Como prescrever a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) de risco à infecção pelo HIV?
A profilaxia pré-exposição (PrEP) de risco à infecção pelo HIV consiste no uso de antirretrovirais, na modalidade de uso diário ou sob demanda (para populações específicas), para diminuição do risco de transmissão do HIV. Essa estratégia demonstrou ser eficaz e segura em pessoas com risco aumentado de adquirir a infecção [1,2].
A PrEP deve ser considerada para pessoas a partir de 15 anos, com peso igual ou superior a 35 kg, sexualmente ativas e com risco aumentado de serem expostas ao HIV, conforme o Quadro 1 [1,2].
Quadro 1 – Indicativos de risco aumentado de exposição ao HIV
| – Solicitação ou desejo de usar PrEP – Repetição de práticas sexuais anais ou vaginais com penetração sem uso de preservativo ou com uso inconsistente de preservativo. – Frequência das relações sexuais com parcerias eventuais. – Quantidade e diversidade de parcerias sexuais. – Histórico de episódios de infecções sexualmente transmissíveis (IST). – Busca repetida de profilaxia pós-exposição (PEP). – Parcerias vivendo com HIV e com carga viral detectável. – Contexto de relações sexuais em troca de dinheiro, objetos de valor, drogas, moradia. – Chemsex: prática sexual sob a influência de drogas ou substâncias psicoativas para facilitar ou melhorar as experiências sexuais. – Compartilhamento de agulhas, seringas ou outros equipamentos para injetar drogas. – Parcerias com situação desconhecida sobre o HIV e que apresentem qualquer um dos fatores acima. |
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2025), adaptado de Ministério da Saúde (2023, 2024) e Centers for Disease Control and Prevention (2021)[1–3].
A Figura 1 resume as indicações de PrEP.
Figura 1 – Fluxograma de avaliação para uso de PrEP

Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2025), adaptado de Ministério da Saúde (2024)[1].
Faça download do fluxograma aqui.
As evidências científicas atuais corroboram a afirmação de que não há transmissibilidade do HIV por via sexual quando uma pessoa vivendo com HIV/aids (PVHA) está em uso de tratamento antirretroviral (TARV) há mais de 6 meses e apresenta carga viral indetectável [4]. No entanto, entende-se que a PrEP pode ser utilizada pela parceria soronegativa como forma complementar de prevenção, em casos de relato frequente de sexo sem uso de preservativo ou de múltiplas parcerias e para o planejamento reprodutivo de casais sorodiferentes. A PrEP pode ser utilizada com segurança por gestantes e lactantes [4].
A modalidade da PrEP sob demanda pode ser ofertada para: homens cisgêneros heterossexuais, bissexuais, gays e outros homens cisgêneros que fazem sexo com homens (HSH); pessoas não binárias designadas como do sexo masculino ao nascer; travestis e mulheres transexuais, desde que não estejam em uso de hormônios à base de estradiol e que tenham uma frequência menor que 2 vezes por semana de relações sexuais. Além disso, devem preencher todos os seguintes critérios [2,5]:
- Considerar a PrEP sob demanda mais conveniente.
- Ter habitualmente relação sexual com frequência menor do que 2 vezes por semana.
- Conseguir planejar quando a relação sexual ocorrerá e/ou poder antecipar (ou retardar) a relação sexual, para permitir o uso da dose inicial recomendada entre 2 e 24 horas antes da relação sexual.
Para indivíduos desses grupos que tenham práticas sexuais mais frequentes, segue sendo recomendado o uso de PrEP oral diária. As demais populações também devem utilizar a modalidade diária. Os estudos com PrEP sob demanda são limitados em outras populações e não há evidência de proteção para relações sexuais (neo)vaginal receptivas, ficando sua indicação restrita às relações sexuais anais (insertiva e/ou receptiva) e vaginais insertivas [2].
O esquema de PrEP sob demanda não é recomendado nos seguintes casos [2]:
- Mulheres cisgêneros, pessoas trans ou não binárias designadas como do sexo feminino ao nascer.
