Como realizar diagnóstico e tratamento de cervicite?
As cervicites são frequentemente assintomáticas e não produzem corrimento vaginal; entretanto, se ao exame especular for constatada a presença de mucopus cervical, friabilidade do colo ou teste do cotonete positivo (quadro 1), a paciente deve ser tratada para gonorreia e clamídia, pois esses são os agentes etiológicos mais frequentes da cervicite [1–3]. Nos casos sintomáticos, as principais queixas são corrimento vaginal purulento ou mucopurulento (amarelo) e sangramento intermenstrual ou pós-coital. Disúria e/ou polaciúria, dispareunia, irritação vulvovaginal e dor pélvica também podem ser encontrados [1–4]. O diagnóstico laboratorial da cervicite causada por C. trachomatis e N. gonorrhoeae pode ser feito por pela detecção do material genético dos agentes infecciosos por biologia molecular, tanto para casos sintomáticos como assintomáticos [2,3].
Quadro 1. Teste do cotonete do conteúdo cervical.
| Como realizar o teste do cotonete do conteúdo cervical |
|---|
| Colher swab endocervical com cotonete e observar se há presença de muco purulento ou sangramento (friabilidade) contrapondo em papel branco. O teste é positivo quando houver presença de muco e/ou de sangramento, sendo a friabilidade o achado mais comum. |
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2023), adaptado de Ministério da Saúde (2022) e Ortiz-de la Tabla e Gutiérrez (2019) [1,5].
A cervicite pode ser um sinal de infecção genital alta; por isso, todas as mulheres com sinais e sintomas sugestivos de cervicite devem ser avaliadas também para doença inflamatória pélvica (DIP) com toque vaginal e palpação de colo uterino e anexos [1,3]. Mulheres na pós-menopausa podem ter cervicite como resultado de seu estado hipoestrogênico, mas geralmente apresentam achados de vaginite atrófica associdada. Cervicite isolada relacionada apenas ao hipoestrogenismo é incomum [5,6].
O tratamento presuntivo deve ser realizado para clamídia e gonococo, especialmente em mulheres com vida sexual ativa, novas ou múltiplas parcerias sexuais, história prévia ou atual de outra infecção sexualmente transmissível, uso irregular de preservativos ou ainda se o acompanhamento não puder ser garantido ou se os testes laboratoriais específicos para diagnósticos não estiverem disponíveis [1–3]. O tratamento para cervicite deve ser instituído no momento do diagnóstico clínico e, quando houver disponibilidade de exames, deve-se solicitar testagem diagnóstica para gonococo e clamídia, além de cultura de secreção endocervical com teste de sensibilidade [1,7]. Os regimes recomendados estão descritos no quadro 2.
Quadro 2. Tratamento da cervicite.
| Tipo do tratamento | Medicação, dose e posologia |
|---|---|
| Esquemas preferenciais¹ | Ceftriaxona² 500 mg, intramuscular, dose única; MAIS Azitromicina¹ 1 g, dose única. |
| Ceftriaxona² 500 mg, intramuscular, dose única; MAIS Doxiciclina 100 mg, 12/12h, por 7 dias (exceto em gestantes). |
|
| Esquemas alternativos se alergia grave a cefalosporinas (ou desabastecimento de ceftriaxona) |
Gentamicina 240 mg, intramuscular, dose única MAIS Azitromicina 2 g, dose única. |
| Azitromicina3 2 g, dose única. |
¹CDC recomenda o uso de doxiciclina 100 mg, 12/12h, por 7 dias, associado à ceftriaxona como primeira escolha em não gestantes [2].
²Para pessoas com peso igual ou maior que 150 kg, deve-se ajustar a dose de ceftriaxona para 1 g, intramuscular, dose única [2].
³Monoterapia com azitromicina 2 g, dose única, demonstrou ser 99,2% eficaz contra infecção gonocócica urogenital não complicada. Entretanto, o CDC não recomenda esse esquema, pois há preocupações sobre a facilidade que o N. gonorrhoeae tem para desenvolver resistência a macrolídeos [2].
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2023), adaptado de Ministério da Saúde (2022) e CDC (2021) [1,2].
A ceftriaxona está disponível em ampolas de 500 mg e 1 g, sendo a apresentação de 1 g a mais disponível atualmente [8,9].
O tratamento de cervicite na gestação deve utilizar esquema que contém azitromicina, pois a doxiciclina é contraindicada em gestantes [2]. Pessoas vivendo com HIV que apresentam cervicite devem receber o tratamento usual [2,3].
