Como deve ser realizada a profilaxia pós-exposição (PEP) ocupacional e sexual?
Inicialmente, deve-se realizar a investigação diagnóstica, com testes rápidos para HIV, hepatites B e C e sífilis, na pessoa exposta e na pessoa-fonte, sempre que esta estiver disponível. Contudo, não se deve atrasar nem condicionar o atendimento da pessoa exposta à presença da pessoa-fonte [1,2].
HIV
A indicação de profilaxia pós-exposição (PEP) dependerá do status sorológico para HIV da pessoa exposta, do tipo de material biológico, do tipo de exposição e do tempo transcorrido desde a exposição até o atendimento. Se a pessoa-fonte estiver disponível, seu status sorológico pode auxiliar na indicação da PEP [1–3]. A Figura 1 resume a indicação.
Figura 1 – Indicação de profilaxia pós-exposição ao HIV
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2024), adaptado de Ministério da Saúde (2024) [2].
Faça o download do fluxograma aqui.
São considerados materiais biológicos com risco de transmissão do HIV: sangue, sêmen, fluidos vaginais, líquidos de serosas (peritoneal, pleural, pericárdico), líquido amniótico, líquor, líquido articular e leite materno. A presença de sangue em outras secreções torna esses materiais potencialmente infectantes [2–5].
A PEP deve ser iniciada o mais precocemente possível, idealmente nas primeiras 2 horas após a exposição e tendo como limite 72 horas subsequentes à exposição. Nos casos em que o atendimento ocorrer após 72 horas da exposição, a PEP não está indicada. No entanto, se o material biológico e o tipo de exposição forem de risco, recomenda-se acompanhamento sorológico (ver o tópico Seguimento), além de orientações sobre prevenção combinada [2].
| Esquema preferencial para PEP HIV em adultos |
|---|
| 1 comprimido coformulado de tenofovir/lamivudina (TDF/3TC) 300 mg/300 mg, 1x/dia + 1 comprimido de dolutegravir (DTG¹) 50 mg, 1x/dia. A duração da PEP é de 28 dias [2]. |
¹O uso concomitante de rifampicina, fenitoína, fenobarbital ou carbamazepina requer ajuste da dose do DTG para 50mg, 12/12h [2].
Para acesso ao receituário de prescrição de PEP, clique aqui.
De acordo com o Parecer nº 12/2020/CTAS/Cofen, considerando o contexto epidemiológico atual da infecção pelo HIV no Brasil e a necessidade de ampliação das políticas de prevenção a essa infecção, é permitido ao enfermeiro, como integrante da equipe de saúde, prescrever medicamento de PEP e profilaxia pré-exposição (PrEP), desde que estejam estabelecidos em programas de saúde pública e em rotina aprovada pela instituição de saúde. Para tal, são necessários capacitação técnica, educação continuada e o dimensionamento adequado das equipes, a fim de poder assegurar a assistência de qualidade para o paciente [2,6].
Contraindicações
As mesmas contraindicações aos antirretrovirais (ARV) devem ser observadas ao se iniciar PEP:
- Insuficiência renal crônica* [2,7].
- Uso de medicações anticonvulsivantes com interação medicamentosa, dofetilida e pilsicainida [2,7,8].
*TDF está associado com a possibilidade de toxicidade renal, especialmente em pessoas com doenças renais preexistentes (ou com fatores de risco), quando a taxa de filtração glomerular for menor que 50 mL/min, ou em pessoas com história de longa duração de diabetes, hipertensão arterial descontrolada ou insuficiência renal. Nesses casos, a indicação deve ser avaliada, já que a duração da exposição ao medicamento será curta (28 dias) e provavelmente reversível com a suspensão do medicamento [2].
Nos casos com contraindicações ao esquema preferencial, devem ser usados esquemas alternativos. Veja mais aqui.
Situações especiais
Algumas situações indicam a necessidade de avaliação com brevidade em serviço especializado, após o início de PEP [2,9]:
- Pessoa-fonte que já utilize terapia antirretroviral (Tarv) em esquemas alternativos ou tenha carga viral detectável. Nesses casos, é importante que a pessoa exposta inicie a PEP e seja reavaliada o mais brevemente possível em serviço especializado para adequação do esquema de PEP.
