Tag: Líderes religiosas

Alice Auma Lakwena (1956-2007)

Medium ugandense, profeta e líder de uma força militar envolvida na guerra civil da Uganda nos anos 1980. Chamada de Alice Auma, passou a ser conhecida como Alice Lakwena devido ao nome do espírito que a possuiu. Nasceu em Bungatira, uma vila perto de Gulu, em Acholi.

Pertencia a uma família cristã, e o pai, Severino Lukoya, foi catequista para a igreja anglicana. Quando ele sofreu um acidente doméstico grave em 1958, afirmou ter ido temporariamente ao céu, onde uma voz anunciou que os espíritos viriam para seus filhos e que uma criança já tinha sido escolhida.

Isto ficou evidente para ele quando, em janeiro de 1985, Alice começou a pregar a palavra de Deus, e a afirmar também experimentar visões místicas. Criada na fé anglicana, frequentou a escola primária Central por sete anos. Porém, na vida adulta converteu-se ao catolicismo, pouco antes de começar a ser possuída pelo espírito Lakwena, que significa “mensageiro” ou “apóstolo” 

Durante a guerra civil de Uganda (1981-1986), no governo do presidente Yoweri Museveni, Alice recebeu do espírito Lakwena a missão de curar as pessoas afetavas pelo conflito, mas em agosto de 1986 uma outra ordem espiritual lhe foi dada: a de liderar a guerra contra o espírito mal que se abatia no país.

Ela criou e liderou um movimento conhecido como Holy Spirit Mobile Forces – HSMF (Mobilização das Forças Armadas do Espírito Santo). Recrutou pessoas de diversas procedências (soldados, camponeses, estudantes, meninas e mulheres) e passou a treiná-las para lutar na guerra civil. Seguida por cerca de 7 a 10 mil pessoas, atacou diversas localidades, sendo vencida em 1987 quando os conduzia para atacar a capital do país, Kampala, o que levou à dissolução do movimento. Ela se refugiou temporariamente no Quênia, sendo posteriormente presa e mantida encarcerada até 1992. Ao sair da prisão, retornou a Gulu e fundou uma igreja independente.

O perfil de sua liderança se assemelha a de diversas mulheres anteriores que, como Kimpa Vita, no Congo do século XVII, Charwe ou Nehanda, na Rodésia, ou Nogqawuse, na África do Sul do século XIX, foram videntes ou profetizas que atraíram muitos seguidores, conferindo às experiências místicas um canal de expressão de inconformismo social ou político.

BIBLIOGRAFIA

ALLEN, Tim. Understanding Alice: Uganda’s Holy Spirit Movement in context. Africa, v. 61, p. 370-399, 1991.

BEHREND, Heike. Alice Lakwena and the Holy Spirits: war in northern Uganda. Oxford; Nairobi; Athens: James Currey, 1999.

BEHREND, Heike. “Alice Auma Lakwena”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 461-462

Alice Mulenga Lubusha Lenshina (c. 1920 -1978)

 Profetisa zambiana, nasceu perto de Kasomo Village no Distrito de Chinsali, no nordeste da Zâmbia. Seu nome de nascimento era Mulenga Lubusha, e depois foi batizada com nome cristão de Alice. A mãe e o pai eram membros do Clã do Crocodilo, o real do reino Bemba.

Casou-se com Gipson Nkwale, com quem teve um filho. Depois da morte deste, passou por um ritual de purificação e entregue, segundo o costume Bemba, ao primo do falecido, Petros Chintankwa, com quem teve cinco filhos.

A missão espiritual de Lubusha Lenshina apareceu em uma revelação durante uma experiência de quase morte em 1953. Em sua visão, Jesus Cristo a encorajava a atravessar um oceano, mas, do outro lado do oceano, anjos disseram-lhe para retornar à terra dos vivos para purificar as pessoas do mal. Ao se recuperar, ela decidiu cumprir essa tarefa trabalhando com a igreja presbiteriana local. No entanto, os missionários proibiram-na de batizar e pregar por ela ser mulher, e por não ter um treinamento oficial. Quando ela persistiu, foi expulsa da igreja.

Lubusha fundou então uma comunidade mística a que chamou de Igreja Lumpa. Baseada em sua autoridade espiritual e carisma, ela fixou normas que passaram a ser tidos como “mandamentos” e incluíam a proibição da poligamia, insultos, o consumo de fumo e de álcool – práticas que colocavam as mulheres em perigo. A partir de 1955, muitos(as) peregrinos(as) vieram ao seu tempile (templo) para serem batizados(as) e para entregar objetos mágicos que lhes causavam mal. Ela ficou conhecida como a “Rainha”, “Regina”, ou seu equivalente na língua Chibemba, Lenshina. Seus adeptos também se referiam a ela como Maayo (mãe), ou Lubuto Iwa Chalo (a luz do mundo).

Com o dinheiro obtido pelas doações e contribuições, seus seguidores construíram uma grande igreja perto de Kasomo Village (1958) e lhe deram o nome de Igreja Sione (Sião). Estima-se que o número de seguidores de Lenshina tenha oscilado entre 50 e 150 mil pessoas, o que gerou rivalidade com a igreja presbiteriana, com os chefes bembas e com o United National Independence Movement – UNIP (Movimeno de União Nacional pela Independência) (1961), que atacaram edifícios da Igreja Lumpa, acreditando que Lenshina estivesse a serviço de seus opositores políticos.

No final de julho de 1964, depois de vários confrontos entre UNIP e as comunidades da Igreja Lumpa, o administrador colonial, Governador Evelyn Hone, e o Primeiro Ministro Kenneth Kaunda implementaram medidas de segurança para forçar os seguidores de Lenshina a abandonar as comunidades. Quando eles se recusaram, tropas coloniais atacaram e pelo menos mil pessoas morreram em decorrência dos ataques. A própria líder se entregou ao governo em 1964, e embora nunca tenha sido processada, permaneceu detida até sua morte. Foi enterrada no altar do que sobrou de sua Igreja Sione. 

Com o fim do regime de Kenneth Kaunda, em 1991, a Igreja Lumpa foi reconstituída como a Igreja Nova Jerusalém, na qual Lenshina é considerada sua fundadora e profetisa.