- Pessoa do grupo elegível que esteja em uso de hormônios à base de estradiol.
- Pessoa do grupo elegível que tenha dificuldade em compreender ou gerir o regime posológico 2+1+1, pois pode ser mais complexo que o esquema de uso diário.
- Pessoa utilizando a associação de tenofovir alafenamida + entricitabina (TAF/FTC), pois o uso dessa associação no regime posológico 2+1+1 não foi estudado até o momento. Essa associação de antirretrovirais não se encontra disponível no SUS atualmente.
- Pessoa com diagnóstico de infecção crônica por hepatite B quando a avaliação médica individualizada de benefício/risco não for favorável.
São contraindicações gerais ao uso da PrEP [1]:
- pessoas já infectadas pelo HIV;
- pessoas com taxa de filtração glomerular (TFG) estimada abaixo de 60 mL/min.
Apesar de não haver contraindicação ao uso concomitante de PrEP e hormônios em pessoas trans, alguns estudos apontaram menor concentração de tenofovir em mucosa retal de mulheres transexuais em hormonização, levantando a possibilidade de redução da eficácia da PrEP nessa população [6,7]. Contudo, em análise post hoc, a redução da concentração do tenofovir foi ligada à adesão insuficiente nesse subgrupo [8]. Adicionalmente, estudos menores e mais recentes não demonstraram redução da eficácia da PrEP nessa população, mesmo em uso de terapias hormonais [9]. Portanto, nesse momento, a PrEP diária é preconizada para esta população e a otimização da adesão é fundamental para o sucesso da profilaxia [1].
Avaliação inicial para PrEP
Na primeira consulta de PrEP, além de teste rápido para HIV, deve-se realizar a testagem para sífilis, hepatites B e C (preferencialmente por teste rápido), pesquisa para clamídia e gonorreia por biologia molecular (quando disponível) e avaliação da TFG com dosagem de creatinina [1]. A avaliação inicial está descrita no Quadro 2.
Quadro 2 – Avaliação inicial de PrEP
| Avaliação | Método | Observações | |
|---|---|---|---|
| Testar para HIV | TR HIV¹ ou anti-HIV | Obrigatório dos últimos 7 dias | |
| Testar para hepatite C | TR HCV ou anti-HCV | Solicitar na primeira consulta. O resultado pode ser visto no retorno em 30 dias. | |
| Testar para hepatite B | TR HBV ou HBsAg | ||
| Testar para sífilis | Se não houver histórico de sífilis | TR sífilis ou outro teste treponêmico | |
| Se houver histórico de sífilis | VDRL ou outro teste não treponêmico | ||
| Testar para clamídia e gonococo | PCR para clamídia e gonococo (material de acordo com a prática sexual²) | ||
| Avaliar função renal | Creatinina e cálculo do TFG | Idade < 30 anos E sem fatores de risco | Opcional |
| Idade ≥ 30 anos OU com fatores de risco | Solicitar na primeira consulta. O resultado pode ser visto no retorno em 30 dias.³ | ||
Fonte: TelessaúdeRS (2025), adaptado de Ministério da Saúde (2024) [1,10].
TFG: taxa de filtração glomerular; TR: teste rápido.
¹ O autoteste de HIV (fluido oral ou sangue) pode ser utilizado para a primeira dispensação da PrEP oral para usuários no contexto do teleatendimento. No atendimento presencial em ações extramuros, o autoteste de HIV também pode ser utilizado para oferta da profilaxia, facilitando o acesso de populações em situação de maior vulnerabilidade.
² Para sexo insertivo, utilizar urina (preferencialmente) ou swab uretral. Para sexo vaginal receptivo, swab de secreção vaginal e amostras endocervicais. Para sexo anal receptivo,swab anal. Para sexo oral receptivo, swabde orofaringe. Para mais informações sobre rastreio de ISTs, clique aqui.
