Sextante

O povo invisível

Arte: Thais Marques Fernandes

Questão central da pauta:

Como os povos ciganos perpetuam a sua cultura no Rio Grande do Sul mesmo sendo marginalizados e invisibilizados pela sociedade e pelo poder público?

Enfoque:

Raízes invisíveis: a resistência cultural e social dos povos ciganos em solo gaúcho após gerações de preconceito, racismo e esquecimento pela sociedade.

Contextualização do tema:   

Os primeiros ciganos a pisar em solo brasileiro vieram de Portugal, no ano de 1574. Após 451 anos desde a sua chegada, os ciganos seguem à margem da sociedade por reflexo do preconceito enraizado no antro social do País. A maior parte da população cigana com residência fixa segue na invisibilidade, para se proteger do preconceito ou para manter suas tradições resguardadas dos gajés, os não ciganos. Historicamente vítimas do ódio, os ciganos foram escravizados e perseguidos ao longo dos séculos. A Suíça foi uma das primeiras nações a instituir leis contra a presença dos ciganos, por volta de 1470. Durante o regime nazista, na Alemanha, estima-se que cerca de 500 mil ciganos tenham sido assassinados dentro e fora dos campos de concentração como uma tentativa de aniquilar as heranças ciganas. As práticas criminosas persistem e afastam parte dos povos ciganos de uma vida digna. 

Segundo o Ministério da Saúde do Brasil, existem três grandes grupos que compõem os povos ciganos vivendo no país: os Rom, os Sinti e os Calon. Estima-se que descendentes dos povos ciganos estejam instalados em todos os estados brasileiros, seja aqueles que mantém as tradições itinerantes dos antepassados ou aqueles que se estabeleceram em moradias fixas. Apesar do imaginário popular levar a crer que povos ciganos fazem parte do cotidiano brasileiro, a quantidade de suporte governamental e de conteúdo acadêmico e jornalístico sobre as suas origens e costumes são escassos. Conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 800 mil a um milhão de pessoas se identificam como ciganos. Apesar do dado ser relevante, a última versão deste tipo de pesquisa foi realizada em 2011. Não há novos levantamentos oficiais que atualizem ou façam menção direta ao número de ciganos brasileiros desde 2014, o que denota despreparo na coleta de dados ou negligência. O pesquisador Aluízio de Azevedo Silva Júnior aponta inclusive que houve problemas na coleta de dados oficiais sobre as comunidades ciganas já que, “além das dificuldades inerentes à sistematização da dados de grupos que migram internamente, há falhas nos dados acerca dos ciganos que fixaram residência e que não são mapeados e abrangidos pelas estatísticas.”

O retrato dessa falha é a falta de construção de políticas públicas em prol dos povos ciganos. O movimento político e legislativo acerca deste tema é recente e não há um reflexo prático e imediato das medidas e das ações nas vidas dos ciganos no Brasil. Assuntos básicos como saúde e educação para descendentes de povos ciganos começaram a ser debatidos há menos de uma década nos parlamentos nacionais. O avanço é quase irrisório em comparação com o tempo desde a chegada dos primeiros ciganos até o momento atual. A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Povo Cigano/Romani foi instituída apenas em 2018. Como parte da Política, o Governo do Rio Grande do Sul implementou em 2021 que municípios gaúchos podem solicitar à Secretaria Estadual de Saúde do Rio Grande do Sul (SES-RS) incentivos financeiros para o desenvolvimento de ações relacionadas à saúde de populações específicas. O investimento seria destinado através do Programa Estadual de Incentivos para Atenção Primária à Saúde (PIAPS), porém, desde então, não há registros de municípios cadastrados no PIAPS com projetos destinados aos povos ciganos. Inclusive, no painel de indicadores  do programa, não há uma filtragem ou dados que disponham sobre povos ciganos.

Em 2022, o Senado Federal protocolou o Estatudo dos Povos ciganos, projeto articulado e aprovado no mesmo ano com o intúito de garantir aos povos ciganos a efetiva inclusão social, política e econômica, a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação e às demais formas de intolerância étnica. Dois anos após, o Governo Federal, através do Ministério da Igualdade Racial (MIR) lançou o Plano Nacional de Políticas para Povos Ciganos. Entre os objetivos do decreto, está o combate ao anticiganismo, o reconhecimento da cultura e dos modos de vida dos ciganos, além da elaboração de políticas públicas para garantir os direitos dessa parcela da população brasileira e reparar séculos de desigualdade. Não há registros de ações ou melhorias práticas realizadas a partir dos dois decretos.

Dentro desse contexto desigual e desfavorável, os povos ciganos seguem, na prática, invisíveis ao poder público, visto que nem mesmo o Brasil tem informações sobre a quantidade exata do número de ciganos brasileiros. Apesar disso, suas crenças, culturas e costumes seguem sendo perpetuados dentro de uma parcela da população que vive às sombras, mas que mantém as práticas intactas através da manutenção das diferentes formas de viver as raízes ciganas. O propósito da reportagem é retratar que o sentido de pertencimento do povo cigano não é baseado em um local específico e que a caracterização da sua identidade vai além da consolidação física e concreta da ocupação de espaços na sociedade, com o objetivo de relatar como a ancestralidade cigana resiste apesar do preconceito, racismo e falta de amparo por parte do poder público.

