Sextante

Raízes para Voltar

Arte: Fabio Alejandro Viera

Tema:
Turismo de Raízes

Contexto:
O turismo de raízes (também conhecido como turismo de ancestralidade ou turismo genealógico) é um formato de viagem marcado pelo resgate das origens. Nesta modalidade, os viajantes percorrem os caminhos de seus antepassados, proporcionando um maior entendimento sobre a história familiar, fortalecendo a identidade e gerando maior sensação de pertencimento. 

Diferentemente do turismo de massa (fenômeno associado a destinos turísticos populares que atraem um grande volume de visitantes, seja por suas atrações turísticas, belezas naturais, patrimônio cultural ou eventos especiais), no turismo de raízes, o viajante percorre regiões que guardam forte relação com a sua família (que geralmente representam cidades menores, que não necessariamente têm apelo turístico para o restante da população).

Nos últimos anos, a Itália tem dedicado especial atenção a esta modalidade. Em 2022, a cidade de Matera recebeu a primeira edição do Roots-in – Fórum Internacional do Turismo de Origem. Conforme dados apresentados no evento, em 2019, cerca de 10,4 milhões de viajantes chegaram à Itália em busca de suas origens. Estima-se que o mercado potencial do turismo de origens seja representado por 80 milhões de descendentes de italianos de segunda e terceira geração, que mantêm um forte vínculo com os costumes italianos.

Também foi anunciado o Italea, programa de promoção do Turismo de Raízes, vigente no período de 2022-2025, lançado pelo Ministério das Relações Exteriores no âmbito do projeto PNRR (Plano Nacional de Recuperação e Resiliência) e financiado pelo NextGenerationEU (projeto de recuperação econômica da União Europeia após a pandemia de covid-19). Segundo o site do projeto, o nome Italea deriva da palavra italiana “talea”, uma prática que permite a uma planta se propagar. Colocando uma parte da planta em um vaso e replantando-a, pode-se dar uma nova vida à planta, fazendo com que cresça novas raízes: exatamente como acontece com as migrações. Esse programa representa o reconhecimento da “planta mãe” ao florescer no mundo.

O programa possui uma plataforma online e ramificações nas 20 regiões da Itália, contando com o apoio de especialistas em genealogia, designers de viagens e guias turísticos para ajudar os viajantes. A Itália ainda designou 2024 como o “Ano das Raízes Italianas no Mundo”, contando com uma série de eventos culturais em mais de 800 pequenas cidades em todo o país.

O Brasil constitui a maior comunidade italiana fora da Itália: cerca de 15% da população total do país (30 milhões de pessoas) possui ascendência italiana. Em 2024, se comemorou os 150 anos da imigração italiana no Brasil, marco que deu ainda mais destaque para a temática do turismo delle radicci (turismo de raízes).

Além da Itália, países como o Japão também promovem iniciativas para incentivar que seus descendentes retornem para conhecer suas origens. Baseando-se nessa premissa, o Japão lançou o programa de bolsas KENPI RYUGAKU: bolsas de estudo que proporcionam aos descendentes de japoneses a realização de pesquisas em universidades japonesas, custeadas pelos Governos das províncias. Na maioria dos casos, para se inscrever para as bolsas, os aplicantes devem ter a ascendência da província respectiva.

Proposta:
A reportagem busca compreender os motivos que levam as pessoas a redescobrir suas origens por meio do turismo de ancestralidade.

Questões a serem respondidas:
O que é o turismo de raízes?
Quais são as principais motivações das pessoas que buscam o turismo de raízes?
Como o turismo de raízes contribui para a preservação de tradições e histórias familiares?
Como o turismo de raízes contribui para o autoconhecimento, para o fortalecimento da identidade e para a construção de pertencimento a determinada cultura?

Fontes:
Akemi Ueno 
Descendência Japonesa
Neta de japoneses que vieram para o RS no pós-guerra.
Em 2019, realizou o turismo de ancestralidade por meio de uma bolsa de estudos KENPI RYUGAKU, concedida pela província de Kagoshima, voltada exclusivamente para descendentes. Hoje, ela trabalha no Escritório Consular do Japão em Porto Alegre.

Catia Dal Molin 
Descendência Italiana 
Em 1883, seus tataravós Luigia Muraro e Giovanni Ferron emigraram para a América junto de seus seis filhos.  Realizou turismo de ancestralidade para a Itália, onde reencontrou familiares distantes, 135 anos após a emigração de seus tataravós. 
Possui Graduação e Pós-Graduação em História pelo Centro Universitário Franciscano (atual Universidade Franciscana). Mestre em História pela Universidade de Passo Fundo e Mestranda do programa de Pós Graduação em Patrimônio Cultural da Universidade Federal de Santa Maria. 
Em 2019, Catia criou a Gens Turismo Genealógico Itália, uma agência de consultoria de viagem para quem procura suas raízes italianas. Ela atende as famílias em sua sede em São João do Polêsine (RS), realiza a pesquisa genealógica, e, posteriormente, faz o acompanhamento turístico na Itália, passando pelos locais que constituem a história das famílias.

