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Legenda: Reprodução de baixo relevo em Abu Simbel, Egito

Fonte: Lepsius-Projekt Sachsen-Anhalt. Disponível em: http:// edoc3.bibliothek.uni-halle.de/lepsius/ tafelwa5.html. ABTHEILUNG V, BAND X AETHIOPIEN, Seite 7 von 75. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Napata

Abar (século VII a.C.)

Rainha de Kush, mãe de Taharqa, que governou de 690 a 664 a.C., durante o período da dominação Kushita no Egito. Por vezes é referida com os nomes de Abala, Abale, Abalo, Abiru e Ibart.

As principais fontes sobre ela são várias estelas encontradas durante escavações em Gematen, sítio localizado nas proximidades da atual comunidade de Kawa, ao sul da terceira catarata do Nilo, um dos maiores santuários de Kush. A imagem esculpida em relevo em uma das estelas retrata a rainha Abar em duas cenas simétricas, atrás de Taharqa tocando o instrumento musical conhecido como sistrum enquanto ele oferece pão e vinho ao Deus Amon. Representações similares foram encontradas em um relevo de parede no Templo B300 em Jebel Barkal, o principal complexo de templos da Núbia Antiga, situado entre a terceira e quarta cataratas, e no Templo de Amon em Sanam – próximo a Barkal, na margem oposta do Nilo.

Acredita-se que Abar era sobrinha pelo lado materno de Alara, fundador da 25ª dinastia e semi-lendário governante do Reino cuxita. Também tem sido considerado que ela era filha de Kashta, o primeiro rei cuxita comprovado, e irmã-esposa do rei Piankhy, o conquistador do Egito e primeiro dos faraós da Dinastia “núbia”.

As referências a Abar nas estelas tratam da visita dela à Taharqa, episódio comparado ao reencontro da deusa Ísis com seu filho Hórus. É provável que a “reunião” do rei com sua mãe foi realizada como uma confirmação de seu direito de sucessão ao trono. Pela maneira como são representadas, fica sugerido que a ascensão de Taharqa ao governo foi predeterminada por uma velha petição de Alara que, talvez, para celebrar sua vitória sobre rivais tinha “prometido” várias de suas irmãs ao Deus Amon de Gematen. Neste caso, fica bem estabelecido que a relação, através de Abar, com seu glorioso ancestral Alara, foi o mais importante argumento da legitimação de Taharqa. O precedente de Abar é particularmente importante como a mais antiga das evidências a respeito da instituição das rainhas-mães na vida política de Kush.

BIBLIOGRAFIA

LOHWASSE Rhwasser, A. Queenship in Kush: status, role and ideology of royal women. Journal of the American Research Center in Egypt, v. 38, p. 61-76, 2001.

TROY, L. Patterns of queenship in ancient Egyptian myth and history. Uppsala: Almquist and Wiksell, 1986.

VINOGRADOV, A. K.. “Abar”.  In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 04-05.


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Legenda: Abibatu Mogaji

Fonte: Abibatu Mogaji dies at 95. FreedomOnline. 15 de jun. de 2013. Disponível em: https://freedomonline.com.ng/abibatu-mogaji-dies-at-95/. Acesso em: 21 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Magnatas

Abibatu Mogaji (1916–2013)

Nascida em Lagos, Nigéria, de uma proeminente família de negociantes. Sua mãe, Sardatu Ayola Mogaji, era renomada comerciante, e ela contou ainda com a ajuda e orientação do tio, Tijani Ashogon, no início de suas atividades.

Durante o período colonial, ela atuou no comércio do mercado de Lagos, onde teve contato e se inspirou na liderança de Alimotu Pelewura, que funcionava como braço direito do nacionalista nigeriano Hebert Macaulay nos anos 1930-1940. Após a morte de Madame Pelewura em 1951, Abibatu deu continuidade à liderança das comerciantes, e as representou no Egbe Oluduwa Action Group – AG (1951-1960). Por sua popularidade, carisma e astúcia, ganhou o respeito das mulheres deste segmento social, o que a levou a deter posição de liderança no National Council of Women’s Society – NCWS (Conselho Nacional da Sociedade das Mulheres).

Detentora de alta posição econômica (magnata) e influência política, Abibatu Mogaji passou a ser considerada como uma iyalojà (“mãe do mercado”), passando a ser chamada de alhaja (chefe) Abibatu Modaji. Como matriarca de sua família, viu o filho, Bola Ahmed Adekunle Tinubu, ingressar em uma carreira de sucesso como senador (1993) e governador de Lagos (1999). Sua neta, Folasha de Tinibu, passou a ocupar da função de iyalojà depois que ela morreu.

BIBLIOGRAFIA

AFOLABI, Abiodun S. Lagos market women during the inter-war years: the water rate agitation, 1932-1941. Journal of the Historical Society of Nigeria, v. 25, p. 102-118, 2016.

JACOB, J. Market woman of substance: a biography of alhaja (chief) Abibaty Mogaji. Lagos: Merchantile Press, 1995.

MBA, M. Nigerian woman mobilized: women’s political activity in Southern Nigeria, 1900-1965. California: Berkeley Institute of International Studies, 1978.


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Legenda: Abiodun Duro-Ladipo

Fonte: City People. Remembering My Late Husband, Duro Ladipo, 40 Yrs After. 19 de mar. de 2018. Disponível em: http://www.citypeopleonline.com/remembering- late-husband-duro-ladipo-40-yrs/. Acesso em: 13 de dez. de 2020.

Abiodun Duro-Ladipo (1941)

Atriz, cantora e produtora nigeriana, nasceu em Ijan-Ekite e pertence a uma família real. Completou o ensino secundário em 1963 e alimentou o desejo de ser enfermeira. No entanto, seus planos mudaram quando ela se juntou à companhia teatral de Duro-Ladipo (1963). O mentor da Companhia, o teatrólogo e escritor popular Duro-Ladipo logo reconheceu o seu talento e zelo pelo teatro e a encorajou a permanecer na trupe, vindo depois a se casar com ela (1964).

Abiodun Duro-Ladipo é mais conhecida por seus papéis nas epopéias dirigidas por seu marido. Ela representou a heroína Moremi, na peça homônima. Também já personificou a divindade Oyá na peça intitulada Oba Koso, além de participar de muitas outras nos quinze anos em que trabalhou na trupe, tendo participado como atriz e cantora no Festival de Berlim, Teatros Mundo (1964), Commonwealth Arts Festival (1965), Festival Mondial du Theatre (1973), Festival Youruba em Zurique (1973), entre outros ocorridos em Belgrado, Persépolis e Roma.

Após a morte de Duro-Ladipo, em 1978, ela tomou a frente da companhia de teatro, algo inédito em seu país, zelando pela divulgação da cultura yorubá, mas ampliou o foco, produzindo também para a televisão. Algum tempo depois, foi convidada por Arthur Hall para levar a peça Oba Koso para os Estados Unidos (1987).

Para a televisão, realizou séries em diversas emissoras nigerianas, em geral tratando de temas épicos, entre as quais Oya Sings (1979), Binaku (1981), Oyinbo Ajele (O governador provincial britânico), Esentaye (1997) e Ayelaagbe (1998). Nelas e em filmes, sempre representa papéis de sacerdotisa, deusa, mãe, etc., ressaltando o caráter heroico delas, de modo a valorizar a cultura africana do passado. Em 2009 Abiodun reencenou Moremi, heroína que, segundo ela, é bem diferente dos líderes atuais, “que nos prometem o céu e a terra, mas acabam nos enganando”.

BIBLIOGRAFIA

DURO-LADIPO, Abiodun. I only wanted to help him. Bayreuth: Iwalewa- Haus, 1988.

 OGUNBIYI, Yemi (Ed.). Drama and theatre in Nigeria: a critical source book. Lagos: Nigeria Magazine, 1981.

OGUNLEYE, Foluke. “Abiodun Duro-Ladipo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 266-267.

RAJI-OYELADE, Remi; OLORUNYOMI, Sola; DURO-LADIPO, Abiodun. Duro Ladipo thunder-god on stage. Ibadan: Institut of African Studies – University of Ibadan, 2008.

A pessoa criativa – Duro Ladipo, com legendas em português, 1967, 29min: https://youtu.be/RyzYRNgsqIU


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave: Migrações

Abla Poku (Abla Pokou)

Também conhecida pelos nomes de Awura ou Aura. Nascida c. 1700 e falecida com prováveis 60 anos de idade, segundo as tra­di­ções orais do po­vo baoulé (bau­lê). Teria sido de origem axan­­ti, e sobrinha do rei Osei Tutu, o fundador da Confederação Axanti.

Em 1730, ao ver o seu ir­mão preterido ao tro­no, o que gerou desentendimentos e guerras, ela emi­grou pacificamente com seu po­vo pa­ra o Oeste, numa longa e árdua jornada, e fun­dou um no­vo Es­ta­do em ter­ri­tó­rio da ­atual Costa do Marfim. Depois de atravessar o rio Komoé, Abla Poku e seu povo se estabeleceram em um modo de vida agrícola na savana da região.

De acordo com a lenda de fundação do reino, quando Poku e seu povo chegaram ao rio Komoé, era impossível de atravessá-lo. Ela então pediu conselho aos anciãos e soube que o sacrifício de uma criança nobre seria necessário. Poku então sacrificou seu filho, jogando a criança na água. Diz a lenda que, após o sacrifício, um hipopótamo apareceu e formou uma ponte, que Poku e seu povo costumavam atravessar para a margem oposta do Komoé. Uma vez do outro lado, ela gritou “Ba ouli”, que significa “a criança está morta”. É por isso que seus descendentes hoje são conhecidos como baoulé. Segundo as tradições, quando faleceu teria sido sucedida no governo pela sobrinha, Akwa Boni, que governou de 1760 a 1790.

Devido ao seu significado simbólico como fundadora mítica do povo baulê, sua lenda tem sido retratada na literatura e nas artes, como na peça de Véronique Tadjo, Queen Pokou, e no livro de Maximilien Quenum, Légendes Africaines. Além disso, em 2013 foi lançado um filme de animação marfinense intitulado Pokou, princesse Ashanti, de autoria de N’ganza Herman e Kan Souffle.

BIBLIOGRAFIA

ADOU, Kouamé. Memory and exile: the transatlantic and diasporic dimensions of the myth of ashanti princess Abla Pokou.  Études littéraires africaines, n. 39, 2015, p. 145–159.

N’DRI, Amon Paul. El mito de la reina Abla Pokou entre los Akan de Costa de Marfil. Culturas Populares: Revista Electrónica, n. 1, 2006. Disponível em: http://www.culturaspopulares.org/textos%20I-1/articulos/Amon.pdf


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Legenda: Adame Ba Konaré

Fonte: Mali Buzz. Lettre De L’ex Premiere Dame Au Comite Executif De L’adema : Adame Ba Konaré Donne Des Leçons De Morale Aux Abeilles. 24 de jul. de 2020. Disponível em: https://www.malibuzz.tv/lettre-de-lex-premiere-dame-au-comite-executif-de-ladema-adame-ba-konare-donne-des-lecons-de-morale-aux- abeilles/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Adama Ba Konaré (1947)

Historiadora do Mali, intelectual pública e ex-primeira-dama do país. Nasceu no Segu, área de influência cultural bambara. Seu pai, Mamadou Ba, um dentista, e sua mãe Kadiatou Thiam, vieram de uma longa linhagem de intelectuais muçulmanos da África Ocidental com origem na região Futa Toro no Senegal. Adama Konaré educou-se no Mali e é formada pela École Normale Supérieure, uma das maiores faculdades do país.

Em 1971 ela se casou com Alpha Oumar Konaré, à época professor de ensino médio. O casal teve quatro filhos.

Junto com o marido, Adama Ba conquistou o seu doutorado em história na Universidade de Varsóvia (1976). Daí até 1992 ela foi professora de história na École Normale Supérieure, e teve atuação na vida política. É autora de vários livros de história e ficção, assim como livros de referência. Um deles, Grandes dates du Mali (Grandes datas do Mali), de 1983, ela escreveu em parceria Alpha Oumar.

Ambos foram ativos no movimento pró-democracia entre 1968 e 1991, criaram o jornal Les Echos (Os Ecos) e aturam no partido político Alliance Democratique du Mali – Adema (Aliança Democrática do Mali). Na eleição que seguiu a queda do presidente Moussa Traoré (1992), que havia governado em regime ditatorial de partido único, Alpha Oumar Konaré foi o primeiro presidente eleito da República do Mali, sendo reeleito em 1997 antes de renunciar no final do segundo mandato em 2002, como manda a Constituição do Mali.

Durante o governo do marido, e depois de servir como inspetora-geral da área de história e geografia no Ministério de Educação (1992), Adama deixou o magistério. Passou, então, a se dedicar à vida pública, atuando como diplomata em nome do governo e publicou o Dictionnarie des femmes célebres du Mali (Dicionário das mulheres célebres do Mali), em 1993.

Na qualidade de primeira-dama, publicou vários livros, fundou e dirigiu o Muso Kunda, um museu das mulheres na cidade de Bamako, espaço de educação e troca sobre mulheres e seus conhecimentos que também servia de apoio às instituições internacionais como União Europeia e a UNESCO.

Em 2008 ela editou uma coleção de ensaios, Petit precis de remis à niveau sur l’histoire africaine à l’usage du président Sarkozy (Breve atualização da história africana para uso do Presidente Sarkozy), no qual rebateu um discurso controverso de Sarkozy na Universidade do Dakar em julho de 2007, e também foi ganhadora de prêmios.

BIBLIOGRAFIA

COULOUBALY, Pascal Baba. Le Mali d’Alpha Oumar Konaré: ombres et lumières d’une démocratie em gestation. Paris: L’Hrmattan, 2004.

KONARÉ, Adama Ba. La recherche en Afrique, le domaine de l’histoire: de la période coloniale française à nos jours, état des lieux dans l ecas du Mali. In: VVAA. Cent ans d’Histoire des Outres mers. Paris: Société Française d’Histoire des Outres Mers, p. 635-645, 2013.

KONARÉ, Adam Ba. Dictionnaire des femmes célebres du Mali. Paris: L’Harmattan, 1994.

MANN, Gregory; SIDIBE, Oumou. “Adame Ba Konare”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 419-420.


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Legenda: Adelaide Casely Hayford

Fonte: ROGERS, Brittany. ADELAIDE SMITH CASELY HAYFORD (1868-1960). Blackpast. 08 de mar. de 2009. Disponível em: https://www.blackpast.org/global-african-history/hayford-adelaide-smith-casely-1868-1960/. Acesso em: 21 de dez. de 2020.

Adelaide Casely Hayford (1868–1960)

Nascida como Adelaide Smith, em Freetown, durante o período de colonização inglesa em Serra Leoa. Pertencia a uma família originária da miscigenação de povos hauçá, fanti, de retornados  e britânicos, tendo pertencido a uma elite “crioula”, euro-africana. Passou boa parte de sua infância e adolescência na Inglaterra com a família, e  estudou música no Conservatório de Stuttgart, na Alemanha. Casou-se em 1903 com o ganês Joseph Ephraim Casely-Hayford, com quem teve uma filha, Gladys May. Separaram-se posteriormente, e ambos tiveram destacada atuação como nacionalistas e pan-africanistas.  

Na década de 1920 aproximou-se das ideias de Marcus Garvey. Em Nova Iorque, junto com a sobrinha, Gladys, ingressou e presidiu a divisão de mulheres negras, inteirando-se dos programas de promoção para educação industrial. Após o retorno a Freetown, criou a Girl’s Vocational School (EscolaVocacional para Meninas) em outubro de 1923, que funcionou sob sua direção até 1940. Nesta escola, defendeu a implementação de um nacionalismo cultural africano por meio de um currículo que continha elementos de história, folclore, música e dança tradicionais.  Ela propôs também a comemoração anual do Dia da África, quando as meninas deveriam comparecer vestidas com roupas de origem africana, de modo a evitar o assimilacionismo cultural.

Foi vice-presidenta do Congresso Internacional de Mulheres de Cor, presidenta da Associação de Jovens Mulheres Cristãs, presidenta da divisão local da Associação Universal do Progresso Negro (fundada por Marcus Garvey) e oradora na filial do Congresso Nacional do Oeste Africano Britânico em Serra Leoa, ajudando na recepção de W.E.B Dubois em 1924. Ela também teve a idéia de se criar uma universidade nacional com professores que ensinassem valendo-se das línguas africanas.

Publicava periodicamente no jornal de notícias de Serra Leoa assuntos sobre educação e nacionalismo africano, sendo uma figura com impacto significativo no movimento pan africanista. Também publicou suas memórias em uma série de artigos no West African Review, intitulada The life and times of Adelaide Casely-Hayford (A vida  e a época de Adelaide Casely-Hayford) (1953-1954).

BIBLIOGRAFIA

BAIR, Barbara. Pan-africanism as process: Adelaide Casely-Hayford, garveyism, and the cultural roots of nationalism. In: Lemelle, Sydney J; KELLEY, Robin D. G. (Eds.).  Imagining home: class, culture and nationalism in the african diáspora. Londres: Verso, 1994, pp. 121-144.

BAIR, Barbara. “Adelaide Casely-Hayford”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2,  p.  40-41.

CROMWELL, Adelaide. An african victorian feminist: the life and times of Adelaide Smith Casely-Haiford. Abington: Routledge, 2013 (or. 1986).

OKONKWO, Rina. Adelaide Casely Hayford cultural nationalist and feminist. Phylon, v. 42, n. 1, p. 41-51, 1981.


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Legenda: Adenike Osofisan

Fonte: Dawn Commission. Disponível em: http://dawncommission.org/professor- adenike-osofisan/#prettyPhoto. Acesso em: 21 de dez. de 2020.

Adenike Osofisan (1950)

Nascida em Osogbo, capital do atual Estado de Osun, na área cultural yoruba da Nigéria, frequentou o ensino secundário na Escola de Gramática para Meninas Fiwasaiye, em Akure, e na Escola Secundária de Ayetoro (1968), e realizou o seu primeiro curso universitário na Universidade de Ile-Ifé, com uma bolsa de estudo fornecida pelo governo.

A seguir, Adenike obteve título de Mestrado em Ciência da Informação e Computação no Instituto de Tecnologia da Georgia (1978), e Doutorado na Universidade Obafemi Awolowo, com a tese intitulada: Modelo de Processamento de Dados para uma Rede de Comunicação de Computadores com Acesso Múltiplo (1989). Também realizou mestrado em Administração de Empresas e Finanças pela Universidade de Ibadan (1993).

Adenike Osofisan começou a carreira docente no colégio Politécnico de Ibadan (1979) e ingressou na Universidade de Ibadan (1999), atingindo o nível de professora associada (2003)  e de professora titular (2006), com atuação pioneira na área de Informática e Ciências da computação. Paralelamente, é membro de núcleos de pesquisa e associações professionais das áreas de matemática e informática, e foi eleita presidenta da Sociedade de Computação da Nigéria (2017). Ela também é a presidente pioneira da instituição “Mulheres nigerianas em Tecnologia da Informação” (2003), e a primeira presidenta do Conselho de Registro de Profissionais de Informática da Nigéria (2005-2009). 

Em estudo publicado no International Journal of Global Business (2009),  Adenike e outros dois pesquisadores discutem o atual atraso da Nigéria em relação à tecnologia da informação que vem sendo desenvolvida em outros países na Europa e na América do Norte. No estudo, recomendam medidas e políticas de aceleração dos padrões digitais na sociedade nigeriana. 

BIBLIOGRAFIA

ARIPKO, Iwara; OSOFISAN, Adenike; USORO, Abel. Brindging the digital divide: the nigerian journey so far. International Journal of Global Business, v. 2, n. 1, p. 181-204, 2009.

SUNDAY, Idowu; OSOFISAN, Adenike. Cloud computing and sustainable development in higher education.  Journal of Emerging  Trends in Computing and Information Sciences, v. 3, n. 11, 2012.

LONGE, Olumide; OSOFISAN, Adenike. On the origins of advance fee fraud electronic mails: a technical investigation using internet protocol address tracers. The African Journal of Information Systems, v. 3, n. 1, p. 17-26, 2011.


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Legenda: Adja Arame Diène

Fonte: Leral.net. Photos : Adja Ngoné Ndiaye Arame Diène, l'adjointe au maire de la Médina rappelée à DIEU. 22 de ago. de 2018. Disponível em: https://undesired2.rssing.com/chan-1787082/ all_p1713.html. Acesso em: 21 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Adja Arame Diène (1926–2005)

Nascida nos arredores da moderna cidade de Dakar, conhecidos como Medina de Dakar, no Senegal, de uma família do grupo étnico Lebou, era uma mulher iletrada pois na cultura dos povos Lebou as mulheres não tinham permissão para frequentar a escola.

Adja começou a participar da vida política em 1945, participando do Bloco Democrático Senegalês, e em 1947 ingressou junto com o marido no Partido Socialista do Senegal. É lembrada como a “mãe” do partido socialista, onde desempenhou um papel significativo no movimento de mulheres, liderando a seção feminina do partido e a organização regional do partido na península de Cabo Verde.

Em 1981, após a queda do regime de Léopold Sédar Senghor, foi eleita para a Assembleia Nacional (1983) e, junto com Ramatoulaye Seck e Aïda Mbaye, que, como ela, eram autodidatas ou de baixa instrução formal, direcionou sua participação para questões que afetavam agricultores, mulheres, crianças e saúde, preferindo não tratar sobre assuntos relacionados à defesa militar ou assuntos financeiros. Foi a primeira pessoa a falar em plenário em língua wolof, e não em francês, como era o costume neste local, e a primeira mulher analfabeta eleita como representante política.

Ela atuou durante cerca de quarenta anos na vida pública senegalesa e contribuiu para alterar as estruturas vigentes do poder político. 

BIBLIOGRAFIA

FALL, Babacar. Senegalese women in politics: a portrait of two female leaders, Arame Diène and Thioumbé Samb, 1945–1996. In: Oyěwùmi, Oyèrónké (Éd.). African gender: a reader. New York: Palgrave MacMillan, 2019, p. 233-241.


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Legenda: Adja Satú Camara Pinto

Fonte: The Foundation Adja Satu Camara Pinto. Disponível em: http://fpadc.org/events/. Acesso em: 14 de fevreiro de 2021.
Palavras-chave:

Adja Satú Camará Pinto (1948)

Filha de Mamadú Camará et de Mariama Sambú, nasceu na Aldeia de N’Tuhana, Sector de Buba, Região de Quínara. Sob a influência de seu pai, activista, integrou nas fileiras do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) e da luta de libertação nacional em 1962.

Durante a guerra de libertação, Adja Pinto seguiu uma preparação militar em Gana (1964) e um curso de enfermagem, como enfermeira auxiliar para a frente de combate na URSS (1965). Depois do treinamento, foi responsável de saúde:  da frente Leste (1965-1967) ; em Koundara na Guiné-Conakry em colaboração com o escritório do PAIGC (1967-1968) ; em Quitafine na frente Sud (1968-1969 ; 1970-1971). Também foi nomeada coordenadora de internato do Instituto da Amizade (« Titina Silá ») em Campada (1969-1970) e empregada no hospital da zona 7 (1972-1974).

Em 1974, após a proclamação da Independência da República da Guiné-Bissau, foi nomeada Chefe de serviço de saúde do hospital Bafatá durante muitos anos. Aos poucos, passou a exercer grande influência na vida política do país. Foi sucessivamente governadora da região de Bafatá (1985-1990), de Cacheu (1990) e de Gabú (1997-1999).  Foi deputada da nação na primeira legislatura multipartidária (1994-1999) e foi eleita primeira vice-presidenta da Assembleia Nacional Popular (2004-2008). Adja Satú Camará Pinto entrou no governo pela primeira e única vez como Ministra do Interior de 2009 a 2010 antes de ser nomeada Chefe da Casa Civil do Presidente da República – Malam Bacai « Mambas » Sanhá em 2010.

Em 2016, Adja Pinto deixou o PAIGC. No ano seguinte, em 2017, foi a primeira mulher bissau-guineense a obter a grau de General. Juntou-se ao Movimento de alternância democrática-Grupo 15 em 2018, com qual foi eleita segunda vice presidenta da Assembleia Nacional Popular (2019). Em 2020 foi nomeada quarta vice-Presidente da Mesa Parlamentar da CEDEAO (2020).

Redação: Ferhat Méchouèk

BIBLIOGRAFIA

Biografias de dirigentes (2003), Senegâmbia, 5 de Novembro de 2004. Disponível em: www.senegambia.blogspot.com

Decreto-presidencial n°83/2010 e Decreto-presidencial n°86/2010″, Boletim Oficial, N°1, 2011, pp. 1-2

MÉCHOUÈK, Ferhat. Annuaire prosopographique. In:  Socio-anthropologie des élites au pouvoir en Guinée-Bissau, de l’ère coloniale au système néo-patrimonial (1466-2019): l’impossible “classe dirigeante” ?, Thèse de doctorat, Université de Lille, 2020, p. 466


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Legenda: Gravura sobre Festa do Inhame com casal real axânti (1817)

Fonte: Slavery Images. Disponível em: http://web4.encyclopediavirginia.org/ slave_images/Slavery/detailsKeyword.php? keyword=ashanti&recordCount=11&theRecord=0. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Adoma Akosua (c. 1773 – c. 1838)

Asantehemaaa (rainha-mãe) no Estado axânti, com atuação entre 1809-1819, quando foi afastada e banida da corte depois de ter se envolvido em uma rebelião fracassada contra Osei Tutu Kwame. O pai pertencia a uma alta linhagem e a mãe era parte da linhagem real axânti.

Quando a rainha-mãe governante, Asantehemaa Konadu Yaadom, morreu em 1809, ela, que era prima em linha materna de Osei Tutu Kwame, foi a escolhida para a sucessão. Já nesta função ela comprou sua cidade natal de Apa, provavelmente usando um pouco da riqueza que acumulara, e se estabeleceu em Kumasi.

Em 1817, o Asantehene (rei) viajou para a província de Gyaman, onde o governante local, Kwadwo Adinkra, estava agindo contra os interesses dos axântis, e a deixou no comando do governo. Aproveitando a ausência do cônjuge real, Adoma Akosua entrou em negociações com um concorrente ao trono originário de Abrom, e reuniu mais sete jovens esposas reais e suas famílias para apoiar seus objetivos. Outras fontes dizem que a manobra tinha a finalidade de colocar um de seus filhos no trono. Ela preparou um ritual fúnebre para Osei Tutu Kwame, aparentemente esperando que a cerimônia o levaria à morte.

Quando Osei Tutu Kwame tomou ciência do ocorrido, enviou fiéis apoiadores de volta para a corte para reprimir a rebelião. Ao retornar à Kumasi, convocou um conselho que decidiu pela execução de todos os(as) envolvidos(as): as esposas que apoiaram Adoma Akosua foram decapitadas, e é provável que o filho dela também tenha sido executado. Os tradicionalistas divergem sobre o destino da rainha rebelde: para alguns, ela teria sido enfocarda, meio pelo qual o sangue real não foi derramado; outros dizem que ela não foi morta nessa época, mas que, junto com os seus descendentes, foram afastados das funções monárquicas.

Ao que parece, Adoma viveu em Kumasi até por volta de 1838. Seu tataraneto, Osei Kwaku Goroso, tentou reivindicar sua herança real em 1880, mas não teve sucesso e foi exilado da Costa do Ouro.

BIBLIOGRAFIA

ADOMA AKOSUA. In: Asantesm – the asante collective  biography project bulletin. Evanston: Program of African Studies, Northwestern University, 1979, v. 11, p. 14-17.

MCCASKIE, T. C.. Anti-witchcraft  cults in asnte: an essay in the social  history of an african people. History in Africa, v. 8, p. 125-154, 1981.

SHELDON, Kathleen. “Adoma Akosua”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 150.


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Legenda: Aduke Alakija

Fonte: This Day. Ambassador Jaiyeola Aduke Alakija OFR -A Toast and Tribute. 12 de abr. de 2016. Disponível em: https://www.pressreader.com/nigeria/thisday/20160412/281844347796049. Acesso em: 21 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Organização econômica

Aduke Alakija (1921–2016)

Pertenceu a uma família influente na Nigéria durante o período colonial. Iniciou seus estudos na Claxton House School, em Lagos, e se mudou para o norte do País de Gales em 1930, onde estudou na escola secundária no Penrhos College. Queria cursar medicina na Universidade de Glasgow, mas foi transferida para a London School of Economics para estudar Ciências Sociais. 

Ao retornar à Nigéria, trabalhou como oficial de assistência social no aparelho judiciário de Lagos, onde iniciou a criação de um tribunal juvenil. Ela estimulou o surgimento de um número de clubes femininos em Lagos, e também ajudou na criação de uma associação de apoio à hanseníase.

Em 1949, deixou a Nigéria para estudar Direito, e depois de se formar advogada, em 1953, criou um escritório de advocacia em sociedade com Gloria Rhodes e trabalhou. Anos depois abandonou a advocacia para trabalhar como Oficial de Bem-Estar Social, tornando-se a primeira mulher africana a ocupar este cargo na Nigéria. 

Nos anos 1950-1960 trabalhou como gerente geral da Mobil Oil, consultora jurídica e diretora da Mobil Oil Nigeria (1957) e Secretária Executiva da Câmara de Comércio de Lagos (1967). Paralelamente, participou como membro da delegação da Nigéria nas Nações Unidas e embaixadora nigeriana na Suécia (1984-1987). Também foi co-fundadora da New Era Girls College (Colégio para Meninas Nova Era) e membro e presidente da International Federation of Female Lawyers (Federação Internacional de Mulheres Advogadas) (1975-1977).

BIBLIOGRAFIA

OGUMANAN, Chidi; Wesley Pue, W..  Lawyers’ professionalism, colonialism, state formation, and national life in Nigeria, 1900–1960: “the Fighting Brigade of the People”.  Social Identities, v.13, n. 6, p. 769-785, 2007.

OYEWESO, Siyan. Breaking the yoke of patriarchy: nigerian women in the various professions, politics and governance, 1914-2014. In: Text of the Lecture Delivered at the 2014 National Conference of Association of Women Judges of Nigeria (NAWJN), 2014: https://www.researchgate.net/profile/Siyan_Oyeweso/publication/286457836_BREAKING_THE_YOKE_OF_PATRIARCHY_NIGERIAN_WOMEN_IN_THE_VARIOUS_PROFESSIONS_POLITICS_AND_GOVERNANCE_1914-2014/links/566b0cb808ae430ab4f94b0f


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Legenda: Afua Kobi

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Afua_Kobi_c.1880.png. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Afua Kobi (c. 1815–1900)

Governanta  axânti, era uma asantehemaa (rainha-mãe) com grande atuação no período de 1834-1884. Era filha do asantehene (rei) Owusu Afriyie e da  asantehemaa Afua Sapon e tornou-se a nona asantehemaa  naquela dinastia.

Casou-se com Kofi Nti, um membro do conselho do asantehene. Entre aproximadamente 1835 e 1850 ela teve com ele cinco crianças, duas das quais, do sexo masculino, viriam a se tornar asantehenes, e uma, do sexo feminino, viria a se tornar asantehemaa. Quando Kofi Nti morreu, provavelmente no fim dos anos 1860, ela se casou com Boakye Tenten, que fazia parte do conselho real, mas não teve outras filhas ou filhos com este.

Conforme o conflito com os britânicos aumentavam, um “partido de guerra” começou a se formar e apoiou o seu filho, Kofi Kakari, a se tornar asantehene, porém este, ao assumir o governo,  embora contando com tal apoio, passou a ser pressionado por Afua Kobi, que defendia uma abordagem pacífica  com os estrangeiros, e passou a liderar uma tendência conhecida como “partido da paz”. Em 1873 ela proferiu um poderoso discurso diante dos chefes militares e de seu filho, argumentando que uma declaração de guerra aos britânicos poderia destruir o Império Axânti, e que aquela seria uma guerra injusta. 

Tendo sua posição sido derrotada, os chefes decidiram lutar, e quando perderam a guerra Kofi Kakari foi substituído pelo filho mais novo de Afua Kobi, Mensa Bonsu. Ela continuou como conselheira sênior e interveio novamente em 1881, defendendo mais uma vez junto ao conselho real que o melhor para os axântis seria evitar a guerra. Mensa Bonsu foi derrubado do poder em 1883 e Afua Kobi foi deposta em 1884, sendo exilada junto com o filho. Retornaram a Kumasi, a antiga capital do Estado axânti, em 1900, passando a viver fora dos círculos do poder até o fim de suas vidas.

BIBLIOGRAFIA

AIDOO, Agnes Akosua. Asante queen mother in government and politics in the nineteenth century. In: STEADY, Filomina Chioma (Ed.). The black woman  cross-culturally. Cambridge: Shenkmann, 1981, p. 65-77.

SHELDON, Kathleen.. “Afua Kobi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 108.

STOELTJE, Beverly J.. Asante queen mothers: a study in female authority.  In: KAPLAN, Flora E. S. (Ed.). Queens, queen mothers, priestesses, and power: case studies in African gender.  Nova Iorque: Academy of Sciences,  1997, p. 41-71.


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Legenda: Agathe Habyarimana | Cortesia © Photo News

Fonte: 7SUR7. Génocide rwandais: vers une extradition d'Agathe Habyarimana?. 28 de set. de 2011. Disponível em: https://www.7sur7.be/monde/genocide-rwandais-vers-une-extradition-d-agathe- habyarimana~a72e157f/. Acesso em: 13 de dez. de 2020.

Agathe Habyarimana (1942)

Política e primeira-dama de Ruanda. Nasceu como Agathe, em Kanzinga, no norte de Ruanda, na região do Bushiru.  Pertence a uma família hutu politicamente influente integrada por latifundiários, adversária dos tutsis durante o período colonial.   

Em 1962, casou-se com Juvénal Habyarimana, futuro presidente do país, e veio a exercer grande influência em seu governo, com atuação no Mouvement Révolutionaire National pour la Democratie et le Développement – MRND (Movimento Republicano Nacional para a Democracia e o Desenvolvimento). Por isto, ficou conhecida como “Kanjogera”, o nome da notória mãe do rei ruandense, Musinga. Não era uma referência de respeito, pois segundo as tradições aquela governanta fazia de tudo para manter o poder e status de sua família, incluindo perpetrando assassinatos.

Na década de 1980 ela se cercou de um seleto grupo de poderosos que constituíam o azaku, o grupo precursor da organização extremista Hutu Power (poder Hutu) que foi responsável por promover a ideologia genocida que formou a base para os assassinatos em massa em 1994. O akazu permitiu a ela  uma posição de poder e influência sobre a administração de seu marido, dominando o desenvolvimento de políticas por meio de sua colaboração com oficiais militares de alto escalão e influentes políticos. Muitos de seus integrantes foram identificados como líderes e perpetradores do genocídio durante os julgamentos em curso no Tribunal Criminal Internacional para Ruanda, e Agathe Habyarimana aparece citada nominalmente durante todo o processo.

Segundo alguns, a posição de Juvénal Habyarimana em um acordo de compartilhamento de poder com os tutsis entrava em choque com a posição de Agathe em relação à supremacia hutu, portanto levando-a a facilitar o assassinato do marido.  Em 6 de abril de 1994, o avião que levava o presidente foi derrubado, sendo este o evento que desencadeou os cem dias de genocídio que definiram a história recente de Ruanda. 

Escoltada do país por tropas francesas, recebeu uma quantia de 40.000 dólares do governo francês de um fundo destinado a refugiados ruandeses.  Logo depois, em um programa na televisão belga, denunciou a Frente Patriótica Ruandesa, dominada pelos tutsis, por derrubar o avião de seu marido, dirigindo a atenção para a força rebelde de Uganda que era composta por Tutsis. Foi identificada por alguns como financiadora, organizadora e legitimadora dos assassinatos de tutsis.

Ela fundou a Radio-Télévision Libre des Mille Collines – RTLM, a estação de rádio cujos comentaristas e funcionários foram responsabilizados por incitar o ódio étnico e a violência entre os hutus e os tutsis.  Foi a transmissão retórica e odiosa na RTLM que incitou o genocídio, encorajando os perpetradores durante os assassinatos de abril de 1994.

Depois de deixar Ruanda, Habyarimana estabeleceu-se no Quênia, onde permaneceu até 1996, e estabeleceu ligações com  Mobutu Sese Seko, do Zaire (hoje República Democrática do Congo), e com Daniel Arap Moi, do Quênia, líderes de regimes corruptos, em regimes de governo autoritários. Passou também alguns anos na França na primeira década do século XXI, embora tenha sido movido contra ela um mandado internacional de extradição, para que fosse julgada em seu país por crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

BIBLIOGRAFIA

BUTARE, Innocent. Une jeune femme sur un bateau ivre: Agathe Uwilingiyimana du Rwanda. African Books Collective, 2019. Project MUSE muse.jhu.edu/book/67120

RECKER, Sterling. “Agathe Habyarimana”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 525-527.


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Legenda: Ager Gum

Fonte: ChildBride Solidarity Organization. Disponível em: http:// childbridesolidarity.org/tribute-to-the-late-splm-spla-commander-ager-gum-the-heroine-of-the-liberation-struggle/. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Ager Gum (1941–2001)

Figura militar sudanesa e compositora musical. Pertencia ao grupo dos Agar Dinka da região de Nyang, sendo filha de uma mãe de etnia Yibel que viveu na atual República do Sudão do Sul. É provavelmente a mais famosa mulher comandante militar na história do Sudão do Sul e também uma das mais famosas compositoras.

Casou-se três vezes, mas todos seus casamentos falharam, em parte em virtude de que seus filhos não sobreviveram às duras condições de saúde do Sudão do Sul, onde vacinas preventivas e medicamentos raramente estavam disponíveis. O pai de seu único filho sobrevivente pediu a devolução do gado que tinha sido oferecido como dote da noiva por ocasião do casamento, divorciando-se dela à maneira das tradições Dinka, e o filho ficou sendo criado pelo avô. Depois da humilhação, Ager Gum resolveu nunca mais se casar e tentar fazer algo grande por sua própria conta, abandonou a comunidade em que vivia e mudou-se para a cidade de Rumbek, começando a compor canções, que ela via como uma arma contra casamentos ruins.

Em 1968 ela juntou-se ao movimento guerrilheiro Anya Nya, que lutava pela independência da República do Sudão, adentrando na floresta e lutando ao lado dos homens. Seu físico era robusto, sua altura era aproximadamente 1,88m e seu corpo equiparava-se a maioria dos homens Dinka em tamanho e força. Ela foi a única mulher a receber uma posição de comando nos escalões mais altos nos corpos de oficiais da Anya Nya, recebendo primeiro o posto de tenente e depois de capitã.

Durante o período pacífico dos anos de 1970 quando o Sudão do Sul desfrutou de um governo próprio, Ager Gum serviu como diretora das prisões na cidade de Wau. Por ocasião da eclosão da segunda guerra civil, durante o início dos anos 1980, ela retomou sua vocação militar e assumiu a liderança de um novo movimento de resistência no Sudan Peoples  Liberation Army – SPLA (Exército Popular de Libertação do Sudão), e galgou posições de comanto até tornar-se general-em-chefe.

Nos estágios iniciais da luta ela organizou e treinou mulheres como batedoras, para serem enviadas através das linhas inimigas nas cidades do sul ocupadas pelas tropas do norte, comprar munição e medicamentos, obter informações secretas e outros serviços de inteligência. Depois, assumiu o comando geral das tropas em Rumbek, liderando em batalha tanto homens quanto mulheres.

Nessa mesma época, encontrou outra maneira de pôr em prática os seus dons como compositora de canções. Rompendo com o costume Dinka, em que as mulheres dedicam-se exclusivamente a composições musicais sobre temas da sociedade e da família, enquanto os homens elaboram e executam canções de guerra, Ager Gum transformou sua própria experiência e vivência militar em temas musicais, com canções que se tornaram amplamente conhecidas no Sudão do Sul. Algumas delas foram empregadas para motivar e desenvolver habilidades de liderança militar, sendo tocadas na Rádio do SPLA, algo até então reservado apenas às músicas feitas por homens e dirigidas a homens.

BIBLIOGRAFIA:

BESWICK, Stephanie. “We are bought like clothes”: the war over polygyny and levirate marriage in South Sudan. Northeast African Studies, v. 8, n. 2, 2001, pp. 35–61, 2001. 

BESWICK, Stephanie. “Ager Gum”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 114-115.

COLLINS, Robert O.. A history of modern Sudan. Cambridge; Nova Iorque: Cambridge University Press, 2008.

WEBER, Annette.Women without arms: gendered fighter constructions in Eritrea and Southern Sudan. International Journal of Conflict and Violence, v. 5, n. 2, 2011: https://www.ijcv.org/index.php/ijcv/article/view/2878


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Legenda: Agnés Agboton | Foto: Donostia Kultura

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/ wiki/File:Agn%C3%A9s_Agboton_ltk.jpg. Acesso em: 21 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Tradições africanas

Agnés Agboton (1960)

Nascida em Porto Novo, no Benin, filha de um consultor da ONU, realizou os estudos primário e secundário na Costa do Marfim, foi para a Espanha aos 18 anos e cursou filologia na Universidade de Barcelona.

Com bom domínio das línguas catalã, castelhana,  francesa e gun,  sua língua natal, tornou-se desde 1990 uma contadora de histórias em escolas, bibliotecas e instituições culturais, levando ao público europeu as lendas e contos tradicionais do seu povo e do continente africano.

Como autora, Agnés Agboton escreveu obras sobre gastronomia africana:  La cucina africana (1988), África en los fogones (2001) e Las cocinas del mundo (2002). Sobre as tradições orais e contos tradicionais beninenses, escreveu: Contes d’arreu del món (1995), Abenyonhú (2003) e Na Mitón. Também é autora de poemas e ensaios, como La mujer en los cuentos y leyendas africanas (2004).  

BIBLIOGRAFIA:

N’GOM, M’bare (Editor). AGBONTON, Agnés. In: Palabra aberta: conversaciones com escritores africanos de expressión em español. Madrid, Editorial Verbum, 2013, p.127


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Legenda: Agnès Allafi

Fonte: La Délégation Provinciale de Femme du Salamat. 14 de fev. de 2020. Facebook: Délégation Provinciale de la Femme et de l'Enfant /Salamat. Disponível em: https://www.facebook.com/ delegationprovincialesalamat/posts/ 136060214554333. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Cientistas Sociais

Agnès Allafi (1959)

Política chadiana e socióloga. Seu pai era um influente oficial de alto escalão do exército do regime de François Tombalbaye, que controlou o Chade do início dos anos 1960 até o golpe de estado de 1975. Ela tem nove irmãos, muitos dos quais tiveram oportunidade de formação educacional avançada. Ela própria estudou em Fort-Lamy, na capital de N’Jamena, obtendo formação em Sociologia (1980-1982). Casou-se com um oficial de alfândega protestante (1981), com quem teve dois filhos.

Agnès Allafi foi professora no período de 1981-1982, quando Hissène Habré tomou o poder e tanto o pai dela quanto o seu marido foram executados, o que a levou a fugir do país e buscar asilo na República de Camarões. Ela continuou os estudos na Universidade de Yaoundé, com o apoio de amigos, enquanto corriam rumores de que o regime de Habrè pretendia sequestrá-la e levá-la de volta ao Chade. Em 1985 mudou-se para Cotonou, onde completou a formação acadêmica com um Mestrado em Sociologia na Universidade Nacional do Benin, sobre os direitos das mulheres.

Agnès retornou ao Chade em 1990, após a queda de Habrè e a ascensão do governo de Idriss Déby.  Ingressou então ao Conseil Provisoire de la République – CPS (Conselho Provisório da República) (1991), com participação nas comissões de saúde e serviços sociais. Também tornou-se uma das primeiras líderes mulheres do Mouvement Patriotique du Salut – MPS (Movimento de Salvação Patriótica), e permaneceu fiel ao governo de Déby por mais de duas décadas. Teve atuação no Ministério de Agricultura (1992), e desenvolveu projetos de desenvolvimento agrícola. Representou o seu país na Conferência Internacional das Mulheres em Pequim (1995), e ocupou o cargo de Ministra de Serviços Sociais em dois períodos (1998-1999; 2002-2003).

Durante sua gestão ministerial ela organizou a Semaine Nationale de la Femme Tchadienne – SENAFET (Semana Nacional da Mulher Chadiana) (1998), criou uma simulação de parlamento para jovens, e um comitê de mulheres no parlamento chadiano. Sua atuação demonstra as possibilidades abertas para algumas mulheres dotadas de boa formação no regime de governo de Déby, e a germinação do movimento de mulheres no Chade.   

BIBLIOGRAFIA:

NGARTEBAYE, Eugène Leyota. La participation de la femme à la vie politique au Tchad, 1933-2003. Dissertação (Mestrado), Catholic University of Central Africa, 2004.

RICH, Jeremy. “Agnes Allafi”.  In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 179-180.

TUBIANA, Marie-José. Parcour de femmes: Les nouvelles elites, entretiens, 1997-2003. Paris: Éditions Sépia, 2004.


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Legenda: Guerreiras do Daomé (1852)

Fonte: The New York Public Library. Disponível em: https://digitalcollections.nypl.org/items/510d47da-7503-a3d9-e040-e00a18064a99. Acesso em: 11 de jan. de 2021.
Palavras-chave:

Ahangbé (século XVIII)

Também referenciada na literatura francesa  como Tassi Hangbé. Nascida no antigo reino de Daomé, era irmã gêmea de Akaba, o quarto governante daomeano a que se atribui o fortalecimento militar do reino e que governou entre 1685-1708. Dividia com ele o poder e tinha um palácio próprio em Alada-Vikpé.

Segundo a tradição oral, logo após sair pela primeira vez da residência real, Akaba teria dito: “Dé bé kaba kaba aganman non lia houn”, que significa “O camaleão aproxima-se lentamente e docemente para comer o queijo”, numa alusão a sua idade avançada ao assumir o trono. Sua principal atividade militar foi dirigida contra os Ouéménou, de Huedá. Liderados por Yahassé Kpolou, atacaram Abomé logo no início do reinado de Akaba e Ahangbé, sendo entretanto logo rechaçados.

A morte repentina de Akaba, acometido pela varíola, doença contagiosa que assolou o Golfo do Benin no fim do século XVII, logo após os primeiros contatos com os europeus, fez como que ela assumisse integralmente o poder, governando sozinha durante alguns meses. Para não afetar o ânimo dos guerreiros e desmotivá-los ela inicialmente manteve em segredo e assumiu sua identidade  na luta contra os Ouéménou, obtendo a vitória contra o rei Yahassé Kpolou. A seguir, criou um batalhão especial de mulheres da guarda real conhecido como Ahosi ou Mino, que a literatura ocidental denomina “Amazonas do Daomé”.

Em fongbé, a língua falada no Daomé, Ahangbé significa, literalmente “a voz da canção”. Desde menina ela adorava cantar e amava belas canções. Seu nome porém foi apagado da linhagem real após a ascensão de seu irmão mais novo, Doussou, que assumiu o reino com o nome de Agajá e  o governou de 1708 até 1732, e cujos apoiadores ajudaram a afastá-la do governo. Este transformou as guerreiras da guarda real em uma milícia armada, que utilizou com sucesso no ataque ao reino de Savi em 1727.

Embora Ahangbé não tenha sido formalmente entronizada nem incluída na lista dos governantes oficiais, no período de seu governo ela usava as insígnias do poder real, como as sandálias (saloubata), o grande pano de tecido decorado (avotita), o bastão de comando (mankpó) e era acompanhada do assento e do guarda-sol. Diante da indignação dos ministros e conselheiros da corte, que não admitiam a idéia de uma mulher sozinha ocupar o assento real, para evitar querelas e preservar a vida de seus dois filhos, ela teria enfim concordado em abdicar e ceder o direito de governo a Agajá. 

Até o presente, uma cerimônia anual realizada por mulheres celebra a memória de Ahangbé, presidida por sacerdotisas que a encarnam, que são entronizadas e enterradas ritualmente como rainhas, tema tratado no documentário de Arnaud Zohou intitulado Hangbé, reine oubliée (Ahangbé, rainha esquecida) (2002).

BIBLIOGRAFIA 

ALPERN, Stanley B.. On the Origins of the Amazons of Dahomey. History in Africa, n.  25, p. 9–25, 1998.

BAY, Edna. Wives of Leopard: gender, politics, and culture in the kingdom of Dahomey. Charlotesville; London: University of Virginia Press, 2012 (or. 1998).

BAY, Edna. “Hangbe”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 19-20.

SERBIN, Sylvia. Tassin Hangbé, éphémère reine du Dahomey. In: IDEM.  Reines d’Afrique et héroïnes de la diaspora noire. Saint-Maur-des-Fossés: Sépia, 2004, p. 50-56.


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Legenda: Rainha de povo da costa oeste africana (1800)

Fonte: Past Pages. Disponível em: http://www.pastpages.co.uk/site-files/prints-peoples/Scp012.jpg. Acesso em: 20 de jan. de 2021.

Ahebi Ugbabe (1880–1948)

Nascida na comunidade de Umuida, em Enugu-Ezide, na área cultura igbo, atual Nigéria, era filha de pai agricultor e mãe comerciante.

Cresceu em Unadu, com a família da mãe. Integrante de comunidades acéfalas, em que as decisões são tomadas por conselhos de anciãos ou por sacerdotes que representam as divindades ancestrais, quando tinha cerca de 14-15 anos foi obrigada a abandonar a comunidade familiar e fugir para não ser casada à força com a divindade feminina Ohe, para compensar uma infração cometida pelo pai.

Durante a  fuga em território Igala, Ahebi praticou a prostituição para sobreviver, e se tornou negociante, comercializando óleo de palma, cavalos e mesmo escravos, aprendeu a falar vários idiomas, como o Igala, Nupe e Inglês, e teve acesso a diversos círculos sociais, inclusive o dos colonizadores britânicos. Foi com o recurso a tais contatos, e os seus conhecimentos da língua inglesa,  que ela conseguiu, com o apoio de um oficial britânico retornar à comunidade Enugu-Ezize e reivindicar para si o mandato de chefe e depois o título de eze, equivalente a rei.

Ahebi foi a única mulher nomeada subtenente em toda a Nigéria colonial, o que lhe conferiu ainda maior prestígio junto aos colonizadores, e serviu de intermediária no recolhimento de tributos e na imposição de trabalho forçado. Ela soube se cercar de uma aura de misticismo para fortalecer sua imagem como um rei poderoso, pois governou como homem: teve várias esposas, muitas das quais separadas de maridos abusivos, e adotou os filhos delas.

Antes de morrer preparou o próprio ritual funerário para garantir que obedecesse as normas de um  funeral real, com salvas de tiros, sacrifícios de animais e parada musical, e foi sepultada de acordo com os costumes locais destinados ao enterro de pessoas do sexo masculino.

BIBLIOGRAFIA

ACHEBEchebe, Nwando. The female king of colonial Nigeria: Ahebi Ugbabe. Bloomington: Indiana University Press, 2010.

ACHEBE, Nwando.  “And she became a man”: King Ahebi Ugbabe in the history of Enugu-Ezike northern Igboland, 1880-1948. In: LINDSAY, Lisa; MIESCHER, Stephen (Ed.).  Men and Masculinities in Modern Africa. Portsmouth: Heinemann, 2003.

CHUKU, Gloria. Igbo women and economic transformation in southeastern Nigeria, 1900-1960. New York: Routledge, 2005.

CHUKU, Gloria. “Ahebi Ugbabe”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 94-95.


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Legenda: Rosto no caixão de Ahhotep I | Foto: Hans Ollermann

Fonte: OLLERMANN, Hans. 20 de mai. de 2007. Flickr: Hans Ollermann. Disponível em: https://flic.kr/p/LGyRg. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Novo Reino

Ahhotep I (1560–1530 a.C.)

Rainha do Egito, é uma das mais proeminentes líderes mulheres na história do Egito Antigo. Ela acumulou numerosos títulos que indicam o seu poder e status, sendo lembrada como a “Paz da Lua”. Era irmã e esposa de Seqenenre Tao II, que morreu em batalha contra os Hicsos durante a ocupação do Egito, e mãe de Kamose e Ahmose, que o sucederam, e de Ahmose-Nefertari, a rainha-consorte de Ahmose.

Alguns pesquisadores a consideram a primeira de muitas mulheres notáveis, poderosas e influentes do Novo Reino; outros atribuem a ela a fundação em linha matrilinear da 18ª dinastia; outros veem-na como a verdadeira fundadora do Novo Reino; e outros reconhecem o seu papel na consolidação e manutenção da unidade do reino durante o difícil período de guerra.

Enquanto os homens que a cercavam foram para o campo de batalha, ou eram impossibilitados de governar, coube a ela a administração efetiva da capital do reino, em Tebas, após a morte de Tao II e durante as guerras de resistência que se sucederam durante o governo de Kamose e Ahmose. Quando este último ascendeu ao trono tinha apenas dez anos de idade, o que o impedia de assumir todas as responsabilidades de governo sozinho. Foi ela quem atuou como regente durante os seis primeiros anos do governo dele. Uma inscrição na entrada da fortaleza núbia de Buhen indica os seus dois nomes, sugerindo que, de fato, houve uma co-regência. Outras evidências arqueológicas encontradas em Tell el-Daba e sobretudo em uma inscrição no Templo de Karnak confirmam  esta interpretação.

Sua importância era reconhecida não apenas no Egito, mas também na região do Mar Egeu e no Mediterrâneo, onde se sabia de seu papel na luta de libertação contra os Hicsos.  A ela foi atribuído o título de “Senhora das Costas de Haunebu”, e nos pendentes de ouro de seu sarcófago está a “Mosca Dourada”, distinção que ela recebeu como prova de sua bravura e coragem. Este prêmio honorífico era concedido somente a pessoas a quem se reconheciam feitos e proezas militares.

BIBLIOGRAFIA

JÁNOSI, Peter. The queens Ahhotep I & II and Egypt’s foreign relations. The Journal of Ancient Chronology Forum, v. 2, p. 99-105, 1992.

OCHWADA, Hannington. “Ahhotep”.  In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 119-120.

VANDERSLEYEN, Claude. Les deux Ahhotep. Studien zur Altägyptischen Kultur, v. 8, p. 237–241, 1980.


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Legenda: Ahlam Mustaghanmi

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/ File:Ahlem_Mosteghanemi_at_Beirut_Book_Fair_2012.JPG. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Ahlam Mustaghanmi (1953)

Poetisa, romancista e editorialista, foi a primeira argelina a publicar um romance em árabe – como uma forma de resistência ao imperialismo cultural francês, que aboliu o seu uso formal, e à cultura popular produzida em massa. Sua família resistiu à colonização francesa; preso por ser ativista político, seu pai Muhammad al-Sharif insistiu que ela estudasse em uma das melhores escolas árabes do país, o que abriu caminho para o diploma em Literatura Árabe na Universidade de Argel em 1973, e para o doutorado pela Universidade Sorbonne (1982). A sua tese, Algérie, femmes et écritures (Argélia, mulheres e escritas) mapeia a história da Argélia através da participação política e literária de suas mulheres.

O árabe, a feminilidade e a Argélia estão em seu primeiro romance, Dhakirat al-Jasad (Memória na carne) (1993), dedicado ao escritor argelino Malik Haddad. Além de um elogio a seu pai e à Argélia pós-emancipação, ela é uma crítica de si e do outro através da voz masculina adotada para o narrador. Segundo ela, o vazio cultural existe porque o país não transcendeu sua história como sujeito colonizado. Filha de um mártir, ela desenvolve um perfil humanista para a figura deste; mulher, ela recorda as injustiças pelas quais essas passam no pós-independência. O romance, ganhador do prêmio de literatura Najib Mahfuz, foi traduzido para várias línguas e ganhou uma sequência com Fawda al-Hawas  (Caos dos sentidos) (1997), e ‘Abir Sarir (Uma cama transeunte) (2003).

Embora afirme que “escrever no mundo árabe é uma atividade perigosa”, sua poesia é uma alternativa à cultura pop, estando no repertório de Jahida Wahbi e na televisão, com a adaptação de Memória na Carne. Outras obras suas são ‘Ala Marfa’ al-‘Ayyam (No portal do tempo), Al-Kitaba fi Lahdhat ‘Uriyy (Escrevendo em um momento de nudez), além das contribuições semanais à coluna Zahrat al-Khalij.

Ahlam Mustaghanmi lançou a coleção de artigos Qulubuhum Ma’ana, Qanabiluhum ‘Alayna (Seus corações conosco, suas bombas sobre nós), escritos após o 11 de Setembro e críticos não só às posições de europeus e norte-americanos, mas também ao silêncio da comunidade internacional em relação à região árabe-islâmica.

BIBLIOGRAFIA

BAMIA, Aida A. Dhakirat al-Jasad (The Body’s Memory): A new outlook on old themes. Research in African Literatures, v. 28, n. 3, p. 85-93, 1997.

GHAZOUL, Ferial J. Memory and Desire. Al-Ahram Weekly , n. 409, 24-30/12/ 1998.

SHEBLE, Riham. “Aham Musaghanmi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 353-354.

SUYOUFIE, Fadia. The uncanny in Ahlam Mustaghanmi’s ‘Abir Sarir’. Journal of Arabic Literature, v. 36, n. 1,  p. 28-49, 2005.


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Legenda: Ahmose-Nefertari | Neues Museum

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Queen_Ahmose-Nefertari_Neues_Museum_26042018_2.jpg. Acesso em: 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Ahmose-Nefertari (1570–1505 a.C.)

Primeira rainha da 18ª dinastia, durante o Reino Novo. Era consorte real do faraó Ahmose I, com quem teve pelo menos três filhos. Um deles, que viria a governar com o nome de Amenhotep I, sucedeu o pai no trono. Entre os títulos que ostentava, estavam os de “Princesa hereditária”, “Muito graciosa”, “Muito elogiosa”, “Mãe de rei”, “Esposa de grande rei”, “Esposa de deus”.

Seu pai, Kamos, governou durante o período da invasão dos Hicsos, e pode ter perdido a vida em uma batalha. Foi durante o reinado de seu meio-irmão e esposo real que ela recebeu, ao que parece pela primeira vez na história do Egito, o título de “Esposa do deus Amon”, o que fez com que posteriormente ela viesse a ser divinizada e venerada. Nesta posição, ela se tornou beneficiária de todas as propriedades e riquezas do templo de Amon, passando a incumbir a ela a administração de tais bens. Para alguns, poderia ter sido a regente durante a menoridade de Amenhotep I.

Sua posição de poder e prestígio refletem-se nas grandiosas representações de Ahmose-Nefertari em Karnak. Ela parece ter morrido no quinto ou sexto ano de governo de Tutmés I, e pode ter sido enterrada em Dra Abu el-Naqa. Após a morte, foi deificada e cultuada em Tebas, como “Senhora do Céu” e “Senhora do Oeste”.

Nas representações de Ahmose-Nefertari, ela é retratada com pele negra, ou por vezes assume tons de azul. Argumenta-se que a cor de sua pele poderia ser indicativo de sua ascendência núbia, conforme sugestão do arqueólogo Flinders Petrie, em 1939, e conforme interpretação do pesquisador Martin Bernal em seu conhecido livro chamado Black Athena (Atenas Negra), de 1978. Para outros(as) pesquisadores(as), a cor sinalizaria o seu papel como deusa da ressurreição, já que o preto é a cor das terras férteis e úmidas encontrada nas margens do Nilo.

BIBLIOGRAFIA

ALAMEEN-SHAVERS, Antwanisha. Not a trophy wife: (re)interpreting the position held by queens of Kemet during the New Kingdom as a political seat. Journal of Black Studies, v.  49, n. 7, p.  647–671, 2018.

BRADBURY, Louise. Nefer’s Inscription: on the death date of queen Ahmose-Nefertary and the deed found pleasing to the king. Journal of the American Research Center in Egypt, v. 22, p. 73-95, 1985.

GITTON, Michel. Les divines epouses de la 18e dynastie. Paris: CNRS, 1984. Disponível em: https://www.persee.fr/doc/ista_0000-0000_1984_mon_306_1


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Legenda: Amazonas do Daomé (1905)

Fonte: Internet Archive. Disponível em: https://archive.org/details/lhommeetlaterre00reclgoog. Acesso em: 11 de jan. de 2021.
Palavras-chave:

Ahosi (séculos XVIII–XIX)

Grupamento de  mu­lhe­res-sol­da­do a ser­vi­ço do Rei­no do Daomé nos sé­cu­los  XVIII e XIX. Suas integrantes aparecem designadasnos textos de observadores ocidentais, escritores e administradores-coloniais  erroneamente como “Amazonas do Daomé”. A denominação guarda um componente eurocêntrico e contém evidente exotização pela admiração causada nos europeus devido à sua valentia e furor sanguinário, que foram hipervalorizados de modo a realçar a “selvageria” dos(as) africanos(as).

A denominação daomena, ahosi, significa “esposa do rei”, ou ahwansi, em referência às sacerdotisas de Hevioso. Parece se dever ao fato de que o grupamento, em sua origem era integrado por mulheres do harém real.  E as assim chamadas  eram também referidas  como mino, termo correspondente, em português,  à expressão  “nossa mãe”.

As primeiras informações sobre a atuação dessas mulheres guerreiras datam do período de governo do rei Agajá, embora a guarda real feminina tenha sido criada pela rainha Ahangbé, que governou de 1708-1711.   Muito bem treinadas, ­suas in­te­gran­­tes ­eram en­car­re­ga­das do po­li­cia­men­to do pa­lá­cio ­real e da guar­da pes­soal do so­be­ra­no, ­além de par­ti­ci­pa­rem das guer­ras em que o rei­no se en­vol­via. O batalhão fo­ra cria­do co­mo for­ça de de­fe­sa do ha­rém e au­xi­liar dos 3 mil mem­bros da Guarda Real. 

No momento de consolidação da instituição, as mu­lhe­res ­eram es­co­lhi­das en­tre es­cra­vas não dao­mea­nas, que não ti­nham ne­nhu­ma li­ga­ção com o rei. Esse pro­ces­so de se­le­ção so­freu al­te­ra­ções por vol­ta de 1850, quan­do o rei Guêzo con­ce­deu às mu­lhe­res sta­tus ­igual ao dos ho­mens e es­ta­be­le­ceu pro­ces­so de re­cru­ta­men­to, se­le­ção e pres­ta­ção de ser­vi­ços por ­três ­anos. Na dé­ca­da de 1880, as co­man­dan­tes ­eram es­co­lhi­das nas me­lho­res fa­mí­lias da no­bre­za, o que fa­zia de­las uma for­ça tan­to mi­li­tar e po­lí­ti­ca.

BIBLIOGRAFIA

BAY, Edna. Wives of Leopard: gender, politics, and culture in the kingdom of Dahomey. Charlotesville; London: University of Virginia Press, 2012 (or. 1998).

ALPERN, Stanley B.. On the Origins of the Amazons of Dahomey. History in Africa, n.  25, p. 9–25, 1998.


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Legenda: Aicha Ech-Chenna

Fonte: Le Nouvel Afrik. Maroc: le rude combat des mères célibataires. 25 de jul. de 2014. Disponível em: https://www.afrik.com/maroc-le-rude-combat-des-meres-celibataires. Acesso em: 13 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Direitos Humanos Enfermeiras

Aicha Ech-Chenna (1941)

Assistente Social marroquina e ativista pelo direito das mulheres. Nasceu em Casablanca e passou sua infância em Marrakech. Retornou para Casablanca em 1953 para continuar seus estudos em francês na Escola Foch e no Lycée Joffre.

Começou a carreira como secretária  de uma clínica médica, trabalhando em um programa de assistência portadores de hanseníase e também em um laboratório especializado em tuberculose. Posteriormente estudou e se formou em Enfermagem

As dificuldades financeiras que teve durante sua infância e vida adulta influenciaram na sua atuação em serviço comunitário. Foi voluntária social por mais de cinquenta anos. Dedicou sua carreira a lidar com problemas relacionados a consciência médica, proteção de crianças abusadas e mulheres em situação de vulnerabilidade. Ficou conhecida e foi muito criticada por discutir tabus sociais, inclusive recebendo ameaças por isso.

Entre 1962 e 1980, trabalhou no Ministério da Saúde em Casablanca e foi pioneira no debate nacional de planejamento familiar, assim como desafiou as visões tradicionais sobre gravidez e papel da mulher na família, forçando tais discussões na sociedade. Em 1985 criou em Casablanca a Association Solidarité Féminine (Associação de Solidaridade Feminina),  para auxiliar mães solteiras e crianças abusadas, com sedes espalhadas em todo o Marrocos.

Também escreveu o livro intitulado Miseria: témoignages (Miséria: testemunhos) (1996), com histórias de vinte mulheres donas de casa abusadas e crianças abandonadas.

Aicha recebeu prêmios nacionais e internacionais, como o Prêmio de Direitos Humanos da República Francesa (2002) e o Prêmio do Clube Internacional das Mulheres em Frankfurt (2005). 

BIBLIOGRAFIA

BOUGROUM, lham. Aïcha Ech-Chenna, la voix des femmes sans voix au Maroc. In: Colloque international Pleins feux sur les femmes (in)visibles, Université de Lorraine, Nancy, 2018: https://hal.univ-lorraine.fr/hal-01915896

BOUM, Aomar. “Aicha Chenna”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2,  p. 63-64.

ECH-CHENNA, Aïcha, Miseria: témoignages. Casablanca: Le Fennec,1996.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave: Jornalistas

Aicha Mekki (c. 1950–1992)

Nascida com o nome de Rkia Fatha, foi uma repórter criminal e colunista marroquina.  Nasceu na cidade de Taza, e mudou-se ainda criança para Casablanca, em condições de extrema pobreza.

 Pioneira da reportagem criminal moderna no Marrocos, ficou conhecida pela coluna “Au ban de la société” (À margem da sociedade), publicada no jornal francófono local L’Opinion (1977-1992). Quebrou tabus sociais com representações detalhadas de indivíduos usualmente destituídos da sociedade justamente no período conhecido como “Anos de Chumbo” no Marrocos, marcado pela repressão estatal.

Seus artigos focavam nas condições socioeconômicas e histórias pessoais de suspeitos, a partir de informações obtidas em audiências públicas, e geralmente envolviam adultérios e assassinatos. Eventualmente ela flertava com o sensacionalismo, inserindo viradas chocantes e resultados desastrosos para atos cometidos por ciúmes. Aicha Mekki também publicou algumas narrativas pessoais de sujeitos socialmente marginalizados, como prostitutas e viciados em tom de compreensão e solidariedade.

Embora fosse uma jornalista conhecida, vivia em condições humildes.  Em maio de 1992, após não comparecer ao trabalho por duas semanas, seu corpo foi encontrado no seu apartamento após os vizinhos perceberem o odor que dele provinha.

É lembrada como inovadora pela abordagem sensacionalista e divertida ao relato criminal, bem como por ter dado voz aos despossuídos, abusados e esquecidos pela sociedade.

BIBLIOGRAFIA

LAHJOMRI, Abdeljalil. Pleure Aïcha, tes chroniques égarées. Casablanca, Marrocos: Malika, 2001.

SMOLIN, Jonathan. “Aicha Mekki”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 180-181.


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Legenda: Mulher da Tunísia (1888)

Fonte: The New York Public Library. Disponível em: https://digitalcollections.nypl.org/items/510d47e1-3daf-a3d9-e040-e00a18064a99. Acesso em: 19 de jan. de 2021.
Palavras-chave: Místicas muçulmanas

Aisha al-Manubiyya (século XIII)

Mulher-santa norte-africana, da ordem sufi de Sadhili. Equivalente aos homens-santos que, a partir do século XI, pregaram, ensinaram e deram exemplos de vida espiritual e de misticismo, em ascese e meditação, conhecidos pelo nome de marabus (marabutos; marabous). Seus túmulos costumam atrair peregrinos e em muitos casos a eles são atribuídas curas, previsões de futuro e mesmo milagres.

As datas exatas de nascimento e morte de Aisha são difíceis de decifrar. Seu túmulo, localizado em Manúba, na Tunísia,  é foco e símbolo de devoção por gerações de mulheres vinculadas ao sufismo. Apesar de ser atraente de diversas maneiras, ‘A’isha não foi destinada ao casamento. Ela chegou a noivar um primo, mas ele morreu logo na noite após o noivado.

As poucas descrições que se têm sobre a vida de Manubyya são hagiografias, que servem muito mais de guias espirituais para devotas do que como documentos biográficos. Pesquisadores especializados no estudo das hagiografias ainda hoje decifram alguns de seus conhecidos milagres. Conta-se que o primeiro deles teria ocorrido dentro do útero de sua mãe, quando um leão ameaçou atacar a mulher grávida: Manubiyya teria falado de dentro da barriga para que a mãe não temesse. Depois de seu nascimento conta-se que ela proclamou ter sido escolhida para um cargo de alta santidade entre os sufistas, apesar de ser uma mulher.

Em várias circunstâncias Manubiyya discutiu com grandes mestres sufi sem nenhuma preocupação acerca de seu gênero. Suas palavras eram tão arrebatadoras que o fato de ser mulher significasse um problema para ela. Aisha proclamava que sabia chegar a Deus com muito mais facilidade que as centenas de seus equivalentes homens. Também dizia ter um conhecimento superior ao de Rabi al-Adawiyya, uma santa do século VIII.

Ela teve de ser uma mulher audaciosa, afinal era a todo o tempo desafiada por homens que se sentiam ameaçados pelo seu aprendizado espiritual. Muitos deles incomodavam-se pelo fato que ela se misturasse nos mesmos espaços masculinos. Apesar das constantes provocações e acusações inclusive de “loucura espiritual”, ela conseguiu provar seus poderes espirituais, e deu seguimento aos seus estudos.

BIBLIOGRAFIA

DEGUILHEM, Randi; MARIN, Manuela (Eds.). Writing the feminine: women in arab sources. Londres; Nova Iorque: I. B. Tauris, 2002.

DERMENGHEIM, Emile. Le culte des saints dans l’islam maghrebin. Paris: Gallimard, 1954.

FROMHERZ, Allen. “Aisha Manubiyya”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 92-93.  

KUGLE, Scott Alan. Sufis and saint’s bodies: mysticism, corporeality, & sacred power in Islam. Chapell Hill: University of North Carolina Press, 2007.


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Legenda: Aisha Musa Ahmad

Fonte: Blog Wadjabir. 28 de set. de 2011. Disponível em: http://wadjabir.blogspot.com/2011/09/blog-post_1486.html. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Aisha Musa Ahmad (1905-1974)

Cantora sudanesa e ativista durante a luta de independência da República do Sudão. Nasceu na Cidade de Kassala, sendo a mais velha de uma família com sete filhos(as), originária  do grupo fula e hauçá da Nigéria. Seu pai era um erudito religioso fuqaha que ensinava na madraça (escola corânica) em Al-Abassiya, na cidade de Omdurman.

Começou a cantar com quatorze anos. Devido a sua excepcional capacidade de memorização e recitação do Alcorão, e a sonoridade de sua voz, começou a ser convidada para participar em festas de casamento. Mas logo o pai a proibiu de cantar, entregando-a em casamento, e quando ela se divorciou e voltou a se dedicar à música, foi deserdada.

Tendo o talento reconhecido em 1938 por Dmitri al-Bazaar, que trabalhava para a Companhia de Música Mochian Beck, no Cairo, Aisha Ahmad se mudou para o Egito, onde gravou discos e suas músicas começaram a ser tocadas em locais públicos e em emissoras de rádio, como a Omdurman Radio Broadcasting. Ela era acompanhada pela irmã, Jidawiyya, que tocava instrumento de cordas com a orquestra, algo recebido com antipatia pelos homens, que até então eram os únicos a ocupar os meios de comunicação. Porém, o gradual aumento da audiência e do sucesso fez com que a posição das mulheres sudanesas na rádio fosse reconhecida e respeitada.  Ela foi também a primeira a introduzir duetos no Sudão, e nos anos 1960 ela cantou com a cantora sudanesa Ahmed Abdel Raziq.

 Como ativista, Aisha defendeu o direito das mulheres e divulgou ideias libertárias contra o governo colonial britânico durante a Segunda Guerra Mundial e contra as forças do Eixo. Em 1945, ela cantou no Canal do Nilo, no Cairo, pelos direitos das mulheres a trabalhar fora de casa, mas também exibiu sua música em acampamentos militares sudaneses no período da guerra contra Hitler e Mussolini, e no período da luta contra os britânicos. Fez parte de delegações representado o seu país durante a emancipação.

Durante a vida, gravou mais de 100 canções para a Omdurman Radio Broadcasting e mais do que 50 canções para a Wadi al-Neel.  Casou-se quatro vezes, mas o único filho, do primeiro casamento, morreu ainda jovem. Conseguiu a reconciliação com o pai antes dele morrer, em 1970, e quatro anos mais tarde ela própria faleceu, sendo enterrada no cemitério de Hamad a-Neel, em Omdurman.

BIBLIOGRAFIA

MALIK, Saadia. Exploring Aghani al-Banat: a postcolonial ethnographic approach to Sudanese woman’s songs, culture and performance. Thesis (Doctorat), Ohio State University, Ohio, 2003.

MUHAMMAD, Baqi’e Badawi. “Aisha Musa Ahmad”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 122-123.


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Legenda: Aisha Taymur

Fonte: Egyptian Streets. To Write, To Protest: 9 Female Egyptian Writers Who Broke Barriers. 14 de fev. de 2019. Disponível em: https://egyptianstreets.com/2019/02/14/to-write-to-protest-8-female-egyptian-writers-who-broke-barriers/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Feminismo islâmico Poetisas

Aisha Taymur (1840–1902)

Poetisa, escritora e ativista egípcia de origem curda, que viveu e atuou na era otomana.  Nasceu no seio de uma família privilegiada, filha de um alto oficial do governo otomano chamado Ismail Taymur Pasha, e de uma possível jariyah (concubina), cujo nome permanece no anonimato.

 Foi educada em casa por professores particulares, uma vez que naquela época não havia escolas para mulheres no país. Seus tutores a instruíram na memorização e na caligrafia do Alcorão, na jurisprudência islâmica, além da gramática do árabe, do turco e do farsi (persa). Suas irmãs não tiveram a mesma sorte e receberam uma educação formal típica das jovens da época (costura e trabalhos domésticos).

Ainda jovem Aisha começou a compor poemas, nas três línguas que aprendeu. Aos quinze anos foi dada em casamento a um burocrata mais velho, com quem teve uma filha, e só depois de se tornar viúva ela passou a se dedicar exclusivamente à literatura. Era um privilégio reservado à elite social e a um restrito grupo de mulheres. Em sua correspondência e em seus textos estão retratadas as barreiras impostas naquela rígida sociedade ao universo feminino.

Em 1885-1886, seu primeiro livro foi publicado, provavelmente o primeiro escrito por uma mulher no Egito, recebeu o nome de Diwan (coletânea), obra pioneira republicada, em conjunto com outros trabalhos inéditos em 1952, no livro Diwan Aishah al-Taymuriyyah, maʿa al-qasaʾid allati lam yusbaq nashruha (Coleção de poemas de Aishah al-Tamuriyya, com os seus poemas que não foram publicados anteriormente), em língua árabe.

Após o sucesso inicial da coletânea, Aisha escreveu um trabalho em prosa chamado Resultado das Circunstâncias (1887), obra moral que discute a questão da educação infantil. A autora escreveu ainda um tratado em forma de exegese do Alcorão, acerca do matrimônio e das relações entre marido-mulher, e a questão da autoridade, dos direitos e deveres dos cônjuges, o Mirat al-taammul fi al-umur (O Espelho da Contemplação acerca das Coisas) (1892), onde reinterpretou o Alcorão, sugerindo que seu texto era menos patriarcal do que os muçulmanos tradicionalmente pensavam.

Quando faleceu, seu obituário foi publicado nos principais jornais do Egito. Muitas mulheres egípcias e do mundo islâmico a consideram importante pioneira na literatura feminina em língua árabe, além de uma das primeiras autoras a discutir a questão dos direitos das mulheres no islamismo.

BIBLIOGRAFIA

BOOTH, Marilyn. Biography and feminist rhetoric in early twentieth-century Egypt: Mayy Ziyadah’s studies of three women’s lives.  Journal of Women’s History, v. 3, p.38-64,  1991.

BOOTH, Marilyn. “!A’ishah Taymur”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 515-517.

HATEM, Mervat. Aishah Taymur’s tears and the critique of the modernist and the feminist discourses on nineteenth-century Egypt.  In: ABU-LUGHOD, Lila (Ed.). Remaking women: feminism and modernity in the Middle East. Princeton: Princeton University Press, 1998, p. 73-87.

GHAZOUL, Ferial J.. Literature, gender, and nation-building in nineteenth-century Egypt: the life and works of A’isha Taymur by Mervat F. Hatem. Journal of Middle East Women’s Studies, v. 9, n. 2,  p. 108–110, 2013.


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Legenda: Mulher sudanesa (1800)

Fonte: Past Pages. Disponível em: http://www.pastpages.co.uk/site-files/prints-peoples/Scp079.jpg. Acesso em: 20 de jan. de 2021.
Palavras-chave:

Aissa Koli Nirmaramma (século XVI)

Embora não seja mencionada pelos escritores e historiadores de língua árabe, segundo as tradições orais dos povos kanuris, da antiga região dominada pelo estado de Kanem-Bornu, a rainha Aissa Koli, como ficou lembrada, foi a sucessora de Dunama (1545-1563), e teria governado após a morte do pai, no período de 1563-1570.

Segundo a tradição oral, Dunama teria declarado que todos os filhos de seu antecessor deveriam ser mortos, e o meio-irmão de Aíssa, chamado Idris, foi enviado em segredo para a cidade de Bulala. Na ausência de sucessores masculinos, ela governou durante sete anos, que era o tempo previsto para cada maís (monarca) do Kanem-Bornu.  No governo de Idris Aluma ela teria continuado a tomar parte no conselho real.

BIBLIOGRAFIA

DEWIÈRE, Rémi. Du Lac Chad a la Mecque. le sultanat de Borno  et son monde (XVI-XVII siècles). Paris: Éditions de la Sorbonne, 2017.

JACKSON,  Guida M..  Women leaders of Africa, Asia, Middle East, and Pacific: a biographical reference. Bloomington:  XLibris Corporation, 2009.


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Legenda: Aïssata Kane

Fonte: KANE, Oude mar. de Première Femme ministre en Mauritanie. ACTUME. 05 de fev. de 2013. Disponível em: https://actume.org/blog/aissata-kane-premiere-femme-ministre-en-mauritanie/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Direitos das mulheres

Aïssata Kane (1938-2019)

Ativista feminista, política e primeira ministra mulher do governo Mauritano. Nasceu na cidade de Dar El Barka, no sul da Mauritânia. Seu pai, Mame N’diack, era o chefe dos fulas do distrito de Toro, governando-os de 1923 até sua morte (1976). Ela fez o ensino primário e secundário no período de 1946-1957 na cidade senegalesa de Saint-Louis, que dava mais oportunidades educacionais do que as de Mauritânia e frequentou aulas na Universidade Livre de Bruxelas com bolsas de estudo (1959-1960), mas teve que reduzir sua permanência e retornar à Mauritânia devido a problemas familiares.

No contexto das emancipações, foi para a capital do Mali, Bamako, para se juntar à organização pan-africanista Conference des Femmes Africaines (Conferência das Mulheres Africanas), e depois mudou-se para Argel quando o grupo se estabeleceu na Argélia. Sua carreira internacional continuou em meados dos anos 1960. Ela se juntou à Federação Democrática Internacional de Mulheres – IDFW em sua reunião anual realizada em Helsinque, na Finlândia.

Aïssata trabalhou como professora de francês (1963-1967), e foi admitida no conselho da ala jovem do Parti du Peuple Mauritanien – PPM (Partido do Povo Mauritano) (1966), continuando, todavia, a defender as pautas importantes para a promoção das mulheres, como: educação, melhoria das condições de vida; ampliação dos direitos legais e melhorias da situação econômica. A facilitação dos divórcios e a finalização do casamento infantil tornaram-se duas causas que chamaram especialmente a sua atenção. De sua atuação resultaram a criação de um novo código legal que defendia os direitos das mulheres no casamento e o crescente número de meninas que frequentavam a escola, além da ampliação da participação política das mulheres em órgãos de representação política em seu país.

Kane foi uma das primeiras mulheres africanas a denunciar publicamente a mutilação genital e a trabalhar pela sua eliminação. Ela se tornou secretária de informações do Mouvement National Féminin- MNF (Movimento Nacional Feminino), afiliado ao governo, e foi editora-chefe da revista Marienou. Em 1975, foi a primeira mulher na história da Mauritânia a receber uma posição ministerial, no Ministério para a Proteção da Família e dos Assuntos Sociais, nele permanecendo até 1978, quando um golpe militar derrubou o regime e ela perdeu o cargo.

Embora não tenha voltado a ocupar posição nos governos posteriores, continuou sendo uma ativista incansável, como presidenta da ’Association internationale des femmes francofones (Associação Internacional das Mulheres Francófonas)  (1987) e Observadora na Organização da Francofonia. Ela também foi presidente da Associação para a Proteção do Ambiente e da Infância, um dos primeiros grupos ambientalistas na Mauritânia, e prestou diversas assessorias na ONU. Ela foi nomeada em 2005, junto com outras 999 mulheres ativistas ao redor do mundo, para o Prêmio Nobel da Paz. Junto com a senegalesa Anette Mbaye D’Erneville, escreveu o livro Métiers de femmes (Ofícios de mulheres).

BIBLIOGRAFIA

DOBERT, M.. Women in French-Speaking West Africa: A Selected Guide to Civic and political participation in Guinea, Dahomey and Mauritania. A Current Bibliography on African Affairs, v. 3, n. 9, p. 5–21, 1970.

RICH, Jeremy. “Aissata Kane”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 286-288.

SHELDON, Kathlenn. Historical dictionary of women in sub-Saharan Africa. Lanham: Scarecrow Press, 2005.


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Legenda: Aissatou Yaou | Foto: Johnkekam

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:YaouAissatou2.jpg. Acesso em: 15 de dez. de 2020.

Aissatou Yaou (1951)

Nascida em Tcheboa, ao Norte da República dos Camarões, estudou na escola secundária em Garoua e em Douala. Estudou economia na Universidade de Rouen, na França, onde obteve o título de bacharelado em 1975, e nas universidades de Georgetown e Claremont Graduate School, nos Estados Unidos, onde obteve em 1979 o título de MBA (Master’s degree in Business Administration).

De retorno ao seu país, atuou com sucesso na Société Nationale des Investissements – SNI (Sociedade Nacional de Investimentos), organização paraestatal de promoção do desenvolvimento econômico. Em 1988 assumiu o Ministério dos Assuntos das Mulheres, durante o governo de Paul Biya, mantendo-se no cargo até o ano 2000. 

Neste tempo, adotou medidas de incentivo à educação das mulheres, aboliu o direito reservado aos maridos de autorizar suas esposas a procurar emprego e promoveu uma reforma do código de família camaronês que garantia maior emancipação feminina. Representou o país na Conferência Internacional das Mulheres em Beijing e, com o apoio financeiro e material da Fundação Chantal Biya, criou duas associações femininas para o desenvolvimento, a CFR e a Professional Women Association (Associação Profissional das Mulheres), tendo organizado seminários, conferências e cursos de formação para a promoção das mulheres.

BIBLIOGRAFIA

KONDE, Emmanuel. African woman in politics: knowledge, gender, and power in male-dominated Cameronn. Lewiston: Edwin Mellen, 2005.

RICH, Jeremy. “Aissatou Yaou”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 198-199.

TCHOUAKEU, Mesmin Kanguelieu. Histoire des femmes célèbres du Cameroun. Yaoundé: Cognito, 2008.


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Legenda: Albertina Nontsikelelo Sisulu

Fonte: South African History Online. Disponível em: https://www.sahistory.org.za/people/albertina-nontsikelelo-sisulu. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Albertina Nontsikelelo Sisulu (1918- 2011)

Ativista antiapartheid, esposa do líder do African National Congress – ANC (Congresso Nacional Africano) Walter Sisulu, ganhou proeminência por conta própria e recebeu a denominação MaSisulu, “mãe da nação”.

Nasceu em Transkei, no Cabo Oriental, sendo a segunda de cinco crianças. Frequentou a escola primária no distrito de Tsomo, a escola secundária e depois a faculdade católica chamada Maria Zell, que lhe permitu ser professora. Ela mudou-se para Johanesburgo em 1941 e foi treinada no Hospital Geral de Não-Europeus, qualificando-se como enfermeira geral e parteira. Trabalhava no Hospital Geral de Johanesburgo quando conheceu Walter Sisulu, que era membro da ANC, e com quem se casou em 1944.

Em 1949 Albertina passou a fazer parte da Liga das Mulheres do ANC, já durante o regime do Apartheid. Ela foi uma das 20.000 mulheres que marcharam rumo a Pretória em protesto contra as leis do passe (1956). Sua maior preocupação era com o impacto da segregação racial sobre as crianças em decorrência da Bantu Education Act (Lei de Educação Bantu), criada em 1953, que restringia a formação das crianças nas línguas bantu ao Departamento de Assuntos dos Nativos, criando além disso escolas segregadas, o que motivou reações, protestos e boicotes.

Por sua liderança ela foi presa em 1958 e detida em vários outros momentos, enquanto Walter foi condenado à prisão perpétua em 1964. Seu ativismo teve continuidade, e em 1983 ela foi co-presidente da recém formada Frente Democrática Unida, que a colocou mais uma vez na mira das autoridades sul-africanas que detinham o poder. Após a libertação do marido, em 1989, Albertina voltou a participar da organização da Liga das Mulheres e em 1994 foi eleita para o parlamento, onde atuou até 1999, quando ela e o marido deixaram a vida pública.

Em 2011 ela morreu aos 92 anos de idade, e continua sendo uma fonte de inspiração. Como disse: “Embora a política tenha feito minha vida áspera, não há absolutamente nada de que me arrependa sobre o que fiz e o que aconteceu comigo e com a minha família ao longo de todos esses anos. Em vez disso, eu fui fortalecida e me sinto mais mulher do que eu teria sido se minha vida tivesse sido diferente”.

BIBLIOGRAFIA

CHETTY, Suryakanthie. “Albertina Nontsikelelo Sisulu”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 398-399.

SISULU, E..   Walter and Albertina Sisulu: in our lifetime. Cape Town: David Philip, 2002.

WORDEN, N. The making of modern South Africa: conquest, segregation and Apartheid. Oxford: Blackwell Publishers, 1994.


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Legenda: Albina Africano | Angola Expo

Fonte: Angola Expo. 27 de mar. de 2015. Flickr: Angola Expo. Disponível em: https://flic.kr/p/rvH8CB. Acesso em: 21 de dez. de 2020.

Albina Africano (1945)

Albina Faria de Assis Pereira Africano é uma química e mulher pública angolana. Nasceu em Luanda, no período da colonização portuguesa e se formou em ensino técnico secundário  no Instituto Industrial de Luanda (1967).

Albina Africano deu início ao estudo de química em 1972 na então Universidade de Luanda (atual Universidade Agostinho Neto), concluindo os estudos apenas em 1982 devido às turbulências da guerra civil que assolou o país após a declaração de independência em 1975.  Especializou-se em ciências da produção de petróleo, incluindo intercâmbios e estágios em Antuérpia (1984), no Instituto Francês do Petróleo – Novas Energias (1987) e no Instituto para Estudos de Energia da  Universidade de Oxford (1989).

Integrante das fileiras do Movimento Popular de Libertação de Angola – MPLA, tornou-se em 1976 diretora do departamento de análises no Laboratório Nacional de Análises Químicas em Angola, onde permaneceu até 1983, quando entrou para a empresa privada Fina Petróleos de Angola (Petrangol), primeiro como química e depois como diretora-adjunta do Departamento de Refinaria (1985-1991).

Nos anos 1990 foi membro do conselho e integrou a diretoria-executiva da empresa  petroleira estatal Sonangol, chefiando-a até 1999. Foi Ministra do Petróleo e Ministra da Indústria, antes de se tornar Assessora Especial da Presidência para Assuntos Regionais e, no período de 2004-2012, presidenta da Confederação Empresarial da Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).

BIBLIOGRAFIA

MANGUEIRA, José Pereira da Costa Barroso. Políticas de formação e endogeneização de capital humano em países em desenvolvimento: o caso da indústria petrolífera em Angola. Dissertação (Mestrado- Engenharia e Gestão de Tecnologia), Universidade Técnica de Lisboa, Lisboa, 2004.


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Legenda: Alda Bandeira

Fonte: Blog Sociedade Civil pelo Desenvolvimento. 15 de abr. de 2015. Disponível em: http:// sociedadecivilstp.blogspot.com/2015/04/o-poder-local-tem-que-ter-consciencia.html. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Alda Bandeira (1949)

Política de São Tomé e Príncipe. Seu pai, enfermeiro, e sua mãe moravam no estado de Água-Izé. Frequentou a escola primária e secundária em São Tomé e em Luanda, Angola. No período de 1972-1974, estudou filologia germânica na Universidade de Lisboa. Casou-se com Norberto Costa Alegre, com quem teve duas filhas.

Durante o processo de descolonização do seu país, tornou-se uma das mais proeminentes estudantes da radical Associação Cívica chamada de Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe – MLSTP, cujos líderes foram exilados naquele momento em Libreville, no Gabão.

Depois da independência, divergências levaram a que ela e outros que eram contrários a linha radical do partido fossem forçados a deixar São Tomé e se exilar em Moçambique. Lá, Alda fez o curso de Línguas Modernas na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo (1975-1977). Realizou o Mestrado em Línguas e Literaturas Modernas na Universidade de Lisboa e pós-graduação em Relações Internacionais no Instituto de Ciências Sociais e Políticas de Lisboa (1987), conhecimento que utilizou quando lecionou inglês em São Tomé e em Maputo.

Entre 1987-1990, no período final do regime de partido único, ela manteve vínculos como diretora de cooperação multinacional do Ministério de Negócios Estrangeiros, e passou a integrar o comitê executivo do Partido de Convergência Democrática – Grupo de Reflexão – PCD-GR, que representava as forças de oposição. Ela foi eleita em 1991 e em 1994, tornando-se a líder parlamentar do seu partido, sendo uma das únicas três mulheres que participavam do Parlamento.

Em 1995, Alda Bandeira foi uma das fundadoras do Fórum das Mulheres Santomenses. Em abril de 2002, foi indicada como Ministra de Relações Exteriores do governo do Primeiro Ministro Gabriel Costa, mas foi dispensada em setembro do mesmo ano, sendo então designada diretora local da Organização Não Governamental Amigos das Crianças –  cargo que ela costumava ocupar desde 1990. Em 2008, quando foi criada a Administração Marítima e Portuária, responsável pela supervisão das navegações no arquipélago, a ela foi entregue a direção do órgão.

BIBLIOGRAFIA

RAMOS, João. Quem é quem em São Tomé e Príncipe. São Tomé: Mediateca, 2007.

SEIBERT, Gerhard. Comrades, clients and cousins. Colonialism, socialism and democratization in São Tomé and Príncipe. Leiden: Brill, 2006.

SEIBERT, Gerhard. “Alda Bandeira”.  In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 370-372.


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Legenda: Alda Espírito Santo

Fonte: CHIAZOR, Miriam. City Icon: Alda Neves da Graça do Espírito Santo – Sao Tome. Afro Tourism. Disponível em: http://afrotourism.com/travelogue/city-icon-alda-neves-da-graca-do-espirito-santo-sao-tome/. Acesso em: 05 de fev. de 2021.
Palavras-chave: Poetisas

Alda Espírito Santo (1926-2010)

Alda Neves da Graça Espírito Santo foi uma mulher pública e poetisa santomense. Nascida em uma conhecida família da elite local,  frequentou a escola primária na então colônia de São Tomé, completando o ensino secundário na cidade de Porto, em Portugal (1948).

 Recebeu treinamento para professora primária em Lisboa, ocasião em que se juntou à Casa dos Estudantes do Império, uma associação de estudantes das colônias portuguesas. Ali conheceu muitos dos futuros líderes nacionalistas da Angola, Cape Verde, Guiné-Bissau e Moçambique. Foi uma das fundadoras, em Lisboa, da associação cultural Centro de Estudos Africanos (1951).

Alda da Graça voltou a São Tomé, trabalhando como professora. Logo juntou-se ao advogado português Palma Carlos nas investigações  sobre as atrocidades cometidas pelas autoridades coloniais durante o massacre de fevereiro de 1953. Em 1965, foi presa em Lisboa por motivar a subversão no arquipélago.

Em 19 de setembro de 1974 ela liderou um grupo de mulheres vestidas de preto em uma manifestação em frente ao palácio do governo contra suspeitas de envenenamento da água e do sal pelos portugueses. Depois da independência, essa data foi declarada Dia Internacional da Mulher.

Alda escreveu o hino nacional de São Tomé, “Independência Total”. Na organização do país, após a emancipação, tornou-se Ministra da Educação e Cultura do governo de transição,  foi presidenta da Assembleia Popular Nacional (1980-1990), e desde  1987 até a sua morte, presidiu a União de Escritores e Artistas de  São Tomé e Príncipe (UNEAS).

Como poetisa, publicou em diversas antologias, e é autora dos seguintes livros: É nosso o solo sagrado da terra (1978), Mataram o rio de minha  cidade (2002) e A poesia e a vida (2006). Seu poema  mais conhecido chama-se Onde estão os homens caçados neste vento de loucura (1977).

BIBLIOGRAFIA

ESPÍRITO SANTO, Alda do. Onde estão os homens caçados neste vento de loucura. In: RUI, Manuel (Ed). 50  poetas africanos. Lisboa: Plátano Editora, 1989, pp. 463-464

SEIBERT, Gerhard. Comrades, clients and cousins. Colonialism, socialism and democratization in São Tomé and Príncipe. Leiden: Brill, 2006.

SEIBERT, Gerhard. Alda da Graça”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 500-501.

SHAW, Caroline. São Tomé and Príncipe. In: CHABAL, Patrick (Ed).  The postcolonial literature of lusophone Africa. Evanston: Nothwestern University Press, 1996, p. 234-247.

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Legenda: Alda Lara

Fonte: Lusofonia Poética. Disponível em: https://www.lusofoniapoetica.com/angola/alda-lara. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Alda Lara (1930 – 1962)

Poetisa Angolana, ensaísta, doutora e ativista política. Nasceu em Benguela, na então colônia portuguesa de Angola, como Alda Ferreira Pires Barreto de Lara Albuquerque. Pertencia a uma família de comerciantes, e era considerada, de acordo com o sistema de classificação racial colonial, como branca.

Ao finalizar o equivalente ao ensino secundário, foi para Portugal, onde estudou Medicina na Universidade de Lisboa e na Universidade de Coimbra, onde escreveu uma tese sobre psicologia infantil com o título de Deficiências psíquicas provocadas por carência de cuidados familiares (1962). Frequentou a Casa dos Estudantes do Império, e após a formatura retornou a Angola com a intenção de desenvolver trabalho de cuidados médicos com crianças, mas morreu cinco meses depois. Era casada com o médico moçambicano Orlando de Albuquerque, com quem teve quatro filhos, alguns dos quais se envolveram posteriormente na Luta de Libertação Nacional.

Suas obras foram publicadas nos seguintes livros: Antologia de poesias angolanas (1958), Mostra de poesias (1959), Anthologia da Terra Portuguesa (1960-1961), Poemas (1966, 1979, 1984). O que se sabe da sua vida vem de seus poemas, muitos deles publicados postumamente em compilações de livros em português.  Tratam do contexto histórico em que ela viveu, com assuntos sobre sua infância; sua identidade nacional e racial; a vida como angolana no exílio em Portugal; seus desejos como mulher, mãe e cidadã; dificuldades da vida diária sob o colonialismo; ambições emocionais; alegrias e prazeres simples da vida.

Como ela morreu precocemente, quando os movimentos de libertação na África Portuguesa estavam ganhando notoriedade, fica difícil mensurar a influência de suas criações nas escritas de libertação e o impacto delas nas populações envolvidas. Entretanto, diversos temas de seus poemas, relativos às memórias de sua infância, mensagens para as mulheres (Testamento) e os seus desejos para seus filhos (Herança), sugerem não só que ela previa uma morte iminente e que transformou sua poesia em um fórum para desenvolvimento intelectual, autoconhecimento e autoidentificação. Além de ser uma forma de ultrapassar as barreiras em meio as quais ela vivia.

Alda morreu aos trinta e dois anos devido a complicações médicas desconhecidas. Em reconhecimento ao seu trabalho, a Câmara Municipal de Sá Bandeira introduziu o prêmio Alda Lara para Poesia.

BIBLIOGRAFIA

ALBUQUERQUE, Orlando de. Alda Lara, a mulher e a poetisa. Luanda: Imbondeiro, 1966.

BURNESS, Don. Children in the poetry of Alda Lara. In: WYLIE, Hal; LINDFORS, Bernth (Eds). Multiculturalism and hybridity in African literatures. Trenton: African World Press, 2000.

CÉSAR, Amandio. Alda Lara na moderna poesia de Angola.  Braga: Edições do Templo, 1978.

THOMPSON, Drew. “Alda Lara”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 469-470.


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Legenda: Alice Auma Lakwena

Fonte: HISTORY, Ugandan. 28 de abr. de 2020. Twitter: @UgandanHistory. Disponível em: https://twitter.com/UgandanHistory/status/ 1255015085443035137. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Líderes religiosas

Alice Auma Lakwena (1956-2007)

Medium ugandense, profeta e líder de uma força militar envolvida na guerra civil da Uganda nos anos 1980. Chamada de Alice Auma, passou a ser conhecida como Alice Lakwena devido ao nome do espírito que a possuiu. Nasceu em Bungatira, uma vila perto de Gulu, em Acholi.

Pertencia a uma família cristã, e o pai, Severino Lukoya, foi catequista para a igreja anglicana. Quando ele sofreu um acidente doméstico grave em 1958, afirmou ter ido temporariamente ao céu, onde uma voz anunciou que os espíritos viriam para seus filhos e que uma criança já tinha sido escolhida.

Isto ficou evidente para ele quando, em janeiro de 1985, Alice começou a pregar a palavra de Deus, e a afirmar também experimentar visões místicas. Criada na fé anglicana, frequentou a escola primária Central por sete anos. Porém, na vida adulta converteu-se ao catolicismo, pouco antes de começar a ser possuída pelo espírito Lakwena, que significa “mensageiro” ou “apóstolo” 

Durante a guerra civil de Uganda (1981-1986), no governo do presidente Yoweri Museveni, Alice recebeu do espírito Lakwena a missão de curar as pessoas afetavas pelo conflito, mas em agosto de 1986 uma outra ordem espiritual lhe foi dada: a de liderar a guerra contra o espírito mal que se abatia no país.

Ela criou e liderou um movimento conhecido como Holy Spirit Mobile Forces – HSMF (Mobilização das Forças Armadas do Espírito Santo). Recrutou pessoas de diversas procedências (soldados, camponeses, estudantes, meninas e mulheres) e passou a treiná-las para lutar na guerra civil. Seguida por cerca de 7 a 10 mil pessoas, atacou diversas localidades, sendo vencida em 1987 quando os conduzia para atacar a capital do país, Kampala, o que levou à dissolução do movimento. Ela se refugiou temporariamente no Quênia, sendo posteriormente presa e mantida encarcerada até 1992. Ao sair da prisão, retornou a Gulu e fundou uma igreja independente.

O perfil de sua liderança se assemelha a de diversas mulheres anteriores que, como Kimpa Vita, no Congo do século XVII, Charwe ou Nehanda, na Rodésia, ou Nogqawuse, na África do Sul do século XIX, foram videntes ou profetizas que atraíram muitos seguidores, conferindo às experiências místicas um canal de expressão de inconformismo social ou político.

BIBLIOGRAFIA

ALLEN, Tim. Understanding Alice: Uganda’s Holy Spirit Movement in context. Africa, v. 61, p. 370-399, 1991.

BEHREND, Heike. Alice Lakwena and the Holy Spirits: war in northern Uganda. Oxford; Nairobi; Athens: James Currey, 1999.

BEHREND, Heike. “Alice Auma Lakwena”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 461-462


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Legenda: Alice Mulenga Lubusha Lenshina

Fonte: Chalo Chatu. Disponível em: http://www.chalochatu.org/File:Alice_Lenshina.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Líderes religiosas

Alice Mulenga Lubusha Lenshina (c. 1920 -1978)

 Profetisa zambiana, nasceu perto de Kasomo Village no Distrito de Chinsali, no nordeste da Zâmbia. Seu nome de nascimento era Mulenga Lubusha, e depois foi batizada com nome cristão de Alice. A mãe e o pai eram membros do Clã do Crocodilo, o real do reino Bemba.

Casou-se com Gipson Nkwale, com quem teve um filho. Depois da morte deste, passou por um ritual de purificação e entregue, segundo o costume Bemba, ao primo do falecido, Petros Chintankwa, com quem teve cinco filhos.

A missão espiritual de Lubusha Lenshina apareceu em uma revelação durante uma experiência de quase morte em 1953. Em sua visão, Jesus Cristo a encorajava a atravessar um oceano, mas, do outro lado do oceano, anjos disseram-lhe para retornar à terra dos vivos para purificar as pessoas do mal. Ao se recuperar, ela decidiu cumprir essa tarefa trabalhando com a igreja presbiteriana local. No entanto, os missionários proibiram-na de batizar e pregar por ela ser mulher, e por não ter um treinamento oficial. Quando ela persistiu, foi expulsa da igreja.

Lubusha fundou então uma comunidade mística a que chamou de Igreja Lumpa. Baseada em sua autoridade espiritual e carisma, ela fixou normas que passaram a ser tidos como “mandamentos” e incluíam a proibição da poligamia, insultos, o consumo de fumo e de álcool – práticas que colocavam as mulheres em perigo. A partir de 1955, muitos(as) peregrinos(as) vieram ao seu tempile (templo) para serem batizados(as) e para entregar objetos mágicos que lhes causavam mal. Ela ficou conhecida como a “Rainha”, “Regina”, ou seu equivalente na língua Chibemba, Lenshina. Seus adeptos também se referiam a ela como Maayo (mãe), ou Lubuto Iwa Chalo (a luz do mundo).

Com o dinheiro obtido pelas doações e contribuições, seus seguidores construíram uma grande igreja perto de Kasomo Village (1958) e lhe deram o nome de Igreja Sione (Sião). Estima-se que o número de seguidores de Lenshina tenha oscilado entre 50 e 150 mil pessoas, o que gerou rivalidade com a igreja presbiteriana, com os chefes bembas e com o United National Independence Movement – UNIP (Movimeno de União Nacional pela Independência) (1961), que atacaram edifícios da Igreja Lumpa, acreditando que Lenshina estivesse a serviço de seus opositores políticos.

No final de julho de 1964, depois de vários confrontos entre UNIP e as comunidades da Igreja Lumpa, o administrador colonial, Governador Evelyn Hone, e o Primeiro Ministro Kenneth Kaunda implementaram medidas de segurança para forçar os seguidores de Lenshina a abandonar as comunidades. Quando eles se recusaram, tropas coloniais atacaram e pelo menos mil pessoas morreram em decorrência dos ataques. A própria líder se entregou ao governo em 1964, e embora nunca tenha sido processada, permaneceu detida até sua morte. Foi enterrada no altar do que sobrou de sua Igreja Sione. 

Com o fim do regime de Kenneth Kaunda, em 1991, a Igreja Lumpa foi reconstituída como a Igreja Nova Jerusalém, na qual Lenshina é considerada sua fundadora e profetisa.

BIBLIOGRAFIA

GORDON, David. Community of suffering: narratives of war and exile in the Zambian Lumpa Church. In: PETERSON, Derek; MACOLA, Giacomo (Ed.). Recasting the past. Athens: Ohio University Press, 2009.

GORDON, David. “Alice Mulenga Lubusha Lenshina”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 487-488.

ROBERTS, Andrew. The Lumpa church of Alice Lenshina. In: ROTBERG, R. I.; MARZUI, Ali A..(Ed.). Protest and power in Black Africa. Nova Iorque: Oxford University Press, 1970.


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Legenda: Alifa Rifaat

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Alifa_Rifaat.jpg. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Alifa Rifaat (1930-1996)

Fátima ‘Abd Allah Rif’, feminista muçulmana, nasceu no Cairo. Frequentou a escola primária em Heliópolis, antes de se mudar para o vilarejo de Hilmiyat al-Zaytun, onde estudou em uma escola para moças. Aos nove anos escreveu sua primeira história chamada A miséria de nossa aldeia, que a levou a ser punida por seu pai.

Entre 1946 e 1949, frequentou o Instituto Britânico no Cairo, onde estudou inglês, desenho e música em uma escola convento. Foi proibida pelo pai de entrar no Colégio de Artes na Universidade do Cairo, que a obrigou a se casar com um engenheiro de minas. O casamento durou oito meses e não foi consumado. Em 1952, casou-se novamente, obrigada pelo pai, com Husayn Rifaat, seu primo, com quem teve três filhos.

Ele era policial e viajava pelo Egito para exercer suas funções, Rifaat o acompanhava nessas viagens, isso proporcionou novos cenários para sua escrita, que foi retomada em 1955, embora escrevesse escondida do marido. Ela passou a escrever sob o pseudônimo Alifa Rifaat, expressando a sua revolta com a desigualdade e hipocrisia dos homens em matéria de sexualidade. Seu marido descobriu e a fez jurar perante o Alcorão que desistiria de escrever, sob pena do divórcio e da perda de seus filhos. Ela aceitou e passou a ocupar seu tempo livre com estudos sobre literatura, sufismo (misticismo islâmico), história e ciências.

Em 1973, após problemas de saúde seu marido acabou permitindo que ela escrevesse. A partir daí Alifa publicou vários contos, entre eles Alami al-majhul (Meu Mundo Desconhecido) que ganhou elogios e condenações por seu tema: uma mulher casada refugiada em um mundo de fantasia, envolvida pelo sentimento amoroso a uma serpente. Em 1975, publicou o livro Hawwa ‘ta’ud bi-Adam (Eva Retorna com Adão).

Em 1979 seu marido faleceu, alguns anos mais tarde casou-se com Denys Johnson-Davies, um arabista canadense, que publicou algumas de suas obras em inglês, como Distant view of a Minaret (O olhar distante de um minarete) (1983). Pela influência de Denys, ela abandonou alguns dos elementos românticos na escrita e passou a usar o dialeto coloquial do Egito em suas obras.