BIBLIOGRAFIA

GORDON, David. Community of suffering: narratives of war and exile in the Zambian Lumpa Church. In: PETERSON, Derek; MACOLA, Giacomo (Ed.). Recasting the past. Athens: Ohio University Press, 2009.

GORDON, David. “Alice Mulenga Lubusha Lenshina”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 487-488.

ROBERTS, Andrew. The Lumpa church of Alice Lenshina. In: ROTBERG, R. I.; MARZUI, Ali A..(Ed.). Protest and power in Black Africa. Nova Iorque: Oxford University Press, 1970.

Aline Sitoué Diatta (c. 1921-1944)

Profetisa senegalesa. Nasceu no povoado de Kabrousse, na então África Ocidental Francesa – AOF, em território ao sudoeste da atual República do Senegal. Pertencia ao grupo étnico Diúla, vinculado aos grupos falantes de língua mandinga que habitam o Senegal, Gâmbia e Guiné-Bissau. Geralmente esse povo é integrado por comunidades produtoras de arroz, vinculam-se prioritariamente ao campo religioso muçulmano e também ao cristianismo, mas a maior parte permanece vinculada às crenças tradicionais africanas.

Antes da ocupação colonial pelos franceses, britânicos, e portugueses, os Diúla tinham uma tradição de revelação direta do Ser Supremo, identificado pelo nome de Emitai, e as revelações podiam ser feitas por videntes e vaticinadores homens. Logo após a colonização, na passagem do século XIX para o XX, mulheres videntes ou profetisas começaram a ganhar influência, especialmente entre os Diúla do sul. A maioria delas ganhavam fama por sua capacidade de invocar ou provocar a chuva, extirpar ou proteger suas comunidades da bruxaria ou outras atividades             que afetavam a vida e curar doentes.

Segundo consta, Aline Sitoué teve as primeiras visões do Ser Supremo os vinte anos. Na ocasião ela já tinha um filho, e devido a uma poliomielite era coxa, mas trabalhava em arrozais da comunidade de Kabrousse, que ela deixou para trabalhar como empregada em Dakar.  Na década de 1930, as reiteradas secas afetaram a produção agrícola diúla, e no início da década de 1940, momento da ocupação francesa pelos nazistas, os oficiais e servidores da metrópole passaram a impor o recrutamento forçado (1939-1940), requisição de gado e arroz, que eram essenciais para a sobrevivência local,  e forçar a plantação de amendoim. Tais demandas, associadas aos períodos anteriores de seca, levaram as comunidades Diúla ao esgotamento, gerando grande insatisfação.

As visões de Emitai de Aline Sitoué começaram em 1941 ou 1942, quando ela teve visões do Ser Supremo e a ela foi anunciado um meio de provocar a chuva e acabar com a seca, visões que ela anunciou em Kabrousse. Logo foi construindo um santuário espiritual em Kasila, onde um touro preto foi sacrificado e toda a comunidade foi mobilizada com refeições comuns e danças. Logo outros santuários foram edificados, e novos(as) videntes passaram a celebrar sacríficios e divulgar as visões de Emitai. Apenas variedades africanas de arroz (oryza glaberimma) podiam ser empregados nos rituais, o trabalho e as atividades passaram a ser regrados pelos costumes antigos e a plantação de amendoim deixou de ser estimulada, por não fazer parte da produção agrícola local. As florestas voltaram a ser exploradas em busca dos produtos da palmeira (vinho de palma, ramos, azeite de palma ou dendê), ervas medicinais e palha – atividades importantes desde tempos antigos para os Diúla.

Altamente subversivo em face dos interesses coloniais, o movimento liderado por Aline Sitoué foi condenado pelas autoridades coloniais em 1943, quando ela e muitos de seus seguidores foram presos, julgados e condenados pelo Código de Lei Nativo, conhecido como Indigenat, pelo crime de obstrução das iniciativas da administração francesa. Ela foi sentenciada ao exílio, primeiro em Kayes e depois em Tombuctu, onde veio a morrer de escorbuto em 1944, e sua morte foi mantida em segredo até a década de 1980. 

Após a prisão e a repressão do movimento de Aline Sitoue, outras profetisas surgiram em Zinguichor – na região de Casamance -, e ao norte, na região de Tendouck, quando muitas delas reivindicam sua posição como “Enviadas de Emitai” em continuidade ao trabalho profético de Aline Sitoue.

Desde o fim da década de 1970 o padre Diamacoune Senghor e o Mouvement des Forces Démocratiques Casamançais – MFDC (Movimento das Forças Democráticas de Casamance) reivindicaram Aline Sitoué como uma imagem de Joana D’Arc que sacrificou sua vida para libertar Casamance da domínio colonial. Embora não tenha sido a primeira ou a única a ter visões do Ser Supremo, sua ênfase na revelação direta da mensagem sagrada e o contexto de crise em que ela foi anunciada conferiu grande força a sua liderança e ilustra o papel que a liderança religiosa tem desempenhado ao desafiar a expansão da economia global.

BIBLIOGRAFIA

BAUM, Robert. “Aline Sitoue Diatta”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 176-178.

BAUM, Robert M.. Aline Sitoué: a Diola woman prophet in West Africa. In: FALK, Nancy Auer; GROSS, Rita M.  (Eds.). Unspoken worlds: women’s religious lives. Belmont: Wadsworth/Thompson Learning, 2001, p. 179-195.

GIRARD, Jean. Genèse du pouvoir charismatique en Basse Casamance. Dakar: Institut Fondamental d’Afrique Noire – IFAN, 1969.

Apolônia Mafuta (século XVIII)

Lider religiosa  no Congo, natural de Monte de Kibangu, sua atividade é anterior a de Beatriz Kimpa Vita.  Mais velha, surgida antes desta, foi sua defensora e apoiadora, proclamando-a como a “verdadeira voz de Deus”.

