Sextante

Marcas sonoras

Arte: Ana Ribeiro

Na prática musical, o tempo percorrido durante a execução de uma obra passa por ritmos acelerados, lentos e alternantes, bem como tem “pausas” preenchidas pelo silêncio, fundamental na estruturação das relações do som ao longo de um período. 

O tempo também atravessa as experiências pessoais dos artistas. É através dele que um músico molda sua arte, amadurece, estuda, vivencia frustrações ou alegrias e ganha inspirações. Nesse sentido, momentos históricos causam impacto nas obras criadas. Durante a ditadura vivida no Brasil, por exemplo, compositores de Porto Alegre, como Nelson Coelho de Castro, compuseram canções que são marcadores de memória daquela época. Será interessante para a reportagem contar histórias de músicos e de suas obras através do tempo, da relação desse artista com a dinâmica musical nos tempos atuais, tanto de criação como de lançamento e pós-lançamento. 

Atualmente e por meio das redes sociais, a música passa por enquadramentos temporais acelerados que são flagrantes. Talvez, desde “sempre”, sofra cada vez mais esse impacto. Entrevistar um músico jovem da capital e entender suas vivências, desafios e objetivos/interesses será de grande importância para a construção do material, não como um contraponto à experiência do artista mais antigo, mas de modo que ambas conversem na reportagem.

Com esse trabalho, pretendemos entender as seguintes questões, entre outras: qual a percepção dos artistas mais antigos a respeito de sua obra ao longo do tempo? Como era e quais marcadores históricos apresenta sua arte, feita há anos atrás? Como essa arte se transformou e quais características têm suas obras atuais? Como os artistas jovens experienciam o processo criativo e de entrega do produto, especialmente, sob um paradigma de aceleração mercadológica?

Fontes que nos interessa entrevistar:

  • Nelson Coelho de Castro – músico e compositor de Porto Alegre, compôs canções no período da ditadura militar, como a música “Zé – Aquele Tempo do Julinho”.
  • DJ MEC7 – DJ e estudante de dança na UFRGS, Bruno Corrêa é um jovem residente em iniciativas como o “Afrojams” e a “Batuk Baile”, focando no funk em vertentes como a black music e o pop.
  • Gilberto Oliveira – professor de música, músico, compositor e instrumentista.

Perguntas que podemos fazer aos entrevistados:

  • O que torna uma música atemporal? (Todos)
  • Como o tempo histórico determina a sua produção? (Ambos) 
  • Como era a cena musical de Porto Alegre nos anos 1970 e como é hoje? (N.C)
  • No que a passagem de tempo ajudou e no que prejudicou os músicos de Porto Alegre? (N.C)
  • Como é seu processo de criação? (Ambos)
  • Como foi fazer “aquela música específica”? (N.C.)
  • Qual sua percepção sobre o amadurecimento dessa obra específica? (N.C.)
  • Como é fazer arte e música nos dias atuais, e com quais objetivos você faz? (Todos)
  • Qual sua percepção sobre as demandas do mercado e o processo criativo artístico atualmente? (Todos)
  • Como você interage pessoalmente com as redes sociais? (Todos)
  • Esse espaço é, também, um ambiente de trabalho para sua arte? (Todos)
  • Como é a dinâmica dos eventos que você toca? (MEC7)
  • Como você trabalha as velocidades em relação à música, ao evento e ao público? (MEC7)
  • Quanto tempo por dia você ouve música? (Todos)
  • Desde quando dá aulas? (G.O.)
  • Percebe diferenças no modo de ser aluno/ser professor ao longo desse tempo? (G.O.)

Para esse trabalho, pretendemos utilizar imagens dos artistas em performance, imagens antigas desse contexto ou semelhantes. Imagens do público e de cenários onde a arte acontece também serão agregadoras. 

No que diz respeito às mídias para a versão online, vídeos de performance musical ou clipes, além de áudios, encaixam bem com a proposta. Outra ideia boa seria utilizarmos figurinhas que remetem à ideia de elementos musicais de tempos diferentes, como discos de vinil e fones de ouvido, sendo objetos interativos que contenham algum áudio ou foto.

Como material para as redes, seria interessante um reels no Instagram que falasse sobre curiosidades, como a música do Nelson Coelho de Castro que retrata um período da ditadura, ou que chamasse atenção para os aspectos disruptivos das festas Afrojams e Batuk Baile.

Da pauta à reportagem

Quando elaboramos a pauta da reportagem Marcas Sonoras, planejamos investigar perspectivas musicais de diferentes gerações de artistas, a fim de entender como estes indivíduos e seus trabalhos eram afetados pelo tempo. Levantamos as seguintes questões: qual a percepção dos artistas mais antigos a respeito de sua obra ao longo do tempo? Como era e quais marcadores históricos apresenta sua arte, feita há anos atrás? Como essa arte se transformou e quais características têm suas obras atuais? Como os artistas jovens experienciam o processo criativo e de entrega do produto, especialmente, sob um paradigma de aceleração mercadológica?

Depois de realizarmos as entrevistas, percebemos que a tecnologia era um ponto de destaque para a construção da história que queríamos contar. Isso aparece em evidência nas palavras de Gilberto Oliveira, músico e professor de música, entrevistado para a reportagem. As vivências relatadas por Nelson Coelho de Castro trouxeram o paradigma da composição musical ao longo do tempo e da mudança, ou não, de seu significado. Citando composições do músico, expoente dos anos 1970, pudemos atingir objetivos nesse sentido.  Amarrando algumas das espectativas que tínhamos, o DJ Bruno Corrêa deu ao material a perspectiva de um artista jovem, nascido em um contexto tecnológico e de redes sociais muito acelerado

Uma ideia central para a realização das entrevistas com Nelson e Bruno era de que estas fossem realizadas em conjunto, com um artista ao lado do outro na Travessa dos Venezianos. Queríamos que as histórias de um levassem o outro a produzir reflexões e vice-versa. Percebemos que esta foi uma iniciativa importante e que causou real impacto na forma como eles buscavam suas ideias e em como encontraram um ambiente confortável para expressar suas percepções.

Apesar de algumas mudanças de foco ao longo da construção da reportagem, conseguimos responder as principais questões levantadas e imergir em paradigmas diversos que atravessam o fazer artístico entre gerações.