Alifa ganhou diversos prêmios literários, algumas obras foram adaptadas para a televisão e foram traduzidas para outros idiomas. O tema principal de suas criações é a negação do direito das mulheres a uma vida sexual plena e efetiva no casamento.  Segundo ela homens e mulheres não devem fazer amor a menos que alcancem harmonia mental e emocional para que alcancem o clímax paradisíaco. Sua insistência em escrever sobre experiências sexuais provocou a fúria de líderes religiosos egípcios, mas eles foram incapazes de desconsiderar sua lealdade ao Islã bem como às leis e aos costumes da sociedade tradicional egípcia.

BIBLIOGRAFIA

CAMPBELL, Robert B. Crosshatching in global culture: a dictionary of modern arab writers. Trad. J. J. Donohue e L. Tramontini. Beirute: Orient-Institut der Deutschen Morgenländischen Gesellschaft, Würzburg: Ergon Verlag, 2004.

NKEALAH, Naomi Epongse. Islamic culture and the question of women’s human rights in North Africa: a study of short stories by Assia Djebar and Alifa Rifaat. Dissertação de Mestrado (Literatura Pan-Africana), Universidade de Pretória, Pretória, 2007: https://repository.up.ac.za/handle/2263/27852

ROPER, Geoffrey. “Alifa Rifat”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 202-203.

SALTI, R. M.. Feminism and religion in Alifa Rifaat’s the shorts stories. The international fiction review, v. 18, n. 2, p. 107-112, 1991: https://journals.lib.unb.ca/index.php/IFR/article/download/14098/15180


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Legenda: Agassou | Cyprien Tokoudagba

Fonte: Galerie Degbomey. Disponível em: http://www.galeriedegbomey.com/cyprien-tokoudagba.html. Acesso em: 08 de jan. de 2021.
Palavras-chave:

Aligbonon (Século XIII)

Figura central do mito de fundação da dinastia real do antigo Daomé, nas atuais repúblicas de Benin e do Togo. É lembrada nas tradições orais de língua fon como uma princesa originária do reino de Tado, membro de uma família do Planalto de Abomé, que teria vivido no século XIII.

Ela teria sido a ancestral feminina primordial (tohuiyo) dos Aligbononni Wasanu, família oriunda de Wasa, cujos descendentes teriam se misturado por casamentos com os povos ajás. Tornou-se objeto de culto como ancestral dos Aladahonu, os povos de Alada, e, por extensão, a “grande-mãe” da dinastia dos reis daomeanos, conhecidos como Agasuvi.

Segundo o mito, ela teria procriado os filhos junto com uma entidade sobrenatural, um espírito (houn) na forma de uma criatura felina com característica de pantera ou leopardo (kpó). Quando nasceu, o filho dela, muito robusto peludo, recebeu o nome de Agassu. Quando cresceu ele deixou muitos filhos que formaram o clã dos Agussuvi.

Isto explica que Aligbomon tenha sido cultuada como um poderoso vodun vinculado ao leopardo, e que este animal tenha sido o símbolo da linhagem real daomeana. Por isso é que as rainhas-mães eram chamadas de kpojitó, que significa literalmente “aquela que engendra o leopardo”, e as esposas favoritas do governantes atendiam pelo nome de kposi, a “esposa do leopardo”.

BIBLIOGRAFIA

BAY, Edna. Wives of the leopard: gender, politics, and culture in the Kingdom of Dahomey. Charlotesville; London:  University of Virginia Press, 1998.

CORNEVIN, Robert. Histoire du Dahomey.  Paris: Éditions Berger-Levrault, 1962.

PARÉS, Luis Nicolau. O rei, o pai e a morte: A religião vodum na antiga Costa dos Escravos na antiga Costa dos Escravos. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave:

Alimotu Pelewura (c. 1865-1951)

Conhecida como Madam (Senhora) Alimotu Pelewura, foi uma influente negociante e líder política de vertente nacionalista na Nigéria durante o período colonial. Nascida no povo Awori, maior grupo étnico do sudoeste Nigéria, na região de Lagos, era de fé muçulmana. Sua mãe foi uma negociante muito respeitada no mercado de Lagos e pouco se sabe sobre seu pai. Ela se casou mas logo o marido faleceu, e não teve filhos. Não teve educação formal, sendo analfabeta, situação muito comum entre as mulheres que negociavam no mercado.

Começou a atuar como comerciante de peixes no mercado  Ereko, em Lagos, no ano de 1900, em continuidade ao trabalho de sua mãe. Na década de 1920  tornou-se a liderança feminina mais importante do mercado de Lagos, sendo reconhecida inclusive pelo Eshugbayi, governante nativo (Oba) de Lagos. Passou a ser qualificada como iyàl’ojà, a “mãe do mercado”, uma posição política feminina muito respeitada em toda a Nigéria.

Em 1923 o líder nacionalista Herbert Macaulay procurou Alimotu pedindo que ela apoiasse o novo partido em construção: Nigerian Nacional Democratic Party – NNDP. Logo após, ela ajudou a organizar o Lago’s Market Women’s Association – LMWA(Associação das Mulheres do Mercado de Lagos), além de tornar-se parte do Ilu comittee, o conselho consultivo do Oba, sendo a representante de 84 mulheres de 16 mercados diferentes.

Entre 1930 e 1951 o LMWA foi protagonista de diversas movimentações anticoloniais em conjunto com os nacionalistas. Ela era uma liderança poderosa e influente, sendo ouvida tanto por mulheres quanto por homens. Sob sua liderança as mulheres organizaram protestos e passeatas, o que desagradou o governo colonial, pois as mulheres eram responsáveis por importantes setores da economia: controlavam o abastecimento de comida, de bens domésticos, a localização dos mercados e produtos de cuidados pessoais. Sob seu comando as negociantes participaram de uma marcha contra a taxação dos produtos, e de uma greve contra o controle de preços pelas autoridades coloniais.

Em 1947 ela foi escolhida como Erelu de Lagos, tornando-se representante dos interesses femininos perante o Obá. No mesmo ano foi convidada a fazer parte de uma delegação de militantes nacionalistas que foi até Londres reivindicar a Independência. Pela idade avançada ela não pode ir e Funmilayo Ransome-Kuti foi no seu lugar. Dezenas de milhares de pessoas compareceram em seu funeral e realizaram uma passeata pelas ruas de Lagos.

BIBLIOGRAFIA

JOHNSON, Cheryl. Grassroots Organizing: women in anti-colonial activity in southwestern Nigeria.   African Studies Review, v. 25, n. 2-3, p.137-157, 1982.

JOHNSON, Cheryl. Madam Alimotu Pelewura and the Lagos Market Women. Tarikh, v.7, n. 1, p. 1-10, 1981.

JOHNSON-ODIM, Cheryl. “Alimotou Pelewura”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 88-90.

MURITALA, Monsuru. Women and Urban Experience in Colonial Lagos. Afrika Zamani, n. 22 & 23, 2014-2015, pp. 1-17: https://www.codesria.org/IMG/pdf/1._muritala_afrika_zamani_22_23_2c_2014-2015.pdf

MBA, M. Nigerian woman mobilized: women’s political activity in Southern Nigeria, 1900-1965. California: Berkeley Institute of International Studies, 1978.  


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Legenda: Ilustração de Aline Sitoué Diatta

Fonte: Pinterest: furtado melville. Disponível em: https://nl.pinterest.com/pin/498844096223758344/?autologin=true. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Iletradas Líderes religiosas

Aline Sitoué Diatta (c. 1921-1944)

Profetisa senegalesa. Nasceu no povoado de Kabrousse, na então África Ocidental Francesa – AOF, em território ao sudoeste da atual República do Senegal. Pertencia ao grupo étnico Diúla, vinculado aos grupos falantes de língua mandinga que habitam o Senegal, Gâmbia e Guiné-Bissau. Geralmente esse povo é integrado por comunidades produtoras de arroz, vinculam-se prioritariamente ao campo religioso muçulmano e também ao cristianismo, mas a maior parte permanece vinculada às crenças tradicionais africanas.

Antes da ocupação colonial pelos franceses, britânicos, e portugueses, os Diúla tinham uma tradição de revelação direta do Ser Supremo, identificado pelo nome de Emitai, e as revelações podiam ser feitas por videntes e vaticinadores homens. Logo após a colonização, na passagem do século XIX para o XX, mulheres videntes ou profetisas começaram a ganhar influência, especialmente entre os Diúla do sul. A maioria delas ganhavam fama por sua capacidade de invocar ou provocar a chuva, extirpar ou proteger suas comunidades da bruxaria ou outras atividades             que afetavam a vida e curar doentes.

Segundo consta, Aline Sitoué teve as primeiras visões do Ser Supremo os vinte anos. Na ocasião ela já tinha um filho, e devido a uma poliomielite era coxa, mas trabalhava em arrozais da comunidade de Kabrousse, que ela deixou para trabalhar como empregada em Dakar.  Na década de 1930, as reiteradas secas afetaram a produção agrícola diúla, e no início da década de 1940, momento da ocupação francesa pelos nazistas, os oficiais e servidores da metrópole passaram a impor o recrutamento forçado (1939-1940), requisição de gado e arroz, que eram essenciais para a sobrevivência local,  e forçar a plantação de amendoim. Tais demandas, associadas aos períodos anteriores de seca, levaram as comunidades Diúla ao esgotamento, gerando grande insatisfação.

As visões de Emitai de Aline Sitoué começaram em 1941 ou 1942, quando ela teve visões do Ser Supremo e a ela foi anunciado um meio de provocar a chuva e acabar com a seca, visões que ela anunciou em Kabrousse. Logo foi construindo um santuário espiritual em Kasila, onde um touro preto foi sacrificado e toda a comunidade foi mobilizada com refeições comuns e danças. Logo outros santuários foram edificados, e novos(as) videntes passaram a celebrar sacríficios e divulgar as visões de Emitai. Apenas variedades africanas de arroz (oryza glaberimma) podiam ser empregados nos rituais, o trabalho e as atividades passaram a ser regrados pelos costumes antigos e a plantação de amendoim deixou de ser estimulada, por não fazer parte da produção agrícola local. As florestas voltaram a ser exploradas em busca dos produtos da palmeira (vinho de palma, ramos, azeite de palma ou dendê), ervas medicinais e palha – atividades importantes desde tempos antigos para os Diúla.

Altamente subversivo em face dos interesses coloniais, o movimento liderado por Aline Sitoué foi condenado pelas autoridades coloniais em 1943, quando ela e muitos de seus seguidores foram presos, julgados e condenados pelo Código de Lei Nativo, conhecido como Indigenat, pelo crime de obstrução das iniciativas da administração francesa. Ela foi sentenciada ao exílio, primeiro em Kayes e depois em Tombuctu, onde veio a morrer de escorbuto em 1944, e sua morte foi mantida em segredo até a década de 1980. 

Após a prisão e a repressão do movimento de Aline Sitoue, outras profetisas surgiram em Zinguichor – na região de Casamance -, e ao norte, na região de Tendouck, quando muitas delas reivindicam sua posição como “Enviadas de Emitai” em continuidade ao trabalho profético de Aline Sitoue.

Desde o fim da década de 1970 o padre Diamacoune Senghor e o Mouvement des Forces Démocratiques Casamançais – MFDC (Movimento das Forças Democráticas de Casamance) reivindicaram Aline Sitoué como uma imagem de Joana D’Arc que sacrificou sua vida para libertar Casamance da domínio colonial. Embora não tenha sido a primeira ou a única a ter visões do Ser Supremo, sua ênfase na revelação direta da mensagem sagrada e o contexto de crise em que ela foi anunciada conferiu grande força a sua liderança e ilustra o papel que a liderança religiosa tem desempenhado ao desafiar a expansão da economia global.

BIBLIOGRAFIA

BAUM, Robert. “Aline Sitoue Diatta”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 176-178.

BAUM, Robert M.. Aline Sitoué: a Diola woman prophet in West Africa. In: FALK, Nancy Auer; GROSS, Rita M.  (Eds.). Unspoken worlds: women’s religious lives. Belmont: Wadsworth/Thompson Learning, 2001, p. 179-195.

GIRARD, Jean. Genèse du pouvoir charismatique en Basse Casamance. Dakar: Institut Fondamental d’Afrique Noire – IFAN, 1969.


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Legenda: Ama Ata Aidoo

Fonte: Goodreads. Disponível em: https://www.goodreads.com/author/show/ 41905.Ama_Ata_Aidoo. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Ama Ata Aidoo (1942)

Poetisa, dramaturga e contista ganesa. Nasceu como Christina Ama Aidoo, filha de uma família bem situada na sociedade. O pai era governante local e educador. Frequentou o ensino secundário na Wesley Girls High School em Cape Coast e se formou na Universidade de Gana, em Legon. Em 1962, participou de uma oficina de literatura na Universidade de Ibadan, na Nigéria, e  a seguir ganhou uma bolsa de estudos que lhe permitiu estudar escrita criativa na Universidade de Stanford na Califórnia, retornando para Gana em 1969.

Uma das primeiras peças de Ama Aidoo foi uma peça, Dilemma of a ghost (Dilema de um fantasma), que foi encenada por estudantes de teatro na Universidade de Gana (1964). A obra trata do conflito que se desenvolve quando um jovem ganês retorna dos estudos nos Estados Unidos com uma esposa afro-americana. Sua notoriedade como escritora cresceu gradualmente desde sua coleção de contos No sweetness here (Nenhuma doçura aqui) (1970), e dos romances Our sister killjoy or reflections from a black-eyed squint (Nossa irmã Killjoy ou reflexões de um olho negro estrábico) (1977) e Changes: a love story (Mudanças: uma história de amor) (1991), que venceu o prêmio Commonwealth Writers Prize da área africana em 1992.

Sua obra explora temas relacionados com a mudança cultural e a posição das mulheres em uma sociedade moderna. Em Changes, seu romance mais conhecido, bem estudado pela crítica e por especialistas em relações de gênero, a personagem principal, Esi, é uma mulher com vida profissional extra-familiar em Accra que encontra o amor em um homem casado, com quem ela se casa, entrando em uma relação poligâmica. A mudança gera desconforto em parte de suas amigas, feministas, mas encontra acolhida em outras, que consideram positiva a volta às formas de relacionamento tipicamente africanas, e o tema se desenvolve pondo a nu tais ambiguidades. Ela também publicou ensaios, incluindo o amplamente conhecido To be a woman (Ser uma mulher), classificado por muitos como um manifesto do feminismo africano.

Ama Aidoo lecionou por algum tempo no Quênia e Tanzânia (1968-1969), quando teve um relacionamento com o bioquímico queniano Ernest Parsali Likimani (+ 1980), com quem teve uma filha, Kinna. Ela foi coordenadora do Programa em Literatura Africana em Cape Coast (1972-1982), e atuou na vida pública como Ministra da educação de Gana (1982- 1983). Devido a problemas gerados com o poder estabelecido em Gana, mudou–se para Harare, no Zimbábue , em 1983, onde ela viveu durante anos.

Em sua carreira universitária, lecionou com professora convidada em vários estabelecimentos norte-americanos, entre os quais o Oberlin College, a Universidade de Richmond, e a Universidade Xavier em Nova Orleans. Também foi professora visitante de Estudos Africanos e Artes Literárias na Universidade Brown (2003-2010).

Ganhadora de vários prêmios e honrarias ao longo de sua carreira, ela teve a obra literária retratada no documentário The art of Ama Ata Aidoo (A arte de Ama Ata Aidoo), dirigido por Yaba Badoe em 2014.

BIBLIOGRAFIA

ALLAN, Tuzyline Jita. Afterword to changes: a love story, by Ama Ata Aidoo. Nova Iorque: Feminist Press at the University of New York, 1993.

AZODO, Ada  Uzoamaka; WILENTZ, Gay Alden (Eds.). Emerging perspectives on Ama Ata Aidoo. Trenton: African World Press, 1998.

ODAMTTEN, Vincent O.. The art of Ama Ata Aidoo: polylectics and Reading againstt neocolonialism. Gainesville: University Press of Florida, 1994.

SHELDON, Kathleen. “Ama Ata Aidoo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 140-141.


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Legenda: Amandina Lihamba

Fonte: Blog Parapanda Theatre Lab. THE SHOW WAS LIKE THIS... 10 de fev. de 2011. Disponível em: http://parapandatheatre.blogspot.com/2011/02/show-was-like-this.html. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Amandina Lihamba (1944)

Atriz tanzaniana, produtora de cinema e teatro, dramaturga e acadêmica. Nasceu no Distrito de Morogoro, na então colônia britânica de Tanganica. Ela recebeu a educação primária em uma escola católica na Tanzânia e mais tarde obteve o diploma de mestrado em Belas Artes pela Escola de Teatro da Universidade de Yale. Em 1985, defendeu o doutorado na Universidade de Leeds, no Reino Unido, com a tese “A política e o Teatro na Tanzânia depois da Declaração de Arusha, 1967-1987”.

Ela foi admitida no Departamento de Belas Artes e Artes Cênicas da Universidade de Dar es-Salaam, para ensinar práticas de teatro e arte para mobilização social. Foi chefe de departamento, diretora associada, e depois diretora da Faculdade de Artes e Ciências Sociais, membra do conselho universitário e subsequentemente diretora de atuação do serviço público da Universidade Dar es Salaam.

Em sua carreira internacional Amandina lecionou como acadêmica visitante Fulbright-Hays na Universidade da Califórnia em Los Angeles (2001). Atuou como consultora para muitas instituições e organizações, como o Conselho Nacional de Artes da Tanzânia, o Ministério da Educação e Cultura, o Fórum para educadores africanos, o Teatro Popular Alliance, a Comissão tanzaniana para Ciências e Tecnologia, UNICEF, e várias agências internacionais de desenvolvimento.

Além disso, foi pesquisadora chefe para Tanzânia no projeto de “Equidade de Gênero na educação superior da Commonwealth” fundado por Carnegie e o Departamento para Desenvolvimento Internacional do Reino Unido. Fundadora do Projeto de Teatro Infantil e Festival na Tanzânia (1989) bem como do internacionalmente reconhecido programa TUSEME (Let’s Speak Out), que apoia a educação para garotas através do uso de comunicação cultural.

Amandina trabalhou também como intérprete e diretora de palco e tela. Sua atividade no teatro inclui o trabalho feito na África, no Reino Unido e nos Estados Unidos. Sua filmografia inclui interpretar, dirigir, ou produzir Arusi ya Mariamu (O casamento deMariamu) (1985), Maangamizi (O ancião) (1998), e um dos filmes mais populares do Leste Africano, Uhai Bongo (Vida Bongo), sendo que “Bongo” é como em gíria por vezes é nomeada a cidade de Dar es-Salaam.

Considerada uma das maiores atrizes africanas, na década de 1970 integrou a Companhia Negro Ensemble e excursionou com a produção da Broadway The river Niger. Ela é uma das editoras da The Eastern Region, parte da série Women writing Africa publicado pela Feminist Press na Universidade Municipal de Nova York.  Além de artigos acadêmicos em inglês ela publicou diversas peças teatrais em língua swahili. 

BIBLIOGRAFIA

LIHAMBA, Amandina. Women writing Africa: eastern region. Nova Iorque: The Feminist Press, 2007.

MWANGI, Ewan. Amandina Lihamba’s gendered adaptation of Sembene Ousmane’s The Money order. Research in African literatures, v. 40, n. 3, p. 149-173, 2009.

V.V.A.A.. Outline of Swahili literature: prose fiction and drama. Leiden; Boston: Brill, 2009.

ZUBKOVA, Elena. “Amandina Lihamba”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 497-498.


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Legenda: Amanishakheto | Museu Staatliches Ägyptischer Kunst

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Relief_Amanishakheto_Munich.JPG. Acesso em: 21 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Meroé

Amanishaketo (41–12 a.C.?)

Também referenciada como Amanishakto e Amanishakete. Governou Meroé durante ou logo após a transição do domínio ptolemaico para o romano no Egito. Assim, poderiam ter sido suas forças que atacaram a guarnição romana em Assuã no período de governo do imperador Augusto.

Como a cronologia meroítica é muito imprecisa e as inscrições ainda não foram completamente decifradas, ela ou Amenirenas poderia ter sido a candácia mencionada por Estrabão que firmou um tratado para definir a fronteira romana-núbia em Maharraka, e poderia ter sido ela a governanta núbia no fracassado contra-ataque meroítico em Qasr Ibrim.

É muito provável que o seu palácio real de 670 metros quadrados estivesse localizado em Naga, dispondo de alojamentos, sala com várias colunas, diversos corredores e tesouros. Também foram encontradas duas estelas em sua homenagem em Wadi Ben Naga. Amanishkheto demonstrou grande reverência às divindades egípcias Ísis e Amon.

Outro traço marcante da história dessa rainha é o seu túmulo, reencontrado em 1830-1834 pelo médico e caçador de tesouros Giuseppe Ferlini, que impressiona pela quantidade de jóias e ornamentos de ouro, objetos de vidro, prata ou pedras preciosas, e também por conter duas flautas talhadas em estilo helenístico. Este tesouro funerário, após ter sido apropriado e levado pelo italiano, que tentou vendê-lo na Europa, foi parcialmente comprado em 1844 por Ludwig I, rei da Bavária, passando a fazer parte de seu antiquário real e do Museu Egípcio em Berlim. 

BIBLIOGRAFIA

FANTUSATI, Eugenio. Amanishaketo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 196-197.

ONDERKA, Pavel. Preliminary report on the third excavation season of the archaeological expedition to Wad Ben Naga. Annals of the Náprstek Muzeum, v. 33, p. 117-134, 2012.

WILDUNG, Dietrich. The treasure of Amanishakheto. New York: Smithsonian Libraries African Art Index Project, 1997.


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Legenda: Amanitore | Foto: Sandra Steiß

Fonte: Staatliche Museen zu Berlin. Disponível em: http://www.smb-digital.de/eMuseumPlus?service=direct/1/ResultLightboxView/result.t2.collection_lightbox. $TspTitleLink.link&sp=10&sp=Scollection&sp=SfieldValue&sp=0&sp=0&sp=3&sp=Slightbox_3x4&sp=0&sp=Sdetail&sp=0&sp=F&sp=T&sp=0. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Meroé

Amanitore (século I a.C – século I d.C.)

Rainha-mãe de Meroé, coroada com o nome de Merkare. Compartilhou o governo com o marido, Natakamani.

Devido a ausência de registros escritos sobre o seu governo, parte do que se sabe sobre ela provém de evidências arqueológicas, que a apresentam como guerreira – por exemplo, no pilar do Templo do Leão, em Naga. Ali ela aparece retratada como uma mulher volumosa, com anca proeminente, fustigando inimigos enquanto estes imploram pela vida.

Os altos-relevos de Naga mostram imagens em perfeita simetria de dois co-regentes, o que confirma o compartilhamento do poder entre Amanitore e seu marido Natakamani. Ambos aparecem em tamanho equivalente, ele associado ao sul e ela associada ao norte, assim como as divindades são divididas por sua identidade sexual de acordo com as posições norte/sul. Também do lado oeste do templo, cada um dos membros do casal aparece flanqueando uma representação incomum de Apedemak, o deus-leão, que contém mais duas cabeças laterais e quatro braços laterais, que podiam ser dirigidos indistintamente ao soberano e à soberana.  

Outro aspecto único de Amanitore é que ela sempre compartilhou com o rei o exercício das funções religiosas: isso pode ser deduzido a partir da observação do Templo de Amon (N.100) – construído em Naga pelo casal real. Neste templo, ela e Natakamani, vestidos em peles de pantera, aparecem realizando os ofícios sacerdotais e oferendas.

As escavações que começaram em 1995 dentro do templo N.300 levaram à descoberta de uma estela fragmentada na qual se pode ver os dedos de uma deusa, talvez Amesemi, noiva de Apedemak, que era provavelmente associada com a imagem da rainha meroítica. Na inscrição, é provável que a palavra “Amni” corresponda ao nome de Amanitore. Algo similar ocorre com a rainha Manishaketo, que aparece retratada em uma estela de arenito encontrada em um salão do Templo de Amonto abraçada com a deusa Amesemin – que usa uma coroa encimada por um falcão e uma lua, como evidência da divina benevolência da deusa à governanta.

Como em geral ocorria, Amanitore tem uma pirâmide no cemitério situado ao norte de Meroé. Os relevos nas paredes da capela representam uma procissão funerária de sacerdotes carregando várias insígnias e imagens daquela candácia.  No túmulo situado na parte inferior do edifício o seu corpo não foi encontrado, mas apenas restos humanos e ossos de animais.

BIBLIOGRAFIA

DUNHAM, D. The west and south cementeries at Meroe. Royal Cementeries of Kush. Boston: Museum of Fine Arts, 1963.

FANTUSATI, Eugenio. “Amanitore”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 197-198.

OLIVEIRA, Fernanda Chamarelli de. Senhoras da Núbia: as candaces na cultura material em Kush (África, I AEC – I EC). Dissertação (Mestrado em História), Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2019.

TORÖK, Lászlo. The kingdom of Kush. Handbook of the napatan-meroitic civilization. Londres: Brill,1997.


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Legenda: Amelia Seeiso

Fonte: Lesotho Online. 20 de ago. de 2020. Facebook: @LesothoOnline. Disponível em: https://www.facebook.com/LesothoOnline/photos/a.2628650264029723/2919946294900117/. Acesso em: 27 de dez. de 2020.

Amelia Seeiso (1902-1964)

Amelia Matsaba Mantsebo Seeiso foi a filha primogênita do chefe Sempe Nkorbe, uma das principais chefaturas do reino de Quthing, no Lesoto, conhecido na época como Basutolândia. Ela também é conhecida como Mofumahali, nome que designa as esposas dos chefes supremos, equivalente a rainha.

Após concluir a educação primária ela foi casada e instituída como primeira-esposa do chefe supremo Seeiso Grifith, de quem teve a filha chamada Ntsebo, e daí em diante recebeu o título de M’a rona, isto é, a “mãe da nação”. Depois da morte do marido (1941) ela determinou que fosse chamada de Ntale, isto é, “pai”, porque o ofício de governo era tradicionalmente considerado masculino.

Ela foi a primeira e única mulher do Lesoto a ocupar o cargo de Chefe Supremo, em uma das mais longas regências femininas da África Austral, pois governou efetivamente o seu povo de 1941 até 1960 em nome do sucessor legal, Constantine Bereng Seeiso, que tinha na ocasião de sua posse apenas dois anos. A ascensão ao governo ocorreu em meio a uma tensa luta pelo poder com o cunhado e seus partidários, e a sua vitória foi decidida e confirmada por um tribunal inglês.

Seu governo foi marcado por uma série de medidas de apoio ao governo colonial britânico. Durante a II Guerra Mundial ela deu suporte local aos europeus, arrecadou fundos de apoio e enviou 21.468 homens para prestar serviços militares de apoio e limpar os destroços de guerra, motivo pelo qual foi criticada por tira-los de suas famílias e enviá-los para morrer nas guerras dos homens brancos.  Em contrapartida, suas iniciativas foram reconhecidas pela monarquia britânica. Durante uma visita ao Lesoto pelo rei Georges VI ela foi agraciada com a Ordem do Exército Britânico (OBE).

Também foram introduzidas uma série de medidas reformistas visando adaptar a sociedade ao mundo moderno que pavimentaram o caminho para a monarquia constitucional que hoje vigora no Lesoto, como o estabelecimento de conselhos distritais (1943), o Conselho Nacional da Basutolândia e a formação de um setor do Tesouro (1946). As campanhas de vacinação, muito impopulares, a o fortalecimento da Igreja Católica, e sobretudo o aumento do deslocamento de pessoas do Lesoto como trabalhadores migrantes nas minas, fazendas e indústrias sul-africanas, mesmo após a introdução do apartheid em 1948, por causa da negligência britânica de desenvolver o Lesoto, foram motivos de crítica ao seu governo.

Isto levou a que, na década de 1950, ela e o seu governo passassem a ser objeto de duras críticas tanto por nacionalistas quanto por monarquistas, que levaram à formação de partidos políticos modernos entre 1952 e 1959, que acabou por levar ao seu pedido de demissão em 12 de março de 1960, quando Constantinus Bereng Seeiso foi considerado legalmente como chefe supremo.         

BIBLIOGRAFIA

EPPRECHT, Marc. “This matter of women is getting very bad”: gender, development and politics in colonial Lesotho. Pietermaritzburg: University of Natal Press, 2000.

GILL, Stephen J. A.. Short History of Lesotho: from the late Stone Age until the 1993 elections. Morija: Morija Museum & Archives, 1993.

MACHOBANE, L. B. B. J. Government and change in Lesotho, 1800-1966: a study of political institutions. London: Macmillan, 1990.

NTABENI, Mary Nombulelo. “Amelia ‘Matsaba’ Mantsebo Seeiso”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 320-321.


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Legenda: Amenirdis II (dir.) e a deusa Hathor (esq.)

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Karnak_Chepenoupet_II_Amenirdis_II.jpg. Acesso em: 27 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Napata

Amenirdis II (século VII a.C)

Princesa núbia da 25ª dinastia de governantes do Egito, sediados na cidade de Tebas, foi a filha de Taharqa. Ascendeu ao poder por volta de 670 a.C. e governou até 640 a.C. pela autoridade que lhe era conferida como “esposa de Amon”.

Seguindo uma antiga tradição núbia de sucessão, Amenirdis II tinha sido adotada por  Ankhshepenupet, sua tia,  e mesmo após a derrubada de Taharqa do trono ela permaneceu com autoridade no governo. Ela “adotou” como sua sucessora a Nitocris, que era filha de Psamético – governante que deu início à 26ª dinastia de governantes do Egito.

Dessa maneira, uma dinastia feminina paralela, mais ou menos exclusiva, frustrou as reivindicações dos rivais à autoridade de Tebas. As “esposas de Amon” eram pessoas que tinham sangue real, eram consideradas como uma “mãe superior divina” e detinham poder efetivo em Tebas. As mulheres detentoras desse título não podiam se casar com qualquer homem porque eram consideradas formalmente casadas com a poderosa divindade que era Amon.

BIBLIOGRAFIA

DODSON, Aidan. The problem of Amenirdis II and the heirs of the office of God’s Wife of Amun during the Twenty-sixth Dynasty. Journal of Egyptian Archaeology. v. 88, p. 179–186, 2012.


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Legenda: Reprodução de relevo sobre Amenirenas

Fonte: Internet Archive. Disponível em: https://archive.org/stream/osirisegyptianre00budg/osirisegyptianre00budg#page/221/mode/1up. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Meroé

Amenirenas (século I a.C.)

Também referenciada como Ameniras e Amanerinas. Rainha-mãe de Meroé, detentora do título de Candácia. Seu nome pode constituir uma alusão à divindade suprema egípcia Amon Ra. Informações sobre ela são fornecidas por escritores romanos, e alguns sugeriram que ela poderia ser a Candácia mencionada na Bíblia, cujo eunuco foi convertido ao cristianismo e batizado pelo apóstolo Filipe

A existência de Amanirenas é documentada em algumas fontes epigráficas. Na estela Hamadab, descoberta pelo arqueólogo John Garstang em 1910, haveria segundo alguns intérpretes uma alusão ao confronto entre tropas romanas e cuxitas, com a celebração da vitória africana no conflito de 25-21 a.C.  No mesmo monumento ela é retratada ao lado do filho Akindad, que dividia com ela o governo, em frente às divindades Amon e Mut, enquanto na parte de baixo aparecem prisioneiros deitados de bruços, em posição de submissão, que poderiam ser soldados romanos. Neste e noutros lugares ela é referida pelo termo kore, a palavra meroítica para governante.

Duas outras inscrições em que seu nome é certificado são grafites no templo de Daga, na Baixa Núbia, e a estela de Teriteqas, seu marido, onde ela é referida somente como Kdke, isto é, Candácia, Rainha-mãe. Segundo parece, as inscrições de Hamadab poderiam fazer referência ao período em que governava com o filho, Akindad, enquanto as outras dizem respeito ao período em que era co-regente e rainha-mãe, junto com o seu cônjuge.

Sua descrição marcial tem sido interpretada como uma alusão aos conflitos bélicos do período. Estrabão informa que Gaius Petronius, prefeito romano do Egito, lançou um contra-ataque aos cuxitas que tinham invadido a região de Tebas e passaram a controlar cidades como Elefntina, Syene, e Philae durante o governo de Aelius Gaius.  Segundo ele, os cuxitas aproveitaram-se do deslocamento das tropas romanas para uma batalha na Arábia e “escravizaram os habitantes e derrubaram as estátuas de Caesar”. A seguir, as tropas de Gaius Petronius marcharam contra os “etíopes” da “viril Candácia de um olho só” e os derrotaram em Pselchis, atingindo Napata e fixando uma guarnição militar na fortaleza de Qsar Ibrim. A rainha cuxita teria então atacado a guarnição, reabrindo as hostilidades, mas não deixa entrever o resultado do embate.

As descrições deste controverso acontecimento foram feitas por escritores romanos, em relatos marcados pela parcialidade e desprezo pelos “etíopes”.  É de se supor que Teriteqas tenha liderado a marcha inicial contra o Egito Romano, morrendo em batalha, quando Amanirenas assumiu sozinha a liderança do governo, representando parcialmente o filho. Muito provavelmente as incursões de Gaius Petronius não tenham ido tão longe ao sul do Nilo, e o certo é que os romanos jamais conseguiram impor sua autoridade ao sul do Egito nem impor-lhes o pagamento de tributo, limitando-se a manter postos militares na fronteira.

Além de proteger a integridade territorial e a independência do estado meroítico, Amanirenas inaugurou um período de prosperidade econômica que encorajou o florescimento do comércio, de trocas e o intercâmbio intercultural entre a região da Núbia e o mundo Mediterrâneo. Seu nome está associado ao período áureo de Meroé, que persistiria até a metade do século IV d. C..

BIBLIOGRAFIA

BURSTEIN, Stanley M.. Graeco-africana: studies in the history of Greek relations with Egypt and Nubia.  New Rochelle: Aristide D. Caratzas, 1995.

EIDE, Tormode et alii. Fontes historiae nubiorum: textual sources for the Middle Nile region between the eighth century b. C. and the sixth century d. C.. Noruega: University of Bergen, 1994-1998, v. 2-3.

FARAH, Salim. “Ameniras”.  In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 207-208.

TOROK, Laszlo. The kingdom of Kush: handbook of the napatan-meroitic civilization. Leiden: Studia Aegyptiaca, 1995.


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Legenda: Amina Annabi

Fonte: ANNABI, Amina. 23 de ago. de 2014. Facebook: Amina Annabi. Disponível em: https://www.facebook.com/AminaAnnabi/photos/a.373585222547/10152274922042548. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Amina Annabi (1962)

Música e cantora tunisiana. Nasceu em Cartago, núcleo histórico e atual subúrbio de Túnis. Junto com outras instrumentistas ou intérpretes magrebinas, famosas por apresentações em festivais, cerimônias religiosas e casamentos, como Habiba Messika. Em sua trajetória artística Amina mistura os gêneros tradicionais da música tradicional árabe com as tradições berberes e oeste-africanas, bem como com influências retiradas da música negra ocidental e o rock and roll.

Filha de um casamento inter-racial, de pai francês e mãe tunisiana, herdou da família materna o gosto e o talento musical, e sua preferência por canções entoadas ao estilo tunisiano-andalus. Através dos tios, conheceu o então popular músico senegalês Wasis Diop, e em 1975 foi com a mãe para Paris para trabalhar com ele. Alguns anos mais tarde, organizou o seu próprio grupo musical (1978), seguindo carreira solo, enquanto trabalhava na Radio Nova, uma importante emissora francesa (1982).   

Seu primeiro álbum gravado, Yalil (Noite), incluía canções como Belly dance, onde ela fundia gêneros e estilos e criava uma forma musical chamada de etno-tecno. Várias obras desse álbum alcançaram sucesso e lhe renderam reconhecimento. Outro álbum, Yalil, foi lançado em mais de vinte países, e lhe garantiu o prêmio Le prix Piaf de melhor cantora na França, em 1991. Neste mesmo ano, juntou-se a músicos internacionais para protestar contra a primeira invasão americana do Iraque e representou a França no Eurovision Song Contest, ocorrido em Roma. Em 1994 voltou a gravar em uma obra coletiva, e obteve grande sucesso com a canção Yanari, cuja livre tradução é “A vida é difícil”, e a letra faz referência às duras condições de vida dos(as) imigrantes.  

Paralelamente ao sucesso como artista, dedicou-se a causas filantrópicas, abraçando a causa de crianças pobres e a assistência hospitalar gratuita na França. Realizou uma grande turnê nos Estados Unidos (2001) e também atuou eventualmente como atriz em treze filmes, entre os quais O céu que nos protege, de Bernardo Bertolucci (1990), e em Dreams of Trespass (Sonhos de transgressão) (2002), baseado no livro da conhecida feminista norte-africana Fatima Mernissi. 

Amina Annabi participou em causas filantrópicas, mais notavelmente um concerto para arrecadação de fundos, realizado em 2000, para a caridade francesa chamada “The Chain of Hope”, que traz crianças pobres de países do Terceiro Mundo em necessidade de tratamento hospitalar para assistência médica gratuita na França.

Em muitas canções, a cantora inverte as representações orientalistas estereotipadas da mulher sensível e depravada, parodiando-as e sublinhando os elementos racistas subjacentes ou explícitos. Junto com outros artistas magrebinos, como Raï e Khaled, ela conseguiu ir além do gueto cultural e político pós-colonial experimentado pelos imigrantes africanos na Europa.

BIBLIOGRAFIA

ABBASSI, Hamadi. Tunis chante et danse. Tunis: Alif, 2000.

ANNABI, Amina. Lirrili: https://www.youtube.com/watch?v=h53rU9NZLHA

CLANCY-SMITH, Julia A.. “Amina Annabi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 234-235.

PANEA FERNANDEZ, José Luis. Correspondencias “en nombre de” la canción: vecindad, extranjería y aprobación.  Artes y Políticas de Identidad, v. 18, p. 87-108, 2018: https://digitum.um.es/digitum/bitstream/10201/60050/1/336021-1144711-1-SM.pdf


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Legenda: Mulher moura (1831)

Fonte: The British Library’s collections on Flickr Commons. 23 de nov. de 2013. Flickr: British Library. Disponível em: https://flic.kr/p/hLM1qv. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Amina Bint al-Latif (+1812 d.C)

Copista de manuscritos marroquina, jurisconsulta e erudita. Seu nome completo era Amina bint al-Hajj ‘ Abd al-Latif ibn Ahmad al-Hajjaj.

O Marrocos tem uma longa tradição de produção de manuscritos, rivalizando somente pelo Egito. Manuscritos em árabe foram ali criados e copiados desde o século VIII até o século XIX, quando a chegada da litografia e a impressora selaram o fim dos copistas profissionais. Apesar desta profissão ter sida em geral ocupada por homens, no Ocidente muçulmano  (al-Andalus e África do Norte)  as mulheres desempenharam um importante papel. No século X dizia-se haver mil mulheres copistas em Córdoba encarregadas de copiar o Alcorão.

Os nomes de algumas dessas mulheres-escrivãs são conhecidos, mas há pouca informação sobre elas. Entre os descendentes dos refugiados de al-Andalus que se estabeleceram em Tetouan, Fez e Marrakesh estavam várias mulheres que faziam seu sustento, ou complementavam sua renda, trabalhando como escrivãs, como Sa’ida Sa’da bint Muhammad ibn Fayyuruh al-Umawi e sua irmã, originárias de Tudela (Espanha); e, Warqa, originária de Toledo, estabelecida em Fez, onde faleceu (1145-1146). Destas restaram praticamente apenas os seus nomes.

Um caso excepcional é o de Amina Bint al-Lattif, que pertencia a uma família socialmente influente em Tetuan durante o reinado do Sultão Sulayman (1793- 1822). Duas obras copiadas por ela são conhecidas: a última parte de  al- Mundhiri’s Targhib wa’l-tarhib, uma coleção de ditados do Profeta sobre as boas e más obras, datado de 1802, e uma cópia do Alcorão datado de 1812. Nesse  último ela própria assinou, com devoção e humildade: “Esse volume abençoado… foi copiado… pela mão de Sua (de Deus) escrivã desventurada, servil e pecadora, da nação (umma) de Deus, e de Sua nação, a mais modesta e em maior necessidade Dele durante sua vida e pelo que resta dela”.

De fato, Amina era uma importante erudita muçulmana, uma faqiha (jurisconsulta), ou seja, uma conhecedora da lei corânica, assistente social e conselheira que se especializou em tratar de questões envolvendo os problemas das mulheres de Tetuan, fossem questões matrimoniais, financeiras e legais, ou sexuais e espirituais. Segundo consta, teria recebido o ensinamento inicial de seu pai, que tinha sido um respeitado erudito e faqih (jurisconsulto), e a instruiu no estudo do Alcorão, árabe, jurisprudência, (fiqh), e os hadith – os ensinamentos e tradições concernentes ao Profeta Maomé.

Ao contrário do que ocorria com a maioria dos jurisconsultos homens, Amina al-Lattif era solteira e permaneceu nesta condição a vida inteira. Ela foi enterrada na sua casa em Hawmat al-Mataymar, em Tetuan.

BIBLIOGRAFIA

JAMES, David. “Amina bint al-Hajj Abd al-Latif”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 220-221.

MACK, Beverly B.. Muslim women scholars in the nineenth century and twentieth centuries: Morocco to Nigeria. In: JEPPIE, Jamie; DIAGNE, Souleymane Bachir (Eds.). The meanings of Timbuktu. Cape Town: CODESRIA, 2008,   p. 165-179.

MACK, Beverly B.. Muslim women’s  educational activities in the Maghreb: investigating and redefining scholarship. The Maghreb Review, v. 29, n. 1-4, p. 165-185, 2004.  


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Legenda: Amina de Zaria | Erhabor Emokpae

Fonte: The Art Exchange Limited. Disponível em: http://www.tetryte.com/artexchange/product/queen-amina-zaria-erhabor-emokpae/. Acesso em: 09 de jan. de 2021.
Palavras-chave:

Amina de Zaria (c. 1533-1583)

Também conhecida como Aminatu. Sucedeu o pai, Bakwa Turunku, no governo da cidade de Zazzau, atual Zaria, uma das cidades-estado hauçás, onde detinha o título de saraunya, equivalente ao de rainha ou primeira-esposa.

Quando o pai morreu, ela assumiu o governo das regiões de Turunku e Kufena, e estabeleceu a capital do reino em Zaria e o transformando num dos mais poderosos estados hauçá no na segunda metade do século XVI. Ela foi então reconhecida como líder guerreira e acumulou grande riqueza com os despojos obtidos em guerra.

As fronteiras de Zaria foram alargadas após uma série de campanhas militares sob sua liderança, barrada pelos poderes crescentes de Kano e Katsina, mas o seu exército atacou os povos do sudoeste e do sudeste, incluindo os povos Nupe, Bauche e Yauri.  Na Crônica de Abuja, consta que os governantes Nupes enviaram 40 eunucos e dez mil  nozes-de-cola como forma de pagamento de tributo.

Segundo consta em relatos extraídos da tradição oral, ela teria mandado elevar enormes predes de barro em redor das cidades conquistadas, que ficaram conhecidas como Ganuwar Amina, isto é, as “paredes de Amina”, embora a datação obtida em pesquisas arqueológicas indique que as construções não coincidem com o período em que a governanta esteve à frente do governo de Zaria.   

A existência histórica de Amina tem sido matéria de discussão entre historiadores(as), porque nem a Crônica de Abuja e nem a Crônica de Kano, dois documentos importantes sobre os períodos mais recuados da história dos povos hauçá não a incluem na lista de governantes. Em sentido oposto, sua memória é muito viva nas tradições orais locais.  Outra controvérsia diz respeito ao período de seu governo, que para muitos parecia ter ocorrido no século XV, mas agora parece mais provável ter ocorrido no século XVI.

Em contraste as incertezas e dúvidas da historiografia, a história de vida de Amina inspirou várias criações incorporadas pela indústria cultural, onde ela é retratada com forte conotação romântica, em esculturas, pinturas, selos postais, peças teatrais, obras de literatura infanto-juvenil e biografias na internet. Sua imagem é encarada como um símbolo positivo de mulheres detentoras de poder ao longo da história africana. 

BIBLIOGRAFIA

DENZER, Laray. “Amina”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 218-220.

SAAD, Abubakar. Queen Amina of Zaria. In: AWE, Bolanle (Ed). Nigerian women: a historical perspective. Ibadan; Lagos: Bookcraft; Sankore, 2001, p. 12-26.

SCHWARZ-BART, Simone; Schwarz-Bart,André. In  praise of black women: Ancient African queens.  Wisconsin: University of Wisconsin Press,  2001.

SWEETERMAN, David. Grandes mulheres da história africana. Lisboa: Nova Nórdica, 1988.


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Legenda: Amina el Bakouri

Fonte: Poetry International Archives. Disponível em: https://www.poetryinternational.org/pi/poet/3816/Amina-El-Bakouri/en/list. Acesso em: 21 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Poetisas

Amina el Bakouri (1969)

Nasceu em Taza, no interior do Marrocos.  Ela obteve seu doutorado em literatura árabe pela Faculdade de Letras de Rabat, Marrocos, e é membro da união de escritores marroquinos.

Sua obra poética é marcada pela inspiração e pela afirmação feminina, algo que a acompanha desde a sua formação acadêmica. Em sua tese de doutorado, estudou a obra de três outras poetisas marroquinas: Malika Assimi, Touria sekkat e Wafa Lamrani.

Os poemas, que são bastante longos, estão cheios de referências à herança poética árabe. Ela se preocupa em produzir conexões intertextuais que tornam a leitura de seus poemas uma espécie de recuperação da memória poética árabe clássica. Entre suas publicações está a compilação intitulada Ra’ian Ya’tika Lmadih (2002).

BIBLIOGRAFIA

Poets’ diaries: Amina el Bakouri.. In: Poetry international archives: https://www.poetryinternational.org/pi/int_article/378/Poets-diaries-Amina-El-Bakouri/en/list

WAGNER, Daniel A.. Literacy, culture, and development: becoming literature in Morocco. Cambridge: Cambridge University Press, 1993.


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Legenda: Amina Lawal

Fonte: Alchetron. Disponível em: https://alchetron.com/Amina-Lawal#amina-lawal-f50cdaa9-59f8-48cf-ada3-696df6054c4-resize-750.jpeg. Acesso em: 094 de jan. de 2021.

Amina Lawal (1972)

Seu nome completo é Amina Lawal Kurami. Nascida no estado de Katsina, na área cultural hauçá, norte da Nigéria,foi condenada à morte por apedrejamento no ano de 2002 sob acusação de ter cometido adultério.  A sentença foi determinada por um tribunal islâmico em Funtua, com base na xaria, a lei muçulmana, ali implantada em 2000.

Após o segundo casamento, Lawal teve um relacionamento com Yahaya Muhammad, que prometera formalizar o casamento com ela, que ficou grávida. Aprisionada por populares, foi levada perante um tribunal da xaria, sem acompanhamento jurídico. O pai da criança não foi processado, por falta de provas, sem que fosse realizado um exame de paternidade.

Uma Organização Não Governamental de direitos humanos, a Baobab for Women’s Human Rights (Baobá para os Direitos Humanos das Mulheres) indicou para a defesa de Amina a proeminente advogada Hauwa Ibrahim, conhecida por seu trabalho voluntário em casos de condenação pela xaria. Esta contestou a acusação com base no fato de o bebê ter sido concebido antes da lei muçulmana ter entrado em vigorem Katsina.

Amina foi absolvida em fevereiro de 2004, a condenação foi anulada, e ela voltou a se casar. O caso mobilizou a opinião pública internacional. Foi a segunda condenação à morte por imolação pública sob acusação de adultério na área hauçá. A primeira condenada foi Safiya Hussein.

BIBLIOGRAFIA

BUNTING, Annie. “Authentic Sharia” as Cause and Cure for women’s human rights violations in northern Nigeria.  Hawwa, v. 9, n. 1-2,  p. 152-170, 2011.

MIKEL, Gwendolyn. Working from within: nigerian women and conflict resolution. Georgetown Journal of International Affairs, v. 6, n. 2, p.87-94, 2005.

TOMETTI, Opal. “Amina Lawal”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 473-474.

Women’s access to justice and personal security in Nigeria: a  syntesis report. Lagos: Baobab for Women’s  Human Rights, s.d.: http://www.gsdrc.org/docs/open/ssaj33.pdf


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Legenda: Amina Mama

Fonte: UCDAVIS. Disponível em: https://gsws.ucdavis.edu/people/amina-mama. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Amina Mama (1958)

Escritora, professora e feminista nigeriana.  Nasceu na cidade de Kaduna, situada na área cultural hauçá, no norte da Nigéria, filha de pai nigeriano e de mãe inglesa. Esta história familiar eclética, segundo ela, teria moldado sua visão de mundo e refletido o alcance de sua atuação posterior na África, Europa e América do Norte.  Em 1992 casou-se com Nuruddin Farah, com quem tem dois filhos.

Ela frequentou a escola primária e secundária em Kaduna, em ambiente muçulmano. A mãe era professora, e vários outros membros de sua família estiveram envolvidos com o sistema local no momento da independência do país. Em 1966 ela deixou sua comunidade devido a distúrbios antimuçulmanos, e se estabeleceu em Londres, onde veio a obter sua formação acadêmica em nível superior. Estudou Psicologia na Universidade de St Andrews, na Escócia (1980), com Mestrado em Psicologia Social e Doutorado em Psicologia Organizacional na Universidade de Londres, onde defendeu a tese:  Race and subjectivity: a study of black women (Raça e subjetividade: um estudo sobre mulheres negras) (1987).

Em seus primeiros estudos, Amina Mama desenvolveu  análises comparativas sobre a situação das mulheres britânicas e nigerianas. Passou pela Holanda, Nigéria, e se estabeleceu na África do Sul, onde passou a lecionar na University of Cape Town (Universidade da Cidade do Cabo), onde passou a dirigir o African Gender Institute (Instituto Africano de Estudos de Gênero). Ela foi uma das criadoras do periódico Feminist Africa (Feminismo Africano), em que permanece como editora. Em 2008, ela foi contratada para lecionar no Mills College, em Oakland, passando depois a lecionar na Universidade da Califórnia – Campus Davis, nos Estados Unidos, como professora de Relações de Gênero, Sexualidade e Estudos sobre as Mulheres.

Em paralelo ao seu trabalho de reflexão teórica, docência e pesquisa, Amina Mama é reconhecida internacionalmente por seu ativismo em defesa dos direitos das mulheres, como destacada feminista. Ela é presidenta do conselho de Administração do Fundo Global para Mulheres e assessora ou consultora de diversas organizações internacionais, além de participar do conselho de administração do Instituto de Pesquisa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Social. 

Embora declaradamente feminista, ela se coloca como crítica do “feminismo branco”, pelas suas ligações intrínsecas com o colonialismo, o capitalismo e o racismo, argumentos defendidos em sua mais conhecida obra:   Beyond the masks: race, gender and subjetivity (Além das máscaras: raça, gênero e subjetividade) (1995), em que ela, partindo da interpretação racial proposta por Frantz Fanon, e indo além, reinterpreta as condições em que se processa a subjetividade das mulheres negras. Junto com uma equipe de outras teóricas africanas, coordenou junto ao Conseil pour le Development des Sciences Sociales en Afrique – CODESRIA, a obra coletiva intitulada Sexe, genre et societe: engendrer les sciences sociales africaines (Sexo, gênero e sociedade: engendrar as ciências sociais africanas) (1997).

Para Amina Mama, as ideias universais de sororidade, produzidas pelo feminismo em contexto hegemônico, devem ser colocadas sob suspeita devido aos limites da crítica feminista ao capitalismo. O que a leva, por extensão, a se colocar como crítica aos discursos que pretendem separar as condições de opressão de gênero e raça. Coloca-se também em franca oposição ao tipo de produção que circula nas universidades africanas, perpassadas pelo patriarcalismo, pelo sexismo e por hierarquias institucionais.  

BIBLIOGRAFIA

MAMA, Amina. Challenging subjects:  gender and power in african contexts. African Sociological Review, v. 5, n. 2, p. 63-73, 2001:  https://www.ajol.info/index.php/asr/article/viewFile/23191/19882

MAMA, Amina. Feminism or Femocracy? State Feminism and Democratisation in Nigeria. Africa Development, CODESRIA, v.  20, n. 1, p. 37-58, 1995.

MAMA, Amina (entrevista). Africana: aportaciones para la descolonización del feminismo. Barcelona: Oozebap, 2013:   http://www.feministas.org/IMG/pdf/varias_autoras___africana._aportaciones_para_la_descolonizacion_del_feminismo.pdf


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Legenda: Aminata Diaw Cissé

Fonte: UNESCO. Aminata Diaw-Cissé: “We cannot end gender-related violence without understanding the social construction which is the backdrop”. 23 de nov. de 2012. Disponível em: http://www.unesco.org/new/en/member-states/ single-view/news/ aminata_diaw_cisse_we_cannot_end_gender_related_violenc/. Acesso em: 13 de dez. de 2020.

Aminata Diaw Cissé (1959-2017)

Filósofa e professora universitária. Nasceu em  Saint-Louis, Senegal, onde estudou no Licée Amet Fall. Formou-se em  Filosofia na Universidade de Nice (1979, obtendo os títulos de  Mestrado (1981) e Doutorado (1985) na mesma instituição.

Logo depois, foi admitida no Departamento de Filosofia da Universidade Cheikh Anta Diop – UCAD), em Dakar. Lecionou também por cerca de um ano no Instituto Superior de Gestão (ISM), em Dakar. Foi indicada como diretora de Atividades de Informação, Culturais e Esportivas (DIACS) da universidade, uma posição que ela ocupou a partir de 1996.

Influenciada pelo pensamento de Rousseau, debateu temas atuais de seu país, como democracia, cidadania, gênero, identidade, etnicidade, e modernidade entre outros. Apoiadora dos direitos das mulheres africanas, participou de diversas organizações, como o Conselho de Mulheres Senegalesas – COSEF.

Aminata Diaw publicou o livro Women writing Africa, West Africa and Sahel (As mulheres escrevem a África – África ocidental  Sahel) (2005), além de uma série de artigos acadêmicos, principalmente com base no pensamento de rousseauniano. Foi laureada pelo Instituto de Governança Democrática do Conselho para Desenvolvimento de Pesquisa em Ciências Sociais na África (CODESRIA), e tornou-se membro do Comitê Científico desta instituição em 2009, tendo atuado no Programa de Treinamento, Concessão e Divisão de Bolsas.

 Diaw Lecionou no Departamento de Filosofia da Faculdade de Artes e Humanidades da UCAD e dirigiu o Centro de Pesquisa Filosófica e Epistemológica (CEREPHE). Também atuou no Programa de Pós-Graduação em Filosofia e no Programa de Doutorado em Estudos sobre o Homem e Sociedade – ETHOS.

BIBLIOGRAFIA

DIAW, Aminata. Nouveaux contours de l’espace publique em Afrique. Diogène, n. 206, p. 37-46, 2004.

KONATÉ, Dior. “Aminata Diaw”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 195-196.

SOW, Fatou. Tribute a Aminata Diaw Cissé, 2017: http://www.agi.ac.za/sites/default/files/image_tool/images/429/feminist_africa_journals/archive/22/fa22_tribute_3.pdf

SHUTERLAND-Addy, Esi; Diaw, Aminata. Women writing Africa, West Africa and Sahel. Noa Iorque: Feminist Press, 2005.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:

Aminata Diop (1968)

Pertencente ao grupo étnico bambara, de língua mandinga,  nasceu em uma família muçulmana na cidade de Sikasso, ao sul da República do Mali.

Aos oito anos foi prometida em casamento ao filho de um amigo do pai, e aos doze frequentou a escola primária em Bamako.  

Pouco antes da realização do ritual do casamento, em 1989, recusou-se a se submeter à excisão genital, e em face da repressão do pai fugiu para a capital.  Viajou para a Bélgica com a ajuda de um amigo que trabalhava em uma companhia aérea e a levou até Bruxelas.

Ela pediu asilo na França em 1990, e após um processo judicial com o apoio de instituições de defesa, teve o pedido aceito, o que lhe permitiu viver na Europa legalmente, na condição de refugiada. Seu caso foi o primeiro a estabelecer perante o direito internacional a excisão genital como uma violação aos direitos humanos.

BIBLIOGRAFIA

MADE, Patricia. Warrior marks: female genital mutilation and the sexual binding of women. Southern African Feminist Review, v. 1, n. 1, 1995.


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Legenda: Aminata Sow Fall

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Aminata_Sow_Fall_(2).jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Romancistas

Aminata Sow Fall (1941)

Romancista senegalesa e ativista cultural. É lembrada como a primeira escritora publicada da África negra francófona.   Nasceu em Saint Louis, capital da colônia, realizou os estudos iniciais no Licée Faidherbe, em sua cidade natal, e no Licée Von Vollenhoven, em Dakar e formou-se em Línguas Modernas na França, na Université de Sorbonne, passando a atuar como professora quando retornou ao seu país. Na infância, teve uma educação aos moldes muçulmanos, de acordo com os preceitos corânicos, e sua língua materna é o wolof.

Após a independência do Senegal, foi membro da Comissão de Reforma Educacional, responsável pela introdução da literatura africana no currículo francês do Senegal, e autora de manuais didáticos de gramática francesa.  Com o ensejo de preservar o patrimônio cultural, dirigiu o Centre d’Études des Civilisations (Centro de Estudos das Civilizações). Anos mais tarde dirigiu a instituição La Propriété Littéraire (The Literary Property) (1979–88), e foi a   primeira mulher nomeada presidente da Associação de Escritores do Senegal (1980-1984. Em 1990, fundou a editora Éditions Khoudia.

Como autora, Aminata Sow Fall explora a dualidade das realidades africanas com o mundo sobrenatural, denuncia a ambição e a corrupção e valoriza os laços de solidariedade, a humanidade e a espiritualidade. Entre os seus romances estão Le revenant (O fantasma) (1976), La Grève des bàttu (A greve dos mendigos) (1979) e Le jujubier du patriarche (O jujubeiro do patriarca) (1998).

Na condição de defensora dos direitos e liberdades de criação, ela atua a partir de três centros de criação intelectual, o Centre International d’Études, de Recherches et de Reativaction sur la Littérature, les Arts et la Culture – CIRLAC (Centro Internacional de Estudos, Pesquisa e de Reativação da Literatura, das Artes e da Cultura), o Centre Africain d’Échanges et d’Animations Culturels – CAEC (Centro Africano de Animações Culturais), e no Bureau Africain Pour la Défense des Libertés de l’Écrivain – BADLE (Escritório Africano para a Defesa das Liberdades do Escritor).

BIBLIOGRAFIA

AZODO, Ada Uzoamaka. Emerging perspectives on Aminata Sow Fall: the real and the imaginary in her novels. Africa World Press, 2007.

AZODO, da Uzoamaka. “Aminata Sow Fall”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 449-451.

GUÈYE, Médoune. Aminata Sow Fall: oralité et société dans l’oeuvre romanesque. Paris:  Editions L’Harmattan, 2005.

ORMEROD, Beverly; VOLET, Jean-Marie. Aminata Sow Fall. In: IDEM. Romancières africaines d’expression française: le sud du Sahara. Paris: L’Harmattan, 1994.


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Legenda: Aminata Traoré | Foto: David Monniaux

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Aminata_Traore_IMG_0245.jpg. Acesso em: 15 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Aminata Traoré (1942)

Proeminente intelectual e ativista feminista, nasceu no Mali, então sob o domínio colonial francês. Frequentou a escola primária e secundária em Mali, e cursou a graduação na França. Fez doutorado em psicologia na Universidade de Caen, antes de se mudar para a Costa do Marfim, onde se casou.

Por muitos anos Aminata Dramane Traoré ensinou psicologia na Universidade de Abidjan, na Costa do Marfim, onde também atuou como diretora no Ministério de Assuntos das Mulheres (1975-1988). Na década seguinte passou a integrar o Developement Programme – ONU (Programa de Desenvolvimento – ONU) e entre 1988-1997 supervisionou a implementação de programas designados a ajudar mulheres de comunidades empobrecidas.

Com a derrocada do regime militar controlado pelo governo do presidente Moussa Traoré e o estabelecimento de eleições multipartidárias no Mali em 1992 ela retornou ao seu país. Durante o governo de Alpha Oumar Konaré ela assumiu a pasta do Ministério do Turismo e da Cultura (1997), mas logo se desiludiu com a política.

Suas críticas pontuais do que considerou serem aspectos exploradores e brutais de economias neoliberais para os africanos a fez uma heroína para muitos africanos francófonos. Traoré formou o Forum pour Mali (Fórum para o Mali) e o transformou em um espaço de crítica e debate das políticas neoliberais. Publicou três coleções de ensaios: L’etau (O torno) (1999), Le viol de l’imaginaire (O estupro da imaginação) (2002), e Lettre au président des français à propos de la Côte-d’Ivoire et de l’Afrique en general (Carta ao presidente dos franceses sobre a Costa do Marfim e a África em geral) (2005).

Aminata Traoré foi uma das mais fervorosas críticas do discurso proferido pelo presidente da França, Nikolay Sarkozy, em Dacar em 2007, no qual ele declarou que os problemas africanos estão no suposto atraso da África e na falta de conexão com a história mundial. Em um ensaio de 2007 ela descreveu os artefatos africanos do Musée du Quai Branly de Paris como troféus de guerra que deveriam ser devolvidos aos países africanos. Em conjunto, sua atuação apresenta uma perspectiva crítica africana em questões econômicas e políticas no início do século XXI.

BIBLIOGRAFIA

RICH, Jeremy. “Aminata Dramane Traoré”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 59-60.

TRAORÉ. Aminata Dramane.  In: VEDRIÈRE, Michel Colin de;  PERRET, ChristophE;  WEBER, Raymond  (Eds.). Cahier de l’Afrique de l’Ouest: perspectives ouest-africaines: les resources pour le developpement. Berlin: OCDE/CEDEAO, 2009, p. 97-102.

TRAORÉ, Aminata Dramane; DIOP, Boubacar Boris. La gloire des imposteurs: lettres sur le Mali et l’Afrique. Paris: Philippe Rey, 2014.


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Legenda: Aminatou Haidar | Foto: Christian Gustavsson

Fonte: The Right livelihood Foundation. Disponível em: https:// www.rightlivelihoodaward.org/laureates/aminatou-haidar/. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Direitos Humanos

Aminatou Haidar (1966)

Líder e ativista em defesa dos  direitos humanos. Nasceu na região do Saara Oidental, e atualmente mora em El Aaiún , uma área ocupada pelo Estado marroquino. Ela é formada em literatura moderna, divorciada e mãe de dois filhos adultos.

Aminatou é a figura mais proeminente no movimento de resistência não-violenta em andamento no Saara Ocidental em apoio aos direitos humanos e em oposição à ocupação marroquina do país. É conhecida como “a Gandhi Saraui “, e ocupa a posição de presidenta do Coletivo dos Defensores dos Direitos Humanos Sarauís (Saharauis) – CODESA.

O reino de Marrocos, que reivindica o Saara Ocidental como parte integrante do seu território, ocupa a maior parte da ex-colônia espanhola desde 1975. A Frente Polisario, o movimento nacionalista que inicialmente lutou contra as forças colonialistas espanholas, travou uma guerra de guerrilha contra a ocupação marroquina até um acordo de cessar-fogo em 1991. Uma série de resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas e uma decisão histórica do Tribunal Internacional de Justiça reiterou o direito do povo do Saara Ocidental à autodeterminação, embora o Marrocos tenha recusado  permitir que o proposto referendo supervisionado pelas Nações Unidas se realize.

Cerca de metade da população do Saara Ocidental, em 1975, fugiu para campos de refugiados sob o controle da Frente Polisario, estabelecidos na Argélia.  Enquanto isso, o Marrocos trouxe dezenas de milhares de pessoas para o Saara Ocidental, que agora supera em muito a população originária que é em grande parte pró-independência. 

Em 1987, aos 21 anos, Haidar estava entre os quatrocentos ativistas de direitos humanos cercados pelas autoridades de ocupação marroquina.  Foi mantida durante quatro anos oficialmente “desaparecida”, sem acusação ou julgamento, em centros de detenção secretos. Ela e outras dezessete mulheres de seu povo foram submetidas regularmente a tortura e abuso.  Após sua libertação em 1991, ela se descreveu como “um fantasma, um morto vivo, uma jovem mulher de um tipo de inferno que não tem nome”.

Apesar desta sua experiência, deu continuidade ao seu ativismo e assumiu a liderança na defesa dos direitos humanos.  Participou em 1994 do comitê de coordenação das vítimas do desaparecimento forçado e da detenção arbitrária no Saara, bem como nas comissões subseqüentes para os sarauís detidos e desaparecidos.

As manifestações de resistência não-violentas tinham até então se baseado na reivindicação pelos direitos humanos, mas uma revolta renovada conhecida como Intifada al-Istiqlal (Revolta da Independência) ganhou forma em maio de 2005. Milhares de manifestantes sarauís tomaram as ruas de El Aaiún, protestando contra a continuidade da ocupação marroquina e pedindo a independência. Embora tenham sido reprimidos pelas tropas marroquinas e muitas pessoas tenham sido presas, prevaleceu a tendência da não-violência como meio de alcance da auto-determinação, e ela se tornou a principal porta-voz do movimento em âmbito internacional.

Seus esforços tem recebido crescente reconhecimento na Europa e nos Estados Unidos, com premiações e distinções. Em 2009, quando foi presa e expulsa do Marrocos para as Ilhas  Canárias, declarou uma greve de fome. Isto gerou forte pressão da opinião pública internacional sobre as autoridades marroquinas, que foram forçadas a permitir o seu retorno ao Saara Ocidental.

BIBLIOGRAFIA

SAN MARTIN, Pablo. Nationalism, identity and citizenship in Southern Sahara. Journal of North Africa Studies, v. 10, n. 3, p. 565-592, 2005.

SHELLEY, Toby. Endgame in the Western Sahara: what future for Africa’s last colony? Londre: Zed Books, 2004.

STEPHAN, Maria J.; MUNDY, Jacob. A battlefield transformed: from guerrilla resistance to  mass nonviolent struggle in the Western Sahara.” Journal of Military and Strategic Studies , v. 8, n. 3,  p. 1-32, 2006.

ZUNES, Stephen. “Aminatou Haidar”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 538-540.


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Legenda: Amma Darko | Foto: Efua

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Amma_Darko.jpg. Acesso em: 13 de dez. de 2020.
Palavras-chave: HIV/AIDS Romancistas

Amma Darko (1956)

Romancista ganense, nasceu em Tamale, região norte da então colônia britânica da Costa do Ouro. Foi criada pelos tios, que adotaram três outros de seus irmãos.  Depois de concluir o ensino secundário em Accra, estudou na Universidade de Ciência e Tecnologia e se formou em Design industrial (1980).

Trabalhou em Gana por um ano após a formação universitária mas devido às dificuldades decidiu buscar  melhores perspectivas na Alemanha. Porém, devido à combinação da xenofobia e do racismo, não conseguiu mais do que trabalhar como doméstica. Neste período difícil, escreveu o primeiro romance, Alem do horizonte. Após sete anos, durante os quais produziu vários manuscritos adicionais (não publicados), retornou a Gana para começar sua carreira como inspetora fiscal, casou-se e teve uma filha e dois filhos.  

A circulação do manuscrito de seu romance, até então inédito, chamou a atenção da Schmetterling Verlag, uma pequena editora de Stuttgart, na Alemanha, que aceitou publicá-lo. Além do horizonte foi publicado em tradução alemã com o título  Der Verkufte Traum (1991).  O romance explora os sonhos,  ilusões e a inocência da protagonista, Mara, que experimenta a opressão e o abuso desde o casamento forçado em sua aldeia com o mensageiro semiletrado Akobi, a vida desestruturada em Accra e em Munique, onde o marido a entrega para a prostituição.

Em   Housemaid (Empregada) (1998), o segundo trabalho de Darko, publicado em inglês  pela editora Heinemann, o olhar é dirigido para a realidade traumática da pobreza e a disposição de homens e mulheres para se entregar plenamente uns aos outros. Quanto o terceiro romance, Faceless (Sem rosto) (1996), gira em torno das vidas trágicas de crianças de rua em Accra, expostas às desigualdades sociais profundas, à desagregação social e aos riscos do HIV-AIDS. Já em Not without flowers (Não com flores) (2007), os(as) problemas dizem respeito aos dramas psicológicos do casal  Aggie e Idan, personagens de uma classe média emergente em cenários marcados pela confronto entre a estabilidade das estruturas tradicionais e questões inauguradas pelo mundo urbano moderno.

A narrativa de Amma Darko põe à nu as consequências das desigualdades econômicas sobre as necessidades humanas básicas, e os choques daí decorrentes, bem como a complexidade das relações individuais e afetivas. 

BIBLIOGRAFIA

ODAMTTEN, Vincent. Broadening the horizon: critical introduction to Amma Darko. Banbury: Ayebia Clarke, 2007.

ADEJEI, Mawuli. Male-bashing and narrative subjectivity in Amma Darko’s first three novels. SKASE Journal of Literary Studies, v. 1, n. 1, 2009: http://www.skase.sk/Volumes/JLS01/pdf_doc/04.pdf


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Legenda: Esposa do rei de Loango

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://fr.m.wikipedia.org/wiki/Fichier:Costumes_de_Differents_Pays,_%27Femme_de_la_Suite_du_Roy_de_Loango%27_LACMA_M.83.190.311.jpg. Acesso em: 09 de jan. de 2021.
Palavras-chave:

Ana Afonso de Leão (1625-1710?)

Princesa e rainha congolesa com influente atuação na segunda metade o século XVII nas atuais República Popular de Angola e República Democrática do Congo. Era irmã do rei Garcia II (+ 1661), de onde o título de princesa, e esposa de Afonso II, que governou temporariamente o Congo, o que lhe conferiu o título de rainha. Pertencia à facção ou linhagem real (makanda)  de Kinlaza, que no período das guerras civis disputou o controle do Congo com a linhagem de Kimpanzu.

Após a derrota congolesa frente aos portugueses na Batalha de Mbuila (1665), na qual Antônio I morreu em combate, Afonso II autoproclamou-se manicongo (rei do Congo) e assumiu a posição real. Cerca de um mês depois ele foi forçado a abandonar a cidade palatina de São Salvador (Mbanza Kongo), refugiando-se com Ana Afonso de Leão em Ambriz, onde viveram até 1669 – data em que morreu. Sua consorte real daria continuidade ao governo, tendo autoridade direta sobre as regiões de Nkondo, Mbamba e Mpemba, porém sem nunca ter conseguido recuperar a capital.

A influência política de Ana de Leão confirma o poder da elite feminina do Congo desde o princípio do século XVI. Indo além de outras consortes reais ou parentes de alta linhagem, cuja atuação ocorria de modo indireto, por influência pessoal, ou nos bastidores. Ela assumiu o título de Mwene Nlaza, tornando-se oficialmente chefe de linhagem e governanta reconhecida.

Estabelecendo a sua base de governo nas proximidades do rio Mbidizi, e depois em Mbanza Nkondo, ela  fez oposição ao manicongo Rafael I (+ 1673), que havia se aliado aos portugueses para garantir sua posição no trono. Ela apoiou as pretensões do manicongo João II, em 1691, resistiu vitoriosamente aos ataque do manicongo Manuel I e em 1696 teve destacada atuação diplomática que garantiu a ascensão de Pedro IV como soberano. Esteve entre as lideranças que assinaram o tratado de paz no Monte Kibangu, em 1700, que lançou as bases para a reunificação do reino.

Paralelamente aos eventos públicos de que participou, a “Rainha-Velha”, como ficou conhecida, gozava de boa reputação como cristã católica devota junto aos frades capuchinhos que atuavam no reino, e algumas informações sugerem que no fim da vida ela tenha adotada o hábito religioso de freira. A data exata e as circunstâncias de sua morte são desconhecidas. Ao que parece, o falecimento teria ocorrido antes da década de 1710.

BIBLIOGRAFIA

CAMPOS, Fernando. O rei D. Pedro IV Ne Nsamu a Mbemba e a unidade do Congo. África: Revista do Centro de Estudos Africanos, v. 18-19, n. 1, p. 159-199, 1995/1996.

THORTON, John K. Elite women in the Kingdom of Kongo: historical perspectives on women’s political power. The Journal of African History, v. 47, n. 3, p. 437-460,  2006. 


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Legenda: Ana Clara Guerra Marques

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ana_Clara_Guerra_Marques,_VOA_Portugu%C3%AAs.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Ana Clara Guerra Marques (1962)

Dançarina e coreógrafa angolana, pioneira na dança contemporânea africana. Cresceu em um ambiente artístico e intelectual, com diversas pessoas revolucionárias visitando a casa de seus pais em Luanda, capital de Angola. Começou a praticar balé aos oito anos de idade na Academia de Dança de Luanda.

Com a independência do país, a escola que era portuguesa acabou fechando, sendo que alguns anos depois, Ana Clara, que tinha apenas quinze anos assumiu a liderança do estabelecimento, uma vez que já tinha completado o grau para dar aulas. Foi um período difícil, segundo ela mesma afirmou em uma entrevista, porque a Angola pós-independência estava redescobrindo sua cultura e o balé remetia muito ao colonialismo europeu – ainda mais porque ela ser uma angolana branca.

Em 1987 ela vai à Portugal estudar dança e pedagogia na Escola Superior de Dança de Lisboa. Retorna ao país em 1991 para abrir a primeira escola de dança contemporânea até então, a Companhia de Dança Contemporânea de Angola – CDCA. O seleto grupo de dançarinos escolhidos, muitos dos quais formados em reconhecidas instituições dos EUA e da Europa, costumava apresentar suas coreografias em lugares públicos pouco convencionais. Durante a década de 1990 apresentaram-se em vários países africanos e foram pela primeira vez aos países europeus em 1992.

O trabalho de Ana Clara Guerra se estende para além da dança, incluindo pesquisa e publicação de novas interpretações das danças tradicionais e populares da Angola. Tem pesquisado, em particular, sobre o uso de máscaras nas danças rituais do povo Chokwe que habita, predominantemente, o nordeste de Angola.  Entre suas obras estão: A alquimia da dança (1999), A Companhia de Dança Contemporânea de Angola (2003), e Para uma História da Dança em Angola – Entre a Escola e a Companhia – Um percurso Pedagógico (2009).

A crítica social foi outro caminho escolhido pela coreógrafa, que acredita que a dança não é algo passivo, mas que pode ser utilizada como um instrumento de intervenção. Marques também é integrante do Conselho Internacional de Dança da UNESCO. Atualmente leciona Antropologia na Universidade Agostinho Neto, em Luanda, além de fazer parte do Ministério da Cultura e Educação, onde participa da elaboração de programas artísticos e acadêmicos em Angola.

BIBLIOGRAFIA

ARMANDO, João. Ana Clara Marques: bailarina, coreógraa, professora e investigadora: entrevista Revista Vida. O país – o jornal da Nova Angola, n. 29, 29/05/2009.

MARQUES, Ana Clara Guerra. A alquimia da dança. Luanda: Edições CC, 1999.

MARQUES, Ana Clara Guerra; TAVARES, Rui; FERREIRA, João. A companhia de dança contemporânea de Angola. Angola: Mukixe e Caxinde Editora, 2003.  

MARQUES, Ana Clara Guerra. As máscaras de dança cokwe na perspectiva de uma estética africana. Via Atlântica, v. 10, p. 151-166, 2006: https://doi.org/10.11606/va.v0i10.50586

RUIGROK, Inge Mariette. “Ana Clara Guerra Marques”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 115-116.


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Legenda: Mulher euro-africana (1797)

Fonte: Los Angeles County Museum of Art. [Sítio Instituciona]. Disponível em: https://collections.lacma.org/node/208521. Acesso em: 20 de jan. de 2021.

Ana Joaquina dos Santos e Silva (1789-1859)

Também mencionada como Dona Ana Joaquina dos Santos ou Dona Ana Mulata. Nasceu em Luanda, tendo por pai o português Joaquim de Santa Ana Nobre dos Santos e a mãe afro-portuguesa Dona Tereza de Jesus. Destacou-se a partir da década de 1830 como rica e influente financiadora, investidora e empreendedora, com atuação principal nos negócios do tráfico transatlântico de escravos(as).

Ao longo da vida casou-se, sucessivamente, com o Coronel João Rodrigues, com quem teve uma filha, e com o próspero negociante português Joaquim Ferreira Santos Silva, com quem dividiu a administração dos negócios e depois de sua morte assumiu pleno controle das atividades comerciais e rurais.

Foi proprietária de  fazendas  de açúcar em Ikolo e Bengo, e outras plantações no distrito de Colungo Alto e em Moçâmedes, no litoral sul de Angola, e proprietária de centenas de escravos. Em Angola, tinha investimentos em Luanda, Moçâmedes, Dande, Icolo e Bengo. Detinha a propriedade de diversos navios negreiros que circulavam dos portos de Luanda e Benguela para a Baia, Recife, Rio de Janeiro, e também abasteciam os mercados de escravos em Montevidéu e em Lisboa. Em 1843 também atuava junto aos sertanejos e pombeiros no apresamento de escravos no interior, em parceria com o comerciante  e  explorador português Joaquim Rodrigues Graça.

Ao que parece, era alfabetizada. Desfrutava de posição e grande prestígio na sociedade angolana da metade do século XIX. Faleceu enquanto viajava para Portugal em busca de tratamento médico.

BIBLIOGRAFIA

CARDOSO, Carlos Alberto Lopes. “Ana Joaquina dos Santos Silva, industrial angolana da segunda metade do século XIX. Boletim Cultural da Câmara Municipal de Luanda, Luanda, v. 32, p. 05-14, 1972.

OLIVEIRA, Vanessa dos Santos. Donas, pretas livres e escravas em Luanda (sec. XIX). Estudos Ibero-Americanos, v. 44, n. 3, p. 447-456, 2018.

PANTOJA, Selma. “Gênero e comércio: as traficantes de escravos na região de Angola. Travessias, Cascavel, v. 4-5, p. 79-97, 2004.

WHELER, Douglas. “Ana Joaquina dos Santos e Silva”. In: Akyeampong, Emmanuel K.; Gates Jr., Henry Louis (dirs.). Dictionary of african biography. Oxford: Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 277-278.

WHEELER, Douglas. Angolan woman of means: D. Ana Joaquina dos Santos e Silva, mid-nineteenth century luso-african Merchant-capitalist of Luanda. Santa Barbara Portuguese Studies, v. 3, p. 284-297, 1996.


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Legenda: Ana Paula Tavares

Fonte: Alchetron. Disponível em: https://alchetron.com/Ana-Paula-Ribeiro-Tavares. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Ana Paula Tavares (1952)

Escritora e Historiadora nascida em Lubango, Província de Huíla, no Norte de Angola, neta de uma portuguesa e de um africano do grupo étnico Kwanhma, do sul de Angola. Iniciou o curso de História na Faculdade de Letras de Lubango (hoje ISCED, Instituto Superior de Ciências da Educação do Lubango). Em 1976 foi nomeada para o Conselho Nacional de Cultura, ficando destacada em Cuanza Norte.

Em 1992 passou a estudar em Portugal, concluindo o curso de História em Lisboa, o Mestrado em Literaturas Africanas e o Doutoramento em Antropolgia na Universidade Nova de Lisboa, com o tema História e memória. Estudo sobre as sociedades de Lunda e Cokwe de Angola (1996).

Tendo vivido em Luanda e se estabelecido em Lisboa, onde desenvolveu atividades nas áreas de história, literatura e da promoção do patrimônio histórico angolano, sobretudo de suas tradições orais. Como poetisa, enfatiza a simplicidade  e as experiências líricas da ancestralide, mas condena as tradições que perpetuam o patriarcado e oprimem a mulher.

Na atualidade, leciona na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Como historiadora, junto com Catarina Madeira Santos, é autora de Africae Monumenta: o Arquivo de Caculo Cacahenda (2002). Em sua obras de ficção, escreve romances e contos, e como poetisa é autora, entre outros, dos livros Ritos de passagem (1985), O lago da Lua (1999), A cabeça de Salomé (2004) e Manual para amantes desesperados (2007).

BIBLIOGRAFIA

PADILHA, Laura. Novos pactos, outras ficções: ensaios sobre literaturas afro-luso-brasileiras. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002.

CHAVES, Rita. Angola e Moçambique: experiência colonial e territórios literários. Cotia: Ateliê Editorial, 2005.

LABAN, Michel. Encontro com escritores. Porto: Fundação Eng. António de Almeida, 1991, v. 2, p. 845-861.

RIBEIRO, Orquídea. “Ana Paula Tavares”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 512-513.


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Legenda: Andrée Blouin | Foto: Herbert Weiss

Fonte: The New York Times. Overlooked No More: Andrée Blouin, Voice for Independence in Africa. Disponível em: https://www.nytimes.com/2020/02/14/obituaries/ andree-blouin-overlooked-black-history- month.html. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Memorialistas

Andrée Blouin (1921)

 Militante pan-africanista durante o período da descolonização africana na Guiné e no Congo.   Nasceu na aldeia de Bessou, próxima a Fort de Possel, na então colônia francêsa de Ubangi-Shari, atual República Centro-Africana. O pai era um negociante francês e a mãe, Joséphine Wouassimba, era filha do chefe da comunidade de Kouango. Ela foi educada na escola de freiras de Saint Joseph de Cluny, em Brazzaville, de onde fugiu em 1938.

Em 1946 Andrée abandonou a casa paterna, passando a viver com um homem de negócios de origem alsaciana em Bangui, com quem teve um filho e uma filha. Viveu com ele algum tempo na Europa, mas retornou à África (1948), rompeu o relacionamento e se casou com o Engenheiro de Minas André Blouin (1952), fixando residência na Guiné Francesa, atual Guiné-Conacri. 

Naquela ocasião, ocorria o processo de independência da Guiné, com o levante sob a liderança de  Sékou Touré, que assumiu o poder como primeiro presidente do país. Ela se integrou ao movimento anticolonial e ajudou Touré nas decisões contra o plano de Charles De Gaulle de implementar o projeto da federação francesa. Andrée visitava vários líderes africanos incentivando-os a aderir ao processo revolucionário de libertação nacional.

Ao visitar Bangui, em sua terra natal, estabeleceu contato com Barthélemy Boganda, com quem entreteve relações políticas, e em 1960 deslocou-se para Leopoldville, atual Kinshasa, na República Democrática do Congo, onde ajudou a fomentar o movimento de libertação. Seus contatos com vários líderes anticoloniais, inclusive com Kwame N’krumah de Gana, incentivou a mobilização das mulheres na luta em prol da União Africana.

Décadas mais tarde, Andrée Blouin escreveu diversos artigos em que condenava o neoimperialismo no continente, e em 1983 publicou sua autobiografia, intitulada My country, Africa: autobiography of black pasionaria (Meu país, África: autobiografia da pasionária negra).

BIBLIOGRAFIA

BRADSHAW, Richard; FANDOS-RIOS, Juan. “Andrée Blouin”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 463-465.

BLOUIN, Andrée; MACKELLAR, Jean. My country, Africa: autobiography of the black pasionaria. Nova Iorque: Praeger, 1983.

D’ALMEIDA, Irène Assiba. Andrée Blouin: growing up as a métisse in colonial africa. In: IDEM. Francophone African women writers. Gainesville: University Press of Florida, 1994, p. 55-70.

DREW, Allison. Andrée Blouin and Pan-African nationalism in Guinea and the Congo. In: HILL, Robert (Ed.).  Pan-african Biography. Los Angeles: African Studies Association, 1987, p. 209-217.


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Legenda: Mulher sudanesa

Fonte: Pinterest: carlos haché. Disponível em: https://www.pinterest.at/pin/376965431295135314/. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Anek Mathiang Yak (séculos XIX-XX)

 Líder política no território situado na atual República do Sudão do Sul.  Nasceu na comunidade Pagok Pathiong Gok Dinka durante a década de 1860. Ainda criança, foi escravizada e levada por negociantes turco-egípcios ao mercado de escravos de Toni, sendo vendida e revendida na cidade de Omdurman, e permaneceu escravizada durante três anos perto de Buri. Como ocorria com outras mulheres nessa condição, foi forçada a passar pela excisão genital e depois entregue a um homem no Sudão do Norte, e aprendeu a língua árabe.  

Com a chegada da era colonial anglo-egípcia, Anek escapou da escravidão e retornou para sua terra natal. Lá ela se casou com um homem chamado Dahl Marol e retomou a vida tradicional Dinka. Com o passar do tempo, ganhou influência junto ao seu povo devido as habilidades adquiridas, e se tornou líder dos Pathiong Gok.

O quartel general anglo-egípcio da região ficava em Rumbek, e ela passou a estabelecer contato com os administradores coloniais, intermediando a presença estrangeira junto ao seu povo. Por isso, ela foi premiada pelos oficiais britânicos com uma espada dourada por “manter a paz”. Ela entrou em conflito com um proeminente líder rival chamado Wuol Athian, que era sacerdote tradicional e líder militar de Agar, outra comunidade Dinka sob a autoridade de Rumbek.

Em uma reunião pública, debateu com ele e o venceu no debate, o que era incomum para uma mulher, e desonroso para um homem Dinka. Isto fez com que outros líderes homens, inconformados, a acusassem de ter ofendido o chefe Wuol Anek ao bater em suas nádegas.  Para evitar um conflito eminente, os oficiais coloniais destituíram-na da chefia, indicando em seu lugar um homem. Ela então abandonou a casa em que vivia na cidade, passando a viver em local incerto. Depois dela, outras mulheres de seu povo vieram a ocupar posições de chefia, com maior frequência do que ocorria entre outras comunidades Dinka.

BIBLIOGRAFIA

BESWICK, Stephanie. Sudan’s blood memory: the legacy of war, ethnicity, and slavery in South Sudan. Rochester: University of Rochester Press, 2004.

BESWICK, Stephanie. “Anek Mathiang Yak”.  In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 230.


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Legenda: Angèle Etoundi Essamba | Foto: E. Moreno Esquibel

Fonte: Casa África. 03 de jun. de 2010. Flickr: Casa África. Disponível em: https://flic.kr/p/9r3dVF. Acesso em: 21 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Fotógrafas

Angèle Etoundi Essamba (1962)

Nascida em em Douala, Camarões,  viveu os primeiros anos na capital, Yaoundé. Mudou-se para Paris aos dez anos e posteriormente estudou na Escola Profissional Holandesa de Fotografia em Haia e depois em Amsterdam. Também fez parte do Lyceum em Paris, onde estudou filosofia, dança e fotografia.  

Atualmente trabalha na Holanda. Desde a sua primeira exposição na Gallerie Art Collective, em Amsterdam (1985), sua obra passou a ser apresentada em museus, feiras, bienais e galerias na África, Europa e nos Estados Unidos. A série de fotografias de 1995, White line (Linha branca), foi agraciada com o Prix Spécial Afrique no Festival des Trois Continents, Nantes, em 1996.

Sua arte é altamente influenciada por sua ascendência africana, bem como pelos processos de interação cultural decorrentes da diversidade de contatos históricos, culturais e ambientais. Seu principal interesse é pela fotografia em preto e branco, por onde busca captar imagens de mulheres negras. Seu trabalho explora o misticismo e o erotismo, com a representação de corpos fortes e sensuais.

Angèle Etoundi participou em importantes bienais internacionais de arte contemporânea, como a Bienal de Havana (1994), Bienal de Veneza (1994), Dak’ART no Senegal (2002), Bienal fotográfica de Bamako no Mali (2001), Bienal de Dak’ART 2008.

BIBLIOGRAFIA

COLY, Ayo. A Pedagogy of the black female body: viewing Angèle Essamba’s black female nudes. Third Text, v. 24, n. 6, 2010.


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Legenda: Angélique Kidjo

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Angelique_Kidjo_-_Photo- _Cotonou,_2017.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Direitos das crianças

Angélique Kidjo (1960)

Cantora e artista internacionalmente conhecida do Benin. Nasceu em Uidá, com o nome de Angelique Kpasseloko Hunto Hounsinou Kango Manta Zogbin. Seu pai, Frank Zogbin, era um carteiro do grupo étnico Fon e sua mãe, Yvonne Kidjo, uma mulher do grupo  yorubá, que era  coreógrafa e dançarina.

Aos seis anos de idade, Angelique começou a se apresentar junto com a mãe, ao som do banjo que o pai tocava, e aos onze anos de idade ela já cantava com os irmãos mais velhos na banda The Kidjo Brothers. Na adolescência, apresentava-se numa rádio em Cotonou.

Seu primeiro sucesso veio quando um produtor camaronês amigo de um dos irmãos a ajudou na sua primeira gravação (1983). Quando se mudou para Paris para cursar Direito, desistiu do curso para dar total atenção à música. Estudou no Conseil International de la Musique – CIM (Conselho Internacional de Música) e na escola de jazz em Paris, onde conheceu o marido, Jean Habaril.

O primeiro sucesso internacional foi com a banda Pili Pili que tinha uma série de sucessos na Alemanha. Em 1991, Angélique assinou com a Island Recordes, lançando Aye (1994) e Fifa (1996).  O álbum seguinte, Oremi, que significa “meu amigo” em yoruba foi lançado em 1998 com a produção de Def Jam e Island Records e incluiu o sucesso Yaki yaki.

A sua música é quase impossível de se enquadrar nas atuais categorias que constituem a indústria da música contemporânea, mas ela transcende as barreiras e tem milhões de fãs. Em julho de 2002, ela foi nomeada pelas Nações Unidas como Embaixatriz da Boa Vontade pela Unicef, e estimulou o desenvolvimento da educação de meninas e a erradicação global da pólio. Ela fundou e dirige a Fundação Batonga que apoia educação para meninas na África.

O seu álbum Djin Djin recebeu o Grammy Awards de 2008 na categoria World Music. Além de cantar e entreter os fãs, Kidjo também gosta de cozinhar para os amigos e família. Ela e seu marido tem uma filha, Naima, e moram no Brooklyn, Nova Iorque.

BIBLIOGRAFIA

GLEASON, Tiffany. “Angélique Kidjo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 369-370.

KIDJO, Angélique. Yaki Yaki: https://www.youtube.com/watch?v=kTYjFS9CZqU

KNOWLES, Patrick. Angelique  Kidjo. Believer, v. 4, n. 1, p. 78-84, 2006.

RAJOO, Karishma; KASUMBA, Yvonne; LOTZE, Walter. Angélique Kidjo on politics, education and identity: interview. Conflict Trends, n. 3, p. 49-56, 2008.


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Legenda: Angie Elizabeth Brooks-Randolph | UN Photo

Fonte: United Nations Photo. Disponível em: https://dam.media.un.org/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Angie Elizabeth Brooks-Randolph (1928-2007)

Diplomata e jurista liberiana, foi a primeira mulher africana a ocupar o posto de Presidenta da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas – ONU, e a segunda mulher a ocupar este posto.  Nasceu em Virginia, condado de Montserrado, na Libéria.  Era filha de um ministro batista e teve oito irmãos. Foi criada por uma costureira viúva, e frequentou o estudo primário e secundário em escolas de Monróvia. 

Casou-se ainda na adolescência com Richard A. Henries, que fazia parte de uma proeminente família de americanos-liberianos, que era vinte anos mais velho que ela, e que mais tarde viria a ser Presidente da Câmara dos Deputados. Em 1949 ela se formou em Ciências Sociais pela Universidade de Shaw, em Raleigh, Carolina do Norte. Três anos depois obteve bacharelado em Direito e um mestrado em Ciências Políticas pela Universidade de Wisconsin-Madonson, completando o doutorado em Direito Civil pela Universidade de Howard (1967).

Angie Brooks-Randolph foi professora de Direito em tempo parcial na Universidade de Libéria de 1954 a 1958. Na mesma ocasião, tornou-se Representante Permanente da Libéria na ONU, onde grande parte de seu trabalho envolveu a transformação de antigos estados coloniais em países independentes.

Em 1970 assumiu a presidência da Assembleia da ONU. Seu mandato de representante terminou em 1977, quando foi nomeada para o Supremo Tribunal de Justiça da Libéria. Ela ocupou este cargo até 1980, ocasião em que, com a queda do presidente William Tolbert em decorrência de um golpe militar, ela deixou o país.   

Angie Elisabeth morreu em Houston, nos Estados Unidos, e recebeu um funeral com honras de Estado na Libéria.

BIBLIOGRAFIA

LUARD, Evan. A history of the United Nations. London: MacMillan, 1989, v. 2 – the age of decolonization, 1955-1965.

MORAN, Mary H.. “Angie Elisabeth Brook-Randolph”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 07-08.

SELLSTROM, Tor. The Trusteeship Council: decolonization and liberation. In: ADEBAJO, Adekeye (Ed). From global Apartheid to global village: Africa and the United Nations. Scottsville: University of KwaZulu Natal Press, 2009, p. 107-137.


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Legenda: Ankhnesneferibre

Fonte: Pinterest: LAURENDET, Anna. Disponível em: https://www.pinterest.es/pin/381469030928569314/?autologin=true. Acesso em: 21 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Ankhenesneferibre (525 a.C.)

 Era filha de Psamético II e da rainha Takhuit, o fundador da 26º dinastia de faraós do Egito.

Ela foi “adotada” por sua tia-avó Nitocris em 595 a.C. e a sucedeu como “esposa de Amon” a partir de 586, função que ocupou até 525 a.C, quando o Egito foi invadido e conquistado pelos persas.  Após essa data não há mais registros sobre ela, de modo que a data de seu nascimento e de sua morte permanecem incertos.

A princesa desempenhou a função de “esposa de Amon” durante os governos de Apries, Amasis II e Psamético III, com quem compartilhou parcialmente o poder. Como no caso de diversas antecessoras, o seu túmulo encontra-se localizado dentro do tempo de Deir el-Medina e seu sarcófago foi levado para o Museu Britânico.

BIBLIOGRAFIA

LEAHY, A.. The adoption of Ankhnesneferibre at Karnak. Journal of Egyptian Archaeology, v. 82, p. 145–165, 1996.

DODSON, Aidan. The problem of Amenirdis II and the heirs of the office of God’s Wife of Amun during the twenty-sixth dynasty. Journal of Egyptian Archaeology, v. 88, p. 186, 2002.


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Legenda: Ankhshepenupet II

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:GD-EG-Alex-Mus%C3%A9eNat065.JPG. Acesso em: 21 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Napata

Ankhshepenupet II (710-650 a.C.)

Princesa núbia da 25ª dinastia que recebeu o título de “esposa de Amon”, que acumulava funções sacerdotais e funções de governo. Era filha de Piankhy, o fundador da dinastia, e viveu durante os governos dele, de Shabaka, Shabatarka e de Taharqa.  Ela foi “adotada” por Amenirdis I, a irmã de Piankhy que tinha sido designada por este como cantora e adoradora do deus Amon em Tebas.

O seu complexo funerário está localizado em Medinet Habu, e nela foi encontrado um sarcófago policromado, junto com frascos e estátuas funerárias. No Museu Nacional, em Alexandria, Egito, pode-se ver o seu busto esculpido em granito, portando na cabeça um ornamento da deusa Hator.

No governo de Taharqa, seu intendente Montuemath, sacerdote de Amon, foi colocado pelo soberano como responsável pela administração do Baixo Egito, e este governou Tebas em conjunto com Ankhshepenupet II. Por volta de 670 ela “adotou” sua sobrinha Amenirdis II, a filha de Taharqa, que deu continuidade ao costume das adoradoras divinas de Amon até o período de governo de Psamético, na 26ª dinastia.

BIBLIOGRAFIA

DAFA’ALLA, Samia. Succession in the kingdom of Napata, 900-300 B.C. The International Journal of African Historical Studies, v. 26, n. 1, p. 167–174, 1995. 

REISNER, G. A. Discovery of the tombs of the egyptian XXV.dinasty. Sudan Notes and Records, v. 2, n. 4, p. 237–254, 1919.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave:

Ankyaawa Yikwan (1744-1832)

Sacerdotisa axânti e membro da família real, desempenhou papel relevante como líder espiritual e como representante de seu povo. Nasceu na pequena comunidade de Akorase no sul da atual República de Gana, nos domínios do estado Axânti. Sua mãe era Ampomhemaa, membro da linhagem que governava Akorase e a cidade de Tamra.

Antes de 1820 Ankyaawa não teve um papel público. Entretanto, a crescente tensão entre a colônia britânica na costa do Ouro com o estado Axânti e as comunidades fantis do litoral a colocou na cena política. Sua conexão espiritual com as divindades axântis fez dela um bem valioso para as campanhas militares.  

Em 1825, após a batalha de Katamanso, travada por forças axântis contra povos fantis que recebiam apoio dos fortes europeus da Inglaterra e da Dinamarca, Ankyaawa foi aprisionada no forte de Chrstiansborg. Após três anos de prisão, recebeu a liberdade em troca de sua participação como intermediária nas negociações de paz  entre os comerciantes de Accra e o governo axânti, concretizadas com sucesso em 1831.

Em reconhecimento aos seus esforços pela paz o imperador Osei Yaw ofereceu-lhe a distinção de ser chamada de Yikwan, que na língua twi significa, “a que cria um novo caminho”. 

BIBLIOGRAFIA

RICH, Jeremy. “Akyaawa Yilkwan”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 211. M

WILKS, Ivor. She who blazed  the trail: Akyaawa Yilkwan of Asante. In: IDEM. Forest of gold: essai on the Akan and the kingdom of Asante. Athens: Ohio University Press, 1993, p. 329-362.


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Legenda: Anna Kajumulo Tibaijuka | UN Photo / Paulo Filgueiras

Fonte: United Nations Photo. Disponível em: https://dam.media.un.org/. Acesso em: 23 de dez. de 2020.

Anna Kajumulo Tibaijuka (1950)

Nascida na comunidadE de Muleba, na Tanzânia, filha de camponeses plantadores de café e de banana, estudou na Universidade de Ciências Agrícolas de Uppsala, na Suécia.

No retorno ao país, trabalhou como professora de Economia na Universidade de Dar es Salaam, na Tanzânia. É autora de diversos livros e trabalhos de investigação sobre agricultura e desenvolvimento rural, sistemas de cultivo, política alimentar e comercialização agrícola. Em 1994 fundou o Conselho Nacional de Mulheres da Tanzânia, BAWATA, organização que luta pelos direitos econômicos e sociais femininos; em 1996 fundou um centro educativo que prima pela qualidade da educação de meninas na Tanzânia e em toda a África, baseando-se num modelo de escola secundária para jovens pobres, que na sua maioria são órfãs.

Trabalhou como membro da Comissão para África, criada pelo Primeiro-Ministro Tony Blair, tendo como resultado o cancelamento da dívida multilateral de vários países africanos no grupo dos G8 em 2005.

Anna Kajumulo foi a primeira mulher africana eleita pela Assembleia Geral das Nações Unidas como subsecretária geral. Em 2009 completou o seu segundo mandato de quatro anos como diretora executiva da UN-HABITAT devido ao êxito dela na criação de alianças estratégicas com instituições financeiras para o acompanhamento do investimento em habitação e infra-estruturas urbanas, como o Banco Africano de Desenvolvimento e o Banco Asiático de Desenvolvimento.

Atualmente, faz parte da Comissão da Organização Mundial de Saúde e do Conselho Consultivo da Comissão para os Direitos Jurídico dos Pobres.

BIBLIOGRAFIA

TIBAIJUKA, Anna Kajumulo. Building prosperity: housing and economic development.  Abington; Nova Iorque: Taylor & Francis, 2009.


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Legenda: Mulher rica euro africana

Fonte: The British Museum. Disponível em: https://www.britishmuseum.org/collection/image/797173001. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Wolofs

Anna Kingsley (1793 – c. 1870)

Anna Jai Magigdine Kingsley nasceu em 1793 em uma aldeia no atual Senegal. Detalhes sobre as circunstâncias do nascimento de Kingsley são vagos. Seu nome de nascimento era Anta Majigeen Ndiaye, e cresceu junto ao povo wolof até os treze anos de vida. Alguns argumentam ter sido provavelmente uma princesa.

No outono de 1806, aos treze anos, Anta foi aprisionada e revendida como escravizada no mercado de Havana, em Cuba. Ali, foi comprada por um fazendeiro e senhor de escravos dos Estados Unidos, Zephaniah Kingsley Jr., sendo levada de Cuba para uma plantation na Flórida (1806). Depois de algum tempo ela passou a viver maritalmente com o proprietário, e depois como sua esposa principal, embora ele tivesse filhos com outras escravizadas esposas e amantes. Ela foi legalmente emancipada, junto com os seus filhos (1811), e assumiu junto com ele a administração da propriedade. Ela própria recebeu formalmente uma terra na Flórida sob controle o governo espanhol (1812), converteu-se ao catolicismo, e adquiriu escravos(as) (1813).

Com o aumento da pressão das autoridades dos Estados Unidos sobre ex-escravos libertos Anna e sua família deixaram suas terras na Flórida e se mudaram para Cabaret Harbor, no Haiti (1838), onde ela continuou gerenciando as propriedades da família. Com a morte do marido (1843), ela lutou judicialmente durante três anos contra os familiares brancos dele para fazer valer os seus direitos, e o caso da disputa pelo testamento chegou ao Supremo Tribunal da Flórida.

Algum tempo depois, ela comprou uma fazenda com 22 acres de terra em St. John’s River perto de Jacksonville, transformada na maior comunidade de negros libertos de Arlington (1847-1862), temporariamente abandonada durante o período da guerra civil, mas logo reocupada por eles, que lá se fixaram definitivamente. Anna provavelmente foi enterrada no cemitério da família da filha, Mary Kingley Sammis, conhecido como Clifton Cemetery.

BIBLIOGRAFIA

BAUER, Deborah. “Anna Jai Magigdine Kingsley”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 384-386.

RIVERS, Larry E.. Slavery in Florida: territorial days to emancipation. Gainesville: University of Florida Press, 2000.

SCHAFER, Daniel. Anna Magigdine Jai Kingsley: african princess, florida slave and plantation slaveowner. Gainesville: University of Florida Press, 2003.


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Legenda: Anna Margareth Abdallah

Fonte: Ushiriki Tanzania. 16 de mar. de 2020. Facebook: Ushiriki Tanzania. Disponível em: https://www.facebook.com/UshirikiTanzania/photos/wabunge-wanawake-wasinganganie-viti-maalumajenda-ya-wanawake-kuwepo-katika-ngazi/2861917523894078/. Acesso em: 21 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Anna Margareth Abdallah (1940)

Mulher pública tanzaniana e membro do parlamento. Frequentou a escola primária em Mtandi e em Mbeya, e realizou estudo secundário na Tabora Girls Secondary School (Escola Secundária para Meninas de Tabora). Formou-se em sociologia na Universidade de Missouri-Columbia (1963) e em Economia Doméstica e Nutrição na Universidade de Londres (Queen Elizabeth College) no Reino Unido, em 1967. 

Abdallah é integrante do Chama Cha Mapinduzi, o “Partido da Revolução”, criado em 1977. Sua experiência no governo começou quando foi nomeada como uma das primeiras comissárias de distrito, em 1973.  Ela se tornou membro do parlamento em 1975, quando havia apenas cinco outras mulheres nesta instância de decisão do país. Foi ministra da Saúde da Tanzânia (2000-2005), e sucessivamente ocupou outros cargos na alta administração do governo, nomeadamente como Ministra de Obras Públicas (1995-2000), Ministra da Agricultura e Desenvolvimento da Pecuária (1991) e Ministro do Governo Local, Desenvolvimento Comunitário, Cooperativas e Marketing e muitos outros. Ela atuou como Presidenta da Umoja Wa Wanawake wa Tanzania  (União das Mulheres da Tanzânia) (1994-2008).

BIBLIOGRAFIA

ISRAEL, Caroline; RUSIMBI, mary; MEENA, Ruth. Women and political leadership: faciliting factors in Tanzania.  Africa Portal, 2018: https://www.africaportal.org/publications/women-and-political-leadership-facilitating-factors-tanzania/


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Legenda: Anne Laure Folly

Fonte: La Cinémathèque du Documentaire. Disponível em: http://www.film-documentaire.fr/4DACTION/w_liste_generique/ C_204_F. Acesso em: 13 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Cinema

Anne Laure Folly (1954)

Cineasta togolesa e consultora jurídica internacional da UNESCO. Nasceu com o nome de Ayele Folly-Reimann em Lomé, filha de Amah Folly, que era produtor na gravadora francesa OCORA e depois na Rádio France International, e Juliette Reimann. Estudou Direito na Universidade de Paris II.

Começou a carreira pública como consultora jurídica internacional para a UNESCO (1981). No início dos anos 1990 deu início ao trabalho como cineasta inspirada por Sarah Maldoror e Safi Faye, cujas obras enfocam os problemas enfrentados pelas mulheres  do continente. Entre 1992-2000 Anne realizou onze filmes, muitos dos quais aclamados pela crítica especializada. São documentários sobre as condições materiais e questões relativas ao universo espiritual  da vida das mulheres africanas, e tratam de temas como feitiçaria, políticas familiares, saúde reprodutiva, mutilação genital, ativismo político, oportunidades econômicas, e os efeitos da guerra para as mulheres e suas famílias.

Entre os seus primeiros filmes estão Le gardien des forces (O guardião das forças) (1992), L’or du Liptako (O ouro de Liptako) (1993) e Femmes du Niger entre l’intégrisme et démocratie (Mulheres do Níger entre integrismo e democracia), Femmes aux yeux ouverts (Mulheres com os olhos abertos) (1994), Femmes d’Angola: Rêver la paix (Mulheres de Angola: sonhar a paz) (1996) e Les oubliées (As esquecidas) (1996).  

Os filmes de Anne Folly  receberam prêmios em festivais em todo o mundo, incluindo o mais importante festival de filmes africanos, FESPACO; o Festival Internacional Vues d’Afrique Pan Africa em Montreal; o Festival Internacional Cinema Della Donne em Turim, Itália; o Festival North-South Medias de Genebra, Suíça; e vários outros festivais menores na Europa, Estados Unidos e Canadá. Embora sejam mal distribuídos e pouco conhecidos no continente, são reconhecidos internacionalmente e  ela é considerada uma das principais cineastas mulheres da África.