Segundo textos coloniais portugueses, Mafuta era uma “velhota” que dizia ter visto Nossa Senhora e ouvido dela que Jesus Cristo estava irado com o rei do Congo que não fazia retornar a capital do reino para a Mbanza Congo, ou  São Salvador. Baseada nisso, profetizava um futuro sinistro e tinha muitos seguidores e adeptos, entre as quais a rainha Dona Hipólita Maria Mpanzu, que a protegia.

 

BIBLIOGRAFIA

JADIN, Louis. Le congo et la secte des antoniens: restauration du royaume sous Pedro IV et la “Saint-Antoine” congolaise (1694-1718). Rome: Institut Historique Belge de Rome, 1961.

CAMPOS, Fernando. O rei D. Pedro IV Ne Nsamu a Mbemba e a unidade do Congo. África:Revista do Centro de Estudos Africanos, v. 18-19, n. 1, p. 159-199, 1995/1996.

Beatriz Kimpa Vita (1684-1706)

Reformadora política e religiosa.  Nasceu em Kibangu, no então Reino do Congo, uma região montanhosa localizada na atual República de Angola. Pouco se sabe do seu núcleo familiar, mas ela cresceu durante o período de fragmentação e guerra civil.

A relativa estabilidade do Reino do Congo no século XVI tinha ruído por conta da invasão portuguesa para o sul de Angola nos anos de 1660, após a esmagadora vitória na Batalha de Mbwila (1665).  No final do século XVII, o antigo Congo estava dividido e disputado por linhagens que pretendiam a reunificação  do reino. O pai de Kimpa Vita serviu como oficial no exército do Rei Álvaro X, um dos pretendentes na disputa política.

No meio deste quadro político caótico ela ganhou fama por conta de suas visões. De acordo com o capuchinho italiano Bernardo da Gallo que a entrevistou brevemente antes de sua execução, ela lhe disse ter entrado em um transe espiritual no qual crianças brancas misteriosas vinham até ela e lhe davam um copo com alecrim. Alguns membros da família a consideravam com um dom particular e treinada para ser a próxima nganga marinda, uma conexão divina do movimento religioso kimpasi que obteve muito apoio entre os congoleses da época. Para muitos, em seus momentos de transe ela incorporava o espírito de Santo Antônio, motivo pelo qual os seus adeptos e simpatizantes ficaram conhecidos como “Antonianistas”, e o movimento que ela liderou recebe o nome de “Antonianismo”.

Em 1704, Kimpa Vita, pregou e anunciou a necessidade de medidas no reino, dirigiu-se à corte e cobrou a mudança da capital do governo junto ao rei Pedro IV do Congo. Aconselhado por Bernardo de Gallo, este mandou prendê-la. Ela foi submetida a um julgamento, considerada herege e bruxa, condenada e queimada na fogueira.

A trajetória pessoal, a experiência mística e as consequências sociais do movimento antoniano liderado por Kimpa Vita constituem episódios importantes do enraizamento do cristianismo em sua forma africana, antecipando diversas tendências dissidentes e formas nativas de manifestação religiosa posteriores como o Kinbanguismo e o Tocoismo. Ela é admirada e lembrada como líder espiritual e política libertária até os dias atuais.  

BIBLIOGRAFIA

FILESI, Teobaldo. Nazionalismo e religione nel Congo all’inizio del 1700: la seta degli antoniani. Rome: Istittuto Italiano per l’Africa, 1972.

RICH, Jeremy. “Dona Beatriz Kimpa Vita”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 381-383.

THORTON, John. The kongolese Saint Anthony: Dona Beatriz Kimpa Vita and the antonian movement, 1684-1706. Cambridge: Cambridge University Press, 1998.

VAINFAS, Ronaldo; SOUZA, Marina de Mello e.  Catolização e poder no tempo do tráfico: o reino do Congo da conversão coroada ao movimento antoniano. Tempo (UFF),  n. 6, p. 1998:  https://www.historia.uff.br/tempo/artigos_dossie/artg6-7.pdf

Charwe (1862-1898)

Sacerdotisa, médium e líder na resistência à conquista colonial britânica no sul da Rodésia, na atual República do Zimbábue. Por vezes referenciada com o nome de Nehanda Charwe Nyakasikana, porém Nehanda é o nome do espírito ancestral ao qual ela incorporava. Nasceu por volta de 1862 no vale de Mazowe, na região de Maxonalândia, isto é, a área cultural dos povos falantes da língua xona.

Pertencia  à dinastia dos Hwata (dzinza; rudzi), uma das várias dinastias formadas na passagem dos séculos XVIII-XIX em decorrência da dissolução da unidade dos reinos xonas. Tornou-se a médium de Nehanda no Distrito Mazowe por volta de 1880, e foi uma das únicas mulheres que canalizaram para si o espírito feminino Nyamita, presente nas tradições desde a época do Monomotapa (séculos XIV-XVII) e que se acreditava ser um espírito da chuva, da terra e da produtividade da agricultura.

Na segunda metade da década de 1890, diante da truculência dos colonialistas  que, sob a bandeira da Companhia Britânica da África do Sul – BSAC, invadiram o território dos xonas confiscando terras e rebanhos, Charwe liderou  o povo Ndebele.  Teve participação ativa na organização e coordenação da guerra em Mazowe contra as forças lideradas  pelo coronel Edwin A. H. Alderson, e mediou as negociações entre seu povo e a patrulha em Fort Alderson (1896). Ela foi uma das últimas líderes capturadas, e a única mulher presa e acusada de traição por ter supostamente matado um comissionário nativo do distrito de Mazowe, pelo que, depois de aprisionada,  foi julgada, sentenciada e executada. 

Sua história permanece sendo cheia de enigmas e rodeada de lendas, permanecendo viva na memória popular e inspirado na posteridade  lideranças nacionalistas e artistas africanos engajados.

BIBLIOGRAFIA

BEACH, David N. “An innocent woman, unjustly accused?: Charwe, medium of the Nehanda Mhondoro spirit, and the 1896-1897 central shona rising in Zimbabwe. History in Africa, v. 25 (1998): 27-54, 1998.

CHARUMBIRA, Ruramisai. Nehanda and gender victimhood in the Central Mashonaland, 1896-1897 rebellions: revisiting the evidence. History in Africa, v. 35, p. 103-131, 2008.