³ Se houver histórico de doença renal previamente conhecida ou fatores de risco para doença renal (hipertensão arterial sistêmica, diabetes, uso de medicamentos nefrotóxicos), o resultado deve ser avaliado antes do início da PrEP.
O usuário tem até 7 dias após realização do teste anti-HIV para retirar a PrEP na unidade dispensadora de medicamentos (UDM), preferencialmente o mais breve possível. Nos casos em que o usuário chegar à UDM após esse prazo ou sem o resultado do exame preenchido no formulário, a testagem de HIV precisará ser refeita. Nessa situação, para não atrasar a dispensação da PrEP, pode ser utilizado o autoteste de HIV [1].
Deve-se avaliar se houve alguma exposição de risco ao HIV nas últimas 72 horas, a fim de definir se há necessidade de profilaxia pós-exposição (PEP). Caso haja indicação de PEP, deve-se prescrevê-la inicialmente. Para mais informações sobre PEP, clique aqui. Após a finalização da PEP, a indicação de PrEP deve ser revista e, se a nova testagem de HIV for negativa, a PrEP pode ser iniciada imediatamente [1].
Pessoas com indicação para PrEP e sem exposição de risco recente poderão iniciar a profilaxia mediante testagem negativa do HIV, sem necessidade de aguardar o resultado dos demais exames, que devem ser vistos na consulta de retorno, em 30 dias [1].
As pessoas com exposição de risco nos últimos 30 dias devem ser orientadas quanto à possibilidade de infecção pelo HIV mesmo com resultado não reagente nos testes realizados. Nesses casos, deve-se investigar a presença de sinais e sintomas de infecção viral aguda. Caso eles estejam presentes, há indicação de realizar exame de carga viral para HIV e postergar o início da PrEP até elucidação diagnóstica. Se confirmada a infecção pelo HIV, a PrEP não está mais indicada [1]. A Tabela 1 resume os principais sinais e sintomas de infecção viral aguda pelo HIV e sua frequência.
No entanto, esperar que a pessoa esteja fora do período de janela imunológica para iniciar a PrEP pode aumentar o risco de novas exposições. Portanto, os indivíduos com uma exposição de risco no período entre 72 horas e 30 dias, com alto risco de infecção pelo HIV (Quadro 2) e TR HIV negativo podem iniciar a PrEP, desde que não apresentem sinais ou sintomas de infecção aguda pelo HIV (Tabela 1). Esses casos devem ser monitorados, com busca ativa de sinais e sintomas e maior frequência de coleta de carga viral e testagem para HIV, devido à possibilidade de soroconversão, por 2 a 8 semanas, antes de se retomar o monitoramento padrão de PrEP [1].
Tabela 1 – Sinais e sintomas mais frequentes de infecção aguda pelo HIV ou síndrome retroviral aguda (SRA)
| Sinais ou sintomas | Frequência |
|---|---|
| Febre Fadiga/mal-estar Mialgias Exantema Cefaleia Faringite Linfadenopatias Artralgias Sudorese noturna Diarreia |
75% 68% 49% 48% 45% 40% 39% 30% 28% 27% |
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2025), adaptado de Ministério da Saúde (2024) e Sax (2022) [1,11].
Os pacientes com diagnóstico de hepatite B e/ou C crônica não têm contraindicação ao uso de PrEP. Para pessoas com diagnóstico de hepatite B crônica com indicação de PrEP, recomenda-se, preferencialmente, a PrEP oral diária, pela possibilidade de indução de resistência do vírus da hepatite B ao tenofovir, com o seu uso intermitente na modalidade sob demanda [2].
Pessoas candidatas à PrEP com diagnóstico de hepatite C crônica pelo teste rápido reagente para anti-HCV devem ter sua avaliação complementada com exame de carga viral de hepatite C (HCV-RNA). Para mais informações, clique aqui. A PrEP pode ser iniciada antes mesmo que os resultados dos exames estejam disponíveis [1].
