Como realizar o tratamento para hepatite C na APS?
Todos os pacientes com hepatite C confirmada têm indicação de tratamento antiviral [1].
O tratamento atual é simples, seguro e altamente eficaz, realizado com medicações orais, de fácil posologia e com bom perfil de tolerância, visto que os efeitos adversos graves são raros durante o tratamento [1–3].
No final de 2021, houve a transferência dos medicamentos de hepatites virais para o Componente Estratégico da Atenção Farmacêutica, com o protocolo de dispensação passando a ser semelhante aos tuberculostáticos e antirretrovirais [4].
Os candidatos ao tratamento da hepatite C na Atenção Primária à Saúde (APS) são os pacientes que [5]:
- não apresentam cirrose (APRI < 1); e
- não apresentam coinfecção com hepatite B ou HIV; e
- não apresentam doença renal crônica avançada (TFG < 30 mL/min); e
- não têm feito uso prévio de antivirais de ação direta (DAA) para hepatite C.
Pode-se avaliar um paciente com suspeita de cirrose pela morfologia hepática na ultrassonografia de abdome superior e pelo cálculo do escore APRI. Clique aqui para fazer o cálculo do escore APRI. O Quadro 1 descreve a fórmula para o cálculo e a sua interpretação:
Quadro 1 – Cálculo do escore de APRI e interpretação
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< 0,5: baixa probabilidade de fibrose hepática F2-F4.
< 1,0: baixa probabilidade de cirrose (F4). > 1,5: alta probabilidade de fibrose hepática F3 ou F4. > 2,0: alta probabilidade de cirrose (F4). |
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2023), adaptado de Ministério da Saúde (2019) [1].
Em locais de difícil acesso à consulta especializada, excepcionalmente, podem ser considerados para tratamento na APS os pacientes com cirrose compensada. Nesses casos, deve ser feita avaliação complementar com albumina, tempo de protrombina e bilirrubinas antes do tratamento, para confirmar que o paciente encontra-se no estágio A de Child-Pugh (Quadro 2) [6].
Quadro 2 – Escore Child-Pugh para estadiamento da cirrose
| Achado clínico/ laboratorial | 1 ponto | 2 pontos | 3 pontos |
|---|---|---|---|
| Bilirrubina sérica | < 2,0 mg/dL | 2,0 a 3,0 mg/dL | > 3,0 mg/dL |
| Albumina sérica | > 3,5 g/dL | 2,8 a 3,5 g/dL | < 2,8 g/dL |
| Ascite | Nenhuma | Leve / facilmente controlada |
Moderada / mal controlada |
| Encefalopatia | Ausente | Grau 1 e 2 | Grau 3 e 4 |
| Tempo de protrombina (acima do controle) ou RNI |
< 4 segundos ou < 1,7 |
4 a 6 segundos ou 1,7 a 2,3 |
> 6 segundos ou > 2,3 |
| Classificação de encefalopatia hepática: 1. Consciência normal; alterações de humor e comportamento, confusão leve. 2. Letargia; sonolência, apatia, lentidão nas respostas, desorientação, comportamento inadequado, disartria. 3. Semitorpor; desperta a estímulos verbais e dolorosos, confusão, desorientação grosseira, agitação, agressividade,rigidez muscular. 4. Torpor a coma; irresponsividade a estímulos, resposta flutuante à dor, rigidez muscular. Resultado: |
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Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2025), adaptado de Goldberg e Chopra (2023) e Ministério da Saúde (2018, 2023) [7–9].
Antes do início do tratamento, deve-se avaliar se há interações relevantes entre os medicamentos em uso pelo paciente e os antivirais. A interação pode ser conferida no Anexo A do PCDT de hepatite C ou pelo site da Universidade de Liverpool. Quando houver interações importantes com medicamentos que não possam ser suspensos pelo período total do tratamento, o paciente deve ser encaminhado para tratamento na atenção especializada [1,5]. O paciente também deve ser instruído a não iniciar novos medicamentos sem avaliação médica e a evitar a automedicação [1].