- Pessoa exposta portadora de hepatite B concomitante.
- Pessoa exposta com necessidade de utilizar esquemas alternativos
- Crianças expostas com ou sem indicação de PEP.
Para casos de violência sexual, avaliar localmente o fluxo para atendimento inicial e seguimento [2].
O esquema preferencial de PEP para gestantes, independente da idade gestacional, é o mesmo da população geral. Este esquema é seguro e eficaz para uso na gestação e no período periconcepcional [2].
Para as lactantes com exposição de risco, deve-se orientar sobre o potencial risco de transmissão do HIV pelo leite materno e, nesses casos, é recomendada a interrupção temporária da amamentação. Durante o período de janela imunológica, deve-se realizar orientação quanto ao cuidado das mamas e extração e descarte do leite ordenhado, além de garantir o fornecimento de leite para a criança pelo banco de leite ou por fórmula láctea. Se a testagem para HIV na 12ª semana após início da PEP for não reagente, estará autorizada a reintrodução do aleitamento materno [2].
Para as crianças que foram amamentadas por pessoa-fonte com risco de transmissão de HIV, deve-se orientar a imediata interrupção da amamentação, enquanto se realiza investigação diagnóstica. Deverão ser realizados exame de CV-HIV e o início da PEP (até 72 horas da última exposição), simultaneamente à investigação diagnóstica [2]. O esquema preferencial de PEP em crianças (com exposição por violência sexual, aleitamento ou acidente com material biológico) deve ser composto de três ARV. O DTG comprimido para suspensão de 5 mg deve ser o terceiro ARV preferencial para crianças com mais de 4 semanas e com peso entre 3 a 20 kg, conforme o Quadro 1. Na impossibilidade de uso do esquema preferencial e para crianças entre 0 e 4 semanas, os esquemas alternativos podem ser consultados aqui.
Quadro 1 – Esquema preferencial de PEP para crianças entre 4 semanas e 12 anos
| Peso | Esquema ARV preferencial | |
|---|---|---|
| ⩽ 35 kg | AZT + 3TC + DTG por 28 dias | |
| > 35 kg | TDF + 3TC + DTG por 28 dias | |
| Doses dos ARV que compõem o esquema preferencial, de acordo com o peso | ||
| Zidovudina (AZT) Solução oral 10 mg/mL |
até 4 kg: 4 mg/kg/dose 4-9 kg: 12 mg/kg/dose, 12/12 h 9-30 kg: 9 mg/kg/dose, 12/12 h ≥ 30 kg: 300 mg, 12/12h¹ |
|
| Lamivudina (3TC) Solução oral 10 mg/mL |
RN com ≥ 34 semanas de IG e
≥ 12 anos: 150 mg, 12/12 h¹ |
|
| Tenofovir + lamivudina (TDF+3TC) Comprimido combinado 300 mg + 300 mg |
⩽ 35 kg: não recomendado > 35kg: 1 comprimido/dia |
|
| Dolutegravir (DTG) Comprimido para suspensão 5 mg³ |
Acima de 4 semanas: 3-6 kg: 5 mg (1 comprimido, 1x/dia) 6-10 kg < 6 meses: 10 mg (2 comprimidos, 1x/dia) 6-10 kg > 6 meses: 15 mg (3 comprimidos, 1x/dia) 10-14 kg: 20 mg (4 comprimidos 1x/dia) 14-20 kg: 25 mg (5 comprimidos, 1x/dia) Acima de 20 kg: 50 mg² |
|
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2024), adaptado de Brasil (2024, 2023) [2,10].
¹ Para pacientes que conseguem deglutir comprimidos, há a possibilidade de uso de comprimido combinado de AZT + 3TC 300 mg + 150 mg, 1 comprimido, 12/12 h.
² Para crianças acima de 20 kg deve ser usado o DTG comprimido revestido de 50 mg. O uso do comprimido para suspensão de 5 mg fica restrito a crianças com peso abaixo de 20 kg e aquelas com peso acima de 20 kg que não conseguem deglutir comprimidos.