Prescrição
A PrEP é realizada com 1 comprimido combinado de tenofovir 300 mg associado a entricitabina 200 mg (TDF/FTC). Existem dois esquemas de prescrição de PrEP oral disponíveis no Brasil: a PrEP diária e a PrEP sob demanda [2].
A PrEP diária é realizada com o seguinte esquema [1]:
- Dose de ataque de 2 comprimidos de TDF/FTC no primeiro dia de uso, seguida de:
- dose fixa combinada de TDF/FTC, 1 comprimido/dia, em uso contínuo.
A PrEP sob demanda é realizada com o esquema 2+1+1 [2]:
- Dose de ataque de 2 comprimidos com TDF/FTC, de 2 a 24 horas antes da relação sexual, seguida de:
- 1 comprimido, 24 horas depois da primeira dose;
- 1 comprimido, 24 horas após a segunda dose.
A Figura 2 ilustra o esquema da PrEP sob demanda.
Figura 2 – Esquema posológico 2+1+1 para PrEP sob demanda

Fonte: Ministério da Saúde (2023) [2].
É possível alternar entre o uso de PrEP diária e sob demanda, conforme as circunstâncias e o estilo de vida de cada indivíduo, levando em consideração a frequência, a previsibilidade e a possibilidade de planejamento de quando ocorrerá a relação sexual. Se a pessoa em uso de PrEP sob demanda for ter relação sexual nos dias subsequentes da realização do esquema 2+1+1, deve ser orientada a seguir tomando 1 comprimido por dia, enquanto estiver mantendo relações sexuais, e parar de tomar o medicamento somente depois de 2 dias (48 horas) após o último ato sexual [2,12]. Se ocorrer um intervalo de mais de um dia entre o último comprimido e o próximo evento sexual, recomenda-se que usuários da PrEP sob demanda reiniciem o esquema 2+1+1 [2].
Na primeira prescrição, um formulário de cadastro deve ser preenchido [13]. A medicação também deve ser prescrita em documento específico. A dispensação é feita pelas unidades dispensadoras de medicamentos (UDM). Para visualizar as UDM do estado do Rio Grande do Sul, clique aqui [14]. Nas UDM também podem ser dispensados autotestes de HIV para distribuição pelo paciente (mediante indicação no documento de prescrição). Essa é uma estratégia para ampliação de testagem de pares e parcerias que ainda não acessaram o sistema de saúde [1].
No âmbito do SUS, a PrEP pode ser prescrita por profissionais médicos, enfermeiros e farmacêuticos devidamente capacitados, como uma medida para ampliação do acesso à PrEP [15]. A prescrição por enfermeiros e farmacêuticos está autorizada pelo Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) e pelo Conselho Federal de Farmácia (CFF), respectivamente, desde que esteja prevista em programas de saúde pública e em rotinas aprovadas pelas instituições [16].
Antes da prescrição de PrEP, é importante verificar interações medicamentosas com medicações de uso contínuo. Para informações sobre interação entre TDF/FTC e outros medicamentos, clique aqui. A PrEP não afeta a eficácia dos contraceptivos e repositores hormonais, assim como os contraceptivos e repositores hormonais não afetam a eficácia da PrEP [1].
Tempo necessário inicial para proteção
Deve-se orientar que o tempo necessário para atingir níveis de proteção ideal para mulheres cisgêneros, pessoas trans ou não binárias designadas como do sexo feminino ao nascer e qualquer pessoa em uso de hormônio à base de estradiol que façam uso de PrEP diaria é de pelo menos 7 dias de uso da medicação. Antes desse período, outras medidas preventivas devem ser utilizadas [2,12].
Para homens cisgêneros, pessoas não binárias designadas como do sexo masculino ao nascer, travestis e mulheres transexuais que não estejam em uso de hormônios à base de estradiol em uso de PrEP, seja ela diária ou sob demanda, o tempo minimo inicial para proteção é de 2 horas. Antes desse período, outras medidas preventivas devem ser utilizadas [2].