Cristina Thudium
Psicóloga com especializações nas áreas de Recursos Humanos, Terapia de Família e Psicologia da Saúde. 

Sugestões de fotos: 
Fotos da Akemi – Faremos fotos em algum local que tenha referências visuais ao Japão. Vamos averiguar com a entrevistada o local que melhor se adequaria a essa necessidade. Algumas ideias: Praça província de Shiga (paisagismo japonês, com espécies típicas do país oriental: azaleias, bambus, extremosas e cerejeiras), Escritório Consular do Japão, casa da entrevistada, eventos de cultura japonesa.
Fotos da Catia e do seu trabalho de turismo genealógico – Na entrevista com a Catia, vamos visitar a sede da agência Gens Turismo Genealógico, em São João do Polêsine. Vamos fotografar o espaço, o acervo de livros e documentos e a entrevistada (em um fundo que traga elementos visuais para representar a Itália).
Fotos de arquivo pessoal das viagens 

Sugestões multimídia:
Vídeo dos cases – entrevistadas contando suas histórias relacionadas ao turismo de raízes, incluindo fotos dos arquivos pessoais das viagens e sonorizados com músicas do país em questão 
Reportagem em áudio 
Gráfico da árvore genealógica dos cases
Fotos do espaço/acervo da Gens Turismo para explicar como funciona o trabalho de pesquisa genealógica
Infográfico – Mapa da Itália com as cidades mais visitadas por clientes da Gens, com os sobrenomes das famílias 

Sugestões de posts:
Vídeos dos cases (conforme sugerido em sugestões multimídia)
Sugestão de filmes sobre o assunto
Você sabe o que é o turismo de raízes?
Fazer collab com o perfil do Gens Turismo Genealógico
Carrossel sobre resgate da identidade e preservação da memória, com relatos das pessoas que realizaram o turismo de raízes

Da Pauta à Reportagem

A ideia da reportagem surgiu em aula, no dia que a turma decidiu que “Raízes” seria o tema da edição 65. Demos um google em algumas palavras-chave e um termo chamou nossa atenção: turismo de ancestralidade. O termo trouxe memórias para a repórter Larissa, que já viveu essa experiência: em viagem à Roma, conheceu a casa onde seu avô nasceu e a igreja onde foi batizado. Logo percebemos que o turismo de raízes renderia boas histórias.

Em busca de possíveis fontes, estávamos folheando um livro sobre famílias italianas do Brasil. A primeira frase da crônica de Cátia chamou a atenção, por abordar o turismo de raízes de forma poética. Buscando mais informações, descobrimos que ela fundou a Gens, agência de turismo genealógico com sede em São João do Polêsine, no centro do Rio Grande do Sul. Marcamos uma visita e fizemos um bate-e-volta até lá. A viagem foi longa, mas valeu a pena. Cátia nos recebeu com carinho, mostrando livros, documentos e fotos. Ali, contou a história da sua família, do seu resgate das origens e como isso virou profissão.

Nossa outra personagem, Akemi, entrou na pauta por uma lembrança. A repórter Larissa já a tinha entrevistado antes e lembrou da história dela, que combinava com o que buscávamos. A ideia inicial era fazer a entrevista em algum lugar que remetesse à cultura japonesa, como a Praça Shiga. Mas isso não aconteceu por dificuldades de agenda, clima e prazo. No fim, esse detalhe pouco importou. A história da Akemi era tão rica que bastava ouvi-la para entender o quanto tinha a acrescentar. Para as fotos, pedimos que ela levasse lembranças da viagem, o que rendeu ótimas imagens.

Para finalizar, a psicóloga Cristina surgiu por indicação da conselheira Katy Hias. Sua contribuição foi essencial para consolidar a ideia de que o turismo de raízes não é só um deslocamento físico, mas simbólico. É uma tentativa de ocupar um espaço no mundo, resgatar memórias e reafirmar quem somos.

Ao escrever sobre raízes, nos tornamos mais conscientes das nossas. De certa forma, por meio da escuta dos relatos, cada uma de nós embarcou numa viagem interior. Porque, no fim, o jornalismo também pode ser isso: um caminho para descobrir quem somos, pelas histórias que nos atravessam.