³ Comprimidos para suspensão podem ser engolidos inteiros com água potável ou dispersos em água potável, com ou sem alimento. Caso seja engolido inteiro, deve-se tomar 1 comprimido por vez para evitar engasgos. Se forem dispersados, a quantidade de água depende do número de comprimidos: 5 mL de água para 1 a 3 comprimidos, 10 mL de água para 4 a 6 comprimidos. Os comprimidos devem ser totalmente dispersos antes de engolir; não devem ser mastigados, macerados ou partidos.
Como o DTG aumenta a concentração plasmática da metformina, deve-se reavaliar a dose em pacientes diabéticos que utilizam metformina. Nesses casos, a dose máxima da metformina deve ser de 1g/dia [2,8,9].
Seguimento
O seguimento da pessoa com indicação de PEP deve levar em consideração a avaliação de medos e expectativas pós-exposição de risco ao HIV, a toxicidade dos ARV, a testagem para HIV, a avaliação laboratorial e a manutenção de medidas de prevenção combinada do HIV [2].
Deve-se orientar o retorno à unidade de saúde caso apresente efeitos adversos da medicação. Durante o seguimento, há indicação de monitoramento ativo de sinais e sintomas compatíveis com infecção retroviral aguda, hepatites virais agudas e outras infecções sexualmente transmissíveis (IST), nas situações de exposição sexual. A indicação de exames laboratoriais no início da PEP e no seguimento devem ser adequados às condições de saúde pré-existentes da pessoa exposta e à toxicidade conhecida dos ARV indicados para PEP [2].
Caso não haja possibilidade de realização dos exames no tempo 0, isso não deve postergar o início da PEP. Nesses casos, os exames devem ser solicitados apenas no seguimento. A disponibilidade dos exames não deve ser uma barreira para prescrição de PEP. O seguimento laboratorial é descrito no Quadro 2.
Nos casos com exposição de risco, mas sem indicação de PEP, deve-se orientar medidas de prevenção combinadas, manter vigilância sobre sinais de sintomas de infecção aguda pelo HIV, além de sintomas de IST e hepatites virais agudas, e realizar o seguimento sorológico, conforme o Quadro 2 [2].
Quadro 2 – Exames de avaliação inicial e seguimento de profilaxia pós-exposição
| Tempo em relação à exposição | ||||
|---|---|---|---|---|
| Exame | Primeiro atendimento | 4 a 6semanas | 3 meses | 4 a 6meses |
| TR para HIV(ou anti-HIV) | X | X | X | |
| TR para hepatite C (ou anti-HCV) | X | X¹ | X¹ | |
| TR para hepatite B(ou HBsAg) | X | X² | X² | |
| TR para sífilis(ou teste treponêmico)³ | X | X | ||
| Anti-HBs⁴ | X | X | ||
| Anti-HAV IgM e IgG ou total⁵ | X | |||
| Carga viral do HCV (HCV-RNA)¹ | Testar se anti-HCV reagente no 1º atendimento | X | X | |
| Testagem para N. gonorrhoeae e C. trachomatis⁶ | X | X | ||
| Teste de gravidez⁷ | X | X | ||
| Exames recomendados exclusivamente para pacientes em uso de PEP⁸ | ||||
| Primeiro atendimento | Avaliação de efeitos adversos | Retorno em 4-6 semanas | ||
| Creatinina | Para pessoas de alto risco⁹ ou com história prévia de doença renal | X | Revisar exames solicitados | |
| AST, ALT | X | Revisar exames solicitados | ||
| Glicemia de jejum | Apenas para pacientes com diabetes | Apenas para pacientes com diabetes | Revisar exames solicitados | |
| Hemograma | Apenas para pacientes em uso de AZT ou com suspeita clínica de anemia | Apenas para pacientes em uso de AZT | Revisar exames solicitados | |
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2024), adaptado de Ministério da Saúde (2024) e Dominguez et al. (2018) [2,11].
¹ O seguimento quanto à infecção pelo HCV deve ser realizado quando a pessoa-fonte tiver exame positivo para HCV (TR, anti-HCV ou HCV-RNA), ou em casos de pessoa-fonte com exames não reagentes/negativos, mas com vínculo epidemiológico ou clínica sugestiva de infecção aguda. Casos de fonte desconhecida devem ser avaliados individualmente quanto ao seguimento, com base na gravidade da exposição e na probabilidade clínica e epidemiológica de infecção pelo vírus da hepatite C.