CHARUMBIRA, Ruramisai. “Charwe”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2,  p. 60-62.

LAN, David. Guns & rain: guerrillas & spirit mediums in Zimbabwe. London: James Currey, 1985.

RANGER, Terence. Revolt in southern Rhodesia 1896-1897: a study in african resistance . Londres: Heinemann, 1967.

Christiana Abiodun Emanuel (1907-1994).

Fundadora e líder de uma comunidade cristã nigeriana conhecida como Cherubim and Seraphim Society (Sociedade dos Querubins e Serafins). Nasceu como Abiodun Akinsowon, em Porto Novo, na atual República do Benin. Era filha de uma família de retornados (sarôs) com ligações familiares e comerciais ao longo da costa da África Ocidental. O pai, reverendo B. A. Akinsowon era pastor de uma igreja em Porto Novo, onde também tinha negócios. Batizada na Igreja Anglicana de Lagos, aí freqüentou o ensino fundamental até 1920.

Manteve contatos comerciais com uma tia que atuava no Mercado em Lagos. Em 1925 passou por uma experiência mística quando assistia a uma procissão religiosa, permanecendo em transe durante sete dias, aparentemente em coma. Ao ser despertada por Moses Orimolade Tunolase, reputado benzedor e curandeiro, afirmou ter sido levada aos céus por anjos. Ambos passaram a realizar sessões regulares de oração, atraindo seguidores e simpatizantes a quem denominaram de Egbe Serafu (Sociedade Serafim).

Em 1927,  viajaram pela Nigéria e Gana, espalhando a palavra de suas atividades e estabelecendo filiais em muitas cidades, e passando a fazer parte do movimento Aladura (em yoruba: “donos da oração). O grupo encorajava as orações e o jejum, condenava a feitiçaria e o culto às divindades tradicionais, realizando procissões que envolviam milhares de pessoas  vestidas de branco  que seguiam o casal enquanto eram levados em um carrinho. Este rigorismo e oposição aos costumes tradicionais despertou oposições e queixas tanto de outras organizações cristãs quanto de chefes locais.

Quando Orimolade aceitou outra mulher jovem como sua seguidora, surgiram desentendimentos com Christiana Abiodon, e eles se separaram, formando dois grupos distintos (1929).  Ela ficou na liderança da Sociedade dos Querubins e Serafins, enquanto ele passou a designar o seu grupo como Ordem Sagrada Eterna dos Querubins e Serafins.  Seguiram-se outras divisões internas nas décadas posteriores, mas tais grupos espalharam-se por diversos locais em que comunidades yorubás estão presentes.  Em 1986 ela foi instalada como líder dos grupos internacionais, numa tentativa de organizar os fiéis dispersos pelo mundo.

BIBLIOGRAFIA

OMOYAJOWO, J. Akinyele. Cherubim and Seraphim: the history of an african independent church.  Nova Iorque: NOK, 1982.

PEEL, J. D. Y.  Aladura:  a religious  movement among the yoruba. Oxford: Oxford University Press, 1968.

SHELDON, Kathleen. “Christiana Abiodun Emanuel”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 298.

Fatma Nsoumer (1830 – 1863)

Símbolo do heroísmo feminino na Argélia, onde ela é lembrada pela sua coragem e determinação na luta contra os franceses no período colonial. Em todo o Magrebe ela é por vezes lembrada como Lalla  Fatma Nsoumer, sendo que lalla é um título de reverência para uma mulher que estuda e prega o Alcorão.

Fatma nasceu na aldeia de Werja, na atual Argélia, em uma região que ainda não havia sido tomada pelos exércitos franceses – que passaram a ocupar o país no mesmo ano de seu nascimento. A influência mais importante da infância da menina foi o seu pai, Sidi Ahmad Muhammad, um marabu, líder religioso que dirigia uma zawiya (congregação, espécie de escola religiosa e templo de comunidade sufi). Nesta escola, Nsoumer foi instruída no estudo do Alcorão, e seguindo o costume entre os islâmicos, ela memorizou o livro sagrado e passou a recitá-lo para outras crianças. Após o falecimento do pai, ela e seu irmão, Mohand passaram a dirigir a zawiya. Neste período, após receber o título de lalla, Nsoumer, decidiu divorciar-se do marido para se dedicar exclusivamente ao estudo dos textos sagrados.

Quando os franceses pretenderam ocupar a região de Kabilye, último baluarte da resistência argelina, Fatma Nsoumer, na sua condição de líder religiosa reuniu-se com os representantes das mesquitas e lançou o chamado pelo jihad, a “guerra santa” contra os infiéis e inimigos do islã, os franceses. Esta iniciativa foi bem sucedida e a rebelião conseguiu derrotar os exércitos do General Rondon e repelir os franceses.

Em 1857, Rondon reuniu um exército de 45.000 soldados, cuja topa era munida de artilharia moderna. Kabylie foi rapidamente tomada, e um forte francês foi ali construído. Não obstante a liderança de seu povo, Fatma foi feita prisioneira e enviada para um campo de detenção, onde faleceu seis anos mais tarde.

Fatma Nsoumer tornou-se um símbolo da luta contra o colonialismo, e principalmente, um símbolo feminista argelino. Seus restos mortais foram transladados em 1995 para o cemitério dos mártires de El Alia, junto a outros heróis nacionais.

BIBLIOGRAFIA

CARREY, Emile. Récits de Kabylie: la campagne de 1857. Argel: G. A. L.,  2004.

OUSSADIK, Tahar. Lalla Fadhma n’Summer, Argel: Laphomic, 1983.

SAHLI, Zahia Smail. “Fatma Nsoumer”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 496-497.


Inamujandi (+1934)

Líder espiritual hutu e ativista anticolonial do Burundi, então sob domínio belga e sob o governo da minoria étnica Tutsi.  Nasceu em uma região remota perto da montanha Ndora no nordeste do país, por volta da metade do século XIX, e nada se sabe sobre boa parte da sua vida. Veio a integrar uma longa tradição de videntes e profetisas que eram associadas a espíritos de reis falecidos.

