Qual é o tratamento para doença inflamatória pélvica (DIP)?

O tratamento para doença inflamatória pélvica (DIP) em não gestantes deve ser feito conforme quadro 1. Gestantes com suspeita de DIP devem ser encaminhadas para tratamento hospitalar [1–4].

Quadro 1. Tratamento da doença inflamatória pélvica em não gestantes.

Tipo do tratamento Medicação, dose e posologia
Esquema preferencial¹ Ceftriaxona² 500 mg, intramuscular, dose única;
MAIS
Doxiciclina 100 mg, 12/12 h, por 14 dias;
MAIS
Metronidazol³ 500 mg, 12/12 h, por 14 dias.
Esquemas alternativos
se alergia grave às cefalosporinas (ou desabastecimento de ceftriaxona)
Levofloxacino 500 mg, 1x/dia, por 14 dias;
MAIS
Metronidazol³ 500 mg, 12/12 h, por 14 dias.
Moxifloxacino 400 mg, 1x/dia, por 14 dias;
MAIS
Metronidazol³ 500 mg, 12/12 h, por 14 dias.
¹CDC e Ministério da Saúde recomendam o uso de doxiciclina 100 mg, 12/12 h, por 14 dias, associado à ceftriaxona como esquema preferencial em não gestantes [1,2]. Um estudo mostrou possível superioridade do uso de azitromicina 1g, 1 ×/semana, por 2 semanas, associada à ceftriaxona em comparação com o uso de doxiciclina, 100mg, 12/12 h, por 14 dias, associada à ceftriaxona [5,6].
²Para pessoas com peso igual ou maior que 150 kg, deve-se ajustar a dose de ceftriaxona para 1 g, intramuscular, dose única  [2].
³Na ausência de metronidazol 500 mg, a dose de 400 mg também pode ser usada [7,8].
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2023), adaptado de Ministério da Saúde (2022), CDC (2021).

Devido ao aumento da resistência às quinolonas pelo gonococo, essa classe de antibióticos não é recomendada para o tratamento de DIP. Entretanto, se a paciente apresentar tiver alergia grave às cefalosporinas (ou houver desabastecimento de ceftriaxona), a prevalência desse microorganismo na comunidade e o risco individual forem baixos e for possível acompanhar a paciente após o tratamento, pode ser considerado tratamento alternativo com a associação de levofloxacino 500 mg, 1x/dia OU moxifloxacino 400 mg, 1x/dia associados a metronidazol 500 mg, de 12/12 h, por 14 dias [2].

Devido à alta possibilidade de complicações decorrentes da DIP (infertilidade, gravidez ectópica e dor pélvica crônica), deve-se iniciar o tratamento com antimicrobianos sempre que houver suspeita para DIP em mulher com fatores de risco (quadro 2) que apresente pelo menos um dos sintomas [2,3,9]:

  • dor à palpação uterina;
  • dor à palpação dos anexos;
  • dor à mobilização do colo uterino.

Quadro 2. Fatores de risco para doença inflamatória pélvica.

Faixa etária Adolescentes com vida sexual ativa apresentam risco três vezes maior de desenvolver DIP aguda quando comparadas com mulheres acima de 25 anos.
Práticas sexuais Parcerias múltiplas, novas parcerias (especialmente nos últimos 3 meses), uso irregular de preservativo, história pessoal de outra IST atual ou prévia, história de parceria com diagnóstico atual ou prévio de IST.
Uso de DIU Principalmente relacionado às primeiras 3 semanas após inserção.
Instrumentalização uterina Histerossalpingografia, histeroscopia, abortamento, fertilização in vitro.
Fatores psicossociais Tabagismo, uso de álcool, transtornos de saúde mental, situação de violência doméstica/sexual.
DIU: dispositivo intrauterino; IST: infecção sexualmente transmissível.
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2023), adaptado de Ministério da Saúde (2022), CDC (2021) e Dynamed (2021) [1–3].