² O seguimento com teste rápido para hepatite B somente deve ser realizado se o paciente não for imune (anti-HBs não reagente), ou se não realizou profilaxia adequada (vacina e/ou imunoglobulina quando indicada), especialmente se houver sinais ou sintomas de hepatite B aguda durante o seguimento (alterações de prova de função hepática, icterícia, náusea, vômito).
³ Apenas em casos de exposição sexual: repetir em 4 a 6 semanas se teste inicial negativo ou não realizado.
⁴ O anti-HBs está indicado para casos com HBsAg não reagente, para avaliar suscetibilidade e indicação de (re)vacinação. Repetir em 30 a 60 dias após completo o esquema vacinal, quando indicado.
⁵ Apenas em casos de exposição sexual: anti-HAV IgG ou total para avaliar suscetibilidade. Anti-HAV IgM deve ser solicitado se suspeita clínica de infecção aguda.
⁶ Apenas para casos de exposição sexual. Preferencialmente uso de PCR (swab ou urina), quando esse método de diagnóstico estiver disponível no serviço de saúde. Repetir o teste no seguimento se o primeiro for negativo. Em todas as consultas, investigar presença de sinais e sintomas de IST.
⁷ Apenas para casos de exposição sexual com suspeita ou possibilidade de gestação. Repetir em 4 a 6 semanas se o teste inicial for negativo ou não realizado.
⁸ Caso não haja possibilidade de realização dos exames no tempo 0, isso não deve postergar o início da PEP. Nesse caso, os exames devem ser solicitados apenas no seguimento.
⁹ Alto risco de doença renal: hipertensão não controlada, diabetes não tratada ou uso de outros fármacos nefrotóxicos.
Durante o acompanhamento da pessoa exposta, devem ser orientadas medidas de prevenção à infecção pelo HIV, como o uso de preservativos, não compartilhamento de seringas e agulhas, além da contraindicação de doação de sangue, órgãos, tecidos ou esperma, e a importância de evitar a gravidez [2]. Toda pessoa com indicação de PEP por exposição sexual deve ser avaliada se não há indicação de PrEP, após completar o esquema da PEP [2,4]. Veja as indicações de PrEP aqui.
Hepatites virais
Hepatite A
Recomenda-se avaliar todo paciente com exposição sexual de risco ao HIV para um eventual episódio de infecção aguda pelo vírus da hepatite A. Apesar de não ser a via de transmissão mais comum, a magnitude da transmissão sexual da hepatite A é provavelmente subestimada. Recentemente, têm sido reportados diversos surtos de transmissão sexual de hepatite A, especialmente entre homens que fazem sexo com homens [2,12–16]. A infecção aguda é sintomática em cerca de 70% dos adultos [14] e os sintomas variam desde astenia, fraqueza, náuseas, vômitos, diarreia, febre, dor abdominal e icterícia. Formas graves, como hepatite fulminante, ocorrem em menos de 1% dos casos [14].
Deve-se verificar, sempre que possível, a susceptibilidade da pessoa exposta por meio de exame sorológico específico: anti-HAV IgG ou total [2]. Caso a pesquisa dos anticorpos seja não reagente, deve-se avaliar se há indicação de vacinação da pessoa exposta, obedecendo-se aos critérios de vacinação para essa infecção, dispostos no Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (Crie) vigente [1,4]. A presença de anti-HAV IgG reagente demonstra imunidade definitiva da pessoa exposta e, nesse caso, nenhuma medida adicional se faz necessária. A pesquisa de anti-HAV IgM deve ser realizada mediante suspeita clínica de infecção aguda em pacientes suscetíveis. A detecção de anti-HAV IgM reagente sugere episódio agudo de infecção por esse vírus [2].
