Da pauta à reportagem
A ideia desta reportagem nasceu a partir de uma edição do programa Conversas Cruzadas, do grupo RBS. Neste episódio, discutiu-se um recém aprovado projeto da vereadora Natasha Ferreira (PT), que garante cotas para pessoas trans em concursos públicos de Porto Alegre. Em meio ao debate, a vereadora Mariana Lescano (PP) citou o dado produzido pela Antra sobre a expectativa de vida de pessoas trans (35 anos), e o fez para sustentar uma posição contrária às pautas de diversidade, argumentando que aquele número não seria confiável.
Depois disso, vimos mais argumentos seguindo a mesma linha, botando em cheque a validade desses dados, em comentários de leitores e em editoriais de jornais. A princípio, nossa intenção era justamente investigar por que o dado não era considerado confiável e entender o que seria necessário para produzir estatísticas que fossem. Imaginávamos que a reportagem se concentraria em questões metodológicas, técnicas, e de dados. Mas, conforme começamos a apurar, percebemos que a pergunta mais relevante não era “o dado está certo ou errado?”, e sim “por que o Brasil não produz dados oficiais sobre pessoas trans? Como se constrói uma discussão quando os números que sustentam esses debates vêm exclusivamente de organizações independentes?”
O processo da reportagem foi muito legal. Glória, Chris e Nina nos receberam com generosidade e dividiram suas vivências e perspectivas como pessoas trans. Entendemos com mais profundidade os desafios que essa população enfrenta, percebemos também a urgência da inclusão da pergunta sobre identidade de gênero no censo do IBGE, que explicite as dificuldades enfrentadas e ajude na criação de políticas públicas para essa comunidade.
Construindo a pauta
Pergunta a ser respondida: A expectativa de vida das pessoas trans no Brasil realmente é de 35 anos?0
Enfoque: Apontar como o dado de 35 anos de expectativa de vida de pessoas trans no Brasil é insuficiente e, a partir disso, discutir a ausência de dados oficiais.
Pessoas trans são aquelas cuja identidade de gênero não corresponde ao sexo que lhes foi atribuído no nascimento. Isso inclui mulheres trans, homens trans e pessoas não-binárias. No Brasil, essa população ainda é invisibilizada nas estatísticas oficiais: não está incluída, por exemplo, nas análises anuais do Censo do IBGE – apesar de recentemente o instituto ter incluído perguntas sobre orientação sexual e identidade de gênero em outras pesquisas, como a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (PNDS) – Como consequência, organizações da sociedade civil acabam produzindo sozinhas dados que ganham repercussão em campanhas de conscientização, matérias jornalísticas e debates políticos.
Entre essas informações, há a de que a expectativa de vida dessa população é de apenas 35 anos. É muito fácil encontrar na internet conteúdos que o citam. A origem do dado não é clara. Apesar disso, a partir no Dossiê de assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2024 da ANTRA, eles deixam claro que o dado não é de expectativa de vida, mas a média de idade anual de pessoas trans assassinadas naquele ano.
Nossa reportagem pretende mostrar que a sociedade não pode se pautar apenas nesses dados produzidos por ONGs, pois eles não seguem o mesmo rigor científico de pesquisas oficiais, como as do IBGE. É fundamental que instituições públicas produzam informações sobre a população trans de forma científica, garantindo dados confiáveis que possam embasar políticas públicas efetivas. Vamos entrevistar especialistas em estatística para entender qual a metodologia para calcular expectativa de vida e entender se a metodologia da pesquisa da ANTRA tem qualidade. Também vamos buscar dados alternativos e reforçar a importância de inserir no censo do IBGE perguntas relacionadas à população trans.