Adesão à PrEP
Para evitar infecção pelo HIV em uso de PrEP, o usuário deve utilizar uma quantidade mínima de comprimidos por semana para estar protegido. Essa quantidade depende da população em uso [1]:
- Mulheres cis e qualquer pessoa em uso de hormônio à base de estradiol: devem ingerir, pelo menos, 6 comprimidos por semana.
- Homens cis, pessoas não binárias designadas como do sexo masculino ao nascer, travestis e mulheres transexuais que não estejam em uso de hormônios à base de estradiol: devem tomar, pelo menos, 4 comprimidos por semana.
A adesão inadequada (inferior à quantidade mínima de acordo com a população em uso) pode levar à indicação da PEP se houver relato de exposição sexual de risco nas últimas 72 horas. Ao término do curso de 28 dias de PEP e após a exclusão de infecção pelo HIV, a PrEP pode ser reiniciada, com ênfase na identificação das barreiras enfrentadas pelo indivíduo para a adesão adequada [1].
Seguimento clínico e laboratorial
Pessoas usuárias de PrEP devem realizar seguimento periódico, que é o mesmo para pacientes na modalidade diária ou sob demanda. A primeira avaliação após o início da medicação deve ser em até 30 dias (entre 20 e 25 dias); depois, se estável, em até 120 dias. Para usuários de PrEP com adesão regular e que estejam em uso da medicação há no mínimo 1 ano sem histórico de descontinuidade, o seguimento clínico poderá ser ampliado para 6 meses. Nesses casos, a dispensa também poderá ser ampliada, a depender da disponibilidade do estoque local [1]. Um seguimento mais próximo pode ser necessário caso haja sintomas de IST, de SRA, eventos adversos da medicação ou alterações nos exames de seguimento. O serviço de saúde deve estar aberto para atendimentos não programados caso haja intercorrências durante o uso da PrEP [1,2,17].
Em todas as consultas para PrEP (inicial e seguimento), é necessário realizar novo exame de HIV por teste rápido (preferencialmente), autoteste (fluido oral ou sangue) ou sorologia, utilizando amostra de sangue total, soro ou plasma [1].
O Quadro 3 descreve a abordagem e os exames de seguimento de pacientes em uso de PrEP.
Quadro 3 – Abordagem e exames de seguimento pelo uso da PrEP
| Avaliação/exames | Método | Periodicidade | |
|---|---|---|---|
| Avaliar e reforçar adesão. | Não se aplica | Em toda consulta de PrEP | |
| Avaliar comportamentos de risco e reforçar a redução de danos. | |||
| Avaliar efeitos colaterais. | |||
| Avaliar sinais e sintomas compatíveis com SRA (Tabela 1). | |||
| Avaliar sinais e sintomas de IST. | |||
| Testar para HIV. | TR HIV, ou anti-HIV (utilizando amostra de sangue total, soro ou plasma), ou autoteste (sangue ou fluido oral) | Em toda consulta de PrEP | |
| Testar para sífilis. | Se não houver histórico de sífilis | TR sífilis ou outro teste treponêmico | A cada 120 dias (ou mais frequente se sintomas) |
| Se houver histórico de sífilis | VDRL ou outro teste não treponêmico | ||
| Testar para IST (clamídia e gonococo). | PCR para clamídia e gonococo (material de acordo com a prática sexual¹) | A cada 180 dias (ou mais frequente se sintomas) | |
| Testar para hepatite B². | TR HBV ou HBsAg | Anual, conforme avaliação inicial e imunização | |
| Testar para hepatite C³. | TR HCV ou anti-HCV | A cada 120 dias, conforme avaliação inicial | |
| Solicitar creatinina e calcular a TFG4. | Idade < 50 anos, sem comorbidades e avaliação inicial com ClCr ≥ 90 mL/min | A cada 12 meses | |
| Idade ≥ 50 anos, ou com história de comorbidades (ex.: HAS, diabetes), ou com avaliação inicial do ClCr < 90 mL/min |
A cada 180 dias | ||
| Testar gravidez. | -HCG sérico ou urinário | A cada 120 dias (ou mais frequente se necessário) | |
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2025), adaptado de Ministério da Saúde (2024) [1].