Hepatite B
Recomenda-se realizar imediatamente a testagem para hepatite B da pessoa exposta e da pessoa-fonte (quando presente), preferencialmente com teste rápido (que detecta o HBsAg). Também deve ser verificado o resultado de anti-HBs da pessoa exposta. Existe uma janela para início da imunoglobulina de até 7 dias (para exposição percutânea) e de até 14 dias (para exposição sexual), embora se recomende preferencialmente o uso nas primeiras 48 horas após a exposição. Portanto, esses resultados devem ser avaliados assim que disponíveis, para possibilitar o início precoce da imunoglobulina quando indicada [2,3,17–19].
Se o resultado da pessoa exposta for positivo, a infecção pelo vírus da hepatite B ocorreu antes da exposição que motivou o atendimento, e a pessoa deve ser encaminhada para confirmação laboratorial e acompanhamento clínico. Nos pacientes com hepatite B prévia, não há indicação de vacinação ou profilaxia de hepatite B. Nesses pacientes, deve-se ter atenção quando houver indicação de PEP do HIV, pois os antirretrovirais tenofovir e lamivudina são ativos contra o vírus B. Caso o paciente já faça uso de tenofovir ou lamivudina para a hepatite B, deve suspender o uso enquanto estiver com a PEP (para evitar duplicidade desses antivirais). Pode haver reativação da hepatite quando da suspensão da PEP, com elevação de enzimas hepáticas ou mesmo descompensação da doença hepática prévia [2]. Esses casos devem ser acompanhados preferencialmente em conjunto com o serviço especializado [2,18].
Se o resultado do HBsAg for negativo, a pessoa exposta não tem, no momento da testagem, evidência de infecção atual, devendo-se avaliar o status sorológico da pessoa-fonte quanto à hepatite B (se disponível) e o status vacinal da pessoa exposta (ver Quadro 3). As medidas de profilaxia podem envolver vacinação e imunoglobulina [19].
Recomenda-se imunizar todas as pessoas expostas não previamente vacinadas, ou sem conhecimento de vacinação prévia e sem indícios de infecção por HBV (HBsAg ou teste rápido para hepatite B não reagente), independentemente da idade [2,14,19]. Se possível, a primeira dose da vacina deve ser administrada no momento do primeiro atendimento, preferencialmente nas primeiras 24 horas após a exposição [2]. O esquema vacinal é feito com 3 doses, nos momentos 0, 1 e 6 meses [19].
O uso de imunoglobulina hiperimune contra hepatite B (IGHAHB) é indicado apenas em casos selecionados (ver Quadro 3). Reserva-se o uso para os casos em que a pessoa-fonte for positiva para hepatite B e a pessoa exposta não tiver resposta vacinal adequada conhecida. Exceção a essa regra é o uso em pessoas sem resposta vacinal após 6 doses, em que a IGHAHB é indicada se a fonte tiver status desconhecido. A IGHAHB não deve ser utilizada quando a pessoa exposta tiver resposta vacinal conhecida e adequada (anti-HBs > 10 UI/mL) [2,19].
Quando indicada, a IGHAHB deve ser administrada em dose única de 0,06 mL/kg, intramuscular, em extremidade diferente da que recebeu a vacina para hepatite B; e se a dose da imunoglobulina ultrapassar 5 mL, deve-se dividir a aplicação em duas áreas corporais diferentes. Em situações especiais (ver Quadro 3), a IGHAHB tem indicação de 2 doses, com intervalo de 1 mês entre elas [2,19].
Para determinar a imunidade, a pessoa exposta, após a profilaxia indicada, deve realizar um teste anti-HBs em 1 a 2 meses após a última dose do esquema de vacinas para hepatite B e pelo menos 6 meses após a administração de IGHAHB [2].