BIBLIOGRAFIA

BUCHANAN, Sarah. “Anne Laure Folly”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 378-379.

ELLERSON, Beti. Sisters of the screen: women of Africa on film, video, and television. Trenton: Africa World Press, 2000.

PALLISTER, Janis; HOTTELL, Ruth. Francophone women film directors: a guide. Madison: Fairleigh Dickinson University Press, 2005.

THACKWAY, Melissa. Africa shoots back: alternative perspectives in sub-saharan francophone african film. Bloomington: Indiana University Press,  2003.


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Legenda: Anne Mungai

Fonte: MUBI. Disponível em: https://mubi.com/pt/cast/anne-mungai. Acesso em: 17 de ago. de 2022.

Anne Mungai (1957)

Educadora e cineasta queniana, nasceu em Port Victoria, no distrito de Budalangi no Quênia ocidental, e seus pais são o professor Marius Namapsi Okubo e a mãe Ursula Nerima.

Anne iniciou a carreira na área de mídia e comunicações no Kenya School of Mass Communications (Escola Queniana de Comunicação de Massa) em Nairobi e produziu documentários de curta e média duração sobre temáticas relacionadas à saúde, mulheres, juventude, religião, agricultura e educação. Com a sensibilidade de alguém que compartilha as experiências de ser mulher, ela iniciou o discurso sobre as pluralidades e complexidades do Quênia pós-emancipação ao questionar os casamentos forçados, a prostituição e as contradições entre as vidas urbana e rural. Estudou ainda no American Cultural Centre (Centro Cultural Americano)  e nas universidades de Daystar, Cardiff e Kenyatta.

Sua carreira teve início em 1980, com o primeiro curta-metragem intitulado Nkomani Clinic, ao qual se seguiram outros curtas e médias-metragens, além de seu primeiro longa-metragem Saïkati, lançado em 1993. Este filme, o  primeiro longa dirigido por uma mulher queniana, como muitas das obras de Mungai, tem como protagonista uma jovem a viver em uma sociedade dividida entre  práticas culturais tradicionais africanas e aquelas introduzidas pelo Ocidente durante o período colonial. Na trama e enredo, a jovem  Saïkati vê-se dividida entre o desejo de frequentar a Universidade e estudar na cidade e a obediência aos pais, que desejavam entregá-la ao filho do chefe da comunidade em um casamento arranjado.

A jornada de Mungai, mulher empreendedora, para produzir seus filmes foi marcada por dificuldades com recursos técnicos e capitais: sua luta em conciliar obrigações familiares e profissionais resume a complexidade de viver na África pós-emancipação e em um mundo masculino. Muitos de seus filmes foram produzidos pelo Kenya Institute of Mass Communication (Instituto Queniano de Comunicação de Massa), instituto em que foi membra docente; Saikati fez parte de um projeto-treino e demonstra que africanos conseguem engajar a indústria através de inovação e criatividade.

Em 1994 foi premiada pelo governo queniano por seu filme Usilie Mtoto wa Afrika, cujo título, na língua kiswahili, quer dizer “Por favor não chore criança africana”, dedicado a crianças que vivem em situação de vulnerabilidade nas ruas. Junto com Ann Wanjugu, ela desenvolveu a fundação Shangilia Mtoto wa Afrika (Anime a criança africana), dedicada ao bem-estar daquelas crianças e com o objetivo de mudar as percepções negativas da comunidade em relação a elas.

Entre vários prêmios concedidos a ela pelo reconhecimento de sua obra estão: Prêmio de melhor direção por Saïkati (Plan International, 1999); Prêmio Especial do Juri (Zanzibar International Film Festival, 1999); Personalidade Feminina mais influente (Women in film awards, 2022).

BIBLIOGRAFIA

CHAM, M. African women and cinema: a conversation with Anne Mungai.” Research in African Literatures, v. 25, n. 3, p.  93-104.

CARACCIOLO, Diane; MUNGAI, Anne (Ed.).. In the spirit of Ubuntu: stories of teaching and research. Rotterdam: Sense Publishers, 2009.

KIRUTHU, Felix Macharia. “ Anne Mungai”. . In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 332-333.


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Legenda: Annie Ruth Jiagge

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/ File:Annie_Jiagge_-_World_Council_of_Churches.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Direitos das mulheres

Annie Ruth Jiagge (1918-1996)

Nascida com o nome de Annie Ruth Baeta em Lomé, no Togo, foi uma Juíza, advogada dos direitos das mulheres e líder civil. Pertencia ao grupo etno-linguistico Ewe. Bacharela em Direito pela London School of Economics and Political Science – LSE (Escola de Economia e Política de Londres), e posteriormente admitida na Lincoln’s Inn, sendo uma das únicas quatro mulheres, e a única africana, inscrita no programa. Como advogada, foi a primeira mulher magistrada a atuar na Suprema Corte num país africano de toda a comunidade africana anglófona.

Além do pioneirismo em diversas frentes, Jiagge realizou importantes serviços no meio político e social, presidindo comissões de investigação de ativos de líderes políticos e advogando pelos direitos das mulheres. Foi representante de Gana para a Comissão Sobre a Situação das Mulheres da ONU (1962), vindo a presidi-la em 1968. Participou na elaboração da Convenção para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra Mulheres, adotada pela mesma organização em 1979 e que continua a ser o instrumento mais completo para a defesa dos direitos das mulheres. Também foi moderadora do Conselho do Programa de Combate ao Racismo, com foco em particular no Apartheid da África do Sul.

Religiosa, Annie Jiagge contribuiu para o fortalecimento da Associação Cristã de Moças – ACM em Gana (1940), tendo participado do seu comitê executivo nacional (1949) e mundial (1951-1962), e foi presidenta-adjunta do Conselho Mundial de Igrejas (1975-1983).

Recebeu diversos prêmios ao longo da vida, como o Gimbles International Award for Humanitarian Work e a Grande Medalha, ambos em 1969.

BIBLIOGRAFIA

AMENUMEY, D. E. K. Outstanding ewes of the 20th century: profile of fifteen firsts. Accra: Woeli Publishing Services, 2002.

JAIN, Devaki. Women, development and the United Nations: a sixty-year quest for equality and justice. Bloomington: Indiana University Press, 2005.

DAWUNI, Josephine. “Annie Ruth Jiagge”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 207-208.


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Legenda: Antoinette Batumubwira | UN Photo / Eskinder Debebe

Fonte: United Nations Photo. Disponível em: https://dam.media.un.org/. Acesso em: 23 de dez. de 2020.

Antoinette Batumubwira (1956)

Diplomata e política do Burundi. Nasceu na cidade de Ngozi e pertence a uma proeminente família Tutsi. Entre 1979-1981, realizou curso de graduação e a seguir obteve Mestrado em Comunicação.

No início da carreira, trabalhou no jornal La Voix de la Révolution du Burundi (A Voz da revolução do Burundi), e a seguir tornou-se coordenadora das Relações Públicas para a ONU em Bujumbura (1981-1995). Casou-se com Jean-Marie Ngendahayo, um político que trabalhou como Ministro das relações exteriores do Burundi de 1993 a 1995.

Antoinette participou do Conseil National Pour la Défense de la Démocratie – Forces de Défense de la Démocratie – CNDD-FDD (Conselho Nacional para Defesa da Democracia – Força de Defesa da Democracia), um movimento rebelde que se opunha ao líder Pierre Buyoya, que ela considerava autocrata.

Na carreira pública, ela assumiu a chefia das Comunicações para o escritório da ONU nas Ilhas Comores (1999-2000) e trabalhou como consultora na Conferência das Nações Unidas Regional Africana (2002). A guerra sangrenta que devastou o Burundi em 2003-2004 a obrigou a deixar o país e se estabelecer na África do Sul. Na sequência, aceitou participar como Ministra das Relações Exteriores (2005-2009), com importante atuação internacional na Europa e na África para angariar apoio ao restabelecimento da democracia no país.

Como diplomata, Antoinette apoiou a presença Econômica crescente da República popular da China na África, e pleiteou uma aproximação de seu país com a comunidade britânica. Em 2007 seu nome foi indicado para a Comissão da União Africana nas eleições de 2008, mas ao final o governo do Burundi retirou apoio da candidatura dela e votou no nome de Jean Ping, do Gabão.   Em 25 de Fevereiro de 2009, ao fim de seu mandato como ministra, ela encerrou sua carreira pública.

BIBLIOGRAFIA

REYNTJENS, Filip. Brefing: Burundi – a peaceful transition after a decade of war? African Affairs, v. 105, p. 117-135, 2006.

RICH, Jeremy. “Antoinette Batumubwira”.  In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 405-406.


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Legenda: Antonieta Rosa Gomes | Cortesia arquivo pessoal

Fonte:
Palavras-chave: Poetisas

Antonieta Rosa Gomes (1959)

Nasceu em Bissau, na Guiné-Bissau, é jurista e advogada de profissão. Fundadora e líder do Fórum Cívico Guineense-Social Democracia (FCG-SD), foi a primeira mulher guineense a liderar um partido político na Guiné-Bissau.

Graduada em Direito, com especialização na área Política, Administrativa e Financeira, pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (1987),  Mestrado em Direito de Estado pela mesma Universidade (1994) e Doutorado em Estudos Africanos pelo ISCTE (Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa) (2016). Ela é investigadora associada do Centro de Estudos Internacionais (CEI-IUL); foi investigadora do Centro de Investigação em Ciência Política, Relações Internacionais e Segurança (2012-2017) e professora regente da Faculdade de Direito de Bissau (1995-1997).

Antonieta exerceu os cargos de Ministra da Justiça (2000-2001) e Ministra dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação Internacional (2001), durante a presidência de Kumba Yalá. Foi a primeira e única mulher candidata às eleições presidenciais da Guiné-Bissau (1994, 1999 e 2005) e  na África Ocidental, não tendo, contudo conseguido mais do que 2 por cento dos votos.

Desde 2015 ela preside a Association of African Women for Research and Development – AAWORD/AFARD, uma organização Pan-africana que se dedica ao empoderamento das mulheres africanas na pesquisa. Foi presidente da Assembleia da Federação das Mulheres da Guiné-Bissau (2003-2011) e distinguida com título de Embaixadora da Paz pela Universal Peace Federation e Women’s Federation for World Peace (2019). É cidadã Honorária de Louisville, Estado de Kentucky, nos Estados Unidos, desde 1996.  

Antonieta Rosa Gomes é também escritora, tendo publicado livros acadêmicos e de literatura, como Mutabilidade dos Contratos Administrativos(2013), Retratos de Mulher (2013) e A Chave da Lusofonia (2020).  e poemas em diversas antologias poéticas.

BIBLIOGRAFIA

MENDY, Peter Karibe; LOBBAN JR., Richard. Historical Dictionary of the Republic of Guinea-Bissau. Lanham: Scarecrow Press, 2013.



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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave: LGBT Repressão Sexual

Antônio/Vitória (século XVI)

Nascido(a) em data incerta no Reino do Benin, no sudoeste da atual Nigéria, foi escravizado(a) e enviado(a) em 1556 para Ponta Delgada, na Ilha de São Miguel (Açores), onde passou a pertencer ao português Paulo Manriques. Denunciado(a) ao Tribunal da Inquisição de Lisboa, foi acusado por praticar prostituição, sodomia e por comportamento desviante.

Embora fosse identificado(a) como homem, de nome Antônio, reivindicava para si o nome de Vitória, vestia-se com trajes femininos, comportava-se como mulher e, com a concordância, autorização ou a ordem do proprietário, praticou a prostituição – primeiro em Açores e depois na região do cais de Lisboa.

Segundo consta no processo inquisitorial, era “grande de corpo, mal assombrado, sem barba, muito preto”. A denúncia feita contra ela(e) partiu das prostitutas da ribeira de Lisboa, isto é, da região próxima ao rio Tejo, que se sentiam prejudicadas com a concorrência daquela “pessoa preta, vestida e toucada como negra, que cometia os moços, mancebos e ratinhos”, quer dizer, os trabalhadores que passavam na área do cais. Ela(e) os levava para detrás de umas casas derrubadas num lugar escuso, “chamando-os com acenos e jeitos como mulher que provocava para pecarem”.

O que mais incomodou os inquisidores foi a ousadia de Antônio/Vitória transgredir as rigorosas normas sexuais então vigentes, apresentando-se em forma feminina. De acordo com o pesquisador Luiz Mott, consta em sua descrição física no processo inquisitorial que se vestia de forma bizarra e ambígua: “trazia um pano muito alvo na cabeça, com um chapéu em cima, e um açafate (cestinho de vime) em riba do chapéu, e um gibão branco atacado todo por diante, e um avental de burel cingido aberto à frente”. E perguntando na rua: “Por que chama os homens se és negro? Ele disse: Sou negra e não negro! E mostrava os peitos […]”.

Para se certificar de sua identidade sexual, os inquisidores ordenaram aos carcereiros que vistoriassem o corpo de Vitória “para ver se era homem, ou mulher ou mofrodito”, quer dizer, hermafrodita. Ao ser confirmada sua identidade física masculina, foi condenado às galés perpétuas, isto é, aos trabalhos forçados em galeras da marinha portuguesa.

Paralelamente às suas atividades sexuais, era respeitado(a) curandeiro(a) ritualista. Algo observado em outras pessoas envolvidas em processos inquisitoriais, como os(as) quimbandas de origem centro-africana, que eram acusados como “feiticeiros” e por vezes vinham a ser denunciados como praticantes da sodomia.

BIBLIOGRAFIA

SWEET, James. Mutual misunderstandings: gesture, gender and healing in the african portuguese world. Past and Present, Londres, v. 15, p. 128-143, 2011.

MOTT, Luiz. “Raízes históricas da homossexualidade no Atlântico lusófono negro”.  Afro-Ásia, Salvador, vol. 33, 2005, pp. 9-33.


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Fonte:

Anyentyuwe (c. 1858-1904)

Intelectual gabonesa. Nasceu em Glass, na atual cidade de Libreville. O pai, Sonie Harrington, era um proeminente comerciante pertencente ao povo de língua Omyène, da costa Mpongwe, e a mãe, que também pertencia ao mesmo grupo étnico-linguístico, morreu quando ela era ainda muito jovem. Ela e a irmã, Azize, foram educadas em uma escola de missionários protestantes presbiterianos norte-americanos de Baraka que tinha sido fundada na década de 1849.

Boa parte dessas meninas Mpongwe cristianizadas acabavam envolvidas em relações afetivas e/ou sexuais com oficiais ou comerciantes europeus que frequentavam o litoral do Gabão antes das décadas de 1870-1880.  Ayentyuwe rejeitou tais relações íntimas pré-matrimoniais, pois era adepta fiel dos preceitos cristãos, mas foi acusada de manter relações promíscuas com homens, e apesar de ter relatado um incidente de estupro praticado contra ela ao missionário William Walker, por um cristão africano associado à missão, foi expulsa da comunidade em 1881.

Entregue à própria sorte no porto de Libreville, deu à luz a sua única filha, Iga, e como muitas outras mulheres envolveu-se em diversos relacionamentos, alguns com mercadores europeus, sendo acusada de adotar uma conduta dissoluta, e sem encontrar um parceiro com quem pudesse estabelecer uma relação duradoura. Quando trabalhou em uma loja no sul do país, foi acusada de roubo (1887) pelo dono do estabelecimento por não lhe  prestar favores sexuais.

A situação mudou quando ela foi trabalhar para o erudito missionário Robert Hamill Nassau, servindo como governanta e cuidadora de sua filha pequena (1889-1899), quando ela mandou construir sua própria casa. Neste período, passou a servir de informante dos costumes, cultura e práticas sociais gabonesas ao patrão, que era etnógrafo interessado sobretudo em etnobotânica e história da missão protestante. Seus relatos tornaram-se fonte valiosa para os livros publicados por Nassau, tais como Fetichism in Africa (Fetichismo na África) (1904) e Tales out of school (Contos de fora da escola) (1911).

Embora o escritor negasse qualquer envolvimento de natureza sexual com Anyentyuwe, pairava a suspeita de que ambos vivessem uma relação íntima, o que era visto com reservas. Ela vestia-se como as mulheres ocidentais e tinha opiniões próprias sobre a maneira de se comportar de uma mulher, em divergência com os rígidos padrões morais dos presbiterianos.  Quando Nassau decidiu passar férias nos Estados Unidos, em 1899, foi pressionado pelos demais missionários a não voltar ao Gabão, sob a alegação de que mantinha um relacionamento amoroso com sua informante, e acabou sendo transferido para Batanga, ao sul de Camarões.

Sem a proteção do missionário, a situação de   Anyentyuwe voltou a se tornar instável. Iga, a filha, foi estuprada e em 1890, e diversas situações de preconceito e discriminação se sucederam periodicamente, isolando-a socialmente. Acometida de uma doença não especificada, provavelmente lepra, morreu em 1904, sendo enterrada no cemitério da Missão Protestante pela qual ela foi tantas vezes julgada em vida.    

Sua trajetória incerta, tortuosa e trágica ilustra as dificuldades e lutas de mulheres africanas do final do século XIX no Gabão, em situação colonial.  

BIBLIOGRAFIA

BUCHER, henry H.. Two women: Anyentyuwe and Ekâkise. Morrisville: Lulu Publishing, 2014.

RICH, Jeremy. “Une Babylone noire”: inter-racial unions in colonial Libreville, c. 1860-1914. French Colonial History, v. 4, p. 145-170, 2003.

RICH, Jeremy.  “Anyentyuwe”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 243-244.


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Legenda: Aoua Kéita do artista Massiré Tounkara | UNESCO

Fonte: UNESCO. Disponível em: https://en.unesco.org/womeninafrica/aoua- keita-0/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Aoua Kéita (1912-1980)

Ativista política maliana, líder de mulheres e autora, nasceu em Bamako, na então colônia do Sudão Ocidental Francês. Uma forma alternativa de seu nome é Awa Keita. Seu pai, Karamogo Kéita, um veterano mandinga que participou da I Guerra Mundial  Malinké, trabalhou para o serviço de higiene colonial. Sua mãe Mariam Coulibaly, uma Diúla da Costa do Marfim, deu-lhe uma forte educação tradicional.

Algo excepcional para uma garota de sua geração, Aoua foi matriculada na recém criada École de Filles de Bamako (Escola para Meninas de Bamako) (1923) por seu pai e contra os desejos de sua mãe. Em 1928, ela se formou no Foyer de Métisses de Bamako, um colégio interno para meninas “mestiças” destinado a um pequeno número de africanos. A seguir, foi admitida na Escola de Medicina de Dakar, na época a capital da federação da África Ocidental Francesa, onse se formou como parteira (1931), dando início a uma carreira nos serviços médicos do estado colonial. Seu primeiro posto de trabalho foi em Gao, no nordeste do Mali, onde ela serviu por doze anos, estabelecendo a primeira maternidade da cidade. Depois ela também trabalhou em Nara e em Casamance.

Paralelamente, casou-se com o médico Daouda Diawara, com quem viveu onze anos (1935-1946). Ao mesmo tempo, ambos ingressaram na luta anti-colonial, passando a atuar na Union Soudanaise – Rassemblement Democratique Africain – US-RDA (União Sudanesa – Ajuntamento Democrático Africano), no qual ela assumiria um cargo executivo em 1958, atuaria como comissária para as mulheres e teria participação na redação da Constituição do Mali e,  após a independência, teria assento na assembléia legislativa para a região de Sikasso tornando-se a primeira mulher parlamentar do país.

Keita publicou sua autobiografia, Femme D’Afrique: la vie d’Aoua Keïta racontée par elle-même (Mulher da África: a vida de Aoua Keita recontada por ela própria) (1975), em que retrata sua vida pública nos anos 1950-1960. O livro foi aclamado pela crítica especializada e recebeu o Grande Prêmio Literário da Africa Negra.

Com a ampliação efetiva da participação feminina na vida pública do Mali nos anos 1990, o nome de Aoua Keita é lembrado como uma referência fundamental, e ela tem sido homenageada em eventos,  cerimônias, tendo o nome atribuído a premiações e instituições. Seu maior legado foi ter ajudado a estabelecer a reforma sobre a lei do casamento e da tutela, que introduziu avanços significativos no direito civil maliano e representou uma ampliação dos direitos das mulheres.

BIBLIOGRAFIA

KÉITA, Aoua. Femme d’Afrique: la vie d’Aoua Keïta racontée par elle-même. Paris: Présence Africaine, 1975.

KONARÉ, Adama Ba. Dictionnaire des femmes célèbres du Mali. Paris: L’Harmattan, 1994.

MANN, Gregory; SIDIBE, Oumou. “Aoua Keita”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 323-324.

TURRITTIN, Jane. Aoua Kéita and the nascent women’s movement in the French Soudan. African Studies Review, v. 36, n. 1, p. 59-89, 1993.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave: Líderes religiosas

Apolônia Mafuta (século XVIII)

Lider religiosa  no Congo, natural de Monte de Kibangu, sua atividade é anterior a de Beatriz Kimpa Vita.  Mais velha, surgida antes desta, foi sua defensora e apoiadora, proclamando-a como a “verdadeira voz de Deus”.

Segundo textos coloniais portugueses, Mafuta era uma “velhota” que dizia ter visto Nossa Senhora e ouvido dela que Jesus Cristo estava irado com o rei do Congo que não fazia retornar a capital do reino para a Mbanza Congo, ou  São Salvador. Baseada nisso, profetizava um futuro sinistro e tinha muitos seguidores e adeptos, entre as quais a rainha Dona Hipólita Maria Mpanzu, que a protegia.

 

BIBLIOGRAFIA

JADIN, Louis. Le congo et la secte des antoniens: restauration du royaume sous Pedro IV et la “Saint-Antoine” congolaise (1694-1718). Rome: Institut Historique Belge de Rome, 1961.

CAMPOS, Fernando. O rei D. Pedro IV Ne Nsamu a Mbemba e a unidade do Congo. África:Revista do Centro de Estudos Africanos, v. 18-19, n. 1, p. 159-199, 1995/1996.


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Legenda: Mulher do Congo (1861)

Fonte: The New York Public Library. Disponível em: https://digitalcollections.nypl.org/items/510d47da-6eca-a3d9-e040-e00a18064a99. Acesso em: 20 de jan. de 2021.
Palavras-chave: Quilombolas

Aqualtune (séculos-XVI-XVII)

Personagem semi-lendária da história do Quilombo dos Palmares. Teria nascido no reino do Congo, de linhagem real, e liderado uma parte dos guerreiros na Batalha de Mbwuila (Ambuíla) (1665), o que resultou em sua escravização e deslocamento para a América Portuguesa, no atual Nordeste brasileiro. É lembrada como uma rainha guerreira, avó de Zumbi dos Palmares.

Sua identidade ancestral é difícil de ser demonstrada. Ela não aparece mencionada nas crônicas ou nos documentos escritos à época no Reino do Congo. Não poderia ser a esposa de Antônio I, o rei do Congo derrotado e decapitado em Mbwila porque de acordo com o cronista português António de Oliveira Cadornega ele mandara executar a rainha anos antes. Nem era tia deste rei, conforme se pensa, porque a tia dele, que detinha o título de Mwene Nlaza, era conhecida pelo nome cristão de Ana Afonso de Leão, ou Ana Manimulaza.

Aqualtune aparece mencionada nas fontes escritas pelos atacantes da comunidade palmarina  Em 1677, por ocasião dos ataques das tropas do capitão Fernão Carrilho contra o quilombo de Macaco, havia uma grande casa onde se reunia o Conselho de Chefes, entre os quais estavam Aqualtune e Ganazona, apresentados respectivamente como mãe e irmão do rei Ganga Zumba; Zumbi, apresentado como sobrinho dele; Pedro Capacaça,  Amaro, Osenga e Andalaquituche,  líderes de outras comunidades da confederação. Em documento do Conselho Ultramarino português datado de 1681, consta que, após a invasão do quilombo de Macaco em 1577 foram aprisionados cerca de 200 homens, dois filhos do rei e a rainha. Ela era, pois, tia-avó de Zumbi, que assumiria a liderança dos palmarinos até 1695.

Por sua capacidade de liderança e de resistência à escravidão, Aqualtune tornou-se um símbolo da luta das mulheres negras. Sua memória é preservada nas tradições orais, inspirou o tema de enredo da Escola de Samba Mangueira no Carnaval de 2019 e sua história é recontada em versos na obra de Jarid Arraes, Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis (2017).

BIBLIOGRAFIA

ANDERSON, Robert Nelson. The Quilombo of Palmares: a new overview of a maroon state in seventeenth-century Brazil. Journal of Latin American Studies, v. 28, n. 3, p. 545-566, 1996.

CARNEIRO, Edison. O quilombo dos Palmares. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1958.

THORTON, John K.. Elite women in the Kingdom of Kongo: historical perspectives on women’s political power. The Journal of African History, v. 47, n. 3, p. 437-460,  2006. 

THORTON, John K.. Les états de l’Angola et la formation de Palmares. Annales. Histoire, Sciences Sociales, ano 63, n. 4,  p. 769-797, 2008.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave: Repressão Sexual

Arawelo

Nas tradições orais da Somália, Arawelo ou Araweelo é a governanta mítica de um reino em que a sucessão se fazia através das mulheres. Herdou o trono da mãe, Haramaanyo, e junto com duas irmãs liderou exércitos e venceu adversários homens, mandando executá-los ou castrá-los. Para as mulheres, ela é um símbolo positivo de empoderamento feminino.

 Para os homens, onde é lembrada pelo nome de Moroombe, ela aparece como uma tirana gorda e feia, porém brilhante, sábia, astuta, que costumava propor adivinhas aos homens, mandando executar ou castrar aqueles que não soubessem resolvê-los. Assim, o seu reino é descrito nos contos como um espaço exclusivo de mulheres, uma sociedade matriarcal.

O mito de Moroombe explica a existência, na Somália, de muitos montes de pedra chamados de howaaltiir ou taallotirrivaad (monumentos dos pilares), que evocam sua memória. Quando os homens passam por algum deles, jogam pedras para amaldiçoar a governanta mítica, e as mulheres colocam galhos verdes e folhas frescas como sinal de respeito a ela.

BIBLIOGRAFIA

HANGHE, Ahmed Artan.  Folktales of Somalia. Uppsala; Somali Academy of Science and Arts 1988.


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Legenda: Réplica de crânio reconstituído de Ardipithecus Ramidus

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ardipithecus_ramidus.jpg. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Ardi (4.400.000 anos)

Nome pelo qual ficou conhecido o fóssil fêmea denominado cientificamente como Ardipithecus ramidus, encontrado no ano de 1992 por uma equipe internacional de cientistas financiada pela Universidade da California em Aramis, no Deserto de Afar, na atual Etiópia. Após rigorosos estudos para determinar a autenticidade e originalidade da descoberta, a divulgação dos resultados foi anunciada em artigos da revista científica Nature no ano de 2009, e em um longo documentário exibido mundialmente no Discovery Channel.

O esqueleto, constituído de 125 partes, algumas das quais, como a cabeça, as mãos e os pés em bom estado de conservação, foi cuidadosamente escavado e reconstruído por uma equipe internacional de especialistas sob a supervisão de Tim White, que trabalha com paleontologia e arqueologia paleolítica.

Ardi teria medido 1,2 m de altura e pesava cerca de 55 quilos. A estrutura e composição física indicam que se tratava de um hominídeo fêmea. No estado atual das pesquisas, seu fóssil é considerado o mais antigo registro da evolução que levou ao aparecimento do gênero humano. A fêmea Ardipithecus era uma criatura das florestas, com cérebro pequeno, braços longos e pernas curtas. A pélvis e os pés mostram uma forma primitiva de caminhar ereto, porém ela também era capaz de subir em árvores, com seus longos e grandes dedos que lhe permitiam agarrar, assim como os primatas.

Sua descoberta confirma o que o acúmulo de pesquisas de diversas procedências demonstrou acerca da origem africana de todo o processo de constituição da humanidade. O nome do fóssil, Ardi, na língua etíope falada em Afar, significa, literalmente “Chão da Terra” ou “Origem” e, por extensão, “Ancestral”.  A palavra pithecus, acrescentada pelos cientistas, é de origem grega e traduz-se por “macaco” – em referência ao estudo dos primatas e hominídeos.

BIBLIOGRAFIA

GIBBONS, Ann. A new kind of ancestor: Ardipithecus unveiled. Science, v. 326, p. 36-40, 2009.

 CLARCK, Gary; HENNEBERG, Maciej. The life history of Ardipithecus ramidus: a heterochronic modelo f sexual and social maturation. Anthropological Review, v. 78, n. 2, 2015: https://content.sciendo.com/view/journals/anre/78/2/article-p109.xml

DESCOBRINDO Ardi. Discovery Channel, 2009 (DVD)


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Legenda: Arwa Saleh

Fonte: Goodreads. Disponível em: https://www.goodreads.com/author/show/ 4117584._. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Memorialistas

Arwa Saleh (1951-1997)

Líder estudantil, militante comunista radical e feminista egípcia. Nasceu na cidade do Cairo, onde estudou Literatura Inglesa na Universidade do Cairo. Trabalhou temporariamente como professora e como tradutora  na Agência de Notícias do Oriente Médio e no jornal econômico saudita intitulado al-‘Alam al-Yawm (O Mundo Hoje). Também traduziu para a língua egípcia textos da literatura marxista, além de ter sido autora de ensaios e textos de opinião em boletins do Hizb al-‘Ummal al-Shuyu’i al-Misri  (Partido Comunista dos Trabalhadores Egípcios), uma organização proibida em seu país.

Sua militância foi ativa no período de 1968-1970, e se deu no contexto da forte mobilização estudantil de esquerda contra o regime autoritário do governo de Anuar al-Sadat, sobretudo após a derrota egípcia na Guerra Árabe-Israelense (1967).  Arwa Saleh e Siham Sabri assumiram a liderança na Universidade do Cairo, organizando manifestações, redigindo panfletos, pôsteres e slogans, atividades literárias e teatrais de contestação. Na passagem de 1972-1973 os estudantes universitários, com apoio popular, ocuparam a Praça Yahrir, em protesto contra a ocupação do Sinai por Israel, e contra o autoritarismo do governo, entrando em conflito com as forças policiais a serviço do Estado. Esse cenário veio a ser retratado em sua obra posterior intitulada al-Mubtasarun (O natimorto) (1997), em que avalia o legado da “geração melancólica”  e as esperanças frustradas do movimento estudantil nos anos 1970.

Arwa Saleh tornou-se membro do comitê central do Partido dos Trabalhadores Comunistas Egípcios, uma grande organização que surgiu do movimento estudantil de 1972 e também se envolveu nos levantes de 1977 contra as políticas de liberalização econômica de Anuar Sadat. Este movimento radical de esquerda se enfraqueceu nos anos 1980, quando muitos ativistas e intelectuais juntaram-se a Organizações Não Governamentais, agências humanitárias internacionais ou movimentos islâmicos.  Essa mudança de rumo levou a que ela se afastasse do partido, em parte também por questões de saúde, o que a levou a deixar o Egito e viver temporariamente na Espanha, e a passar por demorado tratamento psiquiátrico.

Em seu livro de memórias   al-Mubtasarun (O natimorto) (1996), além de deixar um denso registro dos anos de militância estudantil, Arwa reflete com amargura sobre as inconsistências e ambiguidades dos promotores do movimento e denuncia as estruturas hierárquicas dentro das organizações comunistas, baseadas em critérios de antiguidade e, frequentemente, de gênero. Nele constam acusações de exploração sexual e abuso cometido por lideranças comunistas contra jovens militantes mulheres, por vezes difamadas ou silenciadas caso resistissem aos avanços masculinos. Também critica o intelectualismo das lideranças, que mais se preocupavam com publicações de livros ou a obtenção de apoio público do que em manter os objetivos de resistência e luta. 

Ao longo de sua vida adulta, Arwa Saleh  sofreu de depressão clínica e episódios de esquizofrenia. Após várias tentativas frustradas, ela cometeu suicídio em 1997, ao pular do décimo andar do edifício em que morava no Cairo, episódio trágico retratado em pelo menos três romances da literatura egípcia recente. Uma coletânea de artigos, ensaios e poemas, bem como de trechos de suas memórias, foi publicada com o título de Saratan al-Rawh (Câncer da Alma) (1998). 

BIBLIOGRAFIA

AL-ARIAN, Abdullah. Answering the call: popular islamic activism in Sadats Egypt. Oxford: Oxford University Press, 2014.

HAMMAD, Hanan. Arwa Saleh’s The premature: gendering the history of the egytian left. Arab Studies Journal, v. 24, n. 1, p. 118-142, 2016. 

SALIH, Arwa. The stillborn: notebooks of a woman from the student movement generation in Egypt. Calcutta: Seagull Books, 2017.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave:

Asha Ngumi (+1686)

Mwana Asha Ngumi, nascida Asha binti Muhammad, foi uma governante da ilha suaíli de Ngumi (ou Vuma), na segunda metade do século XVII. Esse era um dos Estados que compunham a chamada “Grande Shungwaya” – região localizada no litoral sul da Somália de onde ocorreria pouco tempo depois uma grande emigração de diversos povos bantu para o sul, dentre os quais os Mijikenda, Pokomo e Segeju. Ngumi é uma das ilhas do arquipélago Bajun, paralelo a Bur Gao e Kismayo, no continente.

Pouco se sabe sobre Asha Ngumi a partir das tradições. Diz-se apenas que sob seu reinado Ngumi exerceu grande influência sobre as demais organizações políticas de Shungwaya. Ao reinado de Asha é atribuída o domínio da metalurgia do ferro e a subsequente produção de pontas de lança. A governante teria municiado nômades somalis das etnias Katwa e Garre com esta tecnologia a fim de que partissem ao socorro de Borali bin Mwenye Mwii – governante de outro Estado de Shungwaya, que havia sido injustamente deposto.

Asha Ngumi teria falecido por volta de 1686; à mesma época, apesar dos esforços de Ngumi, os últimos estados de Shungwaya foram desmantelados por ataques de somalis pastoralistas do norte, além dos Oromo. Segundo outra informação recolhida da tradição, uma filha de Asha, não nomeada, quando Ngumi foi atacado pelos portugueses, teria se refugiado na mesquita local e rogado a Allah por proteção contra seus algozes – sendo, segundo a narrativa, transformada em estátua. Os vestígios de uma estátua feminina presente na mesquita seriam a suposta evidência deste portento divino.

Elaboração do verbete: Gabriel Giacomazzi

BIBLIOGRAFIA

ALLEN, James de Vere. Swahili Origins: Swahili origins and the Shungwaya phenomenon. Athens (EUA): Ohio University Press, 1993.

ELLIOT, J. A G.. A visit to the Bajun Islands, part II. Journal of the Royal African Society, v. 25, n. 99, pp. 245-263, 1926.


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Legenda: Asnakech Worku

Fonte: Discogs. Disponível em: https://www.discogs.com/artist/3930962- Asnakech-Worku. Acesso em: 13 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Asnaketch Worku (1935-2011)

Musicista, cantora e atriz etíope. Nasceu no bairro de Sidist Kilo, em Addis Abeba. Ela não conheceu os pais, que se separaram logo após o seu nascimento, e a mãe morreu três anos mais tarde. Foi criada pela madrinha e depois viveu com a irmã mais velha, com quem começou a ter acesso à shows e espetáculos.

No início de sua carreira, tocava em bares e clubes da cidade, ganhando fama pela execução do krar, o instrumento de cinco cordas similar à harpa. Nesta época, ganhava muito pouco e passava por situações de assédio.

Asnaketch foi a primeira atriz etíope moderna. Após alguma hesitação, estreou em 1952 no Teatro Municipal com a peça Ye fikir chora (Raios de amor), alcançando sucesso. Em 1955, aprimorou sua performance com aulas de canto junto a Franz Zelwecker. Ganhou notoriedade ao longo desta década devido ao seu charme, beleza, e pelo desempenho na representação de personagens antipáticas em dramas românticos.

Apesar do desempenho nos palcos, Asnaketch não é lembrada como atriz, e sim como musicista devido à grande habilidade na execução do kral e por sua excepcional capacidade de improvisação. Sua carreira deu uma guinada depois que ela tocou este instrumento interpretando Desdêmona na peça Othelo, de Shakespeare, em 1963. O primeiro álbum Sons de krar por Asnaketch Worku (1974), lançado pela gravadora Phillips na Etiópia e Eritréia, teve sucesso moderado no início, mas os discos foram retirados de circulação após a queda da monarquia etíope e o estabelecimento o governo revolucionário marxista.

Ela ganhou popularidade ao longo dos anos 1970, e na década seguinte fez uma turnê de dezesseis semanas pela Europa e Estados Unidos, a pedido do governo militar, em agradecimento ao apoio internacional recebido pela Etiópia durante um período grave de fome. Continuou a se apresentar no Teatro Nacional até 1989, quando gradualmente foi deixando os palcos. Nos anos 1990, participou de duas turnês pela Europa e gravou na Alemanha o álbum Ende Jerusalem (1995), junto com Begenna Alemu Aga.

No final dos anos 1990,  recebeu diversas premiações e distinções pelas conquistas de sua arte no Ethiopian Fine Arts and Mass Media Prize Trust (1998), e teve a obra registrada em um álbum especial lançado pela Buda Musique, chamado Éthiopiques: the lady with the krar (Etiópicas: a dama com o krar), de 2003. Entre outros registros de sua trajetória está o documentário de Rachel Samuel, com o título de Asni: courage, passion and glamour in Etiopia (Asni: coragem, paixão e glamour na Etiópia), de 2013.

BIBLIOGRAFIA

TEFFERA, Timkehet. Honoring music legend Asnaketch Worku. Casopis za musicku kulturu musika, v. XVIII, n. 1, p. 55-78,  2014.


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Legenda: Assia Djebar | Graziano Arici / age fotostock

Fonte: Encyclopaedia Britannica. Disponível em: https://www.britannica.com/ biography/Assia-Djebar#/media/1/166891/205873. Acesso em: 13 de dez. de 2020.

Assia Djebar (1936-2015)

Escritora e professora universitária, nasceu como Fatma Zohra Imalhayène, em Cherchel, na Argélia. Seu pai era professor na escola colonial francesa em Mouzaiaville e sua mãe era descendente da tribo Berkani. Ela freqüentou a escola onde seu pai ensinou (1946-1953), e estudou na escola secundária francesa em Blida. A seguir, matriculou-se no Lycée Bugeaud, em Argel (1953),  onde também fez o curso preparatório para a École Normale Supérieure.

Mudou-se então para Paris, onde concluiu o curso superior em literatura, grego e latim no Lycée Fénelon (1954), e já em 1956 participou de uma greve organizada pela Union des Étudiants Algériens (União dos Estudantes Argelinos), grupo vinculado ao Front  de Libération Nationale – FLN (Frente de Libertação Nacional), o principal órgão da luta contra o regime colonial francês. Seu primeiro livro, La soif (A sêde) (1957), foi publicado pela Editora Julliard com o pseudônimo que ela viria a adotar, Assia Djebar.

Assia se casou com Ahmed Ould-Roui, membro da FLN, e o casal foi para o exílio na Tunísia, onde ela produziu programas de rádio sobre cultura magrebina. Depois, em 1958 trabalhou como jornalista  no jornal El Moudjahid, o órgão oficial da FLN, tendo contato com Frantz Fanon e Kateb Yacine. Ela passou a lecionar história na Universidade de  Rabat (1959) e na Universidade de Argel (1962-1965), mas renunciou ao cargo em protesto contra o processo de arabização da instituição, deixando o Magreb e passando a morar na França (1967).

Nos anos 1950-1960 escreveu para diversos periódicos, entre eles o L’Express, sobre o processo revolucionário argelino. Quanto aos romances, publicou Les impatients (Os impacientes) (1958), Les enfants du nouveau monde (As crianças do Novo Mundo) (1962) e o romance inspirado em sua autobiografia  Les Alouettes naives (As cotovias ingênuas) (1967). A partir dos anos 1980 direcionou sua escrita para as questões que envolvem a desigualdade feminina na Argélia e o caráter violento da história do país, temas que desenvolveu em livros como Les nuits de Strasbourg (As noite de Estrasburgo) (1997) e La femme sans sepulture (A mulher sem sepultura) (2002).

 Em 16 de junho de 2005, em reconhecimento ao seu excepcional talento literário, Assia  Djebar foi eleita para a Academia Francesa, uma confirmação do poder e da beleza  de sua prosa e de sua corajosa dedicação em revelar a história argelina.

BIBLIOGRAFIA

HILDDLESTON, Jane. Assia Djebar: out of Algeria. Liverpool: Liverpool University Press, 2006.

MORTIMER, Mildred.  Assia Djebar. Filadélfia: CELFAN Editions, 1988.

MURRAY, Jenny. Remembering the (post)colonial self: memory and identity  in the novels  of  Assia Djebar. Oxford: Peter lang 2008.

MURRAY, Jenny. “Assia Djebar”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 231-232.  

O’RILEY, Michael F.. Postcolonial haunting and victimization: Assia Djebar’s  new novels. Nova Iorque: Peter Lang, 2007.


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Legenda: Athaliah Molokomme | FCDO

Fonte: Foreign, Commonwealth & Development Office. 02 de nov. de 2011. Flickr: Foreign, Commonwealth & Development Office. Disponível em: https://flic.kr/p/aBc3ti. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Professoras universitárias

Athaliah Molokomme (1959)

Athaliah Maoka Lesiba Molokomme  é advogada e ativista, defensora dos direitos da mulher em Botswana. Nascida em Francistown, formou-se em direito na Universidade de Botswana (1981), obteve mestrado na Escola de Direito de Yale, nos Estados Unidos (1983) e doutorado na Universidade de Leiden , na Holanda h(1988-1991).

Lecionou na Universidade de Botswana (1981-1986) e em 1988 teve papel decisivo na criação do órgão de pesquisa “Mulheres e Direito na África Austral” (WLSA), que se dedica a estudar o aspecto socio legal das mulheres no sul do continente.

Molokomme recebeu vários prêmios, incluindo o Prêmio de Direitos Humanos da Mulher (1993), a distinção de honra presidencial por Serviços Excepcionais prestados a Botswana (1999) e o Prêmio de Líderes de Vanguarda para Mulheres do Botswana (2005). Ela foi uma das várias mulheres botswanas de destaque retratadas no documentário Mosadi: celebrating women through the arts (Mosadi: celebrando as mulheres nas artes). Molokomme (2009), pela sua distinção como estudiosa do direito e ativista incansável pelo avanço das mulheres de seu país.

Desde a década de 1990 é oradora regular em conferências, oficinas e seminários nacionais e internacionais na área de direito. Em 2005 foi indicada para o cargo de Procuradora Geral do Estado, função que desempenha até o presente (2020).

BIBLIOGRAFIA

MACHARIA-MOKOBI, Elizabeth. “Athaliah Maoka Lesiba Molokomme”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 253.

MOLOKOMME, Athaliah. Children of the fence: the maintenance of extramarital children under law and practice in Botswana. Leiden: African Studies Centre, 1991.

MOLOKOMME, Athaliah. Political Rights in Botswana: regression or development?. In: HOLM, J.;  MOLUTSI, P. (Ed.).  Democracy in Botswana: proceedings of a symposium held in Gaborone (1-5 august 1988). Gaborone: Macmillan Botswana and Botswana Society, 1989, p. 163-174.

MOLOKOMME, Athaliah. The woman’s guide to the law: an outline of how the law affects every woman and her family in Botswana. Gaborone: Women’s Affairs Unit – Ministry of Home Affairs, 1992.


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Legenda: "Signare" | Pierre-Georges Jeanniot (1890)

Fonte: Gallica – Biblioteca Nacional da França. Disponível em: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b23005610/f9.item.zoom#. Acesso em: 10 de jan. de 2021.

Aurélia Correia (c.1810 – c.1875)

Comerciante, mercadora e senhora de escravos da Guiné. Nasceu provavelmente de pai cabo-verdiano e mãe de etnia bijagó, da ilha de Orango, a maior e mais importante ilha do arquipélago da costa da atual Guiné-Bissau. Tornou-se a mais famosa de todas as mulheres comerciantes que operaram na costa do que veio a se chamar  Guiné portuguesa durante o período colonial. Sua carreira comercial esteve indissociavelmente ligada ao comércio transatlântico e à introdução do comércio de amendoim.

Em 1830 Aurélia se mudou  com uma tia para a Ilha das Galinhas. Na metade daquela mesma década ela e seu parceiro,  Caetano José Nozolini (1800-1850), um comerciante de escravos cabo-verdiano, da ilha de Fogo, começaram a produzir amendoim enquanto usavam a ilha como entreposto do tráfico de escravos. As plantações de amendoim, arroz e milho eram mantidas por mão-de-obra-escrava. Os produtos agrícolas, sobretudo o amendoim, eram exportados para Marselha, na França, por intermédio de rede das companhias francesas que atuava nos portos de Gorée e Saint Louis, no Senegal, enquanto os cativos eram enviados para o Caribe.

Na década de 1840 ela aumentou suas propriedades rurais, e se tornou a maior plantadora da Ilha de Bolama, aí permanecendo até 1860, quando este local foi ocupado pelos britânicos instalados em Freetown, Serra Leoa.  Então, dirigiu os seus negócios para Bissau.

Aurélia Correia tinha um filho e três filhas, todas posteriormente casados com fazendeiros ou empresários como ela. Sua fama permaneceu na memória popular, em que é lembrada como o qualificativo de “Mãe Aurélia”.

BIBLIOGRAFIA

BROOKS, George E. A nhara of the Guinea-Bissau region: Mãe Aurelia Correia. In: ROBERTSON, Claire; KLEIN, Martin (Eds.).  The women and slavery in Africa. Madison: University of Wisconsin Press, 1983, p. 293-319.

HAVIK, Philip J. Silences and soundbytes: the gendered dynamics of trade and brokerage in the pre-colonial Guinea-Bissau region. Munster: LIT Verlag, 2004.

HAVIK, Philip J.. “Aurélia Correia”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2,  p. 125-126.


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Legenda: Awa Marie Coll-Seck | Foto: Russell Watkins

Fonte: Department for International Development. 11 de jul. de 2012. Flickr: DFID - UK Department for International Development. Disponível em: https:// flic.kr/p/cvEKA3. Acesso em: 13 de dez. de 2020.

Awa Marie Coll-Seck (1951)

Médica, pesquisadora, Ministra da Saúde.   Nasceu em Dakar, no Senegal. Desde o período escolar  chamou a atenção por sua inteligência a aptidão atlética. No final dos anos 1960 e início dos anos 1970 integrou a seleção senegalesa de basquete e em 1978 graduou-se em Medicina na Universidade de Dakar.  

Trabalhou em hospitais na cidade francesa de Lyon e em Dakar, e depois foi contratada pela Faculdade de Medicina da Universidade Cheikh Anta Diop – UCAD (1989), atuando também como médica executiva de doenças infecciosas no Hospital Público de Dakar. Nos anos 1990 Awa Marie ganhou renome pelas pesquisas e publicações sobre HIV-AIDS, o que a levou a fazer parte da diretoria do Programa das Nações Unidas para HIV/AIDS conhecido como UNAIDS (1996-2001) e a morar em Genebra  com o marido e seus quatro filhos.

De retorno ao Senegal, assumiu o cargo de Ministra da Saúde (2001-2003), e por sua capacidade de gestão  assumiu a Secretaria Executiva do Programa das Nações Unidas e da Organização Mundial da Saúde, o  Roll Back Malaria – RBM (Para Reverter a Malária) (2004) . Ela atuou como Ministra da Saúde e Ação Social (2012-2017) e foi convidada a atuar como Ministra de Estado do Presidente Macky Sall a partir de 2017.

Autora de cerca de 150 artigos científicos, por sua carreira e relevância acadêmica recebeu diversos prêmios, inclusive a Ordem Nacional da Legião de Honra, na França. Além de ser colaboradora do TED, da Fundação Sapling, organização estadunidense para disseminação de ideias, ela assumiu uma cadeira na World Health Assembly  (Assembleia Mundial da Saúde) da ONU (2003) e na West African Health Organization (Organização de Saúde da África Ocidental). Por seu trabalho árduo e sua grande competência, é reconhecida como uma das mulheres mais importantes das últimas décadas no combate à malária e uma das primeiras mulheres a assumir postos de comando no Senegal.

BIBLIOGRAFIA

African youth empowered to drive the Sustainable Development Goals. Speak Africa, 2019: https://www.speakupafrica.org/african-youth-empowered-to-drive-the-sustainable-development-goals/

COLL-SECK, Awa Marie .  Breaking the wall of child mortality. Falling Walls Fondation, 2013: https://www.youtube.com/watch?v=IT7Px5mqSzA

ROBERTS, Leslie. New malaria plan called ambitious by aome, unrealistic by others. Science, v. 322, n. 5898,  p. 26-27, 2008.

RICH, Jeremy. “Awa Marie Coll-Seck”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 117-118.


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Legenda: Awa Thiam

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Awa_Thiam.jpg. Acesso em: 15 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Professoras universitárias

Awa Thiam (1950)

Destacada intelectual, pesquisadora e ativista senegalesa em defesa dos direitos das mulheres na África, é um nome importante entre as feministas africanas. Realizou sua formação acadêmica na França, onde cursou dois doutorados, um em antropologia cultural na Universidade de Paris VIII, e outro em filosofia na Universidade Pantheon-Sorbonne Paris I. Durante este tempo, foi membro da Coordination des Femmes Noires (Coordenação das Mulheres Negras), um dos primeiros grupos de feministas negras na França. De retorno ao Senegal, passou a atuar como Assistente de Pesquisa na Universidade de Dakar Cheikh Anta Diop – UCAD. Em 1987 ela propôs a criação, nesta universidade, de um departamento de antropologia das relações sexuais, mas a iniciativa não foi aprovada.

Como pesquisadora e escritora, sua obra de maior impacto foi La parole aux négresses (A palavra das negras), publicada em 1978 e logo depois traduzido ao inglês com o título Black sisters, speak out: feminism and opression in Black África (As irmãs negras falam: feminismo e opressão na África Negra). O livro, um dos primeiros do gênero, apresenta os resultados de entrevistas com mulheres sobreviventes de violência física e sexual, onde é feita a denúncia aberta da poligamia, do dote e sobretudo da mutilação genital feminina. E reivindica mudanças na estrutura da sociedade que é eminentemente patriarcal. Outras obras de sua autoria, como Continents noirs (Continentes negros) (1987), Woman’s struggle for the abolition of sexual mutilation (A luta das mulheres pela abolição da mutilação genital) (1998), aprofundam temas como a liberdade, igualdade e a busca pela libertação feminina.

Em busca de espaços para a voz das mulheres africanas, Awa Thiam posiciona-se criticamente em relação às iniciativas de feministas ocidentais (brancas), por tentarem intervir e ajudar as mulheres africanas baseadas em critérios e julgamentos de valor que não tem relação com a mentalidade e costumes das pessoas que integram as sociedades em questão. Para ela, as mulheres da África já sofreram o suficiente com atitudes coloniais ou neocoloniais como essas.

Fora do campo acadêmico, ela fundou em 1982 a Comissão para a Abolição das Mutilações Sexuais (CAMS), que foi logo depois dissolvida, e recriada como CAMS-Internacional. Alguns anos mais tarde dirigiu o Centro Nacional de Assistência e Treinamento da Mulher, órgão vinculado ao Ministério da Mulher e da Criança. Ela também foi Ministra da Saúde e Ação Social e Presidente da Comissão de Saúde, População, Assuntos Sociais e Solidariedade, e co-fundadora da Aliança para uma Nova Cidadania em Dakar.

Considerada uma das maiores lideranças feministas africanas na luta contra o costume da mutilação genital feminina, ela considera que tal prática é apenas um fino véu que esconde o controle patriarcal, e declara:  “o objetivo dessas práticas, admitidas ou não, é controlar a sexualidade feminina. Algumas não hesitam em dizer que o objetivo é reduzir a hiper-sensualidade das mulheres. De qualquer forma, o resultado permanece o mesmo: fazer da jovem um elemento reprodutivo e produtivo futuro, daí sua vida ser ordenada e traçada para desde o nascimento até a morte por uma sociedade patriarcal que garante que ela seja mantida em seu lugar em todas as etapas de seu desenvolvimento” (1998).

BIBLIOGRAFIA

THIAM, Awa. Women’s fight for the abolition of sexual mutilation. International Social Science Journal, v. 50, n. 157,  p. 381–386, 1998.

KONATE, Dior. “Awa Thiam”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 12-13.

MIANDA, Gertrude Mutonkoley. Reading Awa Thiam’s La parole aux Négresses through the lens of feminisms and hegemony of english language. Atlantis: critical studies in gender, culture & social justice, v. 36, n. 2, 2014: https://journals.msvu.ca/index.php/atlantis/article/view/1954


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Legenda: Ayesha Iman | AWDF-wikiwomen

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ayesha_Imam.jpg. Acesso em: 21 de dez. de 2020.

Ayesha Iman

Nascida na área cultural hauçá, Nigéria, formou-se em sociologia pela Escola Politécnica do Norte de Londres, concluiu o Mestrado na Ahmadu Bello University – ABU (Universidade Ahmadu Bello) (1983) e o Doutorado pela University of Sussex (Universidade de Sussex).

Ingressou na Universidade Ahmadu Bello Zaria em 1980 e em 1983 assumiu o cargo de secretária coordenadora da organização Women in Nigeria (Mulheres na Nigéria), uma organização feminista sediada em Zaria, e é participante do Fórum Feminista Africano.

Em 1996 Ayesha fundou o Baobab for Women’s Human Rights (Baobá para os Direitos Humanos das Mulheres),  que fornece proteção para  mulheres acusadas de acordo com os códigos penais da xaria, a  lei muçulmana. Esta organização teve papel determinante na anulação da sentença de morte por apedrejamento movida contra Amina Lawal em 2004.

BIBLIOGRAFIA

BUNTING, Annie. “Authentic Sharia” as cause and cure for women’s human rights violations in northern Nigeria.  Hawwa, v. 9, n. 1-2,  p. 152-170, 2011.

MIKEL, Gwendolyn. Working from within: nigerian women and conflict resolution. Georgetown Journal of International Affairs, v. 6, n. 2, p.87-94, 2005

Women’s access to justice and personal security in Nigeria: a  syntesis report. Lagos: Baobab for Women’s  Human Rights, s.d.: http://www.gsdrc.org/docs/open/ssaj33.pdf


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Legenda: Ilustração em selo postal da República da Tunísia (1985)

Fonte: Alchetron. Disponível em: https://alchetron.com/Aziza-Othmana#aziza- othmana-28d49e39-4443-4c17-9753- d032edaf1b2-resize-750.jpg. Acesso em: 21 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Aziza Othmana (1606-1669)

Princesa tunisiana pertencente a alta linhagem dos governantes janízaros de Túnis. Cresceu no palácio do avô, Ohtman Dey, sendo educada de acordo com os ensinamentos do Corão e da xaria. Ganhou notoriedade por sua piedade e caridade, pelo cuidado com as meninas pobres e pela assistência dada aos doentes. 

Nos últimos anos de vida, libertou seus escravizados e doou mais de 90.000 hectares de terras semeadas ou plantadas para abrigos e locais de caridade, para resgatar prisioneiros e fornecer o enxoval de casamento de meninas pobres.  Ela fundou e financiou o funcionamento inicial do hospital Bimaristan em Túnis, que tempos mais tarde passou a se chamar hospital Aziza Othmana em sua homenagem.

Othmana foi e é uma inspiração para as mulheres muçulmanas nas áreas da ciência e medicina, fornecendo um modelo alternativo para o estudo delas e dos poderes que detinham e detêm em suas comunidades

BIBLIOGRAFIA

GALLAGHER, Nancy Elizabeth. Medicine and Power in Tunisia, 1780-1900. Cambridge; Nova Iorque: Cambridge University Press, 1983.

MOALLA, Asma. The regency of Tunis and the ottoman port, 1777-1814. Londres;  Nova Iorque: Routledge, 2003.

POST. Jonathan. “Aziza Uthmana”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 106.


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Legenda: Baba de Karo | Foto: Mary Smith

Fonte: BBC News. Witness History. Disponível em: https://www.bbc.co.uk/programmes/w3cswslb. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Baba de Karo (1890-1951)

Baba de Karo (1890-1951). Também conhecida como Baba Hasetu Dantsoh.  Mulher integrante do povo hauçá da aldeia de Karo,  na então província de Zaria, ao norte da atual República da Nigéria.  Seu pai, Tosho, pertencia ao grupo étnico Kanuri, era um bem sucedido fazendeiro e professor do Alcorão. O trabalho em sua propriedade era baseado na exploração do trabalho escravo, e a prosperidade familiar diminuiu após a proibição da escravidão, no período colonial.  Sua mãe, Fatsuma, era uma mulher muçulmana que vivia isolada e preparava comida e algodão fiado para venda.

Tudo o que se sabe sobre Baba baseia-se em entrevistas que ela concedeu a Mary Smith, a esposa de Michael Smith, um antropólogo social jamaicano que fez pesquisa de campo no norte da Nigéria nos anos 1940-1950. As entrevistas ocorreram entre novembro de 1949 e janeiro de 1950, nas cidades de Giwa e Zaria. Elas foram gravadas em hauçá quase literalmente como ditado por Baba, e mais tarde foram traduzidas e publicadas em inglês como uma autobiografia, Baba of Karo: A woman of the muslim hausa (Baba de Karo: uma mulher muçulmana hauçá) (1954),   com uma introdução por Michael Smith e notas finais elaboradas que ajudam a contextualizar certos episódios e contextos da biografia.

A história de vida de Baba de Karo se confunde com a história das mulheres comuns hauçá de meados do século XIX a meados do século XX, onde se pode entrever as experiências da infância e juventude, genealogia familiar e relações de parentesco. Desde a infância ela trabalhava para ajudar a mãe vendendo comida, aos quatorze anos foi, conforme o costume, entregue em casamento a um parente, Duma Sidi (1904). Após enfrentar oposição familiar, divorciou-se, vindo a se casar em período posterior com Malam Maigari, com Yari Malam Hasan e com Ibrahim Dantsoho, os dois últimos, fazendeiros polígamos.

Ao longo da vida, cuidou das cabras que herdou do pai, trabalhou como fiandeira e vendedora de lenha, prestava assistência nos serviços de parto. Seu depoimento contribui para se conhecer melhor a situação das mulheres comuns no período anterior ao colonialismo e as alterações introduzidas pelos britânicos no período colonial. Com papéis políticos limitados, que não iam além de atuarem como jakadiya, isto é, mensageiras de chefes locais, as mulheres alcançavam alguma notoriedade quando se tornavam magajiya – chefes das dançarinas de Bori ou prostitutas.

O testemunho de Baba de Karon revela igualmente aspectos importantes da vida religiosa, seja aqueles relacionados à continuidade das práticas tradicionais anteriores ao islã, vinculado ao culto do Bori e a possessão por espíritos, quanto ao papel do islã na regulação das relações sociais através do casamento e da definição da sucessão familiar. 

Baba faleceu em 3 de junho de 1951. O registro de sua palavra permite acessar aspectos da vida cotidiana de mulheres comuns, que, não ocupando posições de poder ou de liderança, compartilharam experiências e tradições ancestrais, mesmo em período de inovação e transformação. Ela é lembrada como mulher corajosa, com vontade própria, cujo intelecto e memória afiada levaram à produção de sua biografia.

BIBLIOGRAFIA

COLES, Catherine; MACK, Beverly (Eds.). Hausa women in the twentieth century. Madison: University of Wisconsin Press, 1991.

CHUKU, Gloria. “Baba of Karo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 336-338.

SMITH, Mary F.. Baba of Karo: A woman of the muslim hausa. Yale: Yale University Press, 1981 (or. 1954).


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Legenda: Balaraba Ramat Yakubu

Fonte: Worldreader. Disponível em: https://www.worldreader.org/blog/nigerian-novelist-balaraba-ramat-yakubu-now-on-worldreader-mobile/. Acesso em: 15 de dez. de 2020.

Balaraba Ramat Yakubu (1958)

Nascida em Kano, ao Norte da Nigéria, recebeu formação escolar islâmica e ocidental até a adolescência, quando foi forçada pela família a se casar. Teve dois casamentos forçados, de um total de quatro, dos quais ela logo se divorciou. Por causa disso, ao longo de toda a sua carreira estimulou as mulheres hauçás a buscar sua independência e oportunidades de sobrevivência. No início do século XXI fundou a empresa de publicidade Ramata General Enterprises, onde publica suas obras e exerce o cargo de administradora.

Ao longo da vida, Yakubu se destacou como romancista, roteirista e figura icônica da literatura popular hauçá, muito conhecida em cidades como Kano, Katsina, Zariya, Kaduna e Sokoto. Suas obras enquadram-se no gênero da literatura popular identificado como littattafan soyayya (literatura amorosa), muito apreciado, mas criticado pelas autoridades religiosas tradicionais. Ela explora no enredo de suas obras dramas amorosos e familiares, e no subtexto reside uma crítica aos privilégios patriarcais e aos condicionantes da opressão sobre as mulheres pela poligamia, casamentos arranjados ou forçados, a mutilação genital (pardah), e a falta de oportunidade de ensino.

Entre os seus livros mais apreciados estão Budurwa Zuciya (Coração virgem), Alhaki Kuykuyo Ne (A inevitável retribuição) e Wane kare ne ba bare ba (uma vez um cão, sempre um cão), que trata da coabitação entre co-esposas reiteradamente violadas em seus direitos e conjuntamente oprimidas. Em Wa azai auri jahila (Quem quer casar com uma mulher ignorante?), o tema principal é a educação como meio de libertação feminina. O romance acompanha o processo de libertação de Zainabu, uma jovem adolescente que abandona a família do marido para viver em Kano, onde trabalha durante o dia e estuda no período noturno, obtendo com o tempo estabilidade emocional, psicológica e financeira.  Por suas ideias, a autora é reiteradamente condenada pelas autoridades muçulmanas nigerianas, embora ela não conteste a religião, e sim as tradições culturais quando servem de meio de opressão e de privação dos direitos femininos.

BIBLIOGRAFIA

LARKIN, Brian. Indian films and nigerian lovers: media and the creation of parallel modernities. Africa, n. 67, p. 406-439, 1997.

WHITSITT, Novian. “Balaraba Ramat Yakubu”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 196-197.

WHITSITT, Novian. Islamic-hausa feminism in Kano Market litterature; Qu’ranic reinterpretation in the novels  of Balaraba Ramat Yakubu. Research in African Litterature, n. 33, p. 119-136, 2002.


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Legenda: Barbara Kimenye

Fonte: History In Progress Uganda. 09 de out. de 2015. Facebook: History In Progress Uganda. Disponível em: https://www.facebook.com/ HIPUganda/photos/a.872193372856510/901535896588924/? type=3&theater. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Jornalistas Romancistas

Barbara Kimenye (1930-2012)

Escritora de livros infantis ugandense, jornalista pioneira no leste da África. Foi secretária pessoal do kabaka (rei) de Buganda, Mutesa II. Nasceu na Inglaterra e estudou em um convento de Yorkshire antes de receber treinamento para enfermeira  em Hammersmith, Londres.

Mais tarde ela  se tornou jornalista,  escrevendo para jornais do Quênia e de Uganda. Entre os seus livros estão Kalasanda (1965), Moses (1967), Paulo’s strange Adventure (A estranha aventura de Paulo) (1971), Sarah and the boy (Sarah e a criança) (1973), The Runaways (Os corredores) (1973), Moses and the men from Mars (Moses e o homem de marte) (1991), The money game (O jogo do dinheiro) (1992), Beauty queen (A bela rainha)  (1997).

Os seus trabalhos sempre apresentam histórias de aventuras sobre meninos e meninas. Seu personagem favorito é um menino em idade escolar chamado Moisés (Moses) cujo amor pela aventura muitas vezes o levou, com os seus amigos, a enfrentar problemas com as autoridades. Suas qualidades morais são entretanto um meio de identificação com os jovens leitores a quem a autora procura transmitir mensagens positivas e construtivas.

BIBLIOGRAFIA

SCHMIDT, Nancy. The writer as a tacher: a comparison of the african adventure stories of G. A. Henty, Rene Guillot, and Barbra Kimenye. African Studies Review, v. 19, p. 69-80, 1976.


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Legenda: Bartare

Fonte: Dr Sophie Hay. 08 de nov. de 2018. Twitter: @pompei79. Disponível em: https://twitter.com/pompei79/status/1060564030753030144/photo/4. Acesso em: 21 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Meroé

Bartare (século III a.C.)

Primeira governanta núbia de Meroé a exercer o poder político, teria governado no período situado entre 284-275 a.C. As informações sobre ela são muito imprecisas, e o pouco que se sabe é que teria recebido os títulos de “Filho de Rá, Senhor das duas Terras”, título que era utilizado apenas pelos faraós egípcios. Sua pirâmide encontra-se ao sul da cidade.

Bartare é tida como sucessora direta do soberano Arakakamani, o primeiro governante a ser enterrado em Méroe. Como governanta suprema, foi provavelmente a primeira das candácias, termo de origem meroítica, kn-ti-kylktke, que em grego se lê kandake e que equivale a “rainha-mãe” ou “filha de rei”. Mas a ela não era atribuído o título de gore, que pode ser associado a “chefe”. Este último título aparece associado apenas a quatro governantas posteriores: Amanirenas, Amanishaketo, Nawidemak e Maleqereabar.  

BIBLIOGRAFIA

OLIVEIRA,  Fernanda Chamarelli de. Senhoras da Núbia: as candaces na cultura material em Kush (África, I AEC – I EC). Dissertação (Mestrado em História), Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2019.

PHILLIPS, Jacke. Women in Ancient Nubia. In: BUDIN, Stephanie Lynn; TURFA, Jean Marcintosh. Women in Antiquity. Real Women across the Ancient World. Nova York: Routledge, 2016.

SWEETERMAN, David. Grandes mulheres da história africana. Lisboa: Nova Nórdica, 1988.


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Legenda: Beatriz Kimpa Vita | Bernardo da Gallo (1710)

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Kimpa_Vita_Mvita.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Líderes religiosas

Beatriz Kimpa Vita (1684-1706)

Reformadora política e religiosa.  Nasceu em Kibangu, no então Reino do Congo, uma região montanhosa localizada na atual República de Angola. Pouco se sabe do seu núcleo familiar, mas ela cresceu durante o período de fragmentação e guerra civil.

A relativa estabilidade do Reino do Congo no século XVI tinha ruído por conta da invasão portuguesa para o sul de Angola nos anos de 1660, após a esmagadora vitória na Batalha de Mbwila (1665).  No final do século XVII, o antigo Congo estava dividido e disputado por linhagens que pretendiam a reunificação  do reino. O pai de Kimpa Vita serviu como oficial no exército do Rei Álvaro X, um dos pretendentes na disputa política.

No meio deste quadro político caótico ela ganhou fama por conta de suas visões. De acordo com o capuchinho italiano Bernardo da Gallo que a entrevistou brevemente antes de sua execução, ela lhe disse ter entrado em um transe espiritual no qual crianças brancas misteriosas vinham até ela e lhe davam um copo com alecrim. Alguns membros da família a consideravam com um dom particular e treinada para ser a próxima nganga marinda, uma conexão divina do movimento religioso kimpasi que obteve muito apoio entre os congoleses da época. Para muitos, em seus momentos de transe ela incorporava o espírito de Santo Antônio, motivo pelo qual os seus adeptos e simpatizantes ficaram conhecidos como “Antonianistas”, e o movimento que ela liderou recebe o nome de “Antonianismo”.

Em 1704, Kimpa Vita, pregou e anunciou a necessidade de medidas no reino, dirigiu-se à corte e cobrou a mudança da capital do governo junto ao rei Pedro IV do Congo. Aconselhado por Bernardo de Gallo, este mandou prendê-la. Ela foi submetida a um julgamento, considerada herege e bruxa, condenada e queimada na fogueira.

A trajetória pessoal, a experiência mística e as consequências sociais do movimento antoniano liderado por Kimpa Vita constituem episódios importantes do enraizamento do cristianismo em sua forma africana, antecipando diversas tendências dissidentes e formas nativas de manifestação religiosa posteriores como o Kinbanguismo e o Tocoismo. Ela é admirada e lembrada como líder espiritual e política libertária até os dias atuais.  

BIBLIOGRAFIA

FILESI, Teobaldo. Nazionalismo e religione nel Congo all’inizio del 1700: la seta degli antoniani. Rome: Istittuto Italiano per l’Africa, 1972.

RICH, Jeremy. “Dona Beatriz Kimpa Vita”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 381-383.

THORTON, John. The kongolese Saint Anthony: Dona Beatriz Kimpa Vita and the antonian movement, 1684-1706. Cambridge: Cambridge University Press, 1998.

VAINFAS, Ronaldo; SOUZA, Marina de Mello e.  Catolização e poder no tempo do tráfico: o reino do Congo da conversão coroada ao movimento antoniano. Tempo (UFF),  n. 6, p. 1998:  https://www.historia.uff.br/tempo/artigos_dossie/artg6-7.pdf


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Legenda: Mulher escravizada nos Estados Unidos da América (1844)

Fonte: Slavery Images. Disponível em: http://web4.encyclopediavirginia.org/ slave_images/Slavery/detailsKeyword.php? keyword=Femme&recordCount=6&theRecord=3. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Direitos Humanos

Belinda (c. 1713 – c. 1790)

Também por vezes referida como Blinda Royall ou Belinda Sutton, com sobrenomes que refletem os laços familiares de seus proprietários. Nascida em território da antiga Costa do Ouro, atual República de Gana, foi a primeira pessoa de origem africana a narrar sua própria condição como escravizada no período de independência das colônias da Nova Inglaterra e a fundação dos Estados Unidos, e a primeira pessoa a pleitear um pedido de pensão como reparação pela sua escravização.

Alguns historiadores argumentam que ela poderia ter sido originária da atual República de Gana porque na petição que ela escreveu diz ter morado no “Rian da Valta River”, que se poderia interpretar como uma alusão ao Rio Volta. Entretanto, ela também recordava-se que quando era criança fazia orações em um bosque sagrado para “o Grande Orixá que fez todas as coisas”, o que deixa em aberto a possibilidade de que pudesse ter pertencido a uma comunidade de falantes da língua yoruba do sudoeste da atual Nigéria ou da atual República do Benin – antigo Daomé.  

Qualquer que tenha sido a sua origem étnica ou geográfica na África ocidental, em sua narrativa Belinda recorda-se de ter passado uma infância feliz, e que tudo mudou quando foi capturada, reduzida em cativeiro e transportada em um navio negreiro, realizando a terrível “Passagem do Meio” – a transferência para a América em um navio negreiro. Alguns pesquisadores levantam dúvidas sobre a consistência da descrição sobre sua captura, sugerindo que ela pudesse ter sido influenciada nessa parte de suas memórias pelo relato de Ollaudah Equiano, o mais conhecido autor de uma autobiografia de um escravizado. Porém, em sua petição ela se autodenomina “africana”, e não, como era comum na época, como “negra”.

Belinda foi comprada por Isaac Royall, um rico morador da colônia britânica de Massachusetts. Ele era professor no Harvard College e detinha a propriedade de uma plantation (fazenda) de açúcar no Caribe, onde ela foi mantida em cativeiro até o período das guerras de independência contra a Inglaterra, quando os Royall abandonaram a colônia e buscaram refúgio na metrópole por não reconhecer o regime instituído pelos rebeldes.  Então, ela foi para a cidade de Boston, onde outros(as)  cativos(as),  afro-americanos libertos e brancos simpatizantes da causa abolicionista se mobilizavam contra a continuidade da escravidão, reivindicando a abolição.

Em 1783, Belinda enviou uma petição à Assembleia Legislativa de Massachusetts exigindo que reparações fossem pagas pelo estado por conta do tempo em que seu trabalho foi explorado pelos Royalls.  Dúvidas foram levantadas quanto a redação pessoal do documento, pois ela assina a petição com um X, o que poderia sugerir ser analfabeta, e alguns supõem que o texto tivesse sido escrito pelo Príncipe Hall, um ativista afro-americano muito ativo em Boston, autor de várias petições similares.  O documento foi publicado na coletânea intitulada The american Museum, or repository of ancient and modern fugitive pieces, prose and poetical (O Museu americano: repositório de fugidias peças em poesia e prosa, antigas e modernas) (1787).

Ao final, em 1787 a Assembleia de Massachusetts concedeu a Belinda uma pensão de 15 libras e 12 xelins durante um ano, depois estendida até 1790, quando o nome dela desapareceu dos registros públicos. Seu caso tem sido desde então citado como o primeiro exemplo de um processo bem-sucedido de reparação por escravização.

BIBLIOGRAFIA

FINKENBINE, Roy. Belinda’s petition: reparations for slavery in revolutionary Massachusetts. William & Mary Quarterly, v. 64, n. 1, p. 95-104, 2007.

HARRIS, Sharon. Executing race: early american women’s narratives of race, society and law. Columbia: Ohio State University Press, 2005.

PITCHER, E. W. A complaint against “The Petition of Belinda”, an african slave. Early American Literature, v. 31, n. 2, p. 200–203, 1996.

RICH, Jeremy. “Belinda”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 416-417. 

WINBUSH, Raymond. Belinda’s petition: a concise history of reparations for the transatlantic slave trade. Bloomington:  XLibris Corporation, 2009.


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Legenda: Belita Palma

Fonte: Discogs. Disponível em: https://www.discogs.com/artist/3249090-Belita-Palma. Acesso em: 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Belita Palma (1932-1988)

Nome pelo qual é mais conhecida a cantora angolana Isabel Salomé Benedito de Palma. Nascida em Luanda, era filha de Rosa da Silva Guimarães Palma e Domingos Benedito Palma e teve nove irmãos. Seu contato com a música começou com o pai, que era músico e frequentava os meios artísticos populares.

Ela começou a carreira nos anos 1950 cantando junto com a irmã, Rosita Palma, com repertório inspirado nas músicas tradicionais. Sua carreira como intérprete ganhou projeção nacional quando passou a integrar o grupo musical N’Gola Ritmos – que tinha sido fundado Liceu Vieira Dias em 1947.

Junto com Lourdes Van-Dúnem, durante a década de 1960 atuou como vocalista em diversos álbuns do N’Gola Ritmos e por suas performances foi considerada um dos ícones da arte anticolonialista. Atuou em clubes,  e participou de festivais de música popular, interpretando algumas canções em língua quimbundo. Por seu protagonismo e engajamento, foi reconhecida postumamente pela Rádio Nacional de Angola (RNA) (2007), sendo também homenageada durante o Prêmio Nacional de Cultura e Artes (2009). 

BIBLIOGRAFIA

ALVES, Amanda Palomo. Angolano segue em frente: um panorama do cenário musical urbano de Angola entre as décadas de 1940 e 1970. Tese (Doutorado em História), Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2015.

MOORMAN, Marissa J.. Dueling bands and good girls: gender, music, and nation in Luanda’s musseques, 1961-1974.  International Journal of African Historical Studies, v. 37, n. 2, p. 255-288, 2004: https://scholarworks.iu.edu/dspace/bitstream/handle/2022/3208/Dueling%20Bands%20-%20Moorman.pdf?sequence=1

WEZA, José. O percurso histórico da música urbana luandense: subsídios para a história da música angolana.  Luanda: Governo da Província de Luanda,  2007.


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Legenda: Bella Bellow

Fonte: Bella Bellow la diva togolaise. 12 de dez. de 2013. Facebook: Fondation Bella Bellow. Disponível em: https://www.facebook.com/media/set/? vanity=1440008382881123&set=a.1440026049546023. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Bella Bellow (1945-1973)

Cantora popular, considerada a pioneira da música togolesa moderna. Neta de imigrantes da Nigéria e de Gana, nasceu em Tsevié, na então colônia francesa, atual República do Togo. Seu nome de nascimento era Georgette Adjoavi Bellow.

  Desde muito pequena, sempre chamou atenção pelo talento musical. Em 1965, com apenas vinte anos, gravou sua primeira canção, e a seguir decidiu dedicar-se inteiramente à carreira artística, o que logo lhe rendeu frutos: graças a Paul Ahyi, um ex-professor, Bella conheceu o produtor musical Gérard Akueson, que se interessou por ela e viu potencial para uma carreira internacional de sucesso. Assim, além de gravar canções como Zelie, Bem Bem e O Senye, Bella também fez turnês nos anos seguintes no Gabão, Mali, Grécia, Alemanha, Iugoslávia, Alemanha e Martinica. Algumas de suas músicas foram gravadas no Olympia, em Paris, e em 1971 fez uma apresentação no Rio de Janeiro. 

Desde o início da década de 1970 Bella Bellow passou a administrar a própria carreira, sendo acompanhada pela banda Gabada, que misturava os estilos de música gospel afro-americanas com canções togolesas e a bossa nova brasileira. Bella também gravou com o aclamado jazzista camaronês Manu Dibango, e era admirada e respeitada no cenário artístico internacional. Na vida pessoal, estabeleceu um relacionamento com o juiz Théophile Jamier-Lévy, seu conterrâneo, com quem casou e teve uma filha, Nadia Elsa.

Porém, tudo foi tragicamente interrompido no dia 10 de dezembro de 1973, quando, aos vinte e oito anos, sofreu um grave acidente em viagem de carro com seu motorista e não resistiu aos ferimentos, vindo a falecer.

Mesmo partindo tão cedo, o legado de Bella Bellow continuou vivo:  cantoras como Angélique Kidjo e Afia Mala reconhecem que ela tenha inspirado suas carreiras, seu retrato estampa um selo postal e a nota de 10.000 francos togoleses, a nota mais importante do país. Em 10 de dezembro de 2004, trinta e um anos após o acidente, um grande evento musical foi organizado em sua homenagem no Togo. 

BIBLIOGRAFIA

BELLOW, Bella. Rockia: https://www.youtube.com/watch?v=nAABi3FCmvk

RICH, Jeremy. “Bella Bellow”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 421-422.

SAIBOU, Marceline. Presence, absence and disjunctures: popular music and politics in Lome, Togo, 1967-2005. Thesis (Doctorof Philosophy in the Graduate School of Arts and Sciences), Columbia University, 2016: https://academiccommons.columbia.edu/doi/10.7916/D8DN45BC

STEWART, Gary. Rumba on the river: a history of the popular music of the two Congos. New York: Verso, 2000.


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Legenda: Berni Searle

Fonte: Archives of Women Artists Research & Exhibitions. Disponível em: https://awarewomenartists.com/en/artiste/berni-searle/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Berni Searle (1964)

Nascida na cidade do Cabo, África do Sul, filha de Bernard e Grace Searle, pertence a uma família de pessoas mestiças, originárias das Ilhas Maurício, Arábia Saudita, Inglaterra e Alemanha, o que a classificava como “pessoa de cor” (colored) durante a legislação do Apartheid.  Estudou artes e tecnologias na Peninsula Technikon, Michaele School of Fine Arts e na University of Cape Town, onde obteve o bacharelado em 1987 e diploma na área de educação em 1988. Nos anos seguintes se especializou em escultura, com mestrado em Belas Artes pela University of Cape Town, e passou a viver com os recursos obtidos de sua atividade artística.

Berni Searle trabalha com fotografia, vídeo e filme e é professora na Michaelis School of Fine Art, da university of Cape Town. Trabalha com estruturas abstratas e volumosas em cimento, aço, arame, bronze e vidro, com fotografia digital, e é conhecida por utilizar o próprio corpo em suas peças para destacar a agência corporal, bem como construir e desconstruir identidades em torno de raça e gênero. 

 Na série de criações Color Me (Minha cor), realizadas de 1998 a 2000, ela descreve e adorna o próprio corpo com diferentes especiarias coloridas, criando impressões em tamanho real. As especiarias fazem alusão às classificações raciais impostas pelo Apartheid, e também são uma referência à escravidão no passado da África do Sul. Muitos trabalhos da série Color Me também apresentam ferramentas de medição para indicar o olhar colonial e pseudocientífico sobre corpos negros.  Seu trabalho lida com a História da África do Sul, com a consciência da cor da pele e o consumo do corpo das mulheres como mercadoria, e o poder deste mesmo corpo em que residem tantos mitos, desejos e projeções.

Sua obra tem sido exposta em mostras internacionais na África, Europa e América, como na Bienal de Veneza (2001, 2005), no Victoria and Albert Musem, Londres (2011), National Museum of Arts, Nova Iorque (2010), tendo recebido diversas premiações.

BIBLIOGRAFIA

ARNOLD, Marion. “Berni Searle”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 309-310.

COOMBES, Annie. History after Apartheid: visual culture and public memory in a democratic South Africa. Durham: Duke   University Press, 2003.

SCHMAHMANN, Brenda.  Through the looking glass. Johannesburg: David Krut, 2004.


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Legenda: Bertina Lopes | Cortesia Archivio Bertina Lopes (Maputo/Lisbona/Roma) & Roma Centro Mostre

Fonte: Archivio Bertina Lopes. Disponível em: http:// www.archiviobertinalopes.net/index.php? page=doc_big.php&id=167. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Bertina Lopes (1924 -2012)

Pintora e escultora moçambicana, nasceu em Lourenço Marques (atualmente Maputo), de pai português e mãe africana. Realizou o estudo primário na escola colonial e depois passou a ser educada em Portugal, onde recebeu o diploma em pintura e escultura.

Em 1953, retornou a Moçambique e ensinou em uma escola técnica até 1962. Ela influenciou a poesia de Noémia de Sousa, era amiga de José Craveirinha, Rui Nogar, e outros ativistas, e desde cedo incorporou temas sociais em suas obras de arte. Casou-se com o poeta Virgílio de Lemos, o pai de seus filhos. Viajou à Portugal para estudar cerâmica com uma bolsa de estudos da Fundação Calouste Gulbenkian, mas devido ao aumento da intransigência do colonialismo português nos anos 1960, preferiu permanecer no exílio, mudando-se para Roma, onde residiu até seu falecimento.

Ela foi uma das primeiras artistas moçambicanas, junto com Malangatana, a incorporar abordagens modernas da arte em suas pinturas. Elas são conhecidas por evocar o passado africano através de cores vibrantes e estilo marcante, que frequentemente inclui figuras abstratas como máscaras. Um exemplo é o retrato de uma mulher, Fanisse era minha avó, uma colagem que ela fez em 1967 em homenagem a um poema de Craveirinha.

Sua primeira exibição internacional foi em Roma (1969) e desde então sua arte foi exposta internacionalmente em Angola, Brasil, Cabo Verde, Estados Unidos, Alemanha, Rússia e muitos outros países. Foi premiada pela primeira vez em âmbito internacional pelo Centro Internacional de Arte e Cultura Mediterrânea, localizado em Corfu (1975).

Bertina voltou a Moçambique após a independência do país, expondo suas obras no Museu Nacional de Arte, em Maputo.

Nos últimos anos de vida pintou imagens mais abstratas, como As luzes e as chaminés das fábricas”, uma série de marrom, amarelo, vermelho e outras cores feita em um formato entremeado (1988). Também começou a criar esculturas em bronze de figuras humanas e de máscaras africanas reimaginadas. Em 2002 em Roma, uma exibição de sua arte, intitulada Fragmentos de terras distantes, comemorou o décimo aniversário do acordo de paz que encerrou o conflito em Moçambique.

Bertina foi agraciada em 1988 com o Grand Prix d’Honneur da União Europeia de Críticos de Arte; em 1991, com o Prêmio Mundial da Fundação Rachel Carson Memorial, e em 1998, com o prêmio internacional de arte La Pleiade.

BIBLIOGRAFIA

CRESCENTINI, Cláudio. Bertina Lopes: arte e antagonismo. Roma: Erreciemme, 2017.

RHANDZARTE. “Bertina Lopes”. In: IDEM. 9 artistas de Moçambique. Comissariado Geral de Moçambique para a Exposição de Sevilha, 1992, p. 14-22.

SCHROTH, Mary Angela; Capricciol, Francesca. Bertina Lopes. Nka: Journal of Contemporary African Art, n. 3, p. 18-21, 1995: https://muse.jhu.edu/article/422450/pdf

SHELDON, Katleen. “Bertina Lopes”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 518.


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Legenda: Beryl Markham | Agence de presse Meurisse

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Beryl_Markham_1936.jpg. Acesso em: 15 de dez. de 2020.

Beryl Markham (1902-1986)

Personagem feminina com trajetória precursora no Quênia: foi treinadora de cavalos, pilota de avião e escritora das memórias de suas aventuras. Nasceu na Inglaterra e aos dois anos sua família (pai, mãe e irmão mais velho) foram morar no Quênia, à época sob domínio britânico, atendendo à demanda do governo em estabelecer o assentamento de brancos no território. Sua vida ilustra as possibilidades em privilégios reservados às mulheres brancas vinculadas ao colonialismo que viveram no continente africano.

Sua autonomia emocional marcante se desenvolveu cedo com o “abandono” de sua mãe, que logo voltou à Inglaterra com o irmão, como ela descreve em uma de suas memórias. Assim seu laço com o pai intensificou e Beryl aprendeu a domar cavalos. Um dos destaques de sua carreira foi a vitória de um potro que ela havia cuidado de ferimentos anteriormente, na corrida de St. Leger, um clássico circuito queniano na época.

Em 1930 ela começou a aprender a pilotar, apesar dos perigos (pouco acesso à manutenção mecânica, território inóspito e longas distâncias), sua natureza intrépida a tornaram uma das melhores pilotas comerciais e guias de safári do Quênia.

Se sua vida profissional são emblemáticas por conta do desprendimento aos papeis femininos, sua vida particular não foi diferente: casou-se três vezes, mas seus casamentos foram apimentados com envolvimentos emocionas e infidelidade conjugal. Ela teve um filho de seu segundo casamento, mas logo após se separarem a criança foi criada pela família do ex-marido, os Mansfield. Sua renomada beleza física e sensualidade contribuíram para sua reputação como mulher capaz de buscar seu próprio prazer.

Beryl Markham realizou um feito extraordinário ao cruzar o Atlântico pilotando sozinha o avião, tornando- uma celebridade, e inclusive chegando a participar de um filme de Hollywood, Safari, em 1941. Sua fama tornou a vida itinerante, tendo ficado cerca de vinte anos se mudando entre os Estados Unidos, as Bahamas e a Inglaterra. Depois de se separar do último marido, ela voltou ao Quênia para treinar cavalos, obtendo ainda maior sucesso.

Em suas memórias e depoimentos, Beryl sempre reafirmou sua condição africana.  Mesmo sendo um símbolo de liberdade para muitas mulheres, a sua liberdade como mulher branca não deve ser desvinculada do contexto colonial, com a desapropriação das terras e a exploração do trabalho dos africanos nativos.

BIBLIOGRAFIA

BOOKMAN, Ariel. “Beryl Clutterbuck Markham”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 111-113.

LOVELL, Mary S.. Straight on till morning: the biography of Beryl Markham. Nova Iorque: St. Martins Press, 1987.

MARKHAM, Beryl. West with the night. San Francisco: North Point Press, 1983.

TRZEBINSKI, Errol. The livres of Beryl Markham: out of Africa’s  hidden free spirit and Dennis Finch Hatton’s last great love. Nova Iorque: W. W. Norton, 1993.


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Legenda: Bessie Head

Fonte: HODDER, Kevin. Bessie Head. BlackPast. 03 de dez. de 2011. Disponível em: https://www.blackpast.org/global-african-history/head-bessie-1937-1986/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Bessie Head (1937-1986)

Escritora sul-africana. Nasceu na cidade de Pietermaritzburgo, na instituição para doentes mentais Fort Napier. Sua mãe, internada, era branca e o pai, cujo nome se desconhece, era negro. Foi entregue a uma família adotiva que a devolveu devido a cor da pele e o cabelo crespo, e a seguir foi reentregue a uma família pobre e miscigenada em Durban. Quando ela fez quatorze anos descobriu a verdade sobre o seu nascimento e essa descoberta a assombrou pelo resto da vida.

Bessie Head passou seus primeiros anos de vida em Durban, fez treinamento para ser professora, mas acabou se tornando uma repórter no Golden City Post. Lá, conheceu o escritor Harold Head, com quem se casou (1962) e teve um filho, Howard (1963). Eles se separaram em 1964, ano em que se mudou para Botswana, país em que passou a viver.

Ela se envolveu com política e foi fortemente atacada por Robert Mangaliso Sobukwe e o Pan-Africanist Congress (Congresso Pan-africanista). Foi presa em 1960 por ligação com uma organização subversiva, mas o caso foi encerrado. Retomou a atividade política desvinculada de instituições e partidos, convencida de que todo partido político reproduz a mesma estrutura de poder repressivo.

O primeiro romance de Bessie Head foi The Cardinals (Os cardeais), publicado postumamente em 1993. Conta a história de Mouse, uma jovem que trabalha no jornal de Cape Town e deseja ser escritora, numa primeira tentativa de moldar sua autobiografia de modo produtivo e criativo.

É difícil avaliar o impacto do trabalho de Head, em partes porque a crítica demorou a desenvolver interesse por ela com foco principal na trilogia formada por When Rain Clouds Gather (Quando as nuvens de chuva se juntam) (1968), sobre uma comunidade utópica formada por exilados e forasteiros, ameaçada pelas autoridades locais em Botswana. Em Maru (1971), a protagonista, Masarwa, uma mulher fora de seu grupo de origem, vive as pressões exercidas pela classe alta de Botswana. O livro expressa o choque sofrido por Head ao presenciar como os brancos subjugavam os negros, e como os negros subjugavam outros negros, reproduzindo os padrões de distinção étnico-racial.  Quanto ao romance Question of power (Questão de poder) (1974), indubitavelmente a sua obra mais complexa, a ficção se passa em dois níveis, simultaneamente na mente e na vida “real” da protagonista.

Sua obra ganhou maior atenção da crítica especializada nos anos 1990, sobretudo devido à dimensão psicológica de seus personagens e a diversidade de perspectivas nela contidas. Nelas, sobretudo em Question of power, confluem problemas inerentes às relações sociais, relações de gênero, aspectos psicológicos, históricos e dilemas éticos e moais profundos. Por isso mesmo, em conjunto trata-se de uma obra que resiste a qualquer categorização, ao tratar de aspectos humanos profundos como os ideais de humanidade, justiça e igualdade.

BIBLIOGRAFIA

EILERSEN, Gillian Stead. Bessie Head: thunder behind her ears: her life and writing. Johannesburgo: Witwatersrand University Press, 2007.

LEDERER, Mary (Ed.). The life and Works of Bessie Head: a celebration of the seventieth anniversary of her birth. Gaborone: Pentagon Publishers, 2008.

LEWIS, Desiree. Living on a horizon: Bessie Head and the politics of imagining. Trenton; Asmara: African World Press, 2007.

LEDERER, Mary. “Bessie Emery Head”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 50-52.


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Legenda: Mulher rica do Senegal

Fonte: The New York Public Library. Disponível em: https://digitalcollections.nypl.org/ items/510d47da-6ff0-a3d9-e040-e00a18064a99. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Betsy Heard (1759-1810)

Comerciante, conhecedora da medicina tradicional africana e mediadora política nascida na região de Conacri, na Guiné. Também conhecida como Elizabeth, Beth, e Liza Heard. Seu pai foi um comerciante britânico das casas comerciais estabelecidas em Bance Island, no Rio de Serra Leoa ou perto das Îles de Los. A identidade de sua mãe, nascida na África, é desconhecida. Quando jovem sua excepcional inteligência foi logo reconhecida e ela foi enviada a Liverpool para ser educada e retornar com formação adequada para atuar como agente dos comerciantes e interesses britânicos.

Por volta de 1790 ela se estabeleceu como comerciante em Bereira, no sul de Conacri. Por ser mulher, não podia atuar como líder em certas partes da cidade, mas ainda assim exerceu certo controle efetivo dos negócios no principal porto da cidade que estava interligado ao comércio do Atlântico. Ela manteve sua casa comercial e negócios no estilo britânico, e comercializava todos os produtos e bens africanos, incluindo escravos – enquanto o tráfico permanecia legalizado. Era responsável por interpretar e mediar disputas que afetavam o comércio, além de conduzir as visitas a Bereira. Ela também era respeitada por seu conhecimento da medicina tradicional africana.

Na década de 1810, sua influência era considerável entre os africanos locais e os europeus que desejavam interagir com os povos costeiros. Ela recebia, com frequência, emissários do interior da África com presentes de chefes e reis, provavelmente devido a seu trabalho comercial no Atlântico. Oficiais da companhia de Serra Leoa (1789-1808), da colônia de Serra Leoa (depois de 1808) e missionários (depois de 1804) recorreram a ela para estabelecer contatos e negociações.

Betsy Heard aparentemente nunca se casou, nem teve descendentes.

BIBLIOGRAFIA

MOUSER, Bruce L. Women slavers of Guinea-Conakry. In: Robertson, Clair C.; KLEIN, Martin (Eds.). Women and slavery in Africa. Madison: University of Wisconsin Press, 1983, p. 320-339.  

MOUSER, Bruce L. (Ed.). Guinea journals: journeys into Guinea-Conakry during the Sierra Leone Phase, 1800-1821. Washington: University Press of America, 1979.

MOUSER, Bruce. “Betsy Heard”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 53.


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Legenda: Bi Kidude

Fonte: Blog Dira Yetu: Freedom of Press. 18 de abr. de 2013. Disponível em: http:// dirayetu.blogspot.com/2013/04/bikidude-old-as-my-tongue.html. Acesso em: 13 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Curandeiras

Bi Kidude (1920-2013)

Nome pelo qual é mais conhecida Fatuma Binti Baraka, que foi cantora taarab, baterista, e curandeira nas áreas urbanas da ilha de Zanzibar, na África oriental. Seus pais haviam migrado das ilhas da região de Kilwa, litoral da Tanzânia.  Nascida em data incerta na década de 1920, cresceu na área suburbana  de Ng’ambo. Desde cedo mostrou interesse pelas canções em estilo taarab, um gênero de poesia cantada com acompanhamento musical surgido em Zanzibar no século XIX. Um de seus tios, Buda Suwedi, foi membro do grupo Siti Bint Saadi e era naquela época um dos mais populares cantores da ilha. Foi com ele que ela começou a cantar, quando tinha cerca de dez anos. Ela passava muito tempo na área portuária ouvindo canções árabes e aprendendo a tocar o dumbak (tambor) dos marinheiros Latubi.

 Bi Kidude se casou em meados da década de 1930 e se estabeleceu no continente, onde vivia nas dependências do clube de música egípcia, um das principais orquestras taarab  de Dar es Salaam, na Tanzânia, onde viveu por volta de nove anos.

Retornou a Zanzibar na década de 1950, deixando de cantar por algum tempo, quando, seguindo o conselho de um tio, passou lidar com plantas medicinais e a praticar fitoterapia. Valendo-se dos conhecimentos da tradição msondo, compartilhados por membros de sua família, ganhou respeitabilidade como curandeira e passou a ser uma das mais procuradas praticantes dos ritos de iniciação feminina unyago, que somente é realizado em segredo e isolamento. Os ensinamentos incluem tópicos sobre higiene sexual e educação sexual, comportamento apropriado entre marido e esposa, gravidez, e parto. Ela também cantava taarab, ocasionalmente, como membro de os clubes exclusivamente femininos de taarab,  como o Sahib el-Ary. Foi quando fazia parte desse clube que Bi Kidude começou a chamar atenção do público nacional e internacional.

Nos anos 1980, o ministério da cultura do Zanzibar estava procurando por alguém que cantasse o antigo repertório da época de Siti Bint Saadi e que pudesse preservá-lo. Ela foi convidada para atuar como vocalista de algumas das mais importantes orquestras taarab, como a Culture Musical Club. Quando a GlobeStyle Records veio a Zanzibar em 1988 para gravar músicas das orquestras taarab,  sua qualidade vocal foi reconhecida e ela passou a receber convites para gravar e se apresentar em  espetáculos na Europa e Japão (1989-1991).

Na metade dos anos 1990 Bi Kidude fez uma turnê pelo Reino Unido com a Banda de Jazz Shikamoo, de Dar es Salaam; a partir daí apresentou-se como convidada especial junto ao conjunto Culture Musical Club. Participou do Festival Sauti ya Busara de Zanzibar, na Europa, e nas Ilhas Reunião, e anos mais tarde recebeu o  Prêmio Womex World Music Award (2005) como uma das embaixadoras da África e da Música Africana.

Sua carreira foi retratada em dois filmes documentários de Andy Jones: As old as my tongue (2008) e I shot Bi Kidude (2012). Este último filme retrata o sequestro dela por um homem que se dizia seu sobrinho e que queria protegê-la da exploração financeira e abuso. Ela foi de fato mantida como refém em uma casa durante algum tempo, e morreu alguns meses depois desse episódio, com 103 anos de idade . Em uma de suas últimas entrevistas, disse: “A Música é  minha vida. Se eu parar de cantar, como esperam que eu sobreviva?”

BIBLIOGRAFIA

GRAEBNER, Werner. “Fatuma Binti Baraka”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 361-362.

JONES, Andy (Dir.). As old as my tongue: the myth and life of Bi Kidude [DVD]. Newcastle: Screen Station Productions, 2008.

LEVIN, Adam. The mysteries of a winkling star (Bi Kidude). Style, p. 86-91, 1998.

SHAILJA, Patel. Drum rider: a tribute to Bi Kidude. Windhoek, v. 18, n. 5-6, p. 3-37, 2006.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:

Bibiana Vaz (c. 1620-1694)

Poderosa comerciante e liderança influente na antiga Guiné-Bissau. Nasceu e viveu nas primeiras décadas de existência da cidade de Cacheu, que era o porto de acesso aos negociantes portugueses e cabo-verdianos na Alta Guiné.

Filha de pai português ou cabo-verdiano e mãe de origem étnica papel ou banhun, era a mais velha de três irmã(o)s e cresceu em uma família de negociantes. Era conhecida como NháBibiana – forma de tratamento equivalente a “Sinhá”, “Senhora” ou Dona, correspondente ao designativo de “Signares” para as mulheres negociantes do Senegal desde aquela época.   

Bibiana fazia parte da comunidade Kriston, que venera o seu nome até os dias atuais, e negociava escravizados, cera de abelha, marfim, couro e noz-de-cola em troca de mercadorias como barras de ferro, armas de fogo, pólvora, conhaque e contas de vidro.

Seu marido foi um dos fundadores da empresa comercial conhecida como Companhia de Cacheu, fundada em 1676, e após a morte dele, Bibiana expandiu os negócios usando seus contatos com europeus, cabo-verdianos, dignitários papéis e banhuns. Apesar dos protestos de seu enteado, ela conseguiu obter direitos exclusivos de gerir os bens do marido, incluindo a sua parte na Companhia.

Quando em 1684 o governador português de Cacheu Gonçalves de Oliveira, proibiu o contato e o comércio com rivais europeus dos portugueses, Bibiana liderou uma rebelião que o depôs e o manteve aprisionado em uma de suas propriedades durante quatorze meses. Enquanto isso, três de seus aliados assumiram o poder na cidade, inclusive um seu irmão, que exigiu os bens da extinta Companhia e bloqueou aos portugueses o comércio direto com africanos.

Com a autoridade portuguesa restabelecida, Bibiana e seu irmão foram aprisionados e levados para a cidade de Ribeira Grande, a capital das ilhas do Cabo Verde, em 1687, seus bens ficaram bloqueados. As autoridades propuseram um acordo que a obrigava a financiar a reconstrução do forte de Cacheu, enquanto seu irmão ficava preso como garantia; Vaz, porém, alegou não estar em boas condições de saúde para ajudar o irmão e obteve o perdão real para ambos. Posteriormente, ela aceitou fazer um pagamento em espécie para tais construções, mas não se sabe se cumpriu com a promessa antes de sua morte.

BIBLIOGRARIA

HAVIK, Philip J. Silences and soundbytes: the gendered dynamics of trade and brokerage in the pre-colonial Guinea-Bissau region. Münster: LIT, 2004.

HAVIK, Philip J. La sorcellerie, l’acculturation et le genre: la persecution religieuse de l’Inquisition portugaise contre les femmes africaines converties en Haute Guinée (XVIIe siècle). Revista de Ciência das Religiões , v. 3, n. 5-6, p. 99-116, 2004.

HAVIK, Philip J.. Comerciantes e concubinas: sócios estratégicos no comércio atlântico da Costa da Guiné.  Revista Internacional de História da África, t. II,  pp. 161-179, 1996.

HAVIK, Philip. “Bibiana Vaz”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 119.


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Legenda: Bilkisu Funtuwa

Fonte: News Express Nigeria. NAWOJ describes Bilikisu Yusuf’s death unfortunate. 27 de set. de 2015. Disponível em: https://newsexpressngr.com/news/15674-NAWOJ- describes-Bilikisu-Yusufs-death-unfortunate-46?pr=99239&lang=en. Acesso em: 13 de dez. de 2020.

Bilkisu Funtuwa (1962)

Romancista nigeriana, nasceu na cidade de Funtuwa, no norte do país, onde atualmente reside em uma família poligâmica na qual ocupa a posição de esposa-sênior. Ela recebeu uma educação islâmica durante a adolescência.

Os romances de Funtuwa são parte de um corpo de literatura popular conhecido pelos falantes de hauçá como littatafan soyayya (livros de amor). A popularidade de suas obras, vendidas na cidade de Kano, gerou controvérsia no ambiente muçulmano conservador da sociedade hauça a que ela pertence.  Os enredos dos romances retratam as provações de namorados, amantes e casais conjugais, mas alguns deles não deixam de explorar temas sociais culturalmente controversos, como a poligamia, casamentos forçados e o purdah – a prática islâmica de reclusão feminina – e a afirmação feminina pela educação.

Ao contrário de outras produções similares, Funtuwa assume uma posição conservadora. Não se volta contra os casamentos forçados e considera que as mulheres sejam responsáveis ​​por sua própria miséria emocional quando cedem a sentimentos de frustração e ciúmes.  Suas personagens alcançam a libertação e assumem carreiras como advogadas, administradoras do governo e médicas, ao mesmo tempo em que levam vidas encantadoras como esposas de homens de negócios ricos.

Todos os seus romances lidam de perto com a kissa, que é a capacidade de despertar e excitar o interesse dos maridos. Na opinião de Funtuwa, a exibição de kunya (timidez) funciona contra o sucesso dos casamentos, pois  os maridos acabam voltando-se para relacionamentos extra-conjugais em busca de companheirismo e conversação. Nos dois volumes do romance Ki yarda da ni (Acredite em mim) (1997), a protagonista, Aisha, mostra-se resignada e abnegada na relação conjugal como primeira-esposa de Ismail, e sua aceitação da co-esposa garantem a harmonia da família poligâmica. Em certa ocasião chega mesmo a evitar que a outra seja repudiada pelo marido.

Talvez o componente mais agressivamente feminista da escrita de Funtuwa seja seu apoio inabalável à educação feminina. Em seus livros as mulheres sempre obtém a excelência acadêmica. No romance intitulado Wa ya san gobe (Quem sabe o que o amanhã trará (1997) a protagonista, Fati, obtém diversos diplomas universitários e coroa a ascensão profissional com a promoção ao cargo de assistente no Ministério da Educação.

Sob o guarda-chuva do feminismo islâmico hauçá, Bilkisu Funtuwa representa uma perspectiva conservadora. No entanto, continua a ser indiscutível que ela defende os direitos das mulheres através da valorização da educação feminina. Suas lições sobre como lidar com a confusão emocional decorrente da poligamia e dos casamentos forçados ajudaram inúmeros leitores(as) a melhorar a qualidade de suas vidas.

BIBLIOGRAFIA

WHITSITT, Novian. Islamic-hausa feminism  and a Kano market literature: Qur’anic reinterpretation in the novels of Balaraba Ramat Yakubu. Research in African Literatures, v. 33, n. 2, p. 119-136, 2002.

WHITSITT, Novian.  Kano market literature and the construction of hausa-islamic  feminism: a contrast in feminism perspectives of de Balaraba Ramat Yakubu e Bilkisu Ahmed Funtuwa. Thesis, Universidade de Wisconsin, 2000.

WHITSITT, Novian. “Bilkusu Funtuwa”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 401-403.


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Legenda: Binao

Fonte: Pinterest: Sumatra Witch. Disponível em: https://www.pinterest.com/pin/511369732673070247/. Acesso em: 21 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Binao (1867-1927)

Nome pelo qual é mencionada a rainha do povo Sakalava de Madagascar, governante a partir de 1881. Ela controlava um território relativamente pequeno na costa noroeste. Nos primeiros anos, enfrentou o desafio de fazer frente às pretensões do Reino Merina, o mais importante poder político de Madagascar.

Devido a essa concorrência interna, Binao aliou-se à França quando este país europeu invadiu as ilhas em 1883-1885, e depois apoiou a ocupação definitiva do território e o estabelecimento do protetorado francês nos anos 1894-1895, que levou ao exílio de Ranavalona III. 

Ela apoiou a intervenção francesa, mas algum tempo depois entrou em conflito com os colonizadores devido à exigência de trabalho forçado da população e à proibição de rituais tradicionais.  Por isto, foi derrubada do poder, sendo substituída pelo seu meio-irmão Amada, que manteve o título de rei, porém sem autoridade de fato, até 1963.

BIBLIOGRAFIA

LOMBARD, Jacques. Le royaume sakalava du Menabe: essai d’analyse d’un système politique à Madagascar. Paris: Editions de l’ORSTOM, 1988.


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Legenda: Bolanle Awe

Fonte: Naija Avenue. St Anne’s School, Ibadan: The First Girls Secondary School In Nigeria Celebrates 150 Years. 16 de out. de 2019. Disponível em: https://naijaavenue.com/st-annes-school-ibadan-the-first-girls-secondary-school-in-nigeria-celebrates-150-years/. Acesso em: 27 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Professoras universitárias

Bolanle Awe (1933)

Historiadora nigeriana, pioneira em pesquisa sobre a história das mulheres. Nasceu na cidade de Ilesha, no atual Estado de  Osun,  na então colônia britânica da Nigéria. O pai era gerente de uma grande empresa comercial e a mãe, professora.