A avaliação pré-tratamento inclui os seguintes exames [1,6]:
- Carga viral do vírus da hepatite C (HCV-RNA medido por PCR) dos últimos 12 meses (clique aqui para acessar o formulário).
- Hemograma com plaquetas.
- Creatinina.
- AST/TGO e ALT/TGP.
- Teste rápido para hepatite B ou HBsAg.
- B-hCG para mulheres em idade fértil (entre 12 e 49 anos).
Outros exames podem ser úteis, mas não são essenciais a todos os pacientes para fins do tratamento antiviral [1,3]:
- Bilirrubinas, tempo de protrombina e albumina: essenciais em cirróticos.
- Ultrassonografia de abdome: recomendada para cirróticos, de forma independente e em paralelo ao tratamento.
- Testes rápidos ou sorologias para HIV e sífilis.
Com o surgimento de novas diretrizes internacionais e de novas evidências científicas, a simplificação das etapas de diagnóstico e de tratamento da hepatite C se tornou mandatória. Isso inclui o uso de medicamentos pangenotípicos e a consequente dispensabilidade da genotipagem do vírus da hepatite C para definição de tratamento para pacientes adultos e pediátricos com 12 anos ou mais, ou pesando pelo menos 30 kg. Portanto, o exame de genotipagem ficará reservado somente para pacientes com idade entre 3 e 11 anos e pesando menos de 30 kg [10,11].
Os esquemas terapêuticos indicados para tratamento de HCV na APS estão descritos no Quadro 3.
Quadro 3 – Esquemas terapêuticos indicados para adultos e crianças a partir de 12 anos ou pesando pelo menos 30 kg, sem tratamento prévio com antivirais de ação direta (DAA), segundo o tempo de tratamento e condição clínica
| Estadiamento hepático | Esquema de tratamento | |
|---|---|---|
| Escore de APRI < 1 | Sofosbuvir 400 mg, 1 comprimido, 1x/dia + daclatasvir 60 mg, 1 comprimido, 1x/dia, por 12 semanas | |
| Escore APRI ≥ 1 e cirrose* compensada (Child A) | Sofosbuvir 400 mg / velpatasvir 100 mg, 1 comprimido, 1x/dia, por 12 semanas | |
* Pacientes com cirrose ou fibrose hepática avançada (F3) têm indicação de encaminhamento especializado para manutenção do seguimento, mesmo após o tratamento.
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2023), adaptado de Ministério da Saúde (2023)[10].
O tratamento deve ser solicitado por meio de formulário específico em uma das Unidades de Dispensação de Medicamentos (UDM). Em municípios que não têm UDM cadastrada, a dispensação poderá ser feita nas farmácias municipais vinculadas à UDM. (Para saber mais detalhes no âmbito do estado do Rio Grande do Sul, clique aqui e leia a Resolução CIB n. 240/21. O tratamento de até 12 semanas será dispensado todo em uma única vez ao paciente [4].
Os formulários para coleta de carga viral estão disponíveis no site do Ministério da Saúde. Há disponibilidade de coleta de carga viral de forma descentralizada [12] e diferentes fluxos locais.
Os documentos necessários para retirada dos medicamentos e que devem ser fornecidos ao paciente ou diretamente à UDM são os seguintes [4]:
- Cópia do Cartão Nacional de Saúde (CNS).
- Cópia de documento de identificação (RG).
- Prescrição médica.
- Exame de carga viral (HCV-RNA quantitativo) dos últimos 12 meses.
- Teste β-HCG para mulheres em idade fértil (entre 12 e 49 anos), realizado até 15 dias antes da solicitação dos medicamentos.
- exames laboratoriais: hemograma, plaquetas, AST, ALT, creatinina sérica.
Não há necessidade de acompanhamento clínico ou laboratorial durante o uso dos medicamentos [1].