HAS: hipertensão arterial sistêmica; TFG: taxa de filtração glomerular; TR: teste rápido; IST: infecção sexualmente transmissível; SRA: síndrome retroviral aguda.
¹ Para sexo insertivo, utilizar urina (preferencialmente) ou swab uretral. Para sexo vaginal receptivo, swab de secreção vaginal e amostras endocervicais. Para sexo anal receptivo, swab anal. Para sexo oral receptivo,swab de orofaringe. Para mais informações sobre rastreio de ISTs, clique aqui.
² Caso a vacina da hepatite B seja realizada na primeira consulta, é indicado solicitar anti-HBS 30 a 60 dias após a última dose. Após a soroconversão, não há necessidade de repetir o teste rápido para hepatite B.
³ O seguimento dos indivíduos que já realizaram o tratamento para hepatite C e que obtiveram a resposta virológica sustentada deve ser realizado por meio da dosagem semestral de alanina aminotransferase (ALT/TGP) e coleta de HCV-RNA. O último, nas seguintes situações: i) no caso de alteração de ALT/TGP; ii) a cada 12 meses, mesmo que não haja alteração de ALT; iii) em situações de exposição de risco à infecção pelo HCV [1].
⁴ Para o cálculo da TFG, o método CKD-EPI é o preferido, pois é o método mais acurado e fácil de calcular.
Vacinação
A vacinação para hepatite B está recomendada em todos os adultos não imunizados e é prioritária na população com indicação de PrEP. O esquema é o mesmo da população geral (0, 2 e 6 meses) [1].
A vacinação de hepatite A deve ser recomendada para usuários de PrEP suscetíveis (anti-HAV IgG ou anti-HAV total não reagente) sem comprovação vacinal. Caso a sorologia para pesquisa de anticorpos anti-HAV não esteja disponível, não se deve impedir a vacinação do usuário de PrEP. O esquema vacinal recomendado é com 2 doses (0 e 6 meses). Para usuários entre 15 e 18 anos deve ser utilizada a vacina pediátrica (0,5mL), enquanto para usuários com ≥ 18 anos deve-se usar a vacina de adulto (1,0 mL). Se houver comprovação vacinal de apenas uma dose, deve-se complementar com mais uma dose, conforme a faixa etária. A vacinação para hepatite A pode ser solicitada em qualquer sala de vacina pública que utilize a ferramenta de validação a distância e será disponibilizada nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (Crie), nos Centros Intermediários de Imunobiológicos Especiais (Ciie) e em salas de vacina públicas habilitadas. Assim, a vacina pode ser realizada em qualquer serviço integrado à Rede de Imunobiológicos para Pessoas com Situações Especiais (RIE), a depender da organização local [1,18].
A vacinação para HPV está indicada para usuários de PrEP entre 15 e 45 anos de idade não vacinados previamente com o esquema de 3 doses (0, 2 e 6 meses). Pessoas em PrEP já vacinadas com esquema completo conforme preconizado para determinadas faixas etárias ou situações especiais não deverão ser vacinadas novamente com qualquer dose. Pessoas em PrEP previamente vacinadas, mas com esquema incompleto deverão completar as 3 doses. O usuário de PrEP poderá se vacinar contra o HPV em qualquer sala de vacina pública (p. ex.: posto de vacinação, Centro de Referência de Imunobiológicos Especiais (CRIE), Serviço de Atendimento Especializado (SAE), Centro de Testagem e Aconselhamento), desde que apresente qualquer tipo de comprovação de que faz PrEP. Como sugestão aos prescritores, pode-se utilizar o formulário de prescrição de imunizantes. A vacina é contraindicada na gestação e em pessoas com alergia a algum dos componentes deste imunobiológico [19].