Quadro 3 – Recomendações de profilaxia de hepatite B após exposição ocupacional e sexual por violência ou pessoa-fonte com HBV aguda¹
| Situação vacinal e sorológica da pessoa exposta | Pessoa-fonte | |||
|---|---|---|---|---|
| HBsAg reagente | HBsAg não reagente | Desconhecido | ||
| Resposta vacinal conhecida e adequada (anti-HBs > 10 UI/mL) | Nenhuma medida | Nenhuma medida | Nenhuma medida | |
| Resposta vacinal desconhecida
Testar a pessoa exposta (anti-HBs) |
Anti-HBs > 10 UI/mL | Nenhuma conduta adicional | Nenhuma conduta adicional | Nenhuma conduta adicional |
| Anti-HBs < 10 UI/mL | IGHAHB + primeira dose da segunda série da vacinação | Iniciar a segunda série de vacinação | Iniciar a segunda série de vacinação | |
| Não vacinado | IGHAHB + vacinação | Iniciar vacinação | Iniciar vacinação² | |
| Vacinação incompleta | IGHAHB + completar vacinação | Completar vacinação | Completar vacinação² | |
| Sem resposta vacinal após a primeira série (3 doses) | IGHAHB + primeira dose da segunda série da vacina | Iniciar nova série de vacinação (3 doses) | Iniciar nova série de vacinação (3 doses)² | |
| Sem resposta vacinal após a segunda série (6 doses) | IGHAHB (2 doses³) | Nenhuma medida | IGHAHB (2 doses³) | |
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2024), adaptado de Ministério da Saúde (2019, 2024) [2,18].
¹ Recomendações aplicáveis para exposição sexual de pessoa suscetível em duas circunstâncias: por agressão sexual com pessoa-fonte portadora conhecida ou potencial do vírus da hepatite B (pessoa-fonte usuária de drogas, em diálise, contatos de pessoas com hepatite B, pessoas com múltiplas relações sexuais desprotegidas, pessoas provenientes de áreas de alta endemicidade para hepatite B, pessoas privadas de liberdade ou pessoas em instituições de longa permanência); ou exposição sexual consentida com pessoa-fonte com hepatite B aguda.
² Recomenda-se associar IGHAHB quando o paciente-fonte tiver sorologia desconhecida, mas alto risco de hepatite B crônica, como nos seguintes casos: usuários de drogas injetáveis, pacientes em programas de diálise, contatos domiciliares e sexuais de portadores de HBsAg, pessoas com várias parcerias sexuais e/ou relações sexuais desprotegidas, história prévia de doenças sexualmente transmissíveis, pacientes provenientes de áreas geográficas de alta endemicidade para hepatite B, indivíduos privados de liberdade ou outras formas de institucionalização.
³ Duas doses de imunoglobulina hiperimune para hepatite B, com intervalo de 1 mês entre as doses. Essa opção deve ser indicada para aqueles que já receberam 2 séries de 3 doses da vacina, mas não apresentaram resposta vacinal ou não apresentam alergia grave à vacina.
Hepatite C
Deve-se solicitar teste rápido para hepatite C ou anti-HCV da pessoa exposta e da pessoa-fonte, quando for disponível [2,20]. Não há profilaxia medicamentosa para a hepatite C, no entanto os antivirais são altamente eficazes na cura da infecção caso ela se estabeleça. O diagnóstico precoce da infecção permite o tratamento oportuno e a prevenção das complicações da hepatite crônica, em especial cirrose e carcinoma hepatocelular [20]. O acompanhamento deve ser feito na exposição tanto ocupacional quanto sexual. Apesar de o contato sexual não ser a principal via de transmissão, essa forma é responsável por cerca de 5% das infecções, sendo que o risco de transmissão aumenta com práticas sexuais traumáticas, presença de úlcera genital, infecção pelo HIV e proctites relacionadas às IST [2,3,16].
Se o teste rápido ou anti-HCV da pessoa exposta for positivo, houve contato com o vírus da hepatite C antes da exposição que motivou o atendimento, devendo ser encaminhada para confirmação laboratorial do caso com carga viral do HCV (HCV-RNA) e para acompanhamento clínico. A terapia antiviral é altamente eficaz e deve ser considerada em todas as pessoas com hepatite C [2,18,21].
Se o teste rápido ou anti-HCV da pessoa exposta for negativo, ela não tem, no momento da testagem, sinal de contato prévio com o vírus. Nesses casos, sempre que possível, deve-se avaliar a pessoa-fonte. Caso a pessoa-fonte tenha exames de hepatite C reagentes/positivos (anti-HCV, teste rápido HCV ou HCV-RNA), o seguimento da pessoa exposta deve ser realizado conforme o Quadro 4 [2].