Em setembro de 1934 ela começou a anunciar as razões do fracasso de chefes tutsis indicados pelo rei Mwambutsa IV, e suas manifestações chamaram a atenção de muitos camponeses insatisfeitos que habitavam a região de Ndora.  

De acordo com pessoas mais velhas, entrevistadas em 1968, Inamujandi teria prometido organizar os rituais necessários para que o filho de Kirima, antigo chefe da região de Ndora que afirmava ser descendente do rei Ntare II, pudesse governar. Outros(as)  informantes afirmavam que ela não chegou a anunciar claramente o nome do novo rei que estava por vir. De qualquer modo, a promessa alimentou a frustração dos hutus em relação aos supostos usurpadores que haviam tomado o trono do Burundi.

Durante a década de 1920, a autonomia dos chefes hutus do nordeste do país estava ameaçada pela presença de novas chefias de origem Tutsi a quem o governo belga assegurava uma posição privilegiada, o que acirrou ressentimentos das linhagens e famílias que há muito controlavam a região. Inamujandi ganhou popularidade, recebendo grande quantidade de comida para alimentar os seus seguidores e guerreiros, e o grupo declarou guerra contra Mwambutsa IV e Bacinoni, os chefes leais aos belgas, colocando em risco a autoridade dos aliados dos colonialistas.

Rodeada de carisma e prestígio espiritual, era considerada detentora de poderes mágicos capazes de conferir invulnerabilidade aos seguidores, e a reduzir os inimigos. Sob seu comando, sucederam-se ataques a tutsis e belgas, com a destruição, em várias semanas, de mais de 300 casas e 10 escolas missionárias de catequistas, e logo vieram as represálias. As tropas africanas a serviço do governo belga invadiram Ndora e saquearam o acampamento dos rebeldes em 3 de outubro de 1934. Inamujandi fugiu, mas após ser denunciada, foi capturada e levada perante o tribunal colonial, que a sentenciou ao exílio interno na cidade de Ruyigi, no leste do país.

Ainda no início da década de 1980, muitos(as) anciã(o)s negavam que os belgas  tivessem capturado a verdadeira profetisa, afirmando que aprisionaram a pessoa errada, o que indica a continuidade de seu legado junto ao povo. Nas décadas de 1950-1960 lideranças hutus evocavam o seu nome como heroína anti-colonial e anti-tutsi, enquanto o governo instituído após a independência não colocou acento em sua origem étnica ou regional. O certo é que ela permanece como exemplo de liderança espiritual feminina.

BIBLIOGRAFIA

CHRÉTIEN, Jean-Pierre. Une revolte au Burundi em 1934: les racines traditionalistes de l’hostilité a la colonization. Annales, E.S.C, v. 25, n. 6, p. 1678-1717, 1970.

GUILLET,Claude; Ndayishinguile, Pascal. Legendes historiques du Burundi. Paris: Karthala, 1987.

RICH, Jeremy. “Inamujandi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 156-157.

Kahina (século VII)

Legendária princesa e profetisa berbere. Também aparece por vezes referenciada com o nome de Dahiyya. O termo Kahina, de al-Kahin, significa “a vidente”. Pertencia à uma tribo, provavelmente de grupos judaicos, de Jerwa, que era um dos ramos dos povos Zanatas que viviam nas proximidades dos Montes Aurès, ao Norte da atual Argélia.

Ela se distinguiu ao assumir a liderança na resistência das tribos berberes contra as tropas árabes, que, sob a liderança de Hassan Ibn Nu’man al Ghassani, governador omíada de al-Qayrawan, forçaram os bizantinos a sair de Cartago em 698.

 Sob o seu comando, ela infligiu uma derrota pesada aos árabes, forçando-os a recuar para além das fronteiras das atuais Tunísia e Líbia. Pouco depois, todavia, o califa omíada Abd al-Malik reforçou as tropas árabes, e estes alcançaram vitória decisiva perto da antiga cidade portuária de Tabarqa. Al-Kahina foi perseguida nas montanhas e foi morta  no ano de 702 perto de um poço chamado atualmente de Bir al-Kahina (o “Poço de Kahina”).

 Por seu protagonismo, ela é considerada heroína nacional na Argélia, símbolo da resistência bérbere, e no século XX personifica a liderança feminina, sendo tomada como referência e inspiração para diversas autoras magrebinas, como Jurquet Bouhoune e Nahla Zéraoui.

BIBLIOGRAFIA

FROMHERZ, Allen. “Kahina”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 270-271.

HANNOUN, Abdelmajid. Historiographie et légende au Magreb: la Kahina ou la production d’une mémoire. Annales ESC, v. 54, n. 3,  p. 667-686, 1999

HSAIN, Ilahiane. Historical dictionary of the berbers. Lanham; Maryland; Toronto; Oxford: Scarecrow Press, 2006.

 SILVEIRA, Joselma Helena Serpa da. Kahina: uma rainha berbere do século VII vista por escritoras magrebinas contemporâneas. Trabalho de Conclusão de Curso (História), Departamento de História, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2017.

Maame Harris Tani (1870-1958)

 Profetisa e co-fundadora da Igreja dos Doze Apóstolos, nasceu na região litorânea da Costa do Ouro, na atual República de Gana, entre o povo Nzima. Seu nome original, Maame Tani, significa, literalmente “nascida de Tano”, em referência ao fato de ter sido entregue à divindade protetora dos rios chamada Nana Tano. Quando se tornou adolescente, ganhou notoriedade local como sacerdotisa da deusa Tano por sua grande habilidade em invocar e ser possuída por espíritos.

No início do século XX, associou-se, junto com Papa Kwesi John Nackabah, aos seguidores e promotores das idéias difundidas pelo profeta William Wade Harris, fundador de um movimento cristão de massas na Libéria que de 1910 a 1914 se difundiu pela Costa do Marfim e Costa do Ouro. Logo após serem convertidos, ambos se tornaram “apóstolos” do profeta, sendo considerados “irmão” e “irmã”, e fundaram uma comunidade religiosa que mesclava elementos da espiritualidade cristã com rituais de possessão e de transferência de poder, conhecido como “trabalho espiritual” (Sunsum edwuma), realizado com água em bacias preparada por Maama Tani na década de 1920.