Soroconversão em uso de PrEP
Durante o seguimento clínico, em todas as consultas, deve ser questionado sobre sinais e sintomas de síndrome retroviral aguda (Tabela 1). Usuários de PrEP com sinais e sintomas compatíveis com infecção aguda pelo HIV, sem outra causa clínica mais provável, especialmente os com histórico de exposição de risco e/ou falhas na adesão a PrEP, devem ser investigados para soroconversão em uso de PrEP, mesmo com exames sorológicos, TR ou autoteste não reagentes [1,20].
A performance dos testes de HIV em pessoas em uso de PrEP difere da população geral, pois as medicações usadas para PrEP podem suprimir a replicação viral precoce, o que pode interferir no tempo de desenvolvimento de anticorpos e consequente soroconversão [21,22]. Nestes casos, estão indicadas coleta imediata de carga viral do HIV, contagem de linfócitos T CD4 e genotipagem do HIV. Adicionalmente, até a definição diagnóstica, indicam-se a interrupção da PrEP e o início de terapia preemptiva com TARV com esquema preferencial (tenofovir/lamivudina 300/300 mg, 1 cp/dia + dolutegravir 50 mg, 1 cp/dia, se não houver contraindicações), sem intervalo entre elas e logo após a coleta dos exames. Estes casos devem ser encaminhados para seguimento no serviço especializado até definição diagnóstica [1,20].
Após a análise dos resultados dos exames, se a infecção pelo HIV for descartada, o usuário deve reiniciar a PrEP (se indicada). Caso se confirme a infecção pelo HIV, o usuário deve manter o uso da TARV, sendo importante avaliar o resultado da genotipagem para verificar a necessidade de adequação do esquema [1].
Critérios para interrupção da PrEP
São situações que indicam interrupção da PrEP [1]:
- Diagnóstico de infecção pelo HIV.
- Desejo da pessoa de não utilizar mais o medicamento.
- Mudança no contexto de vida, com importante diminuição da frequência de práticas sexuais com potencial risco de infecção.
- Persistência ou ocorrência de eventos adversos relevantes.
- Baixa adesão à PrEP, mesmo após abordagem individualizada de adesão.
Antes da interrupção da PrEP, recomenda-se que o usuário mantenha o uso da profilaxia por um período mínimo após a última relação sexual com risco de infecção pelo HIV, conforme descrito no Quadro 4 [2].
Quadro 4 – Tempo necessário para interrupção de PrEP com segurança
| População | Tempo para interrupção segura |
|---|---|
| Homens cisgêneros heterossexuais, bissexuais, gays ou outros HSH; pessoas não binarias designadas como do sexo masculino ao nascer; travestis e mulheres transexuais que não estejam em uso de hormônios à base de estradiol. | Tomar 1 comprimido por dia, por 2 dias após a última prática sexual. |
| Mulheres cisgêneros, pessoas trans ou não binárias designadas como do sexo feminino ao nascer ou qualquer pessoa em uso de hormônios à base de estradiol. | Tomar 1 comprimido por dia, por 7 dias após a última prática sexual. |
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2025), adaptado de Ministério da Saúde (2023) [2].
No momento da decisão de descontinuação da PrEP, deve-se documentar o status sorológico da pessoa que estava em uso da profilaxia, a sua adesão até então, as razões para a interrupção do medicamento e possíveis situações de risco [1].
Se a pessoa desejar reiniciar a profilaxia após um período de interrupção, é necessário realizar novamente a abordagem inicial, verificar critérios de elegibilidade e reintroduzir o medicamento [1].
Pacientes com hepatite B crônica devem ser avaliados quanto à indicação de tratamento para HBV antes da interrupção da PrEP, a fim de evitar uma possível reativação do HBV ou descompensação hepática. Também deve-se avaliar a necessidade de manutenção do tratamento com tenofovir após interrupção da PrEP [1].