Se o teste rápido ou anti-HCV da pessoa-fonte for negativo, não há risco de soroconversão para a pessoa exposta e, portanto, não se faz necessário acompanhamento sorológico da pessoa exposta em relação a essa infecção. Contudo, deve-se considerar a janela diagnóstica para detecção de anticorpos, que pode variar de 33 a 129 dias. Nos casos em que a pessoa-fonte tem exames negativos/não reagentes, mas apresenta vínculo epidemiológico no período de janela ou clínica sugestiva de infecção aguda, há indicação de testar novamente a pessoa-fonte ao fim do período de janela imunológica e realizar acompanhamento sorológico da pessoa exposta com anti-HCV, ou teste rápido para HCV em 4 a 6 semanas e em 4 a 6 meses da exposição [2].
Casos de fonte desconhecida ou indeterminada devem ter seu seguimento avaliado com base na gravidade da exposição e na probabilidade clínica e epidemiológica de infecção pelo vírus da hepatite C [2].
Quadro 4 – Exames de seguimento da pessoa exposta quando a fonte for reagente para hepatite C¹
| Exame | Tempo em relação à exposição | ||
|---|---|---|---|
| 1º atendimento (< 48h) | 4-6 semanas | 4-6 meses | |
| Teste rápido hepatite C (ou anti-HCV) |
X³ | X⁴ | X⁴ |
| ALT² | X | Considerar | x |
| Carga viral do HCV (HCV-RNA) |
Se anti-HCV reagente | X⁴ | X⁴ |
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2024), adaptado de Ministério da Saúde (2024) [2].
¹ Exposição sexual ou ocupacional.
² Casos com indicação de PEP para o HIV devem realizar seguimento de enzimas hepáticas conforme o Quadro 2. Outros exames de função hepática podem ser solicitados conforme o caso se houver suspeição de infecção aguda [15].
³ Anti-HCV reagente no 1º atendimento: pessoa previamente exposta. Portanto, teve contato com o HCV antes da exposição que motivou o atendimento. Deve ser encaminhada para confirmação laboratorial do caso (realização de HCV-RNA) e para acompanhamento clínico.
⁴ A soroconversão do anti-HCV e/ou detectabilidade do HCV-RNA após a primeira consulta do indivíduo exposto indica infecção aguda pelo HCV, devendo o paciente ser encaminhado para tratamento da infecção e acompanhamento clínico.
Durante o seguimento, deve-se encaminhar a pessoa com carga viral do HCV (HCV-RNA) positiva para tratamento. Clique aqui para mais informações sobre tratamento de HCV e sobre o encerramento do caso daqueles com carga viral do HCV (HCV-RNA) negativa e/ou anti-HCV negativo após 180 dias do acidente [2].
Outras infecções sexualmente transmissíveis (IST)
Toda exposição sexual de risco ao HIV também deve ser avaliada como de risco para outras IST. Recomenda-se a investigação de sinais e sintomas de IST em todas as pessoas com exposição sexual de risco [2].
Recomenda-se testagem para sífilis em todas as pessoas com exposição sexual de risco, preferencialmente por teste rápido. Quando possível, testar também a pessoa-fonte [2,14]. Para mais informações sobre o diagnóstico e tratamento de sífilis, leia TeleCondutas de Sífilis. Em algumas situações, o tratamento pode ser iniciado com apenas um teste reagente. São elas:
- Gestantes
- Vítimas de violência sexual
- Pessoas com risco de perda de seguimento
- Pessoas com sinais e sintomas de sífilis primária ou secundária
- Pessoas sem diagnóstico prévio de sífilis [16]
As pessoas com teste rápido para sífilis inicialmente não reagente devem ser acompanhadas com nova testagem após 4 a 6 semanas da exposição. Se o teste tornar-se reagente, indica-se o tratamento como sífilis recente, com penicilina benzatina 2,4 milhões UI (1,2 milhão UI em cada glúteo), intramuscular, em dose única [16].
Para outras IST, como clamídia, gonorreia e tricomoníase, o tratamento preemptivo é recomendado apenas para pessoas vítimas de violência sexual, pelo alto risco de perda de seguimento. Para pessoas com exposição sexual consentida, a realização inicial de investigação laboratorial, sempre que disponível, é a conduta mais indicada, devido ao risco de desenvolvimento de resistência bacteriana com o tratamento preemptivo [2,16]. O seguimento laboratorial está descrito no Quadro 2. Os tratamentos recomendados são descritos no Quadro 5.
