maquiagem, figurino e coloração. Em “O Curioso Caso de Benjamin Button” (2008), o personagem de Brad Pitt passa de idoso a bebê, com muita maquiagem e uma pitada de efeitos gráficos. Já em “Boyhood” (2014) as filmagens foram feitas ao longo de 12 anos, para acompanhar o crescimento real dos personagens. “Interstellar” (2014) utiliza dos mais diversos recursos para demonstrar que o tempo está passando, seja pelo som de bipe ao fundo ou pela gravação de mensagens de personagens envelhecendo fora da narrativa dos personagens principais. Até mesmo um pequeno relógio no fundo das cenas pode demonstrar a passagem de tempo, como em “Synecdoche, New York” (2008). Às vezes óbvia, e às vezes um dos principais plot twists da narrativa, a passagem de tempo pode ser demonstrada de muitas maneiras através do audiovisual.

Montagem: A montagem é o que define como o espectador enxerga o tempo na narrativa. É possível considerá-la a maior ilusão do processo cinematográfico, pois está presente em praticamente todo filme – à exceção de filmes como “Ainda Orangotangos” (2007), que são gravados em plano sequência, onde a duração do filme representa seu tempo exato de gravação. A montagem controla o ritmo e a sequência de eventos, e é a ilusão menos perceptível pelo público. Ao assistir um filme de época, o espectador tem consciência de que aquelas imagens não foram gravadas naquele período histórico. Ao assistir um filme em que um ator envelhece drasticamente, o espectador tem consciência de que fora das telas ele não tem aquela idade. Nesses casos, o espectador se permite cair na ilusão, mesmo tendo consciência exata de sua existência. A montagem, por outro lado, é uma ilusão discreta. O espectador médio tem a noção de que aquele filme foi gravado num tempo maior que seu tempo final, e de que houve um processo de edição e montagem, mas ele não sabe dizer onde exatamente isso aconteceu. Uma troca de câmera pode representar duas falas gravadas com horas de diferença entre elas, e é papel da montagem iludir o público de que essa diferença nunca existiu. Essa ilusão discreta e tão essencial para a narrativa cinematográfica torna a montagem o principal foco desta reportagem. 

A ilusão da sequência de fatos narrativos provocada pela montagem não está apenas na junção de cenas, mas também no intervalo entre elas. Teóricos como Eisenstein e Vertov enxergam que a essência do cinema está na passagem, no que se passa entre os planos. É papel da montagem não apenas juntar cenas distintas e as tornar únicas, mas demonstrar que entre cenas o tempo passou, permitindo que a narrativa siga. O montador só é capaz de elaborar esse jogo de cenas e tempos se as cenas forem gravadas levando em conta essa futura montagem. O continuísta é figura essencial dentro do set para garantir que nenhum erro impeça a montagem de provocar sua ilusão. 

Fontes e sugestões de perguntas:

Giba Assis Brasil – Montador

Sobre ele: Diretor, roteirista e montador, foi um dos fundadores da produtora Casa de Cinema de Porto Alegre, em 1987. É formado em Jornalismo pela UFRGS. É dele a montagem de praticamente todos os filmes de Jorge Furtado. 

  • Qual o papel da montagem em um filme? O que faz um montador?
  • Pesquisando sobre montagem, percebemos duas principais funções: de conectar cenas, dar sequência para algo que não necessariamente estava em sequência, mas também trabalhar o entre, as passagens da narrativa. Quais são as diferenças de abordagem nesses processos? 
  • Em Deu Pra Ti Anos 70, por exemplo, a história se passa em um período mais estendido de tempo, e tem momentos de não linearidade. Como que demonstra ao espectador que o tempo está passando, que ele é diferente? 
  • Quais os truques para o espectador comprar que aquele material, filmado ao longo de dias ou até meses, representa uma cena e uma história contínua?
  • Você acha que a montagem não ser perceptível ao espectador torna o filme melhor? O que é uma boa montagem? 
  • De que maneiras você roteirista, você diretor, e você montador, enxerga o tempo? 
  • Em que momento surge a necessidade de se montar um filme? 
  • Que figuras foram mais importantes para a montagem, e quais você tem 
  • De onde surge a vontade de montar filmes?
Bernardo Zanotta – Diretor 

Sobre ele: Diretor formado pela Gerrit Rietveld Academie, na Holanda. Seus curtas exploram o diálogo entre o familiar e o fantástico e já foram exibidos em festivais como Locarno, Rotterdam, FID Marseille, BAFICI e Berlin Critics’ Week. Em 2018, venceu o Pardino d’Argento em Locarno com Heart of Hunger. Atualmente, trabalha em seu primeiro longa-metragem.

  • O filme sobre a vida de seu pai tem trechos de reconstrução do passado. Você fez também Wild Fruits que se passa no século 16. Como é trabalhar com esses elementos de reconstrução de um passado real, e criação de um passado fantástico? 
  • Que elementos o diretor precisa prestar atenção, tanto num sentido estético quanto na construção de narrativa, para garantir que o espectador compre a ilusão do filme? 
  • Como é a pesquisa para fazer um filme como Wild Fruits, por exemplo? – vamos cortar essa ok finalizo? 
  • Quais as diferenças entre dirigir um curta e um longa-metragem? Como a duração final do filme impacta a forma que a história será contada, e como percebemos o tempo dessa história? 
  • Como se faz para o espectador compreender a passagem do tempo, especialmente dentro de um cinema mais fantástico? 
  • Em uma entrevista para o JC, falando sobre o curta Tragédia e a perda do seu pai, você fala: “Talvez, ao matá-lo na ficção, eu pudesse encontrar uma maneira de mantê-lo vivo”. Como, através do cinema, a gente pode alterar nossa percepção temporal da realidade? 
  • Você tem referências dentro e fora do cinema (literatura, artes visuais, música) que influenciam sua relação com o tempo nas obras? 
Joana Bernardes – Continuísta e montadora

Sobre ela: Continuísta e montadora gaúcha, vencedora do Kikito de Melhor Montagem pelo filme Uma em Mil.