A taxa de cura é elevada, acima de 95%. A adesão ao tratamento é o fator primordial para esse sucesso [6]. Deve-se enfatizar que o paciente ingira o antiviral diariamente, sem falhas. Efeitos adversos, quando existentes, são geralmente leves e bem tolerados [1,13]. Os mais comuns são cefaleia, fadiga e náuseas [13], geralmente presentes nos primeiros dias de tratamento e com resolução espontânea. Outros eventos adversos menos comuns, relatados em menos de 5% dos casos, são diarreia, tontura, irritabilidade, sintomas depressivos e prurido, também geralmente autolimitados e sem gravidade [14,15].
Para controle da cura, deve ser solicitada nova carga viral, a ser coletada a partir de 12 semanas após o término do tratamento antiviral. Um resultado negativo (indetectável) após esse intervalo define a resposta virológica sustentada, considerada cura da infecção viral. Caso persista com carga viral detectável, é considerada falha ao tratamento [1,2], e o paciente deverá ser encaminhado à atenção especializada [16].
Após a cura, todos os pacientes com cirrose e/ou fibrose avançada (F3 por biópsia ou elastografia) devem manter acompanhamento regular, preferencialmente em serviço de gastroenterologia ou hepatologia, para a identificação precoce de possíveis quadros de descompensação hepática e carcinoma hepatocelular (CHC) [10]. Os demais pacientes com graus mais leves de fibrose hepática, ou mesmo ausência de fibrose, podem manter o seguimento clínico usual na APS e têm indicação de serem acompanhados regularmente após a cura apenas se apresentarem outros fatores de risco importantes para a doença hepática, como, por exemplo, obesidade, diabetes tipo 2, uso excessivo de álcool, dislipidemia importante e coinfecções com HIV ou HBV [10].
Devem ser encaminhados para atenção especializada (infectologia, serviço de assistência especializada (SAE) ou gastroenterologia), para terapia antiviral, os pacientes que apresentam uma ou mais das seguintes condições [1,16–18]:
- Suspeita ou diagnóstico de cirrose (preferencialmente agenda de gastroenterologia).
- Hepatite crônica por HCV em paciente com hepatocarcinoma (agenda de gastroenterologia).
- Coinfecção com HIV.
- Coinfecção com hepatite B.
- Doença renal crônica com TFG < 30 mL/min/1,73m².
- História de tratamento prévio para a hepatite C com DAA*, sem resposta virológica.
- Neoplasias (com exceção de câncer de pele não melanoma).
- Transplantados em uso de terapia imunossupressora.
- Manifestações extra-hepáticas graves (vasculites sistêmicas, glomerulopatias).
- Uso de medicamentos com interação significativa com os antivirais.
*DAA: daclatasvir, ledipasvir, velpatasvir, elbasvir, ombitasvir/veruprevir/ritonavir + dasabuvir, pibrentasvir, simeprevir, glecaprevir, grazoprevir, sofosbuvir.
Os medicamentos utilizados para o tratamento da hepatite C são contraindicados durante a gestação e o aleitamento materno. A gravidez deverá ser evitada durante todo o tratamento contra hepatite C e durante os 6 meses seguintes ao seu término. Se confirmada a gestação durante o tratamento, os antivirais devem ser suspensos [1,19].
Gestantes com HCV devem aguardar após o parto e final do aleitamento para início do tratamento antiviral. Após esse período, se não houver outros critérios de encaminhamento para atenção especializada, o tratamento poderá ser realizado na APS [1,19].
Ser portadora de HCV não contraindica a amamentação, exceto se houver fissuras mamárias. Em caso de fissura mamária, deve ser orientada a interrupção temporária do aleitamento na mama afetada, bem como ordenha e descarte do leite até a cicatrização [1,19].
Não existem medidas preventivas para evitar a transmissão vertical do HCV. Portanto, o recém-nascido exposto deve realizar seguimento no SAE ou infectologia pediátrica, até exclusão da infecção pelo HCV [1,19].