Pertencente a um meio social refinado, estudou o primário em Ilesha e em Ibadan, e frequentou o secundário na CMS Girls’ School em Lagos (1946). Fez o curso de inglês, latim e história na Perse School for Girls, em Cambridge (1952-1954), e cursou o Mestrado em História na Univesidade de St. Andrews, na Escócia (1958), e o Doutorado na Universidade de Oxford (1964). Sua tese de doutorado, inédita, teve por título The rise of Ibadan as a yoruba power in the ninenteenth century (A ascensão de Ibadan como potência yoruba no século XIX).

Bolanle Awe ingressou no Departamento de História da Universidade de Ibadan em 1960, onde passou a pesquisar no Institute of African Studies (Instituto de Estudos Africanos), lecionou História Oral (1976) e assumiu cargos de direção (1983-1991).  Em 1985 fundou e presidiu o Women’s Research and Documentation Centre – WORDOC (Centro de Pesquisa e Documentação para Mulheres), primeiro setor especializado em pesquisa acadêmica e estudo sobre as mulheres na Nigéria.  Trabalhou nesta instituição universitária até 1998, quando solicitou sua aposentadoria.

Como pesquisadora, ela valorizou o estudo das tradições orais, tratando-as de acordo com metodologias apropriadas para o trabalho científico. Foi uma das fundadoras da International Federation for Research in Women’s History (Federação Internacional de Pesquisa em História da Mulher), que tem por objetivo destacar a contribuição até agora negligenciada das mulheres na história, sublinhando o seu papel no desenvolvimento da sociedade. Um exemplo neste sentido é o estudo dedicado à biografia da Iyalodê Efunsetan Aniwura, no livro Nigerian women in historical perspective (Mulheres nigerianas em perspectiva histórica) (1992). Aquela respeitada chefe até então era lembrada de modo muito superficial, e em torno dela pairava uma série de suposições sem fundamentação histórica. A pesquisa resgatou sua imagem, restituindo-lhe o papel que efetivamente teve no cenário político-social de Ibadan na segunda metade do século XIX. 

Indo além da pesquisa e da reflexão acadêmica, teve participação no movimento das mulheres e em iniciativas públicas para sua afirmação social. Foi a primeira secretária nacional da Nigerian Association of University Women (Associação Nigeriana de Mulheres Universitárias) (1962-1963), Secretária do National Council of Women’s Societies (Conselho Nacional das Sociedades de Mulheres) da Região Oeste (1971-1973).  Na década de 1990, presidiu a Nigerian National Commission for Women (Comissão Nacional da Nigéria para as Mulheres) (1990-1992), que serviu de base inicial para o atual Ministério de Assuntos da Mulher e Desenvolvimento Social. Também dirigiu a John D. and Catherine T. MacArthur Foundation, fundação norte-americana dedicada ao apoio da saúde reprodutiva e direitos das mulheres, e ao desenvolvimento do ensino superior nigeriano.

Ao fim de uma carreira acadêmica de prestígio, Bolanle Awe ocupou cargos de distinção na estrutura universitária nigeriana, participando de diversas comissões, conselhos e funções na administração central.  Ela é casada com Muyiwa Awe, que é professor emérito de Física na Universidade de Ibadan, tendo com ele filhos e netos.

BIBLIOGRAFIA

AWE, Bolanle (Ed.).  Nigerian women in historical perspective.  Ibadan: Sankore Publishers; Bookcraft, 1992

AWE, Bolanle. Writing Women into History: The Nigerian Experience. In: Offen, K., Pierson, R.R.; endall, J. (Eds.). Writing women’s history. Londres: Palgrave Macmillan, 1991, p. 211-230.

FALOLA, Toyn; ADERINTO, Saheed. Nigeria, nationalism, and writing history. Rochester: University of Rochester Press, 2010.  

OYENIYI, Adeyemi Bukola. “Bolanle Awe”.  In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 300-301.


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Legenda: Bourkou Louise Kabo

Fonte: Overblog. Hommage A Bourkou Louise Première Tchadienne Députée. 19 de jun. de 2019. Disponível em: http://www.makaila.fr/2019/06/hommage-a-bourkou-louise-premiere-tchadienne-deputee.html. Acesso em: 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Repressão Sexual

Bourkou Louise Kabo (1934-2019)

Primeira mulher eleita para o parlamento do Chade, da etnia Sara, nascida na cidade de Sarh. Seus pais, Kabo Koutou Kilagui e Zara Lawassi, ambos muçulmanos, morreram muito cedo e, aos oito anos ela ficou órfã.

Com dos tios, teve uma educação francesa e, desde jovem, conviveu com as injustiças coloniais, contra as quais teve a tia como exemplo de resistência. Por sua família ser apoiadora do Partido Progressista Chadiano – PPT, foi impedida de estudar na França pelo partido governante. Assim mesmo foi a primeira mulher chadiana a lecionar numa escola que tinha o francês como idioma de ensino. Teve um curto casamento com Julien Djasgaral, com quem teve sete filhos.

Bourkou Louise entrou na política pelo PPT no início dos anos 1960. François Tombalbaye, primeiro presidente do Chade independente, também Sara, era um conhecido de longa data, e incentivou-a a concorrer por uma cadeira no Parlamento em 1962. Foi eleita e manteve-se leal ao PPT mesmo após Tombalbaye dissolver o parlamento numa de suas medidas autoritárias. Promoveu programas de educação para mulheres do Chade, principalmente das áreas rurais, e casou-se com Alphonse Ndoyengar Nodjimbang, Secretário de Educação de Tombalbaye.

Nos anos 1970, Kabo passou a divergir de uma série de medidas autoritárias de Tombalbaye, mas continuou a trabalhar no Ministério da Educação mesmo após o assassinato do presidente em 1975. Quando Hissène Habré tomou o poder em 1982, Kabo fugiu para a República Centro-Africana, onde foi comerciante e diretora de escola. Refugiou-se na França em 1987, onde aproximou-se da causa das pessoas com deficiência.

Retornou ao Chade em 1991, após a queda de Habré. Foi delegada da convenção constitucional e deputada de 1991 a 1995, quando condenou a mutilação genital feminina e defendeu a idade mínima de dezoito anos para o casamento, de modo a evitar casamentos arranjados de meninas.

BIBLIOGRAFIA

AZEVEDO, Mario Joaquim. Roots of violence: a history of war in Chad. Sydney: Gordon and Breach, 1998.

BANGOURA, Mohamed Tétémadi. Violence politique et conflits en Afrique: le cas du Tchad. Paris: L’Harmattan, 2005.

RICH, Jeremy. “Bourkou Louise Kabo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 250-251.

TUBIANA, Marie-José. Parcours de femmes: les nouvelles élites, Entretiens: 1997-2003. Paris: Sépia, 2004.


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Legenda: Brenda Fassie

Fonte: The Legacy Project. Disponível em: https://legacyprojectchicago.org/person/brenda-fassie. Acesso em: 19 de jan. de 2021.
Palavras-chave:

Brenda Fassie (1964-2004)

Nascida em Langa, uma township, comunidade ocupada por negros(as) na Cidade do Cabo, era a mais nova de nove filhos, e recebeu o nome em homenagem a Brenda Lee, uma cantora country americana.  Sua primeira apresentação bem um palco ocorreu quando ela tinha quatro anos de idade, com a líder dos Tiny Tots. 

Na adolescência, frustrada pela falta de oportunidade local, fugiu de casa e foi para Johanesburgo, no bairro de Soweto, juntando-se a uma trupe musical dirigida pelo dramaturgo e produtor Gibson Kent, e depois trabalharia nesta mesma cidade com o Koloi Lebona (1979).  A carreira de cantora de Fassie começou a sério quando ela se tornou a vocalista principal  da banda The Family, que depois foi renomeada para Brenda and the Big Dudes (1983),  lançando seu single de sucesso Weekend Special, que vendeu mais de 200 mil cópias. Na metade da década teve um filho, Bongani, com um colega músico Big Dudes e se envolveu com o ex-presidiário Nhlanhla Mbambo entre  1989-1991.  Por esta época teve problemas com o consumo de drogas que afetaria temporariamente sua carreira artística.

Após ter se recuperado dos problemas de saúde, voltou a alcançar sucesso com o álbum Now is the Time (1996), que inclui duas faixas em colaboração com o superstar soukous congolês Papa Wemba.  Já o álbum Paparazzi (1997), contém canções cujo estilo varia desde o kwaito a slow groove  e jazz africano. Em 1998 Memeza foi o primeiro álbum sul-africano a alcançar o disco de platina no primeiro dia do lançamento, e lhe deu o Prêmio da Música Sul Africana (SAMA) e o Kora Award. Suas canções alcançaram as camadas mais pobres da população, onde ela gozava de grande popularidade.

Porém, o envolvimento com drogas gerou grande instabilidade nos últimos anos de vida, quando ela passou cerca de trinta vezes por clínicas de reabilitação, até ser internada em virtude de um colapso decorrente de overdose.

BIBLIOGRAFIA

ALLEN, Lara. Brenda Fassie. Bright Consuming Flame. South African Labour Bulletin, v. 30, n. 4,  p. 70-72, 2006.

ALLEN, Lara. “Brenda Fassie”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p.  355-356.

NORTJÉ, Nico; Fouché, Paul; GOGO, Odwa. The neo-adlerian holistic wellness of Brenda Fassie: a psychobiography. Online Journal of African Affairs, v. 2, n. 3, p. 46-53, 2013.


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Legenda: Buchi Emecheta

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/ File:Florence_Onyebuchi_%22Buchi%22_Emecheta_OBE_died_2017.png. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Buchi Emecheta (1944-2017)

Romancista nigeriana,nasceu com o nome de Florence Onyebuchi Emecheta, nas proximidades de Lagos, Nigéria, de uma família de origem étnica igbo. Ela foi educada no primário em uma escola batista e no secundário em uma escola metodista para meninas em Lagos. 

Casou-se em 1960 com Sylvester Onwordi eles tiveram dois filhos antes de irem trabalhar na Inglaterra (1962), e depois ela teve mais três filhos. Separada em 1966, começou a carreira de escritora conjugando a educação dos cinco filhos e os estudos na Universidade de Londres, onde obteve o diploma de bacharelado em Sociologia (1974), o mestrado (1976) e o doutorado em Educação (1991).

Em seu primeiro romance, In the ditch (No fundo do poço) (1972), em que retrata suas experiências como imigrante, resulta de uma série de artigos que ela publicou no jornal The New Statesman. Seus mais de vinte livros tratam em geral das pressões sociais sobre as mulheres africanas. The joys of motherhood (As alegrias da maternidade) (1979), com seu título irônico, costuma ser utilizado como material de apoio para discutir na escola o peso das expectativas da tradição sobre as mulheres e as mudanças introduzidas pelo colonialismo. Em obra mais recente, Kehinde (1994), o enredo gira em torno de uma mulher que, depois de morar em Londres por dezesseis anos, é obrigada a voltar à Nigéria acompanhando o marido. Os conflitos daí resultantes em suas vidas refletem as experiências de muitas mulheres da diáspora africana moderna.

Emecheta trabalhou no Museu Britânico na década de 1960, e atuou como jovem trabalhadora para a Inner London Education Authority nos anos 1970.  Depois que os seus livros se tornaram bem-sucedidos ela deu aulas em diversos lugares, inclusive na Universidade do Estado da Pensilvânia, na Universidade de Rutgers e na Universidade da Califórnia, na Universidade de Los Angeles e de Illinois, entre outras.  Ela foi premiada com a Ordem do Império Britânico em 2005.

BIBLIOGRAFIA

FISBUN, Katherine. Reading Buchi Emecheta: cross cultural conversations. Westport: Greenwood Press, 1995.

SHELDON, Katleen. “Buchi Emecheta”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 298-299.

UMEH, Marie. Emerging perspectives on Buchi Emecheta. Trenton: Africa World Press, 1996. 


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Legenda: Cabra Casay

Fonte: Alchetron. Disponível em: https://alchetron.com/Cabra-Casay#cabra- casay-1d1666b5-442a-4775-ab9d-ac86d5483d8-resize-750.jpeg. Acesso em: 21 de dez. de 2020.

Cabra Casay (1982)

Nascida em um campo de refugiados no Sudão, é originária da comunidade falasha, os judeus da Etiópia. Ela foi levada ainda criança para Israel pela Operação Moisés, quando tinha pouco mais de um ano de idade.

Adotada por uma família israelense, morou primeiro na comunidade de Ma’alot-Tarshiha, e depois em Kiryat Malakhi, onde cresceu.  Aos 18 anos, Cabra Casay prestou o serviço obrigatório, e durante esse período conheceu Idan Raichel, e junto com ele começou a se apresentar como cantora.

Participou do programa Kochav Nolad (a versão israelense do American Idol), onde se tornou conhecida e alcançou o sucesso em 2002.   Ela é conhecida por combinar em suas músicas em estilo pop técnicas vocais árabes e etíopes, da cultura amhara.

BIBLIOGRAFIA

CASAY, Cabra. Beyne: https://www.youtube.com/watch?v=kach92F–uU

WEIL, Shalva. Ethiopian jewish women: trends and transformations in the context of transnational change. Nashim: a journal of jewish women’s studies & gender issues, n. 8,  p. 73–86, 2004.


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Legenda: Caddy Adzuba Furaha | MONUSCO Photos

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Caddy_Adzuba_r%C3%A9cipiendaire_du_Prix_Prince_des_Asturies_pour_la_Concorde.jpg. Acesso em: 21 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Direitos Humanos Jornalistas

Caddy Adzuba Furaha (1981)

Nascida em Bukavu, República Democrática do Congo. É licenciada em Direito pela Universidade Oficial de Bukavu (2005)  e membro-fundadora da rede Un altavoz para el silencio (Um altofalante para o Silêncio)  – projeto financiado pela Fundação Euro-Árabe.

Caddy atua como jornalista na Rádio Okapi, uma emissora vinculada à ONU no Congo que é transmitida por todo o território do país.  Ela é membro da East Congo Media Women’s Association  (Associação de Mulheres de Meios de Comunicação do Leste do Congo), através da qual  denuncia perante o Tribunal de Justiça Internacional e ao Senado dos Estados Unidos a  violência sexual de que sofrem as mulheres da República Democrática do Congo e as crianças vitimadas pelo constante estado de guerra.

O seu ativismo social tem amplo reconhecimento internacional: ela ganhou o prêmio internacional de jornalismo Julio Anguita Parrado em 2009, o prêmio Principe de Asturias (2014)  e foi distinguida com o título de Doutora Honoris Causa pela Universidad Autonoma de Barcelona (2019). Por outro lado, devido às denúncias sofreu dois atentados contra a sua vida e diversas ameaças de morte.

BIBLIOGRAFIA

MANGWANDA, Lusegu Mylene. A cry for justice: the lack of accountability for perpetrators of sexual violence against women in the Democratic Republic of Congo. Dissertation (Master of Philosphy), University of Pretoria, Pretoria, 2017: https://repository.up.ac.za/handle/2263/64622

PUECHGUIRBAL, Nadine. Women and war in the Democrtic Republico of the Congo. Journal of Women in Culture and Society, v. 28, n. 4, p. 1271-1281, 2003.


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Legenda: Calixthe Beyala | Pascalito / Editorial Albin Michel

Fonte: Wiriko. Beyala está de vuelta. 04 de jun. de 2014. Disponível em: https://www.wiriko.org/letras-africanas/beyala-esta-de-vuelta/. Acesso em: 21 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Romancistas

Calixthe Beyala (1961)

Escritora camaronesa de origem cultura Eton, nasceu em Sa’a. Foi educada na École Principale du Camp Mboppi, em Douala, e depois  frequentou o Lycée des Rapides, em  Bangui,  e o Lycée Polyvalent, em  Douala. Aos dezessete anos obteve uma bolsa de estudos para estudar em Paris, que lhe permitiu realizar o curso   universitário.  

Fortemente influenciada pela tia e avó, que lhe contavam estórias tradicionais que a inspiraram a seguir carreira como escritora. Aos vinte e três anos lançou o seu primeiro livro na Espanha, com o título de C’est le soleil qui lui brûlée (Foi o sol que o queimou), e decidiu dar continuidade a uma obra romanesca de grande reconhecimento internacional e várias premiações. Entre sua vasta lista de obras estão Maman a un amant (Mamãe tem um amante) (1993), que lhe rendeu o Grande Prêmio de Literatura Black África, e Les honneurs perdus (As honras perdidas) (1996), ganhadora do Grande Prêmio do gênero romance pela Academia Francesa. 

BIBLIOGRAFIA

ASAAH, Augustine H..  Revers, révolte et réveil dans Tu t’appelleras Tanga de Calixthe Beyala. Présence Africaine, v. 161-162, n. 3, p. 253-268, 1999.

CAZENAVE, Odile. Calixthe Beyala and the politics of sexuality : the example of Assèze l’Africaine. Présence Africaine, v. 154, n. 2, p. 283-298, 1996.

HITCHCOTT, Nicki. “Calixte Beyala”.  In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 439-440.

SALÉ, Charles. Calixthe Beyala: analyse sémiotique de Tu t’appelleras Tanga. Paris: Harmattan, 2005. 


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Legenda: Carmen Pereira

Fonte: Rádio Vaticano. "Estou pronta para ir para a luta" - Carmen Pereira em 1961. 11 de jun. de 2016. Disponível em: http://www.archivioradiovaticana.va/storico/2016/06/11estou_pronta_para_ir_para_a_luta_- _carmen_pereira_em_1961_/pt-1236609. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Carmen Pereira (1937-2016)

Líder nacionalista da Guiné-Bissau, presidenta interina por dois dias em 1984.  Filha de um advogado, assim como as outras três irmãs frequentou a escola até a quarta série. Casou-se e teve três filhos, dois meninos e uma menina. Seu marido entrou para o movimento de libertação, fato que ela descobriu por acaso. Porém, seguiu seu exemplo e tornou-se ativa também no Partido Africano de Independência de Guiné e Cabo Verde – PAIGC em 1962.

Aos vinte e um anos Carmen foi para o exílio no Senegal junto com seus filhos, o mais novo não havia completado um ano. Ela conheceu Amílcar Cabral e foi encorajada por ele a dedicar-se em tempo integral ao movimento de libertação. Em 1963 foi para a União Soviética estudar enfermagem, retornou ao país em 1965, quando foi enviada ao interior, onde tornou-se responsável pelos assuntos de saúde e construiu o primeiro hospital nas zonas libertadas. 

No ano de 1967 Carmen Pereira foi nomeada pelo comitê executivo do PAIGC comissária política da região sul. Tornou-se líder destacada da luta de libertação, tanto que os portugueses bombardearam áreas em que acreditavam que ela estivesse vivendo e anunciaram recompensa por sua cabeça, mas ela continuou lutando e nunca foi presa. 

Após a Independência, continuou a exercer grande influência na vida política do país, era a única mulher no comitê executivo do PAICG e a principal liderança da Comissão de Mulheres da Guiné Bissau e Cabo Verde (1975-1981). Foi eleita vice presidenta da Assembleia Nacional Popular (1973-1984) e a presidiu de 1984 a 1989, quando deixou a posição para tornar-se membro do Conselho de Estado. Em maio de 1984 foi a chefe executiva do governo por dois dias. Ela foi Ministra da Saúde e Serviço Social (1981-1983) e Ministra de Estado (1991-1992). Carmen Pereira é a autora da frase “combatendo dois colonialismos”, em referência à dupla luta das mulheres guineenses pela independência e pelos próprios direitos: “as mulheres precisam lutar contra dois colonialismos: um dos portugueses, outro dos homens”.

BIBLIOGRAFIA

DAVIDSON, Basil. “No fist is big enough to hide the sky”: a report on the further liberation of Guiné. Socialist Register, v. 10, p. 285-301, 1973.

SARRAZIN, Chantal. In Guinea-Bissau: interview with Carmen Pereira. LSM News, v. 2, n. 3, p. 19-23, 1975-1976. Entrevista republicada em “Carmen Pereira: woman revolutionary”.  In: Gjerstad, Ole; SARRAZIN, Chantal (Eds.).  Sowing the first harvest: national reconstruction in Guinea-Bissau. Oakland: LSM Information Center, 1978.

SHELDON, Katleen. “Carmen Pereira”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 92-93.

URDANG, Stephanie. A revolution within a revolution: women in Guinea-Bissau. Somerville: New England Free Press, 1973.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:

Caterina Zenab (c. 1848-1921)

Nasceu na aldeia de Kic Dinka, em Gog, no Sudão, onde era filha de Manian e Agol, um chefe local. Foi levada por missionários católicos de Verona para a capital, Cartum, e para Shellal, no Egito, onde foi batizada com o nome de “Caterina” em 1860, e logo se tornou a primeira evangelista do povo Dinka, embora nunca tenha sido formalmente admitida como membro de qualquer ordem religiosa. 

Por sua grande habilidade no domínio das línguas dinka, árabe e italiano, ofereceu substantiva contribuição aos evangelizadores cristãos na preparação de livros de gramática, dicionário e catecismo escritos em dinka. Atuou nas escolas missionárias de Cartum a partir de 1867, casando-se primeiro com o carpinteiro italiano Cesare Ongano e depois da morte deste, em 1875 viveu maritalmente com o explorador austríaco Ernst Marno.

 No período do movimento mahdista, entre 1885-1898, que preconizava uma reforma radical muçulmana e fechou o país aos ocidentais, Caterina sobreviveu em um refúgio para cristãos em Cartum. Depois, prestou assistência às missões católicas do Cairo, onde atuou como intérprete, e posteriormente participou do trabalho missionário junto ao povo Shilluk, na região sudanesa do Nilo Branco.

BIBLIOGRAFIA

JOHNSON, Douglas H.. Divinity abroad: Dinka missionaries in foreign lands. In: JAMES, Wendy; JOHSON, Douglas H.. (Ed). Vernacular christianity: essais on the social anthropology of religion presented of Godfrey Lienhardt. Oxford: JASO, 1988, p. 170-182.

JOHNSON, Douglas H.. “Caterina Zenab”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 240-241.

SANTOS, Patrícia Teixeira. Fé, guerra e escravidão: Uma história da conquista colonial do Sudão (1881-1898). São Paulo: FAP-UNIFESP, 2013


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Legenda: Catherine Obianuju Acholonu

Fonte: Catherine Obianuju Acholonu. 17 mai 2019. Facebook: Catherine Acholonu. Disponível em: https://www.facebook.com/photo/? fbid=2371978929519952&set=picfp.100001236033759. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Catherine Obianuju Acholonu (1951-2014)

Escritora nigeriana, pesquisadora e professora, também referida como Catherine Obianuju Acholonu-Olumba. Nasceu em Orlu, de ascendência Igbo. Em casamento arranjado, aos dezesste anos tornou-se esposa de Douglas Acholonu, com quem teve quatro filhos: Ifunanya, Nneka, Chidozie e Kelechi. Após a formação escolar e universitária, estudou na Alemanha, obtendo o título de mestrado (1977) e doutorado (1982) em Língua e Literatura inglesa e americana e Linguística germânica na Universidade de Dusseldorf.

Durante a década de 1980, na Nigéria, atuou como docente na Universidade de Educação Alvan Ikoku em Owerri; fundou AFA Publications e AFA: A Journal of Creative Writing (1982), dois importantes meios de divulgação de produção acadêmica.  Ela foi uma das duas africanas designadas para o Encontro do Grupo de especialistas em Santo Domingo (1986), com o objetivo de priorizar a questão de gênero nos planos de ação das três Conferências da ONU, do Rio de Janeiro, Cairo e Pequim.

Como pesquisadora, realizou estudos sobre as raízes Igbo do ex-escravo africano e abolicionista Olaudah Equiano, também conhecido como Gustava Vassa, proferindo palestras sobre ele e os vínculos da família dele com a região de Imo, na Nigéria, em universidades inglesas e norte-americanas. Foi escritora residente na Westchester Consortium for International Studies (1990-1991) e professora visitante em Manhattanville College, Marymount College, Iona College, e College of New Rochelle em Nova Iorque. Trabalhou como professora de história africana e filosofia no campus nigeriano da Universidade de Pilgrim e no Seminário Teológico de Aba.

Seu livro Motherism: The afrocentric alternative to feminism (Maternismo: a alternativa afrocêntrica ao feminismo) (1995), é descrita como a primeira teoria completa de estudos de gênero na África e base para teoria maternal introduzida no Canadá e outros países ocidentais. Também escreveu The Gram Code of African Adam: Stone Books and Cave Libraries, Reconstructing 450.000 Years of Africa’s Lost Civilizations (O código do Adão africano: os livros das rochas e cavernas reconstruindo 450.000 anos de civilizações perdidas da África) (2005), They lived before Adam: prehistoric origins of the Igbo (Nós vivemos antes de Adão: origens pré-históricas dos Igbos) (2009) e The lost testament of the ancestors of Adam. Unearthing Heliopolis/Igbo Ukwu, the celestial city of the gods of Egypt and India (O testamento perdido dos ancestrais de Adão. Desenterrando Heliópolis/Igbo Ukwu, a cidade celestial dos deuses do Egito e da Índia) (2010).

Acholonu foi a primeira nigeriana homenageada com a fundação do Centro de Pesquisa Catherine Acholonu. Foi Embaixatriz do Renascimento Africano para a Conferência do Renascimento Africano em Benin. Até 2002, atuou como conselheira especial sobre arte e cultura do presidente da República Federal da Nigéria. Foi a única representante da Nigéria no Fórum Global de Arte e Cultura para a implementação da Convenção da ONU para combate a desertificação (UNFAC) (2003).

BIBLIOGRAFIA

UMEH, Marie. “Catherine Obianuju Acholonu”.  In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 85-86.

EZEMWA-OHAETO. Contemporary nigerian poetry and the poetics of orality. Bayreuth:  E. Breitinger, 1998.

OTIONO, Nduko. Catherine Acholonu: the female writer as a goddess. Nkoko: Institute of African Studies – Carleton University, v. 4, 2014: https://ojs.library.carleton.ca/index.php/nokoko/article/download/2192/1975


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave:

Cecilia Fatou-Berre (1901-1986)

Religiosa católica gabonesa. Nasceu em Libreville, então sob domínio colonial francês, e estudou na escola católica Irmãs da Imaculada Conceição de 1909 até 1918. Ainda jovem, decidiu ser freira e se dirigiu a um internato.


Entre 1918 e 1923 Cecilia ficou em Donguila para fazer seus votos e se tornar freira. Durante esse período, aprendeu a falar Ndumu, Obamba, Téké e Frag, também trabalhou nos campos plantando comida para a escola missionária junto com outras freiras e estudantes. Em 1929, tornou-se madre superiora das freiras em Franceville. Sua principal missão era garantir comida para os estudantes, o que era um grande problema durante o período de escassez que repentinamente atingiu o Gabão no período de 1916-1930. Em 1941, retornando a Libreville, foi designada para a direção da Congregação, tendo então atuado intensivamente na formação e educação de jovens mulheres (1942-1950), o que levou a chefiar toda a Congregação (1955-1967).

Após o período colonial, aceitou as mudanças na liturgia e nas novas oportunidades que surgiram para os líderes religiosos na África. Embora a sua saúde tenha ficado debilitada depois da década de 1960, permaneceu ativa em Libreville até sua morte, o que evidencia o papel crucial das mulheres africanas na reformulação da espiritualidade cristã e católica.

BIBLIOGRAFIA

RICH, Jeremy. Marcel Lefebvre in Gabon: revival, missionaries, and colonial roots of catholic traditionalism. In: CURTIS, Sarah; CALLAHAN, Kevin (Eds).  Encountering french history. Lincoln: University of Nebraska Press, 2008, p. 53-83.

RICH, Jeremy. “Cecilia Fatou-Berre“. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 359-360.

ROHRER, Maria; MOREL, Gérard. Sur la route dela sainteté: Mère Cecilia. Paris: Editions du Bosquet, 1994.


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Legenda: Cecilia Tamanda Kadzamira | National Archives of Malawi

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Prince_Phillip,_Queen_Mother,_Cecilia_Kadzamila,_Queen_Elizabeth,_and_Dr_Banda_(cropped).jpg. Acesso em: 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Corrupção

Cecilia Tamanda Kadzamira (1938)

Primeira-dama do Malawi, também conhecida como Mama (mãe da nação) Kadzamira. Nasceu no Distrito de Dedza e cresceu na Rodésia do Sul, atual Zimbábue. Realizou treinamento para enfermeira no Hospital Geral de Zomba em meados dos anos 1950.

Trabalhou na clínica do Dr. Hastings Banda, que subiu na hierarquia política do Malawi e foi presidente de 1964 a 1994, período no qual Kadzamira continuou a servir como enfermeira, secretária e recepcionista oficial, uma atividade geralmente atribuída à Primeira dama, embora eles nunca tenham sido oficialmente casados. A posição por ela ocupada garantiu-lhe imenso poder, tanto sobre as relações cotidianas do governo quanto sobre favores e empregos para familiares.

Em 1984 Cecília fundou a Chitukuko Cha amai M’Malawi – CCAM, uma organização feminina que viria a ser utilizada para fortalecer os seus interesses, mesmo desviando fundos de assistência provenientes do exterior e afastar líderes ambiciosos internos e externos ao Partido do Congresso do Malawi – MCP que pretendiam chegar ao poder. Sua crescente influência sobre o presidente fez circular rumores sobre a intimidade da relação entre ambos, embora este tipo de questionamento tenha sido considerado motivo para detenção.

Desde os anos 1970 Cecilia Kadzamira desempenhou um papel fundamental no estabelecimento de relações de Banda com os presidentes Kenneth Kaunda e Robert Mugabe, da Zâmbia e do Zimbábue, respectivamente. Ela permaneceu ao lado de Banda desde a sua derrota na eleição presidencial de 1994 até a sua morte (1997). Os familiares dele acusam-na de manipulação, uma vez que o ex-presidente deixou a maior parte dos seus bens para ela. Kadzamira se afastou das atividades políticas desde então, embora continue sendo muito influente dentro do MCP.

BIBLIOGRAFIA

LWANDA, John Loyd.  Kamuzu Banda of Malawi: a study in promise, power, and paralysis. Glasgow: Dudu Nsomba Publications, 1993.

MGAWI, K. J. Tracing the footsteps of Dr. Hastings Kamuzu Banda. Blantyre: Dzuka Publishing Company, 2005.

OCHWADA, Hannington. “Cecilia Tamanda Kadzamira”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 258-259.


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Legenda: Cesaria Évora

Fonte: El Humilde Fotero del Pánico. 3 de mar. de 2008. Flickr: El Humilde Fotero del Pánico. Disponível em: https://flic.kr/p/4vVTxM. Acesso em: 21 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Cesaria Évora (1941-2011)

Nascida em Mindelo, Ilha São Vicente, em Cabo Verde, é a cantora de maior reconhecimento internacional do país, também conhecida pelo apelido de Cize, e lembrada como “A diva dos pés descalços”.

Pertencente a uma família e a um ambiente musical, desde cedo ela começou a cantar em bares e hotéis e, com a ajuda de músicos locais, ganhou maior notoriedade em Cabo Verde com a interpretação de mornas e coladeras, sendo proclamada a “Rainha da Morna” cabo-verdiana.

Nos anos 1980, após um período de dificuldades pessoais e envolvimento com o alcoolismo, foi selecionada pela Organização das Mulheres Cabo-verdianas para ser enviada a Portugal e gravar várias músicas de uma compilação em 1986. Encorajada pelo cantor e empresário caboverdiano Bana, deu início à sua carreira internacional, com apresentações, além de Portugal, nos Estados Unidos e em Paris, onde gravou o álbum  La diva aux pieds nus (A diva dos pés descalços), porque era assim que ela se apresentava nos palcos.  Aclamado pela crítica, este álbum contribuiu para que ela se firmasse no cenário artístico como uma estrela internacional aos 47 anos de idade.

Entre os anos 1965 e 2011 ela gravou vinte e cinco álbuns distribuídos em diversos países. No início do século XXI recebeu diversos prêmios , como o Grammy de melhor álbum de world music e a medalha da Legião de Honra pelo Ministério da Cultura da França.  O filme-documentário Tchindas, dirigido por Pa Garcia Pérez e Lara e Mar Serena em 2015 é um registro visual de sua trajetória artística e pessoal.

BIBLIOGRAFIA

CAMBANCO, Benvinda Domingos. Uma nota sobre o papel social de Cesária Évora no reconhecimento internacional de Cabo Verde. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação), Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira, Redenção, 2015.

LANG, George. Tem morna, tem coladera: as raízes cabo-verdianas da música universal de Cesária Évora. Scripta, v. 11, n, 20, p. 155-165, 2007.

LIMA-NEVES, Terza Silva. “Cesaria Evora”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 317-319.

MARTIN, Carla. Cesária Évora: “The Barefoot Diva” and other stories. Transition, n. 103, p. 82-97, 2010.


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Legenda: Chaïbia Talal | Foto: Gabriel Soussan

Fonte: diptyk. [Portrait] Chaïbia a les yeux, les mains fertiles. 10 de dez. de 2020. Disponível em: https://www.diptykmag.com/portrait-chaibia-a-les-yeux-les-mains-fertiles/. Acesso em: 27 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Cha’ibia Tallal (1929-2004)

Desde criança esta pintora marroquina já mostrava o poder de sua imaginação. Nascida em Chtouka, cidadezinha rural do Marrocos, Cha’ibia tinha um modo incomum de agir e de ver as coisas, o que lhe rendeu o apelido de mahbula (a boba). Apesar disso – ou talvez justamente por isso –, ela sempre fez questão de afirmar que era importante não ter medo de ser diferente.

Além de criativa, Cha’ibia se mostrou muito forte. Aos trezes anos, viu-se casada; aos quinze, já era viúva e mãe. Para poder sustentar a si mesma e ao filho, Hossein, na época com apenas um ano de idade, ela precisou trabalhar em várias casas francesas. Embora tenha recebido diversos pedidos de casamento, rejeitou todos, pois estava decidida a não casar novamente e a não abrir mão de sua liberdade.

Muitos anos mais tarde, duas experiências fizeram-na crer que sua vida estava prestes a mudar. A primeira foi um encontro com um “homem santo” (marabout; marabu) que previu que ela, a mahbula, se tornaria a baraka, a dádiva de sua cidade; a segunda, um sonho, no qual homens vestidos de branco lhe indicavam materiais de pintura como sendo seu ganha-pão. A partir disso, Cha’ibia deu início, enfim, à sua relação com as tintas e os pincéis, expressando nas telas todo o seu amor pela natureza local, que a viu desabrochar.

Em 1965, Hossein, que havia estudado no exterior e era então um pintor famoso, apresentou sua mãe a duas importantes figuras: o pintor marroquino Ahmed Cherkaoui e o crítico francês Pierre Gaudibert, que incentivou a produção artística de Cha’ibia. Em 1966 ela realizou suas primeiras exposições, uma em Casablanca e outras duas em Paris, conquistando sucesso e admiração mundiais.

Cha’ibia Tallal faleceu aos setenta e cinco anos em Casablanca devido a um ataque cardíaco. Considerada uma das mais importantes pintoras do século XX, deixou uma vasta produção artística. Suas obras fazem parte de coleções de países espalhados pelos cinco continentes, além de comporem coleções particulares em diversos lugares, constando inclusive no acervo do rei do Marrocos.

BIBLIOGRAFIA

GLACIER, Osire. Cha’ibia Tallal”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 498-499.

TALLAL, Cha’ïbia. The Artist’s Voice. Traduzido por Fatima Mernissi. In: ZUHUR , Sherifa (Ed.) Images of enchantment. Visual and performing arts of the Middle East.  Cairo: The American University in Cairo Press, 1998, p. 183-186.


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Legenda: Chantal Biya | Foto: Amanda Lucidon

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Chantal_Biya_2014_(cropped).jpg. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Chantal Biya (1970)

Segunda esposa do presidente Paul Biya e atual Primeira Dama da República de Camarões. Nasceu na cidade de Dimako e cresceu em Yaoundé, a capital do país. É filha de um emigrante francês, Georges Vigouroux, com Rosette Marie Mboutchouang, mulher de grande beleza ganhadora de desfiles.

Chantal não dispunha de recursos financeiros e trabalhava como empregada até conhecer o presidente e casar-se com ele em uma cerimônia luxuosa em 1994.  O casal teve um filho, Paul Junior, e uma filha,  Anasthasia Branda. Após o casamento ela passou a ser conselheira do marido, e alcançou grande popularidade devido ao seu estilo extravagante e sua capacidade de comunicação com as camadas populares que viam nela sua representante. 

Objeto de reiteradas críticas da parte dos adversários do marido, financiou a partir de 1994 a Fondation Chantal Biya (Fundação Chantal Biya), que dirigiu os esforços para a melhoria da pesquisa e das condições de saúde, especialmente em relação aos efeitos da AIDS, e ampliou o hospital público de Yaoundé com a criação de uma maternidade – que passou a receber o seu nome.  Ela deu sustentação a outras organizações beneficentes, como o Cercle des Amis de Cameroon – CERAC (Círculo dos Amigos de Camarões) e o Africa Synrgy Group (Grupo de Sinergia Africana), para promover a campanha de saúde pública contra a AIDS.

Quando a Organização da União Africana – OUA se reuniu em Yaoundé em 1996 presidiu a Conferência das Primeiras Damas. Em novembro de 2008, a UNESCO a nomeou como Embaixatriz da Boa Vontade para a educação e inclusão social, o que a levou a fazer várias viagens para o exterior, e despertou a admiração de artistas populares, como o cantor K Tino.

Para alguns, as ações altruístas de Chantal Biya poderiam ter sido realizadas para gerar uma imagem positiva do governo ditatorial e corrupto do marido. Ela também foi criticada pelo estilo espalhafatoso, que poderia funcionar como um desvio para o autoritarismo do regime em vigor no país. Sua conexão com a política transparece no financiamento da organização Jeneusse Active Pour Chantal Biya – JACHABY (Juventude Ativa Por Chantal Biya), que dá suporte às suas campanhas eleitorais e de Paul Biya.

BIBLIOGRAFIA

EBOKO, Fred Chantal Biya: fille du peuple et Égérie Internationale. Politique africaine, v. 95, p. 91-106, 2004.

KAH, Henry Kam. Jeneusse Active Pour Chantal Biya (JACHABY)/Cercle des Amis du Cameroun (CERAC) and femocracy in 21 st century Cameroon. African Nebulosa, n. 7, p. 114, 2014.

RICH, Jeremy. “Chantal Biya”.  In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 454-455.


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Legenda: Charity Kaluki Ngilu | World Water Week

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/ File:Hon._Charity_Kaluki_Ngilu_at_Opening_Session.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Corrupção

Charity Kaluki Ngilu (1952)

Mulher pública queniana, nasceu na cidade de Mbooni, no Distrito de Makueni, na República do Quênia, e seus antepassados pertenciam ao povo Kamba. Estudou na Alliance Gils High School. Formou-se em Secretariado e Administração no Government Secretarial College, Kianda College e no Kenya Institute of Administration for Business.

Ela começou a carreira profissional como secretária no Banco Central do Quênia, e como diretora de uma fábrica de plásticos.  Nos anos 1990 ingressou na vida pública, no Democratic Party (Partido Democrático) e no Social Democratic Party (Partido Social Democrático), tendo sido eleita ao parlamento para representar o Distrito de Kitui em 1992 e 1997.

No início do século XXI, ingressou no National Party of Kenya (Partido Nacional do Quênia), pelo qual foi eleita ao congresso em 2002, e em 2003 foi designada pelo presidente Mwai Kibaki para ocupar a pasta do Ministério da Saúde. Em sua trajetória, procurou vincular sua imagem aos interesses nacionais e não aos particularismos étnicos e sua agenda contempla pontos importantes das reivindicações femininas, integrando diversos grupos de representação das mulheres.  Em 2007 ela foi temporariamente presa quando invadiu uma delegacia de polícia para pressionar pela libertação de uma ativista que tinha sido detida por protestar contra os altos salários dos membros do parlamento.

Charity voltou a ser eleita para o congresso em 2007 e no ano seguinte foi indicada como Ministra da Água e da Irrigação (2008-2013), quando se viu envolvida em denúncias de corrupção. Também atuou como Secretária do Gabinete de Terras, Moradias e Desenvolvimento Urbano de 2013 a 2015.

Por duas vezes ela concorreu à presidência do país. Primeiro, em 1997, quando perdeu o pleito para Daniel Arap Moi. Depois, em 2012, nas prévias para as eleições presidenciais de 2013, mas não encontrou apoio suficiente.  Em 2017, todavia, ela concorreu ao governo do Condado de Kitui, derrotando o adversário, Julius Malombe e saindo vitoriosa na eleição.   

BIBLIOGRAFIA

KAMAU, Nyokabi. Women and political leadership in Kenya: ten cases. Berlim: Heinrich Boll Stiftung, 2010: https://ke.boell.org/sites/default/files/women_in_leadership_study.pdf

TRIPP, Aili. “Charity Kaluli Ngilu”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 450-451.

NZOMO, Maria (Ed.). Women in politics: challenges of democratic transition in Kenya. Berlim: Heinrich Boll Fondation, 2003.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:

Charity Waciuma (1940)

Escritora queniana de origem étnica kikuyu, escreveu vários livros de literatura infanto-juvenil e um romance de caráter auto-biográfico,  Daughter of Mumbi (A filha de Mumbi) (1969). Ela relata nesta obra as tensões vividas por uma adolescente dividida entre as tradições ancestrais, na relação com o pai, que vê sua inclinação para a modernidade como um apoio ao domínio colonial britânico. O livro é dedicado a seu pai, que morreu no período inicial da eclosão do movimento rebelde Mau Mau.

Sua obra literária é uma das primeiras publicadas em inglês na África, no contexto da descolonização africana da década de 1960. Entre os seus livros estão Mweru the ostrich girll (Mweru a menina avestruz) (1966), The Golden feather (A pena de ouro) (1967) e Who’s calling? (Quem está chamando?) (1972).  

Charity encontrou inspiração para escrever seus livros na rica tradição cultural kikuyu. Ela enfatiza o lugar social das crianças e os efeitos do colonialismo na sociedade africana. Também retrata com sensibilidade os traços da sociedade patriarcal africana conjugada ao colonialismo androcêntrico ocidental, e inclusive levanta a questão da mutilação genital feminina.

BIBLIOGRAFIA

KILLAM, Douglas; ROWE, Ruth. The companion to african literature. Oxford: James Currey, 2000.

MUCHIRI, Jennifer. “Charity Waciuma”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p.

STRATTON, Florence. Contemporary african literature and the politcs of gender. Londres: Routledge,1994.


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Legenda: Charlotte Maxeke

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:A_young_Charlotte_Maxeke.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Charlotte Maxeke (1874-1939)

Fundadora do Bantu Women’s League BWL(Liga das Mulheres Bantu) e missionária  da African Methodist Episcopal Church – AME (Igreja Episcopal Metodista Africana).

 Nasceu com o nome de Charlotte Manye, na Colônia do Cabo, na África do Sul. Recebeu a instrução primária perto da cidade de Port Elizabeth, de professores Xhosa. Nos finais da década de 1880, ela e sua família se transferiram para a cidade mineira de Kimberley, onde ela e sua irmã mais nova Kate se distinguiram como cantoras no coral da Free Church of Scotland. Entre 1891 e 1893 ela e sua irmã Kate viajaram pela Grã-Bretanha cantando no coro junto ao African Jubilee Choir (Coro do Jubileu Africano)., Charlotte continuou no coral em uma viagem para os Estados Unidos enquanto Kate se casou em Johannesburgo.

Em 1894, através da AME, Charlotte e outras cinco pessoas do coral ganharam a oportunidade de estudar artes na universidade de Wilberforce, em Ohio. As cartas de Charlotte para sua irmã Kate, contando inspiradamente sobre suas experiências foram compartilhadas por Kate com o Ministro Mangena Mokone, de uma igreja independente na Etiópia. As correspondências inspiraram a afiliação da igreja à AME em 1896.

Charlotte Manye conheceu seu marido Marshall Maseke na universidade. Tiveram um filho, Edward Clarke Maxeke. Os dois montaram uma escola em solo americano que, porém, faliu por falta de recursos e alunos. Em 1906 reergueram outra escola na África do Sul e lá ensinaram e passaram a organizar os ofícios religiosos nos moldes de uma escola da AME, até ser nacionalizada no período do apartheid em 1953, através do Bantu Education Act (Lei da Educação Bantu).

O marido de Charlotte era um membro do South African Native National Congress – SANNC (Congresso Nacional dos Nativos Sul-Africanos), que depois se tornaria apenas African National Congress – ANC (Congresso Nacional Africano). Até 1943 os membros podiam ser apenas homens, o que a levou a fundar a BWL, uma espécie de auxiliar da SANNC ou ANC. As integrantes da BWL não votavam nas reuniões, mas participavam ativamente das mobilizações políticas contra as tentativas oficiais de estender leis que ferissem os direitos das mulheres africanas.

Durante sua carreira, Charlotte Maseke serviu como uma ponte consciente entre grupos sociais, religiosos e políticos dedicados ao progresso da população negra quanto à educação, auto-ajuda e protestos coletivos. Sua influência ressoou no trabalho da Liga das Mulheres do Congresso Nacional Africano, que se formou em 1943 como organização sucessora da BWL.

BIBLIOGRAFIA

HEALY, Meghan. “Charlotte Maxeke”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 141-142.

JAFFER, Zubeida. Beauty of the heart: the life and times of Charlotte Mannya Maxeke. Cape Town: ZJ Books, 2016.

MAXEKE, Charlotte Manye. Social conditions among bantu women and girls. In: DAYMOND, M. J. (Ed.). Women writing Africa: the southern region. Nova Iorque: Feminist Press, 2003.

MCCORD, Margaret. The calling of Katie Makanya. Cape Town: David Philip, 1995. 


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Legenda: Nehanda Charwe Nyakasikana (no centro, à frente)

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Capture_Nehanda_Nyakasikana.jpg. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Líderes religiosas

Charwe (1862-1898)

Sacerdotisa, médium e líder na resistência à conquista colonial britânica no sul da Rodésia, na atual República do Zimbábue. Por vezes referenciada com o nome de Nehanda Charwe Nyakasikana, porém Nehanda é o nome do espírito ancestral ao qual ela incorporava. Nasceu por volta de 1862 no vale de Mazowe, na região de Maxonalândia, isto é, a área cultural dos povos falantes da língua xona.

Pertencia  à dinastia dos Hwata (dzinza; rudzi), uma das várias dinastias formadas na passagem dos séculos XVIII-XIX em decorrência da dissolução da unidade dos reinos xonas. Tornou-se a médium de Nehanda no Distrito Mazowe por volta de 1880, e foi uma das únicas mulheres que canalizaram para si o espírito feminino Nyamita, presente nas tradições desde a época do Monomotapa (séculos XIV-XVII) e que se acreditava ser um espírito da chuva, da terra e da produtividade da agricultura.

Na segunda metade da década de 1890, diante da truculência dos colonialistas  que, sob a bandeira da Companhia Britânica da África do Sul – BSAC, invadiram o território dos xonas confiscando terras e rebanhos, Charwe liderou  o povo Ndebele.  Teve participação ativa na organização e coordenação da guerra em Mazowe contra as forças lideradas  pelo coronel Edwin A. H. Alderson, e mediou as negociações entre seu povo e a patrulha em Fort Alderson (1896). Ela foi uma das últimas líderes capturadas, e a única mulher presa e acusada de traição por ter supostamente matado um comissionário nativo do distrito de Mazowe, pelo que, depois de aprisionada,  foi julgada, sentenciada e executada. 

Sua história permanece sendo cheia de enigmas e rodeada de lendas, permanecendo viva na memória popular e inspirado na posteridade  lideranças nacionalistas e artistas africanos engajados.

BIBLIOGRAFIA

BEACH, David N. “An innocent woman, unjustly accused?: Charwe, medium of the Nehanda Mhondoro spirit, and the 1896-1897 central shona rising in Zimbabwe. History in Africa, v. 25 (1998): 27-54, 1998.

CHARUMBIRA, Ruramisai. Nehanda and gender victimhood in the Central Mashonaland, 1896-1897 rebellions: revisiting the evidence. History in Africa, v. 35, p. 103-131, 2008.

CHARUMBIRA, Ruramisai. “Charwe”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2,  p. 60-62.

LAN, David. Guns & rain: guerrillas & spirit mediums in Zimbabwe. London: James Currey, 1985.

RANGER, Terence. Revolt in southern Rhodesia 1896-1897: a study in african resistance . Londres: Heinemann, 1967.


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Legenda: Cheikha Rimitti

Fonte: La Depeche. Toulouse. Une semaine d'hommage à Cheikha Rimitti. 06 de jan. de 2017. Disponível em: https://www.ladepeche.fr/article/2017/01/06/2491440-une-semaine-d-hommage-a-cheikha-rimitti.html. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Repressão Sexual

Cheikha Rimitti (1923-2006)

Cantora conhecida por sua voz profunda e suas letras desavergonhadas, nasceu com o nome Saadia na aldeia de Tessala, na Argélia. Ficou órfã quando criança e foi forçada a trabalhar para se sustentar. Como ela disse mais tarde: “A miséria foi como uma escola para mim”.

Sua carreira musical começou quando aos 14 anos ela se juntou a um grupo que tocava música tradicional argelina. Depois de cinco anos com eles, ela se mudou para a cidade de Relizane, onde escreveu sua primeira composição. Ela não foi alfabetizada, e suas canções contavam com um uso de gírias e dialetos, inspirada na tradição de canções obscenas de mulheres que antes eram cantadas apenas em locais privados.

Na década de 1940 ela conheceu o músico Cheik Mohammed Ould Ennems, com quem foi para Argel. Sua primeira gravação ocorreu em 1952, seguida em 1954 pela música Charrak Gattà, que significa “Lacerado, lacrimejante”, considerada escandalosa. Condenada pelos líderes muçulmanos em 1962, suas canções foram proibidas na Argélia. Ela era popular entre os imigrantes argelinos na França, para quem fazia apresentações privadas. Em 1971, sofreu um acidente que matou três dos músicos de sua banda e a feriu gravemente.

Rimitti realizou a peregrinação à Meca em 1976 e essa experiência religiosa a levou a parar de fumar e beber, mas suas canções continuaram com os mesmos temas. Ela se estabeleceu em Paris em 1978 e nunca mais se apresentou na Argélia. Ela desenvolveu uma forma eletrônica de raï, estilo musical argelino pelo qual era conhecida. Sua voz era gravada em Paris e os instrumentos musicais eram gravados em Los Angeles e depois mesclados.

Jovens cantores argelinos a reivindicam como inspiração, como na homenagem de Rachid Taha, na canção Rimitti. Em 2006 ela lançou o álbum Nta Goudami e se apresentou no Zenith, em Paris, apenas dois dias antes de morrer de um ataque cardíaco. Durante uma carreira de cinquenta anos ela escreveu mais de 200 músicas e gravou centenas de fitas K7 e de álbuns em LPs.

BIBLIOGRAFIA

MEADLEY, Phil. Cheikha Rimitti: singer known as the ‘Mother of Rai’. The Independent, Londres, 29/05/2006.

RIMITTI, Cheikha. Interview by Banning Eyre. New York, 2001. http://www.afropop.org/multi/ interview/ID/13/Cheikha+Rimitti

SHELDON, Katleen. “Cheikha Rimitti”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 203.

VIROLLE-SOUIBÈS, M.. The Singing Poetry of Cheikha Rimitti. Actes de la Recherche en Sciences Sociales, n. 99, p. 16-20, 1993.


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Legenda: Chika Unigwe

Fonte: CABANIER, Bart. 05 de out. de 2007. Flickr: Bart Cabanier. Disponível em: https://flic.kr/p/3gMYEh. Acesso em: 15 de dez. de 2020.

Chika Unigwe (1974)

Escritora nigeriana de obras de ficção, livros didáticos, e poetisa, com obras publicadas na Inglaterra, Bélgica, Holanda e Estados Unidos. Nasceu em Enugu, capital do estado de mesmo nome, cuja população é majoritariamente vinculada ao grupo étnico igbo. Faz parte de uma família tradicional, e o pai, Fred Belonwu Unigwe foi deputado na Anambra State House of Assembly.  Realizou o curso secundário na Federal Government Girl’s College (Colégio Federal para Meninas) e concluiu o bacharelado na University of Nigeria, Nsukka (Universidade da Nigéria, Nsukka) em 1995. Casou-se, aos vinte e um anos de idade, com o belga Jan Vandenhoudt, e posteriormente, obteve o título de Mestre em língua inglesa pela Katholieke Universiteit Leuven (Universidade Católica de Louvain) (1996) e Doutora em língua inglesa pela Universiteit Leiden (Universidade de Leiden) (2004).

Em sua obra, Chika Unigwe aborda assuntos contemporâneos relacionados especificamente a situação dos(as) africanos(as) no mundo, como a questão da imigração para a Europa; temas vinculados ao universo feminino e a igualdade e gênero; e temas universais como as aspirações humanas, amor e sofrimento, o que projetou seu nome no mercado literário internacional. Em 2014 ela foi considerada uma das 39 escritoras mais influentes da África subsaariana, com potencial talento par definir tendências futuras na literatura africana. Unigwe integra o conselho de administração do coletivo pan-africano Writivism, e fundou na Nigéria a Awele Creative Trust, para apoiar jovens escritores(as). Seu segundo romance, publicado em holandês com o título de Fata Morgana (Fada Morgana) (2007), e em inglês como On black sister’s street (Na rua das irmãs negras), tem como eixo narrativo as agruras de mulheres africanas vítimas do tráfico internacional que vivem nas ruas da Bélgica como prostitutas, e a indiferença da sociedade belga com os(as) imigrantes. 

BIBLIOGRAFIA

BEKERS, Elisabeth. Chronicling beyond Abyssinia: african writing in Flandres (Belgium). In: BEKERS, Elisabeth et alii (Eds). Transcultural modernities: narrating Africa in Europe. Amsterdam; New York: Rodopi, 2009, pp. 55-76.

BEKERS, Elisabeth. “Chika Unigwe”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 101-103.

OTAS, Belinda. Chika Unigwe on the streets of Antwerp. Publishing Perspectives, 23/12/2009. Disponível: https://publishingperspectives.com/2009/12/chika-unigwe-on-the-streets-of-antwerp/


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Legenda: Chimamanda Ngozi Adichie | Howard County Library System

Fonte: Howard County Library System. 24 de mar. de 2014. Flickr: Howard County Library System. Disponível em: https://flic.kr/p/msHRbm. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Chimamanda Adichie (1977)

Escritora criativa nigeriana e ensaísta, com envolvimento e liderança no pensamento feminista. Nasceu em Enugu, de uma família de origem Igbo da cidade de Abba, no Estado de Anambra, mas cresceu em Nsukka. O pai era professor de Estatística na Universidade da Nigéria e mais tarde tornou-se vice-chanceler adjunto da instituição, enquanto a mãe era graduada em Sociologia e tabeliã.

Adichie completou sua formação na Universidade Escola da Nigéria, vencendo diversos prêmios por excelência acadêmica. Ela estudou Farmácia e Medicina na universidade por um ano e meio, mas rapidamente percebeu que não queria seguir esta carreira. Desde a juventude escreveu algumas peças e obras em prosa, sendo influenciada pela escritora inglesa Enid Blynton, mas sobretudo pelos romancistas africanos Chinua Achebe, seu conterrâneo, e Câmara Laye, que oferecera a ela perspectivas de pensar a africanidade. 

Em 1997, publicou uma coleção de poemas intitulada Decisions (Decisões), e deixou a Nigéria para estudar Comunicação na Universidade Drexel, na Filadélfia. Depois de dois anos, pediu transferência para a Universidade Estadual de Eastern Connecticut, onde completou o bacharelado em Comunicação e especialização em Ciência Política (2001).  Foi quando começou a escrever o romance Purple hibiscus (Hibisco Roxo), publicado em 2003, quando passou a ganhar reconhecimento no cenário da literatura internacional.

Em 2004 ela obteve um diploma de Mestrado em Escrita Criativa na Universidade John Hopkins e em 2005-2006 obteve uma bolsa de estudos Hodder da Universidade de Princeton, onde lecionou Introdução à ficção. No outono de 2006, matriculou-se no Programa de Mestrado em História Africana da Universidade de Yale. Paralelamente, ela continuava sua carreira de escritora, publicando numerosas histórias em periódicos internacionais como Granta e o New Yorker e diversos ensaios em jornais de prestígio, incluindo o Guardian e o Washington Post.

Em 2006 foi publicado o seu segundo romance, Half of a yellow sun (Meio sol amarelo), que venceu o Prêmio Internacional de Conto David T. Wong, o Orange Broadband Prize de Ficção em 2007 e foi pré-selecionado para o Commonwealth Writers’ Prize de Melhor Livro (Região Africana) no mesmo ano. A obra teve também grande êxito comercial, especialmente no Reino Unido, e selou o status da escritora como um dos principais nomes da literatura africana no início do século XXI.  

Chimamanda regularmente retorna à Nigéria, apoiando ativamente talentos literários locais emergentes através da organização de workshops para aspirantes a escritores em Lagos. Em maio de 2008 ela se completou os estudos em Yale e se mudou para Columbia, Maryland. Em setembro do mesmo ano recebeu uma bolsa de estudos da Fundação MacArthur, um prêmio de 500.000 dólares. A primeira coleção de contos de Adichie, The thing around your neck (No seu pescoço), foi publicada em abril de 2009.

Como escritora de ficção, suas obras tratam de dramas sociais nigerianos, mas também das situações dos imigrantes nos Estados Unidos, tema abordado em sua conhecida conferência no TED, intitulada “Os perigos de uma história única” (2009). Sua atuação e denúncia das desigualdades de gênero levou a que proferisse a conferência We shoud all be feminists (Sejamos todos feministas) (2012), em que compartilha sua experiência como mulher africana feminista, e sua visão sobre a construção de relações de gênero e sexualidade, que logo foi transformada em livro de grande impacto editorial em 2014.

BIBLIOGRAFIA

COOPER, Brenda. New generation of African writers: migration, material culture and language. Oxford: James Currey, 2008.

HEWETT, Heather. Coming of age: Chimamanda Ngozi Adichie and the voice of the third generation. English in Africa, Centurion (África do Sul), v. 32, n. 1, p. 73-97, 2005.

OGWUDE, Sophie. History and ideology in Chimamanda Adichie’s fiction. Tydskrift vir Letterkunde, v. 48, n.1, 2011:   https://www.ajol.info/index.php/tvl/article/view/63824

TUNCA, Daria. “Chimamanda Ngozi Adichie”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 94-95.


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Legenda: Christiana Abiodun Emanuel

Fonte: Cherubim and Seraphim Society. Saint Anthony Parish. 11 de set. de 2019. Facebook: Cherubim and Seraphim Society. Saint Anthony Parish. Disponível em: https://www.facebook.com/1014412465416454/photos/gm.2445507385530778/1168992933291739/? type=3&theater. Acesso em: 13 de dez. de 2020.

Christiana Abiodun Emanuel (1907-1994).

Fundadora e líder de uma comunidade cristã nigeriana conhecida como Cherubim and Seraphim Society (Sociedade dos Querubins e Serafins). Nasceu como Abiodun Akinsowon, em Porto Novo, na atual República do Benin. Era filha de uma família de retornados (sarôs) com ligações familiares e comerciais ao longo da costa da África Ocidental. O pai, reverendo B. A. Akinsowon era pastor de uma igreja em Porto Novo, onde também tinha negócios. Batizada na Igreja Anglicana de Lagos, aí freqüentou o ensino fundamental até 1920.

Manteve contatos comerciais com uma tia que atuava no Mercado em Lagos. Em 1925 passou por uma experiência mística quando assistia a uma procissão religiosa, permanecendo em transe durante sete dias, aparentemente em coma. Ao ser despertada por Moses Orimolade Tunolase, reputado benzedor e curandeiro, afirmou ter sido levada aos céus por anjos. Ambos passaram a realizar sessões regulares de oração, atraindo seguidores e simpatizantes a quem denominaram de Egbe Serafu (Sociedade Serafim).

Em 1927,  viajaram pela Nigéria e Gana, espalhando a palavra de suas atividades e estabelecendo filiais em muitas cidades, e passando a fazer parte do movimento Aladura (em yoruba: “donos da oração). O grupo encorajava as orações e o jejum, condenava a feitiçaria e o culto às divindades tradicionais, realizando procissões que envolviam milhares de pessoas  vestidas de branco  que seguiam o casal enquanto eram levados em um carrinho. Este rigorismo e oposição aos costumes tradicionais despertou oposições e queixas tanto de outras organizações cristãs quanto de chefes locais.

Quando Orimolade aceitou outra mulher jovem como sua seguidora, surgiram desentendimentos com Christiana Abiodon, e eles se separaram, formando dois grupos distintos (1929).  Ela ficou na liderança da Sociedade dos Querubins e Serafins, enquanto ele passou a designar o seu grupo como Ordem Sagrada Eterna dos Querubins e Serafins.  Seguiram-se outras divisões internas nas décadas posteriores, mas tais grupos espalharam-se por diversos locais em que comunidades yorubás estão presentes.  Em 1986 ela foi instalada como líder dos grupos internacionais, numa tentativa de organizar os fiéis dispersos pelo mundo.

BIBLIOGRAFIA

OMOYAJOWO, J. Akinyele. Cherubim and Seraphim: the history of an african independent church.  Nova Iorque: NOK, 1982.

PEEL, J. D. Y.  Aladura:  a religious  movement among the yoruba. Oxford: Oxford University Press, 1968.

SHELDON, Kathleen. “Christiana Abiodun Emanuel”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 298.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:

Christine Obbo (1947)

Veterana antropóloga ugandense, com contribuição teórica importante para o desenvolvimento das Ciências Sociais na África oriental. Deu início ao ensino superior na Universiy of Makerere, completando os estudos na University of Wisconsin, com passagem por outros estabelecimentos universitários norte-amerianos com bolsa da Fundação Rockefeller, completando os estudos pós-graduados em 1977. Como professora, lecionou no Wheaton College e na Wayne State Univesity.

Como pesquisadora, dedicou atenção especial a etnografia de Uganda, com estudos sobre as comunidades aldeãs de Buganda e ao estudo da condição das mulheres ugandenses migrantes para centros urbanos. Mais recentemente tem estudado de modo aprofundado aspectos sociais e culturais vinculados à disseminação da epidemia de HIV/AIDS e as políticas públicas concernentes.

Como eixo estruturante de pesquisa, Christine Obbo estudou as estruturas patriarcais que condicionam  posição subalterna da mulher na sociedade, bem como alternativas de inserção social sobretudo em relação às mulheres viúvas. Em 1980, escreveu o livro African woman; their struggle for economic independence (A mulher africana: sua luta pela independência econômica), em que fornece um amplo quadro analítico das aspirações e problemas das mulheres, em particular das migrantes. A partir de 1998 integrou a equipe internacional do Council for the Development of Social Science Research in Africa – CODESRIA (Conselho para o Desenvolvimento das Ciências Sociais na África), com participação em projetos internacionais de pesquisa, colóquios e seminários internacionais voltados para o debate sobre a criação de redes intelectuais e estrutura médica em interface com as agências internacionais que se dedicam ao problema da disseminação da epidemia do HIV/AIDS no continente.

BIBLIOGRAFIA

OBBO, Christine. AIDS in Africa: three scenarios to 2025. Genebra: UNAID Secretariat, 2005.

OBBO, Christine. Village trangers in Buganda society. In: SCHACK, William; SKINNER, Elliot (Eds). Strangers in Africa societies. Berkeley: University of California Press, 1979.  

OBBO, Christine. Dominant male ideology and female options: three East african case studies. Africa: Journal of the International  African Institute, v. 46, n. 4, p. 371-389, 1976.

SEGAL, Edwin. “Christine Obbo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 533-534.


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Legenda: Cissie Gool

Fonte: Alchetron. Disponível em: https://alchetron.com/Zainunnisa-Gool Acesso em: 13 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Apartheid sul-africano

Cissie Gool (1897-1963)

Política e organizadora sul-africana.  Nasceu com o nome de Zainunnissa (Cissie) Abdurahman, na Cidade do Cabo, no seio de uma respeitada família muçulmana e da comunidade negra do no início do século XX. Embora seus parentes dispusessem de condições financeiras, ela e a irmã tiveram matricula recusada em escolas, tendo que receber formação inicial através de uma tutora.

Mais tarde, Cissie estudou na Universidade de Londres (1918) e fez o bacharelado em Artes na Universidade do Cabo (1919), mas interrompeu os estudos após o casamento com A. H. Gool, que era vinte e dois anos mais velho do que ela.  Após três tentativas, só conseguiu terminar o seu curso na Universidade da Cidade do Cabo em 1932. No ano seguinte, obteve o título de Mestra em Psicologia na mesma instituição, fato inédito até então para uma mulher negra.

Cissie se envolveu diretamente na luta política, estabelecendo em 1935 a Liga Anti-Facista e em 1938 foi eleita presidenta da Frente Unida Não-Européia, uma organização projetada para criar uma ampla coalização de resistência ao domínio racista africânder. No mesmo ano, foi eleita para o Conselho da Cidade do Cabo, representando o Distrito Seis, e sua participação foi marcada por posições contrárias às medidas oficiais de segregação. Sua aliança com o Conselho de Resistência Passiva do Cabo, na década de 1940, a levou algumas vezes à prisão, e em 1954 foi banida pela Lei de Supressão do Comunismo. Voltou à prisão em 1960, após o Massacre de Shaperville.  

A trajetória de Cissie Gool na vida pública da Cidade do Cabo, na contramão das políticas públicas de segregação racial,  exemplifica também conexão com a exclusão de gênero. Seu nome foi mantido durante muito tempo praticamente no anonimato, mas ela tem sido lembrada em obras literárias e teatrais, como Cissie (2008) e This woman is not for burning  (Esta mulher não é para queimar) (2011).  

BIBLIOGRAFIA

DAVIDS, Nadia (2012) ‘This woman is not for burning’: performing the biography and memory of Cissie Gool.  Social Dynamics, v. 38, n. 2, 253-276, 2012.

PALEKER, Gairoonisa. “She was certainly not a Rosa Luxemburg”: a biography of Cissie Gool in images and words. Thesis (History), university of Cape Town, Cape Town, 2002.

PALEKER, Gairoonisa. “Cissie Gool”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 487-488.

SPUY, Patricia van der; CLOWES, Lindsay Clowes.  “A living testimony of the heights to which a woman can rise”: Sarojini Naidu, Cissie Gool and the politics of women’s leadership in South Africa in the 1920s. South African Historical Journal, v. 64, n. 2, p. 343-363, 2012.


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Legenda: Clémentine Faïk-nzuji Madiya

Fonte: Mukanda. Disponível em: https://mukanda.univ-lorraine.fr/s/mukanda/item/39274. Acesso em: 13 de dez. de 2020.

Clémentine Faïk-Nzuji Madiya (1944 )

Poetisa congolesa e especialista em Estudos Africanos de língua Bantu, nasceu na cidade de Tshofa no então Congo Belga, atual República Democrática do Congo. Enquanto fazia curso superior na Universidade de Kinshasa,  no início da década de 1960, participou do movimento literário conhecido como Pléiade du Congo, através do qual foram publicados muitos trabalhos de escritores congoleses de 1966 a 1968. Obteve o título de Doutorado em Estudos Africanos na Universidade de Paris III no início da década de 1970. 

Alcançou renome internacional, com trabalhos publicados pelo Ministério da Cultura do país em 1968 como um meio de promoção da literatura nacional. No ano seguinte, recebeu o Prêmio Literário Senghor, e escreveu em francês e em chiluba, sua língua nativa, a primeira coletânea de poemas conhecida como Murmures (Murmúrios) (1969) – primeiro trabalho de poesia feminina publicado por uma africana em francês.  A maioria de seus poemas eram pessoais: tratam de sua relação com o marido e os cinco filhos. Sua outra coletânea, Kasala, de 1969, contém poemas que expressam suas frustrações com a situação econômica do país.

Entre 1972-1981 passou pelos Estados Unidos, morou no Níger e na Bélgica. Trabalhou como professora de disciplinas de literaturas orais e estilística africana Universidade de Niamey (1978-1980) e a partir de 1981 na Universidade Católica de Louvain  (Bélgica) – onde deu contribuição fundamental para o surgimento do Centro Internacional das Línguas, Literaturas e Tradições da África, que ela dirigiu a partir de 1986.  Neste núcleo de pesquisa, desenvolveu estudos de linguística bantu, com trabalhos sobre antroponímia, semântica, literaturas orais, estudo da simbologia das escarificações e tatuagens corporais, cujos resultados estão reunidos nos livros Arts africaines: signes et symboles (Artes africanas: signos e símbolos) (2000) e La puissance du sacré: l’homme, la nature et l’art en Afrique Noire (O poder do sagrado: o homem, a natureza e a arte na África negra) (2003).

Recebeu diversos prêmios em reconhecimento de sua carreira  como poetisa e como estudiosa, e  publicou o livro Tu le leur diras. Le récit véridique d’une famille congolaise plongée au coeur de l’histoire de son pays. Congo, 1890-2000) (Tu dirá a eles. Narrativa verídica de uma família congolesa imersa no coração da história de seu país. Congo, 1890-2000) (2005), em que trata de sua própria biografia e da relação entre  história de sua família do regime colonial à primeira guerra civil do Congo no início dos anos 1960, à ditadura e a guerra civil do Congo de 1996 a 2003.

BIBLIOGRAFIA

FAIK-NZUIJI, Clementine.  In: Reading women writers and african literature. The University of Western Australy, 2013.

CLÉMENTINE FAIK-NZUIJI , Clementine. La puissance du sacré: l’homme, la nature et l’art en Afrique Noire. Waterloo: La Renaissance du Livre,  2003.

NGANDU, Pius Nkashama (Ed.). Itinéraires et trajectoures du discours littéraire à l’Anthropologie: Mélanges offerts à Clémentine Faïk-Nzuji Madiya. Paris: L’Harmattan, 2009.

RICH, Jeremy. “Clémentine Faik-Nzyji Madiya”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 331-332.


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Legenda: Cleópatra Selene | Foto: Charles Edwin Wilbour Fund

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/ File:WLA_brooklynmuseum_Head_of_a_Ptolemaic_Queen.jpg. Acesso em: 13 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Cleópatra Selene (40 – 05a.C.)

Rainha da Mauritânia, na época uma província romana da África, no período de 15-05 a.C. Pertencia a dinastia dos Ptolomeus, que governou o Egito no período situado entre os séculos IV e I a.C. Era filha da rainha do Egito Cleópatra VII e do triúnviro romano Marco Antônio. Um de seus nomes, Selene, significa “Lua”. Teve um irmão gêmeo chamado Alexandre Helio, cujo último nome significa “Sol”.

Pouco se sabe da sua infância, exceto que participou da cerimônia das Doações de Alexandria, em 34 a.C., quando foi declarada rainha da Cirenaica, e que foi levada para Roma junto aos seus irmãos após a derrocada do governo de sua mãe, em 30 a.C., sendo incorporada à família da viúva de Antônio, Otávia.

Ao atingir a idade matrimonial, foi casada com Juba II, filho do último rei da Numídia, Juba I, e ambos foram declarados governantes da Mauritânia. A mistura de elementos ptolomaicos e egípcios aparece na produção artística de seu período de governo. Em prédios públicos, o grego passou a ser o idioma oficial, e o casal mandou construir uma grande biblioteca real.

Selene foi importante para o aprimoramento erudito de Juba II ao prover seu acesso à cultura e tradição dos governantes Ptolomeus do Egito. Tiveram um filho, Ptolomeu, que herdou o reino após a morte de Juba, em 23 a.C.. Pode ter tido outros dois filhos, conforme especulações recentes. Ficou conhecida por diversos trabalhos artísticos, incluindo bustos, moedas e um prato de prata do tesouro de Boscoreale.

Morreu provavelmente no ano de 5 a.C., durante um eclipse lunar. Foi enterrada num mausoléu real construído em Tipasa para ela e para o marido, perto de Cesaréia, numa estrutura ainda visível hoje em dia.

BIBLIOGRAFIA

COLTELLONI-TRANNOY, Michèle. Le royaume de Maurétanie sous Juba II et Ptolemée. Paris: CNRS-Éditions, 1997.

ROLLER, Duane W. The world of Juba II and Kleopatra Selene: royal scholarship on Africa’s frontier. Nova Iorque: Routledge, 2003.

ROLLER, Duane. “Cleopatra Selene”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2,  p. 104-105.


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Legenda: Cleópatra VII Filópator | Foto: Sergey Sosnovskiy

Fonte: Ancient Rome. Disponível em: http://ancientrome.ru/art/artworken/img.htm? id=7870. Acesso em: 13 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Cleópatra VII Filópator (69-30 a.C.)

Rainha do Egito, foi a última governante da dinastia ptolomaica. Esta dinastia tinha sido fundada pelo general Ptolomeu I Soter  após a morte de Alexandre, o Grande, em 323 a.C.  

Pertencente ao universo cultural helênico, incorporaram ao longo do tempo elementos da antiga instituição faraônica: desde a segunda geração, a dinastia aderiu ao casamento entre irmão e irmã, baseada na sua crença de que os faraós o praticavam.

Pouco se sabe da infância de Cleópatra, mas na família real, ambos meninos e meninas eram educados e as mulheres podiam governar juntamente com suas contrapartes masculinas. Plutarco conta que Cleópatra foi a primeira dos ptolomaicos a aprender a língua egípcia e que ela falava um total de sete idiomas. Ela também teria aprendido matemática, astronomia, música, retórica e literatura gregas.

Em 51 a.C., quando Ptolomeu XII morreu, Cleópatra, então com dezoito anos, assumiu o trono, governando com seu irmão (ou mais provavelmente meio irmão) Ptolomeu XIII. Como Ptolomeu tinha apenas 10 anos de idade quando o governo deles começou, Cleópatra foi a parceira dominante na relação. Três conselheiros da corte real, Áquila, Teodoto e Potino, aproveitaram-se da situação e exerceram forte influência sobre o menino. Enquanto Cleópatra pendia para o lado dos romanos, que haviam ajudado seu pai a reconquistar o trono, os conselheiros e Ptolomeu XIII, sob influência deles, apoiavam um Egito mais independente.

Por volta de 48 a.C. Ptolomeu XIII e seus conselheiros conseguiram expulsar Cleópatra para além das fronteiras do Egito. Enquanto ela estava reunindo um exército na Síria para tentar reconquistar seu trono, a disputa política entre os líderes romanos Pompeu e Júlio César teve desdobramentos no Egito, e ela encontrou ocasião de recuperar sua posição trono, o que obteve valendo-se de sua capacidade de charme, sedução e influência pessoal. César também garantiu aos irmãos mais novos dela, Arsínoe IV e Ptolomeu XIV, o governo do Chipre, o qual Roma havia anexado.

As relações pessoais e afetivas entre Cleópatra e César, com quem teve um filho, Ptolomeu XV, ao qual ela chamou Cesário, ou Pequeno César (47 a.C.), e depois com Marco Antônio, o importante líder romano que se estabeleceu em sua corte e envolveu-se com ela. Isto a colocou em conflito com Otávio, o mais alto pretendente ao trono imperial, e levou a que um conflito diplomático, e depois militar, eclodisse em 31 a.C., no qual o Egito foi derrotado e anexado ao Império Romano.

A morte dela, por suicídio, assumiu dimensão trágica e veio a ser objeto de inúmeras representações teatrais, musicais e cinematográficas. Personagem fascinante e controversa, é lembrada como irresistível amante mas também como governanta astuta, que empregou seus vários talentos para preservar o Egito como um estado independente o máximo possível.

BIBLIOGRAFIA

CHAVEAU, Michael. Cleopatra: Beyond the Myth. Traduzido por David Lorton. Ithaca: Cornell University Press, 2002.

JONES, Prudence. “Cleopatra VII”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2,  p. 101-104.

JONES, Prudence. Cleopatra: a Sourcebook. Norman: University of Oklahoma Press, 2006.

KLEINER, Diana E. E. Cleopatra and Rome. Cambridge: Belknap Press of Harvard University Press, 2005.

WALKER, Susan; HIGGS, Peter (eds). Cleopatra of Egypt: From History to Myth. Princeton: Princeton University Press, 2001.


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Legenda: Constance Cummings-John

Fonte: KRIOS, Young. Instagram: @young_krios. 18 de jan. de 2020. Disponível em: https://www.instagram.com/p/B7dthsiH7ql/?utm_source=ig_web_copy_link. Acesso em: 27 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Jornalistas Memorialistas

Constance Cummings-John (1918-2000)

Educadora, nacionalista, política e primeira prefeita mulher de Freetown, em Serra Leoa.  Pertencia a uma família antiga e proeminente em seu país, de etnia krio, constituída de descendentes de retornados. Seu avô foi o conhecido escritor nacionalista e pioneiro do pan-africanismo chamado James Africanus Horton. Ela frequentou escolas de elite e a Freetown Secondary School for Girls (Escola Secundária de Freetown para Meninas ) (1926).

Sua mãe era amiga pessoal de Adelaide Casely-Hayford e, como ela,  acreditava no ensino vocacional para meninas. Por isso em 1935 enviou Constance para o centro de formação de professores na Whitelands College, na Inglaterra. Depois ela foi para os Estados Unidos com uma bolsa de estudos (1936), onde trabalhou na  Cornell University. A violência racial que Constance presenciou a fez perceber as consequências do colonialismo, e a educação tornou-se sua bandeira principal de luta. Ela passou por Londres, e ingressou em dois movimentos pan-africanos, a League Colored Peoples – LCP (Liga dos Povos de Cor) e o International African Service Bureau (Escritório Internacional Africano).  Pouco antes de retornar a Freetown (1937),  casou-se com o advogado Ethnan Cummings-John, com quem teve dois filhos.

Depois da II Guerra Mundial, em Serra Leoa, participou de diversas iniciativas voltadas para a educação destinada a meninas, e partitipou do Movimento de Mulheres de Serra Leoa – SLWM,  juntando-se ao recém-formado Partido Popular de Serra Leoa (SLPP). Em sua atuação política, fazia o possível para aproximar pessoas de diferentes grupos étnicos e religiosos, e no jornal, The Ten Daily News deu espaço e voz para as mulheres.

Em 1953 ela foi indicada pelo governo de George Beresford-Stooke para o Conselho de Freetown, e nas eleições de 1957 foi uma das duas mulheres eleitas para a Câmara dos Deputados, mas teve a posse contestada pelos oponentes. No ano seguinte voltou a ocupar o Conselho Municipal de Freetown.

Após a independência, o marido de Constance Cummings-John tornou-se o embaixador do país na Libéria. Em 1966 o Primeiro Ministro, Albert Margai a nomeou Prefeita de Freetown, mas logo depois teve que deixar o cargo devido a eclosão de um golpe militar que derrubou o governo anterior. Ela então abandonou o país e passou a viver na Inglaterra, voltando a ter contato com Serra Leoa em 1974-1976 e em 1996, em visitas temporárias.

BIBLIOGRAFIA

CUMMINGS-JOHN, Constance. Constance Agatha Cummings-John: memoirs of  a krio leader. Ibadan: Sam Bookman, 1995.

DENZER, LaRay. Constance A. Cummings-John: her early political career in Sierra Leone. Tarikh, v. 7, n. 1, p. 20-32, 1981.

DENZER, Laray. Constance Cummings-John”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 140-142.


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Legenda: Constance Magogo Kadinuzulu

Fonte: Princess Magogo, a matriarch and a musician. What I do, see, hear, eat and drink. 04 de ago. de 2013. Disponível em: https://artscomments.wordpress.com/2013/08/04/princess-magogo-a-matriarch-and-a-musician/. Acesso em: 27 de dez. de 2020.

Constance Magogo Kadinuzulu (1900-1984)

Princesa e rainha-mãe Zulu e compositora musical, nasceu em Nongoma, num momento em que o reino Zulu tinha sido corroído pela guerra civil e pelo colonialismo na África do Sul.  Seu pai passou a maior parte da infância de Constance exilado, tendo morrido em 1913.

Nesse meio de reviravolta política, encontrou consolo na música. Frequentou uma escola de missão Anglicana e em 1923 seu irmão arranjou o seu casamento com o chefe do clã Buthelezi. Foi a décima e principal esposa do Chefe Mathole, com quem teve um filho e duas filhas. Assim, enquanto se aplicava à maternidade também se aplicava às habilidades musicais, servindo como uma imbongi, uma espécie de cantora e tocadora em ritos religiosos.

Sua proeminência nesse meio predominantemente masculino foi marcante. Em 1939 foi gravada pela primeira vez por um etnomusicólogo britânico que reconheceu seu talento, e no período de 1950-1960 suas performances originais e tradicionais passaram a ser gravados regularmente, através da South African Broadcasting Corporation. Foi então que a gravadora lançou suas composições na coleção The Bantu Composers of Southern Africa (Compositores bantu da África do Sul) (1969) e alguns anos mais tarde a Tracey’s International Library of African Music (Biblioteca Internacional de Música Africana da Tracey) lançou o álbum The Zulu Songs of Princess Constance Magogo KaDinuzulu (As canções da Princesa Zulu Constance Magogo KaDinuzulu ) (1973).

No mesmo momento em que Constance alcançava prestígio nacional e internacional como artista, o seu filho conquistava simultaneamente reconhecimento por liderar os Zulus durante o regime do Apartheid. Como rainha-mãe e imbongi, ela reverenciava a ideologia do Partido da Liberdade Inkhata, e quando uma brigada feminina do Inkhata se formou em 1977 ela foi coroada como a heroína das mulheres Zulu.

Constance Magogo Kadinuzulu continuou sendo reconhecida e relembrada por muitos nacionalistas e amantes da boa música da África do Sul e do continente.

BIBLIOGRAFIA

GUNNER, Liz. A royal woman, na artist, and the ambiguities of national belonging: the case of Princess Constance Magogo. Kunapipi: journal of postcolonial studies, v. 24, n. 1, p. 205-223, 2002.

HEALY, Meghan. Constance Maggo KaDinuzulu”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 30-32.

HUSKISSON, Yvonne. The bantu composers of Southern Africa. Johanesburgo: South Africa Broadcasting Corporation , 1969.

RYCROFT, David. Princess Constance Magogo. In: LUCIA, Christine (Ed.). The world of South African music: a reader. Newcastle: Cambridge Scholars Press, 2005.


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Legenda: Constance Stuart-Larrabee

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/ File:Photo_of_Constance_Stuart_Larrabee.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Constance Stuart-Larrabee (1914-2000)

Nasceu como Constance Stuart na Cornualha, Inglaterra, e foi levada pela família para a Cidade do Cabo, na África do Sul, país em que viveu durante décadas. Estudou na escola primária em pretória, na Arcadia School, e frequentou a escola secundária na High School for Girls. Seu interesse por fotografia teve início aos dez anos de idade, quando ganhou de presente de aniversário uma máquina Kodak Box Brownie.

Teve a oportunidade de, na Inglaterra, estudar na Escola Politécnica de Fotografia Regent Sreet, passando a atuar em estúdios, e continuou os estudos em Munique, onde passou a trabalhar com a câmara fotográfica Rolleiflex, que ela usou em toda a sua carreira. De retorno à África do Sul, fundou em 1936 o Constance Stuart Portrait Studio em Pretória. Ela se tornou uma renomada retratista e fotografou muitos dos principais estadistas, generais, artistas, escritores, sociedade e personalidades teatrais da época. Em 1946, ela abriu um segundo estúdio em Johanesburgo.

No período de 1937-1949, desenvolveu o seu interesse pelo registro fotográfico de grupos étnicos desaparecidos da África do Sul, qualificados como “grupos tribais”, como os Ndebeles, Lobedu, Zulu, Suazi, Sothos, Tranksei, Khoi e outros, em seus trajes e costumes tradicionais, e as obras foram exibidas em Pretória, Johanesburgo e Cidade do Cabo.

Em 1945 serviu no Egito, Itália, França e Inglaterra, ligada ao 7º Exército Americano e à 6ª Divisão Sul-Africana. Embora ela tenha sido contratada para fotografar as tropas sul-africanas no exército, foi muito além de sua missão: fotografou as tropas americanas, francesas, britânicas e canadenses, bem como seus compatriotas sul-africanos. Ela também fotografou os civis que os soldados encontraram no caminho para a Alemanha e as aldeias, vilas e cidades devastadas em seu caminho.

Quando, em 1948, o Partido Nacional instituiu a política de segregação racial estrita ela abandonou o país, passando a morar nos Estados Unidos, onde passou a viver com o marido, Sterling Larrabee, onde permaneceu até o fim da vida.  

BIBLIOGRAFIA

CONSTANCE, Larrabee. Constance Stuart Larrabee: Time Exposure. New Haven: Yale Center for British Art, 1995.

ELLIOTT, Peter. Constance: One road to take: the life and photography of Constance Stuart Larrabee (1914-2000). Cantaloup Press, 2000.  

NEWBURY, Darren. “Constance Stuart-Larrabee”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 463-464.


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Legenda: Cristina Fontes Lima

Fonte: LIMA, Cristina Fontes. Twitter: @CristinaPAICV. Disponível em: https://twitter.com/cristinapaicv. Acesso em: 22 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Cristina Fontes Lima (1958)

Maria Cristina Lopes Almeida Fontes Lima é uma mulher pública cabo-verdiana. Formou-se em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e em 1996 conclui Mestrado em Administração Pública pela Southern Illinois University.

Na vida política, é integrante do Partido Africano pela Independência de Cabo Verde, e de meados da década de 1990 em diante tem atuado intensivamente em atividade parlamentar e principalmente na administração. Atuou como Ministra da Justiça (2001-2006), Ministra da Defesa (2006-2011), Vice-Primeira Ministra e Ministra da Saúde (2011-2016).

BIBLIOGRAFIA

COSTA, Suzano. Mulheres e participação política no Cabo Verde democrático. In: FONSECA, Carmelita; FORTES, Celeste (Eds.). As mulheres em Cabo Verde: experiências e perspectivas. Praia: Edições da UNICV, 2011.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave:

Daca (século XVI)

Poderosa governanta do reino de Bunioro-Quitara. Ela foi nomeada por seu marido, o mukama  de Bunioro, um governante local, e sob seu governo aumentou a influência regional do povo Luo.

Valeu-se de estratégias e alianças e impôs tributo a diversas comunidades ao Norte da região dos Grandes Lagos. Muito tempo depois, seu nome continuava na vivo memória popular e os novos chefes se autoproclamavam  membros  do Koch Pa-Daca, “O povo de Daca”.

BIBLIOGRAFIA

PALA, Achola; LY, Madina. La mujer africana en  la sociedad precolonial. Madrid: Serbal, 1983.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave: Místicas muçulmanas

Dada Masiti (+1920)

Nascida em Brava (Barawa), região de Banadir, na atual Somália, provavelmente na segunda década do século XIX. Seu nome completo era Mana Sitti Habib Jamaladdin, mas passou  ser tratada afetuosamente e respeitosamente de Dada Masiti, que significa, literalmente “Vovó Masiti”.

 Pertencia ao clã Asharaf, estabelecido em Brava desde o século XVII e que alegava descender da família de Maomé. Segundo algumas tradições, ela teria sido sequestrada na infância e levada para a Ilha de Zanzibar como escrava, enquanto para outras tradições ela teria sido levada para Paté por um homem com quem se casou e depois teria sido abandonada ou mantida em condição de escravidão, até ser resgatada pelos familiares.

No tempo que passou em Paté ela aprendeu o tendi, um gênero de poesia religiosa de caráter didático característico da costa oriental africana. Seus poemas conhecidos estão rimados na forma poética deste gênero literário, em estrofes com quatro linhas. Lembrada como uma weliyya, isto é, uma “mulher santa”, a maioria dos poemas que escreveu tratam de temas  místicos ou fazem o elogio de “homens santos” de Brava. O poema Shaykhi Chifa Isilowa foi feito em louvor do xeique Nureini Sabiri por ocasião de sua morte em 1909. Em outros ela recorda eventos de sua juventude ou reclama dos males que a atormentam em sua velhice.

Ela morreu com cerca de cem anos de idade. Anualmente homens e mulheres visitam o santuário construído em torno de seu túmulo em Brava.

BIBLIOGRAFIA

ALLEN, John Willoughby Tarleton. Tendi. Londres: Heinemann, 1971. 

DECLICH, Francesca. Sources ojn islam composed in the vernacular: somali women’s religious poetry. In: AMORETTI, Bianca Maria Scarcia (Ed.). Islam in East Africa: new sources. Rome: Herder, 2001, p. 297-330.

KASSIM, Mohamed. “Dhikr will echo from all Corners”: Dada Masiti and the transmission of islamic knowledge. Bildhaan: an international journal of somali studies, p. 104-120, 2002: https://arcadia.sba.uniroma3.it/handle/2307/4460

VIANELLO, Alessandra. “Dada Masiti”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 150-151.


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Legenda: Dambisa Moyo

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Dambisa_Moyo.jpg. Acesso em: 21 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Organização econômica

Dambisa Moyo (1969)

Nascida em Lusaka, capital da Zâmbia, formada em química pela American University (1991) e com Mestrado em Finanças na Universidade de Harvard (1997) e Doutorado em Macroeconomia pela Universidade de Oxford (2002).

Dambisa Moyo concentrou os seus estudos em assuntos globais e nas políticas econômicas internacionais e seu impacto na África, prestando assessoria a bancos e conglomerados internacionais. Trabalhou dois anos no Banco Mundial e no conglomerado Goldman Sachs, antes de seguir carreira como conferencista e escritora.

A sua primeira obra, Dead aid: why aid is not working and how there is a better way for Africa  (Ajuda morta: Por que a ajuda não está funcionando e qual a melhor maneira para ajudar a África) (2009), sobre o fracasso da ajuda internacional ao continente, logo se tornou um bestseller nos Estados Unidos.

Em suas obras seguines alarga o ângulo da interpretação para o cenário extra-africano. Nos livros intitulados How the west was lost: fifty years of economic folly – and the stark choices that lie ahead (Como o Ocidente se perdeu: cinquenta anos de insensatez econômica – e as fortes escolhas que temos pela frente) (2011) e Winner take all: China’s race for resources and what It means for the world  (O vencedor leva tudo: a corrida da China por recursos e o que isso significa para o mundo) (2012), a análise diz respeito à política econômica dos Estados Unidos e outras economias ocidentais que contribuíram para a crise financeira de 2008, e como políticas de países emergentes como a China, Rússia ou os países do Leste poderiam alterar as regras do jogo como agentes econômicos.

VÍDEO

MOYO, Dambisa.Is China the new idol for emerging economies? In: TED – Ideas worth spreading: https://www.ted.com/talks/dambisa_moyo_is_china_the_new_idol_for_emerging_economies#t-12917


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Legenda: Danielle de St Jorre

Fonte: Ministry for Youth Sports & Culture. Disponível em: http://www.pfsr.org/literature/pioneer-in-the-promotion-of-the-creole-language-honoured-in-seychelles-sculpture-of-danielle-jorre-de-st-jorre-unveiled/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Danielle de St Jorre (1943 – 1997)

Danielle Mrie-Madeleine Jorre de St Jorre foi uma linguista, política e diplomata, nascida em Mahé, a maior ilha do arquipélago de Seychelles, no Oceano Índico.  Seu nome de nascimento era Danielle d’Offay. Estudou na Universidade de Edinburgo, e realizou estudos de pós-graduação na Universidade de Londres e na Universidade de York, onde se especializou em linguística.

Nas ilhas Seychelles, atuou como professora no Teachers Training College, e ocupou durante muitos anos cargo executivo no Ministério da Educação. Em um país ocupado por ingleses e franceses, onde o bilinguismo e o fenômeno da mestiçagem cultural e linguística mostram-se como um traço relevante, ela se destacou internacionalmente por ter sido a pioneira na promoção da língua crioula, o kreol. Em 1976 participou do I colóquio internacional de estudos crioulos, em Nice, França, e alguns anos depois fundou o International Committee for Creole Studies (1979), o que levou a que as três línguas fossem adotadas no país como oficiais.

Sua atividade mais intensa ocorreu no período de 1989-1997, quando foi Ministra das Relações Exteriores, Meio Ambiente e Turismo da República das Seychelles e membro do Albert René.

BIBLIOGRAFIA

BENEDICT, Burton; BENEDICT, Marion. Men, women and Money in Seychelles: two views. Berkeley: University of California Press, 1982.

ST JORRE, Danielle de; Lionnet, Guy. Inventaire des spécificités lexicales du français aux Seychelles. Mahé, Seychelles. 1989.


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Legenda: Rainha do povo Boussa na Nigéria (1855)

Fonte: The New York Public Library. Disponível em: https://digitalcollections.nypl.org/items/510d47db-e34d-a3d9-e040-e00a18064a99. Acesso em: 20 de jan. de 2021.
Palavras-chave:

Daurama (século X)

Também por vezes referenciada como Magaiyja Daura, ou Daura. Rainha legendária, considerada ancestral dos povos hauçás, no Norte da Nigéria, também referenciada como Daura, que é também o nome de uma cidade assim nomeada em sua homenagem. A partir das tradições, estima-se que teria vivido no século X.

Segundo a lenda, a governanta da cidade enfrentava dificuldades devido ao aparecimento de uma grande serpente que impedia o povo de obter água em uma fonte local. Foi quando um estrangeiro proveniente da Arábia, Bayajidda, recebido na comunidade, matou o monstro, casando-se com a rainha e passando a dividir com ela o trono. Da união teria nascido Bawo que, assumindo o poder após a morte do pai, teve seis filhos, fundadores das dinastias hauçás em Kano, Aria, Gobir, Katsina, Rano e Biram.

A lenda evoca simbolicamente a passagem de uma estrutura de poder de tipo matrilinear e/ou matriarcal para a descendência por via patriarcal, identificando também a origem dos vínculos com o islã.

BIBLIOGRAFIA

SCHWARZ-BART, Simone; Schwarz-Bart,André. In  praise of black women: Ancient African queens.  Wisconsin: University of Wisconsin Press,  2001.

SWEETERMAN, David. Grandes mulheres da história africana. Lisboa: Nova Nórdica, 1988.


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Legenda: Delphine Kemneloum Djiraibé | Cortesia de RFK Human Rights

Fonte: Robert F. Kennedy Human Rights. Disponível em: https://rfkhumanrights.org/people/delphine-djiraibe. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Direitos Humanos

Delphine Kemneloum Djiraibé (1960)

Advogada e ativista de direitos humanos do Chade, nasceu em Koumra, uma cidade na província de Moyen-Chari, no sul do país. Ela tinha nove irmãos e irmãs. Seu pai Djiraibé era um soldado e um dos melhores alunos de François Tombalbaye, que veio a ser o primeiro governante do Chade (1960-1975). Ela frequentou escolas de freiras católicas em Koumra.

Como muitos chadianos, Kemneloum estava entusiasmada com as possibilidades de direitos humanos e democracia no Chade depois da queda do odiado governo de Hissene Habré (1982-1990). Ela ajudou a criar em 1991, e passou a presidir, a Associação Chadiana para a Promoção e Defesa dos Direitos do Homem – ATPDH, que se tornou uma das principais organizações de direitos humanos do país.

Em janeiro de 2006, Kemneloum falou em uma conferência internacional sobre abusos dos direitos humanos na África Central, realizada na Universidade da Cidade de Nova York. Ela convocou em vão uma conferência nacional de rebeldes, autoridades governamentais e Organizações Não-Governamentais para estabelecer uma democracia pacífica e depois, em outra conferência, defendeu o direito à objeção consciente.

BIBLIOGRAFIA

RICH, Jeremy. “Delphine Kemneloum Djiraibé”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p.

TUBIANA, Marie-José. Parcours de femmes: les nouvelles elites: entretiens, 1997-2003. Saint Maur: Sépia, 2004.


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Legenda: Delphine Zanga Tsogo | Foto: Isabelle Ebanda

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:DelphineTsanga.jpg. Acesso em: 15 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Repressão Sexual

Delphine Zanga Tsogo (1935-2020)

Nascida em Lomié, na República dos Camarões, durante o período colonial, sob dominação francesa. Formou-se em enfermagem na Universidade de Toulouse, e na década de 1960 trabalhou em hospitais nas cidades de Yaoundé, Garoua e Dschang.

Como militante feminista, atuou e presidiu comitês internacionais (CIF, MULPOC, CEA, UNESCO) para a pesquisa e ampliação da condição social e direitos das mulheres, como o Institut International de Recherche et de Formation des Nations Unies pour la Promotion de la Femme (Instituto Internacional de Pesquisa e Formação das Nações Unidas para a Promoção da Mulher) e o Conseil International des Femmes (Conselho Internacional das Mulheres).

Paralelamente, ganhou notoriedade como escritora de ficção literária. Como autora Zanga Tsogo publicou dois romances: L’oiseau en gage (O pássaro na gaiola) (1983) e Vie des femmes (Vida das mulheres) (1985), em que trata do controle patriarcal da sexualidade feminina, da violência doméstica e dos meios para a emancipação e a afirmação das mulheres.

BIBLIOGRAFIA

MILLER, Kim. Delphine Zanga Tsogo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 225-226.

NFAH-ABBENYI, Juliana Makuchi. Gender in african women’s writing: identity, sexuality and difference. Bloomington: Indiana University Press, 1997.

TOMAN, Cheryl. Contemporary matriarchies in cameroonian francophone literature: on est ensemble. Birmingham: Summa Publications, 2008. 


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Legenda: Deolinda Rodrigues

Fonte: O país. Feitos da nacionalista Deolinda Rodrigues recordados em palestra. Disponível em: https://opais.co.ao/index.php/2019/02/13/feitos-da-nacionalista-deolinda-rodrigues-recordados-em-palestra/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Deolinda Rodrigues (1939-1967)

Nascida como Deolinda Rodrigues Francisco de Almeida, em Cateste, Angola, era prima de Agostinho Neto, o primeiro presidente do país após a independência de Portugal. Recebeu a educação primária em escola missionária, recebeu bolsa de estudos da Igreja Metodista (1959) para estudar sociologia em São Paulo, no Brasil, onde morou por 1 ano e meio.  

Neste período, Portugal e Brasil estabeleceram o tratado que permitia Portugal extraditar pessoas consideradas ameaça à estabilidade do estado de Portugal e suas colônias. Temendo ser presa por suas opiniões políticas anticoloniais ela buscou asilo nos Estados Unidos e estudou na Drew University, em Nova Jersey. Regressou a Angola em 1962 e integrou o Corpo de Voluntários de Assistência aos Refugiados de Angola, em Leopoldville, tornando-se secretária da organização e membro do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Mobilizou mulheres para se unirem à luta de libertação, sendo a única mulher membro do comitê central da organização a assumir sua presidência. Foi também fundadora e presidente da Organização das Mulheres Angolanas (OMA).

Suas obras foram publicados após sua morte e incluem Poesia Angolana de Revolta (2003), Cartas de Langidila e outros Documentos (2004) e o livro Diário de Um Exílio Sem Regresso. Em seus diários, destaca os papéis assumidos pelas mulheres no exílio, na libertação e lutas cotidianas. No poema Mamãe, reconhece o colonialismo e a libertação como problemas não exclusivo de Angola, mas de toda a África.

Ainda no Brasil, escreveu uma carta a Martin Luther King Jr em que lhe pede conselhos sobre como obter independência em Angola. Ele respondeu a ela dizendo que o movimento de libertação precisava de um líder que atuasse como símbolo unificador, que a administração portuguesa atacaria essa pessoa ou grupo e esse ataque fortaleceria o movimento pela independência.

Deolinda foi aprisionada em 1963 e torturada na prisão de Kinkuzu. Ela morreu em 1967 durante um ataque da Frente de Libertação Nacional de Angola – FNLA, junto com mais 20 pessoas de seu batalhão. Em sua homenagem, o governo angolano celebra o dia  02 de março, aniversário de sua morte, como Dia Nacional da Mulher, e deu o seu nome a uma avenida em Luanda.

BIBLIOGRAFIA

RODRIGUES, Isabel Feo; Sheldon, Kathleen.  “Outras Vozes”: women’s writings in lusophone Africa. African and Asian Studies, v.7, p. 423-445, 2008.

PAREDES, Margarida. Combater duas vezes: mulheres e luta armada em Angola. Porto: Verso da História, 2015.

THOMPSON, Drew. “Deolinda Rodrigues”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 212-213.


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Legenda: Derartu Tulu Gemechu

Fonte: EcuRed. Disponível em: https://www.ecured.cu/index.php?curid=533326. Acesso em: 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Derartu Tulu Gemechu (1972)

Nascida em Bokoji, uma aldeia dos povos de etnia oromo, na Província de Arsi,  na Etiópia. Cresceu em meio às atividades tradicionais do mundo rural, até que aos dezessete anos foi admitida como oficial de polícia. Começou a destacar-se nas corridas organizadas na sua escola e rapidamente aumentou as suas perspectivas no âmbito nacional. Suas primas, Genzebe Dibaba, Ejegayehu e Tirunesh Dibaba, também se tornaram corredoras de alto nível internacioal em campeonatos de 10 e 5 mil metros.

Em 1989 Derartu participou nos Campeonatos Mundiais em Stavanger, Noruega, onde terminou no vigésimo terceiro lugar. Posteriormente, na edição de 1992 ocorrida em Antuérpia, ganhou a medalha de prata, passando a ser a primeira africana a vencer uma medalha nestes campeonatos. Três anos depois, no Mundial de Tóquio, a sua primeira grande competição, obteve a oitava posição nos 10  mil metros. No ano seguinte chegou a sua consagração com os Jogos Olímpicos de Barcelona 92, quando ganhou o ouro nos 10 mil metros, passando assim a ser a primeira mulher da África subsaariana a vencer uma medalha de ouro olímpica.

Uma lesão no joelho manteve-a distante da competição até 1995, data em que se proclamou campeã mundial de cross-country em Durham, na Inglaterra. Em 2000 participou nos Jogos Olímpicos de Sydney, onde conseguiu a medalha de ouro, fazendo também a sua melhor marca pessoal, em que estabeleceu um novo recorde olímpico de 30:17,49. No ano seguinte, conseguiu a vitória na Maratona de Londres e, posteriormente, ganhou o seu primeiro título mundial de 10 mil metros nos Mundiais de Edmonton, praticamente o único feito que faltava em sua trajetória.

A carreira de Derartu foi a personificação de seus princípios básicos de trabalho duro e disciplina. Em duas décadas, ela interrompeu a competição apenas pelo nascimento de suas duas filhas.

BIBLIOGRAFIA

CHAPPELL, R.; SEIFU, E.  Sport, culture and politics in Ethiopia. Sport in society, v. 3, n. 1, p. 35-47, 2000.

SAAVEDRA, Martha; SPICER, Byron. “Tulu Derartu”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 181-183.  

SCOTT, Robert A..  Evidence for the natural east african athlete. In: PITSILADIS, Yannis (Ed.). East african running: toward a cross-disciplinary perspective. Londres; Nova Iorque: Routledge, 2007, p. 257-282.


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Legenda: Dimi Mint Abba

Fonte: Dimi Mint Abba. 02 de out. de 2011. Facebook: @Dimi.Abba. Disponível em: https://www.facebook.com/Dimi.Abba/photos/ a.220147304670833/281905241828372. Acesso em: 13 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Tradições africanas

Dimi Mint Abba (1958)

Musicista mauritana.  Nasceu como Loula Bint Siddati Ould Abba. Seus pais eram de uma família iggawin, músicos pertencentes à casta  inferior da sociedade mauritana, similares aos griots mas sem o mesmo prestígio destes. A mãe a ensinou a tocar o ardin, um instrumento de cordas semelhante ao instrumento mandinga conhecido como kora, embora um pouco menor. Ela também executa o tidinit, um instrumento semelhante ao alaúde.

Dimi Mint Aba estreou nas rádios locais em 1976 e no ano seguinte deu início à carreira internacional, quando executou a música Sawt elfan (“voz da arte”, em árabe) no concurso de música anual internacional Umm Kulthum, em Túnis, vencendo a competição. Foi patrocinada pelo governo para representar a Mauritânia em competições e concertos na década de 1980.  Em 1989 realizou a primeira turnê europeia junto com seu marido, o conhecido violonista Khalifa Ould Eide.

Em 1990 lançou o álbum Moorish music from Mauritania (Música moura da Mauritânia), em que combina influências ocidentais e afro-saarianas, com letras que tratam de temas de amor e relações familiares. Ela defende o direito das mulheres escolherem seus maridos, e algumas de suas músicas criticaram a falta de liberdade das mulheres mauritanas.

Nas turnês que realizou pela Europa e Estados Unidos nos anos 1990  chamou a atenção de artistas conhecidos da África Ocidental, como Youssou N’Dour e Ali Farka Touré.

Em 2002, participou do Festival de Música Sagrada em Fez, no Marrocos e do Festival Internacional das Músicas na capital mauritana de Nouakchott (2004). Apresentou-se num concerto com o famoso baterista de jazz Jack DeJohnette em Paris (2009).

Suas performances frequentemente incluem as duas filhas, Zeyrouz Mint Seylami e Garmi Mint Abba, que tocam tambores. Dimi permanece como uma das mais amadas artistas na sua terra natal.

BIBLIOGRAFIA

MUDDYMAN, Dave. Mauritania and Western Sahara: ways of the moors. In: BROUGHTON, Simon; Ellingham, Mark.  World Music: 100 Essential CDs: the rough guide: Africa, Europe, and the Middle East.  Londres: Rough Guides, 2000, p. 562-566.

RICH, Jeremy. “Dimi Mint Abba”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 202.

SALEM, Lemine Ould M. Les sources de la musique maure.  Hommes et Migrations, n. 1245, p. 122-124, 2003.


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Legenda: Réplica de crânio do Dinkinesh

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:BH-021-T-A-afarensis-Lucy-3qtrR-Lo.jpg. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Dinkinesh (3.200.000 anos)

Nome atribuído ao que foi considerado durante décadas o mais antigo testemunho da evolução humana: os restos fósseis de uma espécime fêmea classificada como Australophitecus afarensis. Atualmente, outros restos fósseis de Ardiphitecus fazem recuar o conhecimento sobre os hominídeos, primeiros espécimes bípedes.

A descoberta ocorreu em 1974, por uma equipe internacional de paleoantropólogos sob a coordenação de Donald Johnson, do Museu de Cleveland (Ohio), e Yves Coppens, do Musee de l’Homme (Paris) em Hadar, na atual Etiópia. Após a reconstituição, a fêmea recebeu da parte dos cientistas o nome de Lucy, em referência ao fato de que, no dia em que foi encontrada a equipe ouvira no gravador a canção dos Beatles, Lucy in the sky with Diamonds. Entretanto, na Etiópia ela é também conhecida como Dinkinesh, que na língua amárica, falada naquele país, significa “Maravilhosa”.