As parcerias sexuais dos últimos 60 dias devem ser avaliadas e devem receber o mesmo tratamento empírico para clamídia e gonococo (quadro 2), mesmo que sejam assintomáticas [2,3]. Para minimizar a transmissão e o risco de reinfecção, mulheres tratadas para cervicite e suas parcerias sexuais devem evitar relação sexual desprotegida até tratamento adequado, por 7 dias após esquema de dose única ou até completar o esquema de 7 dias associado à resolução dos sintomas [2,3].
Os sintomas de cervicite geralmente respondem dentro de uma ou duas semanas de tratamento e sugere-se reavaliação clínica para confirmar a resolução do quadro [3]. O Ministério da Saúde não recomenda realização de seguimento laboratorial para pacientes com cervicite [2].
Mulheres com cervicite persistente ou recorrente, após tratamento adequado devem ser avaliadas para reexposição ou falha do tratamento, além de avaliar a possibilidade de vaginose bacteriana [1,3]. É improvável que a cervicite seja causada por vaginose bacteriana sem apresentar corrimento vaginal associado [1]. Ver mais sobre tratamento de corrimento vaginal aqui.
Na cervicite crônica, que persiste por mais de 3 meses, é necessário revisar outras causas não infecciosas de cervicite, como alterações ginecológicas, incluindo neoplasia de colo uterino, e uso de duchas vaginais, espermicidas e sabonetes ou desodorantes vaginais [1,3].
Testes rápidos para HIV, sífilis e hepatites B e C devem ser ofertados para todas as pessoas que buscam atendimento ou tratamento para IST já na primeira avaliação. Os testes rápidos também devem ser ofertados para todas as parcerias sexuais [1-3].
Sempre deve ser avaliado se a paciente tem risco aumentado para exposição ao HIV ou se pertence à população prioritária para uso de Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) de risco à infecção pelo HIV [1,10]. Se houver indicação, essa estratégia de prevenção contra a infecção por HIV deve ser oferecida [10]. Saiba mais sobre como prescrever a PrEP aqui.
Este conteúdo é destinado para profissionais de saúde e tem por objetivo fornecer informações atualizadas e baseadas em evidências científicas.
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Referências
- Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2022 p. 215. Disponível em: https://www.gov.br/aids/pt-br/centrais-de-conteudo/pcdts/2022/ist/pcdt-ist-2022_isbn-1.pdf/view.
- Centers for Disease Control and Prevention. Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, 2021 [Internet]. Atlanta: CDC; 2021 [citado 13 de junho de 2023]. 192 p. Disponível em: https://www.cdc.gov/std/treatment-guidelines/STI-Guidelines-2021.pdf.
- Powell AM, Nyirjesy P. Acute cervicitis [Internet]. Waltham (MA): UpToDate; 2022 [citado 13 de junho de 2023]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/acute-cervicitis.
- Dynamed. Gonococcal Cervicitis [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services; 2023 [citado 13 de junho de 2023]. Disponível em: https://www.dynamed.com/condition/gonococcal-cervicitis.
- Ortiz-de La Tabla V, Gutiérrez F. Cervicitis: etiología, diagnóstico y tratamiento. Enfermedades Infecc Microbiol Clínica [Internet]. dezembro de 2019 [citado 13 de junho de 2023];37(10):661–7. Disponível em: https://linkinghub.elsevier.com/retrieve/pii/S0213005X18304038.
- Bachmann G, Pinkerton JV. Genitourinary syndrome of menopause (vulvovaginal atrophy): clinical manifestations and diagnosis [Internet]. Waltham (MA): UpToDate; 2022 [citado 13 de junho de 2023]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/genitourinary-syndrome-of-menopause-vulvovaginal-atrophy-clinical-manifestations-and-diagnosis.
- World Health Organization. Guidelines for the management of symptomatic sexually transmitted infections [Internet]. Geneva: WHO; 2021 [citado 13 de junho de 2023]. 216 p. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240024168.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Consultas. Bulário eletrônico. [Internet]. Brasília, DF: Anvisa; [citado 27 de março de 2023]. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/.
- Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde, Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais Rename 2022 [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2022. Disponível em: https://www.conass.org.br/wp-content/uploads/2022/01/RENAME-2022.pdf.
- Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) de Risco à Infecção pelo HIV [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2022 [citado 12 de junho de 2023]. 52 p. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/protocolo_clinico_profilaxia_prep.pdf.
Como citar este documento:
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia, TelessaúdeRS. Rio Grande do Sul, Secretaria Estadual da Saúde. Como realizar diagnóstico e tratamento de cervicite? Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 13 jun. 2023[ citado em “dia, mês abreviado e ano”]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/como-realizar-diagnostico-e-tratamento-de-cervicite/
Publicador
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL | TelessaúdeRS-UFRGS