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Referências:
- Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das Infecções Sexualmente Transmissíveis, do HIV/Aids e das Hepatites Virais. Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas para hepatite C e coinfecções [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2019 [citado 6 de março de 2025]. Disponível em: http://antigo.aids.gov.br/pt-br/pub/2017/protocolo-clinico-e-diretrizes-terapeuticas-para-hepatite-c-e-coinfeccoes.
- European Association for the Study of the Liver. Electronic address: easloffice@easloffice.eu, European Association for the Study of the Liver. EASL recommendations on treatment of hepatitis C 2018. Journal of Hepatology. agosto de 2018;69(2):461–511.
- Miller LS, Robson SC, Fedorowicz Z, Ehrlich A. Chronic hepatitis C Infection [Internet]. DynaMed. 2024 [citado 6 de março de 2025]. Disponível em: https://www.dynamed.com/condition/chronic-hepatitis-c-infection.
- Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Nota Técnica no 319/2020-CGAHV/.DCCI/SVS/MS [Internet]. 2020. Disponível em: http://antigo.aids.gov.br/pt-br/legislacao/nota-tecnica-no-3192020-cgahvdccisvsms.
- Kapadia SN, Marks KM. Hepatitis C management simplification from test to cure: a framework for primary care providers. Clinical Therapeutics. 2018;40(8):1234–45.
- Chopra S, Arora S. Patient evaluation and selection for antiviral therapy for chronic hepatitis C virus infection [Internet]. UpToDate. 2025 [citado 6 de março de 2025]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/patient-evaluation-and-selection-for-antiviral-therapy-for-chronic-hepatitis-c-virus-infection.
- Goldberg E, Chopra S, Rubin JN. Cirrhosis in adults: overview of complications, general management, and prognosis [Internet]. UpToDate. 2025 [citado 6 de março de 2025]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/cirrhosis-in-adults-overview-of-complications-general-management-and-prognosis.
- Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Atenção à Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos. Portaria no 13, de 13 de março de 2018. Torna pública a decisão de atualizar o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para hepatite C crônica e coinfecções, no âmbito do Sistema Único de Saúde – SUS. [Internet]. mar 13, 2018. Disponível em: https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/protocolos/pcdt_hepatitec_2018.pdf.
- Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Complexo da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas de hepatite B e coinfecções. [Internet] Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2023. [citado 6 de março de 2025]. Disponível em: https://www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/publicacoes/2023/protocolo-clinico-e-diretrizes-terapeuticas-de-hepatite-b-e-coinfeccoes-2023_.pdf/view.
- Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Nota Técnica no 280/2023-CGAHV/.DATHI/SVSA/MS. Revoga e substitui as orientações da Nota Técnica no 30/2023-CGAHV/.DVIAHV/SVSA/MS, e atualiza os esquemas terapêuticos disponíveis para tratamento da hepatite C no âmbito do SUS. [Internet]. 2023. Disponível em: https://www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/notas-tecnicas/2023/nota-tecnica-no-280_2023-revoga-nt-30_2023.pdf/view.
- Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Ofício Circular no 5/2023/CGAHV/.DVIAHV/SVSA/MS [Internet]. Fev 2, 2023. Disponível em: https://www.dive.sc.gov.br/phocadownload/doencas-agravos/Hepatite%20C/Publica%C3%A7%C3%B5es/OC05-2023-HCV.pdf.
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- 19. Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas para prevenção da transmissão vertical de HIV, sífilis e hepatites virais [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2022 [citado 6 de março de 2025]. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/protocolo_clinico_hiv_sifilis_hepatites.pdf.
Como citar este documento:
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia, TelessaúdeRS. Rio Grande do Sul, Secretaria Estadual da Saúde. Como realizar o tratamento para hepatite C na APS? Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 17 mar. 2025 [citado em “dia, mês abreviado e ano”]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/como-realizar-o-tratamento-para-hepatite-c-na-aps/
Publicador
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL | TelessaúdeRS-UFRGS