O material fóssil encontrado tem datação aproximada entre 3,22 e 3,18 milhões de anos. O esqueleto de Dinkinesh, ou Lucy, continua a ser um dos mais completos até agora encontrados, com cerca de 40% da estrutura óssea preservada, o que permitiu a recomposição integral do corpo. Foram encontradas nove vértebras e algumas costelas, metade da bacia, o braço direito quase completo,  parte das pernas e do braço esquerdo, alguns ossos dos pés e das mãos, a mandíbula  com os respectivos dentes e pequenos fragmentos do crânio.

Os restos físicos, quando examinados, desenham uma silhueta muito frágil. Pelas proporções dos ossos, sua altura não era maior do que 1,22 cm, e seu peso é estimado em cerca de 30 quilos. A configuração da pélvis e dos membros inferiores não deixa dúvidas que se tratava de um ser que caminhava de forma ereta, embora a curvatura das mãos e dos pés sugiram que ela tinha conservado a capacidade dos primatas ancestrais para subir em árvores.

Dinkinesh continua a ser considerada uma das mais antigas ancestrais de toda a humanidade. O que torna ainda mais notável o achado é que, pelas evidências preservadas, ela era do sexo feminino. Alguns sugerem que poderia ter cerca de vinte anos quando morreu, como testemunham os seus dentes do siso, já nascidos, mas ainda não gastos.  Em 2016, análises realizadas pelo cientista John Kappelman, da Universidade do Texas, identificaram diferentes fraturas reveladas no seu fóssil, e a pesquisa leva a crer que sua morte teria ocorrido em virtude de uma queda, provavelmente ao cair de uma árvore.

Uma réplica do esqueleto de Dinkinesh encontra-se preservada no Museu Nacional da Etiópia, em Adis Abeba; outras duas réplicas são exibidas no Museu de História Natural de Cleveland (Ohio) e no Field Museum, em Chicago. 

BIBLIOGRAFIA

CHENE, G. et alii. A species’ odyssey: evolution of obstetrical mechanics from Australopithecus Lucy to nowadays. European Journal of Obstetrics & Gynecology and Reproductive Biology, v. 181, p. 326-320, 2014.

KIMBEL, William; DELEZENE, Lucas K..  “Lucy” redux:  a review of research on Australopithecus afarensis.  Yearbook of Phisical Anthropology, v. 52, n. 2, 2009: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1002/ajpa.21183

REBEYROL, Yvonne. Lucy: crônicas da pré-história. Mem Martins: Publicações Europa-América, 1992. 


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Legenda: Djamila Boupacha | Foto: Mustapha Brahim Djelloul

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Djamila_BOUPACHA.jpg. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Direitos Humanos

Djamila Boupacha (1938)

Militante na luta de libertação da Argélia. Nasceu na área antiga (Casbah) de Argel, em uma família de classe média.

Durante a guerra de independência argelina contra o colonialismo francês (1954-1962), atuou como agente de ligação para a Front de Libération Nationale – FLN (Frente de Libertação Nacional) com a missão de intermediar os contatos entre os rebeldes e a população civil em cidades e povoados. 

Djamila foi aprisionada por forças coloniais em 10/02/1960, quando tinha vinte e dois anos, e detida ilegalmente sob a acusação de ter plantado uma bomba no restaurante universitário da Universidade de Argel. Na prisão de El-Biar, foi torturada durante 33 dias por militares paraquedistas franceses, conhecidos pelo uso extremo de violência em seus interrogatórios, sendo espancada, chutada e pisoteada, tendo as costelas quebradas, os seios e as pernas submetidos a eletrochoques, a cabeça imersa em água salgada, além de abusada sexualmente com uma garrafa quebrada – prática conhecida como “o tratamento da garrafa”.

Apesar dela não ter sido a primeira vítima de ações como essa, seu caso ganhou repercussão através da feminista francesa Simone de Beauvoir, que criou um comitê em sua defesa, e da advogada tunisiana Gisèle Halimi, que a representou perante uma corte penal. Com a pressão pública ela foi transferida para uma prisão em Caen, na França, pois havia o temor que fosse assassinada antes do julgamento. Lá, foi submetida a um segundo exame médico cujo resultado confirmou a tortura, contrariando o exame anterior emitido por um médico em Argel que a negava. Uma petição foi então apresentada na corte de apelação em Caen e o caso ganhou dimensão internacional.

No julgamento, realizado nos dias 26-28/06/1961 no tribunal de Caen, Djamila identificou seus torturadores, mas a corte francesa a declarou culpada por plantar a bomba e ela foi sentenciada à morte. O veredito desencadeou um amplo movimento de solidariedade, Simone de Beauvoir e Gisèle Halimi publicaram um livro em 1962 com entrevistas fornecidas por ela, e o retrato de capa do livro foi feito por Pablo Picasso.

Ao fim da revolução argelina, as negociações levaram a que fosse anistiada, nos termos do que ficou conhecido como os Acordos de Evian.  No período posterior à independência ela trabalhou em programas de formação de mulheres, sua imagem foi usada pela FLN como símbolo nacional e ela foi considerada heroína de guerra. Retratos dela são mostrados no Museu do Exército em Argel, e seu exemplo de resistência inspirou a criação de canções e de um filme dirigido por Caroline Huppert em 2011. 

Pesquisadoras recentes argumentam que o componente da violência sexual e de gênero, inerente aos acontecimentos que envolvem a prisão e tortura de Djamila Boupacha, tenha sido minimizado em nome da ideologia nacional.

BIBLIOGRAFIA

BEAUVOIR, Simone de; HALIMI, Gisèle. Djamila Boupacha. Paris: Gallimard, 1962.

CODACCIONE, Vanessa. (Dé)politisation du genre et des questions sexuelles dans um procès politique en contexte colonial: le viol, le procès et l’affaire Djamila Boupacha (1960-1962), Nouvelles Questions Feministes, v. 29, n. 1, p. 32-45, 2010.

LAZREG, Marnia. The eloquence of silence: algerian women in question. Nova Iorque; Londres: Routledge, 1994. 

SALHI, Zahia Smail. “Djamila Boubacha”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 498-500.


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Legenda: Dolly Rathebe | Foto: Jurgen Schadeberg (cortesia)

Fonte: Jürgen Schadeberg. Disponível em: http://jurgenschadeberg.com/galleries/JazzSouthAfrica_SixDecades/Jazz_40.htm. Acesso em: 15 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Cinema

Dolly Rathebe (1928-2004)

Cantora sul-africana de jazz, atriz e modelo, nasceu em Radfontein, a Oeste de Johannesburg, era filha de uma empregada doméstica e foi criada pelos avós. Depois, foi com a mãe para Sophiatown, na periferia de Johannesburg, onde estudou e cresceu. Seu nome próprio era Josephine Malatsi, enquanto Dolly Rathebe é o nome artístico.

Começou a carreira interpretando canções de jazz em bares e clubes, mas logo alcançou o sucesso, em 1949, devido ao seu talento e qualidades performáticas. Neste ano ela foi convidada a participar, como atriz, do filme Jim comes to Jo’burg (Jim chega em Jo’Burg), o que também impulsionou sua carreira artística como modelo. Em 1952 participaria do segundo filme, The magic Garden (O jardim mágico), quando passou a aparecer com frequência em capas e matérias de revistas e jornais, com a Drum Magazine, Golden City Post e Zonk!, e se tornando um símbolo de beleza negra, de mulher negra urbana e sofisticada.

Dolly permaneceu no show de variedades e no mundo da música como atração durante os anos 1950-1960, apresentando-se com diversas bandas, como Manhattan Stars, The African Inkspots e principalmente The Elite Swingsters, na África do Sul, Zimbabwe (na época colonial, Rodésia do Sul) e Moçambique. Entre seus discos e compilações, estão Township Swing Jazz Volume 1 (1953) e From Marabi to Disco (1961).

Todavia, em virtude da queda de popularidade do gênero jazz band e principalmente devido às restrições impostas pela legislação do Apartheid, tornou-se cada vez mais difícil a apresentação de bandas negras para o público branco, sobretudo após a imposição de um toque de recolher para os(as) negros(as) às 20h. Ela então se mudou para a Cidade do Cabo e, para sobreviver, abriu um shebeen (um bar não licenciado). Em 1989, com a crise do Apartheid, ela voltou à cena artística e musical, juntando-se a The Elite Swingsters para atuar em um filme ambientado na década de 1950, e lançando os álbuns Woza (1991), A call for Peace (1995) e Siya Gida / We Dance (1997).

 No início do século XXI, recebeu diversos prêmios por sua carreira e atuação pública, como o Lifetime Achievement Award, e em 2004, pouco antes de morrer, foi agraciada com a Ordem Sul-Africana de Ikhamanga em Prata, dada pelo governo em reconhecimento pela “excelente contribuição à música e às artes cênicas e ao compromisso com os ideais de justiça, liberdade e democracia”.

BIBLIOGRAFIA

ALLEN, Lara. Music, film and gangsters in Sophiatown imaginary : featuring Dolly Rathebe. Scrutinya: issues in English Studies in Southern Africa, v. 9, p. 19-38, 2004.

ALLEN, Lara. “Dolly Rathebe”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 185-186.

RATHEBE, Dolly; PILISO, Ntemi. Lakutshon Lllanga : https://www.youtube.com/watch?v=WjvRCr1mtV0   

RATHEBE, Dolly; The African Ink Spots. Unomeva (Welkome Duru) : https://www.youtube.com/watch?v=Ro5QkFLMZ7Y  


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Legenda: Doris Lessing | Foto: Elke Wetzig

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Doris_Lessing_3.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Memorialistas Romancistas

Doris Lessing (1919-2013)

Romancista e escritora de contos, vencedora do Prêmio Nobel da Literatura. Nasceu como Doris May Tayler em Kermanshah, na Pérsia, atual Irã.  Seu pai trabalhava para o Banco Imperial da Pérsia, e decidiu se mudar para a então colônia britânica da  Rodésia para se tornar fazendeiro, aí se estabelecendo com a família. Após tentativas infrutíferas, a família se estabeleceu em Salisbury, a capital da colônia. Lá Dóris obteve sua educação formal em internatos até os quatorze anos, e depois trabalharia como babá, telefonista, e secretária de uma firma de advocacia.

Em contato com intelectuais e escritores que se opunham ao sistema se segregação racial vigente na Rodésia, com socialistas e exilados europeus que lutaram na II Guerra Mundial contra o Nazismo e o Facismo, ela acumulou experiências que inspirariam os  quatro primeiros volumes de sua obra Children of Violence (Filhos da Violência) (1945). Antes de deixar a Rodésia, completou The Grass is Singing (A grama está cantando) (1950), logo aclamado pela crítica.  Devido ao seu posicionamento público contrário à exclusão dos negros, foi considerada uma imigrante e, como tal, proibida de entrar na Rodésia (1956), que é o “lar” referenciado no título do romance Going Home (Indo para casa) (1957).

Ela só voltou a ser bem vinda na década de 1980, após a independência do país, que passou a se chamar Zimbabwe, e lá  esteve diversas vezes, descrevendo essas visitas nos livros African Laughter (Riso africano) (1992) e em Under my sky (Sob o meu céu) (1994). Outros livros situados parcialmente na África são Mara and Dann (1999) e The sweetest dream (O sonho mais doce) (2001), em que retrata a má administração do país que ela observou em suas visitas.

Em 2007, quando recebeu o Prêmio Nobel da Literatura, em seu discurso falou da biblioteca que ajudou a financiar e organizar a fim de levar livros para áreas rurais pobres do Zimbabwe.  

BIBLIOGRAFIA

CHENNELS, Anthony. “Doris Lessing”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 493-494.

THORPE, Michael.  Doris Lessing’s Africa. Londres: Evans Bros, 1978.

WARD, Jouve. White woman speaks with forked tongue: criticismo as autobiography. Londres; Nova Iorque: Routledge, 1991.


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Legenda: Dorothy L. Njeuma

Fonte: Alchetron. Disponível em: https://alchetron.com/Dorothy-L-Njeuma. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Professoras universitárias

Dorothy L. Njeuma (1943)

Nascida na cidade de Buea, no sudoeste dos Camarões, à época sob o domínio colonial inglês, seu pai tinha quatro esposas, o que lhe deu dez irmãos e irmãs. A mãe era professora, e despertou na menina a vocação de educadora. Njeuma estudou na Nigéria porque não havia escolas secundárias para meninas em sua cidade. Após graduar-se na Queen’s School, obteve uma bolsa de estudos no Pembroke College, nos Estados Unidos (1962). Durante sua estadia neste país, destacou-se como tenista amadora e foi capitã do time de Pembroke (1965). Em 1970, obteve o doutorado em biologia na Universidade de Londres. Em seguida, casou-se com o historiador Martin Njeuma, com quem teve duas filhas.

Após iniciar a carreira acadêmica como professora de biologia, Njeuma ocupou cargos administrativos de grande importância em duas universidades: foi nomeada reitora na Universidade de Buea (1987) e vice-reitora da Universidade de Yaoundé (2005). Ela é considerada uma das mais importantes administradoras acadêmicas em Camarões: foi vice-presidenta da Associação das Universidades Africanas, além de participar do comitê de direção da Universidade das Nações Unidas. Foi ainda presidente da Conferência de Reitores das Universidades Estatais da Republica dos Camarões, da Federação Nacional dos Esportes Universitários. Recebeu inúmeras honrarias durante sua carreira por parte de dois governos ditatoriais, entre elas, a de Grande Oficial da Ordem do Valor Camaronês (2001).

Apesar de seu destaque no campo acadêmico, tanto como professora quanto administradora, Njeuma teve uma longa e tumultuosa relação com os estudantes das universidades onde trabalhou, em particular com as uniões estudantis, as quais ela considerava ilegais. Após diversos protestos por parte dos estudantes, ela expulsou diversos líderes estudantis, enquanto a repressão por parte da polícia foi violenta, o que lhe rendeu uma reputação de autoritária.

Quando Dorothy Njeuma foi nomeada reitora em Buea (1987), a universidade contava com pouco mais de sessenta alunos. Única universidade anglófona no país, em 2003, o número de alunos havia subido para mais de sete mil, sendo que estes podiam escolher dentre 29 diferentes cursos de graduação. Este é um exemplo da sua habilidade como administradora, ainda que sua carreira tenha sido marcada pela proximidade com o regime ditatorial e com métodos de repressão e autoritarismo.

BIBLIOGRAFIA

KONINGS, Piet. Neoliberal bandwagonism: vivil society and the politics of belonging in anglophone Cameroon. Leiden: African Studies Centre, 2009.

MBAKU, John Mukum;  Takourang, Joseph. The leadership challenge in Africa: Cameroon under Paul Biya. Trenton: African Word Press, 2004.

RICH, Jeremy. “Dorothy L. Njeuma”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 474-475.


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Legenda: Dorothy Masuka | Foto: Peter Bennett / ZIFF

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Dorothy_Masuka.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Apartheid sul-africano

Dorothy Masuka (1935-2019)

Compositora e cantora, nasceu em Bulawayo, no atual Zimbabwe. Foi educada em escolas de missões católicas, inclusive quando se mudou aos 12 anos para Johannesburgo, na África do Sul. A alegria e energia de Dorothy para cantar vêm desde cedo, quando ela costumava se apresentar no restaurante de sua mãe em troca de moedas, cantando músicas populares de jazz afro-americanos.

Fez sua primeira gravação ainda enquanto estava na escola, em 1952, e no mesmo ano abandonou a escola para participar de uma banda. Em 1953 participou de celebrações importantes em Bulawayo, sendo que uma delas foi o concurso de Miss, o qual venceu. Em outra ocasião ela se apresentou com a banda Golden Rhythm Crooners para a rainha da Inglaterra. Depois disso Masuka deixou de vez a escola e decidiu construir uma carreira musical profissional.

Durante a década de 1950 circulou regularmente entre África do Sul e a Rodésia do Sul, sendo aclamada como uma estrela nacional em ambos países e divulgando o estilo musical conhecido como tsaba-tsaba, que mesclava elementos da música tradicional zulu e ndebele com elementos do jazz. Foi a primeira mulher negra da África austral a iniciar sua carreira de cantora em gravadora – algo inacessível para tantos outros.

Aproveitando a fama, quando foi implementado o regime segregacionista do Apartheid Dorothy criticou a situação e as dificuldades enfrentadas pelas pessoas negras, o que acarretou o seu exílio para o Zimbabwe, onde foi viver com seus três filhos.  Passou por um breve relacionamento conjugal e teve número significativo de outros relacionamentos, mas sempre priorizou sua independência pessoal e profissional.

Sob a proteção do Congresso Nacional Africano – ANC e outros movimentos pró-independência, Masuka pôde passar os anos 1960 viajando em países africanos apresentando músicas anti-coloniais e anti-Apartheid. Também passou alguns anos em Nova Iorque e Londres sendo abrigada por simpatizantes.

Depois da libertação de Nelson Mandela, em 1990, conseguiu retornar à África do Sul com a família. Entre os seus álbuns musicais estão Ingalo  (1987), Pata Pata (1990) , Mzilikazi (2001) e Lendaba (2003), além de várias compilações e coletâneas de suas canções das décadas de 1950 que foram regravadas.

BIBLIOGRAFIA

ALLEN, Lara. Commerce, politics and musical hybridity: vocalisation urban black South african identity during the 1950s. Ethnomusicology, v. 47, n. 2, p. 228-249, 2003.

ALLEN, Lara. “Dorothy Masuka”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 127-128.

MASUKA, Dorothy. Mali E Shebeen: https://www.youtube.com/watch?v=1HQGKCXOVc8



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Legenda: Dorothy Nyembe

Fonte: BASSON, Jess. DOROTHY NYEMBE. JESS BASSON. Disponível em: https://jessicaabasson.wordpress.com/2017/05/17/durban-street-names-dorothy-nyembe/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Dorothy Nyembe (1931-1998)

Ativista e líder política sul-africana durante o período do Apartheid, seu nome completo era Dorothy Nomzansi Nyembe.  Nascida em na área rural próxima a Dundee, na região de KwaZulu Natal, pertencia à linhagem governante de Ngedee Shezi.  Estudou em escola missionária até aos 15 anos, quando teve seu único filho.

Em 1953, em pleno regime segregacionista, entrou para o African National Congress – ANC (Congresso Nacional Africano), e no ano seguinte passou a liderar a Liga de Mulheres do partido na região de Natal. Era também membro da Federation of South African Women – FSAW (Federação das Mulheres Sul-Africanas). Nesta condição, atuou na liderança contra as medidas restritivas impostas à população negra, insurgindo-se contra a lei do passe livre nos anos de 1955-1956, que impunha o porte obrigatório de passes às pessoas negras em seu trânsito pelo país. 

Nesta fase de sua vida no qual ela se orientava pelo protesto pacífico, liderou a Revolta das Mulheres de Natal, movimento pacífico, baseado nos boicotes às cervejarias Beer Halls, que demitiam muitas mulheres, e também contra a Durban Corporation.  Além disso, foi uma das organizadoras da histórica marcha das mulheres até a sede do Governo em Pretória, em 1956, o que a levou a prisão naquele mesmo ano.

Na década de 1960, com o banimento da ANC após o Massacre de Shapperville, ela se juntou ao movimento de resistência armada, sendo recrutada pelo Umkhonto We Sizwe, o braço militar do partido, onde atuou junto com Albert Luthuli, Moses Mabhida, Nelson Mandela, Walter Sisulu e Oliver Tambo. Por suas atividades subsersivas, foi perseguida e aprisionada no período de 1963 a 1966, e depois de 1968 a 1983, nas prisões femininas de Barbeton, no Transvaal, e em Kroonstad, no Estado Livre de Orange.

Após sua libertação, passou em 1984 a atuar na Natal Organization of Woman – NOW (Organização das Mulheres de Natal), dirigindo o foco de suas ações na luta contra os aumentos de aluguel, custos de transporte, melhorias educacionais e melhorias nas instalações reservadas aos filhos de mulheres das camadas populares.  Com o fim do Apartheid, em 1994, foi eleita para a Assembleia Nacional, tendo recebido prêmios e homenagens pelo seu papel de destaque na luta pela libertação.

BIBLIOGRAFIA

BERNSTEIN, Hilda. For their triumphs and for their tears:  women in Appartheid South Afria. London: International Defense and Aid Fund For Southern Africa, 1985.

MILLER, Kim. “Dorothy Nyembe”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 520-521.

RUSSELL, Diana E. H.. Lives of courage: women for a New South Africa. New York: basic Books, 1989.


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Legenda: Dorra Bouzid

Fonte: IMDB. Disponível em: https://www.imdb.com/title/tt12565656/mediaviewer/rm1971825409/. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Dorra Bouzid (1933)

Nacionalista tunisiana, escritora, ativista dos direitos das mulheres e artista. Nasceu na cidade de Nabeul, na Província de Sfax, onde o pai tinha atividade no ramo editorial de livros árabes e era um ator amador.  Sua mãe, Cherifa, foi a responsável direta pelo ensino das primeiras letras, uma vez que não havia escola para meninas na cidade. Depois, estudou numa escola secular francesa com estudantes de diferentes religiões e origens. Após a morte do pai, a mãe se casou com Mahmoud Messaâdi (1911- 2004), uma importante figura na literatura contemporânea árabe bem como na história da educação na Tunísia pós-independência.

Dorra frequentou por um tempo a École des Beaux Arts (Escola de Belas Artes) em Túnis, porém sua mãe decidiu que ela deveria estudar Farmácia, uma vez que as artes não a tornariam financeiramente independente. Assim, em 1951 ela se matriculou na Escola de Farmácia em Paris, que na época contava com pouquíssimas estudantes muçulmanas. Foi durante o curso universitário que ela começou a se envolver em grupos de oposição ligados aos movimentos operários e ao anticolonialismo, vindo a participar de um jornal e da Associação de Estudantes Norte-Africanos.

Depois de formada, retornou à Tunísia, passando a trabalhar como farmacêutica. Paralelamente, foi convidada a ser colunista no jornal L’Action (A Ação), ficando responsável por dar continuidade ao trabalho dedicado à questões relativas às mulheres. Dorra deu início ao trabalho jornalístico numa coluna chamada “Leila vous parle” (Leila vos fala) – referência ao periódico feminino tunisiano chamado Leila, que circulara no período de 1936-1941. Com o pseudônimo de Leila, ela produziu os textos de uma coluna inteira que em 1955 passou a se chamar “L’action feminine” (A ação feminina). Em seu primeiro artigo, intitulado “Pedido por uma emancipação legal”, ela demandava direitos específicos para as mulheres.  

No ano seguinte, o então presidente da Tunísia, Habib Bourguiba, promulgou o Code du Statut Personnel (Código do Estatuto Pessoal), onde constavam alguns avanços na lei da família e na condição jurídica das mulheres, que passavam a ser consideradas juridicamente iguais aos homens. Além disso, o divórcio passava a ser previsto em lei, e o casamento passava a depender do consentimento do noivo e da noiva. Por esta ocasião, Dorra publicou outro artigo, com significativo título “As mulheres tunisianas são adultas”, no qual lembrava a(o)s leitoras(es) que dois clérigos muçulmanos é que tinham sido convidados a formular a nova legislação.

Em 1959, assumiu a chefia editorial da revista Faïza, que apesar de ter circulado apenas até 1967 continua a ser bem conhecida no Magrebe e em toda a África como a primeira revista feminista árabe-africana de língua francesa. Seu papel de liderança junto ao L’Action, que mais tarde passou a se chamar Jeune Afrique (Jovem África), levou a que fosse solicitada a servir de intermediária informal nas relações entre Tunísia e Marrocos.

Ao longo de sua carreira de sucesso, ela publicou inúmeros artigos sobre assuntos os mais variados, mas o foco nas questões específicas sobre as mulheres levou a que fundasse o periódico Femmes et Réalités (Mulheres e realidades). Valendo-se da influência do padrasto, teve acesso aos núcleos de decisão política e soube intervir na defesa dos direitos das mulheres e artistas.

No campo das artes, pesquisou e publicou um livro em que teoriza e sistematiza o modo de fazer arte de seu país:  École de Tunis: un âge d’or de la peinture tunisienne (A Escola de Túnis: uma idade de ouro da pintura tunisiana) (1995). Também foi publicamente reconhecida como pioneira da dança tunisiana, recebendo uma homenagem durante o festival internacional Le Printemps de la Danse (A primavera da dança) (2008).

BIBLIOGRAFIA

BOUJMIL, Hafedh (Ed.). Leila: revue illustrée de la femme, 1936-1941. Tunis: Editions Nirvana, 2007.

BOUZID, Dorra (Ed.). École de Tunis. Un age d’or de la peinture tunisienne. Tunis: Alif, 1995.

CLANCY-SMITH, Julia A.. “Dorra Bouzid”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 514-516.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave:

Doussou Damba (século XIII)

Personagem não reconhecida nos livros de história, mas presente nas tradições orais dos povos de língua mandinga relativos ao herói-fundador Sundjata Keita.

Segundo as tradições recolhidas junto ao djéli Wa Kamissoko em 1975, Dusu Daanba teria sido a líder de um grupo de doze mulheres que habitavam o Planalto de Warankantamba-Fouga, onde Sundjata teria procurado refúgio na época de seu exílio do reino do Mali.

A tais mulheres, qualificadas como nyègwan, isto é “almas de fogo” ou “olhos de fogo”, eram atribuídos determinados poderes sobrenaturais. A própria Doussou, por vezes nomeada como “patrona das mulheres” ou “pai das mulheres” detinha o poder da vidência e sabia tudo o que se passava no Mandinga. Instigadas pela rainha Sassouma Bereté, as mulheres tentaram assassinar Sundjata, mas este lhes ofereceu doze búfalos, um presente maior do que o oferecido, garantindo deste modo a sua vida.

BIBLIOGRAFIA

CISSÉ, Youssouf Tata; KAMISSOKO, Wa. La grande geste du Mali: 1- des origines à la fondation de l’Empire. Paris: Karthala-Arsan, 2000.


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Legenda: Dulce Almada Duarte

Fonte: Expresso das Ilhas. Morreu Dulce Almada, Pioneira do estudo do Crioulo. 24 de ago. de 2019. Disponível em: https://expressodasilhas.cv/cultura/2019/08/24/morreu-dulce-almada-pioneira-do-estudo-do-crioulo/65376. Acesso em: 22 de dez. de 2020.

Dulce Almada Duarte (1933-2019)

Linguista, professora e nacionalista cabo-verdiana, com participação nas lutas pela independência. Nascida na Ilha de São Vicente, estudou o primário e secundário em seu país e frequentou a Universidade de Coimbra, onde desenvolveu a pesquisa em linguística intitulada Cabo verde: contribuição para o estudo do dialeto falado no seu arquipélago, concluído em 1958 e publicado pela Junta de Investigações do Ultramar em 1961.

De retorno a Cabo Verde, atuou como professora e entrou para a resistência ao colonialismo, ingressando no Partido Africano da Independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde – PAIGC em 1959, através de Abílio Duarte, seu futuro marido.

Foi colaboradora do PAIGC junto da CONCP (Conferência das Organizações Nacionalistas das Colônias Portuguesas) em 1960. Ela foi enviada como representante do partido junto ao comitê da descolonização da ONU em 1962, e nos anos seguintes atuou na divulgação das ideias revolucionárias no rádio e na imprensa, no periódico A Libertação, e serviu como tradutora da obra de Amílcar Cabral para a língua francesa.

Após a independência, trabalhou em diferentes departamentos governamentais, incluindo o Ministério da Cultura e Educação. Na área da educação, contribuiu para a formulação da ortografia do crioulo falado nas ilhas, e como docente e pesquisadora dedicou-se aos estudos de língua e linguística românicas. O livro Bilinguismo ou diglossia? reúne alguns de seus principais ensaios elaborados entre 1977-1994.

BIBLIOGRAFIA

DUARTE, Dulce de almada. Entrevista. In: GODINHO GOMES, Patricia. Os fundamentos de uma nova sociedade: o PAIGC e a luta armada na Guiné-Bissau (1963-1973). Torino: L’Harmattan Italia, 2010, p.287-305.


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Legenda: Duriyya Shafik | Al-Ahram Weekly

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Doria_Shafik.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Feminismo islâmico

Duriyya Shafik (1908-1975)

Também referenciada como Doria Shafik. Foi uma importante feminista egípcia nascida na cidade de Tanta, na região do Delta do Nilo. Frequentou a escola missionária francesa, e na adolescência mudou com o pai para Alexandria, onde fez o secundário.  Com uma bolsa de estudos obtida com o apoio da União Feminista Egípcia ela encontrou os meios para realizar curso de filosofia na França (1928-1932).

No retorno, deu início à carreira como escritora e, com espírito rebelde, desafiou os padrões tradicionais da sociedade muçulmana egípcia, negando-se a assumir um casamento arranjado. Participou na Europa de concurso de Miss Egito, e pouco depois se casou com o jornalista Ahmad al-Sawi Muhammad mas logo se divorciou dele, e durante um segundo casamento, com Nur al-Din Ragai, completou sua tese de doutorado sobre os direitos religiosos das mulheres egípcias, pela qual obteve menção honrosa (1940).

Polêmica e controversa, por vezes em conflito com outras lideranças feministas, ela fundou a revista Bint al-Nil (A filha do Nilo) (1945), dedicada à consciência política das mulheres, e a União Bint al-Nil (1948), uma organização política dedicada à conquista de direitos políticos das mulheres e reformas sociais. Suas posições radicais e extremas, como a condução, em fevereiro de 1851, de centenas de manifestantes da Universidade Americana do Cairo que ocuparam durante quatro horas o Parlamento, que levou a sua prisão, acentuou as suas divergências com outras feministas, mais enquadradas nas pautas nacionalistas.

No período de governo de Gamal Abd al-Nasser, quando todos os partidos foram fechados, ela viajou para os Estados Unidos e a Grã-Bretanha (1953) e no ano seguinte, em meio a uma crise política precipitada pela luta de poder entre os novos líderes do Egito ela e outras pessoas fizeram greves de fome contra o sindicato da imprensa, o que despertou a hostilidade deste setor contra a sua imagem pública, e ela foi diversas vezes caricaturada e difamada. Em 1956 a constituição egípcia reconheceu a igualdade de direitos entre homens e mulheres, mas ela achou os termos muito vagos, e logo depois deu início a uma segunda greve de fome, desta vez dentro da Embaixada da Índia, motivo pelo qual foi mantida a seguir em prisão domiciliar. 

Por estas posições, muitas mulheres que ocupavam posições de liderança e apoiavam o regime de Nasser em suas pautas anti-coloniais ridicularizavam Duriyya e a consideravam fora de contexto. Ela perdeu gradualmente espaço de visibilidade e influência pública, e aos poucos entrou em profundo estado de depressão, divorciando-se do marido (1968) e perdendo o contato com as filhas que foram estudar no exterior, até cometer suicídio ao se jogar da varanda de seu apartamento.   

Ela é lembrada como uma líder transicional e controversa do movimento das mulheres, situando o seu ativismo entre a geração fundadora e a geração de mulheres que mais tarde concorreram a cargos públicos e que moldaram cada vez mais a sociedade civil. Sua vinculação aos valores da classe média, sua imagem e comportamento confiante e elegante incomodam muitos(as), inclusive defensoras de uma agenda feminista.

BIBLIOGRAFIA

GORDON, Joel. “Duriyya Shafik”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 346-347.

NELSON, Cynthia. Doria Shafik, egyptian feminist: a woman apart. Gainesville: Florida University Press, 1996.

SPENCER, Samia I.. Une francophone révoltée: Doria Shafik, poète, journaliste et militante féministe extraordinaire (1908-1975). Woman in French Studies, n. 26, 2018: https://muse.jhu.edu/article/709576


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Legenda: Efua Theodora Sutherland

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/File:Efua_Theodora_Sutherland.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Efua Theodora Sutherland (1924-1996)

Nascida como Efua Theodora Morgue, em Cape Coast, na então Costa do Ouro, que depois da independência passou a se chamar República de Gana, foi uma influente escritora, dramaturga, diretora de teatro, autora para crianças, educadora, pesquisadora, advogada de crianças e ativista cultural em defesa do pan-africanismo. Realizou sua formação na Inglaterra, e na década de 1950 participou intensivamente do processo de libertação colonial de seu país, sendo uma das mais influentes formadoras do teatro ganês moderno, e uma promotora cultural dos valores africanos.

No campo do teatro, é autora de diversas peças, entre as quais Foriwa (1962),  Edufa (1967),  e The Marriage of Anansewa (O casamento de Anansewa) (1975). Ela fundou o Ghana Drama Studio, a Sociedade de Escritores de Gana,  o Teatro Experimental de Gana. Foi também uma editora pioneira, fundando a empresa Afram Publications na década de 1970.Em suas peças, ela recuperou temas das histórias tradicionais veiculadas pela oralidade, transformando-as de acordo com as modernas técnicas do teatro ocidental.

Em 1963, quando assumiu o papel de pesquisadora associada no Instituto de Estudos Africanos da Universidade de Gana, levou para o campus o Ghana Drama Studio, que se tornou um espaço de treinamento fora do campus, e logo depois conceituou e estabeleceu a Escola de Artes Cênicas. Também preocupada com a narrativa tradicional e o desenvolvimento do teatro comunitário, fundou a Kodzidian (Casa das Histórias), reconhecida mundialmente como modelo pioneiro no teatro popular voltado para o desenvolvimento.  Em meados da década de 1980, escreveu uma proposta original para um festival de teatro histórico pan-africano em Gana que pudesse servir de veículo cultural para  reunião de africanos em todo o mundo, ressaltando o significado das conexões entre a África e sua diáspora. Isso foi concretizado no Pan-African Historical Theatre Festival – PANAFEST (Festival Pan-Africano de Teatro), realizado pela primeira vez em 1992.

Sutherland liderou como representante de Gana a ratificação da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da criança, e presidiu a Comissão Nacional da Criança de 1983 a 1990, período em que assumiu como prioritária a criação de uma advocacia infantil e a promoção da infância em todo o país.  Com esse intento, dirigiu uma série de programas inovadores, incluindo um Fundo de Educação Infantil para apoiar comunidades carentes, uma oficina estendendo o aprendizado de ciências às crianças pobres ou do campo, e a garantia de terras para criar parques e bibliotecas-modelo para crianças. Ela lançou as bases para a Fundação Mmofra, ativa desde 1997 como uma organização cívica dedicada a enriquecer a vida cultural e intelectual de todas as crianças de Gana.

Seu trabalho mais significativo no Instituto de Estudos Africanos, chamado Legon, foi o Projeto de Desenvolvimento do Drama Infantil, que teve como objetivo o desenvolvimento de materiais, métodos e pessoal treinado para o desenvolvimento de programas de teatro criativo dentro e fora da escola. Sutherland foi convidada pela UNICEF para participar de uma rede mundial de estudiosos para elaborar um código de direitos humanos para a proteção das crianças.  Escreveu diversas peças para crianças, como Playtime in Africa (Hora de brincar na África) (1960),  Vulture!Vulture! (1968), Tahinta (1968) e The voice in the forest (A voz na floresta) (1983).

BIBLIOGRAFIA

ADAMS, Anne V.; Sutherland-Addy, Esi. The Legacy of Efua Sutherland: Pan-African Cultural Activism.  Banbury: Ayebia Clarke Publishing, 2007.

GIBBS, James. Efua Sutherland: The ‘Mother’ of the Ghanaian Theatre. In:  Nkyin-kyin: Essays on the Ghanaian Theatre.  Cross/Cultures, n. 98, p. 91-12, 2009.

OGUNLEYE, Foluke. “Efua Sutherland”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 470-471.

SALM, Stephen; FALOLA,Toyn.  Culture and Customs of Ghana. Cona: Greenwood Press, 2002.

SUTHERLAND-ADDY, Esi. Creating For and With Children in Ghana – Efua Sutherland: a retrospective.  In: Etherton, Michael (ed.). African Theatre. Youth, James Currey Ltd, 2006, pp. 1–15.


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Legenda: Efunroye Tinubu

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Efunroye_Tinubu.jpg. Acesso em: 15 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Efunroye Tinubu (1805-1887)

Mercadora nigeriana e mulher de negócios com enorme influência política no século XIX nas cidades de Lagos e Abeokutá, no sudoeste da Nigéria. Pertencia ao grupo étnico Egba, do atual Estado de Ogun, na área cultural yorubá. Seu nome era Efunporoye Osuntinubu Olumosa, nasceu na cidade yorubana de Abeokuta, de uma família originária do reino de Owu.

 Efunroye aprendeu a arte do comércio com a sua mãe, Nijeede, que era vendedora de comida, e com a sua avó, Osunsola, que era conhecedora de plantas, ervas, raízes e casca de árvores e as utilizava no tratamento de doenças.  Ela se casou com um homem do grupo Owu, com quem teve dois filhos, e que morreu pouco tempo depois. Então, conheceu e se casou em 1833 com Adele, um obá (rei) exilado que vivia na cidade de Lagos.

O casal se mudou para Badagri, onde ela estabeleceu um lucrativo comércio de sal e tabaco, que trocava por escravos advindos de Abeocutá. Através de associações comerciais com traficantes de escravizados brasileiros e outros negociantes estrangeiros, Tinubu construiu um império comercial em toda a região. Ela se opôs ao obá Dosunmu em 1853 e entrou em conflito com agentes britânicos e liderou pessoalmente a resistência militar em Abeokutá contra a invasão do Daomé em 1864, lutando de armas na mãos, motivo pelo qual recebeu o título de Iyalodê, o mais alto grau de chefia feminina. Passou a fazer parte do Conselho de Chefes e a ser chamada de “Madam Tinubu” (Madame Tinubu, Senhora Tinubu).

Ela usou seu poder econômico para adquirir proeminência política em Lagos no período de 1870-1879. Controlava o comércio de óleo de palma, miçangas de vidro, álcool, tabaco e armas de fogo, investindo também na plantação de algodão e no processamento de tecidos de algodão de Ibadan para o comércio no exterior.  

Por seu prestígio e notável influência ela é lembrada em monumentos e nomes de ruas e locais públicos de Abeokuá, e celebrada como uma das mais celebradas mulheres Egba e a mais distinta personalidade do século XIX na Nigéria.

BIBLIOGRAFIA

BARNES, Sandra T. Gender and the politics of support and protection in precolonial West Africa.  In:  KAPLAN, Flora Edouwaye S.(Ed.). Queens, queens-mothers, priestesses, and power: case studies in african gender. Nova Iorque: The New York Academie of Sciences, 1997, p. 1-18.

BIOBAKU, S. Madam Tinubu. In: DIKE, K.O.. Eminent nigerians of the nineteenth century: a series of studies originally broadcast by the nigerian broadcasting company, Cambridge: Cambridge University Press, 1960, p. 33-41.

CHUKU, Gloria. “Efunroye Tinubu”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 28-30.

YEMITAN, Oladipo. Madame Tinubu: Merchant and king-maker. Ibadan, 1987.


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Legenda: Estátua de Efunsetan Aniwura em Ibadan, Nigéria

Fonte: Oyo Affairs. Efunsetan Aniwura: The most powerful woman in the Yoruba kingdom. mai. de 2021. Disponível em: https://oyoaffairs.net/efunsetan-aniwura-the-most-powerful-woman-in-the-yoruba-kingdom/. Acesso em: 19 de jan. de 2021.

Efunsetan Aniwura (1790-1874)

Nascida na cidade de Abeokutá, de uma família de origem Egba, na atual Nigéria. Seu pai era chefe de guerra de Ikija, e sua mãe era de Ifé e, ao que tudo indica, atuava como mercadora e a iniciou no mundo do comércio.  Ela se tornou uma das mais poderosas mulheres da comunidade yoruba de seu tempo, motivo pelo qual é lembrada com o título de yalodê.

Sua ascensão política e econômica ocorreu na cidade de Ibadan, onde tinha parentes que ocupavam posições importantes, e onde encontrou condições de desenvolver suas habilidades como empreendedora, negociante, mediadora e líder política. Ali ela praticou o comércio, acumulou dinheiro e comprou grande quantidade de escravizados(as) que trabalhavam em suas fazendas em plantações de fumo e um produto cosmético local chamado kijipa, que ela revendia em Porto Novo, Badagri, e mesmo em exportações para a América.  

Na década de 1860, foi reconhecida como yalodê de Ibadan, acumulando prestígio e aumentando sua influência política. Manteve contatos com membros da Igreja Anglicana e incentivou a implantação do cristianismo na sua cidade. Quando a inglesa Anna Hinderer, pessoa vinculada à comunidade anglicana, viveu na Nigéria, deixou um retrato muito vivo de Efunsetan Aniwura em seu diário que foi publicado com o título Seventh years in the yoruba country (Dezessete anos no país dos yorubas). Para o ano de 1872 ela escreve:

“Entre os yorubas existe uma iyalode ou mãe da cidade, a quem as mulheres submetem todas as suas disputas, antes de serem levadas ao rei. Ela é, na verdade, uma espécie de rainha, uma pessoa de grande influência e tratada com muito respeito. Enviei-lhe um mensageiro para comunicar-lhe que gostaria de visita-la. Mandou-me dizer que ficaria encantada com minha visita… Deparei-me com uma senhora do tipo maternal, cercada por seus servidores e outras pessoas, num ambiente cerimonioso e de grande ordem”.

A influência e liderança de Efunsetan foi afetada em 1874, quando foi deposta da posição de yalodê por instigação de adversários, e segundo consta teria sido pouco depois assassinada por dois escravizados, a mando de seu maior adversário político, o chefe Aare Latoosa. Ela permanece popular na memória dos(as) nigerianos(as), tendo sido enaltecida em livros, peça de teatro e filme, e homenageada em um monumento público em Ibadan.

BIBLIOGRAFIA

IDOWU, Olawale. Gender and the politics of exclusion in pre-colonial Ibadan: the case of iyalode Efunstan Aniwura. Journal of traditions and beliefs, v. 2, n. 21, 2018: https://engagedscholarship.csuohio.edu/jtb/vol2/iss1/21

OGUNLEYE, Foluke. A Male-centric modification of history: Efunsetan Aniwura Revisited. History in Africa. V. 31. p. 303–318, 2004.


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Legenda: Ilustração mariana

Fonte: Livro dos Milagres de Maria (Etiópia, séc. XVII)
Palavras-chave:

Eleni da Etiópia (1430?-1522)

Eleni – na língua amárica, ‘Ǝlǝni (እልኒ), também romanizado como Helena – foi uma das rainhas consortes do nǝguś etíope Za’rä Yäcǝqob (1434-1468), da chamada Dinastia Salomônida. Sua influência e atuação política na corte da Etiópia excederam em muitas décadas o próprio reinado deste monarca, sendo determinantes para o decurso histórico do Estado cristão entre o final do século XV e início do XVI.

Originária do Sultanato de Ḥadīya, tributário do Estado cristão, Eleni chegou à Etiópia possivelmente ainda criança, mediante um contrato matrimonial estabelecido por Za’rä Yäcǝqob após o apoio militar daquele sultanato nas guerras contra cAdal, subjugado em 1445. Portaria o título esposal de QäñBä’altēḥat (ቀኝዕ : በእልቴሐት), “Rainha da Mão Direita”, denominação que carregou consigo mesmo durante o reinado de Bä’əda Maryam (1468-1478), sucessor de Za’rä Yäcǝqob – o que era considerado incomum. Conforme a Crônica de Bä’əda Maryam registra, Eleni preservou o título devido às suas qualidades e proficiências em todos os campos – suas boas obras, sua fé, habilidades culinárias, elegância, seu conhecimento das Escrituras Sagradas e da boa linguagem –, considerando-a “como sua própria mãe”.

Durante a breve regência dupla em nome do ainda infante ‘Ǝskənder (1478-1494), Eleni é ostracizada da vida política pela rainha Romna, viúva de Bä’əda Maryam, e pelo Beḥt Wäddäd (governador) Amdä-Mika’əl, da velha guarda de Qwäsṭantinos. Amdä-Mika’əl assumiria grandes poderes de forma despótica, e um grande movimento de oposição – aparentemente, liderado por Eleni – pôs fim à sua regência e garantiu a autonomia de governo a ‘Ǝskənder; desta vez, com Eleni cumprindo o papel de matriarca simbólica da Corte. Com efeito, quando o nǝguś Nacod (1494-1507), irmão de ‘Ǝskənder, foi morto em campanha militar contra os muçulmanos de cAdal, seria Eleni a responsável por assumir o protagonismo da regência em nome da menoridade de Lǝbnä Dǝngǝl (1508-1540), que governaria sob o nome régio de Däwit II.

A conjuntura do início do século XVI, entre a crescente ameaça do Egito Mameluco e o estabelecimento dos primeiros contatos com Portugal a partir da chegada de Pêro da Covilhã à Corte etíope (1494) levam Eleni a tomar a iniciativa de enviar uma embaixada formal a D. Manuel I (1495-1521), com uma proposta de aliança militar entre ambos reinos cristãos – africano e europeu. A embaixada, que partiu em 1509 e chegaria a Lisboa somente em 1513, capitaneada pelo clérigo armênio Matewos, era coroada com uma oferta de matrimônio entre a Casa Salomônida e a Dinastia de Avis, presentes diplomáticos e relíquias.

Eleni era ainda viva quando a embaixada de D. Rodrigo de Lima, em resposta a seu apelo, finalmente chegou em 1520 aos altiplanos da Etiópia para ter com Däwit II, agora reinante; de idade já avançada, a reverência à sua figura é ainda relatada por Francisco Álvares. Afasta-se da vida na Corte e passa a residir em suas propriedades na província de Gojjam, onde faleceria em 1522.

Pesquisa e redação: Gabriel Giacomazzi

Referências

HERMAN, Margaux. Figures féminines chrétiennes, exaltation de la dignité de roi et participation politique des reines (Éthiopie, XVe-XVIIIe siècle). Annales d’Éthiopie, Vol. 30, n. 1, pp. 71–118, 2015.

KREBS, Verena. “Ǝleni’s Mission to Portugal, 1508-1509”. In: ____. Medieval Ethiopian Kingship, Craft, and Diplomacy with Latin Europe. Cham (Suíça): Palgrave Macmillan, 2021, pp. 143-146.


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Legenda: Elinor Sisulu

Fonte: Blog James Murua Literary. 02 de jun. de 2016. Disponível em: https://www.jamesmurua.com/new-etisalat-prize-judges-2016-seek-entry-self-published-folks-need-not-apply/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Direitos das mulheres

Elinor Sisulu (1958)

Batizada como Elinor Batezat, é uma ativista política e escritora nascida em Salisbury, atualmente Harare, Zimbábue. Crescendo na antiga Rodésia sob o domínio da minoria branca, optou pela carreira de escritora após desenvolver interesse pela leitura, contradizendo o esperado como aspiração de carreira para uma criança negra na década de 1960, que se restringia a professor ou enfermeiro.

Em 1980, formou-se com Honra Especial pela Universidade do Zimbábue antes de prosseguir seus estudos no Instituto da ONU para o Planejamento e Desenvolvimento Econômico (IDEP, na sigla original) no Senegal. Em 1984, realizou seu mestrado em Estudos de Desenvolvimento em Amsterdam, concluído em 1985.

Na Holanda, Elinor conheceu Vuyisile Max Sisulu, filho dos proeminentes líderes do Congresso Nacional Africano: Walter e Albertina Sisulu, grandes inspirações suas para escrever a biografia Walter and Albertina Sisulu: in our lifetime (Walter e Albertina Sisulu: em nossa vida) (2002), livro que ganhou o prêmio Noma Award for Publishing In Africa em 2003. Em 1993, recebeu uma bolsa para estudar no Instituto Bunting da Radcliffe College, em Cambridge, Massachusetts.

Com impressionante carreira acadêmica e ativista, esteve envolvida no Ministério do Trabalho do Zimbábue. Em seu período no Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento, interessou-se por questões de gênero e produziu várias publicações acadêmicas. Após sua mudança para a África do Sul em 1991, manteve seus interesses em feminismo negro, atuando como editora assistente na revista feminista So to Speak.

Nesse período, escreveu The day gogo went to vote (O dia em que Gogo votou), um livro infantil sobre a primeira eleição democrática realizada na África do Sul em 1994. Em 2004, iniciou a filial de Johanesburgo da Coalizão de Crise do Zimbábue, atuando como gerente de mídia e defesa da organização. Também ocupou um cargo no Heal Zimbabwe Trust, dedicado a fornecer ajuda aos refugiados do Zimbábue na África do Sul.

BIBLIOGRAFIA

CHETTY, Suryakanthie. “Elinor Sisulu”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 399-401.

LAWSON, C.R. Rooted in History: A Profile of Elinor Batezat Sisulu.  The World and I, 1º de fevereiro de 2002: https://www.worldandi.com/specialreport/2002/february/Sa21774.htm

SISULU, Elinor. Walter and Albertina Sisulu: in our Lifetime. Claremont: David Philip Publishers, 2002.


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Legenda: Elisabeth Adekogbe

Fonte: Le Maitron – Dictionnaire Biographique, Mouvement Ouvrier, Mouvement Social. 25 de fev. de 2015. Disponível em: https://maitron.fr/spip.php?article170968. Acesso em: 22 de dez. de 2020.

Elisabeth Adekogbe (1919-1968)

Nasceu no seio de uma família tradicional de Ijebu, na área cultural yoruba, durante o período colonial da Nigéria. Frequentou uma escola de formação católica e o Yaba Higher College, na cidade de Lagos.

Nas  décadas seguintes, atuou primeiro como Inspetora de Preços durante o período da II Guerra Mundial,  como professora, diretora de escola e jornalista, e se tornou uma das mais importantes ativistas dos direitos das mulheres, fundando em 1952 o movimento conhecido como Women Movement of Nigeria – WMO (Movimento das Mulheres da Nigéria) a partir de Ibadan. Os objetivos do grupo eram pelo reconhecimento dos direitos políticos às mulheres, sufrágio universal, a admissão em conselhos de representação das autoridades locais, a nomeação para as instâncias de representação coloniais. Também reivindicava ampliação de direitos civis, como a admissão de meninas em escolas secundárias; a redução no preço dos dotes de noivas e determinadas direitos nas atividades comerciais.

Dois anos mais tarde, em 1954, Elizabeth Adekogbe  participou da direção do Council of Women’s Societies of Nigerian and the Cameroons (Conselho das Sociedades de Mulheres da Nigéria e dos Camarões), que em 1959 foi  uma das importantes coalizações que atuou durante o período da independência do país. Neste contexto, sua liderança foi disputada por Funmilayo Ransome-Kuti, outra importante ativista e liderança feminina nigeriana da época.

BIBLIOGRAFIA

PANATA, Sara Panata, Revendiquer des droits politiques au Nigéria. Le Women Movement dans les années 1950. Clio. Femmes, Genre, Histoire , n. 43,  2016: https://doi.org/10.4000/clio.12988

PANATA, Sara. Les trajectoires des militantes d’Ibadan : le succès d’un apolitisme de façade et l’échec du militantisme politique (1947-1957). Recherches feministes, v. 29, n. 2, p. 105–130, 2016: https://id.erudit.org/iderudit/1038723ar


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Legenda: Elisabeth Domitien

Fonte: Business Insider. Elisabeth Domitien, prime minister of the Central African Republic, 1975. 11 de jun. de 2016. Disponível em: https://www.businessinsider.com/hillary-clinton-made-history-this-week-but-other-countries-have-had-female-heads-of-government-for-decades-2016-6. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Elisabeth Domitien (1925-2005)

Primeira-Ministra da República Centro-Africana (CAR), proeminente líder de negócios e ativista dos direitos das mulheres. Nasceu em Bangui, na então colônia de Ubangi-Shari, na África Equatorial Francesa. Pertencia  à etnia Mbaka (Ngbaka), que habita a região de Lobake.

Elisabeth casou-se com um fazendeiro europeu dono de plantações de café que a seguir assumiu a prefeitura de Lobaye. Dentro de algum tempo, tornou-se empresaria rica, com negócios de tecidos e produtos agrícolas no início dos anos 1950. Ela se juntou ao Movimento de Evolução da África Negra – MESAN, e apoiou o Primeiro Ministro Barthélemy Boganda (1958) e o Presidente David Dacko (1960-1966), proferindo discursos inflamados em língua sango e não em francês, como era o costume.  Fez parte de comitivas presidenciais em viagens ao exterior.

No terceiro Congresso do MESAN, liderou a criação Associação Centro-Africana de Mulheres, tornando-se líder ativa junto com outras ativistas dos direitos das mulheres. Com o apoio do presidente David Dacko, assumiu a vice-presidência do partido e tentou alcançar a presidência, mas o cargo foi ocupado pelo coronel Jean Bedel Bokassa.

Em 1973 Elisabeth  presidiu com sucesso o primeiro Congresso Nacional de Agricultores da África Central. Apoiou durante anos a ditadura do  presidente Jean Bedel Bokassa (1966-1976), atuando como Primeira Ministra em 1974, porém ambos romperam quando ele declarou a intenção de se proclamar imperador (1976). Ela foi retirada do cargo e se retirou para Bimbo, onde voltou a se dedicar aos negócios. Mas logo que o regime de Bokassa I foi derrubado pela Operação Barracuda (1979) ela foi  acusada de traição e condenada, tendo os bens confiscados e mantida na prisão no período de 1979-1981.

Elisabeth Domitien se retirou da vida pública, passando a cuidar da vida pessoal em um apartamento situado em Bangui. Sua residência foi saqueada durante uma revolta em 1991. Ela então recebeu ajuda financeira do então presidente Ange-Félix Patassé, que tentou, sem sucesso, levá-la novamente para a vida política.

 
 

BIBLIOGRAFIA

BRADSHAW, Richard; FANDOS-RIUS, Juan. “Elisabeth Domitien”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 238-239.

TITLEY, Brian. Dark age: the political odyssey of Emperor Bokassa. Montreal: McGill-Queen’s  University Press, 1997.


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Legenda: Elisabeth Kayissan Pognon

Fonte: Banouto. Bénin/Cour constitutionnelle: Elisabeth Pognon salue les avancées et la touche Djogbénou. 14 de set. de 2019. Disponível em: https://archives.banouto.info/article/politique/20190914-bnin-cour-constitutionnelle-elisabeth-pognon-salue-les-avances-et-la-touche-djogbnou/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Elisabeth Kayissan Pognon (1937)

Nasceu durante o período colonial francês no então Daomé, que posteriormente, em 1975, passou a se chamar República do Benin. Estudou direito em Bourdeaux e em Paris e deu início à carreira como magistrada em 1965. Lecionou no Centre des Formations Administrative et Professionelle (Centro de Formações Administrativa e Profissional)

Nos anos 1990 ela presidiu a Corte de Primeira Instância em Cotonou; depois atuou como conselheira na Corte de Apelações e mais tarde na Suprema Corte do país. Em 1992 ela teve papel determinante na Corte Constitucional durante o processo de redemocratização do país, e foi presidenta da Corte Constitucional (1993-1998), quando ganhou o apelido de “dama de ferro”.

O país passou por muitos momentos tortuosos desde o processo de Independência em 1960: crises constitucionais, tentativas de golpe, sete golpes militares e, finalmente um golpe de estado liderado por civis. Nas eleições de 1996, ela e seus colegas receberam ameaças de morte de um grupo denominado “Patriotas do Sul”, mas deram posse ao candidato eleito pelo voto, Matthieu Kérékou. Um ano mais tarde este foi confrontado pela Corte Constitucional presidida por ela quando assinou uma lei que anistiava 30 militantes entre seus partidários que tinham sido condenados por participar de uma tentativa de golpe de Estado no governo anterior.

O trabalho de Pognon foi reconhecido internacionalmente: em 1996 ela foi premiada com o Africa Award, na Alemanha, e a partir de 2007 passou a integrar uma das comissões da União Africana representando a região da África ocidental.

BIBLIOGRAFIA

AIVO, Frédéric Joël. Juge constitutionnel et l’état de droit en Afrique: l’exemple du modele béninois. Paris: L’Harmattan, 2006.

KOHNERT, Dirk. “Elizabeth Kayissan Pognon”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 115-116.

POGNON, Elisabeth K. La cour constitutionnelle et la protection juridique des droits de l’homme en République du Bénin. Développement et Coopération , Bonn, v. 5, p.  23 – 25, 1998.


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Legenda: Elisabeth Mafekeng

Fonte: South African History Online. Disponível em: https://www.sahistory.org.za/people/elizabeth-mafekeng. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Elisabeth Mafekeng (1918-2009)

Ativista anti-apartheid e sindicalista sul africana, ela ajudou a mudar a visão arcaica de que as mulheres não deveriam ser necessariamente cidadãs ativas nas lutas das classes trabalhadora e negra. Nasceu no leste do país e em 1927 ela e a família se mudam para Cape Town por conta da morte do pai e na perspectiva de melhora de vida. Para ajudar a família, Elisabeth deixa a escola em 1932 para trabalhar em uma fábrica, ganhando 75 cents por semana. Apesar dessas condições ela continua na indústria e em 1937 se casa.

Com a eclosão da II Guerra Mundial, a urbanização que se espalhava no país e junto com ela as desigualdades sociais, Elisabeth filia-se ao Communist Party of South Africa –CPSA (Partido Comunista da África do Sul), ajudando a organizar o Food and Canning Workers Union – FCWU (Sindicato dos Trabalhadores em Conservas e Alimentos) na intenção de melhorar as condições dos trabalhadores nas fábricas. Ela continuou atuando na FCWU até 1947, quando o estado pressionou para que a organização se separasse racialmente, ficando a original e a African Food and Canning Workers Union – AFCWU (União Africana dos Trabalhadores em Conservação e Conservas).  Em 1950 o comunismo foi banido, assim como toda e qualquer articulação anti-apartheid e em prol dos trabalhadores.

Elisabeth foi eleita presidente da AFCWU em 1954, também no mesmo ano serviu como delegada para a conferência de fundação da Federation of South African Women (Federação das Mulheres Sul-Africanas) e como secretária na Food Workers Union na cidade de Paarl.

No ano seguinte, em 1955, contrariando a proibição das autoridades, ela viajou sem passaporte para a conferência internacional dos trabalhadores sindicais na Bulgária, e depois foi à China, onde revelou a forte repressão do governo sul-africano. Ao retornar ao país, proclamou  sua famosa frase : se os trabalhadores se unirem, nada pode nos parar!”.

Em 1959, após liderar uma grande manifestação contra a Lei do Passe, Elisabeth foi deportada da África do Sul, passando a viver no Lesoto, longe dos filhos, mas trabalhando incansavelmente para derrubar o regime do Apartheid. Ela retornou ao país em 1990, e continuou no movimento sindical até sua aposentadoria devido a problemas de saúde.   Ela viveu em Paarl até sua morte, aos 90 anos.

BIBLIOGRAFIA

McGEE , Holly. Radical antiapartheid internationalism and exile: the life of Elizabeth Mafeking. Abington: Routledge, 2019.

McGEE, Holly. “Elisabeth Mafekeng”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 23-24.

 


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Legenda: Elissa em medalha em bronze (c. 1550)

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Portrait_medal_of_Dido,_Queen_of_Carthage_(obverse);_A_View_of_Carthage_(reverse)_MET_DP-1241-011.jpg. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Elissa (Dido)

Lendária fundadora de Cartago, também chamada de Dido, Deido e Theiosso. Embora certamente tenha sido uma figura mitológica, foi imortalizado nos versos da Eneida, de Virgilio.  O mais antigo registro literário sobre ela provém de Timaios, no século IV a.C., e a versão histórica mais detalhada é a de Pompeu Trogus, do final do século I a.C.

Segundo tais relatos, com a morte de seu pai, Mutto, rei de Tiro, Elissa tornou-se governante da cidade com seu irmão Pygmalion, que prontamente matou seu marido Acherbas, supostamente por sua riqueza. Ela reuniu apoiadores e foi primeiro para Chipre e depois para o litoral norte-africano, estabelecendo-se em um lugar que veio a ser chamado Byrsa, que logo alcançou prosperidade e passou a ser chamada de Cartago. Teria sido desejada, cortejada e mesmo ameaçada por pretendentes locais, mas manteve-se fiel ao marido falecido, suicidando-se em sua própria pira funerária, sendo para sempre adorada em Cartago.

A história de Elissa reproduz elementos distintivos da tragédia grega, incluindo a rivalidade entre irmãos, fundação de cidades, e mesmo a caracterização das populações locais como ignorantes e os adventícios e invasores como engenhosos. Na versão de Virgilio, Dido teve contato com o herói Enéias, por causa de quem cometeu suicídio. A maior parte dos detalhes da Eneida provém da imaginação criativa de Virgílio, como a partida de Enéias para a Itália – algo significativo apenas para os romanos.

De modo geral, Dido,  ou Elissa vem a ser o modelo de esposa fiel, que preferiu o suicídio a viver com a difamação da memória do falecido marido. Nos tempos modernos, ela tem sido frequentemente retratada nas artes visuais, por artistas plásticos como Rubens e  Turner, por teatrólogos como Christopher Marlowe,  e especialmente na ópera, em que foi retratada em mais de uma dúzia de versões, de Cavalli a Berlioz e Massenet.

BIBLIOGRAFIA

MARTIN, René. Enée et Didon. Paris: Editions  du CNRS, 1991.

SCHEID, J.; Svenbro, J.. Byrsa. la ruse d’Élissa et la fondation de carthage. Annales. Histoire, Sciences Sociales, v. 40, n.2, p. 328-342, 1985.


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Legenda: Elissa Rhaïs

Fonte: Dzair Books. Disponível em: https://www.dzairbooks.com/elissa-rhais/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Mediadoras culturais

Elissa Rhaïs (1876–1940)

Nascida com o nome de Rosine Boumendil, foi uma escritora de ficção argelina, filha de uma família judaica. Casou-se com o rabino Moise Amar. Em 1914, após o divórcio, casou-se novamente, desta vez com o rico comerciante Mardoché Chemouil. Ela teve duas filhas e um filho do primeiro casamento, e adotou o sobrinho do segundo marido, Raoul Robert.

Após o casamento, Rhaïs e Chemouil passaram a viver em Argel, na Villa des Fleurs, onde a fortuna do marido permitia que a futura escritora organizasse salões literários para a elite intelectual argelina. Com o apoio do proeminente escritor Louis Bertrand, Rhaïs partiu para Paris em 1919, onde conseguiu que seu artigo fosse publicado na Revue des Deux Mondes (Revista dos Dois Mundos). Seu texto foi apresentado pelo editor como o de uma mulher árabe de fé muçulmana, o que a tornava uma voz verdadeira da colônia. Seu primeiro romance a ser publicado foi Saâda, la marocaine (Saada, a Marroquina). Após o sucesso inicial, ela publicou dez romances e cinco novelas, entre eles Le Café chantant (O Café Cantante) (1920), que teve cinco edições e foi traduzido para a língua russa, Les juifs ou la fille d’Éleazar (Os Judeus ou a Filha de Eleazar) (1921), La fille des  pachas (A Filha dos paxás) (1924), La chemise qui porte bonheur (A camisa que traz felicidade) (1925) e Par la voix de la musique (Pela Voz da Música) (1927).

Seus temas preferidos envolvem o erotismo romantizado, temas conservadores e estereótipos da vida colonial do Magrebe, tais como amores não correspondidos, paixões violentas e adultério. Um tema recorrente em sua obra é o da mulher insubmissa que se transforma (ou melhor, é transformada) em uma esposa resignada. Contudo, a escritora também retratou a colônia judaica e hispânica, além do mundo africano francofônico.

Estimulando o exotismo e a imaginação ocidental, tão peculiar ao orientalismo em voga na época, Rhaïs criou uma personagem em si própria, organizando salões literários imitando um harém, vestindo-se com roupas e adereços típicos. O próprio sobrenome que ela adotou (seu sobrenome de nascimento era Boumendil), Rhaïs, é similar à palavra raïs, que significa “a líder” (sinônimo de raʿs, “cabeça”) em árabe. Sua persona e sua obra são representantes típicas do imaginário orientalista da época colonial.

Em 1982, uma controvérsia suscitada pelo livro ‘Elisa Rhaïs’, escrito por Paul Tabet, o filho do sobrinho adotado, Raoul Robert, trouxe a obra da escritora (já então há muito esquecida) de volta ao debate público. Tabet acusou Rhaïs de ter usado o sobrinho como uma forma de ghost writer, pois ela seria analfabeta, e suas histórias teriam sido apropriadas de narrativas que ela ouvira no harém onde fora encerrada durante o primeiro casamento. A despeito desta controversa publicidade (até hoje não esclarecida) Rhaïs é considerada a verdadeira autora de suas obras.

BIBLIOGRAFIA

APTER, Elily. Etnographic travesties: colonial realism, french feminism, and the case of Elissa Rhaïs. In: PRAKASH, Gyan (Ed.). After colonialism, imperial histories and postcolonial displacements. Princeton: Princeton University Press, 1995, p. 299-325.

DÉJEUX, Jean. Elissa Rhaïs, conteuse algérienne. Revue de l’Occident Musulman et de la Mediterranneé, v. 37, n. 1, o. 47-79, 1984.

LORCIN, Patricia. “Elissa Rhais”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 195-197.


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Legenda: Elizabeth Nyabongo | Foto: Joop van Bilsen / ANEFO

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/ File:Aankomst_van_de_Koning_van_Oeganda_en_dochter_op_Centraal_Station,_de_Koning_en_,_Bestanddeelnr_910-6247_(cropped).jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Elizabeth Nyabongo (1936)

Também conhecida como Princesa Elisabeth de Toro, seu nome completo é  Elizabeth Bagaaya. É a Batebe, título de princesa real, por ser filha de David Mathew kamurasi Rukidii III, o décimo primeiro omukama (rei) do reino de Toro, em Uganda, e tia paterna do rei de Toro, Rudiki IV.Recebeu esmerada formação em seu país e na Inglaterra, onde obteve a graduação na Cambridge University em 1962.  Ela é advogada, modelo, diplomata e política. Foi a primeira mulher do leste africano a ser admitida na ordem dos advogados em 1965.

Quando o presidente Milton Obote aboliu a autoridade dos reinos tradicionais de Uganda, em 1967, ela deixou o país e, a convite da princesa inglesa Margaret, participou de um desfile de moda beneficiente. Devido a sua beleza e elegância, passou a atuar profissionalmente como modelo, representqando diversas agências de moda e recebendo destaque em revistas especializadas, como a Queen Magazine. Em 1968 foi para Nova Iorque, onde foi fotografada pela Vogue, Look, Life e Ebony, sendo a primeira modelo negra a aparecer na capa da revista Harper’s Bazaar. Também teve pequenas participações em filmes, como Bulfrog in the Sun (1972), obra baseada no livro “O mundo se despedaça”, de Chinua Achebe; e no filme Sheena: Queen of the jungle (1984).

Após  a derrubada de Milton Obote pelo general Idi Amin Dada, ela retornou ao seu país, e foi nomeada como embaixatriz (1971) e como Ministra das Relações Exteriores (1974), o que teve grande repercussão na mídia internacional. Em meio  a uma série de atos repressivos, execuções e aprisionamento de opositores, conforme ela conta em sua autobiografia, sua situação se tornou insustentável quando ela negou casar-se com Idi Amin, que passou a atacá-la com falsas acusações, a destituiu do cargo e a manteve em prisão domiciliar, o que a levou mais uma vez ao exílio.

Ela retornou ao país em 1980, após a deposição de Idi Amin, casou-se com o engenheiro Wilbur Nyabongo, com quem viveu durante seis anos. Em 1986, participou do National Resistance Movement (NRM) e atuou temporariamente como embaixatriz de Uganda nos Estados Unidos, e m mais recentemente na Alemanha e na Itália,  além de participar de organizações pela promoção das causas africanas.

BIBLIOGRAFIA

MUSOKE-NTEYAFASusoke, JANE. Elizabeth of Toro: chronicles of African Princess. North-Star E-Journal, p. 2-4, 2006.

HASSEN, Joyce. African Princess. New York: Hyperion, 2004

Elizabeth of Toro. Elizabeth of Toro: The Odyssey of an African Princess. New York: Simon and Schuster, 1989.

OCHWADA, Hannigton. “Elizabeth Nyabongo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 512-513.


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Legenda: Elizabeth Pulane Moremi

Fonte: L.D. Raditladi, EP Moremi, and the Malcontent Revolt in Ngamiland Barry Morton—Working Paper, September 2015. p.01. Disponível em: https://www.academia.edu/15554548/L_D_Raditladi_E_P_Moremi_and_the_Malcontent_Revolt_in_Ngamiland. Acesso em: 27 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Regentes

Elizabeth Pulane Moremi (1912-1994)

Detentora do título de mohumagadi, equivalente ao de “rainha” ou “rainha-mãe”. Nasceu na comunidade dos povos BaTawana, no Estado Livro de Orange, atual África do Sul. Seus pais eram integrantes do grupo BaRolong, um dos ramos do povo Tswana, em Bechuanalândia, atual Botswana. 

Na sua infância e juventude recebeu formação como enfermeira na Escola de Tiger Kloof, até se casar em 1937 com o bogosi (chefe)  dos BaTawana, que veio a governar este povo com o nome de Moremi III, com quem teve três filhos, um deles, Letsholathebe, o sucessor legítimo.

Após um governo tenso e conflituoso com os britânicos, Moremi III foi assassinado em 1946, mas o seu filho, nascido em 1941, tinha apenas cinco anos, o que levou Elizabeth a assumir o governo como regente. Ela governou até a maioridade do filho, em 1964, demonstrado grande capacidade de negociação com opositores internos, promoveu reformas, criou conselhos representativos locais e foi a única mulher do Conselho Legislativo do Protetorado Britânico.

Em 1963, por sua iniciativa foi construída a Reserva Moremi da vida selvagem, na parte oriental do delta do rio Okavango, uma área protegida contra a caça, que veio a se tornar importante local turístico. Esta iniciativa despertou oposição inicial do protetorado britânico, mas ela contou com o apoio de grupos locais que lhe faziam oposição, como os BaYei, o que permitiu concluir o projeto.

Quando Letsholathebe assumiu a sua função, ela se tornou matrona do Francistown  Teaching College, no Leste de Botswana, e retirou-se para a região de Ngamiland, onde residiu até vir a falecer.

BIBLIOGRAFIA

BOLAANE, Maitseo. Chiefs, hunters and adventurers: the foundation of the Okavango/Moremi National Park, Botswana. Journal of historical geography, v. 31, n. 2, p. 241-259, 2005: https://doi.org/10.1016/j.jhg.2004.12.023

MORTON, barry. The career of Elizabeth Pulane n’ee Seeco Moremi, chief of the Batawana, 1947-1964. Toronto; Atlanta: Emory University, 1994. 

 


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Legenda: Ella Koblo Gulama

Fonte: Blog Vickie Remoe's Blog: 19 de fev. de 2020. Disponível em: https://vickieremoe.com/blog/ 2020/2/19/the-african-princess-who-defied-the-odds-to-become-queen-and-the-first-woman-lawmaker-in-sierra-leone. Acesso em: 13 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Chefia tradicional

Ella Koblo Gulama (1921-2006)

Ministra de Gabinete em Serra Leoa. Nasceu na chefatura de Kaiyamba, no atual distrito de Moyamba, filha do chefe supremo Julius Cole, assim batizado por missionários metodistas.  Estudou as primeiras séries na Hatford School  e obteve formação para a escola de professores administrada por missionários metodistas em Wilberforce (1939).

Sua trajetória pública teve início durante o período colonial. Na década de 1940, foi admitida junto ao  Ministério da Educação como professora supervisora ​​da Província do Sul (1941), a primeira mulher local a ocupar essa posição, ficando responsável pela administração de professores das séries iniciais. Entretanto, devido a sua condição familiar, casou-se  em 1946 com Bai Koblo Pathbana II, chefe de Maramapa Masimera, distrito de Port Loko, com quem teve sete filhos, e pelo qual assumiu as responsabilidades oficiais das esposas dos chefes.

Com a morte do pai (1951), ela passou a ocupar o seu lugar na corte dos chefes, mas teve dificuldade para ser reconhecida como Chefe Suprema, sendo desqualificada por ser a única mulher a ter assento entre os demais representantes tradicionais – todos homens. Obtendo partidários, Ella Koblo recorreu junto à Camara dos Comuns da Grã-Bretanha, obtendo ganho de  causa.

Segundo os relatos, Ella foi uma Chefe Suprema eficaz e altamente respeitada e trabalhou  arduamente para a educação e o bem-estar de seu povo.  Durante seu primeiro mandato (1953-1975), muitas escolas foram abertas em Moyamba, além dela ter mandado construir uma nova ala de maternidade do hospital local, obtido eletricidade e água canalizada para a corte.

Em 1963, após a emancipação política, Ella Koblo foi eleita para o Parlamento  de Serra Leoa e nomeada ministra de Estado no período de governo de Albert Margai (1964-1967), tornando-a a primeira ministra do sexo feminino na África Ocidental. Nessa condição, viajou muito representando o governo do Partido Popular de Serra Leoa em âmbito local e internacional. Foi afastada do cargo em 1975 após a ascensão do All People’s Congress – ALC (Congresso de Todos os Povos), quando foi acusada de traição e sido objeto de diversas comissões de inquérito que a levaram a prisão por quase três anos.

Gulama retornou ao cenário político em 1992, obtendo 98% dos votos para a Chefia de Kaiyamba, permanecendo no mandato até 2006, inclusive durante o período de guerra civil  que atingiu Moyamba em 1995, quando escapou de um atentado dos rebeldes. É lembrada como um  modelo de liderança e responsabilidade em seu país, e recebeu diversas menções honrosas e prêmios por sua carreira pública.

BIBLIOGRAFIA  

LUCAN, Talabi Aisie. The life and times of Paramount Chief Madam Ella Koblo Gulama. Freetown: SLAWI, 2003.

OJUKUTU-MACAULEY, Sylvia. “Ella Koblo Gulama”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 517-518.

WILSON, J. Women paramount chiefs in national politics: Madam Ella  Koblo-Gulama of Kaiyamba chiefdom, a case study. Thesis, University of Sierra Leone, Freetown, 1981.


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Legenda: Ellen Johnson Sirleaf

Fonte: United States Institute of Peace. 26 de fev. de 2015. Flickr: U.S. Institute of Peace. Disponível em: https://flic.kr/p/r6t2M2. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Organização econômica

Ellen Johnson Sirleaf (1938)

Presidenta liberiana e primeira presidenta eleita de um país africano, filha de pai de etnia Gola e mãe de etnia Kru. Nasceu na cidade de Monróvia com o nome de nascimento de Ellen Johnson, alterado quando aos dezessete anos se casou com James Sirleaf, com quem teve quatro filhos que ficaram com o pai após um divórcio motivado por violência e abusos. Obteve formação superior nos Estados Unidos (1962),  na Faculdade de Negócios de Madison e na Universidade de Harvard, onde realizou o Mestrado em Administração Pública.

Na Libéria, trabalhou no Departamento do Tesouro e chegou a ser Ministra das Finanças (1979) sob o governo de William Tolbert. Durante o golpe militar que depôs este presidente, em 1980, Ellen foi uma das únicas pessoas do gabinete a não ser executada. Foi nomeada pelo novo presidente, Samuel Doe, presidenta do Banco Liberiano para Desenvolvimento e Investimento, o que não impediu que fosse presa duas vezes e, finalmente, exilada. Em quinze anos de exílio, trabalhou para o Citibank no Quênia e no Banco Mundial para o Programa de Desenvolvimento da ONU.

Nas eleições presidenciais de 1997 foi derrotada por Charles Taylor numa disputa desigual, uma vez que seu adversário tinha uma estação de rádio privada e o exército mobilizado a seu favor. Voltou a disputar a presidência em 2005. Impulsionada por movimentos de mulheres pela paz capitaneados por Roberta Leymah Gbowee, que conferiram a ela legitimidade moral e política, foi eleita entre 22 candidatos, derrotando a estrela do futebol, George Weah, no segundo turno, em janeiro de 2006. Herdou um país devastado pela guerra e com desemprego em torno de 85%. Suas principais realizações como presidenta foram o perdão da dívida externa da Libéria, um programa para a redução da extrema pobreza e uma reforma completa do sistema legal do país.

BIBLIOGRAFIA

FUEST, Veronika. This is the time to get in front: changing roles and opportunities for women in Liberia.  African Affairs,  n.  107, p. 201-224, 2008.

HARRIS, David. Liberia 2005: An unusual african post-conflict election.  Journal of Modern African Studies, v. 44, p. 375-395, 2006.

JOHNSON SIRLEAF, Ellen. This child will be great: memoir of a remarkable life by Africa’s first woman President. Nova Iorque: Harper, 2009.

MORAN, Mary. “Ellen Johnson Sirleaf”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 215-217.


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Legenda: Ellen Kuzwayo | Foto: Sue Williamson (cortesia da artista e The Goodman Gallery)

Fonte: Goodman Gallery. Disponível em: https://www.goodman-gallery.com/store/shop? ref_id=24502. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Ellen Kwzwayo (1914-2006)

Escritora sul-africana e ativista anti-apartheid.  Nasceu como Nnoseng Ellen Kate Serasengwe em Thaba Patchoa, região do Estado Livre de Orange, na África do Sul. Era também conhecida como Cholofolo, que na língua setswana significa “Esperança”, e Motlalepule, que significa “Aquele(a) que chega em dia chuvoso”. Seus pais se divorciaram quando ela era bebê, e ela foi criada pela mãe numa fazenda que pertencia ao avô. Estudou na escola missionária de Saint Francis College e em um internato em Mariannahill, na cidade de Natal, e ao ser formada como professora começou a atuar no magistério.

Seu engajamento político cresceu nos anos 1930, quando participou da Convenção de Todos os Africanos (1937), grupo que buscava o bem-estar social e político da África do Sul e estabelecer estratégicas para o avanço econômico e político dos negros. Também integrou o Conselho Nacional de Mulheres Africanas – NCAW (1938) e foi eleita para a secretária da sessão desta organização em de Thaba’Nchu.

Em 1941 ela casou-se pela primeira vez com um diretor de escola e teve dois filhos. Porém, a união não foi feliz e ela deixou marido e voltou a morar com pai em Johanesburgo, quando trabalhou como professora e se juntou à Liga da Juventude do Congresso Nacional Africano – ANC, a facção liderada por Nelson Mandela, Oliver Tambo e Walter Sisulu. Embora fosse uma das poucas mulheres envolvidas na organização, foi eleita secretária (1946).

Com o segundo marido, que era um pintor, mudou-se para o bairro de Soweto (1950), onde se envolveu na organização de clubes da Juventude da África do Sul, e se confrontou reiteradas vezes às determinações racistas e segregacionistas. Em outubro de 1977, aos 63 anos de idade, foi detida sem julgamento por 5 meses por seu ativismo. Após a liberdade, deu continuidade às atividades sociais e políticas junto ao Conselho de Irmãs Zamani de Soweto, um atuante grupo de mulheres.

Em sua autobiografia Call me woman (Chame-me mulher) (1985), com o prefácio e posfácio das escritoras Nadine Gordimer e Bessie Heard, foi aclamada pela crítica como autora, o livro alcançou grande sucesso popular, e lhe rendeu um diploma honorário em Literatura da Universidade de Witwatersrand (1987). Alguns anos mais tarde publicou Sit down and listen (Sente-se e ouça) (1990), um compêndio de parábolas que também teve sucesso editorial.

Com o fim do Apartheid Ellen foi eleita como parlamentar na primeira eleição democrática (1994) e cumpriu o mandato por cinco anos.

Recebeu a Ordem do Mérito do presidente Nelson Mandela.

BIBLIOGRAFIA

GARRITANO, Carmela. J.. At an intersection of humanism and postmodernism: a feminist reading of Ellen Kuzwayo’s  Call me woman. Research in African Literatures, v. 28, n. 2, p. 57-65, 1997.

HEALY, Meghan. “Ellen Kuzwayo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 448-449. 

LEWIS, Desiree. Gender myths and citizenship in two autobiographies by South African women. Agenda, v. 40, p. 38-44,  1999.


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Legenda: Elsa Joubert

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://af.wikipedia.org/wiki/ L%C3%AAer:Elsa_Joubert.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Elsa Joubert (1922-2020)

Autora de língua africânder, nasceu em Paarl, África do Sul. Seu nome completo é Elsabé Antoinette Murray Joubert. Filha de um intelectual diretor de escola, W. A. Joubert e sua esposa E. A. Murray. Foi casada com o jornalista Klaas Steytler, falecido em 1998, com quem teve duas filhas e um filho.

Bacharela em Artes pela Universidade de Stellenbosch e Mestra em Literatura holandesa-africâner pela Universidade do Cabo, foi editora da seção para mulheres da Huisgenoot, uma influente revista africâner para a família. Visitou diversos países africanos e a Indonésia, que a inspiraram a escrever diversos livros acerca das suas experiências de contato com o “outro”, da sua própria posição enquanto africana branca, da posição da África do Sul entre a África e a Europa.

Sua principal obra foi Die swefjare van Poppie Nongena (A Grande Viagem de Poppie Nongena) (1978), traduzida para treze idiomas. Trata-se de um romance em forma de depoimento que relata as adversidades de uma mulher negra em luta contra o Apartheid no ano de 1976, no contexto do Massacre de Soweto. O livro teve a coautoria de uma mulher que teria sido doméstica em sua casa, com a qual ela dividiu os lucros pelas vendas do livro, através da qual a escritora percebeu que poderia denunciar o que estava sendo feito contra os negros no país. A adaptação da obra para o cinema, em parceria com Sandra Kotze, foi importante para a mudança de postura de sul-africanos brancos em relação ao Apartheid.

Die reise van Isobelle (A Grande Jornada de Isobelle) (1995) é um romance familiar épico que sintetiza o século XX africânder, da Guerra dos Bôeres às lutas dos anos 1990, pelo qual recebeu o Prêmio Hertzog (1998).

Mais recentemente, Elsa Joubert publicou suas memórias em dois volumes: ‘n Wolderlike geweld. Jeugherinneringe (Uma Violência Maravilhosa: Memórias de uma Jovem) (2005), e Reisiger. Die limietberge oor (Viajante: além do limite/Montanhas mais distantes) (2009). O excesso de detalhes fez com que, para muitos críticos, estas obras fossem consideradas tediosas, mas elas constituem um testemunho importante de alguém que viveu entre os grupos dominantes e viu os acontecimentos do século XX a partir deste ponto de vista.

BIBLIOGRAFIA

JANSEN, Ena. “Elsa Joubert”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 225-226.

LENTA Margaret. “A break in the silence”. In: Daymond, J; Jacobs, J. U.; LENTA, Margaret (Eds.). Momentum: On recent south african writing. Pietermaritzburg: University of Natal Press, 1984, p. 147-158.

McCLINTOCK, Anne. “The very house of difference”: race, gender and the politics of south african women’s narrative in Poppie Nongena. Social Text, n. 25-26, 1990, p. 196–226, 1990.

WENTZEL, Marita. The African connection. Elsa Joubert’s journeys towards selfhood and commitment. Current Writing, v. 11, n. 2, p. 121-135, 1999.


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Legenda: Mulheres da Abissínia (1850)

Fonte: Internet Archive. Disponível em: https://archive.org/details/lillustrationjou16pari/page/24/mode/2up. (pg. 24) Acesso em: 11 de jan. de 2021.
Palavras-chave:

Embet Ilen (1801-1851)

Aristocrata abissínia que viveu em território da Tigrinya, atual Eritréia, desempenhou destacado papel político durante o período de enfraquecimento da autoridade dos négus (imperadores), período histórico conhecido como Zamana Mesafint, a “Era dos Príncipes” (1769-1855). Na época, a região estava integrada ao norte dos domínios do Império Etíope.  Sua fama era tal que o seu filho, Ras Woldemichael, herói nacional eritreu, é lembrado como “Filho de Ilen”, quando a norma social vigente exigia que fosse lembrado pelo nome do pai.

Pouco se sabe sobre sua formação ou histórico familiar, nem mesmo o nome de seus pais. As fontes históricas concordam, todavia, que ela era extremamente inteligente, de oratória persuasiva, astúcia política e valiosa líder. Dizem que comandou pessoalmente homens em combate e lutou ao lado deles e nunca foi capturada em batalha.

Ilen entrou para a política não por escolha e sim por exigências da época. Foi dada em casamento a Ayte Salomon, o filho mais velho de Kantiba Zar’ay of Hazzega, que liderou por quatro anos a maior parte de Hamasen – as terras altas ao redor de Asmara. Eles tiveram uma filha, Temertsa, e dois filhos: Woldemichael e Mar’ed. Depois da morte do marido, ela teve mais dois filhos.

Seu marido não dispunha das habilidades necessárias para a liderança e teve pouco envolvimento com as responsabilidades políticas impostas pela posição social de sua família, de modo que os filhos logo disputaram entre si pelo controle dos bens e riquezas, gerando um clima de profunda rivalidade. Isto levou a que Ilen assumisse o controle da situação. Já na metade da década de 1820 ela precisou lidar com um conflito com outros chefes de clãs dos distritos vizinhos de Tse’azzega, suas tropas foram cercadas e ela teve que bater em retirada, fugindo para Gura’e, em Akkale-Guzay, nas terras de sua mãe. Depois de duas tentativas frustradas para vingar a derrota, firmou alianças com outros príncipes da região do Tigrê, inclusive com Dejjazmatch Wube Hayla Maryam, o mais poderoso líder das províncias do Norte, que se uniu a ela.

Seu envolvimento em arranjos políticos e disputas territoriais ocorreu até o final de 1840, quando ela passou a liderança familiar ao filho mais velho Woldemichael e se retirou em uma igreja dedicada à Virgem Maria em Hazzega, vivendo como uma monja. Mas, ao ser visitada por Kantiba Woldegaber, chefe da linhagem familiar de Dimbezan de quem fora adversária, um desentendimento ocorreu entre ambos e ele morreu logo depois, fato interpretado como assassinato. Embet Illen foi atacada, teve que fugir e buscar refúgio em um distrito vizinho, sendo então ela e duas netas que a acompanhavam aprisionada, torturadas e mortas, evento que motivou diversos ataques e atos de vingança posteriores de seu filho contra os inimigos da família que viviam no planalto de Hamasen.

 BIBLIOGRAFIA

SCHAEFFER, Charles. Reexamining the ethiopian historical record on the continuum between vengeance and forgiveness. In:  UHLIG, Siegbert et alii (Eds.). Proceedings of the XVth International Conference of Ethiopian Studies. Hamburg: Harrassowitz Verlag, 2003, p. 348-355.

TAFLA, Bairu; “Embet Ilen”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 151-152.

YESEHAQ, Yosef. Embiyle Weldu Gomida – Tarikh Ra’essi Welde-Mika’el (A biography of  as Woldemichael). Asmara: MBY Press, 2000.


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Legenda: Emily Ruete

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/ File:Emily_Ruete_(Sayyida_Salme),_Princess_of_Zanzibar.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Emily Ruete (1844-1924)

Nascida Salama Bint Said e também referida como Sayyda Salme, era a filha caçula de Sayyid Said, sultão omani da ilha de Zanzibar, na África oriental, que teve ao total 36 filhos(as). Passou a infância no imenso palácio de Be til Mtoni, situado à beira-mar e em 1851 mudou-se para Be til Wtoro, a residência de seu irmão Majid ibn Said, que viria a ser o sucessor no governo do sultanato, onde aprendeu árabe, swahili e alemão e a praticar equitação.

 Após a morte do pai, em 1856, e da mãe, em 1859, casou-se com o empresário alemão Rudolph Heinrich Ruete, adotando então o cristianismo e passando a viver em Hamburgo, com o nome ocidental de Emily Ruete.  

Quando o marido morreu Emily escreveu o que provavelmente  é a primeira autobiografia de uma africana, o livro  Memoirs  of an arabian princess from Zanzibar (Memórias de uma princesa árabe de Zanzibar), publicado entre 1886-1888 no Império Germânico, e depois nos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Irlanda. O livro apresenta uma imagem íntima da aristocracia árabe-africana do litoral índico entre 1850 e 1865, com recordações da vida cotidiana na corte de seus irmãos, os sultões de Zanzibar.

BIOGRAFIA

FOURSHEY, Catherine Cymone. “Emily Ruete”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 217-219.

VAN DONZEL, Emeri (Ed.). An arabian princess between two worlds: memoirs, letters home, sequels to the memoirs, syrian customs and usages. Leiden: Brill, 1993.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:

Emma Sandile (1842-1892)

Nascida entre o povo Ngqila, do grupo étnico xhosa, na atual África do Sul, era filha do chefe Mgolombane Sandile, e é lembrada como “Princesa Sandile”. Enviada com os irmãos para a Cidade do Cabo para estudar no período posterior à guerra do Império Britânico contra os Xosas, onde foi batizada cristã e teve acesso à educação formal.

Emma tinha dezesseis anos quando frequentou o Zonnebloem College (Colégio de Zonnebloem), na condição de refém. Foi a primeira pessoa do grupo étnico shosa a deter conhecimento da escrita, a escrever sobre si mesma e a manter uma correspondência ativa, parcialmente preservada.

Ela tentou voltar para casa, mas não teve autorização dos missionários responsáveis por sua educação, e mesmo as condições de seu casamento foram determinados pelas autoridades sul-africanas, que procuravam infundir o cristianismo nos povos africanos.

Emma se tornou professora para ensinar os xhosas, e se casou com Stokwe Ndela, chefe dos povos Mqwathi, que foi executado pelos britânicos durante uma revolta em 1881. Herdou uma propriedade do marido e uma fazenda que ficava em Ciskei, no sudeste da África do Sul, onde viveu com os cinco filhos até falecer.

Ela foi a primeira pessoa de língua Xona a deter formalmente os direitos de propriedade de terras na África do Sul, embora isso só tenha sido garantido aos seus herdeiros em 1980.

BIBLIOGRAFIA

DRIVER, Dorothy (org). Emma Sandile: letters and land submission. In: Women Writing Africa. New York: Feminist Press, 2003, v. 1, p. 91-92.

KHAN, Khatija Bibi. “Breakthroughs”: engaging literary “voices” of women writers from the Southern African region. Journal of literaty studies, v. 32, n. 1, p. 01-16, 2016.


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Legenda: Ernestina Silla

Fonte: NôBalur. Who Was Titina Silá | Happy Women’s Day. 30 de jan. de 2019. Disponível em: https://nobalur.com/2019/01/30/who-was-titina-sila-happy-womens-day/. Acesso em: 22 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Ernestina Silla (1943-1973)

 Popularmente conhecida como Titina Sila, foi uma destacada militante, guerrilheira e heroína na Luta pela Libertação Nacional na Guiné-Bissau. Nascida em Cadique Betna, ao sul de Tombali. Em 1962,  aos dezenove anos, aderiu ao movimento revolucionário, aderindo ao que preconizava o Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo-Verde – PAICG.

Alguns anos depois, já como militante, participou de curso de formação na União Soviética, onde recebeu treinamento como enfermeira. Passou a atuar como comissária ao Norte de Sará-Candjambari, e membro do Comitê Superior da Luta (CSL) (1970). Durante a guerra, casou-se com outro membro do CSL, Manuel D’igne, com quem teve dois filhos, um deles falecido em 1972.

Em 1973, ela e outros combatentes foram surpreendidos(as) e  eliminado(as) por uma patrulha portuguesa quando se deslocavam pelo Rio Farim, em direção à Guiné-Conacri, para participar do funeral de Amílcar Cabral, o líder supremo da luta que tinha sido recentemente assassinado.

BIBLIOGRAFIA

GODINHO GOMES, Patricia. Os fundamentos de uma nova sociedade: o PAIGC e a luta armada na Guiné-Bissau (1963-1973). Torino: L’Harmattan Italia, 2010

RDANG, Stephanie. Fighting two colonialisms: the women’s struggle in Guinea-Bissau. African Studies Review, v. 18, n. 3, 1975.

Urdang, Stephanie. A revolution within a revolution: women in Guinea-Bissau. Somerville: New England Free Press, 1973.


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Legenda: Ernestine Gwet-Bell

Fonte: ABK Radio. Dr Ernestine GWET BELL: « Je souhaite un grand succès à ABK RADIO ! ». 02 de jul. de 2019. Disponível em: https://www.abkradio.com/2019/07/02/je-suis- riche-de-vous/. Acesso em: 13 de dez. de 2020.

Ernestine Gwet-Bell (1955)

Nasceu de uma família do grupo étnico Bassa, na cidade de Sackbayèmi, no distrito de Puma, na costa de Camarões. Seu pai tinha sido um padre católico que depois se converteu ao protestantismo. Ela frequentou a escola primária em Camarões e cursou Medicina na Universidade de Paris 5, na França. 

Trabalhou pela primeira vez no Hospital Conseil des Eglises Baptiste et Evangélique de Cameroun – CEBEC (Conselho das Igrejas Batistas e Evangélicas de Camarões), e no Hospital Laquintinie.  Mas sua carreira avançou significativamente quando ela abriu na cidade portuária de Douala a Clinique Odyssée (1987), que se tornou uma das instalações médicas ginecológicas mais respeitadas em todo o país. 

Junto com outros cinco médicos veteranos, criou o primeiro centro de fertilidade assistida de seu país, o Centre des Techniques de Pointe en Gynecologie-Obsttétrique (Centro de Técnicas de Ponta em Ginecologia-Obstetrícia).  Gwet-Bell acompanhou o nascimento da primeira criança de Camarões gerada através de fertilização in vitro, Thommy, em 1998.  Somente os muito ricos de Camarões podiam pagar tais tratamentos, mas sua reputação atraiu mulheres inférteis da parte da República Centro-Africana e do Gabão  à clínica.

Ela dirigiu os seus esforços também para os casos de autismo, e em 2005 criou a clínica Orchidée Home. Dois anos mais tarde, organizou o primeiro congresso sobre o autismo já realizado em Camarões, e contou com apoio financeiro de mulheres influentes, como Chantal Biya, a Primeira-Dama e de Catherine Bakang, Ministra dos Assuntos Sociais.

Ernestine Gwet-Bell é casada com Otto Gwet,  com quem tem duas filhas e um filho. Além de médica pioneira, preside o Lyons Club  de Douala.

BIBLIOGRAFIA

AMANI, Serge; TALLA, Mathieu. Les grandes pionnières du Cameroun. Yaoundé: Cognito, 2008.

RICH, Jeremy. “Ernestine Gwet-Bell”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 520-521.


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Legenda: Esther Afua Ocloo

Fonte: Black is really beautiful, and we must be proud of it. 02 de out. de 2018. Facebook: Black is really beautiful, and we must be proud of it. Disponível em: https://www.facebook.com/Blackisreallybeautiful/photos/a.10150093146012817/10155884467602817/? type=3. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Esther Afua Ocloo (1919-2002)

Nascida como Esther Afua Nkulenu, era filha de um casal de camponeses pobres (o pai era ferreiro, a mãe, oleira e agricultora) da região do Rio Volta, ao norte da atual República de Gana, que arcaram com os gastos de seus estudos primários, em uma escola presbiteriana, e depois, com o apoio financeiro da empresa Cadbbury Chocolate Company realizou os estudos na prestigiosa Achimota School, onde obteve certificado, o Cambridge School Certificate,  em 1941.

Ainda na Achimota School, aprendeu nas aulas de ciências sobre o fabrico de marmelada, e em 1943, com o apoio de um tia, que vendeu nas ruas de Accra aos oficiais da adminisração colonial inglesa. Com o lucro inicial, investiu na venda de suco de laranjas, inicialmente aos estudantes e professores da Achimota School e depois nos estabelecimentos militares, mediante contrato comercial. 

Com o patrocinio da administração do colégio , Esther viajou para a Inglaterra entre 1949-1951, sendo a primeira pessoa negra a obter um diploma de cozinheira do Good Housekeeping Institute, em Londres, e a obter  uma pós-graduação no curso de Conservação de Alimentos de Long Ashton Research Station, no Departamento de Horticultura da Universidade de Bristol em 1951.  Em  Ghana, obteve financiamento bancário com o qual montou a Nkulenu Indutries,  a primeira fábrica de processamento de alimentos, com foco na preparação e distribuição de suco de laranja e marmelada.

O sucesso como empreendedora garantiu a ela posição de liderança nos negócios de seu país que, na época, estava em luta pela independência da Inglaterra. Esther fundou e atuou em diversas associações, inclusive a Federation of Ghanaian Industries (Federação das Indústrias de Ghana) em 1956, mas com o tempo dispendeu esforços para estimular artesãos e pessoas das camadas populares, em particular as mulheres. Em 1976, na Conferência das Nações Unidas da Década das Mulheres, propôs, junto com Michaela Walsh e Ela Bhatt a criação do Women’s World Banking (Banco Mundial das Mulheres), instituição com linhas de micro-crédito para mulheres, que ela presidiu no período de 1976-1985.

Por sua capacidade de iniciativa e liderança, Esther Ocloo recebeu diversos prêmios e honrarias locais, nacionais e internacionais. Ela foi a primeira mulher a receber o prêmio internacional  Africa Prize for Leadership (Prémio Africano para a Liderança) devido às suas iniciativas para a criação de alternativas sustentáveis para a erradicação da fome no continente.

BIBLIOGRAFIA

DARKWAH, Akosua. “Esther Afua Occlo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 541-542.

OCLOO, Esher. Woman power. Canadian Speeches, v. 16, n. 3, p.  64, 2002.


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Legenda: Esther Razanadrasoa

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Esther_Razanadrasoa.JPG. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Esther Razanadrasoa (1892-1931)

Também conhecida pelo pseudônimo Anja-Z. Foi uma poetisa e escritora malgaxe que escreveu durante o período inicial da ocupação colonial francesa em Madagascar. Nasceu em Antananarivo e pertencia a uma família de intelectuais não membros da aristocracia: o pai era jornalista, escritor e compositor.

Incentivada pela mãe, e seguindo os passos do pai, escreveu romances, peças de teatro e poesia – embora as obras não tenham sido publicadas enquanto ela estava viva. Também foi editora do jornal Tsara Hafatra, que circulava entre os malgaxes. Suas poesias enquadram-se no gênero conhecido como kindriandina, pelo qual se expressavam as aspirações pessoais e os sentimentos afetivos típicos das camadas sociais populares da casta dos hova – os plebeus livres.

Na década de 1920, manteve um relacionamento amoroso com Jean-Joseph Rabearivelo, na época um jovem poeta em ascensão. Segundo consta no diário dele, Esther teria morrido devido a ingestão de substância abortivas a que ela recorreu para impedir uma gravidez depois de terem dormido juntos. Este envolvimento amoroso foi retratado no romance intitulado L’Oragé (A tempestade), de autoria da escritora suíça Douana Loup (2015).

Fonte da imagem: Wikimedia Commons. [Sítio institucional]. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Esther_Razanadrasoa.JPG. Acesso em: 11 dez. 2020.

BIBLIOGRAFIA

LOUP, Douana. L’Oragé.  Paris: Mercure de France, 2015.


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Legenda: Eva na igreja de Abreha e Atsbeha | Foto: Bernard Gagnon

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Abreha_and_Atsbeha_Church_-_Adam_and_Eve_01.jpg. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Eva Africana (c. 200.000 anos)

Mais recente ancestral comum, também conhecida como Eva Mitocondrial, nome proposto pela geneticista Rebecca L. Cann, quando ela e seus colegas pesquisadores da Universidade da California identificaram e dataram o vínculo de descendência do ser humano anatomicamente moderno com uma hipotética e única “mãe africana”,  a partir de análise de variação genética do  DNA mitocondrial (1987).

Usando DNA mitocondrial (herdado somente da linha materna), Rebecca Cann e seus associados examinaram 147 indivíduos e produziram uma árvore genética evolucionária mostrando os ramos de dois conjuntos de indivíduos: um conjunto de ancestral africano e um segundo conjunto de uma mistura entre africanos e “outros” ancestrais. A árvore revelou que os seres humanos modernos se originaram na África a partir de uma única fonte, que Cann e seus colegas nomearam “Eva”, de um período entre 140,000 e 290,000 anos atrás.  Pesquisas subsequentes situaram essa data em aproximadamente 200,000 anos atrás ao comparar dez modelos genéticos humanos.

“Eva Africana” é um modelo matemático, e não um fóssil real de restos humanos. Não obstante, a maioria dos cientistas atuais concordam que ela é ancestral de todos os seres humanos atuais e que viveu na África. Na primeira metade dos anos 1990 várias árvores alternativas foram publicadas, com várias “raízes” diferentes fora da África. Conforme o conhecimento em genética aumentava e as técnicas melhoravam, abordagens diferentes foram aplicadas ao problema das origens humanas, padrões de migração e tempo, e a presença ou ausência de gargalos genéticos (períodos durante os quais populações decrescem marcadamente em tamanho).

Em 2000, Kaessman  Ingman e U. Gyllesten sequenciaram completamente o DNA mitocondrial de 53 mulheres. Eles encontraram uma sequência distinta e única em cada uma dessas mulheres e foram hábeis em construir uma árvore genética baseada nesses dados. A primeira divergência ocorreu com mulheres da África Sub-Sahariana, seguidas por uma ramificação de vários indivíduos de outras partes da África, apoiando, deste modo, a origem genética africana dos humanos modernos proposta por Cann e seus colegas em 1987.

Um adicional de 66 mulheres foram sequenciadas independentemente por J.L. Elson e seus colegas (2001) com resultados similares. A Eva Africana não foi a única mulher de sua espécie. Muitos estudos de DNA nuclear, de fósseis e de sítios arqueológicos indicam uma população antiga nas dezenas de milhares na época que Eva estava viva. A dificuldade na interpretação provavelmente vem do fato de que, embora os estudos indiquem um único ancestral comum feminino para todas as mulheres vivas atualmente, estes estudos não levam em conta as linhas que desapareceram e o fato de os machos não passarem DNA mitocondrial.

 “Eva” não é a ancestral comum mais recente compartilhada por todos os humanos vivos; em vez disso, a proposta é que ela seria a provável ancestral comum matrilinear mais recente. Em meados dos anos 1990 geneticistas começaram a pesquisar o ancestral patrilinear mais comum dos humanos modernos, agora chamado “Adão cromossomial-Y” para se juntar a “Eva Africana” na linha evolucionária humana. Este teria vivido entre 60.000 e 90.000 anos na África subsaariana, segundo se pode aferir a partir dos dados obtidos até agora.

Wikimedia Commons. [Sítio institucional]. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Abreha_and_Atsbeha_Church_-_Adam_and_Eve_01.jpg. Acesso em: 11 dez. 2020.

BIBLIOGRAFIA

CANN, Rebecca L. Stoneking, M.; WILSON, A. C.. Mitocondrial DNA and human evolution. Nature, v. 325, p. 31-36, 1987.

CANN, Rebecca L.  Mothers, labels, and misogyny. In: HAGER, L. D. (Ed.). Women in human evolution. Londres: Routledge, 1997, p. 75–89. 

DILLER, K. C; Cann Rebecca L. Molecular perspectives on human evolution. In: GIBSON, K. R.; TALLERMAN, M.  (Ed).  The Oxford handbook of language evolution. Nova Iorque: Oxford University Press, 2011.

INGMAN, M. et alii. Mitochondrial genome variation and the origin of modern humans. Nature, v. 408, p. 708-713, 2000.  

MILLER, Elizabeth. African Eve”.  In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 107-108.


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Legenda: Everjoice Win | Foto: Nana Sekyiamah

Fonte: African Women’s Development Fund. 07 de out. de 2010. Flickr: Nana Sekyiamah. Disponível em: https://flic.kr/p/8L2vMz. Acesso em: 15 de dez. de 2020.

Everjoice Win (1965)

Nascida em Shurugwi na República do Zimbabwe, é uma destacada ativista em defesa dos direitos civis das mulheres de seu país. Concluiu o ensino superior na Universidade de Zimbabwe em 1988, com especialização em História Econômica. Quatro anos depois, em parceria com Terri Barnes, publicou o livro intitulado To live a better life: an oral history of women in the city of Harare, 1930-1970 (Para viver uma vida melhor: uma história oral das mulheres na cidade de Harare, 1930-1970), que ofereceu substantiva contribuição para o reconhecimento do papel das mulheres para o desenvolvimento urbano do país.

Sua militância feminista foi intensa nos anos 1990, quando atuou como deputada e coordenadora de comissões vinculadas a ação de grupos de educação popular para mulheres. De 1993 a 1997 dirigiu em âmbito nacional o capítulo do programa pan-africano Woman in Law and Development in Africa – WILDAF (Mulheres no Direito e Desenvolvimento na África), e atuou em mais de vinte associações pela garantia dos direitos das mulheres e por reformas políticas e sociais, o que a levou, em 1997, a ser uma das(os) fundadoras(es) da Assembléia Nacional do Zimbabwe. Seu prestígio lhe permitiu desempenhar papel de destaque na crise da coalizão do Zimbabwe.

Nas últimas décadas, tem ocupado cargos em diversas comissões internacionais na África do Sul, Inglaterra e Canadá, e participado de Organizações Não-Governamentais, onde defende iniciativas direcionadas a igualdade de gênero, para as populações pobres do mundo, em especial as mulheres, bem como iniciativas para o combate ao HIV/AIDS.

BIBLIOGRAFIA

GRANT, Miriam. “Everjoice Win”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 75-176.

WIN, Everjoice; BARNES, Terri. To live a better life: an oral history of women in the city of Harare, 1930-1970. Harare: Baobab Books, 1992.

WIN, Everjoice, Not very poor, powerless or pregnant: the african woman forgotten by development.  IDS Bulletin, v. 35, n. 4, p. 61-64, 2004.


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Legenda: Fadhma Aît Mansour Amrouche

Fonte: Ouest-France. Rennes: hommage à la poétesse kabyle Fadhma Aït Mansour Amrouche. Disponível em: https://www.ouest-france.fr/bretagne/ rennes-35000/rennes-hommage-la-poetesse- kabyle-fadhma-ait-mansour-amrouche-4863612. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Tradições africanas

Fadhma Ait Mansour Amrouche (1882-1967)

Escritora argelina, era a filha de uma camponesa Berber pobre e analfabeta. Muçulmana por nascimento, ela se converteu ao cristianismo, produziu uma das primeiras, se não a primeira, autobiografia escrita por uma mulher argelina, tornou-se uma cidadã francesa naturalizada, e criou dois filhos que se tornaram escritores(as) franceses(as) famosos(as): Marguerite Taos Amrouche (conhecida como Taos Amrouche), uma poetisa, cantora, e romancista, e Jean Amrouche, romancista e poeta.