Quadro 5 –Tratamento específico para infecções sexualmente transmissíveis
| Condição | Tratamento | |
|---|---|---|
| Adultos | Crianças e adolescentes com menos de 45 kg | |
| Sífilis recente (até 1 ano de duração): primária, secundária e latente recente |
Penicilina G benzatina, 2,4 milhões UI (1,2 milhão UI em cada glúteo), IM, dose única | Penicilina G benzatina 50.000 UI/kg, IM, dose única (dose máxima total: 2,4 milhões UI) |
| Sífilis tardia (mais de 1 ano de evolução): latente tardia, latente com duração ignorada e sífilis terciária (exceto neurossífilis) |
Penicilina G benzatina, 2,4 milhões UI, (1,2 milhão UI em cada glúteo), IM, semanal, por 3 semanas (dose total: 7,2 milhões UI) | Penicilina G benzatina 50.000 UI/kg, IM, semanal, por 3 semanas (dose máxima: 2,4 milhões UI/dose) |
| Clamídia | Azitromicina 1 g, via oral, dose única | Azitromicina 20 mg/kg de peso, dose única (dose máxima total: 1g) |
| Gonorreia | Ceftriaxona 500 mg, intramuscular, dose única | Ceftriaxona 125 mg, IM, dose única |
| Tricomoníase | Metronidazol 2 g*, via oral, dose única | Metronidazol 15 mg/kg/dia, 8/8 h, por 7 dias (dose diária máxima: 2g) |
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2024), adaptado de Ministério da Saúde (2022, 2023, 2024) [2,16,22,23].
IM: intramuscular.
*Não deve ser prescrito no primeiro trimestre de gestação. Seu uso deverá ser postergado em caso de contracepção de urgência ou uso de PEP para HIV [2].
Há indicação de ofertar vacinação para HPV conforme a faixa etária e a população para pessoas não imunizadas:
- Pessoas vítimas de violência sexual, homens e mulheres entre 9 a 45 anos:
- Entre 9 e 14 anos: 2 doses (0 e 6 meses).
- Entre 15 e 45 anos: 3 doses (0, 2 e 6 meses).
- Pessoas vivendo com HIV/aids (PVHA), pessoas transplantadas de órgãos sólidos ou medula óssea e pacientes oncológicos, homens e mulheres:
-
- Entre 9 e 45 anos: 3 doses (0, 2 e 6 meses).
Anticoncepção de emergência
A anticoncepção de emergência deve ser considerada nas mulheres em idade fértil. Se a mulher exposta tiver atraso menstrual ou sinais e sintomas de gravidez, deve-se solicitar teste rápido de gravidez antes de iniciar a anticoncepção de emergência. A dose é de 1,5 mg de levonorgestrel, em dose única, ou 0,75 mg de levonorgestrel, de 12/12 horas, até 5 dias após a exposição [2]. Para mais informações, clique aqui.
Notificação
Os casos de HIV/aids, sífilis e hepatites virais diagnosticados durante o atendimento de PEP devem ser notificados em ficha de notificação específica para cada agravo [2].
Já os casos de acidentes relacionados ao trabalho devem ser notificados no Sinan. Clique aqui para acessar a ficha de notificação [2].
Nos casos de violência sexual, deve-se notificar o evento por meio da ficha de notificação individual de violência interpessoal/autoprovocada. Clique aqui para acessar a ficha de notificação. Nos casos de criança e suspeita de violência, deve-se notificar também o Conselho Tutelar local [2].
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Referências:
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Como citar este documento:
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia, TelessaúdeRS. Rio Grande do Sul, Secretaria Estadual da Saúde. Como deve ser realizada a profilaxia pós-exposição (PEP) ocupacional e sexual? Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 4 jul. 2017 [atualizado em 23 jul. 2024, citado em “dia, mês abreviado e ano”]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/ps-rofilaxia-pos-exposicao/.
Publicador
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL | TelessaúdeRS-UFRGS
