Qual o papel do tempo na vida dos trabalhadores informais?
Ao pensar no tema “tempo” e no que poderia ser esse “tempo” na nossa reportagem, lembramos daquele velho ditado: tempo é dinheiro. Essa expressão é bastante utilizada como uma forma de dizer que, ao utilizar o tempo, ou seja, nossas 24 horas diárias, para fazer qualquer atividade que não envolva a geração de capital, estamos sendo ineficientes e desperdiçando este bem tão valioso, de acordo com a lógica capitalista. Mas para uma categoria de trabalhadores pode-se dizer que, com certeza, “tempo é dinheiro”! São esses os trabalhadores informais.
Contextualização:
Cerca de 32,5 milhões de trabalhadores brasileiros atuam como autônomos de modo informal (ou seja, sem CNPJ) ou são empregados sem carteira assinada no setor privado, segundo dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), através da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua. Isso representa 31,7% dos 102,5 milhões de empregados no país. Além disso, dados de 2018 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostram que o trabalho informal representa 42% dos empregos femininos no mundo. As mulheres são maioria no mercado de trabalho informal e geralmente também são pobres, negras e periféricas. Segundo dados do IBGE, em 2022, 49,1% dos lares brasileiros tinham como responsáveis mulheres. Essa informalidade se caracteriza pela falta de carteira assinada e direitos trabalhistas, como Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), seguro-desemprego, décimo terceiro, férias e aposentadoria. O trabalho informal pode incluir autônomos sem CNPJ, trabalhadores por conta própria e a “plataformização” de mão de obra por aplicativos, como motoboys e entregadores, que sofrem com a precarização e a falta de vínculo trabalhista. Essa condição redefine a relação desses trabalhadores com o tempo, seja pela necessidade de longas ou duplas/triplas jornadas para garantir renda mínima, pela ausência de rotina fixa ou pela incerteza em relação ao futuro, afetando a saúde, a vida familiar e as possibilidades de planejamento. E é exatamente isso que vamos abordar na nossa reportagem, como essa condição de incerteza afeta diretamente a vida e a relação destes trabalhadores com o tempo.
Fontes:
Ainda não temos cases concretos, mas iremos até uma feira para falar com feirantes, pois eles são trabalhadores informais. Também vamos entrevistar uma diarista e um motorista por aplicativo. A princípio serão estes três trabalhadores informais para serem os cases da reportagem.
Perguntas para os cases:
- Quantas horas por dia você costuma trabalhar? E quantos dias por semana?
- No teu trabalho tu costuma ficar ocupado todos os dias ou é necessário ter uma demanda específica?
- Como você avalia o futuro nesse momento?
- Se trabalha por aplicativo, por que escolheu esta função?
- O seu trabalho é sua única fonte de renda?
- É uma escolha temporária ou você pretende seguir neste trabalho?
- Você sente que existe alguma barreira para conseguir emprego em outras áreas hoje?
- Você possui tempo livre?
- Na sua perspectiva, de que forma o tempo tem relação com o seu trabalho?
- Você acredita que, quando não está trabalhando, está perdendo tempo?
- Um profissional da psicologia, para falar sobre as particularidades e desafios psicossociais que afetam esses trabalhadores
Perguntas para o profissional:
- Você atende muitas pessoas que sentem que estão perdendo seus tempos por causa do trabalho?
- Quais os possíveis efeitos psicológicos que a instabilidade do trabalho informal pode provocar em uma pessoa?
- A falta de estabilidade trabalhista afeta a forma como o indivíduo administra suas relações?
Sugestões de fotos da reportagem:
- Case trabalhador informal com a sua ferramenta de trabalho
- Motoboys e motoristas de aplicativos cases da reportagem
- Interior do carro com o aplicativo aberto, tempo de espera, manifestação ou encontro de coletivos de motoristas/entregadores em Porto Alegre
- Entregador descansando em uma calçada ou praça, celular na mão, aguardando chamada.
- Carrinheiros coletando material reciclável
- Feirantes trabalhando nas feiras ecológicas da capital
Sugestões de ilustrações da reportagem:
- Uma fileira de trabalhadores informais, com o relógio rodando atrás, e eles correndo atrás da carteira de trabalho
- Ferramentas de trabalho ao longo dos anos, a tecnologia e o tempo
Propostas multimídia:
- Entrevista em áudio, como um podcast, com a socióloga Thays Wolfarth Mossi, abordando o tema do trabalho informal no Brasil.
- Infográfico explicando o que é trabalho informal, quais as características, o que define um trabalhador informal, exemplos de tipos de trabalho informal
- Gráfico de dados mostrando o aumento do número de trabalhadores informais nos últimos anos no RS
Conteúdo para as redes sociais da Sextante:
- Card explicando as diferentes categorias de trabalho;
- Reels com mini entrevistas: trabalhadores informais respondendo a pergunta “O que o tempo significa para você?” e “Para você, tempo é dinheiro? Por quê?”
Da pauta à reportagem
A construção da pauta começou com uma pergunta e um ditado simples, mas que pudesse tratar de uma questão atual: qual é o papel do tempo na vida dos trabalhadores informais?
Quando pensamos no tema “tempo”, lembramos daquele ditado muito repetido, “tempo é dinheiro”. Ele costuma ser usado para dizer que, se não estamos usando nossas horas para produzir ou ganhar algo, estamos desperdiçando um recurso valioso dentro da lógica capitalista. E, para quem vive da informalidade, essa frase não é exagero. Ela descreve o dia a dia dessas pessoas de forma quase literal. Com isso, buscamos entender esse cenário de forma mais ampla. Os dados mais recentes do IBGE mostram que cerca de 32,5 milhões de brasileiros trabalham de maneira informal, seja como autônomos sem CNPJ ou como empregados sem carteira assinada. Queríamos saber como isso se traduz na rotina e no tempo de cada trabalhador.
No começo, tivemos certa dificuldade para encontrar quem topasse falar. A ideia inicial foi ir até uma feira, já que ela concentra muitos trabalhadores informais. A intenção era conversar com feirantes e entender como lidam com tempo, renda e rotina. Também decidimos procurar alguém que trabalhasse como ambulante. Pegamos o Trensurb e encontramos um vendedor que aceitou participar. Assim chegamos ao Douglas Mello, que se tornou um dos nossos cases. A diarista Patrícia Pereira entrou na pauta por outro caminho. Conhecemos sua história depois de notícias de que ela havia sofrido um ataque de pitbulls, fazendo com que ela não pudesse trabalhar e, por consequência, sem renda. A situação dela expõe de forma clara como, para quem vive da informalidade, perder um dia, uma semana ou um mês de trabalho não é apenas um contratempo, mas um impacto direto no sustento. O motorista de aplicativo Thomaz foi uma escolha natural desde o início. Ele representa uma das formas mais conhecidas de informalidade hoje. Sua rotina de longas horas ao volante, com rendimentos variáveis e a pressão constante de aproveitar cada minuto, se encaixa exatamente na discussão sobre tempo.
Para conseguir tratar de forma profunda, pensamos na psicologia para falar dos impactos emocionais e sociais da informalidade. Mas enfrentamos dificuldades para achar uma especialista que pudesse participar dentro do nosso prazo. Com isso, o caminho mudou um pouco. Decidimos ouvir uma historiadora para entender como o trabalho no Brasil foi se formando ao longo do tempo, por que a informalidade cresceu tanto e como a relação entre tempo e trabalho se transformou historicamente. Com pesquisa, mudanças de planos e encontros, a pauta foi tomando forma.