Nasceu em uma aldeia situada na região de Kabylia, depois que integrantes da comunidade tentaram matar sua mãe, durante a gravidez, por ela ser mãe solteira, conforme ditava o costume. Esta se salvou apelando às autoridades coloniais e denunciou os atacantes, inclusive de sua própria família. Talvez para evitar que tal ato se repetisse em nome do islã, a mãe, Fadma Aini, matriculou a filha em uma escola de freiras missionárias, e em uma escola secular, onde foi aluna de Madame Malava – conhecida educadora de meninas “indígenas”.  Quando completou o secundário, trabalhou na Missão Católica Francesa, onde conheceu Belkacem, com quem se casou (1899), convertendo-se, como ele, ao catolicismo.

Como o clã familiar de Belkacem, de fé islâmica, dificultou o relacionamento com o casal, e a situação de Fadhma e o marido ficou difícil, ambos se mudaram para Túnis, na Tunísia, antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial. Ao todo, ela teve oito filhos(as), mas muitos não sobreviveram, o que a inspirou a escrever, durante a Segunda Guerra Mundial, o poema L’Hirondele (A andorinha). Em 1946, a convite do filho, Jean, que já era escritor conhecido na França, ela foi incentivada a escrever suas memórias, o que fez, mas só as publicou após a morte do marido, em 1958.

Fadhma ficou também conhecida pelo seu talento como cantora, e através da música ela divulgou o extenso repertório das tradições orais de Kabylia – suas canções, poesias, lendas e folclore, então em grave perigo de desaparecer. Foi ela quem incentivou a filha, Marguerite, a se interessar e valorizar tais tradições, algo que esta fez ao publicar o livro Le grain magique (O grão mágico) (1960) e ao interpretar canções populares argelinas.

Seus últimos anos foram passados na França, onde faleceu. A história de Fadhma Amrouche, retratada em suas memórias, constitui um capítulo único na história das mulheres em situação colonial; ela incorpora tanto a dura realidade da sociedade local e as contradições da França-Argélia, particularmente como a vida era experienciada por mulheres de origem humilde. Exemplifica a abertura de pequenas frestas no patriarcado, e o esforço para preservar as tradições orais berberes que alimentaram a identidade cultural desse grupo.

BIBLIOGRAFIA

AMROUCHE, Fadhma.  Histoire de ma vie. Paris: Maspero, 1968.

CLANCY-SMITH, Julia A.. “Fadhma Amrouche” In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 222-223.

DIRECHE-SLIMANI, Karima. Chrétiens de Kabylie: histoire d’une communauté sans histoire. Une action missionaire d’Algérie coloniale. Paris: Bouchène, 2004.

MALTI, Nathalie. Voix, mémoire et écriture: transmission de la mémoire et identité culturelle dans l’oeuvre de Fadhma et Taos Amrouche. Doctoral Dissertations, Louisiana State University and Agricultural and Mechanical College, 2006:  https://digitalcommons.lsu.edu/gradschool_dissertations/3839  


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Legenda: Fannu | Ilustração de Sarah Ponceblanc

Fonte: Ilustração produzida para a página L’histoire Par Les Femmes. Disponível em: https://histoireparlesfemmes.com/2017/09/28/fannou-princesse-almoravide/. Acesso em: 13 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Fannu (+ 1147)

Também referenciada com o nome Fannou (em francês). Personagem semi-legendária da história do Marrocos. Teria sido uma princesa da dinastia Almorávida. Para lutar nas guerras religiosas em nome de sua fé muçulmana, vestiu-se como homem e participou da resistência contra os Almôadas por ocasião da conquista de Marrakech em 1147.

Muito pouco se sabe sobre sua vida. Um exame da cultura e política do Marrocos durante esta época sugere que ela vivia no palácio dos almorávidas, e provavelmente pode ter tido algum tipo de influência. Segundo a tradição popular, ela teria participado dos combates, onde encontrou a morte.

Sua história tem sido lembrada como exemplo da participação das mulheres magrebinas na história de seus povos, e o  Clube das Mulheres de Casablanca leva o seu nome como uma homenagem póstuma. Ela é uma das heroínas das lutas de resistência berbere.    

BIBLIOGRAFIA

AKHARBACH, Latifa; Rerhaye, Narjis. Femmes et politique. Casablanca: Editions Le Fennec, 1992.

GLACIER, Osire. Femmes politiques au Maroc d’hier à aujourd’hui: la résistance et le pouvoir au feminin. Casablanca: Tarikh Editions, 2013.

GLACIER, Osire. “Fannu”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 340.

TERRASSE, Henri. Historie du Maroc. Casablanca: Éditions Atlantides, 1949.


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Legenda: Fanta Damba

Fonte: LOLARADIO. Two Fanta's, please (Mali). Lola Vandaag. 23 de mai. de 2019. Disponível em: https://lolaradio.blogspot.com/2019/05/two-fantas-please-mali.html. Acesso em: 22 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Tradições africanas

Fanta Damba (1923-1987)

Nascida na região de Segou, área cultural bambara, na então África ocidental francesa, atual República do Mali, foi uma djelimuso, isto é, uma cantora de músicas tradicionais em língua mandinga pertencente a uma família de djélis, uma família de griots. Alcançou grande popularidade e é lembrada como “a grande vedete maliana”. 

Fanta começou a cantar quando criança, e aos vinte anos passou a se apresentar em programas de rádio, o que a levou a ser uma das artistas mais famosas nas décadas de 1960-1970.

Em 1975 ela se tornou a primeira djelimuso a fazer uma turnê pela Europa, e logo depois representou no Mali no Festival Africano de Artes e Culturas Negras de Lagos – FESTAC (Nigéria) (1977). Passou a ser reconhecida como Ngara, uma grande mestra, algo em geral reservado apenas aos homens tradicionalistas até aquele momento.

BIBLIOGRAFIA

DURAN, Lucy. Jelimusow: the superwoman of malian music.  In: FURNISS, Graham;  GUNNER, Liz (Ed.). Power, marginality and african oral literature. Cambridge: Cambridge University Press, 2008 (1995), p. 197-210.

FANTA, Damba. Baya Lah: https://www.youtube.com/watch?v=dxp6VZoCyPU


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Legenda: Fantcha | Foto: Hichykoo

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Fantcha2.jpg. Acesso em: 22 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Fantcha (1965)

Francelina Durão de Almeida nasceu em Mindelo, na Ilha de São Vicente, Arquipélago de Cabo Verde.

Começou a cantar aos dez anos de idade junto com as “Flores de Mindelo”, um grupo musical feminino. Através do conhecido cantor cabo-verdiano Ti Goi (Gregório Gonçalves), conheceu Cesária Évora, que apoiou no início da carreira. Com Cesária, Fantcha melhorou suas capacidades vocais e expressivas no canto.

Em 1988 mudou-se para Boston, nos EUA e acabou por se fixar em Nova Iorque, onde atualmente reside. A emigração iria permitir-lhe dedicar-se inteiramente à carreira musical, e a projetar a morna cabo-verdiana no cenário internacional.

Entre os álbuns de sua autoria estão:  Boa viagem (1988), Criolinha (1998), Viva Mindelo (2001), Amor, Mar e Música (2009) e Nôs caminhada (2016).

BIBLIOGRAFIA

Francelina Durão de Almeida (Fantcha). In: Cabo Verde Info:  http://www.caboverde-info.com/Identidade/Personalidades/Francelina-Durao-de-Almeida-Fantcha

PALMBERG, Mai. Expressing Cape Verde: morna, funaná and national identity. In: PALMBERG, Mai; Kirkegaard,   Annemette (Eds.). Playing with identities in contemporary music in Africa. Uppsala: Nordiska Africainstitutet, 2002, p. 117-133.


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Legenda: Fatim Mbenga Badji

Fonte: The Point. SOS Fatim Badjie-Janneh Opens Paradise FM. 14 de jan. de 2009. Disponível em: https://thepoint.gm/africa/gambia/article/sos-fatim-badjie-janneh-opens-paradise-fm. Acesso em: 22 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Fatim Mbenga Badji (1983)

Nascida em uma família pertencente ao grupo étnico diúla, em Banjul, capital da República de Gâmbia, na África Ocidental. Foi educada na Escola Secundária Sênior da Gâmbia e na Bélgica, frequentou a Tennessee State University, onde se tornou bacharela em Comunicação. Seu pai, Dembo M. Badjie, foi embaixador da Gâmbia em Serra Leoa.

Em sua carreira, Fatim Badji foi contratada como diretora sênior de comunicações da Comium Gambia, uma empresa de telefonia celular. Posteriormente, foi nomeada Ministra das Comunicações e Tecnologia da Informação (2008), em substituição a ministra,Neneh Macdouall-Gaye, que se tornou diretora do jornal The Daily Observer.

BIBLIOGRAFIA

CEASAY, Hassoum. Gambian women: na introductory history. Gambia: Fulladu Publishers, 2007.


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Legenda: Fatima al-Fihri | Cortesia da ilustradora, Decue Wu Decue Wu

Fonte: DecueWu. Disponível em: http://decuewu.com/fiercely-female-2019-clendar. Acesso em: 13 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Fatima al-Fihri (+880)

Também conhecida como Oum al-banine, isto é,“a mãe das crianças”. Nasceu em Kairuan, na atual Tunísia, de uma família de origem árabe.  Fundadora da Universidade de al-Qarawiyyin em Fez, Marrocos, a mais antiga universidade ainda em funcionamento no mundo.

 A família de al-Fihri migrou de Qayrawan, localizada na atual Tunísia, para Fez no início do século IX, durante o reinado de Idris II, governante da primeira dinastia muçulmana do Marrocos. Quando o pai de al-Fihri, Mohammed al-Fihri, um rico negociante, morreu, sua irmã, Mariam, e ela, receberam uma grande fortuna. Ambas eram bem educadas e sabiam da necessidade da comunidade por locais de encontro públicos. Mariam construiu a Mesquita Andalus e Fatima jurou construir a maior mesquita da África do Norte.

Uma vez que a construção da mesquita tinha começado, Fatima concebeu o projeto de construir um madraça, isto é, uma instituição destinada ao aprendizado e estudo corânico. Assim, em 859, fundou a mais antiga universidade em funcionamento, a Universidade de al-Qarawiyyin, também conhecida por al-Qaraouine, al-Karaouine, e al-Oairawiyine. Sua fundação antecipa todos os demais estabelecimentos similares, mesmo as madraças do Egito, e as Universidades europeias que vieram a ser fundadas apenas dois séculos depois, na segunda metade do século XI.

A mesquita que Fatima tinha inicialmente mandado construir tinha um mihrab (um nicho que indica a direção de Meca), quatro naves, uma pequena corte, e um minarete; no entanto, através dos séculos, a mesquita cresceu tanto fisicamente como em importância.

Desde sua criação, a Universidade de al-Qarawiyyin se tornou um dos principais centros educacionais e espirituais do mundo. Como centro educacional e cultural, teve um papel proeminente através dos séculos, não somente na produção e intercâmbio de conhecimento, mas também na unificação do mundo islâmico em torno de uma identidade cultural, educacional e espiritual. Serviu de modelo e inspiração para estudiosos muçulmanos e mesmo para eruditos cristãos, como Gerbert d’Aurillac (c.946-1003), que se tornou papa com o nome de Silvestre II e levou dela o sistema numérico árabe para a Europa;  

Atualmente, esta universidade milenar oferece cursos de graduação, pós-graduação e programas de doutorado,  e dispõe de cinco periódicos especializados: Revue al-Qaraouiyine, Revue d’al-logha al-arabia-Marrakech, Revue d’achcharia-Fez, Revue d’ach-charia-Agadir, e Revue d’Ossouliddine-Tetouan.

BIBLIOGRAFIA

FRIAS, Sonia. Fatima al­‑Fihri – um retrato possível da fundadora da Universidade Qarawiyyin em Fez. Faces de Eva: Estudo sobre a Mulher, n. 32, 2014: http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?pid=S087468852014000200016&script=sci_arttext&tlng=en

GLACIER, Osire. “Fatima al-Fihri”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 357-358.

MOUNIR, Latifa Laloui. L’Université Qarawiyyin de Fés: IX – XV siècles. Thèse (Doctorat), Université de Paris V, Paris,  1989.

TERRASSE, Henri. La mosquée al-Qaraouiyin à Fès. Paris: Klincksieck, 1968.


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Legenda: Fatima al-Yusuf

Fonte: ahramonline. Egyptian pillars in 1919: Revolution of the minds. 9 de mar. de 2019. Disponível em: http://english.ahram.org.eg/News/327748.aspx. Acesso em: 15 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Fatima al-Yusuf (1898-1958)

Atriz e editora de origem líbia com atuação no Egito, com destaque na luta anti-colonial.   Nasceu em Trípoli. A mãe faleceu no parto e ela foi abandonada pelo pai, que a deixou com amigos. Aos sete anos fugiu para o Cairo, onde começou a frequentar o teatro. Foi adotada pelo líder de uma trupe de teatro chamado Aziz Eid, que a alfabetizou e a iniciou em pequenos papéis de representação dramática.

Assumindo o nome artístico Rose al-Youssef, ela atuou em grandes companhias, incluindo a Ramsis Theater Company, dirigida por Yusuf Wahbi e se tornou famosa nos palcos egípcios. Ela se casou duas vezes e teve dois filhos, Ihsan, nascido em 1919 e Amal, nascida em 1922.

Em 1925, no ápice de seu sucesso, logo após ter estrelado uma adaptação de La Dame aux camélias A Dama das Camélias) de Alexander Dumas, ela se aposentou dos palcos e começou sua carreira como editora, fundando a revista semanal Rose al-Yousself.

A revista, originalmente literária, começou a expandir suas publicações depois da entrada de dois importantes colaboradores: Makram Ubayd, secretário-geral do Wafd, principal partido nacionalista do Egito, e Muhammad al-Tabie, um jornalista muito respeitado e conhecido. A revista se tornou um dos mais importantes meios de divulgação sobre artes, cultura e política do Egito.

A política muitas vezes foi um grande obstáculo para Youssef, que enfrentou censuras e perseguições, consequências de seu posicionamento editorial, participação em manifestações artísticas durante atividades anti-coloniais contra o governo Britânico. Como editora e Jornalista, ela foi uma das mulheres mais influentes de sua época, servindo, não só, como influência para escritores, artistas e intelectuais de destaque, como também para as novas gerações do mundo árabe.  

BIBLOGRAFIA

GORDON, Joel. “Fatima al-Yusuf”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 219-220.

YUSUF, Fatima. Dhikrayat. Cairo: Rose al-Yusuf Fondation, 1953.


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Legenda: Mulher de alta linhagem (Costa swahili, século XIX)

Fonte: Charles GUILLAIN. Voyage à la còte orientale d’Afrique : exécuté pendant les années 1846, 1847 et 1848 par le brick le Ducouëdic, sous le commandement de M. Guillain : album. Paris: Arthus Bertrand, 1856.
Palavras-chave:

FATIMA BINTI ‘ALI (séc. XVIII)

Mfalme Fatima binti ‘Ali foi uma soberana da cidade-estado suaíli de Kilwa Kisiwani, na costa oriental de África, nos primeiros anos do século XVIII. Ocupou o título de sultana enquanto regente em nome do ainda infante Ibrahim bin Yusuf, que mais tarde se tornaria sultão. Na documentação, Fatima é referida pelo mesmo título real suaíli destinado aos homens: mfalme.

Kilwa Kisiwani, potência mercantil suaíli na pré-modernidade, declinara no início do século XVI, com o saque da cidade pelos portugueses (1505) e o estabelecimento de um sultanato fantoche pelos europeus. A regência de Fatima binti ‘Ali se deu, portanto, no contexto de um ressurgimento de Kilwa enquanto poder regional após a expulsão dos portugueses da Costa Suaíli em 1698, com apoio militar do Imanato de Omã.

O pouco que se sabe sobre esta soberana deriva de uma carta redigida por ela em 1711 – coincidentemente, o mais antigo documento escrito em língua kiswahili que se tem notícia. A carta é endereçada a um certo Mwinyi Juma bin Kwaja, indivíduo de Mombaça que atuara como espião dos portugueses na região. Talvez tenha sido esta a razão pela qual ela encontra-se preservada no chamado Livro das Monções, produzido pelo Estado da Índia portuguesa e guardado no Arquivo Histórico de Goa.

Elaboração do verbete: Gabriel Giacomazzi

Referências

ALPERS, Edward. A Revised Chronology of the Sultans of Kilwa in the Eighteenth and Nineteenth Centuries. Azania: Archaeological Research in Africa, Vol. 2, n. 1, pp. 145–163, 1967.

CORET, Clélia. “Le « pouvoir de l’écrit » : les chroniques swahili dans l’historiographie”. In: GAYIBOR, N.; JUHÉ-BEAULATON, D.; GOMGNIMBOU, M. (Orgs.). L’écriture de l’histoire en Afrique : L’oralité toujours en questions. Paris: Karthala, 2013. pp. 369–393.

SUTTON, John E. G. Kilwa: a history of the ancient Swahili town, with a guide to the monuments of Kilwa Kisiwani and adjacent islands. Azania, Vol. XXXIII, pp. 113-165, 1998.

YAHYA ALI OMAR & FRANKL, P. J. L. A 12th/18th century Swahili letter from Kilwa Kisiwani (being the study of one folio from the Goa archives). Afrika und Übersee, Vol. 77, 1994.

 


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Legenda: Fatima Djoumbe | Imagem: Antoine René Trinquart

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Djoumbe_Fatima_1868.jpg. Acesso em: 13 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Fatima Djoumbe (1836-1878)

Governou a ilha de Mwali (em francês, Mohéli), a menor das ilhas Comores entre 1842 e 1878. Era filha de Ramanataka e Rovao, ambos membros da família real Merina de Madagascar. Seu pai faleceu quanto ela tinha cinco anos,  e a mãe alguns anos mais tarde se casou com outro marido. Ela passou parte da infância com uma governanta francesa. 

Fatima foi coroada por autoridades francesas quando tinha apenas doze anos. Alguns anos mais tarde, livrando-se da governanta, se casou com Said Mohammed Nasser M’Kadar, um aristocrata da Ilha de Zanzibar, que se tornou príncipe após o arranjo matrimonial e expandiu suas atividades comerciais.

Depois de outros dois casamentos Fatima conheceu o comerciante francês Joseph Lambert, passando a fazer negócios com ele em 1865. Pressionada por adversários ela abdicou do poder em favor de seu filho, Mohammed bin Said Mohammed, mas foi recolocada no trono em 1871 pelos franceses. Em um quarto casamento, com o capitão francês Émile Feuriot de Langle teve uma filha chamada Salima Machamba.

A reinado de Fatima Djoumbe  na Ilha Mwali ilustra  a gradual proeminência dos franceses no Índico. Mesmo quando  o território foi declarado protetorado francês (1886), os descendentes dela continuaram a deter  autoridade simbólica na ilha em meio ao crescente clima de disputa e conflito internacional.

 BIBLIOGRAFIA

GROSDIDIE, Cristophe. Djoumbe Fatima, reine de Mohéli. Paris: Harmattan, 2004.

SHELDON, Katleen. “Fatima Djoumbe”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 232-233.


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Legenda: Fatima Hadad

Fonte: Fatima Hadad. 20 de mar. de 2018. Facebook: Fatima Hadad. Disponível em: https:// www.facebook.com/photo.php? fbid=880412062153575&set=pb.100005543686384.-2207520000..&type=3. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Fatima Hadad (1969)

Cantora marroquina e diretora artística. Nasceu em Kenitra, e seus pais eram originalmente da cidade costeira de Essaouira.  O pai, Hadad al-Ragragui, era imã da mesquita local. 

Cresceu em ambiente musical com os irmãos, que tinham uma banda. Ela própria iniciou a carreira interpretando canções de artistas famosos do Líbano, mas logo foi atraída pela poesia, enquanto estudava Direito na Universidade de Rabat.

Aos poucos foi sendo atraída pela poesia cantada conhecida como malhun, e se interessou pelo seu mais importante intérprete, o cantor de Meknès chamado al-Hajj al-Husayn al-Tulali (1924-1998), a quem diz dar continuidade ao trabalho. Ela criou o o grupo  Jawg Huwwat fann al-malhun (Entusiastas pela Arte Malhun), que em 2004 deu origem a um associação oficial composta por dezenas de pessoas interessadas em manter viva a tradição musical do malhun.

Junto com o marido e a filha, Fatima se dedicou a organização de concertos e peças de teatro em âmbito local, regional e nacional. Também se dedicou a divulgar a poesia malhun e estuda-la no Conservatório de música de Salé, sendo além disso professora e atraindo numerosos jovens talentos interessados em ver preservada essa herança cultural magrebina.  

BIBLIOGRAFIA

CLOUSER, Melanie. “Fatima Hadad”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 529-530.

SCHUYLER, Philip D. Malhun: colloquial song in Morocco. In: DAMIELSON, Virginia (Ed).  The Garland Encyclopedia of world Music. Nova Iorque: Routledge, 2002, p. 495-500


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Legenda: Fatima Meer | Foto: R. Bughwan (cortesia: Dasarath Chetty)

Fonte: Publicada no livro "Fatima Meer: a Pictorial Tribute". South African History Online. Disponível em: https://www.sahistory.org.za/archive/fatima-meer-pictorial-tribute-dasarath-chetty. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Fatima Meer (1918-2010)

Reconhecida autora e ativista na África do Sul em relação ao Apartheid, gênero e direitos humanos. Nasceu em Durban, África do Sul, em uma família com nove irmãos de fé muçulmana e formação liberal. Estudou no secundário em escola para meninas indianas e recebeu formação universitária na Universidade de Witwatersrand, onde entrou em contato com um grupo trotskista, e concluiu o Mestrado em Sociologia na Universidade de Natal.

Envolvida em militância política desde os dezesseis anos, logo sofreu forte influência do pensamento e ação política de Mahatma Gandhi. Já em 1946 juntou-se a outros indianos sul-africanos em uma campanha de resistência passiva contra o Apartheid, durante a qual foi criado o Comitê de resistência Passiva Estudantil. Por incitação do governo, em 1949 houve ataques de trabalhadores negros em áreas de comunidades indianas na cidade de Natal, o que levou Fatima Meer a participar da criação da Liga das Mulheres do Distrito de Durban, uma organização baseada na aliança entre “africanos” e “indianos”.

Em 1950 casou-se com um primo em primeiro grau, Ismail Meer, advogado e ativista, com quem teve três filhos. Juntamente com o marido, Fatima trabalhou no Congress Aliance e foram particularmente influentes na construção de relações entre líderes do Indian Congress (Congresso Indiano) e o African National Congress – ANC (Congresso Nacional Africano).   Na década de 1950, com a institucionalização da política do Apartheid, Fatima esteve entre as articuladoras da fundação da Federation of South African Women – FSAW (Federação das Mulheres Sul-Africanas), e foi uma das líderes da Marcha das Mulheres em Pretória contra a Lei do Passe em 1956. 

 No mesmo ano, deu início a sua carreira universitária, como Leitora de Sociologia na Universidade de Natal, onde atuou até 1988. Paralelamente, na década de 1960 organizou vigílias como forma de protesto contra a detenção dos principais ativistas do Congresso Nacional Africano – ANC. Em 1972, fundou o Institute of Black Research (Instituto de Pesquisa Negra) na Universidade, e publicou o livro Race and suicide in South Africa (Raça e suicídio na África do Sul) (1976). Junto com Winnie Mandela, liderou a criação, em 1975,  da Black Women’s Federation (Federação das Mulheres Negras), e após as manifestações estudantis e o Massacre de Soweto, em 1976, as duas foram  presas, e Fatima escapou de um atentado em sua casa logo após ter saído da prisão. Por seu ativismo, suas aulas na universidade estiveram sob vigilância de agentes infiltrados do regime.

Com o fim do Apartheid, ela dirigiu os seus esforços para a pesquisa e a organização de bases de pesquisa acadêmica, tendo publicado cerca de quarenta livros sobre temas diversos de sociologia, história local, direitos humanos, biografias, entre as quais a biografia autorizada de Nelson Mandela, Higher than hope (Maior que a esperança) (1988), obra traduzida para treze idiomas,  e Apprenticeship of a Mahatma (Aprendizagem de uma Mahatma ) (1994).

BIBLIOGRAFIA

ALLEN, Judith Van. “Fatima Meer”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 176-178.

HASSIM, Shireen. Women’s organizations and democracy in South Africa: contesting authority. Madison: University of Wisconsin Press, 2006.

VILLA-VICENCIO, Charles. The spirit of freedom: South African leaders on religion and politics. University of California Press, 1996.  


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Legenda: Fatima Mernissi | Praemium Erasmianum Foundation

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:2004_Al_Azm_Mernissi_Soroush_Mernissi_cropped.tif. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Fatima Mernissi (1940-2015)

Socióloga e ativista em favor dos direitos das mulheres muçulmanas, marroquina, nascida em Fez. Graduada na Universidade Mohammed V, em Rabat, e Doutora em sociologia na Universidade de Brandeis, Massachusetts.

Foi uma das primeiras representantes da segunda onda do feminismo islâmico. Escreve em francês, árabe e inglês, e seus livros foram traduzidos em mais de vinte idiomas. Seus trabalhos reinterpretam o passado sob um prisma da justiça de gênero, propondo reformas religiosas. Em conhecidos livros, como Beyond the veil: male-female dynamics in modern muslim society  (Além do véu: dinâmicas homem-mulher na Sociedade muçulmana moderna) (1975) e La femme dans l’insconscient musulman (A Mulher no inconsciente Muçulmano) (1982), publicado sob o pseudônimo deFatna Ait Sabbaha,  ela explora em profundidade as consequências da justaposição de princípios religiosos e populares a respeito da sexualidade feminina.

Além abordar textos religiosos, ela também escreve sobre as condições sociais da mulher marroquina tanto do campo quanto da cidade. Promoveu o letramento de mulheres marroquinas e tunisianas visando possibilitar o registro e, consequentemente, a preservação e a disseminação de suas experiências, tema desenvolvido no livro Le Maroc reconté par ses femmes (O Marrocos ncontado por suas mulheres). Em Forgotten queens of islam (“Rainhas esquecidas do Islã”) ela contesta a tradição que nega às mulheres a habilidade de liderança política, listando mulheres que governaram comunidades muçulmanas ao longo da história, mais uma vez desafiando uma máxima religiosa a partir da evidência histórica.

Por mais de quarenta anos escrevendo sobre gênero e política no mundo árabe, Mernissi  foi uma das principais representantes intelectuais na luta pelos direitos das mulheres no Islã.

BIBLIOGRAFIA

BELHACHMI, Zakia. Al-Sadawi’s and Mernissi’s Feminist Knowledge with/in the History. Education and Science of the Arab-Islamic Culture. Montreal: Université de Montréal, 1999.

COOKE, Miriam. “Fatima Mernissi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 204-205.

RHOUNI, Raja. Secular and islamic feminist critiques in the work of Fatima Mernissi. Leiden: E. J. Brill, 2010.

MERNISSE, Fatima. Sonhos de transgressão. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

MERNISSE, Fatima. Nasci num harém: as mil noites de Xerazade. Alfragide: Edições Asa, 1994.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:

Fatima Talib Isma’il (1928)

Educadora sudanesa e ativista dos direitos das mulheres. Nasceu em al-Rank City, no sul do Sudão, numa época em que a educação formal das meninas baseada no sistema educacional ocidental era considerada tabu. Contrariando o costume, sua família a matriculou em escolas primárias segundo o modelo ocidental, ela frequentou o secundário em escola para meninas de Cartum, formou-se na Faculdade de Artes do Memorial Gordon College,  realizou o curso superior em Educação e obteve Mestrado na Universidade de Londres (1953).

Já em 1947, durante o ensino secundário, Fatima Talib participou de diversos grupos de organização estudantil, e da primeira organização para a libertação das mulheres sudanesas, Rabitat al-Fitaiat al Muthagafat (Associação de Jovens Educadas), cujo objetivo era a promoção da educação, economia doméstica e atendimento infantil. Durante e após a formação acadêmica, atuou em diversas instituições voltadas para a educação de mulheres e meninas, sendo uma das fundadoras da União das Mulheres Sudanesas (1952) e as representou na Conferência das Mulheres de Moscou (1957), mas abandonou a entidade devido a conflitos ideológicos, ingressando no Partido Comunista do Sudão.

Ensinou na Escola Secundária Omdurman para Meninas (1958), ocupou cargos administrativos e de treinamento de Professoras em Omdurman e em Cartum (1962), e em 1971 foi destacada pela UNESCO para atuar como educadora no Iemen, e depois na Universidade de Riyadh, Arábia Saudita (1977), onde lecionou para estudantes de todo o mundo, incluindo Madagascar, Filipinas e Estados Unidos.

Paralelamente, participou de conferências e simpósios sobre educação, bem como sobre os direitos políticos e sociais das mulheres. Escreveu muitos artigos e participou de programas de rádio e televisão para discutir e defender os direitos das mulheres. Em 1978 assumiu cargos no Ministério da Educação e no conselho de administração da Universidade de Cartum e da Universidade Islâmica de Omdurman.

 Por sua atuação continuada em defesa da educação e das mulheres, recebeu diversas homenagens em instituições educacionais e sociais no Sudão.

BIBLIOGRAFIA

DUANY, Julia Aker. Sudanese women and education: the struggle for equal access Participation. Dissertation, University of Indiana, 1996: http://hdl.handle.net/10535/3579

HALE, Sondra. Gender Politics in Sudan: Islamism, Socialism and State. Boulder: Westview Press, 1996.

MUHAMMAD, Raqi’e Badawi. “Fatima Talib Ismail”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 169-170.


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Legenda: Fatima Tihihit

Fonte: Aujourd'hui le Maroc. Fatima Tihihit: «Quand on ne passe pas par une école, il est difficile de continuer dans le domaine !». 30 de dez. de 2016. Disponível em: https://aujourdhui.ma/culture/musique/fatima-tihihit-quand-on-ne-passe-pas-par-une-ecole-il-est-difficile-de-continuer-dans-le-domaine. Acesso em: 15 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Fatima Tihihit (1969)

Pertencente a uma família berbere tradicional em Tinmar, na Província de Haha, ao sul de Essaouira, na região central do Marrocos. Seu nome real é Fatima Banou, mas ficou popularmente conhecida como Raissa Tihihit Imzine, que significa “a pequena Raissa”. Destaca-se por sua grande popularidade como cantora de música típica dos povos do deserto, a música amazigh, e é uma das primeiras mulheres a seguir carreira neste gênero artístico.

Sua carreira teve início em 1983, como cantora, dançarina, atriz e designer de suas vestimentas e das vestimentas femininas das demais integrantes de seu grupo musical. A arte ofereceu a ela uma oportunidade, pois antes disso passou por diversas situações de humilhação e opressão vivida pelas mulheres marroquinas. Casada aos quatorze anos com um primo, foi vítima de abuso e violência doméstica, e depois devolvida à família junto com um filho para criar, e logo entregue em casamento a outro homem, bem mais velho, para cuidar. Ao abandoná-lo, teve que se submeter à vida de doméstica na casa de um parente em Casablanca, ganhando cerca de 5 dirhams por mês, que mal dava para sua subsistência.

 Foi então que, com a autorização dsua mãe, recebeu uma proposta de cantar e dançar músicas amazigh, o que a levou alguns anos depois ao sucesso. Em suas interpretações ela inovou o gênero, abordando em termos mais ousados questões relacionadas com a subordinação feminina, dando voz ao sofrimento das mulheres. Também inovou no aspecto técnico e na forma, criando cenários, roupas e coreografias novas. Junto ao rebab (instrumento de corda) e o naqoos (instrumento de sopro) típicos, introduziu o uso de órgão e guitarra elétrica, o que ampliou a audiência da música tradicional em meios populares urbanos.

Além de cantora e dançarina, Fatima Tihihit também se destacou como atriz em um filme da cineasta Farida Bourqiya, algo dificultado por ter sido iletrada até a idade adulta, mas logo superado. Sua imagem foi ainda mais popularizada em vídeos, programas de televisão e em espetáculos por todo o país e no exterior, com turnês na França, Estados Unidos, Indonésia, Emirados Árabes, Arábia Saudita, entre outros países. 

BIBLIOGRAFIA

BOURARA, Hassan; CHERGUI, Azeddine. “Fatima Tihihit”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 18-19.

KAPCHAN, Deborah Anne. Gender on the market : moroccan woman and the revoicing of tradition. Philadephia : University of Pennsylvania Press, 1996.

TIHIHIT, Fatima.  Maf Ikbr Ostta : https://www.youtube.com/watch?v=rNtUMFABG1g


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave: Jornalistas Radialistas

Fatimé Dordji (1949)

Jornalista, radialista e empresária, nasceu na cidade de Ati, na região de Chandari, ao leste de Wadai, no atual Chade. Desde cedo demonstrou interesse pelos estudos, mas devido as dificuldades abandonou o ensino secundário e, quando tinha quatorze anos se mudou para a capital, N’Djamena, empregando-se na  Radiodiffusion Chadienne (Radiofusão chadiana), a empresa de comunicação estatal, onde foi contratada como locutora.

Em 1965 ela se casou com Senoussi Khater, homem público que viria a ter papel importante nos governos ditatoriais chadianos, com quem teve sete filhos. A carreira de locutora chegou ao fim repentinamente em 1973, quando ela foi acusada de mandar matar o presidente François Tombalbaye, que governou o Chade uma ditadura no período de 1960-1975. Como estava grávida, não chegou a ser presa, mas  permaneceu sob guarda policial no hospital por alguns meses, depois ficou dois meses na prisão enquanto eram feitas investigações nas quais nunca foi encontrado qualquer indício de crime.

Ainda em 1975, com o assasinato de Tombalbaye, ela e os filhos deixaram o país para acompanhar o marido, que se tornou embaixador chadiano na Líbia, e a seguir todos moraram temporariamente em Bruxelas, na Bélgica. Lá, seus filhos prosperaram, um deles tornando-se jogador profissional na França. Ela se separou do marido, por motivo de  infidelidade conjugal dele, e se mudou para a Líbia, onde passou a atuar em atividades comerciais que lhe renderam sucesso.

Fatimé retornou ao Chade no início da década de 1990. Após a queda da ditadura de Hissène Habré voltou a trabalhar temporariamente em rádio mas abandonou esta carreira para se dedicar aos negócios de administração de uma empresa de importação e exportação de jóias da Arábia Saudita.

Pioneira na história da radiofusão chadiana, Fatimé Dordji  vivenciou as agruras das mulheres de seu país, mesmo quando elas pertencem à elite.

BIBLIOGRAFIA

RICH, Jeremy. “Fatimé Dordji”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 247-248.

TUBIANA, Marie-José. Parcours de femmes: les nouvelles élites: Entretiens, 1997-2003. Paris: Sépia 2004.


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Legenda: Detalhe da gravura "Femme kebaïle"(1850)

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Portrait-Fatma_N%27Soumer.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Líderes religiosas

Fatma Nsoumer (1830 – 1863)

Símbolo do heroísmo feminino na Argélia, onde ela é lembrada pela sua coragem e determinação na luta contra os franceses no período colonial. Em todo o Magrebe ela é por vezes lembrada como Lalla  Fatma Nsoumer, sendo que lalla é um título de reverência para uma mulher que estuda e prega o Alcorão.

Fatma nasceu na aldeia de Werja, na atual Argélia, em uma região que ainda não havia sido tomada pelos exércitos franceses – que passaram a ocupar o país no mesmo ano de seu nascimento. A influência mais importante da infância da menina foi o seu pai, Sidi Ahmad Muhammad, um marabu, líder religioso que dirigia uma zawiya (congregação, espécie de escola religiosa e templo de comunidade sufi). Nesta escola, Nsoumer foi instruída no estudo do Alcorão, e seguindo o costume entre os islâmicos, ela memorizou o livro sagrado e passou a recitá-lo para outras crianças. Após o falecimento do pai, ela e seu irmão, Mohand passaram a dirigir a zawiya. Neste período, após receber o título de lalla, Nsoumer, decidiu divorciar-se do marido para se dedicar exclusivamente ao estudo dos textos sagrados.

Quando os franceses pretenderam ocupar a região de Kabilye, último baluarte da resistência argelina, Fatma Nsoumer, na sua condição de líder religiosa reuniu-se com os representantes das mesquitas e lançou o chamado pelo jihad, a “guerra santa” contra os infiéis e inimigos do islã, os franceses. Esta iniciativa foi bem sucedida e a rebelião conseguiu derrotar os exércitos do General Rondon e repelir os franceses.

Em 1857, Rondon reuniu um exército de 45.000 soldados, cuja topa era munida de artilharia moderna. Kabylie foi rapidamente tomada, e um forte francês foi ali construído. Não obstante a liderança de seu povo, Fatma foi feita prisioneira e enviada para um campo de detenção, onde faleceu seis anos mais tarde.

Fatma Nsoumer tornou-se um símbolo da luta contra o colonialismo, e principalmente, um símbolo feminista argelino. Seus restos mortais foram transladados em 1995 para o cemitério dos mártires de El Alia, junto a outros heróis nacionais.

BIBLIOGRAFIA

CARREY, Emile. Récits de Kabylie: la campagne de 1857. Argel: G. A. L.,  2004.

OUSSADIK, Tahar. Lalla Fadhma n’Summer, Argel: Laphomic, 1983.

SAHLI, Zahia Smail. “Fatma Nsoumer”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 496-497.



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Legenda: Fatou Diome | Foto: Claude Truong-ngoc

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/File:Fatou_Diome_par_Claude_Truong-Ngoc_avril_2015.jpg. Acesso em: 22 de dez. de 2020.

Fatou Diome (1968)

Nascida na ilha de Niodior, Senegal,  foi criada pela sua avó e aí frequentou a escola, tendo aprendido francês e despertado a sua paixão pela literatura francesa. Licenciou-se em Literatura Moderna na Universidade de Marc Bloch de Estrasburgo, onde defendeu a tese de doutoramento  Viagens, intercâmbios e formação, na obra literária e cinematográfica de Ousmane Sembene (1994).

Em 2001 a escritora publicou uma colecção de histórias curtas, intitulada La Préférence nationale (A preferência nacional).  O seu primeiro romance – Le Ventre de l’Atlantique (O ventre do Atlantico) (2003) – transformou-se num êxito de vendas em França e foi traduzido para inglês, espanhol, alemão e em lingua portuguesa. Também escreveu os romances  intitulado Kétala (2006) Inassouvies, nos vies (2008).

Entre 2004 e 2005 realizou a redacção e apresentação da emissão cultural mensal na televisão France 3 Nuit blanche. Também deu cursos de escrita de direção de cinema na Universidade Marc Bloch, UFR Arts/Cinéma et Audiovisuel; e  de literatura francesa do século XIX e literatura africana francófona no Instituto Superior de Pedagogia de Karlsruhe, na Alemanha.

Sua participação em programa no canal de televisão France 2, em 2015, teve ampla repercussão nas redes sociais por ter abordado de forma crítica a questão da imigração dos africanos na Europa e a postura “desumana” de determinados Estados europeus frente ao problema, chamando a atenção para o respeito aos direitos humanos.

BIBLIOGRAFIA

CHEVRIER, Jacques. Fatou Diome, une écriture entre deux rives.  Revue des littératures d’Afrique, des Caraïbes et de l’océan Indien, n. 166, p. 35-38, 2007.

Fatou Diome sobre migração: “Chega de hipocrisia: ou seremos ricos juntos,ou afundaremos juntos”. In: Por dentro da África (Portal Geledés):  http://www.pordentrodaafrica.com/cultura/fatou-diome-sobre-migracao-chega-de-hipocrisia-ou-seremos-ricos-juntos-ou-afundaremos-juntos

FOUCHET, Eugénie.  La représentation romanesque de la femme africaine chez Fatou Diome et Fatou Keïta. Mémoire de Master (Litterature),   Université de Metz, 2009.


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Legenda: Mulher gambiana (1910)

Fonte: The Metropolitan Museum of Art. Disponível em: http://www.aodl.org/fullRecord.php?id=7C-2E8-10. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Fatou Khan (c.1880-c.1940)

Mulher não alfabetizada gambiana que se tornou a maior mediadora no protetorado do Gâmbia em 1900. Nasceu na aldeia de Njau, acima do distrito de Salum, por volta de 1880, e pouco se sabe sobre seus primeiros anos, exceto que era de ascendência Wolof.

Seu primeiro casamento foi por volta de 1900 e em 1910 se divorciou do primeiro marido e se casou de acordo com os ritos muçulmanos com J. C. McCallum, um viajante britânico comissionado para a província North Bank da Gâmbia. Fatou usou a sua ligação para exercer controle na liderança da província e teve tanta influência que ela foi apelidada de “Rainha Vitória”.

Fatou ensinou McCallum a gramática e o vocabulário Wolof, que ele utilizou como padrão de referência para o uso dos oficiais da colônia. Fatou protegeu o seu tio, chefe Sawalo Sise, que governava uma comunidade do distrito de Salum, da fúria dos oficiais da colônia fazendo com que McCallum escrevesse relatórios positivos sobre ele, aproveitando-se da sua senilidade.

Segundo parece, McCallum delegou mais e mais das suas responsabilidades para Fatou, que, embora iletrada, era capaz de administrar o distrito através de intérpretes oficiais que liam as cartas oficiais e escreviam respostas em inglês. A única responsabilidade de McCallum era de assinar as cartas que Fatou tinha escrito. Depois de um tempo, McCallum ensinou Fatou a forjar sua própria assinatura, e assim, mesmo que ele não estivesse presente ela enviava correspondências ao secretário colonial em Banjul.

A tradição Popular diz que Fatou morreu em Njau dois anos depois do início da Segunda Guerra Mundial com aproximadamente 60 anos. A carreira dela ilustra as possibilidades de uma pessoa iletrada vir a exercer influência e poder político durante o regime colonial.

BIBLIOGRAFIA

CHEESAY, Hassoum. Gambian women: an introductory history. Banjul: Fulladu Publishers, 2008.

CHEESAY,  Hassoum. “Fatou Khan”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 360-361.

PRICE, J.H. Some notes on the influence of women in Gambian politics. Nigerian Institute of social and Economic Research, Conference Proceeding, 1958.


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Legenda: Fatou Sow

Fonte: African Feminist Forum. Disponível em: http://www.africanfeministforum.com/fatou-sow/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Fatou Sow (1950)

Feminista e professora de sociologia de grande renome, tanto em seu país natal, o Senegal, quanto ao redor do mundo. Ela frequentou a escola primária e secundária em Dakar, no Liceu Van Vollenhoven, e mais tarde estudou na Universidade de Dakar, onde se formou em filosofia e sociologia. Foi uma das primeiras mulheres a receber uma formação universitária na África, e a experiência de ser uma das poucas mulheres em uma sala de aula repleta de homens (duas mulheres entre 300 homens) foi fundamental na sua escolha por uma carreira na sociologia, em particular no estudo das relações de gênero.

Fatou Sow é especialista em relações de gênero, tendo abordado assuntos relativos à participação e representação política feminina, além de questões pertinentes à saúde, e o estabelecimento de uma rede de relações entre as mulheres senegalesas e as feministas em outros países fora da África. Crítica e ativa no que tange as atitudes e tradições senegalesas com respeito à mulher, em 2000, ela lançou o projeto chamado The teaching, reseaqrch and documentation of woman’s studies  and the analyses of gender relations in the social sciences in Africa (O Ensino, a Pesquisa e a Documentação dos Estudos sobre a Mulher e a Análise das Relações de Gênero nas Ciências Sociais na África), na Universidade Cheikh Anta Diop de Dakar, onde ela é catedrática de sociologia. Este projeto causou controvérsia entre seus pares na UCAD, mas não restringiu a professora e pesquisadora, que expandiu ainda sua análise para o mundo feminino islâmico.

Ela advoga a causa de que uma releitura do Alcorão é necessária, o que é vital para uma apreciação correta da contribuição da mulher e do seu papel no Islã. Ela encoraja as mulheres muçulmanas a empregarem seus conhecimentos linguísticos e teológicos como uma forma de desafio à interpretação patriarcal dos ensinamentos corânicos, pois ela crê que essa interpretação misógina e errônea do texto sagrado se cristalizou ao longo dos séculos.

Estas idéias são desenvolvidas a fundo na obra Woman and islam in Africa in the XXI century: an african feminist perspective (As Mulheres e o islã na África do século XXI: uma perspectiva feminista africana) (2004). A professora é também autora de outras obras de grande importância para os estudos feministas, incluindo Notre corps, notre santé: la santé et la sexualite des femmes en Afrique Subsaharienne (Nosso Corpo, nossa Saúde: a saúde e a sexualidade das mulheres na África Subsaariana) (2004), e La recherche feministre francophone: langues, identités et enjeux (A pesquisa feminista francófona: línguas, identidades e desafios) (2009).

Acadêmica e pesquisadora de grande capacidade intelectual e enorme engajamento nas causas humanistas e dos direitos das mulheres africanas, Sow recebeu diversos prêmios e honrarias acadêmicas, tais como a bolsa Fulbright (Universidade de Maryland em 1980 e UCLA em 1984), além dos doutorados honoris causa nas Universidades de Toronto (1992) e Ottawa (2002). Sow também atua como consultora para inúmeras organizações humanitárias, tais como a UNESCO, UNDP e USAID.

BIBLIOGRAFIA

KONATE, Dior. “Fatou Sow”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 447-448.

LACOH, Thérèse; PUEH, Isabelle. Fatou Sow, les défis d’une féministe en Afrique. 2008.

SOW, Fatou. Dépendence et développment: le statut de la femme en Afrique moderne. Notes Africaines, Dakar, 1973.

SOW, Fatou. As mutilações genitais femininas: estado atual na África. Revista Eletrônica Labrys: Estudos Feministas, 2004:   http://www.unb.br/ih/his/gefem/labrys5/textoscondensados/sowbr.htm


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Legenda: Fatoumata Diarra | International Criminal Court © ICC-CPI

Fonte: International Criminal Court. Disponível em: https://www.icc-cpi.int/CourtStructure/Pages/judge.aspx?name=Judge%20Fatoumata%20Dembele%20Diarra. Acesso em: 13 de dez. de 2020.

Fatoumata Diarra (1949)

Fatoumata Dembélé Diarra é juíza da Corte Penal Internacional nascida no Mali. Frequentou as escolas primária e secundária no Mali e recebeu seu diploma universitário em Direitos Humanos da Universidade de Dakar (1971). Além disso, cursou o programa de graduação em Direito na Escola Nacional de Administração em Bamako e recebeu o diploma de Direito da Escola Nacional de Magistratura em Paris.

Sob o regime de Moussa Traoré, trabalhou na defesa de vítimas da violência política. Foi uma das principais membros do movimento de base que desafiou a ditadura militar no Mali. Atuou como conselheira legal na Convenção de Soberania Nacional em 1991, quando ajudou a elaborar a nova constituição. Também foi vice-presidenta do Groupe Féminin Droit de Suffrage – GFDS (Grupo pelo Direito do Sufrágio Feminino), e líder do Observatório dos Direitos da Mulher e da Criança. Presidiu uma organização de combate à fraude eleitoral, a Rede de Trabalhos APEM, a Associação das Juristas Malinesas, foi vice-presidenta da Federação de Advogadas Africanas e da Federação Internacional de Mulheres em Carreiras Legais.

Fatoumata Dembelé lutou pelo estabelecimento de dispositivos legais de proteção para mulheres, como o fim dos casamentos forçados e o casamento de meninas pré-adolescentes. Foi a representante das mulheres malinesas na Conferência Internacional da Mulher  das Nações Unidas em Pequim ( 1995).

Em 2003, foi eleita para a Corte Penal Internacional, quando comandou tribunais de acusados de genocídio e crimes contra a humanidade, como as atrocidades nos conflitos entre Bósnia, Sérvia e Croácia nos anos 1990, além de presidir, em 2008, parte dos procedimentos legais contra Jean-Pierre Bemba, ex-líder rebelde e candidato presidencial congolês, e de ser juíza no tribunal de Germain Katanga e Mathieu Ngujolo, líderes de movimentos rebeldes no Congo, em 2009  e 2010.

BBLIOGRAFIA

CIAMPI, Annalisa. The International Criminal Court. Law and Practice of International Courts and Tribunals, v. 5, p. 325-353, 2006.

RICH, Jeremy. “Fatoumaa Dembélé Diarra”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 193-194.

WING, Susanna. Constructing Democracy in Transitioning Societies of Africa: constitutionalism and deliberation in Mali. Nova Iorque: Palgrave Macmillan, 2008.


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Legenda: Gravura de mulher swahili (1846-48)

Fonte: Smithsonian National Museum of African Art. Disponível em: https://indian-ocean.africa.si.edu/guillains-atlas/#slide-10. Acesso em: 13 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Fatuma binti Yusuf al-Alawi (c. 1650-1715)

Rainha na ilha de Unguja, no arquipélago de Zanzibar durante os últimos anos de governo português na costa Swahili. Descendia de uma das dinastias Sayyid do Hadhramaut, no Iêmen do Sul, mas por vezes é apresentada nas tradições locais como de origem shirazi, isto é, da Pérsia.

Fatuma foi uma das pelo menos vinte e seis rainhas que governaram várias cidades-estados Swahili entre os séculos XVII e XIX. Isso sugere uma alta posição ocupada pelas mulheres na tradição política Swahili, reminiscente da tendência matrilinear comum ao longo da costa leste africana.  Na sucessão dinástica, seu pai, Yusuf al-Alawi, dividiu o reino em duas partes: a parte sul, com a capital em Kizimkazi, ficou para seu filho Bakari, e a parte norte , se estendendo até a cidade de Zanzibar, ficou para Fatuma. Segundo alguns, ela teria também se casado com Abdullah, rei de Utondwe, com quem ela teve um filho, Hasan.

Como muitas outras governantas das cidades-estados Swahili no século XVII, Fatuma se viu envolvida na escalada de luta entre o declínio do poder de Portugal e o crescente poder do  Sultanato de Oman. Ela se mostrou leal aos portugueses, tentando enviar ajuda a guarnição do Forte de Jesus, em Mombaça (Quênia),  durante o ataque do exército Omani em 1699, mas acabou sendo presa junto com o filho e enviada para Oman.   Ela recebeu autorização para voltar a Zanzibar em 1709,  sendo restaurada ao trono, mas passou a ser vigiada e proibida de enviar quaisquer mensagens aos portugueses em Moçambique.

Quando morreu, para alguns, em 1715, e para outros, em data incerta entre 1710-1728,  foi enterrada no cemitério familiar adjacente ao lado sul do Forte Jesus. Ela foi sucedida por seu filho, a quem é atribuído o início da construção da cidade de Zanzibar.

BIBLIOGRAFIA

GRAY, John. History of Zanzibar: from the Middle Ages to 1856. Londres: Oxford University Press, 1962.

INGRAMS, William Harold. Zanzibar, its history and its people. Londres: Stacey International, 2007.

LIHAMBA, A. et al. (Eds.). Women Writing Africa: The Eastern Region. Nova Iorque: Feminist Press, 2007.

SHERIF, Abdoul. “Fatuma”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 360-361.


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Legenda: Fatuma Roba

Fonte: Oromian Economist. Oromo nation: The Most Athletically Blessed on Earth. 02 de set. de 2015. Disponível em: https://oromianeconomist.com/tag/fatuma-roba/. Acesso em: 22 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Fatuma Roba (1973)

 Nascida na aldeia de Bokeji, nas montanhas do sudoeste da Etiópia, filha de um casal de camponeses. Criada em zona rural, completou o ensino primário e, na juventude, tornou-se policial em Adis Abeba.

Descoberta pelos membros da equipe de corrida da Academia de Polícia, passou a treinar e participou das primeiras provas de atletismo em seu país, participando do circuito nacional de provas de cross-country. Aos dezoito anos, obteve o quarto lugar nas provas de 3.000 e de 10.000 metros do Campeonato Africano de Atletismo. 

Participou de sua primeira maratona em 1993, quando venceu a prova disputada em Adis Abeba. Dois anos mais tarde participou da primeira prova internacional, no Campeonato Mundial de Atletismo em Gotemburgo, quando terminou na 18ª posição. Obteve resultados melhores no Mundial de Sevilha (1999) e nas Olimpíadas de Atlanta, onde ficou na 4ª posição. Sua maior conquista aconteceu nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, quando alcançou a primeira posição, e se consagrou como a primeira africana a ganhar uma maratona olímpica. Ainda participou de maratonas em Boston (1997-1999), Madrid (2001) e Nagano (2004).

BIBLIOGRAFIA

CHRISTENSEN, Karen; Guttmann, Allen; PFISTER, Gertrud. International encyclopedia of women and sports. Nova Iorque: Macmillan Reference USA, 2001.

CHAPELL, Robert; SEIFU, Ejeta Seifu.  Sport, culture and politics in Ethiopia, Culture, Sport Society, v. 3, n. 1, p. 35-47, 2000:

https://doi.org/10.1080/14610980008721861


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Legenda: Fauziya Kassindja

Fonte: Goodreads. Disponível em: https://www.goodreads.com/author/show/ 69546.Fauziya_Kassindja. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Fauziya Kassindja (1977)

Escritora togolesa, nasceu de uma família com sete filhos que falava Hausa. Como suas irmãs, Kassindja foi poupada da operação ritual genital por insistência do pai. Muhammad Kassindja (1935-1993) era um muçulmano devoto, mas de pensamento livre, da etnia Tchamba e Koussountou, que administrava uma empresa de transporte de sucesso em Kpalimé, na fronteira de Gana com o Togo. Ele mandou sua filha favorita para estudar na madraça (escola corânica) e, de 1991 em diante, ela estudou no Saint Prosper’s College, onde aprendeu falar fluentemente o inglês para que pudesse ajudar em seu trabalho.

Com a morte prematura do pai (1993), sua mãe, que era de etnia Fula, foi expulsa de casa pelos parentes do pai e não teve alternativa a não ser retornar ao Benin, sua terra natal. Praticamente órfã, Fauziya, e o irmão mais novo, foi levada por uma tia paterna conservadora e destratada, pois os parentes consideravam que ela tinha sido mimada pelas indulgências do seu falecido pai. Ela foi forçada a se casar com um homem trinta anos mais velho que já tinha três esposas. Mas o homem impôs a condição de consumar o casamento, no leito, assim que ela fosse extirpada genitalmente, de acordo com o costume local.

Com a ajuda de sua irmã mais velha, chamada Ayisha, ela fugiu de Accra, onde morava, para Düsseldorf, na Alemanha. Depois de dois meses, decidiu procurar asilo nos Estados Unidos, onde sabia que tinha parentes e podia falar a sua língua. Ao chegar ao aeroporto de Newark (1994), declarou que estava viajando com um passaporte falso e pediu asilo político, mas sua história não foi considerada credível.

Assistida por Layli Miller Bashir, uma estudante veterana de direito, ela deu entrada com um pedido de asilo, enquanto permanecia em uma área de reclusão de imigrantes indesejáveis. Com a ajuda de Miller, sua história foi contada no livro autobiográfico Do they hear you when you cry? (Eles te ouvem quando chora?) (1997), logo traduzido para muitas línguas, incluindo holandês, francês e alemão. Admtida no país, Fauzyia Kassidja passou a integrar o conselho consultivo do Centro para Estudos de Gênero e Refugiados, fundado em 1999. Seu caso tem sido amplamente citado como um precedente para pedidos de asilo político baseados em questões de gênero.

BIBLIOGRAFIA

BECKERS, Elisabeth. “Fauziya Kassindja”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 306-307.

KASSINDJA, Fauziya; MILLER, Layli. Do they hear you when you cry? Nova Iorque: Delacorte, 1998.

MATTER OF KASINGA. Center for Gender and Refugee Studies, 1996:  https://cgrs.uchastings.edu/our-work/matter-kasinga-1996


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Legenda: "Signare" da Ilha de Saint Louis no Senegal (1788)

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/ File:Hommes_femmes_et_sc%C3%A8nes_du_S %C3%A9n%C3%A9gal-Jacques_Grasset_de_Saint_Sauveur_mg_8495.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Fenda Lawrence (século XVIII)

Destacada traficante de escravizados(as) do Rio Gâmbia, era uma mulher negra livre e relativamente rica que visitou o Sul dos Estados Unidos na segunda metade do século XVIII para tratar de negócios.

Ela era parceira de um traficante inglês que tinha por último nome Lawrence, com quem mantinha uma relação de casamento “à moda africana”, isto é, uma concubinagem e relações familiares paralelas à família e relações familiares europeias do parceiro.

Fenda muito provavelmente conheceu Lawrence quando ele foi ao Rio Gâmbia fazer negócios. Eles atuavam sobretudo na cidade portuária de Kaur, no reino wolof de Salum, e comercializavam escravizados(as), cera de abelha e tecidos.  Ela desfrutava da condição das poderosas mercadoras conhecidas como signares, isto é,Senhoras, Donas, detentoras de poder econômico e prestígio social junto aos negociantes e oficiais europeus. Nesta condição, acumulou considerável riqueza e propriedades tanto através de acordos comerciais quanto por meio de herança de seus associados europeus,  ou os dois.

Em 1772 Fenda atravessou o Atlântico no navio New Brittania com um grupo de servidores pessoais. Visitou Charleston, na Carolina do Sul, e a Georgia, onde, para que pudesse circular em tranqüilidade, recebeu do governador James Habersham, que também era traficante de escravos, um certificado informando que era uma “mulher negra livre”.

Nada consta nas fontes históricas sobre a vida dela após seu retorno à Senegâmbia.

BIBLIOGRAFIA

ASHCRAFT-EASON, Lillian. She voluntarily hath come: A gambian woman trader in colonial Georgia in eighteenth century.In: LOVEJOY, Paul (Ed.). Identity in the shadow of slavery. Londres; Nova Iorque: Continuum, 2000.

CANDIDO, Mariana; JONES, Adam. African woman in the Atlantic World: property, vulnerability & mobility, 1660-1880. Cambridge: Boydell & Brewer, 2019 ://www.cambridge.org/core/books/african-women-in-the-atlantic-world/7C907A11663BA37DB0DABBA0FAB2DD27

SARR, Assan. “Fenda Lawrence”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 475-476.


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Legenda: Flora Nwapa

Fonte: South African History Online. Disponível em: https://www.sahistory.org.za/archive/biography-flora-nwapa-emily-coolidge. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Igbos

Flora Nwapa (1931-1993)

Nome pelo qual ficou conhecida internacionalmente Florence Nwanzuruahu Nkiru Nwapa, uma escritora, publicitária e educadora nigeriana. Lembrada como a “mãe” da moderna literatura africana, ela foi a precursora de uma geração de escritoras africanas e a primeira romancista africana com obra publicada na língua inglesa na Grã-Bretanha a alcançar o reconhecimento internacional.

Nascida em Oguta, no sudeste da Nigéria, durante o período colonial, era filha de família bem situada na sociedade, sendo a mãe dela, Martha Nwapa, uma professora de teatro. Estudou na escola secundária em Lagos, na Universidade de Ibadan (1957) e obteve diploma em Educação na University of Edimburg, na Escócia (1958). De retorno à Nigéria, atuou junto ao Ministério da Educação em Calabar, como Diretora de Educação até 1959. Depois foi professora de geografia e inglês na Queen’s School, em Enugu, e trabalhou como Assistente na University of Lagos (1962-1967). Também é conhecida por seu trabalho junto ao governo na reconstrução do país após a Guerra de Biaafra, quando trabalhou com órfãos e refugiados que foram deslocados durante a guerra.

Seu primeiro romance, Efuru, foi publicado em 1966 pela Heinemann Educational Books, com o apoio do escritor Chinua Achebe, o que a coloca como a primeira autora com obra publicada na Nigéria. O enredo do livro girava em torno de uma mulher determinada, e através dela é questionado o papel tradicional atribuído ao sexo feminno. Depois de perder um filho e de passar por dois casamentos infelizes, a protagonista não deixa de lutar contra todos os obstáculos que a impedem de ser uma pessoa de sucesso. 

Logo depois vieram a ser publicados os romances Idu (1970), Never Again (1975), One is Enough (1981), e Women Are Different (1986), cujas protagonistas são mulheres que lutam por sua independência econômica e liberdade para amar os seus parceiros e para atuar na sociedade. Publicou ainda duas coleções de histórias – This Is Lagos (1971) e Wives at War (1980),  e um volume de poesias, Cassava Song and Rice Song (1986). 

Em 1974 Flora Nwapa fundou a Tana Press e em 1977 a Flora Nwapa Company, publicando sua própria literatura para adultos e crianças, bem como obras de outros escritores. Sobre o perfil de suas obras, ela diz que o objetivo era “informar e educar mulheres em todo o mundo, especialmente Feministas, sobre o papel das mulheres na Nigéria, sua independência econômica, sua relação com seus maridos e filhos, suas crenças tradicionais e seu status na comunidade como um todo”. Embora tivesse atuado em favor de uma sociedade igualitária e em defesa das mulheres, preferia pensar a si mesma como “womanist” (mulherista) em vez de “feminist” (feminista).

BIBLIOGRAFIA

BERRIAN, Brenda F.  In Memoriam: Flora Nwapa (1931–1993).  Signs, v. 20, n. 4,, p. 996-999, 1995.

UMEH, Marie (Ed). Emerging perspectives on Flora Nwapa. Trenton: Africa World Press, 1997.

NWACHUGKWU-AGBADA, J. O. J.. Stability  and change in Flora Nwapa’s feminitude. In: EKO, Ebele et alii (Eds.). Flora Nwapa: critical perspectives. Calabar: University of Calabar Press, 1997. 

NWACHUKWU-AGBADA, J. O. J.. “Flora Nwapa”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 511-512.


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Legenda: Florence Mahoney

Fonte: The Gambia Who's Who. 20 de set. de 2016. Facebook: The Gambia Who's Who. Disponível em: https://www.facebook.com/ 234683106603036/photos/dr-florence- mahoneyafrica-gambiafriday-october-10-2008dr-florence-mahoney-nee-as/1217483808322956/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Historiadoras

Florence Mahoney (1927)

Notável intelectual, historiadora e educadora, foi a primeira mulher gambiana a concluir um doutorado. Nasceu Florence Peters, seus pais vieram de Serra Leoa, sendo que seu pai editou o jornal The Gambia Echo durante trinta anos. Concluiu a graduação em História com honras na Universidade de Londres (1951) e diplomou-se em educação pela Universidade de Oxford (1952). Uma década mais tarde ela defendeu a tese: Government and public opinion in the Gambia, 1816-1901(Governo e Opinião Pública na Gâmbia: 1816-1901), na prestigiada School of Oriental and African Studies, da Universidade de Londres.

Florence retornou à Gâmbia em 1953 para ensinar História em vários colégios de ensino médio. Casou-se com Dr. John Mahoney, um cirurgião, em 1954, com quem teve três filhos. Ela foi desde cede uma defensora de melhores oportunidades à educação das mulheres. Em uma carta ao editor do The Gambia Echo em 1954, escreveu: “Entre os professores enviados ao Reino Unido com bolsa de estudos pelo governo, cinco são homens e apenas uma é mulher. A Gâmbia não irá progredir se seus homens são educados e as mulheres não o são”.  

Em 1966 ela participou da organização do Primeiro Festival Mundial de Artes Negras de Dakar, e no ano seguinte criou a Friends of Museum Society (Associação dos Amigos do Museu), que lançou as bases para a inauguração do Gambia National Museum (Museu Nacional da Gâmbia) (1985), e a articular o Public Records Comittee (Comitê do Arquivo Público) que estabeleceu o Gambia National Archives (Arquivo Nacional da Gâmbia).

Florence Mahoney lecionou História para gerações de professores. Sua publicação Stories of Senegambia (Histórias da Senegâmbia) (1974) foi o primeiro livro da história da Gâmbia escrito por uma pessoa autóctone. Esse livro ajudou a descolonizar a história do país, relatado antes sob uma perspectiva de interpretação eurocêntrica. Agora aposentada, Florence continua supervisionando dissertações sobre a história gambiana.

BIBLIOGRAFIA

CEESAY, Hassoum. Gambian women: na introductory  history. Banjul:  Fulladu Publishers,  2008.

CEESAY, Hassoum. “Florence Mahoney”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 45-46.

N’JIE, Sally P. C.. Who is who in Gambia? Banjul: Goverrnment Printer, 1978.


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Legenda: FolayeGbe Akintunde-Ighodalo | Foto: Depo Adenle

Fonte: Emotan. 04 de jan. de 2012. Disponível em: https://emotan.wordpress.com/2012/01/04/ nigerian-womens-empowerment-the-voice-of- folayegbe-akintunde-ighodalo/. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Folayegbe Akintunde-Ighodalo (1923-2005)

Pioneira do movimento feminista na Nigéria, funcionária pública, e democrata, nasceu em Okeigbo, hoje uma pequena cidade no Estado de Ondo. Seu nome completo era Felicia Folayegbe Mosunmola Idowu Akintunde-Ighodalo, e sua família pertencia ao grupo étnico yoruba, sendo a mãe dela descendente do Ooni (rei-sacerdote) Derin Ologbenla – da linhagem governante de Ile-Ifé. Embora os pais tivessem adotado o cristianismo como religião, ela foi criada pela comunidade familiar em que alguns membros continuavam as práticas religiosas tradicionais.

Começou o estudo primário em escola missionária e ganhou uma bolsa para o Queen’s College, escola secundária do governo de elite para garotas em Lagos. A seguir, estudou na Cambridge School (1941) e entrou para o United Missionary College, em Ibadan, onde se formou para o Magistério em 1943. Nos primeiros cinco anos de vida profissional, trabalhou em diversas escolas secundárias em Lagos, Sapele e Ile-Ifé, e a seguir ganhou uma bolsa de estudos que lhe permitiu estudar na Universidade de Londres. 

Durante sua formação universitária, participou de organizações estudantis e ingressou no movimento anticolonial, adotando as premissas do pan-africanismo. Quando estudou Economia na Escola de Comércio Politécnica Regent Street (1954), trabalhou em meio período nos correios. Ao abraçar mais diretamente a causa e os valores nacionalistas, rejeitou o nome cristão, Felicia, em favor de seu nome yoruba, Folayegbe, ou sua forma abreviada, Fola. Ela foi então contratada para trabalhar no governo nigeriano, em Ibadan, casou-se com Jeremiah Ighodalo e deu à luz ao seu primeiro filho.

Nas atividades desenvolvidas junto ao Ministério do Desenvolvimento, sentiu a discriminação dos superiores britânicos pelo fato dela ser mulher, mas conquistou espaço e respeito por sua determinação e qualificação. Atuou em diversos ministérios, incluindo comércio e indústria; educação; trabalho e transporte; agricultura e recursos naturais; e assuntos internos e informação.

Em 1958 ela preparou os novos quadros de secretários que assumiriam o trabalho administrativo após a independência, e ajudou a projetar a política industrial e agrícola que modelaram os planos de desenvolvimento regional antes da primeira tomada de controle militar em 1966. Em 1968, foi promovida ao posto de secretária permanente do governo, tornando-se a primeira mulher nigeriana a ocupar esta função até 1976, quando se aposentou. É vista como um modelo de servidora pública de carreira para jovens mulheres que almejam alcançar o ensino superior e ingressar na vida profissional e na vida pública.

Diversas vezes foi convidada a falar como porta-voz das mulheres em questões relativas ao desenvolvimento, em discursos, conferências e matérias jornalísticas. Embora não pudesse tomar parte em atividades políticas devido a sua posição no serviço público civil, ela teve papel em diversas organizações de mulheres, com participação no Council of Women’s Societies (Conselho das Sociedades de Mulheres) (1957) e na fundação da Associação Nigeriana das Mulheres Universitárias – NAUW, da qual veio a ser presidenta (1980-1984).

Depois da aposentadoria, gerenciou negócios agrícolas, participou de conselhos, prestou serviços de consultoria e integrou comissões de inquérito. Intensificou a participação no movimento de mulheres e participou de vários programas de valorização comunitária, além de manter profundo interesse por ações ligadas a cultura tradicional yoruba.

Em 1972 ela recebeu dois títulos tradicionais, o primeiro, como Otun Iyalode de Ifetedo, e o segundo, como Wabodu de Okeigbo. Este último título lhe conferia as responsabilidades como princesa principal da casa de governo Giesi de Ile-Ife. Em reconhecimento ao serviço prestado à Nigéria, o presidente Olusegun Obasanjo a investiu como Oficial da Ordem do Níger em 1977.

Fonte da imagem: Blog Emotan. 04 jan. 2012. Disponível em:  https://emotan.wordpress.com/2012/01/04/nigerian-womens-empowerment-the-voice-of-folayegbe-akintunde-ighodalo/. Acesso em: 11 dez. 2020.

BIBLIOGRAFIA

DENZER, LaRay. Folayegbe M. Akintunde-Ighodalo: a public life. Ibadan: Sam Bookman Publishers, 2002.

DENZER, Laray. “Folayegbe Mosunmola Akintunde-Ighodalo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 145-147.

MCINTSH, Marjorie Keniston. Yoruba women, work, and social change. Bloomington: Indiana University Press, 2009. 


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Legenda: Françoise Foning | Assembleia Nacional da República de Camarões

Fonte: National Assembly of Cameroon. Disponível em: http:// www.assnat.cm/index.php/en/les-deputes/6eme-legislature/894-foning-nee-tsoubgny-nguiazong-francoise. Acesso em: 13 de dez. de 2020.

Françoise Foning (1949-2015)

Empresária e líder política da República dos Camarões.  Nasceu na região oeste de Menoua, de uma família popular do grupo étnico-linguístico bamileké. Ela se casou e teve seis filhos.

 Com o apoio familiar, entrou no negócio do turismo na Cidade de Douala, no sul do Camarões, quando tinha doze anos. Em 1967 Françoise deu início a sua longa carreira como empreendedora em Douala ao criar um restaurante chamado New Style. Logo ela ampliou o negócio para o ramo dos táxis, passando dentro de algum tempo da ter mais de 150 deles; a atuar em uma empresa de cascalho chamada Les Graviers Unis. Depois, foi proprietária da companhia de importação-exportação de alimentos SOCAMAC; da firma de comércio exterior Ovicam e do negócio de móveis Anflo, cujos negócios foram estendidos para os Estados Unidos e a Europa.

Nos anos 1970 ela atuou no Ministério do Turismo de Camarões, mas logo deixou o serviço público. Comprou uma clínica médica e fundou uma escola em sua cidade natal, Deschang, o Collège de la Fraternité.  Recebeu diversos planos do governo camaronês e recebeu do sultão de Bamun o respeitado título de njih, enquanto a comunidade Bafou a coroou como sua rainha. Para os pobres do país, ela passou a ser sinônimo de riqueza.

O prestígio e influência de Françoise levaram a que se aproximasse do presidente, Paul Biya, passando a fazer negócios com diversos ministérios do governo. Era ativa apoiadora do partido do governo, o Movimento Democrático Popular do Camarões – CPDM, onde passou a controlar a seção das mulheres em 1997 junto com Chantal Biya,  a primeira dama do país, com quem também dividiu a direção da organização de caridade Fondation Chantal Biya.

Em 2002 Françoise assumiu o cargo de vice-prefeita de Douala; também serviu na Assembleia Nacional de 2002 a 2007 e foi reeleita em 2009, apesar das acusações de desvio de dinheiro público. Sua grande habilidade pessoal e empresarial e sua capacidade de liderança a levaram a se tornar líder de várias associações de mulheres e grupos empresariais,  a assumir e se manter como presidenta da Associação de Mulheres Empresárias dos Camarões e a chefiar a Rede Africana para o Apoio de Empreendedoras Mulheres.

Reconhecida líder pelo Banco mundial, Banco de Desenvolvimento Africano e várias outras agências internacionais, participou de numerosas conferências, consultorias e encontros internacionais, inclusive no Summit EUA/África,  em Washington, a convite do presidente George W. Bush.

Sofreu um acidente de carro em 2003 e outro em 2015, sendo este fatal.  Foi a empresária mais notável na história  do seu país.

BIBLIOGRAFIA

BABENI. Leontine. Femmes d’impact. Yaoundé;  Éditions Tropiques, 2011

FONGUIENG, Dieudonné Tahafo. Histoire des femmes célèbres du Cameroun, Yaounde:  Editions Portraits, 2008.

RICH, Jeremy. “Françoise Foning”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 381-382.

SOSSO, Ginette P. N. A.. Les femmes entrepreneures dans la société politique camerounaise. These (Doctorat) Université de Bourdeaux, 2015.


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Legenda: Funmilayo Ransome-Kuti

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:70_year_old_Funmilayo_Ransome-Kuti_on_her_birthday.png. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Funmilayo Ransome-Kuti (1900-1978)

Pertencente a uma família aristocrática tradicional de língua e cultura yoruba, com nome de nascimento Francis Abigail Olufunmilayo, nasceu em Abeokuta, Nigéria, era professora de formação   e se destacou como líder nacionalista, política, ativista em defesa dos direitos das mulheres e uma das primeiras feministas africanas a ter reconhecimento internacional. Foi a primeira mulher de seu país a dirigir um carro, liderou a campanha pelo direito das mulheres nigerianas ao voto, e teve papel determinante na luta anti-colonial.

Durante o período colonial, em 1949 ela liderou com sucesso as mulheres egbas da cidade de Abeokutá, no Estado de Ogun, contra o controle de preços e taxações pelas autoridades inglesas que contava com o apoio do alake (monarca) de Egba chamado Ademola II, sob a alegação de abuso de autoridade, o que levou à vitória do movimento e à renúncia do monarca africano. Na ocasião, ela foi descrita pelo jornal West African Pilot como “A leoa de Lisabi”. Algum tempo depois, em 1953, fundou a União das Mulheres de Abeokutá, a Federação de Sociedades de Mulheres e a vinculou à Federação Democrática Internacional das Mulheres.  Ao ser expulsa do partido governista, o Council of Nigeria and Cameroons – NCNC (Conselho da Nigéria  e dos Camarões), fundou o  Commoner’s People’s Party (Partido Popular dos Plebeus), que passou a atuar como oposição ao governo.

No contexto da independência da Nigéria, seu ativismo e militância a aproximou do socialismo e a colocou sob vigilância dos poderes instituídos. Suas viagens à União Soviética, Hungria e China irritaram as autoridades. Em 1956 ela não teve o passaporte renovado na Nigéria e algum tempo depois não obteve visto de entrada nos Estados Unidos, sob a alegação de que era comunista. 

Casada em 1925 com o reverendo e professor Israel Oludotun Ransome-Kuti, ela foi a mãe dos ativistas Fela Anikulapo Kuti, músico de renome internacional; Beko Ransome-Kuti, médico; e Olikoye Ransome-Kuti, professor, doutor, médico e ministro da saúde; e era tia do dramaturgo Wole Soyinka. Em 1968 foi agraciada com o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade de Ibadan. Sua morte ocorreu algum tempo depois da comuna liderada por Fela Kuti ter sido invadida por militares armados, em fevereiro de 1978, quando ela foi jogada pela janela do edifício em que estava. Ela entrou em coma algum tempo depois, vindo a falecer.

BIBLIOGRAFIA

CHUKU, Gloria. Funmilayo Ransome-Kuti”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 177-178.

JOHNSON-ODIN, Cheryl. For their freedom’s: the anti-imperialist and international feminist activity of Funmilayo Ransome-Kuti of Nigeria. Women’s Studies International Forum, v. 32, n. 1, p. 51-59, 2009.

MBA, N. E.. Olofunmilayo Ransome-Kuti. In: AWE, Bolanhe (Ed.). Nigerian women in historical perspective. Lagos: Sankore Publishers, 1992.

OFOEGO,  Obioma. Fumilayo Ransome-Kuti and the women’s of Abeokuta.  New York: UNESCO, 2014. Disponível em:  http://www.unesco.org/new/fileadmin/MULTIMEDIA/HQ/CI/CI/pdf/publications/frk_en.pdf


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:

Gagoangwe (1845-1924)

Mohumagadi (rainha ou mãe-rainha) sucessivamente dos Mmanaana Kgatla e BaNgwaketse – subgrupos do BaTswana no Protetorado de Bechuanalândia, atual Botsuana.  Era filha de Sechele I, que era kgosi (rei, governante) do povo Kwena e se converteu ao cristianismo em 1840 por David Livingstone. Sua mãe chamava-se Mokgokong.  Segundo consta, quando ela era criança, cegou um sevidor do pai, que, para seguir a rera do “olho por olho” permitiu que o prejudicado cegasse sua própria filha. Por isso ela icou conhecida como  “rainha de um olho”.

Gagoangwe casou-se com o seu primeiro marido, kgosi Pulane, em 1875, mas fugiu algum tempo depois com Bathoen I, herdeiro do povo Bangwaketse, com quem se casou formalmente em 1890. Diz-se que, devido a sua devoção ao cristianismo, influenciou o marido a permitir a entrada da London Missionary Society (Sociedade Missionária de Londres em seus domínios.

Seu filho mais velho, Seepapitso, tornou-se Kgosi após a morte de seu pai em 1910, mas o reinado progressista de Seepapitson II terminou em 1916, quando foi assassinado pelo irmão, Moepitso. Para fazer restaurar a ordem, ela assumiu a regência em nome do neto, Bathoen II, o que a levou a tomar assento junto ao Conselho Consultivo dos povos nativos na relação com os colonialistas britânicos.

BIBLIOGRAFIA

ALLEN, Judith Van. “Gagoangwe”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 407.

MATEMBA, Yonah Hisbon. The assassination of kgosi Seepapitso Gaseitsiwe of the BaNgwaketse, 1916-17. Botswana Notes & Records, v. 34, n. 1, p. 25-36, 2003.

PARSONS, Neil. King Khama, emperor Joe, and the great white queen: victorian britain through african eyes.  Chicago: University of Chicago Press, 1998.


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Legenda: Gambo Sawaba

Fonte: AREWA Elites Magazine. 23 de abr. de 2017. Facebook: AREWA Elites Magazine. Disponível em: https://www.facebook.com/arewaelitesmag/photos/a.971886666165713/1437006289653746/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Feminismo islâmico Hauçás

Gambo Sawaba (1933-2001)

Nascida no seio de uma família multiétnica em Zaria, no norte da Nigéria, o que a tornou fluente nas línguas hauça, yoruba, igbo  e nupe. Seu pai era muçulmano de origem ganense e sua mãe era de origem nupe, de uma cidade na fronteira com a República do Níger. Ela foi a nona de dez filhos(as), frequentou a escola primária e logo foi casada com Abubakar Garba Bello, o primeiro de seus quatro maridos, um membro da família Bida que era então um soldado da Fronteira da África Ocidental.

No início da década de 1950 Sawaba desenvolveu laços com um grupo de jovens radicais que fundaram a União Progressista do Elemento Norte. (NEPU), que reivindicava autonomia e independência para o povo hauçá. Logo ela percebeu a sub-representação das mulheres e começou a realizar atividades de formação, organização e propaganda em Kano visando conscientizar as mulheres.

Paralelamente, estabeleceu contato com Funmilayo Ransome Kuti, que liderava as mulheres em Abeokutá, discutindo estratégias para a inserção das mulheres na agenda do movimento nacionalista.  Por suas divergências e denúncias do tradicionalismo muçulmano e dos representantes do governo colonial, entre 1953-1960 foi presa seis vezes por reuniões ilegais e difamação de autoridades, e chegou a dar cursos de formação política dentro da prisão.

Antes e depois da independência da Nigéria (1960), Sawaba apelou persistentemente para uma maior participação das mulheres do norte do país, para que tivessem maior acesso a oportunidades de educação e emprego, e reformas no direito de família. Como outras mulheres nacionalistas, ela lamentava que os partidos políticos e governos dominados pelos homens, qualquer que fosse sua ideologia, não reconhecessem as partidárias e parceiras mulheres. Em 1976, foi eleita sem oposição a uma vaga de representação no conselho da cidade de Zaria. Em 1978, ela e outras líderes fracassaram na tentativa de lançar um partido de mulheres.

Em meio a idas e vindas de governos militares ou autoritários, sempre que um governante civil assumia o poder, seu apoio era solicitado devido a suas posições progressistas. Ela esteve envolvida com o Partido da Redenção do Povo, com o Partido Popular da Nigéria, o Partido Social-Democrata e o Partido Popular Democrático. Até sua morte, a sua principal pauta foi a igualdade de direitos e o fim da corrupção, pelo que é lembrada como uma feminista histórica e como notável liderança nacionalista.

BIBLIOGRAFIA

DENZER, Laray. “Gambo Sawaba”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 296-297.

SHAWULU, Rima. The story of Gambo Sawaba. Jos: Echo Communication Limited, 1990.


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Legenda: Gaositwe K. T. Chiepe | UN Photo / Milton Grant

Fonte: United Nations Photo. Disponível em: https://dam.media.un.org/. Acesso em: 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Gaositwe K. T. Chiepe (1926)

Primeira mulher de Botsuana a atuar como ministra e como parlamentar. Nasceu em Serowe, no então Protetorado de Bechuanalândia. Atribui seu sucesso à determinação da mãe, que lutou por sua educação. Ela se destacou como melhor aluna do país e ganhou uma bolsa de estudos na Tiger Kloof Post-Secondary School. Foi também a primeira mulher a obter um diploma e grau acadêmico quando se tornou Bacharel em Ciências em Educação na Universidade de Fort Hare, concluindo depois o Mestrado na Universidade de Bristol, Inglaterra.

De 1948 a 1953 atuou na educação em Botsuana e foi responsável por uma grande parte do quadro político do sistema educacional do país após a independência. Posteriormente, serviu o embaixador de Botsuana em diversos países e participou ativamente de negociações da política de desenvolvimento e comércio estabelecida com a Comunidade Econômica Europeia, além de presidir o conselho de ministros da Organização de União Africana – OUA.

Após as eleições gerais de Botsuana, em 1974, Chiepe se juntou ao parlamento como indicação do presidente, pelo Partido Democrático de Botsuana. Daí até 1984 serviu como ministra de diversos gabinetes e deste ano até 1994 assumiu o Ministério de Assuntos Externos, onde lutou diplomaticamente contra o regime do Apartheid da África do Sul. Em 1994, voltou ao Ministério da Educação, onde seguiu por mais cinco anos, até sua aposentadoria.

Acumulou mais de cinquenta anos de liderança, tornando-se a mais longa servidora da África e foi reconhecida por isso através de diversas premiações. Mesmo depois de sua aposentadoria, continua ativa em problemas nacionais e internacionais e recebeu honras, em 2004, da embaixada dos Estados Unidos, por sua excepcional contribuição.

BIBLIOGRAFIA

BROCKMAN, Norbert. An african biographical dictionary. Nova Iorque: Grey House Publishing Inc., 2006.

LESLIE, Agnes, “Gaositwe K. T. Chiepe”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 67-68.

MORTON, F., A. Murray; Ramsay, J.. Who is who in Botswana. Metuchen:  Scarecrow Press, 1989.


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Legenda: Gardenia Benrós

Fonte: CaboVerde.com. Disponível em: http://www.caboverde.com/music/gardenie.htm. Acesso em: 22 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Gardenia Benrós (1962)

Nasceu na cidade de Praia, e viveu na Ilha de Brava e Ilha das Flores, no Arquipélago de Cabo Verde, até os 13 anos de idade. Sua carreira profissional como cantora teve início em 1986, quando gravou o primeiro álbum. Sua educação musical e dramática formal levou-a ao Berklee College of Music e ao Rhode Island College.

Ela também foi modelo e ex-Miss Cabo Verde EUA. Em 1984, ganhou a competição Talent of America (Talento da América) em Nova York, como a melhor vocalista e a mais fotogênica. Realizou apresentações em toda a América do Norte e na Europa, com gravações distribuídas pela Polygram Records.

Capturando o espírito da saudade cabo-verdiana, ela canta em crioulo e gravou muitas canções de sucesso, entre as quais “Pescador”, “Bidjica” e “Mal D´Amor”. Também interpreta em língua portuguesa, espanhola, italiana, francesa e inglesa, e inclusive em ladino, a língua dos judeus sefarditas nos séculos XVI e XVII.

BIBLIOGRAFIA

PALMBERG, Mai. Expressing Cape Verde: morna, funaná and national identity. In: PALMBERG, Mai; Kirkegaard,   Annemette (Eds.). Playing with identities in contemporary music in Africa. Uppsala: Nordiska Africainstitutet, 2002, p. 117-133.

SIEBER, Timothy Popular music and cultural ientity in the cape verdean postcolonial diaspora. Etnográfica, v. 9, n. 1, p. 123-148, 2005.


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Legenda: Gaudencia Aoko

Fonte: Blog Legio Maria: Simeo Ondeto. 27 de fev. de 2015. Disponível em: http:// lejionmaria.blogspot.com/2015/02/gaudencia-aoko-working-for-legio-maria.html. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Gaudencia Aoko (1943)

Mulher queniana de origem étnica Luo da província  Nynza, fundadora e líder carismática de duas igrejas cristãs independentes na África. Seu histórico educacional é incerto. Em entrevistas, ela se autodenomina “sem instrução” e afirma não saber kiswahili e nem inglês, o que sugere que não frequentou a escola além do primário.

Contra a vontade de Aoko, em 1957 seu pai arranjou-lhe um casamento com Simeo Owiti, um amigo católico dele. Três anos depois, o casal se mudou do Sul da fronteira do Quénia para Bugire, no distrito Norte de Mara, na atual  Tanzânia. Aqui, Aoko ingressou na Tatwe, uma missão católica liderada pelo Padre Maryknool, onde aprendeu sobre o catecismo e foi batizada.

Em 1963, dois de seus filhos morreram misteriosamente no mesmo dia, ainda crianças. Na sequência, ela se divorciou do marido. Nessa época, Aoko começou a ter visões de Jesus e Maria, que a inspiraram criar uma nova igreja chamada Maria Legio (Legião de Maria). Dando à ela o nome cristão de “Gaudencia”, e a encarregaram de batizar, exorcizar e curar doente. Em um ano, a Legio tinha quase cem mil membros. Por volta de 1990, alcançava 2 milhões de seguidores. O sucesso da igreja se deu em grande parte a carismática liderança de Aoko.

No fim dos anos de 1960, ela sofreu tentativas de marginalização por adversários homens. Em resposta, resolveu estabelecer uma igreja mais igualitária, onde qualquer pessoa com dons espirituais pudesse liderar. Suas duas primeiras tentativas de registrar a igreja falharam, mas em 1971 ela obteve sucesso com a Igreja de Comunhão, em Awasi. Esta igreja logo passou a ter filiais em Mpitano, Rapogi (Sul de Nyanza); Imbo, Asembo (Centro de Nyanza); e em Njiru, Kasarani (Nairobi).

A historiografia feminista trata Gaudência Aoko como uma representante de religiosas africanas fundadoras que tiveram seus feitos usurpados por homens.

BIBLIOGRAFIA

DIRVEN, Peter J. “The Maria Legio”: the dynamics of a breakaway church among the Luo in East Africa. Dissertação (Mestrado), Pontificia Universitas Gregoriana, Roma, 1970.  

HINGA, Teresia Mbari. Women, power and liberation in an african church in Kenya. Thesis (Ph. D.), University of Lancaster, 1990.

KUSTENBAUDER, Matthew. Believing in the black messiah: the Legio Maria church in an african christian landscape.  Nova Religio: The Journal of Alternative and Emergent Religions, v. 13, n. 1,  11-40, 2009.

KUSTENBAUDER, Mathew. Gaudencia Aoko”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 245-246.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave: Poetisas

Gelanesh Haddis (c. 1896 – 1986)

Acadêmica e professora da Igreja Ortodoxa Etíope.  Nasceu em Silalu, em Gojjam, província Oeste da Etiópia. Seu pai, Haddis Kidam, foi um especialista no gênero poético etíope chamado qiné   e transmitiu o seu conhecimento para a filha Gelanesh. Ele percebeu os talentos excepcionais dela, visto que Gelanesh ficou cega aos oito anos e pessoas com deficiência física naquele tempo eram desprezados e viviam na mendicância.

Este gênero poético, também referenciado como qené ou säm ena warq, exige grande conhecimento da língua amárico (amhara), tigrynia e da escrita geez, além do contexto cultural onde o poema tem origem e a base religiosa do cristianismo desenvolvido ao longo da história da Abissínia.

Devido a sua formação, ela se tornou uma famosa professora de qiné, e também se especializou no tipo de interpretação bíblica conhecido como andimta que consiste numa ampla memorização das interpretações recebidas por acadêmicos bíblicos do passado embora alguma inovação pudesse ser admitida. Sua cegueira pode aqui tê-la beneficiado, fortalecendo sua capacidade de concentração. Na Etiópia,  existem dispositivos mnemônicos diversos para tais propósitos e pessoas de fora da Etiópia ficam surpresos com a alta capacidade de memorização alcançada com esses técnicas.

Gelanesh Haddis começou sua carreira como assistente do pai em sua cidade natal, até invasão italiana e ocupação na Etiópia (1935- 1941), quando o pai morreu vitimado pela guerra. Ela continuou por 50 anos a ensinar qiné, formando cerca de 150 professores deste gênero poético. Ganhou enorme fama na Igreja Ortodoxa devido às contribuições e foi premiada como uma das mais excepcionais professoras do século XX.

BIBLIOGRAFIA

GEBRAI, Isaias Haileab. Geez oral poetry (qenie): an stylistical and thematic analysis. European Journal of Philosophy, Culture and Religion, v. 2, n. 1, 2018.

MOLVAER, Reidulf. “Gelanesh Haddis”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 449-450.


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Legenda: Germaine Acogny

Fonte: ACOGNY, Germaine. 24 de jan. de 2017. Facebook: Germaine Acogny. Disponível em: https://www.facebook.com/GermaineAcogny/photos/1851020535113894. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Germaine Acogny (1944)

Dançarina e coreógrafa. Nasceu em Porto Novo, na atual República do Benin. Seu pai, Togoum Servais Acogni, era filho de uma sacerdotisa yoruba.

Ela foi levada ainda criança para o Senegal, onde o pai se estabeleceu para receber curso de formação e se tornar administrador colonial.  Estudou em escola de freiras cluniacenses na Medina de Dakar e em 1962, aos dezoito anos, foi estudar educação física esportiva e ginástica harmônica na Escola Simon Siegel, na França, onde estudou dança clássica e moderna com a professora Marguerite Lamotte.

Ao retornar ao Senegal, começou a dar aulas de dança no pátio de sua casa e no liceu, onde foi contratada para ser a responsável pela disciplina de educação física. Nessas aulas ela começou a desenvolver uma codificação do que chamou de “Dança Africana”, uma técnica de dança baseada em uma estética de aterramento –  uma sensação de dinamismo subindo através dos pés e depois habitando o corpo inteiro, que ela descreve como especificamente africana. Em 1968, divorciada e com dois filhos, abriu um estúdio de dança em Dakar – um feito extraordinário numa sociedade tradicionalista e marcadamente patriarcal como a senegalesa.

 Acogny chamou a atenção do Presidente Léopold Senghor depois que ela coreografou seu poema “Femme noire, femme nu” (Mulher negra, mulher nua), transpondo a poética da Negritude para a dança.  Em 1972 ela se tornou chefe de departamento do Instituto Nacional de Artes de Dakar, onde introduziu um programa de formação de dança negro-africana.  Depois, no período de 1977-1982, dirigiu, junto com Maurice Béjart, o Centre Africain de Recherche et de Perfetionnement de l’Interprete (Centro Africano de Pesquisa e Aperfeiçoamento do Intérprete), visando a formação de dançarinos(as) e coreógrafos(as).

Esta atuação institucional teve início quando ela recebeu apoio do governo de Senghor para ir a Bruxelas, na Bélgica, onde conheceu e passou a trabalhar com o coreógrafo Maurice Béjart, diretor do Ballet du vingtème siècle (Balé do Século XX). Em parte, devido ao seu interesse em codificar um léxico dos movimentos corporais, Acogny foi escolhida por Senghor e por Béjart para ajudar na criação do Mudra Afrique, uma escola pan-africana de dança. Como diretora artística do Mudra Afrique ela desafiou o conceito ocidental de uma oposição entre tradição e inovação sobre o qual o Ballet Nacional do Senegal tinha sido baseado, tratando a tradição da dança africana como em perpétua auto-renovação, e começou a forjar uma estética pan-africana, um produto híbrido do encontro entre a dança contemporânea europeia e as formas africanas.

Germaine Acogny teorizou e publicou suas idéias artísticas no livro Danse Africaine/ Afrikanischer Tanz/ African Dance (Dança africana) (1980). Alguns anos mais tarde, em 1985, ela e o marido Helmut Vogt, criaram o Studio-École-Ballet-Théâtre du Troisième Monde em Toulouse, França.

Em 1998, inaugurou a École des Sables, na aldeia de Toabab Julau localizada cerca de 40 milhas ao sul de Dakar. Como no programa de dança Mudra Afrique, ela manteve o interesse por incentivar um forte senso de comunidade entre os habitantes locais e os estudantes internacionais que compareciam à escola, integrando-os nas atividades.  Alguns de seus projetos foram apresentados em uma turnê internacional, em parceria com as coreógrafas Susanne Linke, Jawole Willa Jo Zolar, e o artista japonês Butoh Kota Yamasaki.

Ela continua a desenvolver técnicas de dança contemporânea pan-Africana, estabelecendo uma competição anual em coreografia para novos trabalhos inspirados na tradição, promovendo o trabalho de coreógrafos mais jovens de toda África.

Por sua trajetória, contribuição e inovação artística, foi premiada com o grau de Cavaleiro da Ordem de Mérito e com o grau de Oficial de Artes e Letras da República Francesa, e recebeu o grau de Cavaleiro da Ordem Nacional do Leão do Senegal.

BIBLIOGRAFIA

CASTALDI, Francesca. Choreographies of African identities: négritude, dance and the National Ballet of Senegal. Urbana: University of Illinois Press, 2006.

FOSTER, Susan Leigh. “Germaine Acogny”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 86-88

WELSH-ASANTE, Kariamu. African dance: an artistic, historical and philosphical inquiry. Trenton: African World Press, 1996.

SILVA, Luciane. Corpo em diáspora: colonialidade, pedagogia da dança e técnica Germaine Acogny. Tese (Doutorado em Artes da Cena), Universidade Estadual de Campinas, 2017: http://repositorio.unicamp.br/jspui/bitstream/REPOSIP/331753/1/Silva_LucianeDa_D.pdf


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Legenda: Gertrude Mongella

Fonte: Ministry of Foreign Affairs and East African Cooperation. Disponível em: https://www.tzembassy.go.tz/ambassadors/view/gertrude-i-mongella. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Gertrude Mongella (1945)

Líder anticolonial e nacionalista tanzaniana, nascida na cidade de Ukerewe. Ela fez parte da geração de jovens mulheres estudantes do final do período final do domínio britânico na então colônia de Tanganica, com intensa atuação no período inicial da independência de seu país, o que lhe trouxe significativos obstáculos ao longo da sua carreira acadêmica.

Por mais que ela não tenha se mantido na carreira universitária, acumulou experiências fundamentais com relação às oportunidades educacionais – particularmente aquelas que envolviam mulheres -, ao longo de sua carreira. Em 1975, embarcou no que poderia se chamar uma “carreira de longa data” no serviço público, sendo raro haver um membro feminino dentro do Partido Revolucionário da Tanzânia. Como oradora e administradora, subiu rapidamente nas fileiras do partido e do governo nacional, tornando-se membro do parlamento e assumindo várias posições ministeriais, incluindo ministra de estado dos assuntos femininos, ministra de terras, recursos naturais, e turismo, e ministra sem pasta no Gabinete do Presidente, que ela ocupou de 1987 a 1990.

Depois de uma nomeação como alta comissária da Tanzânia para a Índia, a proeminência de Mongella na comunidade diplomática internacional cresceu bastante. Em 1991, ela era representante da Tanzânia na Comissão sobre o Status das Mulheres na ONU. Abordou os desafios enfrentados pelas mulheres em todo o mundo, particularmente no Terceiro Mundo, e também sua enorme capacidade de não apenas superar esses obstáculos, mas de fornecer a liderança necessária para um mundo conturbado.

Em 1996, Gertrude Mongella participou como membro do comitê consultivo da UNESCO para o acompanhamento das deliberações internacionais tomadas na Quarta Conferência Internacional sobre as Mulheres em Pequim (1995), e passou a atuar no secretariado da ONU para assuntos relativos às mulheres, além de participar do secretariado executivo da Comissão Econômica  para a África sobre questões de gênero, e também teve destacada atuação junto à Organização da União Africana – OUA para questões relativas à saúde. Desde 2004, compõe e preside o Parlamento Pan-Africano.

Gertrude alcançou a posição de uma das mulheres mais importantes da Tanzânia e no contexto internacional africano, dando contribuições substanciais para o esforço contínuo de trazer direitos iguais às mulheres. Ela também tem sido tomada como um exemplo de governança engajada em várias posições políticas e uma defensora internacional das questões femininas.

BIBLIOGRAFIA

LEFEVERE, Patricia. Leader says women want peace, equality. National Catholic Reporter, 7/09/ 2007.

MORNA, Collen Lowe. Gertrude Mongella. Africa Report, v. 40, n.1, 1995.

RONNENBERG, Ryan. “Gertrude Mongella”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 258-259.


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Legenda: Gisèle Halimi

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/ File:Gisele_Halimi_Front_de_Gauche_2009-03-08.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Gisèle Halimi (1927)

Ativista, advogada e escritora tunisiana. Nasceu em Halq al-wadi (La Goulette), porto de Tunis, filha de pais judeus do clã Taieb.

Ao contrário de seus pais, que não tinham escolaridade formal, ela demonstrou paixão pela leitura e estudos desde cedo, frequentando a Biblioteca Pública de Tunis. Já que a maior parte da renda da família foi para a escolaridade de seu irmão mais velho, ela decidiu fazer um teste para uma bolsa de estudos, conseguindo a maior nota e ficando apta a frequentar o ensino médio, o que daria e ela a chance de entrar em uma faculdade na França. Quando jovem, recusou a se casar com um homem mais velho e rico. Além de entrar em greve de fome contra o tratamento preferencial atribuído a seu irmão mais velho em sua casa.

A Tunis em que Halimi cresceu foi marcada pelo Protetorado Francês, imposto em 1881, e como colônia sofreu forte influência cultural francesa. No período da Segunda Guerra Mundial, quando a Tunísia foi ocupada por tropas alemãs e italianas e os efeitos do anti-semitismo se fizeram sentir, ela passou a se dedicar à política e aos direitos humanos. Quando, no período pós-guerra, foi estudar Direito na França, enfrentou o racismo e preconceitos, o que acirrou sua atuação anti-colonial. Passou a lutar pela independência de seu país, aliando-se ao movimento nacionalista Neo-Destour – liderado por Habib Bourguiba.

Durante a guerra de independência na Argélia ela denunciou inúmeros casos de abusos praticados por militares e policiais franceses. Um dos mais importantes foi o caso de uma mulher muçulmana, Djamila Boupasha, que ao ser capturada sofreu torturas terríveis que foram retratadas em um livro que Gisèle Halimi escreveu junto com Simone de Beauvoir em 1962.  Ela também presidiu uma comissão de inquérito contra os crimes norte-americanos cometidos durante a Guerra do Vietnã.

Como feminista, assinou em 1971 um manifesto em que 343 mulheres revelaram terem feito aborto, o que era considerado um crime. Ao mesmo tempo, ao lado de Simone de Beauvoir fundou a revista Choisir (Escolha), dedicada a descriminalização do aborto. Mais recentemente, abraçou a luta contra a globalização e participou da campanha em defesa do direito dos palestinos.

Além de atuar na Assembléia Nacional da Tunísia entre 1981-1984, foi a seguir indicada como representante francesa na UNESCO (1985-1986), e recebeu em 2006 a condecoração da Legião de Honra.

BIBLIOGRAFIA

ANGELOFF, Tania; MARUANI, Margaret. Gisèle Halimi. La cause du féminisme,Travail, genre et sociétés, v. 14, n. 2, p. 05-25, 2005

BEAUVOIR, Simone de; HALIMI, Gisèle. Djamila Boupasha. Paris: Gallimard, 1962.

CLANCY-SMITH, Julia A.. “Gisèle Halimi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 6-7.

HALIMI, Gisèle. La cause des femmes. Paris: Grasset, 1973.

PERRIN, Christophe; GAUNE, Laurence (Eds.).  Parcours d’avocat(e)s. Paris: Le Cavalier Bleu, 2010.


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Legenda: Gladys Adda

Fonte: Rodovid FR. Disponível em: https://fr.rodovid.org/wk/Image:Gladys_Adda.jpg. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Gladys Adda (1921-1995)

Ativista dos direitos das mulheres tunisiana e jornalista. Nasceu na cidade de Gabes, de uma família de judeus norte-africanos originalmente da comunidade de Batna, na Argélia. Desde cedo a mãe a incentivou aos estudos, embora tenha enfrentado muitos problemas devido ao anti-semitismo e ao colonialismo que vigorava nas escolas de formação primária e secundária, o que despertou nela desde cedo o repúdio ao regime colonial.

Ela foi forçada pela sua família a desistir dos estudos quando tinha quinze anos (1936) e a casar com um homem da comunidade judaica que era doze anos mais velho do que ela. Dois anos mais tarde, muitos judeus foram vitimados por ataques fomentados por fascistas italianos residentes na Tunísia. No início da década de 1940, após o divórcio, estabeleceu-se em Túnis, passando a morar com Bice Slama, outra judia tunisiana, que era politicamente engajada. Ela passou a militar na luta anticolonial, antinazista e em 1944 ingressou no Partido Comunista tunisiano, ampliando a sua luta em prol dos direitos dos trabalhadores. Ambas panfletavam jornais comunistas em fábrica, procurando incentivar a conscientização dos operários sobre a exploração do trabalho.

Em 1944, Adda também participou da fundação da Union des Femmes Tunisiennes – UFT (União de Mulheres da Tunísia), liderada pela Nabiha Ben Miled, uma muçulmana tunisiana. No mesmo período, casou-se e teve dois filhos, em um período de dificuldade material, quando contou com a ajuda de companheiros de militância. A partir de uma dupla perspectiva de mãe e militante, ela logo percebeu a urgência de educar as mulheres, muitas das quais eram analfabetas. Outra área de seu ativismo era a saúde das mulheres, que tinham sido deliberadamente negligenciadas pelo regime colonial. Ela e outras militantes organizaram clínicas gratuitas para as mulheres bem como escolas de alfabetização para mulheres adultas.

Após a emancipação da Tunísia (1956), a UFT passou a apoiar a guerra e libertação da Argélia, que transcorreu até 1962 e teve terríveis consequências para as mulheres argelinas, crianças e civis.  Adda e as mulheres da UFT organizaram serviços de apoio médico e financeiro para os combatentes argelinos, muitos dos quais viajaram clandestinamente para Tunísia para receber assistência.

Com a independência tunisiana, a Adda rompeu com o partido completamente. Aceitou um posto no Banco Nacional Tunisiano, onde trabalhou até se aposentar em 1981. Em 1956, a Tunísia perdeu seus gerentes financeiros e bancários, assim Adda considerou como importante para justiça social e equidade que o país desfrutasse de um setor bancário sólido; ela continuou a trabalhar pelos direitos das mulheres tanto no Norte da África como globalmente.

Já aposentada, deu cursos em gestão de negócios na universidade e participou da Ligue des Droits de l’Homme (Liga dos Direitos dos Homens), uma organização internacional de direitos humanos.

BIBLIOGRAFIA

CLANCY-SSMITH, Julia A.. “Gladys Adda”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 88-90.

KAZDAGHLI, Habib. Mémoire de femmes: tunisiennes dans l avie publique, 1920-1960. Tunis: Éditions Média Com, 1993.

LARGUÈCHE, Dalenda (Ed.). Femmes en villes. Tunis: Centre de Publications Universitaires, 2006. 


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Legenda: Gladys May Casely-Hayford

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Gladys_May_Casely_Hayford.jpg. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Jornalistas Poetisas Teatro

Gladys May Casely-Hayford (1904-1950)

Poetisa, dramaturga e artista,  nasceu na então Costa do Ouro, atual República de  Gana. Era filha do influente casal nacionalista e pan-africanista, Joseph Ephraim  e Adelaide Smith Casely-Hayford. Devido a problemas de saúde, passou a infância em viagens de tratamento entre a Inglaterra e a Costa do Ouro, e depois fixou-se em Serra Leoa.  Deu início aos estudos na colônia e os completou na Europa. Aos dezesseis  anos  Gladys escreveu seu primeiro poema de destaque, chamado Ears. Também durante o período de formação escolar aprendeu a tocar piano, tornando-se uma excelente pianista e valeu-se de seus talentos para escrever versos e canções.

Em 1924, retornou para a África. De início à carreira pública como jornalista do The Gold Coast Leader.  Em 1926  foi convidada a dar aulas na escola fundada por sua mãe, a The Girls Vocational School (Escola Vocacional para Meninas), na qual lecionava aulas de folclore africano e higiene pessoal.

Durante esse período escreveu diversos poemas, músicas, peças teatrais e musicais. Em 1927 um dos seus poemas foi publicado no jornal americano The Atlantic Monthly obra que ela assinou com o pseudônimo de Aqualah Laluah, quando ela recebeu, e recusou, uma vaga para a Faculdade para Mulheres de Radcliffe em Cambridge. Tempos depois, aceitou a vaga  oferecida pela Universidade de Columbia.

Em 1948 escreveu uma pequena coleção de poemas com o nome Take Um So. Foi pioneira em escrever “poemas do tipo evocativo” em língua Krio, língua falada pelosafro-mestiços  de Serra Leoa.

Casou-se com Arthur Benoni, com quem teve um filho, e tempos depois se separaram.  Ela morreu de malária em Accra.

BIBLIOGRAFIA

CROMWELL, Adelaide. An african victorian feminist: the life and times of Adelaide Smith Casely-Haiford. Abington: Routledge, 2013 (or. 1986).

HUNTER, Yema L. An african treasure: in search of Gladys Casely-Hayford, 1904-1950. Acra: Yema Lucilda Hunter, 2008.