Como exemplo positivo, vamos citar a prefeitura de Cachoeirinha, município da região metropolitana de Porto Alegre, que recentemente divulgou que fará seu primeiro Censo LGBTQIAPN+, com o objetivo de mapear informações sobre saúde, educação, segurança e trabalho dessa população. Ou então a prefeitura de Canoas, que produziu o primeiro Censo LGBT em 2023, para compreendermos os frutos que ele pode ter rendido. Também gostaríamos de conversar com uma pessoa trans para entender como essa invisibilidade estatística se reflete no acesso à saúde, ao trabalho, à educação e à segurança, e de que forma a produção de informações mais precisas poderia contribuir para a garantia de direitos e para políticas públicas mais eficazes.
Fontes consultadas:
- Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) (contato@antrabrasil.org)
- Vereador Gustavo Almansa, autor do projeto do censo LGBT de Cachoeirinha (vereadorgustavoalmansa@gmail.com)
- Pai Santiago, coordenador do censo de canoas (Coordenadoria das Diversidades, Povos e Comunidades Tradicionais) (cdctcanoas@gmail.com.)
- Mário Lahorgue, que ministra a disciplina de “Estudos de População em Geografia Humana” na UFRGS. questões censitárias, etc.
- Glória Crystal, mulher trans de 65 anos que trabalha como diretora adjunta do Departamento de Diversidade Sexual e Gênero da Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos do Rio Grande do Sul. Foi uma performer da cena drag de Porto Alegre, mas agora só se apresenta em ocasiões especiais.
- Chris Allves, mulher trans de 35 anos. Diretora administrativa do Hospital Psiquiátrico São Pedro. ´Também é uma figura política, já concorreu a deputada federal. É conselheira municipal de povos de matriz africana em Guaíba, onde também mora.
- Nina Acacio, travesti formada em arqueologia pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG), especialista em Arquitetura e Patrimônio e Mestra em Antropologia Social na Universidade Federal de Santa Catarina (PPGAS/UFSC). Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGAS/UFRGS).
Outras fontes pertinentes que acabamos não consultando:
- Joseli Maria Silva, trabalha especificamente com pessoas trans. Ela tem todo um trabalho de mapeamento e territorialidades de travestis, é uma referência na Geografia brasileira sobre a temática.
- Sonia Zanotto, Assessora do IBGE.
Perguntas:
- Mário Lahorgue
- O que é expectativa de vida?
- Como se calcula a expectativa de vida?
- Os dados da Antra não são exatamente sobre a expectativa de vida de pessoas trans, não é? Pelo que entendemos, são a idade média de vítimas. É isso mesmo?
- Que outros dados podemos usar pra indicar a precariedade dessa população?
- Quais fatores de risco costumam diminuir a vida de pessoas trans?
- A metodologia de pesquisa da Antra de usar informações da imprensa é comum? Gera resultados confiáveis?
- Qual a importância de que órgãos estatais como o IBGE, com recursos e pesquisas mais abrangentes, incluam a identidade de gênero em seus censos, pesquisas?
- Como a obtenção dos dados do IBGE influencia na criação de políticas públicas?
- ANTRA
- Qual a importância de produzir dados sobre pessoas trans no Brasil de forma independente?
- Nina Acacio
- Hoje não temos levantamentos do Estado brasileiro sobre expectativa de vida de pessoas trans. O que significa essa ausência?
- Qual a importância da produção independente de dados feita por organizações como a ANTRA?
- Quais políticas públicas poderiam, de fato, contribuir para aumentar a expectativa de vida das pessoas trans?
- A gente achou interessante que no teu Lattes a primeira coisa escrita é “Travesti. Amapaense.” é só depois teus diversos diplomas e estudos. Por que tu escreve nessa ordem?5. E Quando a gente pensa expectativa de vida não é algo que fala só sobre saúde e violência né, mas também sobre como as pessoas enxergam o próprio tempo, sobre os planos que fazemos ou deixamos de fazer. De forma pessoal, como esse dado da expectativa de vida impacta seus planos de futuro, sonhos e até decisões cotidianas?
- Glória Crystal
- Para começar, quem é a Glória Crystal? Quero que tu se apresente e me fale de ti, das tuas conquistas, do teu trabalho como chefe da Divisão de Diversidade. Quem é a Glória?