Assim, pretendemos responder algumas questões através desta reportagem, como: 

  • Onde vivem os descendentes ciganos no Rio Grande do Sul?
  • Quais as suas condições socioeconômicas e dificuldades geradas por serem ciganos?
  • Como é a experiência dos povos ciganos com relação à saúde e educação?
  • Quantos seguem as culturas ciganas e quantos deixam de lado os costumes?
  • Como é a convivência com o preconceito histórico?
  • Quantos passaram por problemas por conta da sua descendência?
  • Como eles mantêm a conexão com as suas origens e tradições?
  • Como passam de geração em geração as suas práticas?
  • Como as crianças são criadas pelos povos ciganos e como as experiências são repassadas?
  • Qual é o suporte do poder público para os povos ciganos?
  • Qual o papel dos municípios, estados e federação?
  • Quais investimentos ou ações foram realizados nas últimas décadas em prol dos povos ciganos?
  • Como é o cotidiano dessas pessoas?

Fontes:

  • Rose Winter, presidente da Associação de Ciganos Itinerantes do Rio Grande do Sul;
  • Marta Antunes, pesquisadora do IBGE responsável pelo projeto de Povos e Comunidades Tradicionais;
  • Ministério de Igualdade Racial, responsável pelo Plano Nacional de Políticas para Povos Ciganos.
  • Alberto Saldanha, diretor de Manutenção dos Prédios Públicos e Serviços Públicos de Torres;
  • Igor Nunes, cigano instalado em Torres 
  • André Fagundes, cigano instalado em Torres
  • Ivoneti Fagundes, matriarca cigana instalada em Torres
  • Asusena Fagundes, cigana instalada em Torres
  • Elisangela Fagundes, cigana instalada em Torres

Ideias de fotografia:

  • Foto que retrate a rotina e o ambiente de uma comunidade cigana;
  • Foto dos acampamentos em que os ciganos vivem; 
  • Foto das vestimentas e elementos culturais dos povos ciganos;
  • Foto dos acampamentos em que os ciganos vivem; 
  • Retrato dos entrevistados para montagem de uma galeria;

Recursos multimídia:

  • Recurso de audiodescrição da reportagem;
  • Mini documentário sobre o cotidiano dos povos ciganos itinerantes;
  • Gráfico com dados generalistas sobre ciganos no Brasil/RS/Porto Alegre;
  • Mapa interativo com as cidades com maior número de pessoas ciganas no RS;
  • Galeria de imagens;

Plano de redes:

  • Mini documentário sobre o cotidiano dos ciganos itinerantes;
  • Sugestão de músicas sobre ciganos e feitas por povos ciganos;
  • Sugestão de livro;
  • Sugestão de filme; 
  • Sugestão de documentário;
  • Sugestão de uma página com comunicação responsável sobre o assunto;

Referências:

A saúde dos povos ciganos – Atenção Primária do RS

Portaria nº 4.384, de 28 de dezembro de 2018

Portaria SES nº 512/2020

Povos ciganos resistem apesar do preconceito e da marginalização – #Colabora

Povos Ciganos / Romani — Ministério da Saúde

programa estadual de incentivos para atenção primária em saúde – piaps

Proposta do Senado cria o Estatuto dos Povos Ciganos

Especial Ciganos 1 – Conheça o fascínio do povo cigano (09’11”) – Rádio Câmara

PL-1387-2022-(Nº-Anterior -PLS-248-2015) – Estatuto dos Povos Ciganos.pdf

O preconceito contra os ciganos – Mundo Educação

Ciganos no Brasil: uma história de múltiplas discriminações, invisibilidade e ódio

Dados sobre a população cigana precisam ser atualizados, dizem debatedores

Ciganos reivindicam inclusão no Censo 2022 – DiversEM – Estado de Minas

Dados oficiais sobre os povos romani (ciganos) do Brasil – 2013

Perfil dos Municípios Brasileiros – IBGE

Perfil dos estados e dos municípios brasileiros : IBGE 2014

Da pauta à reportagem

A partir da definição do tema da 65ª edição da Sextante, começamos a nos questionar quais são as diferentes formas que as raízes podem assumir. A partir disso, percebemos que elas vão muito além do aspecto físico, ou seja, não se limitam apenas ao lugar onde uma pessoa ou um grupo está instalado. 

Escolhemos tratar sobre os ciganos justamente por serem um povo historicamente associado ao deslocamento constante. Ao longo da apuração da reportagem, entendemos que essa itinerância não é uma escolha, mas uma imposição.

Enfrentamos muitos desafios ao longo da apuração. O primeiro, sem dúvida, foi encontrar registros sobre o povo cigano que não reforçassem estigmas nem reproduzissem preconceitos. Além disso, enfrentamos outra grande dificuldade: a quase total ausência de dados sobre o povo cigano, que nunca foi incluído no Censo e segue invisível para as estatísticas oficiais.

Nesse processo, foi fundamental conhecermos Rose Winter, presidente da Associação dos Ciganos Itinerantes do Rio Grande do Sul. Ela foi nossa madrinha ao longo de toda a construção da reportagem, do início ao fim. Foi Rose quem nos revelou a realidade por trás desse tema e que nos apresentou o acampamento de Torres.