HUNTER, Lucilda. “Gladys May Casely-Hayford”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2,  p. 42-43.


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Legenda: Goretti Kyomuhendo | Foto: Thomas J. Haslam

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Goretti_Kyomuhendo.jpg. Acesso em: 13 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Romancistas

Goretti Kyomuhendo (1965)

Romancista ugandense, ensaísta e ativista.  Nasceu no distrito Hoima, no oeste de Uganda, e é uma das mais prolíficas autoras do país. Completou as séries iniciais na Kibuli Secondary School e as séries finais no Sir Tito Secondary School. Depois, foi estudar Marketing na Nekawa Business College, atualmente Makerere University Business School e obteve o Mestrado em Escrita Criativa da University of Kwazulu-Natal, em Durban, África do Sul.

Goretti foi uma das fundadoras do FERMITE, uma associação endógena sem fins lucrativos que surgiu da Associação de Escritoras Ugandenses de apoio às escritoras no país e em âmbito internacional. O programa contribuiu significativamente para a expansão do corpus literário feminino em Uganda, coletando e disseminando informações sobre questões relacionadas ao gênero e advogando um aumento de representatividade de mulheres na literatura gerada por comunidades locais. Ao mesmo tempo, encorajou um retrato positivo da mulher promovendo uma sensibilidade literária de gênero na sociedade.

O primeiro romance de Goretti, The first daughter (A primeira filha) (1996)  foi bem recebido em Uganda, e o segundo, Secrets no more (Sem mais segredos) (1999) recebeu o prêmio de melhor romance do ano pelo National Book Trust de Uganda. O terceiro romance Whispers from Vera (Sussurros de Vera) (2002) inicialmente foi feito em capítulos e publicado em jornais diários. Foi a primeira ugandense a ser convidada para um Programa Internacional de Produção Literária na Universidade de Iowa, nos Estados Unidos.

Como escritora, ativista e feminista, Goretti Kyomuhendo afirma que escrever lhe concede um espaço que ela pode contribuir para melhorar a situação das mulheres contando histórias que definem suas experiências em suas próprias vozes. Não é coincidência que todos os seus personagens principais são mulheres.

BIBLIOGRAFIA

DAYMOND, Margaret. Afterword. In: Waiting: a novel of Ugnda at war, by Goretti Kyomuhendo. Nova Iorque: The Feminist Press, 2007.

KIGULI, Susan. FEMRITE and the woman writer’s position in Uganda: personal reflections. In: ARNDT, Susan; BERNDT, Katrin (Ed.). Worlds and worlds: African writing, theatre and society. Trenton: African World ress, 2007, p. 169-184.  

KYOMUHENDO, Goretti. To be an african woman writer: joys and challenges. In: ARNDT, Susan; BERNDT, Katrin (Ed.). Worlds and worlds: african writing, theatre and society. Trenton: African World ress, 2007, p. 185-192.  

SPENCER, Linda. “Goretti Kyomuhendo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 450-451.


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Legenda: Graça Simbini Machel

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Madame_Graca_Machel.jpg. Acesso em: 23 de dez. de 2020.

Graça Simbini Machel (1945)

Nascida como Graça Simbini, é destacada líder política e ativista dos direitos humanos. Originária de uma comunidade nas proximidades da atual capital de Moçambique, em uma família metodista, filha de um operário das minas da África do Sul. Em 1968 atuou na Casa dos Estudantes do Império e em 1973, na luta anti-colonial, quando conheceu Samora Machel, com quem viria a se casar em 1975, e do qual tem dois filhos. Obteve bacharelado em filologia, com especialização em língua alemã pela Universidade de Lisboa.

Foi Ministra da Educação de seu país durante cerca de quatorze anos, e após a morte do marido (1986) continuou sua atividade política na Frente de Libertação de Moçambique – Frelimo,  criou a organização sem fins lucrativos Fundação para o Desenvolvimento Comunitário – FDC, que trabalha para facilitar o acesso da comunidade a conhecimentos e tecnologia para fomentar o desenvolvimento sustentável. 

Em 1988 foi indicada como presidenta da UNESCO em Moçambique, e delegada da UNICF, o que a levou a realizar uma avaliação do impacto dos conflitos armados sobre a infância e uma série de trabalhos voltados para o desenvolvimento social, que lhe renderam em 1998 a atribuição do prêmio Norte-Sul. Além disso ela também protestou contra práticas tradicionais africanas que subjugam mulheres e atrapalham seu desenvolvimento enquanto comunidade.

Graça e Nelson Mandela revelaram publicamente seu relacionamento em 1996 e se casaram em 1998. Ela manteve seu nome e sua residência em Maputo, dividindo seus tempo entre os dois países. Na primeira década do século XXI, ela passou bastante tempo com seu marido na África do Sul, até a morte dele.

BIBLIOGRAFIA

HENDERSON, Frances. “Graça Machel”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 13-15.

MACHEL, Graça. The Impact of war on children: a review of progress since the 1996 United Nations report on the impact of armed conflict on children. New York: UNICEF, 2001.

OKORODUDU, Coraan. A children’s rights perspective on the Graça Machel study. Peace and conflict: Journal of peace psychology, v. 4, n. 4, 1998.


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Legenda: Grace d’Almeida Adamon

Fonte: Fondation Grâce d’Almeida. Disponível em: http://fondationgracedalmeida.org/grace-dalmeida/. Acesso em: 27 de dez. de 2020.

Grace D’Almeida Adamon (1951-2005)

Advogada, jurista e ativista de direitos humanos.  Nasceu em  em Dakar, no Senegal, como Grace Antonia Almeida Benoite Adamon. Frequentou a escola primária e mudou-se com a família para o então país do  Daomé, onde completou o secundário na cidade de Cotonou, no  Colégio de Nossa Senhora dos Apóstolos. Depois realizou curso superior de Direito na França, sendo diplomada em graduação e pós-graduação pela Universidade de Paris (1977).

Ao retornar ao país, agora chamado República do Benin, lecionou  na Universidade Nacional do Benin,  em Abomey Calavi, onde ganhou notoriedade por sua defesa dos direitos das mulheres. Em 1990 criou a Associação de Juristas do Benin – AIJB, e passou a atuar em diversos comitês  internacionais de diretos humanos e em várias Organizações Não Governamentais  e programas da ONU.

Participou ativamente da Conferência Nacional  para estabelecer uma nova constituição democrática para o Benin (1990)  e assumiu uma cadeira no  Conselho Superior da República como presidenta da Comissão de Direito, Direitos da Terra, Promoção dos Direitos Humanos e como supervisora das eleições. Juntamente com outras figuras importantes da Conferência Nacional, foi uma das fundadoras do Instituto Africano dos Direitos Humanos e da Promoção da Democracia, e fez campanha pela causa tanto local como globalmente.

Em 1997, escreveu o  guia intitulado Ancestral customs and women’s rights in Benin (Costumes Ancestrais e Direitos das Mulheres no Benin), que foi traduzido do francês e inglês para o fon e o batanou, duas línguas locais amplamente faladas pela população que permitiriam acesso à maioria das pessoas que precisavam de assistência legal.

Sua iniciativa foi igualmente determinante para a implementação pelas Nações Unidas   do Centro de Governança Doméstica no Burkina Faso (1990), e alguns anos mais tarde a Women in Law  and Development in Africa – WILDAF (Mulher na Lei e no Desenvolvimento na África) (1999), constituído por uma rede de associações e organizações femininas. Ela também foi assessora técnica da ONU no Haiti, até sua morte prematura, aos cinquenta e quatro anos de idade. 

BIBLIOGRAFIA

DAGBA, Ambroise. Amazones des temps modernes. Amina, v. 325, p. 71, 1997.

D’ALMEIDA, Grace. Ancestral customs and women’s rights in Benin. PNUD – ONU, Report, 1997.

GLEASON, Tiffany. “Grace D’Almeida Adamon”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 160-161.


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Legenda: Grace Kodindo

Fonte: ASJT TCHAD. 28 de mai. de 2020. Facebook: @ASSJT. Disponível em: https://www.facebook.com/ASSJT/posts/3104949946251110. Acesso em: 27 de dez. de 2020.

Grace Kodindo (1960)

Ativista e médica, nasceu na cidade de Doba localizado no sul da Província de Logone Oriental, no Chade. Seu pai, Jean Kodindo Demba, era oficial do governo em diversas províncias sob autoridade do regime do partido progressista do Chade – PPT – cujo líder era François Tombalbaye (1960-1975). Kondino teve quatro irmãos e irmãs dos mesmos pais, assim como outros(as) quinze irmãos(ãs) nascidos de seu pai e as outras  esposas dele. 

Por conta da influência do pai e das viagens que ele fazia pela África Ocidental e França, ele insistiu que ela e seus irmãos estudassem. Ao final dos seus estudos secundários, em 1970, Grace recebeu uma bolsa de estudos do governo canadense que a permitiu ingressar na Faculdade de Medicina da Universidade de Montreal.  

Em 1977 Grace voltou ao Chade e começou a trabalhar como uma das poucas médicas no país e em 1979 se casou pela primeira vez com Amós Réoulengar, membro do alto escalão do governo ditatorial de Hissene Habré, com quem teve dois filhos. Na época, trabalhou na capital de N’Djamena (1977-1979). Durante a Guerra Civil ocorrida em 1979 ela então trabalhou com uma médica americana no sul do país, e começou a se preocupar em promover melhor acesso ao cuidado ginecológico para mulheres. Nos anos 1980 continuou seus estudos como ginecologista e trabalhou por quatro anos no Sudão Oriental  mesmo recebendo uma bolsa da União Europeia para aprofundar os estudos, ela escolheu ficar na África já que ela sabia que encontraria diferentes doenças que não veria na Europa. 

Em 1990, participou de um programa de apoio financiado pelo governo da França para fazer diminuir a altíssima taxa de mortalidade infantil no Chade. Por este e outros trabalhos em obstetrícia e Serviço social ela foi premiada pela Universidade de Columbia (2000) e passou a dar cursos na Escola de Saúde Pública Mailman, da mesma instituição.

O seu reconhecimento foi maior após o documentário da BBC Dead mums don’t cry (Mães mortas não choram) (2005), que divulgou a difícil situação das mulheres e mortalidade infantil. Muitas pessoas na Inglaterra arrecadaram dinheiro e uma organização sem fins lucrativos chamada Hope for Grace foi criada. O dinheiro era para programas de saúde das mulheres no Chade e outros países africanos. Essa e outras iniciativas foram muito importantes para os profissionais médicos africanos e um exemplo crucial do papel na mulher no mundo contemporâneo.

BIBLIOGRAFIA

NEILSON, Jim. Panorama; Dead mums don’t cry. BMJ Journals, n. 331, p. 355, 2005: https://doi.org/10.1136/bmj.331.7507.55-a

RICH, Jeremy. “Grace Kodindo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 406-407.

TUBIANA, Marie-José. Parcours de femmes: les nouvelles elites, entretiens, 1997-2003. Paris: Sépia, 2004.


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Legenda: Grace Monica Akech Onyango

Fonte: NYONG'O, Anyang'. 20 de out. de 2019. Facebook: Anyang' Nyong'o. Disponível em: https://www.facebook.com/ProfAnyangNyongo/photos/pcb.2223281594444379/2223280604444478/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Área swahili

Grace Monica Akech Onyango (1927)

Nasceu em Gobei, no Distrito de Sakwa, na Província de Nyanza, no Quênia. Foi a primeira mulher queniana eleita prefeita e membro do parlamento. Atuou como comissária assistente do movimento Girl Guide (Guia para Meninas), além de assumir uma cadeira na Child Welfare Society na filial do Distrito de Kisumu.

Formou-se em pedagogia na Vihiga Teachers Training College (1954) e logo depois passou a atuar como professora primária e depois como diretora da Ng’iya Women’s Teacher’s Training College (Escola de Treinamento para Professoras de Ng’iya). Durante a década de 1960, ao atuar no Conselho Municipal de Kisumu, que era dominado por empresários europeus e asiáticos, criou o movimento chamado “Gill Women”, que lutou por maior representatividade feminina no conselho.

Em 1965, após a morte do Prefeito, ela foi eleita a primeira Prefeita de Kisumu, e durante sua administração melhorou as condições de moradia da população, tendo entretanto que lidar com problemas de relacionamento entre os partidos políticos com quem era forçada a negociar. O seu desempenho e popularidade lhe garantiram novas atividades de representação política, no Parlamento do Quênia e inclusive na  Assembleia Legislativa Nacional, onde teve participação decisiva em defesa da ampliação dos direitos e oportunidades para as mulheres. Ela também encaminhou leis para assegurar direitos aos menos favorecidos em áreas como: educação, saúde pública e da criança, agricultura, acesso à água e infraestrutura nas áreas rurais.

Em 1983 Onyango se aposentou, mas continuou atuando em prol de sua comunidade na Lake Victoria Trust Fund e no Jomo Kenyatta Sports Facility, localizado na cidade de Kisumu.

BIBLIOGRAFIA

MEISLER, Stanley. Tribal politics Harass Kenya. Foreign Affairs, v. 49, n.1, p. 111-121, 1971.

MUSANDU, Pheobe Atieno. Daughter of Odoro: Grace Onyango and african women’s history. Dissertação (Mestrado), Miami University,  2006.

OCHWADA, Hannington. “ Grace Monica Akech Onyango”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 44.


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Legenda: Grace Ogot

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/File:Grace_Ogot_writer_and_mp.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Grace Ogot (1930-2015)

Escritora queniana, nascida em em Asembo, Distrito de Nyanza na região oeste do Quênia. Cresceu em uma família anglicana; o pai lecionava na Ng’iya Girls’ School (Escola para Meninas de Ng’iya), dirigida pela Church Mission Society – CMS (Sociedade Missionária da Igreja), onde ela estudou o primário, e completou o secundário no Buture Girls High School (Escola de Ensino Médio de Buture). Nos anos 1950, estudou enfermagem, primeiramente em Uganda e mais tarde na Inglaterra, sendo uma das primeiras mulheres quenianas a ir ao exterior para obter formação de nível superior.

Em Londres Grace trabalhou como radialista e roteirista da British Broadcasting Corporation – BBC. Após retornar para o leste da África, trabalhou como enfermeira-chefe em dois hospitais, exerceu cargos de representação comunitária, de relações públicas da Air India e foi apresentadora de um popular programa de rádio em língua luo. Ela também teve êxito no empreendedorismo, gerindo um número significativo de lojas de roupas em Nairobi.

Em 1975 e 1976, Ogot viveu em Nova Iorque onde foi eleita para ser delegada da Assembleia Geral das Nações Unidas, depois fez parte da delegação queniana UNESCO. Na mesma época, fundou a Writers’ Association of Kenya (Associação dos Escritores do Quênia) (1975) e deu início à vida política, atuando no Ministério da Cultura e Assistência Social e no parlamento (1988).

Foi a primeira queniana a ter reconhecimento internacional como escritora, tendo publicado contos e romances em inglês e na língua luo, Seu romance mais importante chama-se The Promise Land (A terra prometida) (1966), lançado no mesmo ano do livro Efuru, da nigeriana Flora Nwapa.

Casou-se em 1959 com o historiador Bethwell Alan Ogot, formando um dos casais proeminentes de seu país.

BIBLIOGRAFIA

KURTZ, J. Roger. “Grace Emily Akinyi Ogot”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 08-09.

LINDFORS, Bernth. Grace Ogot. In: Africa talks back: interview with anglophone african authors. Trenton: Africa World Press, 2001, p. 268-280.

OGOT, Grace. The other woman and other stories. Nairobi: Transafrica Publishers, 1976.


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Legenda: Mulher da Abissínia (1854)

Fonte: The New York Public Library. Disponível em: https://digitalcollections.nypl.org/items/510d47da-6fa2-a3d9-e040-e00a18064a99. Acesso em: 11 de jan. de 2021.
Palavras-chave:

Gudit (século X)

Também referenciada com os nomes de Yuit ou Judith, ou então pelo seu nome próprio etíope, Esato (Fogo), foi uma rainha abissisínia legendária que, segundo consta, teria invadido Axum com seu exército, queimado e saqueado a cidade, e tomando para si o trono, o que teria posto fim ao poderio axumita. Ela também é tida por vezes como a fundadora da dinastia Zagwe.

Muito da lenda de Gudit provém de uma crônica composta no século XV por Tekla Haimanot que reúne fragmentos e compilações de vários estabelecimentos monásticos.  Segundo esta crônica, Gudit teria sido uma princesa pertencente a uma família real de Hahayle, no planalto do Tigré. Devido a uma intriga, acabou banida da corte e se tornado uma prostituta em Axum. Acusada pela sedução de um religioso, teria sido punida com a amputação de um seio e com o banimento. Acolhida do outro lado do Mar Vermelho pelo príncipe sírio  Zenobis, com quem se casou, ela teria se convertido ao judaísmo. Por meio de espiões, foi informada sobre quando o rei de Axum, Degnaia, deixou o país com o exército para ir à Arábia e encontrou a oportunidade para concretizar sua vingança.

De acordo com as mesmas tradições inseridas nas crônicas,  Gudit liderou seu exército por Massawa e fez uma parada em Dohono, de onde enviou uma mensagem à terra de sua mãe pedindo ao povo que se juntasse a ela. Quando conquistou Axum, queimou a igreja de Santa Maria de Zion, o palácio do rei e vários outros edifícios cristãos. Depois disso, reinou por quatro anos e quando morreu, Anbesa Wedem, filho de Degnajan, a sucedeu no trono.

A lenda de Gudit pode ter parcialmente fundamento histórico. Algumas outras fontes escritas sugerem que por volta de 970  Axum teria sido conquistada por uma rainha, cujo nome permanece aberto a debate, e alguns afirmam ter sido Gudit. Também na crônica intitulada História dos Patriarcas de Alexandria é dito que o rei núbio  chamado Girgis (Jorge), contemporâneo do patriarca  Philotheus, teria pedido socorro aos cristãos do Egito pois seu reino teria sido devastado  por Bani al-Hamwiyah, uma rainha que teria se levantado contra ele. Outra versão ainda contada no século XVIII, recolhida pelo explorador escocês James Bruce em 1770, afirma que ela teria sido uma governanta judia do povo Falacha, os judeus negros da Etiópia. Certos historiadores, como o italiano Conti Rossini, presumem que ela pudesse provir do povo Sidamo, residente no reino de Damot, enquanto outros, como Steven Kaplan, afirmam que ela teria sido uma rainha pagã.

Em meio a tantas evidências e hipóteses conflitantes, a figura histórica de Gudit deve ser apenas presumida. É muito difícil estabelecer com precisão os fatos e informações sobre a vida e os feitos desta rainha devido a inconsistência das fontes, o que dificultada a sua caracterização seja como uma rainha cristã rebelde, seja como uma governanta judia ou mesmo uma governanta pagã.

BIBLIOGRAFIA

ANDERSEN, Knud Tage. The queen of the Habasha in Ethiopian history, Tradition and chronology. Bulletin of the School of Oriental and African Studies, v. 63, n. 1, p.  31-36, 2000.

AUGUSTYNIAK, Zuzanna. “Gudit”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 511-512.

SELASSIE, Sergew Hable. The Problem of Gudit. Journal of Ethiopian Studies, v. 10, n. 1,  p. 113-124, 1972.


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Legenda: Guimbé Ouattara em selo postal (1980)

Fonte: Old-Stamps.com. Disponível em: http://www.old-stamps.com/stamps/upper- volta/princesse-guimbe-quattara-republique-de- haute-volta-postes_4339.html. Acesso em: 22 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Intermediárias coloniais

Guimbé Ouattara (1836-1919)

Nascida na cidade de Bobo-Dioulasso, em território que atualmente faz parte da República de Burkina Faso. Era a filha mais velha de Diori Ouattara e de Makogo Ouatara, o casal governante da comunidade.  O pai morreu quando ela tinha três anos e seu irmão mais novo o sucedeu, mas sua mãe continuou a desempenhar um papel ativo, representando-o temporariamente. Era de origem étnica diúla (mandinga), praticante do islã.

Na época em que o conquistador Samori Touré ampliava suas conquistas através de Burkina Faso e da Guiné na década de 1880, Guimbé negociou a paz, pela qual a cidade de Bobo-Dioulasso foi considerada aliada. Anos mais tarde, em 1888 por ocasião da conquista colonial francesa, ela manteve contatos diplomáticos pacíficos com o oficial Louis Gustave Binger, amenizando o clima de hostilidade em sua chegada.

Por esta grande habilidade diplomática a princesa Guimbé é lembrada e muito admirada, sendo homenageada com um mausoléu que é constantemente visitado.

BIBLIOGRAFIA

RUPLEY, Lawrence; Bangali, Lamissa; Diamitani, Boureima. Historical Dictionary of Burkina Faso. Lanham; Toronto;  Plymouth: Scarecrow Pres, 2013.

HEBERT, Jean.  Une grand figure de Bobo-Dioulasso coloniale. La princesse Guimbé Ouatara. In:  MASSA,Gabriel; MADIÈGA (Eds.). La Haute-Volta coloniale: témoignages, recherches, regards. Paris: Éditions Karthala, 1995,p. 509-522.


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Legenda: Hadja Mafory Bangoura

Fonte: Vision Guinee. Mafory Bangoura, mère-courage de la nation guinéenne. Disponível em: https://www.visionguinee.info/2017/02/11/mafory- bangoura-mere-courage-de-la-nation-guineenne/. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Hadja Mafory Bangoura (1910-1976)

Líder ativista do movimento anticolonial da Guiné, nasceu em Bramaya – Ouassou, de uma família humilde do grupo étnico Sosso. Cresceu no meio rural, em uma comunidade que vivia da pesca. Casou-se ainda jovem e teve três filhos.

 Hadja Bangoura foi para Conakry em 1936, na qual eventualmente se juntou ao Foyer de la Basse Guinée, uma associação de ajuda mútua para pessoas vindas da Baixa Guiné. Trabalhou como costureira em Conakry antes de se envolver com o grupo que deu suporte à Sekou Toré durante o movimento nacionalista na década de 1950.

Embora iletrada, era dotada de grande iniciativa pessoal, liderança e extraordinária personalidade, o que lhe conferiu respeitabilidade no movimento de resistência anticolonial. Ganhou destaque na liderança da Greve Geral de 1953 em defesa do Código do Trabalho, mobilizando mulheres e homens operários, com discursos e palavras de ordem inflamadas. Foi então eleita presidenta do comitê de mulheres do Rassemblement Democratique Africain (Ajuntamento Democrático Africano), quando criou uma “milícia popular” de mulheres e as incentivou a pegar em armas.

Bangoura, que também era representante da Cruz Vermelha, alojou pessoas que eram feridas por conta das hostilidades anticoloniais. Em julho de 1955, foi presa por um ano e deveria pagar fiança de 70.000 francos. As mulheres do Conakry reagiram à sua prisão, marchando até as sedes de polícia, onde bloquearam as ruas e usaram mangueiras de incêndio. Quando ela foi liberada da prisão em 17 de agosto, foi cumprimentada com júbilo por suas seguidoras, que a acompanharam até sua casa dançando e cantando. Sua sentença foi eventualmente reduzida, de modo que permaneceu reclusa apenas 28 dias.

Depois da independência (1958), Hadja manteve posições governamentais como integrante ativa do Parti Democratique de Guinée – PDG (Partido Democrático da Guiné). Foi eleita ao Parlamento, onde representou as mulheres guineenses, e em 1968 tornou-se a primeira presidenta da União Revolucionária de Mulheres da Guiné.

Ela é lembrada como heroína da independência na República da Guiné-Conacri. Em sua memória conferiu-se o seu nome ao colégio Hadja Mafory Bangoura.

BIBLIOGRAFIA

KEITA, Sidiki Kobele. Le PDG: artisan de l’indépendance nationale en Guinée (1947-1958). Conakry: Bibliotheque Nationale, 1978.

SCHIMIDT, Elizabeth. Mobilizing the masses: gender, ethnicity and class in the nationalist movement in Guinea, 1939-1958. Portsmouth: Heinemann, 2005.

SHELDON, Kathleen. “Hadja Mafory Bangoura”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p.  375-376.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:

Hadjé Halimé (1930-2001)

Ativista política chadiana. Nasceu na cidade de Salamat, onde recebeu formação na doutrina islâmica e se tornou instrutora dos preceitos do Alcorão quando tinha cerca de vinte anos de idade.

Fluente em árabe, chamou a atenção de Gabriel Lisette, o fundador do Partido Progressista de Chade – PPT, tendo sido então recrutada em 1950 e passou a fazer parte dos seus quadros. Como outras pioneiras na luta pela independência, Halimé traduziu o programa do seu partido para que outras mulheres aprendessem as línguas europeias e visitou a França, fazendo parte da delegação do PPT em um encontro com o político René Coty.

Quando Gabriel Lisette perdeu a liderança do PPT para François Tombalbaye, seus apoiadores e aliados começaram a ser perseguidos. Hadjé Halimé se tornou um alvo da repressão após a independência. Ela foi presa durante a onda repressiva de 1963, sendo que três dias antes seu filho foi morto pelas forças de segurança do Chade. Ela então passou por algumas prisões, uma delas, a prisão de Kela, onde foi brutalmente torturada. Sua libertação ocorreu em 1975, após a morte de Tombalbaye, quando passou um tempo na França para se recuperar dos ferimentos sofridos.

Já recuperada Hadjé Halimé se juntou à Frente de Libertação Nacional de Chade- FROLINAT-, e se estabeleceu em Tripoli, na Líbia, em 1978, e na década de 1980 lutou contra Félix Malloum, sucessor de Tombalbaye, e contra o regime ditatorial de Hissene Habré que governou o país no período de 1982-1990. Paralelamente, criou a Escola Corânica Nova Geração do Crescente, onde ensinou religião para crianças carentes.

Em 1991, com a queda de Hissene Habré, retornou ao Chade e participou do Parlamento até 1996. Nos seus últimos anos de vida, passou a cuidar de diversos órfãos que perderam os pais durante a era Habré.

BIBLIOGRAFIA

AZEVEDO, Mario Joaquim. Roots of violence: a history of war in Chad. Sidney: Gordon e Breach, 1998.

BANGOURA, Mohamed Tétémadi. Violence politique et conflits en Afrique: le cas du Tchad. Paris: L’Harmattan, 2005.

RICH, Jeremy. “Hadjé Halimé”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 04-05.

TUBIANA, Marie-José. Parcours de femmes: les nouvelles élites, entretiens, 1997-2003. Paris: Sépia, 2004.


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Legenda: Halima Embarek Warzazi

Fonte: Yabiladi. Halima Embarek Warzazi, a Moroccan woman with a long and distinguished diplomatic career. 08 de mar. de 2019. Disponível em: https://en.yabiladi.com/articles/details/75575/halima-embarek-warzazi-moroccan-woman.html. Acesso em: 15 de dez. de 2020.

Halima Embarek Warzazi (1933)

Diplomata marroquina e ativista dos direitos civis, nascida na cidade de Casablanca, durante o período de ocupação francesa. Filha de um negociante, foi enviada aos quatorze anos para estudar em uma escola francesa no Cairo, Egito. Dez anos mais tarde foi graduada em literatura na Universidade do Cairo.

Em virtude de suas relações pessoais com Abdelkhaled Torres, embaixador marroquino no Egito, deu início a sua carreira como diplomata, primeiro como secretária no Ministério das Relações Exteriores, junto com apenas mais duas mulheres.

Em 1959, após uma solicitação direta ao rei Mohammed V, foi indicada para a embaixada em Washington. Tornou-se a primeira mulher a ocupar este cargo, no qual permaneceu até 1961. Nos anos seguintes representou seu país em comissões da Organização das Nações Unidas. Neste órgão internacional, participou de comissões de proteção contra a discriminação de minorias, o racismo e o Apartheid na África do Sul, a exploração do trabalho clandestino de imigrantes e o tráfico de pessoas, e as restrições dos direitos das mulheres durante o regime do Talibã, no Afeganistão.

Envolveu-se diretamente na vida política marroquina, como membro do Comitê Central do Partido do Movimento Popular (Le Mouvement populaire), sendo eleita para representar Casablanca.  Devido aos obstáculos impostos a ela durante sua carreira diplomática, por ser mulher, percebeu a necessidade de lutar pela democratização e pela igualdade de gênero. Por sua sugestão foi implantado no Marrocos o sistema de cotas para mulheres na política, de modo que em 2010, dos(as) 325 membros do parlamento 34 eram mulheres, 30 delas pela reserva de vagas.

BIBLIOGRAFIA

AKHARBACH, Latifa; RERHAYE, Narjis. Femmes et politique. Casablanca: Le Fennec, 1992.

GLACIER, Osire. “Halima Embarek Warzarzi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 155-156.

KINGDOM Of Morocco. National Human Rights Council.  Tribute to Halima Warzazi: 50  years in the service of human rights: https://www.cndh.ma/an/tribute-halima-warzazi-50-years-service-human-rights


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave: Direitos das mulheres

Halima Godane (1935-1994)

Seu nome completo era Halima Mohamed Yusuf. Foi uma poetisa nacionalista e ativista em defesa das mulheres na Somália. Nascida em Kismayu, região de Juba, casou-se aos nove anos com Bulqaas de Ali Seleebaan.

No final da década de 1940, ela se mudou para Mogadíscio e ingressou na Somali Youth League – SYL (Liga da Juventude da Somália). No início dos anos 1950, foi eleita membro do Committato Femminile (Comitê de Mulheres) do partido. Recitava poesias patrióticas femininas do gênero buraambur em ocasiões nacionais e entretinha multidões na reunião semanal, que acontecia aos domingos.

Em 1958 ela apoiou a divisão do SYL de um grupo liderado por Haji Mohamed Hussein para formar a Grande Liga da Somália-GSL e foi eleita vereadora de Mogadíscio nas eleições municipais do mesmo ano.

Em 1967, Halima Godane ingressou em um novo partido, Hawl iyo Hantiwadaag (Partido Socialista dos Trabalhadores) e permaneceu leal às idéias do socialismo e da unidade nacional do país.

BIBLIOGRAFIA

AIDID, Safia. Haweenku Wa Garab (Women are a Force): Women and the Somali Nationalist Movement, 1943-1960. Bildhaan: an International Journal of Somali Studies, v. 10,  p. 103-124, 2010:  https://arcadia.sba.uniroma3.it/handle/2307/4669


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave: Empreendedoras

Hannah Forster (1893-1966)

Comerciante e a primeira mulher gambiana a entrar na política ativa, durante o período colonial.  Nasceu com o nome de Hannah Johnson,  em Bathurst, atual Banjul. Era filha  de C.C. Johnson, um funcionário público de Freetown, Serra Leoa, e Elizabeth Johnson, uma professora. Frequentou a a Escola Primária St. Mary em Banjul, e em 1907 foi para Freetown para cursar o Ensino Médio, uma vez que não havia estabelecimento para este nível escolar na Gâmbia.  

Começou a vida pública como professora, casou-se em 1913 mas logo o marido morreu,  deixando-a com dois filhos. Ela então abandonou o ensino e se aventurou no comércio. Com o tempo Hannah adquiriu lojas em Banjul e nos portos fluviais gambianos de Kaur, Kuntaur e Kartong. Diferente de outros comerciantes, que só faziam negócios obedecendo o período de colheita do amendoim, suas lojas operavam durante todo o ano, o que era admirado pelas comunidades rurais. No final da década de 1920 ela controlava o comércio de noz-de-cola, camarões e ostras, negociando estes produtos em Liverpool, Freetown, e Lagos.

Na década de 1930 entrou para o negócio da moda e dos tecidos em Banjul, atendendo a elite; educou os filhos em universidades britânicas e financiou o partido nacionalista. Sua filha, Catherine Collier, se tornou a primeira radiologista de Gâmbia (1954) e o filho, Bani Forster se tornou o primeiro psiquiatria do país. Foi eleita para o conselho municipal de Bathurst (1931).

Décadas mais tarde, com o advento de partidos políticos em 1951, ela ajudou a fundar o primeiro partido político da colônia, o Partido Democrático da Gâmbia (GDP), com o Reverendo J .C. Faye, presidindo a ala das mulheres do GDP e foi co-autora de seu manifesto para as primeiras eleições partidárias, sendo eleita em 1951 e 1954 com recurso ao patronato mediante distribuição de arroz aos eleitores.

Por sua trajetória econômica e política, é lembrada na Gâmbia como símbolo da predisposição das mulheres Krio pela independência, autonomia e busca do sucesso.

BIBLIOGRAFIA

CESAY, Hassoum. Gambian women: an introductory history. Banjul: Fulladu, 2008.

HUGHES, Arnold; Perfect, D.  A political history of the Gambia, 1816-1994. Rochester: University of Rochester Press, 2006.


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Legenda: Hannah Kudjoe | Foto: Peter Dadson

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/ File:Hannah_Kudjoe.png. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Hannah Kudjoe (1918-1986)

Líder nacionalista ganesa, dentre as primeiras mulheres a assumir destacado papel público no esforço de Gana pela independência – ocorrida em 1957. Nasceu na cidade de Busua, de uma proeminente família da Costa do Ouro. Uma grafia alternativa na língua vernácula para o seu nome é Esi Badu, embora dentro dos círculos políticos, depois da Segunda Guerra Mundial, tenha ficado conhecida como Hanna. Devido ao seu envolvimento diferencial e profundo no Convention People’s Party – CPP (Partido da Convenção dos Povos), nos anos 1950-1960, por vezes essa importante agremiação era chamada de “Convenção de Hanna”.

Depois de um rápido casamento como JC Kudjoe, ela passou a morar com irmão E.K Dadson. Foi nesse período que conheceu Kwame Nkrumah, quando este retornou após uma década estudando Estados Unidos e Bretanha para assumir a posição de secretário-geral da United Gold Coast Convention – UGCC (Convenção Unida da Costa do Ouro) (1947). Nkrumah se hospedou por um tempo na mesma casa que ela, e a convenceu do importante papel que poderia ter na luta pela independência, o que de fato aconteceu: Hannah atraiu militantes e simpatizantes em escala regional e nacional.

Com a intensificação da luta nacionalista, assumiu a secretaria de propaganda do CPP e ocupou funções de organização. Depois da eleição de 1951 na qual o CPP ganhou com ampla vantagem e Nkrumah se tornou o líder dos negócios do governo, Hannah Kudjoe dirigiu os seus esforços para consolidar a rede de apoio ao partido.

Além disso, após a independência passou a se dedicar a trabalhos sociais com mulheres, fortalecendo a sua presença no partido com uma agenda pan-africanista, a Ghana Women’s League (Liga das Mulheres de Gana) (1960). No governo de Nkrumah, ela dirigiu o Ministério do Trabalho e das Questões Sociais, com atuação no desenvolvimento da educação infantil e em serviços de enfermagem.

Depois do golpe que tirou Nkrumah do poder (1966), Hannah voltou a sua vida privada, embora estivesse ativa no trabalho filantrópico nas duas décadas seguintes.

BIBLIOGRAFIA

ALLMAN, Jean. The disappearing of Hannah Kudjoe: nationalism, feminism and the tyrannies of history. Journal of Women’s History, v. 21, n. 3, p. 14-35, 2009.

ALMANN, Jean. “Hannah Kudjoe”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p.  435-436.

DENZER, LaRay. Gender and decolonization: a study of three women in West African public life. In: AJAYI, J. F. de; PEEL, J. D. Y. Ed.). Peoples and empires in African history: essays in memory of Michael Crowder. Londres: Longman, 1992, p. 117-139.


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Legenda: Hatshepsut | The Metropolitan Museum of Art

Fonte: The Metropolitan Museum of Art. Disponível em: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/ 544450. Acesso em: 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Regentes

Hatshepsut (c. 1507-1458 a.C.)

Esposa real, regente e mulher-faraó do Antigo Egito. Nasceu na cidade de Tebas, filha do faraó Thutmés I e da rainha Ahmés e pertenceu à 18ª dinastia de governantes, durante o Novo Império ou Reino Novo. Governou no período situado entre 1479-1458 a.C.

Segundo parece, teria vinte e quatro anos quando o pai morreu. Seguindo os costumes em vigor na sociedade egípcia, pelo qual os membros da família real casavam-se entre si, era esposa de seu meio-irmão Thutmés II (1492-1497 a.C.), que sucedeu o pai no trono em um curto período de governo. Este teve como sucessor Thutmés III (1479-1425 a.C.), filho dele e de sua segunda esposa chamada Mutnofret. Como o sobrinho e enteado, ainda criança, não dispunha de condições para assumir as responsabilidades de governo, na qualidade de esposa real Hatshepsut assumiu o poder como regente. Temporariamente, coube a ele o papel de participar dos cultos às divindades.

Já no período de governo de Thutmés II, a rainha adotou o nome de Maatkare, colocando-se como soberana do Egito e adotando os atributos faraônicos, os títulos distintivos e os símbolos da monarquia. Colocando-se publicamente como filha de Amon-Rá, apoiou-se no parentesco divino a esse deus importante do panteão egípcio para fazer reconhecer o seu prestígio, dedicando-lhe monumentos e objetos votivos no Templo mortuário de Djeser Djeseru (“A maravilha das Maravilhas), no complexo monumental de Deil el-Baari, junto ao Vale dos Reis, dedicado aos deuses Amon, Anúbis e à deusa Hator. 

No sétimo ano da regência, ela proclamou-se faraó, passando a governar em nome de Thutmés III e em seu próprio nome, numa co-regência com o sobrinho, até sua própria morte.  Ao que parece, para manter-se nessa nova condição ela contou com o apoio dos sacerdotes de Amon, que ao manterem-se fiéis a ela receberam contrapartidas e favores da governanta. Ela se dedicou à administração interna do reino e à produção de grandes construções, monumentos e obras de representação da ideologia faraônica. Data de seu reinado uma expedição ao reino de Punt, no litoral da atual Somália, idealizada como a “terra do incenso”, cuja viagem é retratada nos alto-relevos de Deir el-Baari.  

Vista como uma das pessoas mais influentes na história egípcia, teve após a morte o seu corpo sepultado no Vale das Rainhas. Ao que parece, todavia, teve seu nome intencionalmente apagado da memória dinástica por Thutmés III. Este teria mandado derrubar suas estátuas e retirar as marcas de suas insígnias dos monumentos, algo aliás frequente na história egípcia antiga. Este viria a adotar outra linha de ação para infundir o seu nome na posteridade, fortalecendo a organização militar e dando início a uma série de campanhas na Líbia, Oriente Médio e Núbia – alargando a influência egípcia até a quarta catarata do Nilo.

BIBLIOGRAFIA

FAIRMAN, H.W.; Grdseloff, B. Texts of Ḥatshepsut and Sethos I inside Speos Artemidos. The Journal of Egyptian Archaeology, v. 33, n. 1, p. 12–33, 1947. Disponível em: https://doi.org/10.1177/030751334703300103

ROEHIG, Catherine; Dreyfus, Renee; Keller, Cathleen. Hatshepsut: from Queen to Pharaoh. Nova Iorque: Metropolitan Museum of Art, 2015.

TYLDESLEY, Joyce. Hatshepsut: the female pharaoh. Londres: Penguin Books, 1996. 

SHIRLEY, J. J. The power of the elite: the officials of Hatshepsut’s regency and coregency. In: Galán, J.; Bryan, B. M.; Dorman, P. F. (Eds.). Creativity and innovation in the reign of Hatshepsut. Chicago: Studies in Ancient Oriental Civilization, 2014.

SOUZA, Aline Fernandes de. A mulher-faraó: representações da rainha Hatshepsut como instrumento de legitimação (Egito Antigo, século XV a.C.). 2010. 173f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2010. Disponível em: https://www.historia.uff.br/stricto/td/1368.pdf


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Legenda: Hawa Yakubu

Fonte: Blog Insight Memo: Hon. Hawa Yakubu's Family & Obiba Sly Collins commemorate 10years. 20 de mar. de 2017. Disponível em: http://insightmemo.blogspot.com/2017/03/hon-hawa-yakubus-family-obiba-sly.html. Acesso em: 15 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Hawa Yakubu (1948-2007)

Nascida em Pusiga, no Oeste de Ghana, era filha de Hajia Azore, que também foi ativa militante no Convention People’s Party. Estudou em Navorongo e em Accra, na área de administração institucional, e obteve mestrado na área de liderança e governabilidade, junto ao Ghana Institute of Management and Public Administration.

Eleita pelo conselho local em 1979 para a Assembleia Nacional, participou da redação da constituição da Terceira República de seu país sendo a mais jovem constituinte. Com o golpe de estado ocorrido em 1981 pediu asilo na Inglaterra e na Nigéria, onde viveu durante uma década. No retorno, em 1991, Hawa Yakubu concorreu novamente para o Parlamento, sendo empossada após ter recorrido do resultado da eleição, quando contou com grande apoio das mulheres. Por sua forte atuação pública ficou lembrada com o epiteto de “Iron Lady” (Dama de Ferro). Em sua carreira pública teve participação ativa em propostas e projetos de empoderamento feminino.

Devido a problemas políticos com o governo em 1996 após denúncia de irregularidades nas eleições, deixou mais uma vez o seu país para viver em Cotonou, Benin, onde foi convidada a dirigir o Groupe d’Études et de Recherches sur la Democratie et le Développement Economique et Social, uma Organização Não-Governamental. Ao retornar a Gana em 2000, concorreu novamente às eleições sob forte ataque pessoal, pelo New Patriotic Party (Novo Partido Patriota).   Sob o governo do presidente John Kufuor, ocupou o Ministério do Turismo. Ela também atuou como representante de Gana na Economic Comunity of West African States – CEDEAO (Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental). Nos últimos anos e vida lutou contra um câncer, para o qual buscou tratamento em Londres e na África do Sul.

BIBLIOGRAFIA

SHELDON, Katleen. “Hawa Yakubu”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 197-198.

TRIPP, Aili Mari. Woman and democracy: the new political activism in Africa. Journal of Democracy, v. 12, n. 3, p. 141-155, 2001.


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Legenda: Helen Gravonsky Suzman

Fonte: Encyclopædia Britannica. Disponível em: https://www.britannica.com/ biography/Helen-Suzman#/media/1/575892/160999. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Helen Gravonsky Suzman (1917-2009)

Nascida em Germiston, nas proximidades de Johannesburgo com o nome de Helen Gravonsky, era filha de imigrantes europeus de origem judaica. Realizou os estudos superiores na Universidade de Witwatersrand, onde obteve bacharelado em Comércio. Casou-se com o físico Moses Suzman, com quem teve um filho e uma filha, Frances e Patricia.

Na década de 1940 atuou como leitora de história econômica na Universidade de Witwatersrand, e no final daquela década, após a instalação do regime do Apartheid passou gradualmente a adotar uma posição de oposição, o que a levou a romper com o partido do governo, o United Party (UP) e a em 1960 participar da fundação do Progressive Party (PP). Durante quinze anos ela foi a única representação eleita deste partido a tomar assento no congresso em posição contrária às determinações do regime, e a única mulher a tomar parte do parlamento sul-africano.

Pressionada por anti-semitas e por misóginos, Helen Suzman usou o canal oficial para, tanto quanto possível, denunciar os excessos do Apartheid e as precárias condições impostas às populações negras na townships, como o bairro de Soweto. Valendo-se do privilégio político, ela teve acesso às prisões, como a de Robben Island, onde conheceu Nelson Mandela, tornando-se sua amiga pessoal, amizade que perduraria até o fim da vida. Ela também interferiu junto às autoridades, apelando pela libertação de Robert Sobukwe, o fundador do Pan-African Congress (PAC), aprisionado desde a revolta anti-passe que levou ao Massacre de Shaperville, e pela libertação de Steve Biko, assassinado pelo regime em 1977. Ela foi uma das pouquíssimas pessoas brancas a participar dos seus respectivos funerais. 

BIBLIOGRAFIA

KROS, Cynthia. “Helen Gavronsky Suzman”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 473-474.

LEE, Robin. Values alive: a tribute to Helen Suzman. Johannesburg: Jonathan Ball, 1990.

SHAIN, Milton. Opposing voices: liberalism and opposition in South Africa today. Johannesburg: Jonathan Ball, 2006.

SUZMAN, Helen. In no uncertain terms: memoirs. London: Sinclair Stevenson, 1993.   


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Legenda: Helen Joseph | Foto: Anna Zieminski

Fonte: South African History Archive. Disponível em: https://www.saha.org.za/udf/ albertina_sisulu_and_helen_joseph_at_a_fedtraw_meeting.htm. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Helen Joseph (1905-1992)

Professora, assistente social e ativista anti-apartheid na África do Sul. Nasceu com o nome de Helen Beatrice May Fannell, em Sussex, na Inglaterra. Graduada em língua inglesa pela Universidade de Londres, e em Assistência Social.

Mudou-se para a África do Sul na década de 1930, quando trabalhou numa escola em Durban. Atuou como Oficial de Bem-Estar e Informação na Força Aérea Sul-Africana, foi secretária da Sociedade de Assistência Médica da Indústria Têxtil Transvaal, tendo contato com a União dos Trabalhadores do Vestuário – GWU, à qual pertenciam importantes lideranças femininas do país. Helen Joseph teve importante papel na fundação de diversas instituições, como o Comitê Nacional Executivo do Congresso dos Democratas Sul-Africanos, o Congresso Nacional Pró-Africano e a Federação de Mulheres da África do Sul.

Em 1956, foi acusada de traição juntamente com outros ativistas anti-apartheid, incluindo Nelson Mandela. Ela foi organizadora, juntamente com Lilian Ngoyi, Rahima Moosa, e Sophia Williams-De Bruyn, da histórica Marcha das Mulheres sobre Pretória (1956). Cultivou estreitos vínculos com os principais líderes da luta contra o apartheid, especialmente com Winnie Mandela.

Joseph escreveu três livros: If this be treason (Se Isto é Traição) (1963), Tomorrow’s sun (Sol do Amanhã) (1966), e sua autobiografia Side by Side (Lado a Lado)(1987). Morreu de AVC em Johanesburgo, e recebeu postumamente a maior distinção nacional, a Medalha Isitwalandwe/Seaparankoe.

BIBLIOGRAFIA

CAINA, Barbara.  “A south african revolutionary, but a lady of the British Empire”: Helen Joseph and the anti-Apartheid movement. Journal of Southern African Studies, v. 34, n. 3, p. 575-590, 2008.

JOSEPH, Helen. Side by side: the autobiography of Helen Joseph. Londres: Zed, 1986.

KLAUSEN, Susanne. “Helen Joseph”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 223-224.


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Legenda: Helen Olajumoke Oyeyemi | Foto: Stanny Angga

Fonte: Ubud Writers & Readers Festival. 06 de out. de 2012. Flickr: Ubud Writers & Readers Festival. Disponível em: https://flic.kr/p/dhme4a. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Helen Olajumoke Oyeyemi (1984)

 Romancista e dramaturga anglo-nigeriana, nasceu em Ibadan e faz parte de uma família de imigrantes nigerianos na Inglaterra. Cresceu em um bairro multirracial ao sul de Londres desde quando tinha quatro anos de idade.  Seu pai trabalhou de vigia enquanto estudava para ser professor,  e sua mãe trabalhou de supervisora no metrô.

Seu primeiro romance, The Icarcus Girl (A garota Ícaro)  foi escrita quando ela tinha dezoito anos e estudava para os exames preparatórios de ingresso na universidade, equivalente ao vestibular, obra aclamada pela crítica em 2005. Estudou ciência política e social na Universidade de Cambridge, período em que escreveu duas peças teatrais e um segundo romance foi concluído meses antes da formatura.

Com obra publicada por importantes editoras, o trabalho de Oyeyemi é representativo da terceira geração de escritores nigerianos, junto com Chimamanda Adichie, Sefi Atta, Chris Abani, Helon Abila, e outros(as). Algumas de suas obras tem como protagonistas crianças imigrantes caribenhas e africanas que cresceram em Londres, motivo pelo qual alguns críticos afirmam que ela não poderia ser enquadrada na literatura nigeriana. Ela própria já disse que não se sente totalmente africana, nem totalmente inglesa. Suas maiores influências são Edgar Allan Poe e Emily Dickinson e alguns estudiosos inserem sua literatura como transnacional, diaspórica e  multicultural, situando-a  ao lado de autoras negras britânicas como Diana Evans e Bernardine Evaristo.

Sua escrita ecoa as diversas identidades culturais e lugares, incorpora a língua yoruba, a religiosidade afro com a mitologia grega e a literatura britânica. Em 2010 a autora participou do Calabash International Literary Festival na Jamaica. Oyeyemi mantém um blog chamado Bedtime stories for immigrant kids.

BIBLIOGRAFIA

BRYCE, Jane. ‘Half and Half Children’: third generation women writers and new nigerian novel. Research in African Literatures, v. 39, n. 2, p. 49-67, 2008.

COOPER Brenda. The middle passage of the gods and the new diaspora: Helen Oyeyemi’s The Opposite House.  Reaserch in African Literatures, v. 40, n. 4, p. 108-121, 2009.

IMMA, Z’Etoile. “Helen Olajumoke Oyeyemi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p.  67-68.


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Legenda: Henriette Dagri-Diabaté

Fonte: Ambassade de Côte d ́Ivoire en Espagne. Disponível em: http:// www.espagne.diplomatie.gouv.ci/institution.php?lang=&num=12. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Henriette Dagri-Diabaté (1935)

Política e historiadora da Costa do Marfim, nasceu  na cidade de Bingerville. Iniciou o estudo primário em seu país e concluiu o secundário no Senegal. Depois, cursou história e obteve o doutorado em história pela Universidade de Paris IV- Sorbonne, quando defendeu  tese intitulada Le Sannvin, un royaume akan de la Côte d’Ivoire (1701 – 1901): sources orales et Histoire (O Sannvin, um reino akn da Costa do Marfim: fontes orais e história) (1984). 

Trabalhou como professora de história na Universidade de Abidjan (1968-1975), quando passou a integrar a Association des Historiens Africains (Associação de Historiadores Africanos),  participou do conselho editorial da revista histórica Afrika Zamani (1974-1975) e atuou como pesquisadora principal da Fundação Felix Houphouet¬Boigny (1976-1980).

Neste período, escreveu vários estudos sobre as experiências das mulheres africanas antes e durante o período colonial. Em seu primeiro livro publicado, La marche des femmes sur Grand-Bassam (A marcha das mulheres sobre o Grand Bassam) (1975), examinou o protesto de 1949 das mulheres contra o governo colonial no porto de Grand Bassam, no sul da Costa do Marfim. Outros importantes estudos de sua autoria incluem Les Sanvi: sources orales et histoire (Os Sanvi: fontes orais e história) (1986) e Memorial de la Côte d’Ivoire (Memorial da Costa do Marfim) (1988).

Henriette serviu como Ministra da Cultura de 1990 a 1993, ao final do longo governo de Felix Houphouet-Boigny.  Suas atividades incluíam a criação de instituições culturais como a Marche des Arts et du Spectacle e a Maison de la Culture em Abidjan. Sua participação política teve continuidade nos anos seguintes que foram muito conturbados, e foi presa nos anos 2000-2001 durante a ditadura comandada pelo general Robert Guei, tendo que fugir temporariamente para a França. Depois, assumiu o Ministério da Justiça no governo de Laurent Gbagbo (2003-2005), quando foi acusada por adversários de não fazer o suficiente para salvaguardar os direitos humanos.

Foi uma das fundadoras do partido chamado Rassemblement Democrtique – RDR (Ajuntamento Democrático), em 1994, do qual foi por muito tempo secretária-geral e depois presidenta (2017).

Henriette Dagri-Diabaté casou-se com Lamine Diabate, com quem teve  cinco filhos, alguns deles ativos na vida política no início dos anos 1990. Ela participou intensivamente da vida política até os setenta e cinco anos, fato admirado por jornalistas marfinenses e observadores estrangeiros, que a chamaram afetuosamente de “Joana D’Arc da Costa do Marfim”.

BIBLIOGRAFIA

RICH, Jeremy. “Henriette Dagri-Diabaté”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 156-157.

TALL, Madani M.. Being a woman in Cote d’Ivoire: empowerment challenges. Abidjan: World  Bank –  Regional Office, Cote d’Ivoire, 2013.


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Legenda: Henriqueta Godinho Gomes

Fonte: Ditadura de Consenso. RIP: Faleceu ontem em Lisboa, aos 75 anos, a Dra. Henriqueta Godinho Gomes. 07 de ago. de 2018. Disponível em: http://ditaduraeconsenso.blogspot.com/2018/08/rip- faleceu-hoje-dra-henriqueta-godinho.html. Acesso em: 22 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Direitos das mulheres

Henriqueta Godinho Gomes (1942-2018)

Nasceu em Empada, região de Quinara, Guiné-Bissau, a mais velha de oito filhos. Seu pai, Eduardo António da Silva era empregado dos correios da Guiné “Portuguesa” e sua mãe, Maria Formosa Bastos Pinto, dona de casa. Ao completar o Liceu em Bissau, destacou-se como aluna de quadro de honra e foi galardoada com uma Bolsa de Mérito para completar os estudos universitários em Lisboa. Formou-se em Administração Pública pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas de Lisboa – ISCSP (1967). Ainda durante os estudos universitários, ambos integraram a célula do PAIGC de Lisboa por volta de 1965.

Casou-se em 1967, em Lisboa, com Pedro Augusto Godinho Gomes, colega universitário da Guiné-Bissau. Durante esse período, Henriqueta e Pedro Godinho Gomes foram membros do PAIGC na clandestinidade. Em 1967, após conclusão dos estudos universitários, o casal instalou-se em Luanda com os três filhos, cidade onde viveram e trabalharam até 1974 como quadros superiores no Instituto do Trabalho, Previdência e Acção Social de Angola. Durante esse período, ambos tiveram uma militância ativa no PAIGC em Angola, ao lado de outros destacados membros do partido na clandestinidade, como Corsino Fortes. Após o 25 de Abril de 1974, o casal Godinho Gomes regressou à terra natal, Guiné-Bissau.      

Henriqueta Godinho Gomes veio a tornar-se figura destacada da administração pública e uma líder política da Guiné-Bissau. Determinada e convicta dos seus ideais, tais como a igualdade de gênero e a valorização da Mulher guineense, destacou-se nas fileiras do PAIGC nas décadas de 1980-1990, mormente na Célula Feminina da UDEMU, que chegou a dirigir. Foi por diversas vezes Ministra, tendo assumido, entre outras, as pastas da Saúde e da Função Pública e Trabalho. De personalidade forte e determinada em momentos precisos, como da Conferência para a Reconciliação Nacional, admitiu ter feito parte de uma Geração que lutou pela Liberdade e Desenvolvimento da Guiné-Bissau, mas também de ter cometido erros. Para registo histórico fica a sua leadalde política e pessoal, notável na convicção, que demonstrou na defesa do Regime e do ex-presidente João Bernanrdo “Nino” Vieira.

BIBLIOGRAFIA

SHELDON, Kathleen. Historical Dictionary of Women in Sub-Saharan Africa.  Lanham: Scarecrow Press, 2005

ASSUNÇÃO, Márcia Gomes. Representação política das mulheres na Guiné-Bissau. Lisboa: ISCTE,  2018


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Legenda: Pintura em vidro, possivelmente de Alexandria (séc. III)

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/File:Gold-glass_portrait_of_a_woman_(Turin).jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Ciências exatas

Hipátia (c. 355-415)

Astrônoma, matemática e filósofa alexandrina, foi a primeira matemática de cuja vida e trabalho se tem conhecimento razoavelmente detalhado e seguro. Era ativa como figura pública, tomando a liderança em assuntos cívicos de Alexandria e fazendo palestras públicas de filosofia. Ela também ensinou para estudantes a complexidade das operações matemáticas e astronomia. Ficou imortalizada na história pelas circunstâncias chocantes de sua morte: foi assassinada por uma multidão de cristãos que a despiram, desmembraram, queimaram e mutilaram.  

Hipátia era filha do matemático Theon e ensinou matemática e filosofia na cidade helenística de Alexandria, no norte do Egito. Era uma respeitada e carismática professora amada pelos alunos.  Considerada bela fisicamente, tinha boa oratória e dava palestras públicas. Era adepta da corrente filosófica neoplatônica e dedicava toda sua vida ao conhecimento, fato que foi interpretado por religiosos cristãos da época como paganismo.

Ela ofereceu contribuição original em questões técnicas da geometria, astronomia e da teoria dos números, como estudiosa da obra de Ptolomeu e Euclides. Junto com o pai, contribuiu para o comentário das obras daqueles autores e de outros, como Apolônio e Diofanto (Diophantus). Em correspondência com seu pupilo, Cinésio de Cyrene, ofereceu contribuição para o princípio do astrolábio planiférico, e para a elaboração do “hidroscópio”.

No início do século V, e com a morte de Theon, a cidade de Alexandria foi tomada por constantes distúrbios sociais envolvendo três principais grupos: cristãos, pagãos e judeus. Incitados pelo arcebispo Cirilo, os ataques de cristãos a judeus e pagãos tornaram-se cada vez mais violentos, gerando o contexto turbulento em que ocorreu a morte de Hipátia.

BIBLIOGRAFIA

DEAKIN, Michael A. B.. Hypatia of Alexandria: mathematician and martyr. Amherst: Prometheus, 2007.

DEAKIN, Michael. “Hypatia”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 97-98.

DZIELSKA, Maria. Hypatia of Alexandria. Cambridge: Harvard University Press, 1995.

MUELLER, Ian. Hypatia. In: GRINSTEIN, Louise; Campbell, Paul (Ed.). Women of mathematics: a bibliographic sourcebook. Westport, Conn.: Greenwood, 1987.


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Legenda: Huda Sharawi

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Huda_Sha%27arawi1.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Huda Sharawi (1879-1947)

 Nascida com o nome de Nur al-Huda Sultan,  em Minya, no Alto Egito, era filha de um alto dignitário, Sultan Pasha, um rico proprietário de terras e administrador provincial, e de  lqbal Hanim, uma jovem mulher de origem circassiana. Após a morte do pai, foi criada pela mãe aos cuidados de um tutor legal. Estudou em casa com uma professora de francês, a língua empregada plos membros da elite da época, e por um xeique que a ensinou a ler e memorizar o Alcorão.

Em 1892 ela foi forçada pela família a se casar quando tinha treze anos com Ali Sha’rawi, então com mais de quarenta anos, e viveu com ele durante sete anos, divorciando-se no momento em que uma cláusula estipulada por ocasião do casamento, que a união seria monogâmica, foi violada. Ela passou então, na virada para o século XX, a frequentar círculos intelectuais que começavam os elementos que viriam a definir o modernismo islâmico, e a colocar em discussão as profundas restrições impostas às mulheres por motivos religiosos no islã.

Em 1900 ela reatou relações com o marido, que se tornara proeminente no movimento nacionalista, com quem teve dois filhos. A partir daí Huda Sharawi combinou as responsabilidades familiares com a causa das mulheres e da nação. Ela fundou a primeira associação secular filantrópica de mulheres, isto é, uma associação desvinculada dos preceitos religiosos.

Criado em 1909, o Mabarrat Muhammad Ali abriu um dispensário médico para mulheres e crianças pobres. No mesmo ano, em cooperação com mulheres de classe média e escritores, Huda organizou as primeiras palestras “públicas” de e para as mulheres na recém-criada Universidade Egípcia e na sede do jornal nacionalista, Al-Jarida. Ela também ajudou a criar em 1914 duas sociedades intelectuais, a al-Ittihad al-Nisa’i al-Tadhibi (União Feminina de Refinamento) e a Jami’iyyat al-Raqi al-Adabiya lil-Sayydidat al-Misriyyat (Sociedade de Melhoramento das Senhoras), espaços de debate entre mulheres sobre questões de gênero e os problemas nacionais.

Na década de 1920, sua militância articulou as pautas e reivindicações anticoloniais e as pautas feministas. Ela esteve à frente da organização de manifestações de protesto contra a ocupação britânica do Egito e assumiu a presidência do Comitê Central de Mulheres, o Lajnat al-Wafd al-Markaziya lil-Sayyidat, que era afiliado ao Partido Wafd, controlado por lideranças masculinas. Em 1923, após a independência, ela fez parte da União Feminista Egípcia – EFU (al-Itihad al-Nisaial-Misri) e representou as mulheres egípcias na International Woman Suffrage Alliance – IWSA (Aliança Internacional das Mulheres pelo Sufrágio) realizada em Roma (1926), participando de sua comissão executiva até 1947.

Ao retornar ao Cairo da conferência de Roma ela levantou publicamente o véu que cobria o seu rosto, em protesto contra uma prática falsamente imposta às mulheres em nome do Islã. A EFU, sob sua liderança, criou a revista L’Egyptienne (A Egípcia) (1925), que serviu como porta-voz do movimento feminista laico e reivindicava educação igualitária para mulheres do campo, direitos políticos e a reforma dos códigos de comportamento e dos preceitos judiciais influenciados pelo islã. O passo seguinte foi publicar o periódico em língua árabe, al-Misriyya (A Mulher Egípcia) (1937), e fomentar a criação de escolas.

Aliando-se às mulheres palestinas, ela presidiu no Cairo uma Conferência da Mulher do Oriente pela Defesa da Palestina (1938), o que lançou as bases para um nascente feminismo pam-árabe que levou à organização da Conferência Feminista Árabe (1944). Neste último evento foi criada a al-Ittihad al-Nisa’i a Arabi (União Feminista Árabe), em vigor a partir de 1945 sob a presidência de Huda Sharawi, que, assim, participou em diversos âmbitos na gestação do feminismo internacional.

BIBLIOGRAFIA

BADRAN, Margot. Feminists, islam, and nation: gender and the making of modern Egypt. Princeton: Princeton University Press, 1995.

BADRAN, Margot. “Huda Sharawi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 353-354.

BADRAN, Margot. Feminism in islam: secular and religious convergences. Oxford: Oneworld, 2009.

LANFRANCHI, Sania Sharawi. Casting off the veil: the life of Huda Shaarawi, egypt’s first feminist. Londres; Nova Iorque:  I. B. Tauris, 2011. 

SHARAWI, Huda. Harem years: the memoirs of an egyptian feminist. Trad. Margot Badran. New York: Feminist Press at the City University of New York, 1986.


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Legenda: Pendente de quadril esculpido em marfim

Fonte: The Metropolitan Museum of Art. [Sítio Institucional]. Disponível em:https://www.metmuseum.org/art/collection/search/318622. Acesso em: 22 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Idia (séculos XV-XVI)

Rainha-mãe no reino edo do Benin no período do obá Esigie  (c. 1504-1550), no início do século XVI. Sua iniciativa foi fundamental para garantir-lhe o títulode governante na difícil sucessão de seu pai, o obá Ozolua. Para esse fim ela liderou uma tropa de guerreiros contra Arhuaran, que foi derrotado em batalha. Por isso Esigie criou o título político de iyoba (rainha-mãe) para incluí-la em seu governo.

Ela aparece descrita como uma guerreira destemida cujo papel foi de grande importância na conquista dos povos Igala. Para alguns, ela os teria vencido em combate. Para outros a vitória coube a Esigie, com a ajuda dela, de seus poderes e conhecimentos mágicos. Por tudo isso, o obá mandou construir um palácio nos arredores da cidade de Benin, o Eguae-Iyoba (palácio da rainha mãe), e lhe deu um território para governar.

 Na tradição oral dos Bini, Idia é louvada com vários nomes, como Idia ne Ekonorhue, que significa, “Idia, o útero de Orohue”.  Uma escultura de marfim de seu rosto foi adotada em 1977 como símbolo do II Festival Mundial de Artes e Culturas Negras, realizado em Lagos, Nigéria.

BIBLIOGRAFIA

EGHAREVBA, Jacob. A short history of Benin. Ibadan: Ibadan University Press, 1968.

RYDER, Allan. Benin and the Europeans: 1485-1897. London: Longman Group, 1977.


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Legenda: Ifi Amadiume

Fonte: Ellas [También] Cuentan. Disponível em: http://www.ellastambiencuentan.com/ifi-amadiume/. Acesso em: 22 de dez. de 2020.

Ifi Amadiume (1947)

Nascida em Kaduna, na área cultural Igbo, na Nigéria, realizou os estudo primário e secundário em se país antes de se mudar para a Inglaterra em 1971. Estudou na School of Oriental and African Studies da Universidade de Londres, onde obteve mestrado (1978) e doutorado (1983) em Antropologia Social. 

Como docente e pesquisadora, atuou durante um ano na Universidade da Nigéria, em Enugu, e depois foi convidada para lecionar na Inglaterra, Canadá, Estados Unidos e Senegal. Suas pesquisas empíricas inovaram o campo das relações de gênero na África em termos teóricos, a partir dos referenciais da cultura igbo, e resultaram nos livros  African Matriarchal Foundations: the igbo case (Estruturas matriarcais africanas: o caso igbo) (1987) e a premiada Male Daughters, Female Husbands: Gender and Sex in an African Society (Filhas machos, maridos fêmeas: gênero e sexualidade em uma sociedade africana ) (1987), em que antecipou o argumento depois muito difundido de que o gênero resulta de uma construção ocidental, e que a dicotomia de gênero não existia  na África antes do domínio colonial.  Escreveu ainda a coleção de ensaios Re-inventing Africa: Matriarchy, Religion and Culture (Reinventando a África: Matriarcado, Religião e Cultura) (1998).

Ifi Amadiume é também poetisa, e já em 1977 participou do II Festival de Artes e Culturas Negras em Lagos – FESTAC. Uma antologia de sua obra poética encontra-se em Passion Waves (Ondas da paixão) (1985), e em 2006 ela ganhou o Prêmio Flora Nwapa por seu livro Circles of love (Círculos do amor).  

Atualmente, faz parte do conselho consultivo do Center for Democracy and Development (Centro para a Democracia e o Desenvolvimento), uma ONG que visa promover os valores da democracia, paz e direitos humanos na África, particularmente na África Ocidental.

BIBLIOGRAFIA

ADESINA, Jimi. Práticas da Sociologia Africana: Lições de endogeneidade e género na academia. In: SILVA, Tereza Cruz e; COELHO, João Paulo Borges; SOUTO, Amélia Neves de (Orgs.). Como Fazer Ciências Sociais e Humanas em África: questões epistemológicas, metodológicas, teóricas e políticas (Textos do Colóquio em Homenagem a Aquino de Bragança). Dakar: CODESRIA, 2012, p. 195-210.

ADESINA, Jimi. “Re-appropriating Matrifocality: Endogeneity and African Gender Scholarship. African Sociological Review,  v. 14, nm. 1,  2010.


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Legenda: Iman Abdulmajid | Foto: Jennifer Su

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Iman_2010.jpg. Acesso em: 21 de dez. de 2020.

Iman Abdulmajid (1955)

Filha de um diplomata somali, Iman estudou em Mogadíscio (Somália) e no Cairo (Egito), e cursou ciências políticas na Universidade de Nairobi, no Quênia, onde em 1975 chamou a atenção de Peter Beard, um famoso fotógrafo de moda que a incentivou a se mudar para Nova York.

Em 1979, Iman apareceu na conhecida revista de moda Vogue,  e a Revlon a contratou para representar a empresa em uma campanha publicitária. Na década de 1980, ela se tornou um dos primeiros modelos afro-americanos a alcançar o status de top-model e atriz. Na década de 1990 fundou sua própria empresa de cosméticos, chamada Iman, que produzia artigos exclusivamente dirigidos para mulheres de pele mais escura, não apenas afro-americanas, mas também hispânicas, asiáticas e indígenas.

Em 1992, durante a fome que devastou a Somália, Iman procurou apoio junto à British Broadcasting Corporation (BBC) para fazer um documentário em sua terra natal. Desde então, tem se envolvido muito em atividades humanitárias, como a Action Française Contre le Faim (Ação Francesa Contra a Contra a Fome) e o British Break the Cycle (Quebre o ciclo)  contra a violência doméstica. Em 1997, recebeu um benefício para o American Child’s Defense Found (Fundo Americano de Defesa das Crianças). Iman apoia o Batoto Yeku Kiswahili (Para Nossas Crianças), um grupo sem fins lucrativos do Harlem que usa a dança, música e histórias africanas para ensinar as crianças afro-americanas sobre sua herança.

Iman foi casada com a estrela do rock David Bowie e sua filha, Alexandria Zahra Jones, nasceu em 15 de agosto de 2000. Ela também tem uma filha adulta, Zulekha, de seu casamento anterior com o jogador de basquete Spencer Heywood.

BIBLIOGRAFIA

JENNING, Helen. New African Fashion. Munich; London; New York: Prestel, 2011.


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Legenda: Mulher do povo Hutu em selo postal

Fonte: Europeana. Disponível em: https://www.europeana.eu/en/item/ 2058206/10970_objects_H583835. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Inamujandi (+1934)

Líder espiritual hutu e ativista anticolonial do Burundi, então sob domínio belga e sob o governo da minoria étnica Tutsi.  Nasceu em uma região remota perto da montanha Ndora no nordeste do país, por volta da metade do século XIX, e nada se sabe sobre boa parte da sua vida. Veio a integrar uma longa tradição de videntes e profetisas que eram associadas a espíritos de reis falecidos.

Em setembro de 1934 ela começou a anunciar as razões do fracasso de chefes tutsis indicados pelo rei Mwambutsa IV, e suas manifestações chamaram a atenção de muitos camponeses insatisfeitos que habitavam a região de Ndora.  

De acordo com pessoas mais velhas, entrevistadas em 1968, Inamujandi teria prometido organizar os rituais necessários para que o filho de Kirima, antigo chefe da região de Ndora que afirmava ser descendente do rei Ntare II, pudesse governar. Outros(as)  informantes afirmavam que ela não chegou a anunciar claramente o nome do novo rei que estava por vir. De qualquer modo, a promessa alimentou a frustração dos hutus em relação aos supostos usurpadores que haviam tomado o trono do Burundi.

Durante a década de 1920, a autonomia dos chefes hutus do nordeste do país estava ameaçada pela presença de novas chefias de origem Tutsi a quem o governo belga assegurava uma posição privilegiada, o que acirrou ressentimentos das linhagens e famílias que há muito controlavam a região. Inamujandi ganhou popularidade, recebendo grande quantidade de comida para alimentar os seus seguidores e guerreiros, e o grupo declarou guerra contra Mwambutsa IV e Bacinoni, os chefes leais aos belgas, colocando em risco a autoridade dos aliados dos colonialistas.

Rodeada de carisma e prestígio espiritual, era considerada detentora de poderes mágicos capazes de conferir invulnerabilidade aos seguidores, e a reduzir os inimigos. Sob seu comando, sucederam-se ataques a tutsis e belgas, com a destruição, em várias semanas, de mais de 300 casas e 10 escolas missionárias de catequistas, e logo vieram as represálias. As tropas africanas a serviço do governo belga invadiram Ndora e saquearam o acampamento dos rebeldes em 3 de outubro de 1934. Inamujandi fugiu, mas após ser denunciada, foi capturada e levada perante o tribunal colonial, que a sentenciou ao exílio interno na cidade de Ruyigi, no leste do país.

Ainda no início da década de 1980, muitos(as) anciã(o)s negavam que os belgas  tivessem capturado a verdadeira profetisa, afirmando que aprisionaram a pessoa errada, o que indica a continuidade de seu legado junto ao povo. Nas décadas de 1950-1960 lideranças hutus evocavam o seu nome como heroína anti-colonial e anti-tutsi, enquanto o governo instituído após a independência não colocou acento em sua origem étnica ou regional. O certo é que ela permanece como exemplo de liderança espiritual feminina.

BIBLIOGRAFIA

CHRÉTIEN, Jean-Pierre. Une revolte au Burundi em 1934: les racines traditionalistes de l’hostilité a la colonization. Annales, E.S.C, v. 25, n. 6, p. 1678-1717, 1970.

GUILLET,Claude; Ndayishinguile, Pascal. Legendes historiques du Burundi. Paris: Karthala, 1987.

RICH, Jeremy. “Inamujandi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 156-157.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave:

Inari Konté (século XIV)

No antigo Mandinga, o governo do reino coube desde o princípio a uma única linhagem, a dos Keita, e pouco ou quase nada é tratado sobre suas consortes do sexo feminino. As pesquisas da historiadora Madina Ly-Tall trouxeram à tona o papel representado pelas mulheres dos governantes do Império do Mali, algumas delas como primeiras-esposas, outras como rainhas-mães e outras ainda como esposas-preferidas, identificadas pelo título de Baramuso.

Embora as responsabilidades do governo estivessem na esfera pública de poder das primeiras-esposas, a posição de esposa-preferida era digna de nota devido a influência que elas podiam exercer sobre os seus maridos na esfera privada. Devido a essa influência, sua posição na corte dos governantes lhes garantia grande prestígio e muitos disputavam sua atenção e sua amizade. Somente com elas os mansas (governantes) compartilhavam os seus segredos.  

Na conhecida crônica histórica dos acontecimentos transcorridos no Império Mandinga e no Império Songai intitulada Tarikh al-Fattash, cuja redação data da metade do século XVII, constam diversas anedotas sobre o Mansa Mussa do Mali e sua faustosa peregrinação à Meca nos anos 1324-1325. Uma delas diz respeito ao relacionamento dele com sua esposa-preferida durante a travessia do Saara. O evento, registrado três séculos após ter supostamente ocorrido, foi recolhido da tradição oral e reveste-se de elementos fantasiosos que sugerem o seu caráter lendário.

Certa noite, quando a caravana encontrava-se acampada entre as cidades de Tagazza e Touat, Mansa Mussa repousava com Inari Konté em sua tenda, e ao perceber que ela não conseguia dormir, perguntou-lhe o motivo. Ela teria então explicado que não conseguia dormir devido ao incômodo da areia sobre o seu corpo, e que necessitava banhar-se nas águas do Rio – numa provável alusão ao grande rio Níger. Na manhã seguinte o marido encarregou o ministro, Farba, de providenciar fornecimento de água, algo aparentemente impossível de ser feito. Mas uma gigantesca operação permitiu que a água do Níger fosse drenada através do Saara por uma espécie de aqueduto construído por milhares de escravos, e a rainha pode então realizar o seu desejo, banhando-se junto com suas quinhentas acompanhantes e serviçais.

O sobrenome da governanta lendária, Konté, sugere o seu vínculo ao povo Sosso, ligado ao grupo linguístico soninké. Nesse caso, o seu casamento com Mansa Mussa poderia sinalizar arranjos políticos com a antiga linhagem Kanté, que dominou o Mali antes do advento de Sundjata Keita no trono mandinga.

Para alguns tradicionalistas, como Dioma Hamana, o nome da rainha teria sido Niériba Kondé, que é como o historiador Djibril Niane também a designa. Segundo este pesquisador, mesmo historiador, a tradição mandinga conservou a memória do episódio lendário que envolveu o desejo da rainha e transformou Niériba Kondé numa espécie de ninfa, sempre rondando a margem do grande rio Níger.  

BIBLIOGRAFIA

LY-TALL, Madina. Contribution a l’histoire de l’Empire du Mali (XIII-XVI siècles): limites, principales provinces, institutions politiques (thèse de doctorat de 3º cycle, Sorbonne, juin 1972). Dakar; Abidjan: Les Nouvelles Éditions Africaines, 1977.

NIANE, Djibril Tamsir. Recherches sur l’Empire du Mali au Moyen Age. Recherches africaines: études guinéenes (Conacry), t. 1, 1959, p. 6-56.  Texto disponível em: http://www.webguinee.net  Acesso em 20/08/2019.

PALA, Achola; LY, Madina. La mujer africana en la sociedad precolonial. Barcelona: Serbal; UNESCO, 1982: https://unesdoc.unesco.org/images/0004/000402/040262sb.pdf


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Legenda: Ingrid de Kok | ©Adine Sagalyn / akg-images (cortesia)

Fonte: Akg Images. Disponível em: https://www.akg-images.com/archive/Ingrid-de- Kok---Portrait---2013-2UMEBMYRE9G1V.html. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Ingrid de Kok (1951)

Poetisa sul-africana, crítica, acadêmica e administradora universitária. Nasceu em Johanesburgo, filha de um um metalúrgico e de uma professora da creche.  Estudou na Escola St. Andrew (1968) e formou-se em Ciências Políticas e Inglesas da  Universidade de Witwatersrand (1972) depois de uma viagem de intercâmbio no Missouri, Estados Unidos (1969-1970). Alguns anos mais tarde concluiu o seu Mestrado em Inglês na Universidade de Ontario, Canadá, com pesquisa sobre a poesia lírica de Thomas Hardy (1984).

Ao retornar para a África do Sul fixou residência na Cidade do Cabo, passando a trabalhar em  vários projetos de educação e desenvolvimento. Já publicava poemas desde 1977 em várias revistas literárias sul-africanas. A primeira coletânea, Familiar Ground (1988), tem como foco as paisagens de seu país e do Canadá,  e memórias de infância. Algumas poesias revelam a dimensão psicológica  das restrições impostas pelo regime de segregação em que ela cresceu. Em 1988 Ingrid passou a fazer parte do corpo docente da Universidade do Cabo.

Como poetisa, editora, crítica, educadora e facilitadora de eventos públicos, Ingrid de Kok contribuiu significativamente durante todo o período de transição da África do Sul após o Apartheid. Debateu o papel da arte e da cultura no processo de recomposição social. Ela atuou como editora de poesia na importante revista sul-africana New Contrast (1995-1996), e publicou sua segunda coletânea de poesias, Transfer (1996), no contexto em que ocorria a Comissão da Verdade e da Reconciliação – TRC, e expôs em algumas obras as dimensões da culpa e da catarse que emergiram naquele cenário. 

Os reflexos da violência social e a busca por reparação transparecem em poemas de duas outras obras dela: City in words: poems (Cidade em palavras: poemas) (2001) e Terrestrial things (Coisas terrenas) (2002), que foram parcialmente retomados na coletânea Seasonal fires: new and selected poems (Incêndios periódicos: poemas novos e selecionados) (2006), obra traduzida para o italiano e outras línguas.

BIBLIOGRAFIA

GRAHAM, Shane. South african literature after the Truth Commission: mapping loss. Niva Iorque: palgrave MacMillan, 2009.

KELLY, Erica. Strangely tender: an interview with Ingrid De Kok. Scrutiny2: issues in english  studies in Southern Africa, v. 8, n. 1, p. 34-48, 2003.

PATKE, Rajeev S.. Postcolonial poetry in english. Oxford:  Oxford University Press, 2006. 


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Legenda: Isabel dos Santos | Foto: Nuno Coimbra

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:%C2%A9NC_IdS.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Isabel dos Santos (1973)

Nascida em Baku, no Azerjaijão, é a filha mais velha de José Eduardo dos Santos, presidente de Angola desde 1979, e de sua primeira esposa, a russa Tatiana Kukanova. Ele a conheceu quando, nos anos 1970, durante a guerra anti-colonial, esteve na então União Soviética para estudar engenharia junto ao Azerbaijan Oil e o Instituto de Química de Baku. Depois de se divorciar de Tatiana ele se casou com Ana Paula dos Santos, com quem teve mais dois filhos.

Apesar de ter passado a maior parte da infância em Angola, viveu em Londres alguns anos com a mãe, onde obteve a formação universitária em gestão de recursos humanos e engenharia elétrica. Mais tarde trabalhou como consultora para o óleo angolano da Sociedade Nacional de Combustíveis de Angola – SONANGOL (1996).  Em menos de uma década, conseguiu construir um “império de negócios”, que se estende de Angola a Portugal, nos campos de telecomunicações, diamantes, comunicação social e finanças, óleo, e outros produtos.

O seu primeiro empreendimento comercial foi Miami Beach, uma discoteca na Ilha de Luanda e depois criou a empresa Urbana 2000 e geriu a Empresa de Saneamento e Limpeza de Luanda – ELISAL. Mantém contatos estreitos com empresas portuguesas, especialmente nos setores bancário e de telecomunicações. O seu nome é associado a empresários portugueses ricos e influentes, e participa como acionista influente no Banco Espírito Santo Angola desde 2001.

O seu perfil como empresária aumentou consideravelmente em Angola com a fundação em 2001 da UNITEL, que se tornou uma grande operadora de telefonia celular no país. Santos controla 25% da empresa através da holding GENI, na qual virtualmente todas as suas participações financeiras são concentradas. Como forma de expandir as suas atividades para Angola, a empresa de telecomunicações Portugal Telecom também participou na UNITEL, enquanto outro grande acionista é a petrolífera angolana AKAI Sonangol. Ela atua direta ou indiretamente no negócio de diamantes, detém controle acionário na indústria de concreto e no setor bancário angolano e português.  Em 2008, comprou 9,69% das ações do Banco Português de Investimento e em 2009 adquiriu o controle da empresa portuguesa de televisão e internet ZON Multimedia.

Em 2002 ela casou-se com Sindika Dokolo, filho de um milionário congolês que fundou o Banco de Kinshasa. O casamento cimentou a reputação de Isabel dos Santos, popularmente conhecida como “a princesa de Angola”, alçando-a à condição de uma das mulheres mais ricas da África Subsaariana.

BIBLIOGRAFIA

DIETRICH, Christian. Inventory of formal diamond mining in Angola. In: CILLIERS, Jakkie; DIETRICH, Christian. Angola’s war economy: the role of oil and diamonds. Pretoria: Institute for Security Studies, 2000.

FERNANDES, Felipe.  Isabel dos Santos: segredos e poder do dinheiro. Alfragide: Casa das Letras, 2015.

RUIGROK, Inge Mariette. “Isabel dos Santos”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 272-273.


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Legenda: Isabel Ferreira

Fonte: Somos! Angolana inaugura exposição em lisboa. 20 de mai. de 2019. Disponível em: http://somosportugues.com/angolana-inaugura-exposicao-lisboa/. Acesso em: 21 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Poetisas Romancistas

Isabel Ferreira (1958)

Escritora angolana, na juventude participou das guerras de libertação do país, nas Forças Populares de Libertação de Angola (FAPLA).  Já na época sua propensão para as artes levou a que se envolvesse em atividades culturais, e ela passou a fazer parte de um grupo musical que tinha como objetivo elevar o moral dos guerrilheiros nas frentes de combate.

Obteve graduação com Licenciatura em Dramaturgia pela Escola Superior de Teatro e Cinema de Amadora, Portugal, e Curso de Especialização em Dramaturgia pela Universidade de São Paulo. É membro da União dos Escritores Angolanos.

Como escritora, é autora do romance Fernando daqui (2007), e dos livros de poesia Laços de amor (1995), Caminhos ledos (1996), Nirvana (2004), À margem ddas palavras nuas (2007) e O leito do silêncio (2014).

BIBLIOGRAFIA

ALVES DA SILVA, Gislene. Entrevista. Isabel Ferreira: um grito literário vindo de Angola. Grau Zero- Revista de Crítica Cultural, v.3, n.1, p.259-266, 2015.


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Legenda: Isatou Njie-Saidy | UN Photo / Devra Berkowitz

Fonte: United Nations Photo. Disponível em: https://dam.media.un.org/. Acesso em: 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave: HIV/AIDS

Isatou Njie-Saidy (1952)

Figura pública da República de Gâmbia, com carreira política consolidada que a levou ao cargo de Vice-Presidenta do país e Secretária de Estado dos Assuntos da Mulher.

Nascida em Kuntaya, frequentou escola primária e secundária nos anos 1960 e nas décadas de 1970-1980 obteve formação em educação no Yundum Teacher Training College (1974), graduação e pós-graduação em administração e gestão industrial no Instituto de Pesquisa em Ciência da Administração, na Holanda (1979) e na Universidade das Filipinas, em Manilla (1981), e defendeu seu metrado na Universidade Britânica de Gales, em Swansea, com a tese The changing roles of women in agriculture in the Gambia (As transformações dos papéis das mulheres na agricultura da Gâmbia) (1989).

Desde a década de 1980, envolveu-se em pastas e secretarias executivas do governo vinculadas a projetos e programas de promoção da condição das mulheres, com atuação destacada no Conselho Nacional da Mulher em matéria de educação e de defesa de direitos, planejamento familiar. Também tomou iniciativas, sem sucesso, contra a prática da mutilação genital feminina.

Depois de ocupar diversas posições de liderança em organizações filantrópicas e acadêmicas (1990-1996), representou o seu país na Conferência Internacional das Mulheres em Pequim (1995), e coordenou medidas para a prevenção do HIV-AIDS e para o desenvolvimento econômico.

 Em 1997, alguns meses após a eleição presidencial de 1996 na qual Yahya Jammeh, que havia chegado ao poder por um golpe militar em 1994, saiu vitorioso nas eleições, Isatou Njie-Saidy foi nomeada vice-presidente da Gâmbia e Secretária de Estado da Saúde, Bem-Estar Social e Assuntos da Mulher. Participante de um governo conservador, com um líder com posições controvertidas em relação à AIDS e aos homossexuais, ela permaneceu no cargo durante vários anos, mas devido a gradual dificuldade de relacionamento na alta cúpula de governo ela apresentou sua renúncia em 2017, em meio a uma grave crise constitucional. 

BIBLIOGRAFIA

CEESAY, Hassoum. Gambian women: profiles and historical notes. Kanifing: Fulladu Publishers, 2011.

NJIE-SAIDY, Isatou (Ed.). Report of second women’s bureau workshop on traditional practices that affect the health of women and children, held in Banjul. Banjul: National Women’s Council and Bureau, 1987.

RICH, Jeremy. “Isatou N’jie-Saidy”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 477-478.


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Legenda: Isaura Gomes

Fonte: A Semana. Isaura Gomes apresenta queixa-crime contra Antero Coelho. 24 de abr. de 2009. Disponível em: https://asemana.publ.cv/?Isaura-Gomes-apresenta-queixa-crime-contra-Antero-Coelho. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Médicas e biólogas

Isaura Gomes (1944)

Farmacêutica cabo-verdiana com larga atuação na política do país. Nasceu na Ilha de São Vicente. Sua mãe, Maria da Luz Tavares Gomes, era vendedora no mercado municipal, e o pai, com quem nunca teve oportunidade se encontrar, migrou para Venezuela em 1947 e nunca mais retornou. 

Ela estudou no Liceu Gil Eanes, onde começou seu  ativismo político, e graduou-se com distinção em 1963. Contudo, não recebeu a bolsa de estudos que estaria destinada para estudar em universidades em Portugal, que foi destinada a um aluno residente na Ilha de São Vicente, com médias muito menores que as dela, porém com cidadania portuguesa.  Este evento marcante fez com que ela tivesse que, para ajudar a mãe e seis irmãos, começar a dar aulas particulares de matemática, química e física.

Em 1964, após receber ajuda do único dentista da ilha, Dr. Anibal Lopes da Silva, que era amigo de longa data, Isaura recebeu ajuda para continuar seus estudos na Universidade de Coimbra. Assim, ela formou-se em Farmácia e especializou-se em Análises Clínicas na Universidade do Porto. Trabalhou por um tempo em Portugal retornando a Cabo Verde em 1970.

Depois da independência, Gomes desejou que Cabo Verde se tornasse multipartidarista para que o cidadão tivesse a oportunidade de votar em seus líderes. Entre 1975 e 1981 foi a única deputada mulher no Partido Africano para Independência da Guiné e Cabo Verde – PAIGC de seu país, e lutou pela ampliação da representatividade feminina.

Nos anos 1980, ofereceu contribuição fundamental para o desenvolvimento de sistema médico de Cabo Verde e treinou muitos profissionais, porém deu continuidade até os anos 1990 na luta pelo avanço dos direitos das mulheres. Em 2000, concorreu ao cargo de prefeita de São Vicente de forma independente, e em 2004 alcançou este objetivo, tornando-se a primeira prefeita de Cabo Verde. Passou  integrar o partido denominado Movimento Para a Democracia – MPD, pelo qual foi reeleita prefeita em 2008.

BIBLIOGRAFIA

COSTA, Suzano. Mulheres e participação política no Cabo Verde democrático. In: FONSECA, Carmelita; FORTES, Celeste (Eds.). As mulheres em Cabo Verde: experiências e perspectivas. Praia: Edições da UNICV, 2011.

LIMA-NEVES, Terza Silva. “Isaura Gomes”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 485-486.

MOREIRA, Beatriz  Landim. A Luta de Libertação de Cabo Verde: o papel da mulher. Trabalho de Conclusão, Instituto Superior de Educação, Departamento de História e Filosofia, Praia, 2016.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave: Área yoruba

Iyayun (século XV)

Nascida em uma família de alta linhagem em Ogboro, atual Estado de Oyó, na Nigéria, provavelmente durante o século XV. Seu nome vincula-se aos tempos iniciais do antigo Império de Oyó, quando história e lenda por vezes se confundem.

Baseado em informações recolhidas da tradição oral junto aos arokins, os bardos reais do palácio dos alafins de Oyó, o erudito Samuel Johnson registrou no final do século XIX dados da história de Iyayun na primeira parte do livro The history of the  yorubas (A história dos yorubas) (1897).

Ela teria sido filha de Aganju, o mais alto governante de  Ogboro, que detinha o título de Onisambo, equivalente a rei. Na juventude, foi desejada pelo poderoso e orgulhoso Aganju, quarto governante real (alafin) da antiga cidade de Oyó. Como o pai dela recusasse entrega-la em casamento, o pretendente conduziu uma dura guerra, capturando os adversários vencidos e destruindo suas comunidades.

Levada à força para Oyó-Ilê, após algum tempo Iyayun manteve relações com Lugbe, um dos filhos de Aganju, motivo pelo qual este foi sentenciado à morte e executado.  O alafin morreu pouco tempo depois consumido pela dor, enquanto ela engravidou e deu à luz o sucessor, chamado Kori.

Até o momento do parto coube ao alto dignitário que desempenhava a função de Basorun administrar o reino, mas com o nascimento da criança ela governou durante toda a menoridade dele como regente. Conforme Johnson, em todo aquele período “ela  usava a coroa, vestia as roupas reais, foi investida com o Ejigba, o Opa ileke e outras insígnias reais, e governou o Reino como homem até que seu filho fosse maior de idade”.

A história de Iyayun, ainda que lacunar, fragmentária, confirma o papel diferencial de mulheres em qualquer posição  que tivessem a oportunidade de ocupar nas  sociedades africanas anteriores ao colonialismo, e na história das sociedades de língua yoruba.

BIBLIOGRAFIA

JONHSON, Samuel. The history of yorubas: from the earliest times to the beginning of British Protectorate. Lagos: CMS Bookshops, 1921.

OYEWÙMÍ, Oyèronké. Making history, creating gender: some methodological and interpretative questions in the writing of Oyó oral traditions.  History in Africa (Cambridge, v. 25, p. 263-305, 1998.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave: Área yoruba

Iye Idolorusan (+1870-1875)

Governanta do reino Warri de Itsekiri, na região do Delta do Rio Níger, na atual Nigéria, uma área muito ativa no comércio de escravos, óleo de palma, borracha e outros itens. Era filha do olu (rei) Erejuwa e sua esposa Emaye.

Após a morte do pai e dos sucessores presuntivos, um período de turbulência e disputas de sucessão colocaram a estabilidade do reino em perigo, sobretudo após as mortes sucessivas de Akengbuwa, Omateye e Ejo no ano de 1848, em circunstâncias suspeitas. Durante alguns anos o reino ficou acéfalo e o comércio declinou.

Foi então que Iye Idolorusan assumiu o controle. Estava em posição de vantagem como meia-irmã do rei e irmã dos herdeiros, todos falecidos. Era também esposa de Omoku, um ex-governador de Bobi, um estado vizinho de Warri, com quem teve um filho. Além disso, era uma comerciante rica e influente, negociante de escravos e de óleo de palma, reverenciada e chamada popularmente de “Rainha Dola”.

Com o apoio de um escravo de confiança chamado Ebrimoni ela manteve o governo de Warri contra a vontade dos agentes comerciais britânicos, embora nunca tenha conseguido ser reconhecida como rainha, mas apenas como regente. 

O efetivo poder da sociedade itsekiri se dividia entre casas comerciais rivais; então, criou-se um cargo de “Governador do Rio” (Níger), exercido por uma espécie de ministério do comércio, que se tornou o mais importante órgão governamental da sociedade itsekiri. A partir daí, não se elegeu mais nenhum olu em Warri até 1936. 

BIBLIOGRAFIA

LLOYD, P. C.. The itsekiri in the nineteenth century: an outline social history. Journal of African History, v. 4, n. 2, p. 207-231, 1963.

SHELDON, Katleen. “Iye Idolorusan”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 176-177.


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Legenda: Jane Alexander

Fonte: Blog African Painters. 25 de nov. de 2006. Disponível em: http:// africanpainters.blogspot.com/2006/11/jane- alexander-south-african-artist.html. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Apartheid sul-africano

Jane Alexander (1959)

Escultora sul-africana e artista de multimídia. Nasceu em Johanesburgo, de uma família judaica originária da Alemanha. Estudou na Universidade de Witwatersrand,  onde completou a graduação com um bacharelado em Belas-Artes (1982) e o Mestrado (1988).

Lecionou língua inglesa e arte em escolas na Namíbia e na Cidade do Cabo antes de entrar para a Escola de Belas-Artes Michaelis, na Universidade do Cabo (1996) para lecionar escultura.  

Em 1986, sua exposição solo em Johanesburgo chamou atenção. Uma das obras, Butcher boys  (1985- 1986), representa três figuras em tamanho natural, sentadas em um banco, apresentando simultaneamente características animais e humanas, com sinais de danos físicos e anormalidade. Atualmente exposta na coleção permanente da Galeria Nacional Sul Africana, na Cidade do Cabo, esta escultura determinou o sentido da carreira de Alexander: o de sondar as consequências das ações humanas e relações de poder. Para os críticos, nela estão presentes elementos profundos relacionados com a sociedade que produziu o Apartheid.

Nas décadas de 1990 e 2000, com a readmissão da África do Sul no cenário cultural mundial em 1994, Jane exibiu seus trabalhos em inúmeras bienais e mostras internacionais de arte, passando a ganhar notoriedade em eventos de arte globais. Suas obras exploram a consciência da injustiça e da irracionalidade humana, bem como aspectos da vida cotidiana sul-africana.

A obra de Jane Alexander é essencialmente narrativa e convida o espectador a  observar e ponderar os relacionamentos entre os protagonistas, objetos, e espaços. Os atores são enigmáticos, aparentemente reais, mas apresentam traços híbridos ou mutantes, como humanóides parcialmente animalizados, e a “realidade” é sempre problematizada. A narrativa é complexa, aberta, imprevisível.

BIBLIOGRAFIA

ARNOLD, Marion. “Jane Alexander”.  In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 163-164.

NICOL, Tracy-Lee. Aspects of memory in the sculptural work of Jane Alexander, 1982-2009.  Thesis (Master in Art History), Rodhes University, 2009.

NOLTE, Jacqueline. Jane alexander sculpture and photomontage. Third Text, v. 10, n. 36, p. 99-101, 1996.

SUBIRÓS, Pep.  Jane Alexander: surveys (from the Cape of Good Hope). Nka: Journal of Contemporary African Art,  v. 33, p. 92-99, 2013.


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Legenda: Jane Vialle

Fonte: RIVET, Nathan. JEANNE/JANE VIALLE (1906– 1953). Blackpast. 08 de mar. de 2017. Disponível em: https://www.blackpast.org/global-african- history/vialle-jeanne-jane-1906-1953/. Acesso em: 15 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Euro-africanas

Jane Vialle (1906-1953)

Jornalista, política e ativista pelos direitos das mulheres na colônia de Ubangi-Shari, na África Equatorial Francesa – atual República Centro Africana. Nasceu em Ouesso, no Médio Congo, na República do Congo-Brazzaville, de mãe africana e pai europeu – integrante do alto escalão de uma empresa concessionária na colonização. Esta posição na elite local lhe permitiu estudar em Paris e logo se tornar jornalista na agência de notícias Opera Mundi.

Na metrópole, viveu intensamente o período de Entre-guerras, juntou-se à Resistência no período da ocupação nazista, em 1940, sendo presa em 1943 e enviada a um campo de concentração e depois a uma prisão, o que lhe rendeu mais tarde uma medalha por seu heroísmo e bravura.

Após a guerra, tornou-se parte da equipe editorial do jornal socialista  Combat,  participou da Assembleia Constituinte e fundou diversos partidos e movimentos; a Association por l’Evolution de l’Afrique Noire – APEAN (Associação para a Evolução da África negra) (1946) e a Association des Femmes de l’Union Française – AFUF (Associação de Mulheres da União Francesa), sendo sua secretária-geral. Como tal, incentivou a criação de albergues para jovens mulheres da União Francesa que foram estudar na França.

Nos anos 1950 foi indicada como conselheira da República Francesa, eleita como senadora de Ubangi-Shari, e fundou uma cooperativa de trabalhadores. Também atuou no comitê Ad Hoc das Nações Unidas sobre a escravidão e o comércio de escravos, vindo a atuar nos Estados Unidos. Morreu em 1953 em um acidente aéreo em Bourdeaux, França.

BIBLIOGRAFIA

BRADSHAW, Richard; FANDOS-RIUS, Juan. “Jane Vialle”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 125-126.

DUSTAN, Sarah Claire. “Une nègre de drame”: Jane Vialle and the politics of representation in colonial reform, 1945-1953. Journal of Contemporary History, v. 3, 2020: https://doi.org/10.1177/0022009419873038

KINATA, C. Une femme en politique: Jane Vialle. Annales de l’Université Marien Ngouabi, v. 11, n. 1, p. 91-104, 2010: http://annalesumng.org/index.php/lsh/article/download/159/126


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave: Igbos

Janet Okala (1894-1971)

Liderança e ativista pelos direitos das mulheres igbo da Nigéria. Seu avô, Obi Akazue, foi o décimo quarto rei de Onitsha no período inicial dos contatos com os britânicos (1850-1870), e os país de sua mãe foram o primeiro casal igbo a casar em uma igreja cristã anglicana. Ela esteve entre as primeiras crianças igbo a concluir o ensino escolar em instituições missionárias e coloniais. Em 1912, casou-se com B. Okala, do povoado de Ogbeotu, e tiveram um filho chamado Jullius.

Também conhecida por Mama Bread, Janet foi proprietária da primeira padaria da pequena cidade de Owerrinta, situada entre Aba e Owerri, na região sudeste da Nigéria. Em 1929, quando eclodiu a Guerra das Mulheres Igbo (Igbo Women’s War) ela foi uma das líderes na articulação das mulheres contra as taxações impostas pelo governo colonial a partir da cidade de Olokoro. Ao término do confronto, as ativistas preservaram Okala e seu nome não foi citado em nenhum testemunho prestado às autoridades.

Depois ela se mudou com a família para Enugu e lá ajudou a fundar a Enugu Women’s Association – EWA, (Associação das Mulheres de Enugu), entidade que tinha por objetivo advogar pelos direitos femininos. A associação aderiu ao Nigerian Women’s Union – NWU (União das Mulheres Nigerianas), cuja sede de Enugu foi fundada por Funmilayo Ransome-Kuti em Abeokuta (1949). O NWU protagonizou campanhas pela igualdade das mulheres, contra a violência policial, por mais representatividade política e econômica para as mulheres. Janet ajudou a fundar a Federation of Nigerian Women’s Societies FNWS (Federação das Sociedades de Mulheres Nigerianas, uma das eleitas dentre as cinco vice- presidentas.

Sua influência como liderança nacional e seu ativismo a fizeram ser a primeira mulher eleita para ocupar um cargo no Onitsha Urban County Council (Conselho Urbano do Condado de Onitsha) (1954). Ela foi representante das mulheres no Onitsha Market Women’s Association (Associação das Mulheres do Mercado de Onitsha) e chegou a assumir o posto mais alto que uma mulher igbo pôde assumir, como presidenta do conselho feminino da cidade (Council of Onitsha Women), onde se manteve ativa até o momento de seu falecimento.

BIBLIOGRAFIA

CHUKU, Gloria. Igbo women and political participation in Nigeria, 1800 – 2005.  International Journal of African Historical Studies, v. 42, n. 1, p. 81–103, 2009.

CHUKU, Gloria. “Janet Okala”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 13-14.

MBA, Nina. Nigerian Women Mobilized: women’s political activity in southern Nigeria, 1900-1965. Berkeley: University of California Press, 1982.


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Legenda: Jeanne Gervais

Fonte: ZERE INFOS. En 57 ans d’indépendance: la Côte d’Ivoire a connu 97 femmes ministres. 08 de ago. de 2017. Disponível em: https://zereinfos.wordpress.com/2017/08/08/en-57-ans-dindependance-la-cote-divoire-a- connu-97-femmes-ministres/. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Direitos das mulheres

Jeanne Gervais (1922-2012)

Educadora e ativista da Costa do Marfim e a Primeira Ministra de Assuntos das Mulheres. Nasceu como Jeanne Sieffer, em Grand Bassam, estudou na École Normale de Jeunes Filles (Escola Normal para Meninas) em Rufisque e depois recebeu formação para professora em Saint-Cloud, na França.

Ao retornar à Costa do Marfim trabalhou como inspetora das escolas primárias e diretora escolar.  Ao mesmo tempo, envolveu-se no nacionalismo radical do Partido Democrático da Costa do Marfim – Grupo Democrático Africano – PDCI-RDA e mobilizou mulheres na campanha em defesa da independência.

Em 1963 Jeanne uniu forças com a Primeira-Dama, Marie-Therese Houphounët-Boigny e outras mulheres, muitas delas também esposas de políticos,  para estabelecer e criar a Associação das Mulheres Costa-Marfinenses – AFI. Muitas delas eram da etnia akan e já participavam da ala feminina da Liga das mulheres para Defesa da Família Africana –  a nova organização que substituiu a ala feminina do PDCI-RDA, que ela presidiu por  muitos anos.

Em 1976, o governo da Costa do Marfim criou a Comissão Nacional da Promoção da Mulher e entregou a direção a ela. Este órgão foi a seguir transformado no Ministério das Mulheres, e Jeanne Gervais assumiu o cargo de Ministra (1977-1984).  Na pasta, ela enfatizou a expansão da educação e oportunidade de empregos para as mulheres, igualdade jurídica e reforma dos costumes arcaicos e leis que privavam as mulheres do controle de propriedades privadas e trabalho.

Apesar de seu empenho público, muito resta a ser feito para alterar as desigualdades de gênero na Costa do Marfim em matéria social e econômica, em matéria de acesso escolar para as meninas e ampliação da representação política: em 2005, apenas 8,5% dos cargos políticos eram ocupados por mulheres no país.

BIBLIOGRAFIA

D’EMMEVILLE, Annette Mbaye; BA, Mariama (Eds.). Femmes africaines: propos recuellis par Annette Mbaye d’Emeville sur les thèmes de femmes et société. Romorantin: Éditions Martinsart, 1982. 

DENZER, laray. “Jeanne Gervais”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 456-458.

TOUNGARA, Jeanne Maddox. Inventing the african Family: gender and family law reform in Côte-d’Ivoire, Journal of Social History, v. 28, n. 1, p. 37-61, 1994.


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Legenda: Jeanne Martin-Cissé | UN Photo / Yutaka Nagata

Fonte: United Nations Photo. Disponível em: https://dam.media.un.org/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Diplomatas Memorialistas

Jeanne Martin-Cissé (1926-2017)

Ativista anti-colonial e diplomata nascida na Guiné-Conacri, na cidade de Kankan. O pai trabalhava como escriturário no correio e sua mãe como parteira.

Em 1936 a mãe de Jeanne foi transferida para outra cidade como resultado por ter aconselhado uma francesa a realizar seu trabalho de parto em um hospital e o marido desta mulher, um oficial do exército, ter se indignado pois ela não teria o direito de dar ordens a uma paciente branca. Esse incidente foi o primeiro de tantos outros que a levaram a questionar a legitimidade do colonialismo. Assim que a Segunda Guerra mundial estourou em 1939, o governo colonial impôs medidas sobre a população que pareciam insuportáveis a estudantes como Cissé.

Estudou na École Normale d’Instrutrices (Escola Normal de Instrutoras), um internato de meninas advindas de várias colônias francesas na África, na cidade de Rufisque, no Senegal. Foi um começo difícil de se adaptar, para o desgosto de seu pai, mas logo ela obteve um certificado de professora em 1944. Três meses depois de se formar, uniu-se num casamento arranjado por seus pais com um inspetor policial de Kankan. Mudaram-se para a capital de Conakry e tiveram um filho. Seu marido morreu durante um acidente de trabalho. Após essa perda, Cissé começou a se interessar em dar suporte ao Rassemblement Démocratique Africaine – RDA (Ajuntamento Democratico Africano).

Em 1954 ela representou a Guiné no encontro da Federação Democrática Internacional das Mulheres (FDIF), em Paris. Lá conhece outras ativistas do mundo inteiro, o que a inspirou a recrutar mais mulheres para a RDA. No final dos anos 1950 ela se torna secretária geral da Union des Femmes du Senegal– UFS (União das Mulheres do Senegal) e viajou para China e União Soviética (1958). Cissé também ajudou a formar a Union des Femmes de l’Ouest Africaine – UFOA (União das Mulheres da África Ocidental), além de auxiliar em diversos programas de estímulo à educação de meninas quando esteve como Ministra da Educação.

Em julho de 1962, mulheres provenientes de todo o continente africano se reuniram em Dar-es-Salaam, na atual Tanzânia, para criar a Africa Women’s Union (União das Mulheres Africanas), organização pan-africana da qual Jeanne Martin-Cissé se tornou primeira Secretária Geral; até 1968, a organização tinha a sua sede na Guiné-Conacri e, sucessivamente, na Argélia e em Angola. Em 1974, durante o congresso, a AWU foi renominada para Pan-African Women’s Organization (Organização Pan-Africana das Mulheres).

BIBLIOGRAFIA

CISSÉ, Jeanne Martin. La fille du Milo. Paris: Presence Africaine, 2010.

RICH, Jeremy. “Jeanne Martin-Cissé”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 118-119.


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Legenda: Jeanne-Marie Ruth-Rolland

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Rolland.JPG. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Jeanne-Marie Ruth-Rolland (1937-1995)

Nascida com o nome de Jeanne-Marie Ruth em Bangassou, uma região predominantemente Nzakara no sudeste da colônia francesa de Ubangi-Shari – atual República Centro-Africana. Era filha de pai francês e mãe africana, e teve acesso à educação francesa disponível na região durante as últimas décadas de domínio colonial. Aos vinte e três anos tornou-se monitora do sistema educacional da colônia, e durante esse período casou-se com Jean Rolland, um francês que trabalhava no setor de moda, com quem teve cinco filhos.