Prevenção combinada à infecção pelo HIV
A PrEP compõe uma das estratégias no contexto de prevenção combinada. A prevenção combinada envolve o uso conjunto de métodos preventivos, de acordo com as possibilidades e escolhas de cada indivíduo, sem excluir ou sobrepor um método ao outro [1]. As estratégias estão descritas na mandala da prevenção combinada, conforme a Figura 3.
Figura 3 – Mandala da prevenção combinada
Fonte: Unaids Brasil (2022) [23].
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Referências
- Ministério da Saúde (Brasil), Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde. Relatório de recomendação: protocolo clínico e diretrizes terapêuticas para profilaxia pré-exposição (PrEP) oral à infecção pelo HIV. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2024.
- Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis, Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das Infecções Sexualmente Transmissíveis, do HIV/Aids e das Hepatites Virais. Nota Técnica no 8/2023-CGAHV/DCCI/SVS/MS. Dispõe sobre recomendações e atualizações acerca do uso da profilaxia pré-exposição de risco à infecção pelo HIV (PrEP) oral, incluindo a modalidade “sob demanda”. [Internet]. 2023. Disponível em: https://www.gov.br/aids/pt-br/centrais-de-conteudo/notas-tecnicas/2023/nota-tecnica-no-8_2023-cgahv_-dcci_svs_ms.pdf/view.
- Centers for Disease Control and Prevention. Sexually transmitted infections treatment guidelines, 2021. Morbidity and Mortality Weekly Report. 2021;70(4):192.
- Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das Infecções Sexualmente Transmissíveis, do HIV/Aids e das Hepatites Virais. Nota Informativa no 5/2019-DCCI/SVS/MS. Informa sobre o conceito do termo Indetectável = Intransmissível ( I = I ) para pessoas vivendo com HIV (PVHIV) que estejam em tratamento e com carga viral do HIV indetectável há pelo menos 6 (seis) meses [Internet]. 2019. Disponível em: https://www.gov.br/aids/pt-br/centrais-de-conteudo/notas-informativas/2019/nota_informativa_5_2019_diahv_svs_ms-informa_sobre_o_conceito_do_termo_indetectavel.pdf/view.
- Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das Infecções Sexualmente Transmissíveis, do HIV/Aids e das Hepatites Virais. Manual técnico para o diagnóstico da infecção pelo HIV em adultos e crianças. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2016.
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- Cottrell ML, Prince HMA, Schauer AP, Sykes C, Maffuid K, Poliseno A, et al. Decreased tenofovir diphosphate concentrations in a transgender female cohort: implications for human immunodeficiency virus preexposure prophylaxis. Clinical Infectious Diseases. 2019;69(12):2201–4.
- Deutsch MB, Glidden DV, Sevelius J, Keatley J, McMahan V, Guanira J, et al. HIV pre-exposure prophylaxis in transgender women: a subgroup analysis of the iPrEx trial. The Lancet HIV. 2015;2(12):e512–9.
- Cattani VB, Jalil E, Torres T, Cardoso S, Eksterman L, Castro C, et al. No impact of feminizing hormone therapy on daily oral pre-exposure prophylaxis effectiveness among Brazilian trans women vulnerable to HIV infection ’ the PrEParadas Study. Em Berlim: International Aids Society; 2021.
- Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis, Coordenação-Geral de Vigilância do HIV/Aids e das Hepatites Virais. Nota Técnica no 26/2024-CGAHV/DATHI/SVSA/MS. Dispõe sobre recomendações sobre o uso do autoteste de HIV para início e seguimento da profilaxia pré-exposição (PrEP) oral de risco ao HIV no contexto do teleatendimento. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2024.
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Como citar este documento:
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia, TelessaúdeRS. Rio Grande do Sul, Secretaria Estadual da Saúde. Como prescrever a profilaxia pré-exposição (PrEP) de risco à infecção pelo HIV? Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 26 maio 2025 [citado em “dia, mês abreviado e ano”]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/quando-e-recomendada-e-como-fazer-profilaxia-pre-exposicao-prep-ao-hiv/.
Publicador
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL | TelessaúdeRS-UFRGS