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Parecia tornar-se cada coisa que via


— Fico fisgada por uma nova ideia, sempre me rendo a imaginar.

A produção artística elaborada em interfaces digitais, com interação entre humanos e inteligência artificial (IA), articula inputs e outputs (Flusser, 2002) por reflexo, desafia e amplia os modos já conhecidos de fazer. Como consequência, as formas de recepção, especialmente quando nos envolvemos e nos transportamos para dinâmicas imaginadas pelos artistas, entramos num estado de abertura ao desconhecido. Essa abertura pode ser vista, por analogia, como uma entrada em uma atmosfera hospitaleira ou por vezes inóspita.

À luz das reflexões de Derrida, a 'hospitalidade' emerge como uma ferramenta para abordar questões éticas e políticas, envolvendo fronteiras e o encontro com o outro — o diferente, o estranho, o estrangeiro, o animal, o não-humano. Nossa casa se constitui como um lugar dinâmico, complexo, já que a fazemos para nosso descanso e proteção (Bachelard, 2005) mas também para convidar e partilhar. Na posição de anfitriões, a hospitalidade, como capacidade de acolher e interessar-se pelo outro, é por vezes constrangida pelo medo. Talvez a verdadeira hospitalidade só exista na arte, quando a obra é recebida como "(...) o desconhecido, o anônimo outro, e que eu lhes dê lugar, que eu os deixe vir, que eu os deixe chegar e tomar lugar no lugar que lhes ofereço" (Derrida apud Koepnick, 2021, p.7-8). Quando nos abrimos para receber a arte, ela nos convida a celebrar um pacto, abrindo espaço para o inesperado.

A velocidade de processamento do computador, usado como dispositivo criativo, permite experiências temporais próprias que aqui nos provocam a pensar sobre o tempo do processo artístico e da experiência estética. Nesse contexto, em que tudo parece se repetir para logo ser substituído, nos encontramos submetidos à lógica das novas formas de produção e da obsolescência programada. No entanto, o envolvimento com a velocidade e as múltiplas possibilidades emergentes também parece oferecer algo novo. Há um paradoxo: o fascínio com a novidade chega suavizado pela(s) interface(s), de maneira que os usuários se sentem confortáveis ​​para colocar as barreiras perceptivas para descansar e simplesmente serem absorvidos pelo que lhes é oferecido.

Embora cientes da existência de mais e mais paisagens inóspitas provocadas pelas alterações climáticas, e que são consequência das escolhas que fizemos (Krenak, 2019), vivemos o excesso: de barulho, de opiniões, de prédios, imagens, de produtos, de tendências. — Há quanto tempo é assim? O contexto transforma nosso modo de ver, mas precisamos de tempo para realmente olhar, pois como escreveu Cardoso: “o olhar não acumula e não abarca, mas procura; não deriva sobre uma superfície plana, mas escava, fixa e fura, mirando as frestas deste mundo instável e deslizante que instiga e provoca a cada instante sua empresa de inspeção e interrogação.” (Cardoso, 1989, p. 349).

A invocação da lentidão poderia se apresentar contra o excesso e o embotamento dos sentidos. É cada vez mais fácil e rápido produzir imagens e sons (automatização). Porém, se o potencial criador é elaborado no fazer, quando nos afetamos e nos impregnamos pelo processo, como jogar contra o aparelho (Flusser, 2002) hoje? Como receber as vibrações do momento e ainda preservar o ritmo próprio? Aspiramos por um retorno das sensibilidades sociais e das comunidades em rede e que os humanos não se comportem como os hóspedes malcriados do planeta, mas tenham “corresponsabilidade com os lugares onde vivemos” (Krenak, 2019, p. 47).

Ainda não sabemos o que virá, saberemos melhor amanhã. No entanto, já podemos imaginar. Convidamos artistas que estão incluindo a IA no seu processo de criação e que refletem criticamente sobre o contexto contemporâneo a imaginar e explorar noções de hospitalidade e não hospitalidade, os limites entre aleatoriedade, causalidade e contingência, e a problematizar o envolvimento fugaz e estético ao qual somos diariamente submetidos.

Referências
BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
CARDOSO, Sérgio. "O olhar viajante (do etnólogo)." In: O olhar. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta. São Paulo: Relume Dumará, 2002.
KOEPNICK, Lutz. Resonant matter: sound, art, and the promise of hospitality. Nova York: Bloomsbury Publishing, 2021.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o mundo. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

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Curadoria: Elaine Tedesco e Marina Polidoro
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Bolsista: Luíza Schütz (Pibic-CNPq)




Catálogo disponível em: https://www.ufrgs.br/verter/parecia_tornar-se/catalogo.pdf

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Dados das obras:

Alessandra Bochio e Felipe Merker Castellani
Soplones
Net art
2025
alessandra.bochio@ufrgs.br
www.felipemerkercastellani.net

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Alexandre De Nadal
Simulacrando
Net art
2025
@alexandredenadal

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Alice Siqueira
whoami_mirror
Arte digital interativa (fotografia, vídeo em tempo real via webcam, manipulação digital e glitch art).
2025
alicesiqueira.art@gmail.com

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Andressa Cantergiani
A intrusa
Vídeo com Inteligência Artificial
2025
www.andressacantergiani.art.br

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Calixto Bento
Quando algo some no ar, assim, de repente
Vídeo/IA
2025
@calixtobento

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Daiana Schröpel
Breve relato sobre as novas formas bióticas da Ilha das Moscas e algumas considerações sobre a ave aquática floral, por Daiana Schröpel [IAAIAI/Setor de Difusão]
Publicação digital a partir de desenho, fotografia, texto e áudio
2025
dschropel@outlook.com

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Fernando Codevilla e Juliana Vizzotto
Quantum effects in photosynthesis
vídeo e arte generativa, 2'25"
2025
www.fernandocodevilla.com

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Klaus W. Eisenlohr
A Síndrome de Umberto Eco
8 episódios de vídeo digital feitos a partir de imagens geradas com Stable Diffusion, textos gerados com Chat-GPT e música gerada com Stable Audio
2025
www.richfilm.de

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Marluana Fernandes
Lost in the void
Manipulação de imagem em movimento desenvolvida em IA
2025
marluanafernandes@hotmail.com

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Maximílian Rodrigues
Casa à Margem.mov
Vídeo gerado com inteligência artificial
2025
@maxi.mrodrigues

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No topo
trabalho de
Luíza Schütz e Pedro Stelmach
Metamorfo
Net Art
2025