Para o tratamento sintomático, podem ser usados anti-inflamatórios não esteroides, como Ibuprofeno 600 mg, 8/8 h, e outros analgésicos, como Dipirona 1 g, de 6/6 h, ou Paracetamol 1 g, 6/6 h [10,11]. 

Todas as pacientes devem ser reavaliadas. Se não houver melhora considerável após três dias do início do tratamento, a paciente deve ser encaminhada para emergência [1].

Deve-se encaminhar para tratamento hospitalar os seguintes casos [1, 3, 4, 12, 13]:

  • gestação;
  • sintomas graves (febre, náusea, vômitos, defesa à palpação abdominal);
  • abscesso pélvico (incluindo abscesso tubo-ovariano);
  • necessidade de exploração ou intervenção cirúrgica (suspeita de apendicite, torção ovariana ou abscesso tubo-ovariano roto, gravidez ectópica);
  • intolerância ao tratamento por via oral ou falta de resposta ao tratamento após 72 horas.

O tratamento para DIP deve ser instituído no momento do diagnóstico clínico e, quando houver disponibilidade de exames, deve-se solicitar testagem diagnóstica para gonococo e clamídia, além de cultura de secreção endocervical com teste de sensibilidade [1,7]. Se houver evidência de infecção por gonococo, seu tratamento deve ser feito com base no teste de sensibilidade [2].

Não há evidências que suportem a retirada do DIU antes do tratamento para DIP. Somente deve ser considerada a remoção do DIU se não houver melhora dos sintomas após 48 a 72 horas do início do tratamento [1,2].

As parcerias sexuais dos últimos 60 dias, mesmo assintomáticas, devem ser tratadas para clamídia e gonococo. Se a última relação sexual da paciente tiver acontecido mais de 60 dias antes do começo dos sintomas, a parceria sexual mais recente deve ser tratada [2]. O tratamento deve ser feito com associação de ceftriaxona 500 mg, intramuscular E azitromicina 1 g, dose única OU a associação de ceftriaxona 500 mg, intramuscular E doxiciclina 100 mg, de 12/12h, por 7 dias [1,2].

As mulheres devem ser orientadas a se abster de relações sexuais até que o tratamento seja finalizado, os sintomas tenham sido resolvidos e as parcerias sexuais tenham sido tratadas [2].

Testes rápidos para HIV, sífilis e hepatites B e C devem ser ofertados para todas as pessoas que buscam atendimento ou tratamento para IST já na primeira avaliação. Esses testes rápidos também devem ser ofertados para todas as parcerias sexuais [1,2].

Sempre deve ser avaliado se a paciente tem risco aumentado para exposição ao HIV ou se pertence à população prioritária para uso de Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) de risco à infecção pelo HIV [1,14]. Se houver indicação, essa estratégia de prevenção contra a infecção por HIV deve ser oferecida [14]. Saiba mais sobre como prescrever a PrEP aqui.

 

Este conteúdo é destinado para profissionais de saúde e tem por objetivo fornecer informações atualizadas e baseadas em evidências científicas.

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Referências: 