  • Qual a função e a importância de um continuísta num set?
  • Como um erro de continuidade pode afetar o resultado final de um filme? 
  • O tempo de produção e o tempo final do filme são muito diferentes. Pode nos explicar qual é essa diferença?
  • Qual a parte mais difícil de se trabalhar com continuidade? 
Thaís Costa – Continuísta

Sobre ela: Continuísta com experiência em grandes produções audiovisuais, incluindo trabalhos para a HBO e a Rede Globo.

  • Como um erro de continuidade pode afetar o resultado final de um filme? É apenas uma questão estética?
  • Como você lida com essa diferença entre o tempo real da filmagem e o tempo da narrativa?
  • Como você observa a cena para garantir a continuidade?
  • Qual é a parte mais difícil de trabalhar como continuísta?
  • Como é o trabalho com os atores?
Daniel Lion – Figurinista

Sobre ele: Premiado figurinista teatral de Porto Alegre, atuando também como ator e produtor.

  • Para criar um figurino que transporte o público para um tempo específico (passado ou futuro), por onde começa o teu processo?
  • A pesquisa se limita a arquivos históricos e pinturas, ou tu buscas inspiração em outras artes, como literatura e cinema?
  • Quando não existem registros visuais claros de uma época (ou quando se trata de um futuro imaginado), em que materiais ou conceitos tu te baseias para criar essa ‘ilusão de tempo’ para o espectador?
  • Quais os maiores desafios da produção de figurinos de época?

Multimídia

Fotos
  1. Set de filmagens (se possível acompanhar o diretor Bernardo Zanotta em gravação).
  2. Figurinos de época produzidos por Daniel Lion.
  3. Detalhes de bastidores – câmeras, claquete, making of (na Casa de Cinema) 
Site
  1. Galeria de fotos: “Por trás das câmeras” – Se conseguirmos acompanhar o Bernardo durante um dia de gravação; 
  2. Entrevista com Giba Assis Brasil – Com certeza não conseguiremos colocar todas as informações da entrevista na reportagem, então vamos tentar fazer uma filmagem (e se não for possível, gravamos apenas o áudio) para postá-la na íntegra junto da reportagem;
  3. Vídeo fala povo: quando você pensa em tempo, que filme te vem à cabeça?
Redes sociais
  1. Recomendação de filmes: um carrossel com filmes de época, filmes com longas passagens de tempo, e um filme do Giba;
  2. Vídeo sobre “erros de continuidade” famosos no cinema ou sobre descaracterização temporal (ex: copo do Starbucks em Game of Thrones);
  3. Reels explicando o que é montagem

DA PAUTA À REPORTAGEM

Desde antes da decisão do tema, já tínhamos interesse em produzir algo no campo da cultura. A ideia de relacionar o cinema com o tempo surgiu de uma conversa com nosso chefe da bolsa, Fernando, que sugeriu que abordássemos a reconstrução visual de diferentes tempos no cinema, e nos passou o contato do figurinista Daniel Lion, que trabalha com figurinos de época, para iniciar nossa pauta.

Começamos, a partir daí, a refletir como o cinema é, talvez, a única ferramenta capaz de subverter a lógica implacável do relógio. Na vida real, o tempo só anda para a frente, mas na tela, podemos saltar décadas em um corte, revisitar o passado ou suspender um instante. Percebemos ali que a relação entre cinema e tempo ia muito além da estética ou do figurino; ela estava na própria essência da linguagem cinematográfica, na capacidade mágica de manipular a nossa percepção e criar uma nova realidade temporal. Discutimos, então, as diversas maneiras que poderíamos expressar essa conexão. Apresentamos a proposta para o conselho editorial, que sugeriu outros nomes essenciais, como o de Giba Assis Brasil e Bernardo Zanotta. 

Durante o contato com as fontes, tivemos um imprevisto que mudou consideravelmente a estrutura de nossa reportagem. Daniel, com a correira de sua rotina de figurinista, não conseguiu encaixar nossa entrevista no seu calendário, e também não nos recomendou outra fonte que poderia falar sobre figurinos históricos. O que inicialmente se apresentou com problema, acabou sendo essencial para repensarmos a forma como estávamos tratando a temporalidade do cinema, e em que pontos deveríamos de fato focar na reportagem.

Decidimos, então, entrar em contato com duas continuístas — Thaís Costa e Joana Bernardes  — para, junto de Giba e Bernardo, nos contar as diferentes formas que o tempo perpassa a narrativa cinematográfica, em sua montagem, produção, e até mesmo em sua materialidade. O foco, que era antes dividido entre técnica e estética, passou a tratar apenas de técnica. Essa mudança de perspectiva nos fez perceber e descobrir camadas do cinema que, até então, nos eram invisíveis. Aprendemos, na prática, a função vital de cada peça dessa engrenagem: a continuísta que protege a coerência no caos do set, o diretor que usa a câmera para desafiar a finitude e o montador que costura tudo isso na ilha de edição. Foi um belo processo onde redescobrimos coisas que achávamos que já conhecíamos e passamos a apreciar a arte do cinema pelos olhos de quem o faz.