- Qual tua idade?
- Glória, segundo a ANTRA, a expectativa de vida média de pessoas trans no Brasil é de 35 anos. Essa é uma idade que você já teve, já ultrapassou. O que significa e significou pra ti atingir essa idade?
- Como tu imaginava a tua vida quando era criança, adolescente?
- Que tipo de futuro tu quer ver pras próximas gerações de pessoas trans?
- Você sente que o tempo de uma pessoa trans é diferente do tempo das pessoas cis?
- Pessoas trans enfrentam várias dificuldades que por vezes encurtam seu tempo de vida. Exclusão familiar, dificuldades na escola, dificuldade pra adentrar o mercado de trabalho e insegurança física. Tu já teve que lidar com algum desses problemas?
- Já sofreu violência física?
- De forma pessoal, esse dado da expectativa de vida impacta seus planos de futuro, sonhos e até decisões cotidianas?
- Como secretária, qual impacto tu enxerga que a produção de dados oficiais sobre pessoas trans, no IBGE por exemplo, teria?
- Chris Allves
- Para começar, quem é a Chris? Quero que tu se apresente e me fale das tuas várias conquistas, como o miss popular, a aprovação na graduação de veterinária, a direção do são Pedro, a presidência do MDB. Quem é a Chris?
- Chris, você tem 35 anos, certo? A idade que, segundo a ANTRA, marca a expectativa de vida média de pessoas trans no Brasil. O que significa pra ti atingir essa idade?
- Como tu imaginava a tua vida quando era criança, adolescente?
- Que tipo de futuro tu quer ver pras próximas gerações de pessoas trans?
- Você sente que o tempo de uma pessoa trans é diferente do tempo das pessoas cis?
- Pessoas trans enfrentam várias dificuldades que por vezes encurtam seu tempo de vida. Exclusão familiar, dificuldades na escola, dificuldade pra adentrar o mercado de trabalho e insegurança física. Tu já teve que lidar com algum desses problemas?
- De forma pessoal, esse dado da expectativa de vida impacta seus planos de futuro, sonhos e até decisões cotidianas?
- Gustavo Almansa e Pai Santiago
- Qual a importância de ter dados sobre a expectativa de vida LGBT da cidade?
- Que dados vão ser produzidos/foram produzidos?
- Como eles podem ser usados para elaborar políticas públicas?
- Como o Censo surgiu? Partiu da demanda de algum grupo ou organização?
- (Pai Santiago) Tu comentou por mensagem que infelizmente o censo parou de ser movimentado, especialmente depois que tu saiu do cargo. Por que e como isso aconteceu?
Ideias de fotos:
- Comissão/coordenação dos grupos que propuseram os censos locais (Canoas e Cachoeirinha. Na prefeitura/câmara das respectivas cidades.
- Close do formulário do censo aberto no celular
- Glória no CAFF, onde ela trabalha. Dentro, no escritório e, se possível, do lado de fora, com o prédio no fundo
- Foto da chris assoprando a vela do bolo, simbolizando o aniversário de 30 anos
- Uma das duas fontes personagens em um local onde sofreram violência e sobreviveram. Ver se elas se sentem à vontade para falar sobre isso e se topam ir até esse lugar para fazer a foto. Tratar a proposta com cautela e respeito
Propostas multimídia:
- Galeria de fotos
- Gráfico
- Áudio da reportagem
Materiais consultados:
O material mais importante na nossa pesquisa foi o dossiê: assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2024 (https://antrabrasil.org/wp-content/uploads/2025/01/dossie-antra-2025.pdf)
estudo sobre saúde mental de homens trans: https://www.nuhufmg.com.br/homens-trans-relatorio2.pdf
Censo LGBT Canoas https://www.canoas.rs.gov.br/noticias/canoas-realiza-1o-censo-lgbtqiapn/