  1. Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2022 p. 215. Disponível em: https://www.gov.br/aids/pt-br/centrais-de-conteudo/pcdts/2022/ist/pcdt-ist-2022_isbn-1.pdf/view.
  2. Centers for Disease Control and Prevention. Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, 2021 [Internet]. Atlanta: CDC; 2021 [citado 6 de março de 2023]. 192 p. Disponível em: https://www.cdc.gov/std/treatment-guidelines/STI-Guidelines-2021.pdf.
  3. Dynamed. Pelvic Inflammatory Disease (PID). Em Ipswich (MA): EBSCO Information Services; 2021 [citado 6 de março de 2023]. Disponível em: https://www.dynamed.com/condition/pelvic-inflammatory-disease-pid.
  4. Wiesenfeld HC. Pelvic inflammatory disease: treatment in adults and adolescents [Internet]. Waltham (MA): UpToDate; 2022 [citado 13 de junho de 2022]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/pelvic-inflammatory-disease-treatment-in-adults-and-adolescents.
  5. Savaris RF, Fuhrich DG, Duarte RV, Franik S, Ross JDC. Antibiotic therapy for pelvic inflammatory disease: an abridged version of a Cochrane systematic review and meta-analysis of randomised controlled trials. Sex Transm Infect [Internet]. fevereiro de 2019 [citado 13 de junho de 2023];95(1):21–7. Disponível em: https://sti.bmj.com/lookup/doi/10.1136/sextrans-2018-053693.
  6. Duncan BB, Schmidt MI, Giugliani ERJ, Duncan MS, Giugliani C. Medicina Ambulatorial: condutas de atenção primária baseadas em evidências. 5o ed. Porto Alegre: Artmed; 2022. 2424 p.
  7. World Health Organization. WHO guidelines for the treatment of Neisseria gonorrhoeae [Internet]. Geneva: WHO; 2016 [citado 13 de junho de 2023]. 64 p. Disponível em: https://apps.who.int/iris/handle/10665/246114.
  8. World Health Organization. Comprehensive cervical cancer control: a guide to essential practice [Internet]. 2nd ed. Geneva: WHO; 2014 [citado 13 de junho de 2023]. 364 p. Disponível em: https://apps.who.int/iris/handle/10665/144785.
  9. Ross J, Chacko MR. Pelvic inflammatory disease: clinical manifestations and diagnosis [Internet]. Waltham (MA): UpToDate; 2022 [citado 6 de março de 2023]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/pelvic-inflammatory-disease-clinical-manifestations-and-diagnosis.
  10. Dynamed. Acute pelvic pain: approach to the patient [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services; 2021 [citado 13 de junho de 2023]. Disponível em: https://www.dynamed.com/approach-to/acute-pelvic-pain-approach-to-the-patient.
  11. Dynamed. Chronic pelvic pain in women [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services; 2022 [citado 13 de junho de 2023]. Disponível em: https://www.dynamed.com/condition/chronic-pelvic-pain-in-women.
  12. Ross J, Guaschino S, Cusini M, Jensen J. 2017 European guideline for the management of pelvic inflammatory disease. Int J STD AIDS [Internet]. fevereiro de 2018 [citado 13 de junho de 2023];29(2):108–14. Disponível em: http://journals.sagepub.com/doi/10.1177/0956462417744099.
  13. Ross J, Cole M, Evans C, Lyons D, Dean G, Cousins D. United Kingdom National Guideline for the Management of Pelvic Inflammatory Disease (2019 Interim Update). British Association for Sexual Health and HIV [Internet]. 2019 [citado 13 de junho de 2023];4:26. Disponível em: .
  14. Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) de Risco à Infecção pelo HIV [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2022 [citado 12 de junho de 2023]. 52 p. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/protocolo_clinico_profilaxia_prep.pdf.

Como citar este documento:

Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia, TelessaúdeRS. Rio Grande do Sul, Secretaria Estadual da Saúde. Qual é o tratamento para doença inflamatória pélvica (DIP)? Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 13 jun. 2023 [ citado em “dia, mês abreviado e ano”]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/qual-e-o-tratamento-para-doenca-inflamatoria-pelvica-dip/.

Publicador

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL | TelessaúdeRS-UFRGS

Organização

Elise Botteselle de Oliveira¹

Renata Rosa de Carvalho¹

Luíza Emília Bezerra de Medeiros¹

Ana Cláudia Magnus Martins¹

Rudi Roman¹

Juliana Nunes Pfeil¹

Rodolfo Souza da Silva¹

Natan Katz1,2

Roberto Nunes Umpierre1,2

Autoria

Renata Rosa de Carvalho¹

Alexandre Wahl Hennigen¹

Revisão Técnica

Elise Botteselle de Oliveira¹

Revisão Textual e Normalização

Bruna Rodrigues da Silva¹

Letícia Pereira de Souza¹

Diagramação

Luisa Nascimento¹

Instituições

¹Universidade Federal do Rio Grande do Sul, TelessaúdeRS-UFRGS.

²Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Medicina, Departamento de Medicina Social.