 Vista com desconfiança pelas autoridades coloniais e missionários cristãos, e considerada como uma “seita fetichista”, o movimento ganhou grande popularidade. A Igreja dos Doze Apóstolos persiste até a atualidade como movimento religioso independente em Gana, sendo frequentada principalmente por mulheres.

BIBLIOGRAFIA

BREIDENBACH, Paul S..  Maama Harris Tani and Papa Kwesi John Nackabah: independent church leaders in the Gold Coast, 10914-1958. The International Journal of African historical Studies, v. 12, n. 4, p. 581-614, 1979.

HACKET, Rosalind. Women and new religious mouvements in Africa. In: KING, Ursula (Ed.). Religion and gender. Oxford: Blackwell, 1995, p. 257-283.

STEEGSTRA, Marijke. “Maame Harris Tani”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p.  504-505.

Mai Chaza (1914-1960)

Líder religiosa e profeta da Rodésia do Sul, atual República do Zimbabwe, fundadora da igreja Guta ra Jehova em 1950. Seu nome era Thereza Nyamushanya, nasceu na aldeia do Chefe Chitsunge e iniciou sua vida religiosa junto aos metodistas americanos, o que lhe conferiu distinção social em relação às mulheres das áreas urbanas e rurais.

De acordo com os registros do Sínodo Metodista, Mai Chaza passou a viver com uma família metodista na cidade de Highfield após a morte de seu marido. Enquanto vivia em Highfield ela passou por uma experiência semelhante à de muitos profetas religiosos do sudeste da África: depois de um incidente de quase morte, ela milagrosamente voltou à vida anunciando que tinha ido ao Céu, se reconciliado com sua cunhada e conversado diretamente com Deus.

Mai Chaza, mãe de seis filhos, depois daquele incidente de conversão se reuniu com os líderes metodistas da região, pedindo para pregar nas comunidades próximas, o que foi recusado pelos líderes, todos homens. Então, em 1954, ela seguiu a “missão divina” a qual foi incumbida, inaugurando o seu próprio centro de cura e oração na comunidade de kendaka, na região  de Mashonalândia, a cerca de 160 km ao sul de Harare. Ela deu o nome à comunidade de Guta ra Jehova, ou “Cidade de Deus”, e passou a ser reverenciada como Mai Muponesi, a “Mãe Salvadora”.

As notícias logo se espalharam sobre os seus poderes de cura, principalmente no caso de mulheres inférteis engravidaram, entre outros. Alguns meses depois centro já contava com mais de 600 habitações e em torno de 2.500 seguidores. Na comunidade, as crenças do cristianismo metodista foram associadas com as práticas de cura das religiões tradicionais africanas.

Muito criticada pelos cristãos metododistas, a igreja fundada por Mai Chaza, integra o grande movimento de irradiação do cristianismo africano, que se baseia fortemente em bases carismáticas. Como poderosa vidente e profeta, e com grande capacidade de liderança, ela conferiu cidadania e dignidade aos seus(uas) seguidores(as), e a sua fama atraiu inclusive pessoas da elite sul-rodesiana. Quando ela morreu, acreditava-se que seu espírito reencarnou em Taxwell Tayali, de origem zambiana, porém o número de adeptos e seguidores tendeu a diminuir.

BIBLIOGRAFIA

ANDERSON, Allan. African reformation: african initiated christianity in he twentieth century. Trenton: Africa World Press, 2001. 

MOSS, Barbara. Mai Chaza and the politics of motherhood in colonial Zimbabwe. In: HIGGS, C.; MOSS, B.; FERGUSON, E. R. (Eds.).  Stepping forward: black woman in Africa and the Americas. Athens:  Ohio University Press, 2002.

SCARNECCHIA, Timothy. Mai Chaza’s Guta ra Jehova (City of God): healing, reproduction, and urban identity in an african independente church. Journal of Southern African Studies, v. 23, n. 1, p. 87-105, 1997.

SCARNECCHIA, Timothy. “Mai Chaza”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 46-48.

Mekatilili wa Menza (c. 1860-1924)

Também referenciada como Mnyazi wa Menza, ou Makatilili. Profetisa e líder anticolonial queniana, liderou o povo Giriama em uma rebelião contra a administração colonial britânica em 1912-1915. Seu nome indica que era mãe de um filho chamado Katilili, pois o prefixo “me”, na língua mijikenda, indica a condição de “mãe de”. Sua história pessoal foi registrada por historiadores a partir de depoimentos orais e registros coloniais.

Mekatilili  nasceu em Mutsara wa Tsatsu, na região de Kilifi. Pertencia ao povo Giriama, um subgrupo do grupo linguístico Mijikenda, do litoral do Quênia. Ela tinha cinco irmãos, e um deles, chamado Mwarandu,  foi sequestrado e levado como cativo por caçadores de escravos afro-muçulmanos que atuavam a partir do litoral do Oceano Índico.

Quando os oficiais e soldados britânicos estabeleceram-se no Quênia, o povo Giriama mantinha-se ligado aos cultos e ritos religiosos tradicionais, que eram realizados em lugares sagrados da floresta que chamavam kayas. Recusando-se a pagar os tributos impostos pelos recém-chegados, Mekatilili  conclamou os demais a lutar contra o invasor, em nome de suas divindades, e passou a ser respeitada como uma profetisa. 

Em 1913 ela realizou um discurso público contra as políticas coloniais britânicas invocando a tradição da profetisa Mepoho que, no século XIX, previu a chegada de homens brancos que trariam diversas mazelas às pessoas e às terras da região. Mekatilili também denunciou chefes locais que vendiam jovens que seriam, futuramente, negociados como escravos pelos britânicos.

Com o apoio de Wanje wa Mwadorikola, um antigo ancião local cujo poder estava enfraquecido, ela atravessou o leito do rio Sabaki discursando para homens e mulheres Giriamas, incitando todos(as) a visitarem o Kaya, o bosque sagrado, situado a noroeste de Mombasa, para consultarem os anciãos e realizarem os rituais necessários para a restauração da unidade política do grupo. Em novembro de 1913 Mekatilili e Wanje, seu marido, foram exilados por oficiais britânicos como líderes da agitação local, e os Giriama tiveram seu kaya realocado a uma posição mais facilmente controlável pela administração colonial.

