Medium ugandense, profeta e líder de uma força militar envolvida na guerra civil da Uganda nos anos 1980. Chamada de Alice Auma, passou a ser conhecida como Alice Lakwena devido ao nome do espírito que a possuiu. Nasceu em Bungatira, uma vila perto de Gulu, em Acholi.
Pertencia a uma família cristã, e o pai, Severino Lukoya, foi catequista para a igreja anglicana. Quando ele sofreu um acidente doméstico grave em 1958, afirmou ter ido temporariamente ao céu, onde uma voz anunciou que os espíritos viriam para seus filhos e que uma criança já tinha sido escolhida.
Isto ficou evidente para ele quando, em janeiro de 1985, Alice começou a pregar a palavra de Deus, e a afirmar também experimentar visões místicas. Criada na fé anglicana, frequentou a escola primária Central por sete anos. Porém, na vida adulta converteu-se ao catolicismo, pouco antes de começar a ser possuída pelo espírito Lakwena, que significa “mensageiro” ou “apóstolo”
Durante a guerra civil de Uganda (1981-1986), no governo do presidente Yoweri Museveni, Alice recebeu do espírito Lakwena a missão de curar as pessoas afetavas pelo conflito, mas em agosto de 1986 uma outra ordem espiritual lhe foi dada: a de liderar a guerra contra o espírito mal que se abatia no país.
Ela criou e liderou um movimento conhecido como Holy Spirit Mobile Forces – HSMF (Mobilização das Forças Armadas do Espírito Santo). Recrutou pessoas de diversas procedências (soldados, camponeses, estudantes, meninas e mulheres) e passou a treiná-las para lutar na guerra civil. Seguida por cerca de 7 a 10 mil pessoas, atacou diversas localidades, sendo vencida em 1987 quando os conduzia para atacar a capital do país, Kampala, o que levou à dissolução do movimento. Ela se refugiou temporariamente no Quênia, sendo posteriormente presa e mantida encarcerada até 1992. Ao sair da prisão, retornou a Gulu e fundou uma igreja independente.
O perfil de sua liderança se assemelha a de diversas mulheres anteriores que, como Kimpa Vita, no Congo do século XVII, Charwe ou Nehanda, na Rodésia, ou Nogqawuse, na África do Sul do século XIX, foram videntes ou profetizas que atraíram muitos seguidores, conferindo às experiências místicas um canal de expressão de inconformismo social ou político.
BIBLIOGRAFIA
ALLEN, Tim. Understanding Alice: Uganda’s Holy Spirit Movement in context. Africa, v. 61, p. 370-399, 1991.
BEHREND, Heike. Alice Lakwena and the Holy Spirits: war in northern Uganda. Oxford; Nairobi; Athens: James Currey, 1999.
BEHREND, Heike. “Alice Auma Lakwena”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 461-462
Última atualização em: 22/01/2021
