Entre agosto e outubro de 1914 eclodiu uma revolta contra os britânicos, mas os rebeldes vencidos e submetidos a duras penalidades, ficando apenas em 1918 autorizados a voltar para seu território. Em 1919 Mekatilili e seu marido, Wanje, foram liberados do exílio e puderam também  retornar ao convívio de seu povo, ele como chefe e ela como líder de um conselho feminino.

Mekatilili é tida como uma heroína da luta anticolonial, tendo um festival anual, uma estátua no jardim que leva o seu nome na cidade de Malindi, e um centro cultural na aldeia de Ulaya wa Jele, em sua homenagem.

BIBLIOGRAFIA

BRANTLEY, Cynthia. The giriama and colonial resistance in Kenya, 1800-1920. Berkeley: University of California Press, 1981.

BRANTLEY, Cynthia. Mekatilili and the role of women in Giriama resistance. In: CRUMMERY, Donal (Ed.). Banditry, Rebellion and social protest in Africa. Londres: James Currey, 1986, p. 333-350.

CARRIER, Neil; Nyamweru, Celia. Reinventing Africa’a heroes: the case of Mekatilili, a kenyan popular heroine.  African Affairs, v. 115, n. 461, p. 599-620, 2016.

CARUSO, Yuusuf S.. “Mekatillii wa Menza”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 179-180.

MUGI-NDUA, Elizabeth.  Mekatilili Wa Menza: woman warrior.  Nairobi: Sasa Sema Publications, 2000.

Na Agontimé (séculos XVIII – XIX)

Nascida entre os povos do grupo Mahi, de língua yoruba-nagô, foi aprisionada e, junto com o pai, levada como escrava ao Daomé.   Ganhou notoriedade por seu conhecimento e experiência em rituais religiosos, conhecimentos de magia e cura, e se tornou uma das oito esposas do rei Agonglo. Seu filho biológico, Gapke, ascendeu ao trono e passou a se chamar Ghezo, reinando de 1818 a 1858. 

Como kpojitó, isto é, rainha-mãe, Agontimé teve problemas por ocasião da morte de Agonglo (1797). Este antes de morrer demonstrava preferir ser sucedido por Gapke, mas o filho mais velho, Adandozan, tomou o poder, e para evitar oposição mandou vender Agontimé como escrava, e daí em diante o destino da governanta permanece rodeado de mistério.

Segundo alguns ela teria sido enviada para Cuba ou para o Nordeste Brasileiro. Outros afirmam que, na ocasião de seu exílio, teria sido acompanhada por sessenta e três serviçais. Costuma-se pensar que ela tenha levado o culto dos voduns para a Casa das Minas, antiga comunidade de São Luís do Maranhão onde se cultuam as divindades ancestrais da família real do povo fon, e da qual ela teria sido fundadora. No Brasil, ela passou a ser chamada de Maria Jesuína, e era sacerdotisa de Toi Zomadônu, um importante vodun do povo fon.

Quando depôs Adandozan, o rei Ghezo tentou encontrá-la nas Américas, sem sucesso. Ao que parece, o trono enviado pelo rei Adandozan ao Brasil em 1810, incinerado no incêndio do Museu Nacional em 2019,  poderia ter alguma relação com Agontimé.  Certos sugerem que poderia ser uma  maneira de simbolizar a transferência dela para este lado do Atlântico.

A questão da identidade de Na Agontimé e de seu vínculo com o importante núcleo religioso maranhense foi levantada pela primeira vez pelo pesquisador francês Pierre Verger, em pesquisas realizadas junto ao Institut Français d’Afrique Noire (IFAN) em 1952, embora até o presente não esteja plenamente esclarecido devido a ausência de fontes.

BIBLIOGRAFIA

BAY, Edna. Wives of the leopard: gender, politics, and culture in the Kingdom of Dahomey. Charlotesville; London:  University of Virginia Press, 1998.

GLEARSON, Judith. Agontime: her legend. New York: Viking Compass Books, 1970.

CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. A Casa das Minas de São Luís do Maranhão e a saga de Nã Agontimé. Sociologia & Antropologia,  v. 9, n. 2, p. 387-429,  2019 .

Nanny (1685-1741?)

Também referenciada como Rainha Nanny ou Granny Nanny, o seu nome provavelmente não é pessoal, mas deriva de Nana, um título de respeito e autoridade empregado em referência às rarinhas-mães nas sociedades akans da África ocidental. Ela nasceu em uma comunidade do povo Koromantee (Koromandê), na Costa do Ouro, atual República de Gana.

 Foi capturada ainda criança e vendida a traficantes ingleses que a transportaram em um navio negreiro até a Jamaica, no Caribe, América Central, onde durante algum tempo ela trabalhou em uma plantation (fazenda) de cana-de-açúcar situada em Saint Thomas Parish, nas circunvizinhanças de Port Royal. Junto com outros(as) cativos(as), envolveu-se em rebeliões lideradas por chefes de escravos marrons, como Cudjoe (Cuffy), Johny e Quao, que conduziram grupos de rebeldes fugitivos para o interior da ilha. 

Em 1720 Nanny fundou e liderou uma comunidade na região das Montanhas Azuis, perto do Rio Stony. Segundo a tradição oral, ali ela se casou com um guerreiro chamado Adou, e fixou as bases da vida comunitária e do sistema de defesa, com barricadas e armadilhas espalhadas na mata. Certa quantidade de guerreiros ficava de prontidão e transmitia mensagens de alarme através do toque de uma espécie de buzina denominada Abeng. Empregando táticas de guerrilha, os marrons atacavam plantations, o que levou ao abandono de 27 delas em 1734.

Além da autoridade política, Nanny era reverenciada e temida, acumulando carisma espiritual. Ela detinha conhecimento de plantas e ervas medicinais. Além disso, a ela era atribuída a capacidade de se comunicar com os espíritos ancestrais, e a capacidade de vidência, elementos que integravam o sistema de crenças africanas conhecidas como obeah ou myal, que posteriormente se difundiu entre os afro-jamaicanos.

A comunidade desenvolveu uma agricultura de subsistência e parte de seus ocupantes se miscigenou com populações indígenas aruaques. O excedente era trocado em mercados próximos por vestimentas e armas.   Em 1739, após diversos ataques o governo britânico firmou um tratado de paz, reservando cerca de 2.500 hectares para a comunidade maroon na área em que estão localizadas na atualidade as cidades de Accompong, Treelawny, Mountain Top e Nanny Town.  Sua morte ocorreu em data incerta, após o ano de 1741.

A Rainha Nanny foi declarada heroína nacional pelo governo da Jamaica em 1976.  Ela tem sua memória preservada por diversos meios, nas tradições orais e também em símbolos e monumentos nacionais. Seu retrato idealizado aparece nas notas de 500 dólares jamaicano, que é popularmente conhecida como “Nanny”. Um monumento em sua homenagem foi edificado na cidade de Moore Town.

BIBLIOGRAFIA

ZIPS, Werner. Nanny: Nana ofthe marrons? Some comparativethoughtsof Queen Mothers in akanandjamaicanmaroonsocieties. In: NIEWAAL, Emile A. B. R.;DIJK,  Rijk van (Eds.). AfricanChieftaincy in a New Socio-politicalLandscape. Hamburg: LitVerlag, 1998, p. 191-227.

RISNER, lacy. Archaeology of memory: a case study of Queen Nanny. In: Scholars week – Programpanel, 2019:

https://digitalcommons.murraystate.edu/scholarsweek/Fall2019/LBA/2/

AIKINS, Joshua Kwesi. Queen Nanny and maroon resistance. In: NESSE, Immanuel (Ed). The internationalencyclopediaofrevolutionand protest. Londres: John Wiley& Sons, 2009: https://doi.org/10.1002/9781405198073.wbierp1227

Nyaruac Kolang Ket (c. 1900–1973)

Vidente do povo Nuer, no Sudão Nilótico, também conhecida como Nyakolang Ket, foi a filha e sucessora do vidente e profeta Nuer Kolang Ket, que desde 1890 afirmava ser possuído pela divindade conhecida como Maani.   Aprisionado durante a guerra contra os Dinka, seus adversários tradicionais, ele foi preso pelas autoridades coloniais anglo-egípcias e morreu na prisão em 1925.

A expressão Nyaruac significa « filha da palavra », « filha do discurso », em referência ao poder de previsão que ela afirmava ter herdado do pai. Era casada mas abandonou o companheiro para cuidar do pai antes dele morrer, tendo-o posteriormente sucedido ao trono, embora um de seus irmãos tenha reivindicado a sucessão  e morreu pouco tempo depois em batalha contra as tropas do governo colonial.  

Ao assumir a sua liderança como vidente, Nyaruac Ket adotou uma posição diferente das lideranças religiosas anteriores e anunciou que não iria atacar pessoas. Por ter evitado a guerra, e talvez por ser mulher, ela não foi perseguida pelas autoridades coloniais. Manteve sua liderança junto ao povo, realizando sacrifícios contra as doenças que acometiam o gado e epidemias que afetavam as pessoas. Acreditava-se também na eficácia de suas curas para o caso de infertilidade de mulheres.

BIBLIOGRAFIA

JOHNSON, Douglas H. Nuer phrophets : a history of phrophecy from the Upper Nile in the nineteenth and twentieth centuries. Oxford : Clarendon Press, 1994.

JOHNSON, Douglas. “Nyaruac Kolang”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 519-520.

Sokhna Magat Diop (1917–2003)

Líder religiosa  (khalif) nascida em Thiés, Senegal. Era a filha mais velha do serigné chamado Adoulaye Yakhine Diop, de um dos ramos da confraria múrida, a Irmandade Sokhana, e de Tanara Cissé, pertencente à nobreza mandinga de Gâmbia. O pai era discípulo de Cheikh Ahmadu Bamba, e em 1914 fundou uma comunidade em Thiés. Era o terceiro nome mais importante do movimento múrida, sendo declarado mahdi – o líder espiritual renovador do islã.

Sokhna sucedeu o pai em 1943 e chefiou a comunidade múrida até sua morte, conquistando o respeito e a admiração por sua ascese e misticismo, por sua piedade e habilidades organizacionais.  Passou a viver em Touba, onde mandou construir uma grande mesquita, considerada a maior da África ocidental,  e, com o apoio das irmãs, organizou a comunidade em associações (daairas) em Dakar e Thiés, organizando as atividades cotidianas, cerimônias e peregrinações.

Seus seguidores consideram que ela herdou o Baraka – termo sufi que significa algo como o sopro ou a pulsação de vida – de seu pai e da linhagem nobre da mãe. Seu status de santidade foi muito reforçado pelo estilo de vida ascético e místico. Apesar do volume de responsabilidades e da agitação com as obrigações religiosas, ela levou uma vida reclusa, em boa parte do tempo em oração e meditação, lendo os escritos de Ahmadu Bamba e de seu pai, ou conduzindo  retiros místicos conhecidos como khalwah, que incluem sessões de orações, interpretação de sonhos, visões e abstinência que podem levar quarenta dias.

Passou por três casamentos, com Cheikh Ibra Fall, Masamba M’Backé e e Cheikh Atta M’Backé, sucessivamente falecidos, o último deles em 1983. Ao morrer, Sokhna transferiu o seu califado  para a irmã mais jovem, Sokhna Seybatou Aidara.

BIBLIOGRAFIA

BOP, Coudou. Roles and the position of women in sufi brotherhoods in Senegal.  Journal of the American Academy of Religion, v. 73, n. 4, p. 1099-1119, 2005.

COULOUN, Christian; REVEYRAND, Odile. L‘islam au féminin: Sokhna Magat Diop, cheikh de la confrérie mouride (Sénégal). Bourdeaux: Université de  Bourdeaux – Centre d’Étude d’Afrique Noire, 1990.

GEMMEKE, Amber. “Sokhna Diop”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 223-224.

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