Ruth-Rolland ingressou no serviço público da África Central como trabalhadora social e foi designada para o Ministério da Defesa Nacional (1969). Subiu de cargo e se tornou diretora dos serviços sociais da República Centro Africana. Em seguida tornou-se conselheira do primeiro-ministro em questões de mulheres e do Ministério da Saúde e Assuntos Sociais (1979).

Em 1980, tornou-se presidente da Cruz Vermelha, e tomou várias medidas para ajudar os pobres e as crianças de rua, que lhe valeram o apelido carinhoso de Omba Ruth (Tia Ruth). Enquanto ocupava o cargo, viu-se no centro de uma controvérsia política: para se defender das acusações de ter ganhado diamantes do ditador Bokassa em 1973, o presidente francês Giscard d’Estaing, afirmou que tinha vendido as gemas e doado o dinheiro para a Cruz Vermelha, mas Jeanne-Marie negou a história, e logo foi demitida pelo governo.

A partir de 1981 ela assumiu publicamente posição contrária o governo ditatorial do país, o que a levou à prisão por três anos em 1986, sob a acusação de incitar pessoas a desobedecer as determinações governamentais. Foi libertada em 1989 e presa novamente no mesmo ano, após recusar-se a sair do caminho de um séquito presidencial, sendo libertada em 1991.

Ela foi a primeira mulher da África Central a fundar um partido político, o Parti Républicain Centrafricain (Partido da República Centro-Africana), que presidiu durante alguns anos (1992-1995), e a primeira mulher africana a concorrer em uma eleição presidencial (1993).  

BIBLIOGRAFIA

BRADSHAW, Richard; FANDOS-RIOS, Juan. “Jeanne-Marie Ruth-Rolland”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 227-228.

TRIPP, Aili Mari. The new political activism in Africa.  Journal of Democracy, v. 12, n. 3, p. 141-155, 2001.


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Legenda: Josefina Fortes Chantre

Fonte: Nós genti Cabo Verde. Disponível em: https://nosgenti.com/josefina-chantre-o-contributo-das-mulheres-para-a-independencia/. Accesso em: 25 de Abril de 2021
Palavras-chave:

Josefina Fortes Chantre (1942)

Também conhecida pelo apelido de Zezinha Chantre, nasceu em 1942 na Ilha de Santo Antão, na atual República de Cabo Verde. Na infância, estudou ao Liceu nacional Gil Eanes de Mindelo, durante  o período de dominação portuguesa. No início os anos 1960, conseguiu uma bolsa de estudos do governo português para seguir um curso de Consultor Técnico de Serviço Social no Internato São Vicente de Paula, em Lisboa.

A seguir viveu um tempo em Cabo Verde e em 1963 viveu temporariamente em Luanda, Angola, na casa de um tio, quando atuou como Assistente Social por quatro anos junto ao Serviço Social de Luanda, antes de regressar ao Portugal para seguir um novo curso na Escola Superior do Serviço Social.

De volta à Lisboa,  envolveu-se junto com o companheiro, Joaquim Pereira de Carvalho (1944)   – um militante da FRELIMO que estudara na Universidade Técnica de Lisboa, nas lutas pela independência das colônias africanas. Ambos passaram pela Suécia e por Argel, e quando se separaram Zezinha juntou-se aos líderes do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), em Conacri.

Depois ter seguindo uma preparação militar, Zezinha Chantre recusou a nomeação de Amílcar Cabral para dar aulas, integrando-se ao secretariado pessoal do líder máximo da luta de libertação, tornando-se responsável pelo jornal Actualités, órgão de comunicação do PAIGC, que tinha por objetivo a difusão da luta armada e a divulgação das ações  do partido junto às comunidades. Em 1973 representou o PAIGC em Argel, viveu durante algum tempo na Guiné e em 1980 deixou este país para residir definitivamente na República de Cabo Verde.

Josefina Chantre foi uma das fundadoras da Organização das Mulheres de Cabo Verde – dedicando-se a iniciativas pela promoção social e econômica das mulheres e à luta pela igualdade de direitos.  Teve forte atuação junto à  Rede de Mulheres Parlamentares Cabo-Verdianas (RMP-CV) e preside a Renascença Africana – Associação das Mulheres da África Ocidental – RAMOA-CV.

Sugestão da biografia e redação inicial : Ferhat Méchouèk

BIBLIOGRAFIA

CHANTRE,  Josefina.”Penso que sou uma guerreira, uma mulher que viveu o seu tempo” (Entrevista). In: Santiago magazine, 2018. Disponível em: http://santiagomagazine.cv/entrevista/penso-que-sou-uma-guerreira-uma-mulher-que-viveu-o-seu-tempo

CHANTRE, Josefina.O contributo das mulheres para a independência (Entrevista). In: Nós genti Cabo Verde, n. 4, 2012, pp. 180-187. Disponível em: https://nosgenti.com/josefina-chantre-o-contributo-das-mulheres-para-a-independencia/ 

DJALÓ, Tcherno, Lições e legitimidade dos conflitos políticos na Guiné-Bissau.  Soronda: Revista de Estudos Guineenses, nova série, n. 2, 2012.

MÉCHOUÈK, Ferhat. Annuaire prosopographique. In: IDEM.  Socio-anthropologie des élites au pouvoir en Guinée-Bissau, de l’ère coloniale au système néo-patrimonial (1466-2019): l’impossible “classe dirigeante” ?. Thèse de doctorat (Université de Lille), Lille, 2020, pp. 367-368.

ROSEMARY, Galli; JONES, Jocelyn. Guinea-Bissau: Politics, economics and society. London: Lynne Rienner, 1987, pp. 96-97.  


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Legenda: Josephine Bakhita

Fonte: A Catholic Mom in Hawaii. 08 de fev. de 2011. Disponível em: http:// hicatholicmom.blogspot.com/2011/02/st- josephine-bakhita.html. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Josephine Bakhita (1869-1947)

Escravizada liberta e beata católica do Sudão.  Nasceu na região de Darfur, próximo à montanha Agilerei, ao nordeste de Nvala. Seu pai era um rico daju (negro muçulmano africano), que possuía uma numerosa criação de gado e uma fazenda cultivada por empregados.

Por volta de 1876, quando tinha cerca de sete anos, Bakhita, que significa “afortunada” e que não é o seu nome de nascimento, foi sequestrada por traficantes de escravos; após tentativa fracassada de escapar, foi comprada por um comerciante de al-Ubayyid, onde ela serviu de acompanhante das duas filhas dele. Foi a seguir vendida em 1879 a um oficial do exército otomano, que a levou para Cartum (1882). Nessa família, ela foi tratada brutalmente com chicotadas e com escoriações. Nos anos seguintes, foi adquirida pelo cônsul italiano, Callisto Legnani, e quando este foi forçado a deixar Cartum em 1884 ela implorou para que a levasse com ele. Levada pelo cônsul, ela foi entregue à família de Augusto Michieli, para ser cuidadora da filha pequena dele, e servir sua jovem esposa.

Em 1888, quando acompanhou a senhora ao Instituto de Catecúmenos, em Veneza, decidiu que não queria voltar para casa, e foi apoiada pelo cardeal patriarca de Veneza, o qual alegou que Bakhita era livre porque a escravidão havia acabado tanto no Sudão quanto na Itália. Assim, após seu batismo, ela foi aceita como noviça na casa das Filhas da Caridade de Canossa, virando freira em 1893. Transferida para o convento de Socio, passou a trabalhar como cozinheira (1902). Depois, durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), trabalhou na cozinha, na sacristia e como ajudante de enfermagem.

Desde 1910 começou a narrar sua história para a irmã Tereza Fabris, e fragmentos de sua vida foram publicados em 1919. Suas memórias pessoais, transmitidas em entrevistas, foram registradas em 1929 por Ida Zanolini na Vita Canossiana. Devido a sua situação de saúde, deixou de trabalhar no convento, passando a viajar, contar sua história e angariar doações humanitárias para o trabalho missionário, tendo inclusive participado de uma delegação com esta finalidade junto a Benito Mussolini e o Papa Pio XI (1935).

Lembrada como modelo de vida espiritual e chamada de La nostra madre morreta (Nossa mãe negra), por suas virtudes ela foi beatificada pelo Papa João Paulo II. Tomada como símbolo de perseverança e liberdade, sua história foi diversas vezes evocada como símbolo de transcendência em face das mazelas do seu passado e do fantasma sem rosto da escravidão.

BIBLIOGRAFIA

DAGNINO, Maria Luisa. Bakhita tells her story. Rome: Casa Generalizia, 1992.

ILLE, Enrico. “Josephine Bakhita”.  In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p.  359-360.  

TROUTT POWELL, Eve M. Sainted slave: Bhakita in the memories of southern sudanese”. In: FLUEHR-LOBAN, Carolin; RHODES, Kharyssa (Eds.).  Race and identity in the Nile Valley: ancient and modern perspectives. Trenton: Red Sea Press, 2004, pp. 159-169.

ZANINI, Roberto Italo (Ed). Giuseppina Bakhita. Il cuore ci martellava nel petto: il diario di una schiava divenuta santa. Turin: San Paolo, 2004.


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Legenda: Josephine Ouédrago

Fonte: Burkina24. Burkina : Bientôt des états généraux de la justice. 10 de dez. de 2014. Disponível em: https://www.burkina24.com/2014/12/10/burkina-bientot-des-etats-generaux-de-la-justice/. Acesso em: 21 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Organização econômica

Josephine Ouédrago (1949)

Josephine Ouédrago nasceu em koudougou, na então colônia francesa de Alto Volta, atual Burkina Faso. Seu pai foi membro no Parlamento francês como representante da África Ocidental Francesa, e sua mãe era analfabeta. Ela foi criada na tradição cultural dos povos Mossi, de onde descendia. Fez os primeiros estudos em Koudougou, e completou o curso secundário em Paris, no Institut de la Tour (1968). Em seguida aprofundou os estudos como assistente de desenvolvimento social e de Serviço Social, sendo diplomada em 1969. 

Participante de uma família da elite política da jovem república de Burkina Faso, Josephine teve participação direta em postos de decisão. Foi Ministra do Desenvolvimento Familiar e Solidariedade durante o governo de Thomas Sankara (1984-1987).  Neste momento, implementou políticas de emancipação e igualdade para as mulheres. 

Em 1987, com a queda de Sankara e a instalação do governo de Blaise Compaoré ela buscou exílio voluntário na República dos Camarões, onde se tornou consultora independente do Instituto Pan-Africano de Desenvolvimento (IPD), em Douala. Foi também Diretora do setor reservado às questões de Gênero e Desenvolvimento e, em seguida, Secretária Executiva Adjunta da Comissão Econômica para a África (ECA).

BIBLIOGRAFIA

RUPLEY, Lawrence; Bangali, Lamissa; Diamitani, Boureima. Historical dictionary of Burkina Faso. Lanham; Toronto;  Plymouth: Scarecrow Pres, 2013.

MURRAY, Amber. The revolution cannot triumph without the emancipation of women: a reflection on Sankara speech, 25 years later.  International Journal of Socialist Renewal, 2012: http://links.org.au/node/2969


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave: Apartheid sul-africano

Josie Palmer (1903-1979)

Seu nome de nascimento era Josie Mpama, nasceu em Potchefstroom e cresceu em Sophiatown, em Johanesburgo, na África do Sul.  Foi destacada ativista anti-Apartheid e liderança do Communist Party of South Africa – CPSA (Partido Comunista Sul Africano), tendo sido uma das primeiras militantes negras a atuar no partido e formar quadros, o que a levou a ser eleita secretária da seção de mulheres.

Seu ativismo começou em Potchefstroom (1928), em uma campanha contra a lei de segregação residencial (Residential Permits). Participou também da campanha salarial dos professores, e dos protestos contra o setor cervejeiro em Natal (1929), enquanto redigia artigos sobre tais lutas no jornal Umsebenzi. No período de 1925-1930 ela foi uma das organizadoras da campanha anti-passe. Sua atuação a tornou uma referência para a politização de outras mulheres e ajudou a aumentar a participação feminina nos atos contra as leis de passe.

Em 1935, estudou teoria revolucionária em Moscou, e afirmou sua liderança política e intelectual em congressos e conferências de mobilização contra a restrição da circulação de pessoas negras no país. Em 1947, foi eleita secretária da Transvaal All-Women’s Union (União de Mulheres do Transvaal) e em 1954 colaborou para fundação da Federation of South African Women – FSAW (Federação das Mulheres Sul-Africanas) – organização feminina multirracial.

Por sua atuação na organização da grande Marcha de mulheres até o Union Buildings em Pretoria, em 1956, que reuniu 20 mil mulheres contra a lei que forçava as pessoas negras levarem passes, Palmer recebeu ordem de banimento e algum tempo depois foi presa (1960).

Josie Palmer morreu atropelada por um carro enquanto esperava na fila para receber sua pensão mensal. Em 2004 o presidente Thabo Mbeki lhe concedeu uma premiação póstuma com a Medalha de Prata da Order de Luthuli em reconhecimento à sua atuação contra o regime do Apartheid e outras formas de discriminação.

BIBLIOGRAFIA

MILLER, Kim. “Josie Palmer”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 75-76.

WALKER, Cherryl. Women and Resistance in South Africa. Cape Town: David Phillips Publishers, 1991.

WELLS, Julia. We now demand! The History of women’s resistance to pass laws in South Africa. Johanesburgo: Witwaterstand University Press, 1993.


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Legenda: Josina Machel

Fonte: Mozambique History Net. Disponível em: http://www.mozambiquehistory.net/josina.php. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Josina Machel (1945)

Nascida com o nome de Josina Abiatar Muthemba na Província de Inhambane, no sul de Moçambique, durante o período de dominação colonial portuguesa. Seu avô era de formação protestante presbiteriana e seu pai trabalhada como enfermeiro e se opunha ao regime colonial.

Aos sete anos ela ingressou na escola primária Dom João de Castro, em Mocímbola da Praia, um estabelecimento reservado para crianças portuguesas ou filhos(as) de africanos(as) assimilados(as). Depois passou pela escola Mouzinho de Albuquerque, em Xai-Xai, e terminou o estudo na então cidade de Lourenço Marques, atual Maputo.  Em 1958, na escola comercial para secundaristas Dr. Azevedo e Silva ela ingressou na resistência, fugindo de Moçambique em 1964.

Ingressou nas fileiras da Frente de Libertação de Moçambique – FRELIMO, então sediada na Tanzânia, envolvendo-se em atividades ou buscando refúgio na Zâmbia e depois na Suazilândia, quando tinha cerca de 20 anos. Ela atuou em atividades de formação para estudantes moçambicanos na Tanzânia, onde estabeleceu relações com Janet Mondlane, a esposa do presidente da FRELIMO, Eduardo Mondlane.

No final dos anos 1960, rejeita a proposta de uma bolsa de estudos na Suiça e se voluntaria para o recém-criado destacamento de mulheres da FRELIMO, criado por Samora Machel em 1967, passando por formação política e militar para a luta de libertação nacional em Nachingwea. Em 1968 trabalha na defesa e organização de populações de áreas libertadas.

Em 1968 torna-se delegada do Segundo Congresso da FRELIMO, e reivindica a inclusão total de mulheres em todos os aspectos da luta de libertação. Assume a de chefia da Seção de Mulheres no Departamento de Relações Internacionais do movimento e o Departamento de Assuntos sociais. Em 1969, aos vinte e quatro anos, casa-se com Samora Machel, com quem teve um filho, mas no ano seguinte é diagnosticada como portadora de um câncer no fígado que a levou à morte com apenas vinte e seis anos de idade. 

Após a independência de Moçambique, o governo da Frelimo declarou a data de 07 de abril, o dia da morte de Josina, como o Dia Nacional da Mulher em Moçambique, e reconheceu a Organização Nacional das Mulheres Moçambicanas como o braço social e político do movimento para as mulheres. É lembrada como heroína da Luta de Libertação Nacional, sendo homenageada em monumentos, logradouros e estabelecimentos públicos.

BIBLIOGRAFIA

MATUSSE, Renato; MALIQUE; Josina Malique.  Josina Machel: ícone da emancipação da mulher moçambicana  (Coleccao Embondeiro 29). Maputo, 2008.

CAGLIARI, Maiara Cemin. Gênero e revolução: mobilização de mulheres na Frente de Libertação Nacional de Moçambique (1962-1975). Dissertação (Trabalho de Conclusão de Curso – História), Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2017.

FREDERIKSEN, Frances. “Josina Machel”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 15-16.

SANTOS, Armanda Carneiro. Lute como uma mulher: Josina Machel e o movimento de libertação nacional em Moçambique. Tese (doutorado em história), FFLCH-USP, 2018


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Legenda: Joyce Mansour

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/ File:Photo_of_Joyce_Mansour.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Poetisas

Joyce Mansour (1928-1986)

Poetisa surrealista e escritora francófona, nasceu Joyce Patricia Adés em Bowden, na Inglaterra, de pais judeu-egípcios. Foi criada no Cairo e educada na Inglaterra e Suíça. Em 1947 passou pela experiência trágica da morte de seu primeiro marido, sendo que em 1949 se casou com Samir Mansour e mudou-se para Paris, onde passou a maior parte de sua vida.

Em Paris, começa a escrever em francês e passa a integrar o movimento surrealista. Seu primeiro volume de poesias publicado, intitulado Cris (Gritos) (1953), que explora extensivamente a antiga mitologia egípcia foi considerado escandaloso por muitos, devido à sua inédita abordagem da sexualidade feminina. Por volta dos anos 1950, Joyce Mansour já era uma figura central entre os Surrealistas, contribuindo para publicações do grupo e mantendo um salão literário em seu apartamento, o qual recebeu vários eventos.

Em todas as poesias e obras de ficção de Mansour, seu inconformismo e rebeldia ao status quo são primordiais. Sua poesia é inovadora e contém um erotismo único nada convencional para os anos 1950, antes de aparecerem os primeiros escritos feministas na década de 1960. Como uma Surrealista e mestiça, suas obras contém várias alusões aos mitos e rituais do antigo Egito.

Ela seguiu contribuindo com o movimento Surrealista internacional mesmo depois da separação dos surrealistas franceses. Seus versos e obras em prosa serviram de inspiração para ilustrações da maioria dos artistas plásticos surrealistas.

BIBLIOGRAFIA

DE JULIO, Maryann. Joyce Mansour and egyptian mythology. In: CAWS, Mary Ann; KUENZLI, Rudolf; RAABERG, Gwen (Ed.). Surrealism and woman. Iowa: University of Iowa, 1990, p. 114-122.

MANSOUR, Marie Francine. Joyce Mansour, complice d’André Breton. Paris: France-Empire, 2014.

MATtHEWS, J. H.. Joyce Mansour. Amsterdam: Rodolpi, 1985.

NASSER, Tahia Abdel. “Joyce Mansour”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 88-89.


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Legenda: Joyce Nhongo Mujuru | Foto: Richter Frank-Jurgen

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/ File:Joice_Mujuru_at_Horasis_Global_Arab_Business_Meeting_2012_crop.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Corrupção

Joyce Nhongo Mujuru (1955)

Política zimbabuense, nasceu em uma família camponesa, em Monte Darwin, em uma comunidade de língua zezeru, do grupo étnico Xona.  

Quando tinha dezoito anos, juntou-se primeiro à Luta de Libertação Nacional moçambicana, quando assumiu o nome de guerra de Teirai Ropa (Sangue Derramado). É celebrada e lembrada por sua pontaria que lhe permitiu, sozinha, derrubar um helicóptero da Força Aérea da Rodésia em 1974. Tornou-se uma general no Zimbabwe African National Liberation  Army – ZANLA (Exército de Libertação Nacional Africano do Zimbabué), e foi secretária para os assuntos das mulheres da Zimbabwe African National Union – ZANU  (União Nacional Africana do Zimbábue ).  Em 1977 Joyce se casou com Solomon Mujuru, então vice-comandante em chefe do ZANLA, com quem teve quatro filhas.

Após a independência do Zimbabwe Mujuru se tornou a ministra de gabinete governamental mais jovem, na pasta de esportes, juventude e recreação. Durante esse período, completou a educação secundária. Ela foi depois apontada pelo presidente Robert Mugabe como vice-presidenta.

Sua carreira, todavia, tem sido marcada por uma série de controvérsias. Quando o governo estabeleceu o Fundo de Compensação de Vítimas da Guerra (WVCF), a corrupção e a ganância da elite resultaram em grandes pagamentos para doenças menores, comparadas às vítimas com deficiência física. Joyce Mujuru foi uma das maiores beneficiárias do fundo. O esquema é identificado como umas das faíscas do colapso econômico de Zimbábue.

BIBLIOGRAFIA

CHIKUHWA, Joseph. A crisis of governance: Zimbabwe. Nova Iorque: Algora Publishing, 2004.

GRANT, Miriam. “Joyce Nhongo Mujuru”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 315-316.

HILL, Geoff. The battle for Zimbabwe – the final countdown. Cape Town: Zebra Press, 2003.

NHONGO-SIMBANEGAVI, Josephine. For better or worse? Women and ZANLA In Zimbabwe’s Liberation Struggle . Harare: Weaver Press, 2000.


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Legenda: Joyce Nomafa Sikakane

Fonte: Nelson Mandela Foundation. Disponível em: https://www.nelsonmandela.org/ news/entry/the-lost-letter. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Joyce Nomafa Sikakane (1943)

Jornalista, ativista anti-apartheid, escritora e produtora de filmes, nasceu no distrito de Soweto. Filha do acadêmico Jonathan Mandlenkosi Sikakane, co-autor do primeiro dicionário inglês-zulu (1972), filho do proeminente membro fundador do Congresso Nacional Africano (ANC) e ex-ministro negro da Igreja Luterana da África do Sul, o reverendo Absolum Mbulawa. Sua mãe, Amelia Nxumalo, professora e costureira, era descendente da realeza Suazi pelo seu lado materno.

Na tentativa de protegê-la do currículo degradante e racista imposto pelo Estado, institucionalizado pela Lei de Educação Bantu, Joyce foi enviada para escolas particulares e católicas. Após sua graduação da escola secundária em 1963, ela recusou-se a participar de um dos tribunais tribais segregados e, com o incentivo de seu professor, decidiu seguir carreira no jornalismo.

Seu primeiro cargo foi como repórter do jornal The World, de Johanesburgo, que era dirigido ao público urbano. Ela foi encorajada a escrever histórias que relatassem os crimes e o caos de Soweto, sem discutir questões políticas, raciais e econômicas. Após dois anos, frustrada com as limitações do jornal, ela se aproximou do editor de um jornal mais liberal e político, o Rand Daily Mail.

Tendo iniciado a carreira como repórter eventual (freelance), ela foi a primeira mulher africana a trabalhar no South African Associated Newspaper Group. Construiu sólida reputação profissional ao escrever histórias sobre a realocação forçada de comunidades negras e de pessoas de cor sob as leis de “reassentamento” do governo do Apartheid. Seu envolvimento direto no partido African National Congress – ANC (Congresso Nacional Africano), com divulgação de material de divulgação em nome das famílias de presos políticos levou a que ela própria fosse presa em 1969 junto com Winnie Mandela e outros ativistas, e enviada para a Prisão Central de Pretória, onde permaneceu durante nove meses, e mantida sob vigilância do regime a partir de 1970. Advertida de que ela e outros ativistas corriam perigo ela deixou a África do Sul em 1973 e se casou com o escocês Kenneth Rankin, de quem tinha um filho nascido em 1966, e com quem teve mais quatro.

Em 1977 ela publicou o livro Window on Soweto (Janela em Soweto), que combina memórias, historiografia urbana e análise sociológica. A obra foi proibida na África do Sul, e o dinheiro arrecadado pela sua venda foi empregado na ajuda aos presos políticos sul-africanos. Nela Joyce Sikakane apresenta um dos mais importantes registros do levante estudantil e do subsequente massacre de Soweto em 1976.

No exílio, passou pela Zâmbia, Botswana, Suazilândia, Moçambique, Zimbábue, Alemanha, Inglaterra e Escócia, em seu ativismo junto ao ANC. Ela trabalhou como jornalista, pesquisadora, escritora, e se envolveu em radiodifusão e cinema. Foi produtora assistente em Samora Machel: Son of Africa (Samora Machel: o filho da África) (1987), assessora técnica do filme World Apart (Mundo distante) (1988), produtora de Zimbahwe: the new struggle (Zimbabwe: a nova luta) (1990).

Com o fim do Apartheid, Joyce e sua família retornaram à África do Sul (1995) e algum tempo depois ela testemunhou perante a Comissão da Verdade e Reconciliação (1997), como parte de uma audiência especial sobre mulheres. Ela voltou a trabalhar no campo das comunicações como editora de notícias de rádio e televisão para a South Africa Broadcasting Company, e como produtora de cinema, tendo a sua trajetória reconhecida e homenageada com prêmios como Lifetime Achievement Award da Vodacom (2007).

BIBLIOGRAFIA

DRIVER, Dorothy. Joyce Sikakane, working on the mail.  In:  Daymond, M. J. (Ed.).  Women writing Africa: the Southern Region. Nova Iorque: The Feminist Press at City University of New York, 2003, p. 348-353.

HOUSTON, Gregory; Magubane, Bernard. The ANC political underground in the 1970s. In: Magubane, Bernard (Ed.). The road to democracy in South Africa, v. 2, 1970-1980. Cape Town: Zebra Press, 2004, p. 371-451.

IMMA, Z’Etoile. “Joyce Nomafa Sikakane”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 379-380.


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Legenda: Joyce Rovincer Mpanga

Fonte: ASIIMWE, Jacqueline. 04 de dez. 2019. Twitter: @asiimwe4justice. Disponível em:https://twitter.com/asiimwe4justice/status/1202317781972267010/photo/3. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Joyce Rovincer Mpanga (1934)

Nascida como Joyce Masembe, na cidade de Mityana, em Uganda. Pertence a uma família aristocrática vinculada ao antigo reino de Baganda.  Frequentou a Gayaza High School (1947-1952), formou-se na Faculdade de Makerere (1953-1958), e cursou bacharelado em Artes na Universidade de Londres (1958) e Mestrado em Ciências em Educação na Universidade de Indiana (1962).

Aos trinta e dois anos ela se casou com Andrew Frederick Mpanga, um membro da aristocracia ugandense, conselheiro do rei Mutesa II, o derradeiro rei de Buganda e o primeiro chefe de Estado de Uganda. Esta proximidade com a monarquia teve influência direta sobre a vida de Joyce em 1966, momento em que eclodiu um conflito armado entre os partidários de Mutesa II e do Primeiro Ministro Milton Obote, quando ela e o marido se exilaram na Inglaterra, onde viveram durante seus anos.  Do casamento com Andrew ela teve duas filhas.

No retorno a Uganda, atuou como professora e como administradora escolar na década de 1970, com participação no National Service Comission (Comissão Nacional de Serviços) (1979-1988). Sua notoriedade aumentou em 1988, quando ela se tornou a primeira Ministra das Mulheres em Desenvolvimento de Uganda, sendo depois sucedida por Gertrude Byekwaso.  No ano seguinte foi nomeada Ministra de Estado para o Ensino Primário (1989-1992), vindo igualmente a participar como membro no Parlamento pelo Distrito de Mubende (1996-2001). Nesta posição, contribuiu para a reformulação da Constituição de Uganda (1995).

Por sua trajetória, ela tem sido considerada uma das mulheres mais influentes do país, com intensa representação dos interesses das mulheres em diversas entidades representativas vinculadas a entidades cristãs, educacionais e assistenciais. Presidiu o National Council  for Women (Conselho Nacional para as Mulheres) (1986-1988), e  representou as mulheres no Parlamento de Buganda  em 2011.

BIBLIOGRAFIA

TRIPP, Aili. Women and politics in Uganda. Madison: University os Wisconsin Press, 2000.

TRIPP, Aili. “Joyce Rovincer Mpanga”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 270-271.


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Legenda: Judith Todd

Fonte: Goodreads. Disponível em: https://www.goodreads.com/author/show/ 14991.Judith_Todd. Acesso em: 15 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Memorialistas

Judith Todd (1943)

Líder política, nacionalista e autora zimbabuense. Nasceu na Missão Dadaya, durante o período da dominação colonial britânica na então Rodésia do Sul, atual República do Zimbabwe. Seu pai, Garfield Todd, foi governador colonial no período de 1953-1958, e sua mãe, Jean Gac Todd, projetou e implementou o sistema educacional africano na Rodésia.

Na década de 1960, começou a participar de protestos políticos. Juntou-se ao movimento do nacionalismo negro da Rodésia, filiando-se ao National Democratic Party – NDP (Partido Nacional Democrático). Quando o regime de Ian Smith baniu este partido, ela se juntou ao Zimbabwe African People’s Union – ZAPU (União do Povo Africano do Zimbábue), e quando este foi banido, juntou-se  ao People’s Cartaker Council – PCC (Conselho do Povo Cartaker) e ajudou a organizar os estudantes da University College of Rhodesia (Colégio Universitário da Rodésia).

No processo de libertação colonial,  ela foi uma das mais fervorosas opositoras do governo de minoria branca, o que a levou em 1964 a ser presa e condenada por liderar uma manifestação em frente ao Parlamento. Alguns anos mais tarde publicou o seu primeiro livro, An act of treason: Rhodesia 1965, a survey of the background of the Unilateral Declaration of Independance (Um ato de traição: Rodésia 1965, um levantamento dos antecedentes da Declaração Unilateral de Independência) (1966).

O governo de Ian Smith mandou prendê-la novamente em 1972 sob a acusação de ameaça à segurança e ordem pública. Foi confinada em uma prisão de homens negros, onde fez greve de fome. O governo, após repercussão internacional, a transferiu para a Prisão de Chikurubi, um estabelecimento prisional destinado a mulheres brancas em Harare, e ao ser libertada foi expulsa do país. No exílio em Londres ela escreveu o seu segundo livro: The right to say no (O direito de dizer não) (1972), e em 1978 foi trabalhar para o Zimbabwe Project Trust – uma Organização Não Governamental que oferecia suporte e apoio a refugiados, com sede na Zâmbia e em Moçambique;

Em abril de 1980, após a queda de Smith, o Zimbábue se tornou uma nação independente e Robert Mugabe assumiu o cargo de Primeiro-Ministro. Judih pode voltar para casa depois de quase oito anos de exílio e deu continuidade ao trabalho do Zimbabwe Project Trust. Teve a oportunidade de concorrer ao parlamento, em franca oposição ao ZANU-PF, o partido governo, e logo caiu em desgraça junto ao regime por denunciar esquemas de corrupção e favorecimentos no jornal Daily News, que ela fundou em 1999.  

Suas ideias, memórias e opiniões sobre o país que ela ajudou a criar estão registradas em seu último livro Through the darkness: a life in Zimbabwe (Através da escuridão: uma vida no Zimbábue) (2007). A obra foi escrita na África do Sul, onde ela passou a residir depois de ter perdido a cidadania por uma determinação do governo de Mugabe em 2003.

BIBLIOGRAFIA

CHENNELS, Anthony. The authority of presence: reading Judith Todd’s Through the darkness as a diary. Journal of Literary Studies, v. 25, n. 1, p. 98- 115, 2009.

CHUNG, Fay. Re-living the second Chimurenga: memories from Zimbabwe’s  Liberation Struggle. Harare: Weaver Press, 2006.

ZUKAS, Lorna Lueker. “Judith Todd”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 36-37.


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Legenda: Mulher do povo Peul (1853)

Fonte: The New York Public Library. Disponível em: https://digitalcollections.nypl.org/items/510d47df-79f5-a3d9-e040-e00a18064a99. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Kadidja (século XX)

Nascida em data incerta no século XIX na região do Planalto de Bandiagara, na atual República do Mali, pertencia a uma distinta linhagem de origem étnica fula (fulani, peul). Seu pai, Paté Poullo, era administrador do rebanho de gado dos antigos governantes do Reino de Maciná, e sua mãe, Anta N’Diobdi, era bem conhecida e respeitada na comunidade. Na infância, foi entregue a um guia espiritual para aprender os conhecimentos corânicos e os elementos das tradições ancestrais dos fulas e tucolores.

Quando tinha cerca de quinze anos foi entregue pela família ao seu primeiro marido, Hampaté, provavelmente na década de 1890, e com ele teve três crianças, uma das quais faleceu quando tinha seis meses e outra morreu aos quinze anos. Por volta de 1903 o casal se separou, e logo ele morreu. Kadidja aceitou ser a terceira esposa de um outro pretendente, Tidjani Amadou Ali Thiam, que era líder do clã tucolor na Província de Luta, no atual Burkina Fasso.  Viveu com ele até o fim da vida, com quem teve seis filhos.

Sua história pessoal e familiar se confunde com o período de efetivação da conquista colonial francesa em Bandiagara, onde as tropas foram chefiadas pelo coronel Archinard (1893-1897). Embora as antigas chefias locais não tenham sido eliminadas, a autoridade francesa era mantida em última instância, sendo imposta pelas armas e pela colaboração de exércitos recrutados localmente.

Por volta de 1902-1903, uma disputa entre os povos Tucolores e os Samos  por causa da recusa no pagamento de impostos levou ao aprisionamento de Tidjani Thiam em um posto militar de Bougouni, situado a 700 km de Bandiagara. Nesta ocasião, Kadidja, que dispunha de considerável herança familiar em dinheiro, jóias  e em cabeças de gado, empenhou os bens, o tempo e os contatos pessoais para garantir a sobrevivência do marido na prisão. Na qualidade de líder de uma waaldé, isto é, uma associação de mulheres de sua faixa etária, valeu-se desta rede de comunicação para localizar e se aproximar de Tidjani Thiam e lhe oferecer alguma segurança durante os três anos que passou  na prisão, visitando-o regularmente, com entrada livre na prisão, até a libertação dele em 1908.

Ela foi a única das esposas a oferecer apoio e sustentação ao marido em um momento difícil, mas devido às intrigas no interior da família de Tidjani, o casal renunciou à sua condição de nobreza, passando a viver uma relação monogâmica, e de seu próprio trabalho: ela, como próspera comerciante de artigos e artefatos de consumo  diário (balas, fósforos, açúcar, biscoitos, licor, vinho e tabaco) e ele como marabu (sacerdote)  e alfaiate-bordador. Ambos se fixaram na cidade de Kati. 

Kadidja vivia bem com o marido quando em 1915 recebeu a visita de seu filho do primeiro casamento, Amadou Hampaté Bâ, então com quinze anos, e foi ele quem deixou o registro de sua história no primeiro livro de sua autobiografia. A admiração e profundo respeito por ela, compartilhados pela cultura de seu povo, transparece em toda a narrativa de sua vida e seus feitos, e podem ser sintetizadas no provérbio malinês,  segundo o qual “Tudo o que somos e tudo o que temos devemos somente uma vez a nosso pai, mas duas vezes a nossa mãe”.

BIBLIOGRAFIA

BÂ, Amadou Hampaté. Amkoullel, o menino fula. São Paulo: Palas Athena; Casa das Áfricas, 2003.

CHARTIER, Anne-Marie. L’enfance d’Hampâté Bâ, de l’école coranique à l’école des colons.  Strenæ , n. 3, 2012:  http://journals.openedition.org/strenae/543  

STÄDTLER, Katharina. Tout ce que nous sommes et tout ce que nous avons: la représentation de la mère chez Amadou Hampâte Bâ.  Francofonía, n. 11, p. 143-158, 2002: https://www.redalyc.org/pdf/295/29501111.pdf


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Legenda: Mulher judia da Argélia (1888)

Fonte: Lowcountry Digital Library, College of Charleston Libraries. Disponível em: https://lcdl.library.cofc.edu/lcdl/catalog/lcdl:66265. Acesso em: 21 de jan. de 2021.
Palavras-chave: Líderes religiosas

Kahina (século VII)

Legendária princesa e profetisa berbere. Também aparece por vezes referenciada com o nome de Dahiyya. O termo Kahina, de al-Kahin, significa “a vidente”. Pertencia à uma tribo, provavelmente de grupos judaicos, de Jerwa, que era um dos ramos dos povos Zanatas que viviam nas proximidades dos Montes Aurès, ao Norte da atual Argélia.

Ela se distinguiu ao assumir a liderança na resistência das tribos berberes contra as tropas árabes, que, sob a liderança de Hassan Ibn Nu’man al Ghassani, governador omíada de al-Qayrawan, forçaram os bizantinos a sair de Cartago em 698.

 Sob o seu comando, ela infligiu uma derrota pesada aos árabes, forçando-os a recuar para além das fronteiras das atuais Tunísia e Líbia. Pouco depois, todavia, o califa omíada Abd al-Malik reforçou as tropas árabes, e estes alcançaram vitória decisiva perto da antiga cidade portuária de Tabarqa. Al-Kahina foi perseguida nas montanhas e foi morta  no ano de 702 perto de um poço chamado atualmente de Bir al-Kahina (o “Poço de Kahina”).

 Por seu protagonismo, ela é considerada heroína nacional na Argélia, símbolo da resistência bérbere, e no século XX personifica a liderança feminina, sendo tomada como referência e inspiração para diversas autoras magrebinas, como Jurquet Bouhoune e Nahla Zéraoui.

BIBLIOGRAFIA

FROMHERZ, Allen. “Kahina”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 270-271.

HANNOUN, Abdelmajid. Historiographie et légende au Magreb: la Kahina ou la production d’une mémoire. Annales ESC, v. 54, n. 3,  p. 667-686, 1999

HSAIN, Ilahiane. Historical dictionary of the berbers. Lanham; Maryland; Toronto; Oxford: Scarecrow Press, 2006.

 SILVEIRA, Joselma Helena Serpa da. Kahina: uma rainha berbere do século VII vista por escritoras magrebinas contemporâneas. Trabalho de Conclusão de Curso (História), Departamento de História, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2017.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave: Direitos Humanos

Kaltouma Nguembang (século XX)

Ativista política do Chade. Existem poucos relatos acerca de sua vida, devido à ínfima participação das mulheres na política do Chade, de forma que detalhes de sua vida pessoal são muito escassos. Sabe-se que ela nasceu no início do séc. XX, e que era prima do oficial militar Félix Malloum, futuro presidente do Chade entre 1975 e 1978.

Os poucos relatos de sua vida são fruto dos relatórios oficiais do colonialismo francês. Segundo estes relatórios, ela foi uma ativista política ligada ao Partido Progressista Chadiano – PPT. O propósito principal deste partido era promover os direitos de todos os cidadãos do Chade, buscando colocá-los em nível de igualdade com os cidadãos franceses.

Nguembang lutou junto ao PPT para disseminar as idéias de liberdade e igualdade para os cidadãos do Chade e da África, além de defender os direitos do povo Sara (do sul do país) contra a discriminação dos Muçulmanos no norte do país, e trabalhou ardentemente contra as campanhas do plantio compulsório do algodão.  Por seu trabalho, Nguembang tornou-se a líder da seção feminina do partido no sul da colônia. Nesta condição ela visitou a França e os Estados Unidos.  Em 1968, ela era a única mulher com assento na Assembléia Nacional. Casou-se com o deputado do PPT Tahir Abdeldjelil, membro da família real do sultanato do Wadai.

Foi acusada pelo ditador Tombalbaye de traição; a acusação envolvia supostas práticas de bruxaria contra a pessoa do ditador, o que causou sua demissão de todas as funções no PPT, além de ser levada a julgamento. Na realidade, a campanha em defesa dos direitos dos estudantes, defendida por Nguembang parece ter sido a razão da fúria do ditador. Em 1973, ela foi condenada a sete anos de trabalhos forçados; ela permaneceria na prisão até a deposição de Tombalbaye em 1975. Possivelmente devido às torturas que sofreu no cárcere, ela abandonou a política assim que foi libertada, tendo se exilado na Nigéria, onde faleceu.

BIBLIOGRAFIA

LANNE, Bernard. Histoire Politique du Tchad de 1945 à 1958: administration, partis, elections. Paris: Karthala, 1998.

RICH, Jeremy. “ Kaltouma Nguembang”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 460-461.

TUBIANA, Marie-José. Parcours de femmes: Les nouvelles elites. Entretiens 1997-2003.Paris: Éditions Sepia, 2004.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave:

Kambasa (século XVII)

Também identificada na literatura inglesa pelos nomes Karibasa ou kambassa. Nasceu no reino de Bonny, comunidade situada no golfo de Biafra (ou Golfo de Bonny), ao sul do Delta do Níger, na atual Nigéria. Os governantes deste reino do povo  Andoni (Ubani, Ibani, Obolo) se interessaram desde muito cedo pelo rentável comércio de canoas no litoral do Golfo da Guiné.

Na história dos contatos com os europeus, coube ao rei Asimini, que governou Andoni no início do século XVII, o estabelecimento de contato com negociantes e oficiais ingleses estabelecidos nos fortes construídos no litoral. Ele deu origem à linhagem governante, e sua neta, Kambasa foi a sua sucessora provavelmente no último quartel do século XVII.

Considerada a primeira rainha da região do Delta do Níger, Kambasa soube utilizar em seu benefício as estruturas criadas pelo avô e pelo pai, ela obteve bons resultados em negociações com chefaturas vizinhas de Ndoki. Ela tinha sido prometida a Opoli de Azuogu, o sucessor dos Ndokis, mas ao ascender ao poder não cumpriu o que tinha sido antes combinado pelo pai, mantendo relações com um amante chamado Biriye.

Como rainha, criou uma guarda palaciana e estimulou o artesanado. Ela ficou associada ao deus da guerra Ikuba.  Ela lançou uma guerra bem-sucedida contra os vizinhos  Ogoni pelo controle do fornecimento local de escravos capturados no interior.

BIBLIOGRAFIA

AWORTU, B. E.; MICHAEL, B. T.. Politics in pre-colonial Niger Delta: reflections on the role and contributions of women. Kiu: Journal of Humanities, Kampala, v. 4, n. 4, 2019: http://ijhumas.com/ojs/index.php/kiuhums/article/view/640

ENEMUGWEM, J. H; Sara, R. B.. Obolo (Andoni) women in overseas trade and traditional politics, 1400-1800. African Research Review: an international multi-disciplinary journal, Ethiopia,   v. 3, n. 2, p. 148-161, 2009: https://www.ajol.info/index.php/afrrev/article/download/43616/27138


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Legenda: Mulher do povo Herero (1855)

Fonte: ResearchGates. Disponível em: https://www.researchgate.net/figure/A-Herero- Woman-from-Berichte-der-Rhenischen- Missionsgesellschaf-Rhenish- Missionary_fig4_30960653. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Chefia tradicional

Kanuni (c. 1900-1992)

Hompa (rainha) do povo Kwangali, na então região do Okavango, na Namíbia. Nasceu provavelmente na virada do século XX. Muito pouco é conhecido sobre seu passado, exceto que ela integrava o clã real Kwangali.

Ela chegou ao poder em 1923, quando tornou-se regente em substituição à hompa anterior, Kandjimi, que era sua irmã, e reinou no lugar do novo hompa, Mbuna, que ainda era muito jovem, e depois morreu em um acidente no inverno de 1926, antes que pudesse reinar. Com isso, ela assumiu a liderança completa, governando em seu próprio nome até 1941, quando foi substituída pelo sucessor legitimo, Sivute. Voltou a governar em 1958, quando este foi derrubado do governo, permanecendo como governanta por mais quatorze anos, até 1972.

Kanuni foi a única governanta na história do nordeste da Namíbia durante o século XX, e uma das duas únicas governantas que detiveram a posição suprema como hompa, apesar dos esforços da administração colonial para masculinizar a “liderança tradicional”.

BIBLIOGRAFIA

BECKER, Heike. ’New after independence’: gender and traditional authorities in postcolonial Namibia.” Journal of Southern African Studies, v. 32, n. 1, p.  29-48, 2006.

BECKER, Heike. “Kanuni”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 292-293.

PATEMANN, Helgard. Kanuni. Frau na die macht. In:  MBUMBA, N. Patermann, H.; Katjivena, U. (Eds).  Ein land, eine zukunft. Namibia auf dem weg in die unabhängigkeit. Wuppertal: Peter Hammer, 1988, p. 39-56.


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Legenda: Reprodução de inscrição sobre Karimala

Fonte: DARNELL, John Coleman. Yale Egyptological Studies 7: The Inscription of Queen Katimala at Semna. EUA. Yale Egyptological Studies. 2006. p.108.
Palavras-chave:

Karimala

Também referenciada como Kadimalo ou Katimala, foi uma rainha identificada em uma inscrição feita no templo de Dedwen, em Semna, na altura da segunda catarata do Nilo. O nome poderia indicar uma origem líbia. Embora a datação do registro seja difícil de especificar, parece remontar ao período da 21ª ou 20ª dinastia faraônica, cerca de 1.000-750 a.C., quando Napata despontava como estado proeminente na fronteira sul do Egito.

Karimala é apresentada na inscrição com as características das “grandes esposas dos reis”. Na imagem, ela aparece com uma coroa de penas duplas, segurando nas mãos a insígnia real e portando uma túnica longa. À sua frente, à direita, e de pé, está a deusa Isis, para quem ela olha.

BIBLIOGRAFIA

BALDI, Marco. Isis in Kush, a nubian soul for an egyptian goddess. Journal of Intercultural and Interdisciplinary Archaeology, 2015. Disponível em: https://journals.ub.uni-heidelberg.de/index.php/jiia/article/download/29455/23124

DARNELL, John Coleman. Inscription of Queen Katimala Semma PB: textual evidence for the origins of the napatan state. Yale: Yale Egyptologica l Seminar, 2006.


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Legenda: Relevo retratando a rainha Kawit recebendo cuidados

Fonte: Flickr: Egypt Museum. 18 de jul. de 2019. Disponível em: https://flic.kr/p/2gBiFx6. Acesso em 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Kawit (século XXI a.C.)

Rainha consorte da 11ª dinastia, era uma das esposas do faraó Mentuhotep II, que reinou no período de 2061-2010 a.C. Os dados sobre sua existência encontram-se no túmulo e na pequena capela a ela dedicada na parte dos fundos do complexo funerário do faraó, em Deir el-Bahri, na margem oeste de Tebas.

O túmulo de Kawit foi construído junto com os de outras prováveis cinco esposas-reais: Ashayet, Henhenet, Kemsit, Sadeh e Mayet. Apenas ela e mais duas parecem ter ocupado a posição de rainhas, enquanto as demais parecem ter sido apenas sacerdotisas da deusa Hathor.

Kawit aparece nos monumentos funerários de Mentuhotep II por vezes associada a divindades, ou diante da rainha Kemsit. Ela ostenta o título de “Esposa amada do rei”, “Ornamento do rei” e “Sacerdotisa de Hathor”.   

Em seu próprio sarcófago de pedra que se encontra no Museu Egípcio do Cairo, uma cena pouco usual chama a atenção dos(as) pesquisadores(as) e parece indicar que sua origem fosse núbia. No relevo, ela aparece sentada, segurando em uma das mãos uma vasilha e na outra um espelho, enquanto duas serviçais pessoais arrumam o seu cabelo e lhe servem bebida. O tamanho curto de seu penteado poderia, segundo alguns, sugerir que tivesse uma origem núbia.

BIBLIOGRAFIA

GRAJETZKI, Wolfram. Ancient egyptian queens: a hieroglyphic dictionary. Londres: Golden House Publications, 2005.

ARNOLD, Dieter. Relief of wives of Nebhepetre Mentuhotep II. In: Oppenheim, Adela et al (eds.). Ancient Egypt transformed. The Middle Kingdom. Nova Iorque: The Metropolitan Museum of Art, 2015.


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Legenda: Ken Bugul | Foto: Carlos Otero

Fonte: Flickr: Festival de Cine Africano - FCAT. 04 de mai. de 2006. Disponível em: https://flic.kr/p/ ds2mp. Acesso em: 21 de dez. de 2020.

Ken Bugul (1947)

Pseudônimo utilizado pela romancista senegalesa Mariètou Mbaye Biléoma, que na língua wolof significa “alguém não desejado”. Nasceu em Ndoucoumane, foi criada em ambiente polígamo, de um pai que era um marabu de 85 anos. Depois de concluir o ensino fundamental em sua aldeia natal, ela estudou na Escola Secundária Malick Sy, em Thiès, em Dakar, obteve uma bolsa de estudos que lhe permitiu continuar os estudos na Bélgica na década de 1970. 

Em 1980, quando voltou ao país, foi uma das vinte e oito esposas do marabu de sua comunidade, e depois da morte dele ela se estabeleceu em Dakar, a partir de onde  se envolveu em trabalhos para a Federação Internacional  de Planejamento Familiar, com atividades em Nairobi  (Quênia), Brazzaville (Congo) e Lomé  (Togo). Posteriormente, ela se casou com um médico do Benin e deu à luz uma filha.

Como romancista Ken Bugul é ganhadora do  Grand Prix Littéraire d’Afrique Noire pelo romance Riwan ou le Chemin de sable (Riwan ou o caminho de areia) (2000), mas é mais conhecida entre os leitores americanos por seu romance Le baobab fou (O baobá louco) (1984), com traços autobiográficos e onde tece uma poderosa crítica aos resquícios do colonialismo na África. Em suas próprias palavras,  escrever é “matar a morte”. Seus textos contém uma escrita de urgência para aliviar o sofrimento pelos traumas herdados do período colonial, uma escrita contra a alienação e o assimilacionismo cultural. 

BIBLIOGRAFIA

CHUNG, Chorok Sally. “Ken Bugul”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 333-334.

MAGNIER, Bernard. Ken Bugul ou l’écriture thérapeutique. Notre librairie, v. 81, p.151-155, 1985.

GARANE, Jeanne. “La femme moderne, c’est moi; la femme traditionnelle, c’est aussi moi”: entretien avec Ken Bugul. Women in French Studies, v. 11, p. 101-112, 2003.


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Legenda: Mulher bérbere (1683)

Fonte: Past Pages. Disponível em: http://www.pastpages.co.uk/site-files/prints-peoples/swp029.jpg. Acesso em: 20 de jan. de 2021.
Palavras-chave:

Kenza de Awraba (século VIII)

Princesa berbere, era filha de Ishaq Mohamed Ibn Hammid, o chefe tribal do clã dos Awraba. Este liderou os demais clãs na confederação berbere que enfrentaram as tropas árabes de Idris I quando este se estabeleceu no atual reino do Marrocos em 785.

De acordo com o sábio tunisiano Ibn Khaldun, para selar a paz a princesa foi entregue em casamento ao recém-chegado, que fundou a cidade de al-Oualili (antiga Volubilis). Quando ele morreu, em 793, ela assumiu o governo dos territórios conquistados, e ganhou influência junto aos demais chefes de clã berberes. Seu filho, Idris II, governou no período de 807-828 e foi o fundador da cidade de Fez. Ela é considerada a matriarca da primeira linhagem de governantes do Marrocos, os Idrísidas,

BIBLIOGRAFIA

HSAIN, Ilahiane. Historical dictionary of the berbers. Lanham; Maryland; Toronto; Oxford: Scarecrow Press, 2006.


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Legenda: Kesso Barry

Fonte: Booknode. Disponível em: https://booknode.com/auteur/kesso-barry/photos. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Kesso Barry (1948)

Princesa de origem fula. É filha de El Hadji Ibrahima Sory Barry, de Dara (1884? – 1978), que foi o último almami (monarca) dos Fulas da região de Futa Djalon, e de sua terceira esposa, Diello. Nasceu na comunidade de Mamou, na atual República da Guiné-Conacri. Etimologicamente, seu nome próprio, Kesso, significa “virgem” na língua Fula.

Ela teve uma infância feliz enquanto morou com a família paterna, até os seis anos de idade, mas passou a ter problemas quando se mudou para Sogotoro para morar com sua tia, que era muito autoritária. Por ser impulsiva e obstinada, aquela tentou discipliná-la sem sucesso e depois de quatro anos Kesso retornou a Mamou quando passou a ter a reputação de “princesa revolucionária”. Passou a realizar tarefas tipicamente masculinas como caçar, coletar impostos e frequentar cinema. Por iniciativa própria, frequentou a escola primária em Mamou e com muita persistência terminou o ensino secundário na capital, Conakry, e depois em Dakar no Senegal.

 A mudança também foi uma forma dela se distanciar da sociedade patriarcal e conservadora de Mamou, na qual ela foi obrigada a se submeter ao ritual de clitoridectomia, a mutilação genital, quando tinha doze anos, exigência para se casar e adentrar em um relacionamento poligâmico – como era o costume.  Morou com a família da quarta esposa do pai, que também era muito rigorosa e conservadora. Algum tempo depois mudou-se para casa de amigos da família, o casal francês Saint-Grémois, com quem a jovem princesa teve liberdade e acesso ao cenário cultural da vida moderna, além de participação em negócios no país.

Aos quinze anos Kesso se casou com Baïlo, um empresário de trinta anos originário de Mamou, após uma tensa negociação familiar uma vez que ele não pertencia a uma família de origem nobre, embora fosse bem sucedido economicamente. Com ele Kesso teve uma filha e um filho: Bintou e Ousmane, mas algum tempo depois pediu divórcio, mudando-se para a casa de um irmão dela. 

Para sustentar os filhos, trabalhou como secretária numa mina de bauxita onde conheceu o segundo marido – o industrial Gérard Decoster.  Embora a família muçulmana tenha ficado desapontada com este casamento com um homem francês branco e católico, ela assumiu o relacionamento e em 1966 foi morar com ele e os filhos em 1966, seguindo uma carreira de sucesso no mundo da moda.

Em 1988 escreveu sua autobiografia, Kesso, princesse peuhle (Kesso, princesa fula). No livro, mostra otimismo em relação às situações que enfrentou, mas o final deixa notar a situação ambígua de pertencer a duas culturas e revela-se parcialmente arrependida por ter deixado a Guiné.

BIBLIOGRAFIA

BARRY, Kesso. Kesso, princesse peuhle. Paris: Seghers, 1988.

BEKERS, Elisabeth. “Kesso Barry”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,   p. 389-390.

D’ALMEIDA, Irène Assiba. Kesso Barry’s Kesso, or autobiography as a subverted tale. Research in African Literatures, v. 28, n. 2, p. 66-82, 1997.

SANKARA, Edgard. L’appropriation du masculin dans Kesso, princesse peuhle de Kesso Barry. Itineraires, n. 1, 2008: https://journals.openedition.org/itineraires/2221


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Legenda: Khadidja Touré

Fonte: Koaci. Khadidja Hassan Zidane : «Habré m'a violée quatre fois et m'a forcée à avaler son sperme». 22 de out. de 2015. Disponível em: http://tchadoscopie.over-blog.com/2015/10/khadidja-hassan-zidane-habre-m-a-violee-quatre-fois-et-m-a-forcee-a-avaler-son-sperme.html. Acesso em: 15 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Khadidja Touré (1959)

Política, ativista, advogada e defensora dos direitos humanos do Chade, nasceu na capital chadiana de N’Djamena. Sua mãe era de origem árabe e o seu pai era chadiano com descendência de povos da África ocidental. Ela obteve sua formação escolar secundária no Colégio Sacre Coeur.

Aos dezesseis anos, como era costumeiro, seu pai arranjou o seu casamento, que ela recusou. Algum tempo depois, ela cedeu e aceitou se casar com o economista Aboubakar Sherif Touré, mudando-se com ele para França em 1976. Ela teve três filhos com ele, depois teve mais três filhos de um outro relacionamento.

Durante o tempo na França Khadija iniciou sua longa carreira como defensora da democracia e dos direitos humanos em sua terra natal. Ela se juntou a Association des étudiants Tchadiens – AET (Associação dos Estudantes Chadianos) e se tornou membro do movimento rebelde nortista que surgiu no final da década de 1970 conhecido como Liberátion Nationale du Tchad – FROLINAT (Frente Nacional de Libertação do Chade).

Com a vitória militar de Hissène Habré em 1982, Khadija passou a fazer parte de uma organização secreta para lutar contra a ditadura imposta pelo regime de governo, sendo presa, torturada e exilada até 1990. Considerado por diversas organizações de direitos humanos como um dos ditadores mais cruéis do continente, por quem é visto como o “Pinochet da África, estima-se que o seu regime tenha eliminado cerca de 40.000 pessoas.

De 1990 a 1995 ela se tornou uma das mulheres mais conhecidas a pedir democracia em sua terra natal. Seu partido, a Union pour la Démocratie et la République – UDR (União pela Democracia e a República) a indicou para integrar a comissão parlamentar constituinte. Em 1992 ela liderou manifestações contra o novo governo em virtude da violação de direitos humanos contra populações civis em áreas de guerra contra exércitos rebeldes.  Em 1996, com a instauração do regime autoritário por Idriss Déby ela foi forçada a abandonar o país, passando a viver em exílio na Suíça.

Em 2015 Touré, Khadidja testemunhou em um processo internacional movido contra o ex-presidente Habré em uma corte na cidade de Dakar sobre os abusos que ela e outras mulheres opositoras do regime sofreram em sua integridade e em seus corpos, na prisão do campo militar de Oudi-Doum e no próprio palácio presidencial, onde ela foi diversas vezes torturada e estuprada.  Ao final, considerado culpado por crimes contra a humanidade, ele foi condenado e sentenciado à prisão perpétua.

A trajetória de Khadidja Touré ilustra a capacidade de resistência das mulheres na luta em defesa dos diritos humanos fundamentais no continente.

BIBLIOGRAFIA

NGARTEBAYE, Eugène Leyota. La participation de la femme à la vie politique au Tchad, 1933-2003. Dissertação (Mestrado), Catholic University of Central Africa, 2004.

RICH, Jeremy. “Khadidja Touré”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 52-53.

TUBIANA, Marie-José. Parcour de femmes: Les nouvelles elites, entretiens, 1997-2003. Paris: Éditions Sépia, 2004.


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Legenda: Khamerernebty II

Fonte: Giza Project at Harvard University. Disponível em: http://giza.fas.harvard.edu/objects/25316/full/. Acesso em: 22 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Khamerernebty II (III milênio a.C.)

Rainha durante a 4ª dinastia do Antigo Egito (2613-2494 a.C.), era filha do faraó Quéfren (Khafré) (2558-2532 a.C.) e de Khamerernebty I. Embora o assunto seja ainda discutido entre os especialistas, parece que ela foi casada com o seu irmão, Miquerinos (Menkauré) (2532-2503 a.c.). Seu filho foi o príncipe Khuenre.

Foi enterrada em uma tumba na necrópole em Gizé, no cemitério perto da pirâmide de Quéfren, originalmente projetada para sua mãe. Em uma das inscrições na entrada da capela pode-se ler seus atributos e distinções, como mãe e esposa dos faraós do Alto e do Baixo Egito, sacerdotisa de Thot (Djehuty) e reverenciadora dos deuses Hórus e Seth. 

BIBLIOGRAFIA

BAUD, Michel. The tombs of Khamerernebty I and II at Giza. Göttinger Miszellen, nº 164, p. 7-14, 1998.

CALLENDER, Vivienne G.; JÁNOSI, Peter. The Tomb of queen Khamerernebty II at Giza. Mitteilungendes Deutschen Archäologischen Instituts, Cairo, v. 53, p. 1-22, 1997.

TYLDESLEY, Joyce. Chronicle of the queens of Egypt. Londres: Thames & Hudson, 2006.


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Legenda: Kirsty Coventry

Fonte: COVENTRY, Kirsty. 20 de ago. de 2018. Facebook: Kirsty Coventry. Disponível em: https:// www.facebook.com/OfficialKirstyCoventry/photos/a.664146226984648/2008958099170114/. Acesso em: 13 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Kirsty Coventry (1983)

Nadadora do Zimbábue e vencedora de medalha de ouro olímpica. Nasceu em Harare. Os país são proprietários da empresa Omnichem, uma empresa de produtos químicos domésticos. Ela estudou na Escola do Convento Dominicano do Harare e aos seis anos aprendeu a nadar com a mãe.  Aos dez anos já ganhava importantes competições locais, e então foi recrutada por Kim Bracken para a equipe de natação da Universidade de Auburn, no Alabama, Estados Unidos.

Até dezembro de 2010, Kirsty Coventry havia conquistado sete medalhas olímpicas, o maior número de medalhas para um(a) atleta Africano(a). Ela representou o seu país nos Jogos da África em Johanesburgo (1999) e  nas Olimpíadas de Sidney, Austrália (2000),  quando chegou na semifinal, voltando a ser a ganhadora de todas as medalhas em nome do Zimbábue nas Olimpíadas de 2004 em Atenas: ouro nos 200m costas; prata no nado de costas, e bronze no medley individual de 200 metros.

Kirsty completou a graduação pela Universidade de Auburn e continuou a acumular vitórias, sendo considerada Melhor Nadadora em 2004 e Atleta do Ano em 2005. Também ganhou medalha de ouro na categoria dos 400 metros no Campeonato Mundial de 2005 e nas Olímpiadas de Pequim quebrou o recorde mundial  e olímpico, além de acumular outras medalhas de grande destaque.

Kirsty continuou a treinar com  Kim Bracken no Longhorn Aquatics, em Austin, Texas. Retorna ao país periodicamente e inspirou, com seu exemplo, o Comitê Olímpico do Zimbabwe a investir mais na natação.  Ela contribuiu com muitas instituições beneficentes do Zimbabué de forma privada e, em 2009, tornou-se embaixadora do Zimbabué da organização Hope for Children, com sede no Reino Unido. Deixou as competições em 2016, como a maior nadador africana de todos os tempos. Pessoalmente, pesa contra ela certas críticas pelo seu silêncio ou omissão em relação aos crimes praticados durante o governo de Robert Mugabe.

BIBLIOGRAFIA

HARGREVES, Jennifer. Heroines of sport: the politics of difference and identity. Noba Iorque: Routledge, 2001.

MATHERS, Kathryn. “Kirsty Coventry”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2,  p. 130-131.

PALMER, Clive. Kirsty and Robert. In: The Sporting image: unsung heroes of the olympics, 1896-2012: http://www.academia.edu/download/45367710/28_Palmer_and_Joseph_Wilson_chpt_26_UNSUNG_HEROES_2012_181-184_WEB.pdf


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Legenda: Kofoworola Abeni Pratt

Fonte: MITCHELL, Gemma. Trust celebrates legacy of NHS’ first Black nurse. Nursing Times. 27 de out. de 2020. Disponível em: https://www.nursingtimes.net/news/leadership-news/trust-celebrates-legacy-of-nhs-first-black-nurse-27-10-2020/. Acesso em: 22 de dez. de 2020
Palavras-chave: Enfermeiras

Kofoworola Abeni Pratt (1915-1992)

Nascida em Lagos, foi educada na Escola Secundária de São João e na escola para meninas de Lagos, e cursou magistério no United Missionary College  (Colégio Missionário Unido ) em Ibadan.

No período de 1936-1940 ela ensinou em uma escola para meninas da Sociedade Missionária da Igreja na Nigéria, casou-se com um médico e mudou-se com ele para a Inglaterra em 1946.  Dando continuidade a um desejo de infância, estudou enfermagem na Nightingale School, vinculada ao Hospital de Saint Thomas (Londres), onde se qualificou em 1950. Começou a atuar como enfermeira no Serviço Nacional de Saúde da Grã-Bretanha em 1948, quando também participava da União dos Estudantes da África Ocidental – entidade que militava em defesa da independência das colônias da África.

De retorno à Nigéria em 1954, trabalhou no Hospital Universitário de Ibadan, onde criou uma Escola de Enfermagem (1965). Ela também foi líder da Associação Profissional de Enfermeiras Treinadas na Nigéria e fundadora e co-editora da revista Nigerian Nurse (Enfermagem Nigeriana). Além disso, foi chefe de enfermagem do Ministério Federal da Saúde da Nigéria e depois nomeada Comissária de Saúde de Lagos na década de 1970. Paralelamente,  em 1971 tornou-se presidente do Conselho Nacional das Sociedades de Mulheres na Nigéria. 

Por seu pioneirismo, engajamento e competência, ganhou vários prêmios e recebeu homenagens, um dos quais, recebido em 1975, foi o título de “chefe”  pelos serviços prestados à nação.

BIBLIOGRAFIA

AKINSANYA, Justus A.  An african “Florence Nightingale”: a biography of Chief (dr.) Mrs. Kofoworola Abeni Pratt. Ibadan: Vantage, 1997.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave:

Konadu Yaadom (c.1750-1809)

Asantehemaa (rainha-mãe) no império Axânti, atual República de Gana. Seu pai era Maponhene Asumgyima Penemo, e sua mãe, Yaa Aberefi, fazia parte da linhagem real de Oyoko em Kumasi. Tornou-se rainha-mãe por volta de 1770, quando foi escolhida pelo asantehene (rei) Osei Kwado, com quem compartilhou o reino até 1777, quando ela voltou a se casar, desta vez com o irmão do falecido, Osokore Manpomhene Owusu Ansa, que morreu em 1784.

Konadu Yaadom teve cinco casamentos, sendo mãe de doze filhos(as), três dos quais vieram posteriormente a ser governantes do império (Opoku Fofie, Osei Bonsu, Osei Akoto) e uma veio a ser rainha-mãe. Ela morreu aos cinquenta e seis anos enquanto dava à luz mais um filho.

De acordo com o eminente pesquisador Ivor Wilks, o papel desempenhado por Konadu Yaadom na corte axanti foi fundamental porque, em primeiro lugar, mostrou a eficácia da política de casamento entre as altas linhagens para o fortalecimento da dinastia real dos Oyoko. Além disso, ela se distinguiu por sua grande capacidade de liderança e negociação em situações de crise, sobretudo no período de 1790-1800.

BIBLIOGRAFIA

McCASKIE. State and society  in pre-colonial asante. Cambridge: Cambridge University Press, 1995.

OWUSU-ANSAH, David. “Konadu Yaadom”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 188-189.

WILKS, Ivor. Konadu Yaadom. Asante collective biography Project Bulletin, n. 11, p. 5-14, 1979.


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Legenda: Gravura empregada para representar Krotoa

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Portrait_of_Krotoa.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Mediadoras culturais Racismo

Krotoa (c.1640-1674)

Nascida entre os povos de língua Khoikhoi, em território da atual África do Sul. Nada se sabe sobre seus pais ou lugar de nascimento. É certo que sua mãe pertencia a um clã que habitava próximo ao litoral, e que ela foi separada da sua irmã na infância. 

Quando os holandeses chegaram no Cabo da Boa Esperança em 1652, Krotoa morava com seu tio, Autshoumao, líder do povo Goringhaicona.  Seu povo morou na região de Table Bay, vivendo da caça de mariscos, diferentemente dos khoikhoi do interior que eram pastores itinerantes.

Perto de completar doze anos Krotoa foi morar na casa de Jan Van Riebeeck, o primeiro comandante do acampamento. Os holandeses podem ter sequestrado Krotoa forçando-a a prestar serviço. Entretanto, é mais provável que seu tio a tenha mandado viver com os recém-chegados para ensinar-lhes os costumes locais. Ela passou então a ser chamada de Eva, como costuma aparecer referenciada em registros escritos. Tornou-se uma acompanhante das duas sobrinhas e da esposa de Van Riebeeck, que a ensinaram sobre o cristianismo e a cultura holandesa. No final dos anos 1650 Krotoa voltou a viver com o seu povo, participando de seus rituais, recolhendo informação sobre os chefes da tribo, o gado e os padrões de suas migrações, e a seguir informou aos holandeses, o que a tornou uma pessoa indesejável nas comunidades locais.

Em seu segundo período de contato com os holandeses, ela começou a atuar como negociante, praticando escambo com as populações khoikhoi, oferecendo mercadorias em troca de gado, no que foi bem-sucedida. Isso chamou a atenção do jovem cirurgião Pieter Van Meerfhoff, com quem ela passou a viver formalmente casada em 1664, tendo com ele dois filhos.  Após a morte do marido, teve problemas com o governador local, que passou a persegui-la, enquanto ela se tornou alcóolatra, foi acusada pelo suposto abandono dos filhos e por ter uma vida promíscua.  Evidenciando-se a dependência alcóolica crônica, em fevereiro de 1669 foi presa por alegado comportamento imoral e depois banida para a Ilha Robben. Faleceu na Cidade do Cabo com aproximados 35 anos. 

No século XX, a trágica história de Eva-Krotoa, que ilustra as consequências desastrosas decorrentes dos primeiros contatos de europeus com africanos(as) na África austral, foi contada  em livros,  encenada no teatro e exibida em filmes.  

BIBLIOGRAFIA

ABRAMS, Yvette. Was Eva raped? An exercise in speculative history. Kronos: Journal of Cape History, v. 23, p. 3-21, 1996.

BLOEM, Trudie. Krotoa-Eva: the woman from Robben Island. Cape Town: Kwela Books, 2002.

MALHERBE, C. V.. Krotoa, called Eva: a woman betwen. Cape Town: Centre for African Studies,  1990.

WELLS, Julia. Eva’s men: gender and power in the establishment of the Cape of Good Rope, 1652-1674. Journal of African History, v. 38, 1998. 

 WELLS, Julia. “Krotoa”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 430-432.


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Legenda: Labotsibeni Mduli com seu neto | National Archives

Fonte: Swaziland Digital Archives. Disponível em: http://www.sntc.org.sz/sdphotos/photo.asp?pid=617. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Regentes

Labotsibeni Mduli (c.1858-1925)

Rainha-Mãe e poderosa regente da Suazilândia que promoveu reformas educacionais e reivindicou o direito dos suazi contra a invasão colonial. Nasceu em Luhlekweni, no norte da Suazilândia, próximo da fronteira com a atual República de Moçambique. Seu nome foi dado em homenagem ao seu pai, Matsanjana Mdluli que estava lutando com o povo Tsibeni no Transvaal no momento do seu nascimento. Após a morte do pai ela mudou-se com o tio, Mvelasi Mdluli, para a residência real em Ludzidziu. Nesta ocasião, ficou sob a tutela da rainha-mãe Thandile, viúva do Rei Sobhuza I e mãe de Mzwati II.  Toda essa convivência lhe permitiu aprender bem os costumes da corte da Suazilândia.

Labotsibeni se tornou uma das esposas do rei Mbandzeni (1857-1889), em cujo reinado colonos europeus exigiram uma grande porção das terras dos suázis, incluindo direitos sobre extração mineral. Teve filhos com ele: Bhunu (c.1875 – 1899), Malunge (c.1880 1915) e Lomvazi (c.1885 – 1922) e uma filha Tongotongo (c.1879 1918).

Após a morte do marido, foi rainha regente por trinta anos, e reinou entre 1895- 1899 junto com o filho Bhunu. Ela conteve o avanço dos bôeres sobre o território de seu povo em 1895, e depois negociou com eles e com os ingleses, de modo a garantir a continuidade das instituições de seu povo mesmo que para isso tivesse que se colocar sob o protetorado britânico, como ocorreu no período da Guerra dos Bôeres (1899-1902). 

Por não concordar com diversas atitudes e com o comportamento do filho, a quem considerava insensato, em 1911 ela criou um fundo para fins educacionais que permitisse a criação de escolas e tutores, e forçou o futuro rei Sobhuza II a terminar os estudos em Lovedale, na África do Sul. Mesmo depois de deixar o trono, ela continuou apoiando a educação e a independência da Suazilândia.

BIBLIOGRAFIA

BONNER, Philip. Kings, commoners and concessionaires: the evolution and dissolution of the nineteenth-century swazi state. Nova Iorque: Ca,bridge University Press, 1993.

DLAMINI, Betty. “Labotsibeni”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 453-454.

GININDZA, Thoko. Labotsibeni/Gwamile Mduli: the power behind the swazi throne, 1875-1925. In: KAPLAN, Flora E. S. (Ed.). Queens, queen mothers, priestesses, and power: case studies in African gender. Nova Iorque: New York Academy of Sciences, 1997.


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Legenda: Ladi Kwali

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/File:Photo_of_Ladi_Kwali.jpg. Acesso em: 22 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Tradições africanas

Ladi Kwali (c. 1930-1984)

Nascida na aldeia de Kwali, na região de Gwari, ao Norte da Nigéria, de uma família cujas mulheres oleiras e ceramistas mantinham a tradição cerâmica Gbagyi, aprendeu o ofício quando tinha nove anos com uma tia que a ensinou modelar pelo método de enrolar a argila. Desde o início suas peças chamavam atenção pela qualidade estética e pela simetria, o que fez dela mais tarde uma das artesãs nigerianas mais conhecidas e respeitadas até a atualidade.

Ladi Kwale fabricava manualmente panelas, jarros de água, tigelas e frascos decorados com padrões geométricos e figurativos estilizados que incluíam figuras de escorpiões, lagartos, crocodilos, camaleões, cobras, pássaros e peixes. Seus vasos eram conhecidos por rara beleza e elegância formal.  Reconhecida pelo valor artístico, a obra passou a ser exibida em grandes museus,  galerias e mostras internacionais, em Londres, Paris e Nova Iorque.

Nos anos 1950, já como ceramista consagrada, foi convidada por Michael Cardew, do Departamento de Comércio e Indústria, para atuar no Centro de Treinamento em Cerâmica de Abuja, onde aprendeu novas técnicas e se tornou instrutora. Entre 1958 e 1962, viajou pela Europa para mostrar o seu trabalho, e de 1962 a 1970 realizou diversas oficinas nos Estados Unidos. Ministrou palestras aos estudantes de artes da Universidade Ahmadu Bello, onde foi agraciada com o título de Doutora Honoris Causa em 1977.  Alguns anos mais tarde, em 1981, foi consagrada com o título honorário de Oficial da Ordem do Império Britânico. Entre inúmeras homenagens, sua imagem  aparece no verso da nota de 20 nairas – a moeda circulante na Nigéria.

BIBLIOGRAFIA

OKUNNA, E.. Living through two pottery traditions and the story of an icon: Ladi Kwali. Mgbakoigba: Journal of African Studies, V. 1, 2012.

CARDEW, Michael. Ladi Kwali: the potter from england writes on the potter from Africa. Craft Horizons, v.  32, p. 34–37, 1972.


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Legenda: Latifa al-Zayyat

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Latifa_al-Zayyat.jpg. Acesso em: 15 de dez. de 2020.

Latifa al-Zayyat (1923-1996)

Escritora e ativista política egípcia, nasceu em Damietta, onde morou até os seis anos de idade, e indo posteriormente para Mansura e para o Cairo. Seu pai era funcionário do governo e participava de conselhos municipais em todo o Egito. Ao longo da vida ela se envolveu em diversos acontecimentos da história de seu país, com destaque na luta anti-colonial.

Entre 1942 e 1946 ela estudou literatura inglesa na Universidade do Cairo, onde também atuou no movimento estudantil. Foi eleita secretária geral do Comitê Nacional de Trabalhadores e Estudantes e liderou manifestações contra a presença britânica. Em março de 1949, ela e o marido foram condenados e cumpriram três anos de prisão devido as suas atividades de contestação as autoridades coloniais egípcias e britânicas.

Em 1957 ela defendeu sua tese de doutorado e se tornou professora de literatura inglesa na universidade de ‘Ain Shams. Alguns anos mais tarde publicou seu primeiro romance, Al-Bab al-maftuh, traduzido ao inglês com o título Open the door (A porta aberta) (1960), que veio a se tornar um clássico da literatura egípcia e que narra diversos episódios da luta anti-colonial, e coletâneas de contos, uma peça e diversos romances.

No final dos anos 1960 Latifa retomou seu trabalho público e político, com destacada liderança acadêmica.  Liderou grupos como Egyptian Academy of Fine Arts (Academia Egícia de Belas Artes), chefiou o Departamento de Inglês da Universidade de ‘Ain Shams e fundou o Comitê de Defesa da Cultura Nacional. Ela publicou sua autobiografia em 1992, onde relatou suas experiências durante o tempo em que esteve presa.

Por seu ativismo, habilidade e influência política Latifa ganhou diversos prêmios, seu trabalho foi de grande importância não só para a literatura, mas também para cultura, o desenvolvimento social das mulheres e dos direitos humanos.

BIBLIOGRAFIA

BENNETT, Sophie. “A life of one’s own”. In: ROBIN OSTLE, Ed de Moor; wild, Stefan (Eds). Writing the self: autobiographicaal writing in modern arabic literature.  Londres: Saqi Books, 1998, p. 283-291.  

MEHREZ, Samia. Egypt’s culture wars: politics and pratice. Londres; Nova Iorque: Routledge; Tayor & Francisc, 2008.

NASSER, Tahia Abdel. “Latifa al-Zayyat”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 237-238.


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Legenda: Layla Murad

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Leila_Mourad_3.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Cinema

Layla Murad (1918-1995)

Cantora egípcia conhecida por seus papéis musicais em filmes.  Nasceu no distrito de al-Daher, no Cairo, e seus pais eram Zaki Murad, músico de família comerciante, e Gamila, polonesa de origem judaica.

Após sua estreia na rádio quando criança, Layla começou a se apresentar em festas privadas da elite. O colega de seu pai, Daoud Husni, compôs suas primeiras músicas originais; ela cantou uma no filme The Victims (1932, e impressionou tanto o cantor Muhammad Abd al-Wahhab que foi chamada para o elenco de Long Live Love – o primeiro dos vinte e sete filmes que ela estrelou entre 1938 e 1955. Ser cantora em seu tempo significava estar nas sombras de cantores homens, apesar de ter sido uma das mais bem-pagas estrelas do Egito e de ter gravado cerca de 1.200 músicas.

Sua parceria com Togo Mizrahi levou ao desenvolvimento de um estilo conhecido como “layla”, que estabeleceu um padrão para musicais românticos e comédias em que a mulher adorável e ingênua vive um romance que desafia as fronteiras de classe. Os filmes em que contracena com Anwar Wagdi são clássicas comédias dramáticas; no pós-Segunda Guerra Mundial, sua atuação em The Flirtation of Girls  fez dele um filme icônico.

Laila Murad casou-se com Wagdi, com quem teve seu filho Ashraf. Porém o relacionamento chegou ao fim em 1950 porque Wagdi tentava dominar sua carreira e a família. O filho de seu terceiro casamento, Zaki Fatin Abd al-Wahhab, é um reconhecido diretor de cinema e televisão e uma de suas obras foi um drama televisivo biográfico baseado na vida de sua mãe.

Já na década de 1950 Laila perdeu o interesse em atuar pois as rotinas de filmagens nem sempre eram agradáveis e porque gostaria de ser lembrada em sua juventude. Ela foi perseguida pela imprensa, que em 1952 afirmou que ela estava abrigando simpatizantes do Sionismo e doando dinheiro para o Estado de Israel. Convertida ao islamismo, Murad refutou as acusações e sua popularidade continuou em alta. Cantou hinos populares que louvavam o Movimento dos Oficiais Livres e se juntou às estrelas para apoiar a Revolução Egípcia, encabeçada por Gamal Abd al-Nasser, em meados da década de 1950, quando decidiu se aposentar e se retirar definitivamente da esfera pública.

BIBLIOGRAFIA

CASTELO-BRANCO, Salwa El-Shawan. Radio and musical life in Egypt, Revista de Musicología, v. 16, n. 3, p. 1229-1239, 1993.

GORDON, Joel. “Layla Murad”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 337-338.

HASANAYN, Adil. Layla Murad. Cairo: Amadu, 1993.


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Legenda: Leila Aboudela | @ Judy Laing Photography 2019

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Leila_Aboulela_(2010).jpg. Acesso em: 22 de dez. de 2020.

Leila Aboudela (1964)

Nascida no  Cairo,  de mãe egípcia e pai sudanês, mudou-se para Cartum aos seis anos de idade e lá viveu até 1987. Frequentou a Escola Americana de Cartum e um escola católica de freiras,  onde aprendeu inglês.  Mais tarde, estudou na Universidade de Cartum , graduando-se em 1985 em Economia e depois realizou mestrado em Estatística pela London School of Economics (Escola de Economia de Londres).

Em 1990, Aboulela mudou-se para Aberdeen com marido e filhos, quando trabalhou como professora no Aberdeen College e mais tarde como assistente de pesquisa na Universidade de Aberdeen.

Ela é muçulmana devota e seu trabalho ficcional envolve o papel da fé na vida dos seus personagens. Foi na Grã-Bretanha, onde ela se sentiu alienada, que começou a usar o hijab (véu) porque queria demonstrar publicamente a sua fé. Entre 2000 e 2012, viveu em Jacarta, Dubai, Abu Dhabi e Doha . Ela é muçulmana devota e sua fé inspira muito de seu trabalho como escritora.

Seu primeiro romance The translator (O tradutor) (1999), foi indicado ao Prêmio Literário Orange (2000) e ao IMPAC Dublin Literary Award (2001), sendo pré-selecionado para o Saltire Scottish Book Prize (2000).  Em 2002 ele foi adaptado para uma série de rádio e transmitido pela BBC Radio 4. Também foi traduzido para o espanhol, alemão, holandês e árabe, e considerado o “livro do ano” pelo New York Times (2006).

O conto The Museum (O museu) (2001) venceu o prêmio inaugural Caine de escrita africana (2000). É considerada a narrativa mais marcada por um posicionamento político de Aboulela, com ênfase aos discursos coloniais na África. Esta obra também foi adaptada e transmitida em programa de rádio pela BBC Radio 4. Outras peças para rádio incluem The Mystic life (A vida mística) (2003) e o drama histórico The Lion of Chechnya (O leão da Chechênia) (2005).

O seu segundo romance, Minaret (Minarete) (2005) foi apreciado pela crítica inglesa, e em The Kindness of Enemies (A bondade dos inimigos) (2015) ela retratou na ficção a vida do imã Shamil, que uniu as tribos do Cáucaso para lutar contra a expansão imperial russa. Ela também é autora de contos, publicados em diversas coletâneas, e é colaboradora da antologia New Daughters of Africa (Novas filhas da África) (2019), editada por Margaret Busby.

Sua obra de ficção de Aboulela põe em evidência a marginalização da mulheres norte-africanas e muçulmanas na Grã Bretanha e as causas do patriarcado Ocidental e Islâmico, bem como a má compreensão das diferenças culturais e religiosas. Ela afirma o caráter transnacional do Islã, ressaltando o papel da identidade africana, e, mais particularmente, sudanesa, na constituição da memória e identidade de seus/suas personagens ficcionais.

BIBLIOGRAFIA

HASSAN, Waïl S. Leila Aboulela and the Ideology of muslim immigrant fiction. Novel: a forum on fiction, v. 41, n. 2/3, pp. 298–319, 2008.

ABBAS, Sadia. Leila Aboulela, religion, and the challenge of the novel. Contemporary Literature, v. 52, n. 3, p. 430-461, 2011.

STEINER, Tina. “Leila Aboudela’.   In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 48-49.


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Legenda: Leila Sebbar

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/ File:Le%C3%AFla_Sebbar_(21e_Maghreb_des_Livres,_Paris,_7_et_8_f%C3%A9vrier_2015).jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Leila Sebbar (1941)

Escritora e crítica cultural, nasceu em Aflou, na Argélia, filha de mãe francesa e de pai argelino, ambos(as) professores(as) durante o período colonial e a guerra de libertação nacional. Esta situação ambígua é parte do projeto intelectual geral que dá sentido à sua obra, que pretende em última instância responder à pergunta: quais as implicações da descendência heterossexual, de lidar com híbridos ou estar entre culturas?

De 1979 a 1981 Leila foi uma importante colaboradora da revista Immigration and the Third World: Whitout Borders (Imigração e Terceiro Mundo: Sem Fronteiras). Sua coluna “Memória da Imigração” era popular entre os imigrantes. Com seu amplo conhecimento sobre identidade cultural e imigração, ela passou a ser frequentemente consultada para falar ou escrever sobre esses tópicos. É uma das debatedoras mais articuladas sobre os dilemas de culturas minoritárias e literaturas franco-magrebinas. Quase todos os seus livros discutem o passado colonial bem como a juventude marginalizada dos antigos territórios coloniais da França.

Leila relê meticulosamente o discurso oriental reinventando a linguagem e restituindo agência a um sujeito pós-colonial para resistir às categorias fixas criadas a partir do século XVIII. Isso é claramente visto em sua conhecida e muito celebrada trilogia em que ela repensa o orientalismo: Shérazade: 17 ans, brune, frisée e les yeux verts (Sherazade: 17 anos, loira, cabelos encaracolados e olhos verdes (1984); Les carnets de Shérazade (Cadernos de Sherazade) (1985) e Le fou de Shérazade (O louco de Sherazade) (1991).  A personagem Sherazade, como sujeito pós-colonial, revisita pinturas orientalistas, desconstruindo-as e redefinindo-se através de um estudo detalhado de sua história e memória cultural, bem como desenvolve as múltiplas conexões e ressonâncias entre elas para criar uma nova imagem de outra Sherazade.

Seu trabalho trata das estratégias da memória social e os dilemas da identidade em conexão com a herança colonial, tema desenvolvido no Parle mon fils, parle à ta mere (Fale me filho, fale com sua mãe) (1984), onde ela explora a frustração de duas gerações que não compartilham uma língua comum. Outra linha mestra de seu pensamento diz respeito ao exílio, que ela concebe como um espaço de criação, produção e reinvenção. Em seu romance Le Chinois vert d’Afrique (O chinês verde da África) (1984), o protagonista, chamado Mohamed Mehmet ou “Momo”, é originário da Argélia e tem uma avó vietnamita, o que lhe permite explorar a identidade em situações de hibridismo cultural.

Sebbar editou três grandes coletâneas de histórias sobre a infância, o colonialismo e a condição pós-colonial. Estas coletâneas representam o seu desejo de descobrir memórias históricas e culturais. São elas: Une enfance d’ailleurs avec Nancy Huston (Uma Infância estrangeira com Nancy Huston (1993), Une enfance algérienne (Uma Infância Argelina (1997), e Une enfance outremer (Uma Infância além-mar) (2001). Nesses livros, a produção literária se concentra na tensão do que significa pertencer a diferentes espaços, examinando tecnologias íntimas de exclusão, nas quais os sujeitos pós-coloniais estão constantemente recuperando suas identidades.

BIBLIOGRAFIA

EKOTTO, Frieda. “Leila Sebbar”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 313-314.

MORTIMER, Mildred P. Coming home: exile and the memory in Sebbar’s Le silence des rives. Research inAfrican Literature, v. 30, n. 3, p.125-134, 1999.

NUNLEY, Charles. From Shéherazade to Sherazade: self-fashioning in the Works of Leila Shebar. In:  BISHOP, Michael (Ed.). Thirty voices in the feminine. Amsterdam: Ed. Rodopi, 1996, p. 238-248.


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Legenda: Léonie Abo

Fonte: Injera and plantain mami. 20 de jun. de 2020. Twitter: @injera_plantain. Disponível em: https://twitter.com/injera_plantain/status/ 1277939327679545344/photo/1. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Direitos das mulheres

Léonie Abo (1945)

O seu nome completo é Wassis Hortense Léonis Abo. Ativista congolesa, liderança proeminente da rebelião Kwilu na República Democrática do Congo. Em 1963 ela se juntou à revolta armada liderada por Pierre Mulele, o líder da rebelião e ex-Ministro da Educação no Governo de Patrice Lumumba movimento que contou com a participação de cerca de 100 mil rebeldes, dos quais cerca de 25% a 30% eram mulheres.

Nasceu em Malungu, às margens do Rio Kwilu, no então Congo Belga. Com a morte da mãe durante o parto, Abo, nome que, na língua quimbundo significa “Luto”, foi criada por parentes que a adotaram. Contra a vontade, e mediante protestos de sua avó, frequentou a escola primária na aldeia de Lukamba (1952) e o secundário na escola missionária de Totshi, quando foi batizada e renomeada como Léonie Hortense.

Em 1957, completou sua formação como parteira assistente e enfermeira pediatra em Foreami – um estabelecimento de formação pela rainha belga Elisabeth.  Viveu um casamento arranjado com Gaspar Mumputu (1959) marcado pela violência doméstica, tendo durante este período aprendido sobre as atividades políticas do Parti Solidaire Africain (Partido Solidário Africano). Contra sua vontade, foi levada para um acampamento rebelde em 1963 devido aos seus conhecimentos médicos. Lá conheceu e estabeleceu um relacionamento conjugal com Pierre Mulele, ficando ao seu lado até ele ser assassinado em 1968 na cidade de Kinshasa, e ela foi mantida prisioneira pelas forças do governo de Mubuto Sese Seko até 1969. Ao sair da prisão refugiou-se no vizinho Congo Brazzaville,  permanecendo em exílio até um pouco antes de Mobutu ser deposto.

Léonie Abo trabalhou como enfermeira e deu à luz duas filhas, Eulalie (1971) e Ghislaine (1974). Retornou ao Congo em 1996, no contexto da derrubada de Mobuto. Ela ajudou a estabelecer organizações locais de mulheres para crianças desnutridas e gerenciou uma fazenda na área de Maluku, produzindo produtos destinados aos bairros populares da cidade. Ela co-fundou a Fraternité des Patriotes Congolais – FRAPAC (Fraternidade dos Patriotas Congoleses), uma organização que unia os remanescentes dos movimentos rebeldes de Kwilu e Kwango, e foi integrante ativa e presidenta honorária da Union des Femmes Congolaises pour le Développement – UFCD (União das Mulheres Congolesas para o Desenvolvimento). Também trabalhou na reconstrução rural no governo de Abdoulaye Yerodia (2003-2006).

Nas eleições de 2006, foi candidata pela Union des Patriotes et des Nationalistes Congolais – UPNAC (União dos Patriotas e dos Nacionalistas Congoleses) na região de Kikwit. Neste momento, Léonie Abo notou as discrepâncias entre as palavras e ações dos líderes no que diz respeito a igualdade de gênero. Em dois textos curtos, defendeu firmemente o legado contestado de Mulele, enfatizando o seu papel como companheira de luta. Desse modo, valorizou sua própria contribuição para descolonização, contestando a ideia de dependência associada ao papel da esposa. Para ela, a luta pelos direitos das mulheres não pode ser separada daquela travada contra o capitalismo e o imperialismo.

BIBLIOGRAFIA

BOUWER, Karen. Léonie Abo: the political lessons of the maquis. In: IDEM. Gender and decolonization in the Congo: the legacy of Patrice Lumumba. Nova Iorque: palrave MacMillan, 2010, p. 101-130.

BOUWER, Karen. “Wassis Hortense Léonie Abo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 45-47.

COQUERY-VIROVICH, Catherine. Abo: revolutionary woman or tool of revolution? In: African woman: a modern history. Boulder: Westview Press, 1997, p. 186-188.

MARTENS, Ludo. Abo: une femme du Congo. Bruxelas; Paris: L’Harmattan, 1994.


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Legenda: Lilian Masediba Ngoyi

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Lilian_Ngoyi.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Lilian Masediba Ngoyi (1911-1980)

Igualmente conhecida como Ma Ngoyi, é considerada a mãe do movimento pela libertação da África do Sul. Nascida em Pretoria, viveu a maior parte de sua vida na pobreza: o pai era operário e a mãe, lavadeira para famílias brancas. Após a morte do pai, foi obrigada a sustentar a mãe, e duas filhas (uma das quais, adotiva). Ficou viúva alguns anos após o casamento, que lhe deixou uma filha.

Apesar de ter abandonado os estudos de enfermagem (para auxiliar na escassa renda familiar), Ngoyi trabalhou como costureira, gaprimorou sua marcante habilidade para a oratória e, com tenacidade e energia, teve proeminência política na luta contra o Apartheid.

Sua condição social não a impediu de destacar-se na luta contra o preconceito de raça e gênero, tendo conquistado posições fundamentais ao longo de sua vida: foi a primeira presidenta da Liga de Mulheres do Congresso Nacional Africano, a primeira mulher eleita para o Comitê Executivo do Congresso Nacional Africano, a segunda presidente da Federação das Mulheres Sul-Africanas.

Em 1955, participou da conferência da Federação Democrática Internacional das Mulheres, na Suíça. Em seguida, visitou países do bloco socialista (Rússia e China entre outros), e discursou em um ato público contra o Apartheid em Londres. Liderou a Marcha das Mulheres até Pretória para protestar contra a Lei do Passe, motivo pelo qual foi presa em 1956 e passou 71 dias em solitária.  Nos quinze anos seguintes recebeu diversas interdições, as quais a confinaram ao seu bairro, em Soweto.

Em 1982, tornou-se a primeira mulher a receber o prêmio Isitwalandwe, honraria concedida aos homens e mulheres que, por meio do sacrifício pessoal, destacaram-se na luta pela libertação da África do Sul. Suas palavras em um discurso contra o Apartheid na educação ilustram bem a força tremenda de sua oratória: “Meu útero treme quando se fala da Educação Bantu… Nós, mulheres, somos como galinhas que chocam ovos para que alguém os levem embora”.

BIBLIOGRAFIA

QUNTA, Christine (Ed.). Women in Southern Africa. Nova Iorque: Allison & Busby, 1987.

ALLEN, Judith Van. “Lilian Masediba Ngoyi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 456-457.

DAYMOND, M. J..  Home, exile and resistance in letters from Bessie Head, Dora Taylor and Lilian Ngoyi,  English Academy Review, v. 30, n. 2, p. 115-128, 2013:  DOI: 10.1080/10131752.2013.834703


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Legenda: Lina Júlio Francisco Magaia

Fonte: Lina Magaia, 1945-2011. 01 de jul. de 2011. The Delagoa bay Review. Disponível em: https://delagoabayword.wordpress.com/2011/07/01/lina-magaia-1945-2011/. Acesso em: 27 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Jornalistas Romancistas

Lina Magaia (1945-2011)

Lina Júlio Francisco Magaia foi escritora moçambicana de contos e romances, jornalista e parlamentar. Nasceu em Maputo, em uma família de classe média alta. Neta de um rei do povo Marraquen, teve acesso diferenciado à educação, tendo estudado em boas escolas devido a posição social de seu pai. Já aos dezessete anos, como secundarista no Núcleo dos Estudantes Secundários Africanos de Moçambique ela escrevia artigos e crônicas para jornais denunciando a situação colonial, em um momento em que fazer isso era extremamente perigoso.

Seus escritos eram publicados em dois jornais de alta circulação, como O Brado Africano e A Voz Africana, cujos diretores foram presos em 1965. Foi então que ela começou a fazer panfletagem  e que decidiu participar da luta armada na Tanzânia, e foi presa durante três meses por conta de seu ativismo. Em 1967 ganhou uma bolsa de estudos para estudar Economia em Lisboa. Lá ela teve um filho, e apenas retornou à África em 1974,  na Tanzânia. Lá obteve treinamento militar e participou do pelotão feminino da FRELIMO, que inclusive esteve entre as tropas que tomaram Moçambique e declararam sua independência.

No período inicial da independência, Lina Magaia se tornou uma figura conhecida e respeitada em Moçambique, comprometida com o projeto de modernização Marxista-Leninista. Atuou no campo do desenvolvimento e reforma agrária e mais tarde assumiu a função de Ministra da Agricultura. No mesmo período continuou escrevendo colunas para jornais e também publicou livros. É um exemplo de guerrilheira comprometida com a igualdade.

Como escritora, em seu primeiro romance, Dumba nengue: histórias trágicas do banditismo (1987), retrata o cenário de conflito entre Frelimo e a Renamo, e se baseia em contos que ela tinha publicado na revista Tempo. No romance seguinte,  Duplo massacre em Moçambique: histórias trágicas do banditismo (1989), o foco continua a ser as atrocidades da guerra, em particular o massacre de 424 civis por tropas da Renamo na cidade de Homoine em 1987. Escreveu ainda Dehleta: pulos na vida (1994) e A cobra de olhos verdes (1997).  

BIBLIOGRAFIA

GONÇALVES, Luis. “Lina Magaia”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 25-26.

OWEN, Hilary. Mother Africa, father Marx: woman’s writing of Mozambique, 1948-2002. Lewisburg: Bucknell University Press, 2007.

SILVA, Tereza Cruz e. Identity and political consciousness in Southern Mozambique, 1930-1974: two presbiterian biographies. Journal of Southern African Studies, v. 24, n. 1, p. 223-236, 1998.



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Legenda: Louise Antoinette Njie

Fonte: Gainako. Tribute to Hon. Louise Antoinette Njie  – Former Education Minister. 12 de mai. de 2014. Guardianship & Independence. Disponível em: https://gainako.com/tribute-to-hon-louise-antoinette-njie-former-education-minister/. Acesso em: 27 de dez. de 2020.

Louise Antoinette Njie (1922-2014)

Primeira Ministra da Gâmbia e protagonista da educação feminina em seu país, também lembrada como “Tia Lou”. Nasceu em Banjul, de uma família cujos antepassados pertenciam ao grupo étnico krio, e tanto o seu pai quanto sua mãe tiveram destacada participação na vida pública durante o período colonial.

Louise freqüentou a Escola Infantil St. Joseph’s, a Escola Metodista para Meninas de Banjul e obteve certificado da Escola Cambridge (1942). Frequentou a prestigiada Achimota Teachers College (Faculdade para professores de Achimota) em Accra, Gana, de 1942 a 1945. Em 1950, casou-se com Denis (Ebrima) N’jie, dentista, com quem teve um filho, Koblah, que morreu em 1997.

Ao retornar a Gâmbia, lecionou e foi diretora de escolas em Bakau (1957-1963) e estudou Administração Educacional na Universidade de Oxford.  Foi nomeada Oficial de Educação da Mulher responsável pela promoção da educação das meninas (1964),inclusive na Faculdade de Gâmbia, e atuou como Diretora de Educação responsável pelas escolas de Banjul e Kombo até sua aposentadoria em 1977. Ela também teve destacado trabalho em igrejas e instituições de caridade, atuando como presidente da Sociedade da Cruz Vermelha da Gâmbia por dois mandatos desde 1970 e como membro do Standing Comitê e Sínodo Distrital da Igreja Metodista, e foi uma das fundadoras da agora extinta Federação das Mulheres da Gâmbia.

A carreira política de Louise Antoinette Njie começou em 1977, quando foi nomeada para o Parlamento, onde levantou questões relativas às mulheres e crianças, como o estabelecimento de creches para filhos de mães que trabalham e o ensino de ciências domésticas como disciplina obrigatória para meninas. Em 1985 ela foi designada como ministra para assuntos femininos, quando cuidou para a ampliação de matrículas para meninas. Sucessivamente, foi Ministra da Saúde (1987-1990), altura em que defendeu o planejamento familiar, nutrição em saúde e educação para ajudar a reduzir a taxa de mortalidade materna, além de estabelecer o Programa Nacional de Controle da Aids (1987).

BIBLIOGRAFIA

CEESAY, Hassoum. Gambian women: profiles and historical notes. Kanifing: Fulladu Publishers, 2011.

CEESAY, Hassoum. “Louise Antoinette N’jie”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 475-476.

CEESAY, Hassoum. Tribute: Louise Antoinette Njie. The point: for freedom and democracy, 07/05/2014: http://thepoint.gm/africa/gambia/article/tribute-louise-antoinette-njie-1922-2014


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Legenda: Lourdes Van-Dúnem

Fonte: Alchetron. Disponível em: https://alchetron.com/Lourdes-Van-D%C3%BAnem#lourdes-van-dnem-0ee671bd-eb6e-4fe4-926e-817222c9f57-resize-750.png. Acesso em: 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Lourdes Van-Dúnem (1935-2006)

Nome pelo qual ficou conhecida Maria de Lourdes Pereira dos Santos Van-Dúnem, destacada cantora angolana no período da Luta de Libertação Nacional. Nasceu Luanda, onde frequentou a escola primária na Liga Nacional Africana, e a escola secundária no Colégio de Dona Castro e Silva. 

Lourdes envolveu-se com a música desde os tempos de escola e nos anos 1950 tornou-se locutora na emissora Voz de Angola, quando aprendeu a falar em língua quimbundo.  Neste mesmo momento, começou a se apresentar em clubes, sendo uma das poucas cantoras no cenário musical angolano, dominado por artistas homens.

Junto com Belita Palma, na década de 1960 Lourdes juntou-se como vocalista da banda N’Gola Ritmos, com  quem gravou o seu primeiro álbum intitulado Monami, que logo foi aclamado. Na década de 1970 passou a fazer parte da banda Jovens do Prenda, alcançando grande sucesso em Angola e reconhecimento internacional, o que a levou a viajar para exibições em Portugal, Brasil, Argélia, França, Espanha e Zimbábue. Na década de 1980, no período de instalação do governo do Movimento Popular de Libertação de Angola – MPLA, atuou como Secretária de Estado da Cultura.

Considerada uma das vozes mais potentes de Angola durante o Festival Sun City, na África do Sul (1997), Lourdes Van-Dúnem também foi homenageada por sua contribuição cultural e sua trajetória pela Rádio Nacional de Angola (1997). 

BIBLIOGRAFIA

MOORMAN, Marissa J. Intonations: a social history of music and nation In Angola. Ohio: Ohio University Press, 2008.  

WEZA, José. O percurso histórico da música urbana luandense: subsídios para a história da música angolana.  Luanda: Governo da Província de Luanda,  2007.


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Legenda: Lozikeyi Dhlodhlo

Fonte: MAPHOSA, Yvonne. Lozikeyi Dlodlo: Queen Of The Ndebele People. TWText: Yvonne_Maphosa. Disponível em: https://twtext.com/article/1253864018944688131. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Lozikeyi Dhlodhlo (1855-1919)

Rainha sênior do Rei Lobengula, no atual Zimbabwe. Casou-se com ele em 1870, tornando-se governanta do povo Ndebele, em um casamento arranjado como meio de fortalecer a base militar do reino e aumentar o prestígio espiritual uma vez que a família Dhlodhlo, a qual ela pertencia, desfrutava de prestígio pelas habilidades de seus curandeiros tradicionais conhecidos como izinyanga. Por não ter filhos biológicos, adotou e criou sua sobrinha, Sidambe, que se tornou legalmente sua filha.

Na condição de rainha sênior, a tarefa de Lozikeyi era apoiar o rei e fortalecer a nação, estimulando a continuidade dos costumes e das tradições Ndebele, além de preparar e administrar medicamentos de guerra para fortalecer o seu poder pessoal.  Este confiou a ela a responsabilidade de vigiar os homens europeus que visitavam Bulawayo, e a consultava para decidir se encorajava ou não os contatos dos estrangeiros com as mulheres Ndebele. Como chefe dos alojamentos reais das mulheres, ela fez o possível para evitar a difusão do cristianismo, que poderia enfraquecer a religião tradicional.

Quando as forças da companhia britânica da África do Sul, sob a liderança de Cecil Rodhes,  venceram e exilaram Lobengula (1893),  Lozikeyi  tornou-se rainha regente, mantendo o povo unido. Sua posição em relação aos colonizadores oscilou entre a aparente obediência e lealdade e uma resistência obstinada, como ocorreu na War of the Red Axe Broke (Guerra do Machado Vermelho) (1896), que ela planejou junto com o seu irmão com o objetivo de restabelecer o poder de seu reino e foi encerrada mediante uma negociação em que a posição dos Ndebele saiu fortalecida.

Nos anos seguintes, estabeleceu alianças e buscou estratégias para garantir a continuidade dos costumes e instituições tradicionais. Mas, em 1909, após reiteradas pressões, foi forçada a admitir a entrada de missionários nos territórios sob o seu governo, e membros da Sociedade Missionária de Londres passaram a viver em sua corte. Alguns anos mais tarde, ela faleceu em decorrência da pandemia de influenza que ceifava vidas em todo o mundo desde 1918.

Desde a guerra de libertação do Zimbábue ela é lembrada como precursora do sentimento nacionalista e anticolonial.

BIBLIOGRAFIA

CLARKE, Marieke Faber; NYATHI, Pathisa. Lozikeyi Dhlodhlo, queen of the Ndebele: ‘a very dangerousand intriguing woman bulawayo. AmaGugu Publishers, 2010.

CLARKE, Marieke. “Lozikeye Dhlodhlo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 524-525.

RANGER, T. O. Revolt in Southern Rodhesia, 1896-1897. Londres: Heinemann, 1967.


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Legenda: Lucy Lameck | The National Archives UK

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Lucy_Lameck_and_National_dress.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Direitos das mulheres

Lucy Lameck (1934-1992)

Nacionalista tanzaniana e uma das primeiras mulheres a servir no governo do país.  Nasceu próximo ao Monte Kilimanjaro, em uma família de camponeses. Seu nome completo era Lucy Selina Lameck Somi. A família era politicamente ativa na luta anticolonial, tanto que hospedou Julius Nyerere, mais tarde primeiro presidente da Tanzânia, nos primeiros anos do seu ativismo político.

Lameck frequentou a Escola Missionária Católica Kilema e depois teve treinamento de enfermagem, recebendo o diploma em 1950. Ela não trabalhou no sistema médico discriminatório do sistema colonial britânico, e limitou-se a trabalhar como secretária.

No contexto da independência, trabalhou na Kilimanjaro Native Cooperative (Cooperativa Nativa de Kilimanjaro) (1955-1957) e se envolveu com a Tanganyika African National Union -TANU  (União Nacional Africana de Tanganyika). Em 1957, suas atividades políticas fizeram com que ela ganhasse uma bolsa da British Trade Union Congress (Congresso Sindical Britânico) para estudar Economia e Política no Ruskin College, em Oxford. Enquanto isto, continuava com as atividades anti-coloniais, participando regularmente de reuniões na Casa da África Ocidental, em Londres. Ela também passou um semestre na Western Michigan University, nos Estados Unidos.

Lameck voltou à Tanzânia em 1960, assumindo funções em diversos setores do governo de Julius Nyerere, criando o secretariado das mulheres da Tanzânia, e ocupando posição no Parlamento. Em 1965, em um discurso, Lameck argumentou que a África tinha riqueza suficiente para se desenvolver e ela apresentou algumas das primeiras formulações sobre independência – um conceito que era central para a ideia de ujamaa – a proposta tanzaniana do socialismo africano. Ela também orientou sua ação contra determinadas práticas tradicionais que considerava opressora para as mulheres, como o casamento arranjado.

Nos vinte anos seguintes, Lucy continuou a ser representante no Parlamento e ocupou pastas como a do Ministério da Saúde (1966-1972), e  propôs medidas legislativas para melhorar a condição das mulheres na sociedade tanzaniana. Ainda hoje é mencionada como modelo para jovens políticas que dão continuidade ao seu trabalho em nome das mulheres e das comunidades rurais do país.

BIBLIOGRAFIA

GEIGER, Susan. TANU Women: gender and culture in the making of Tanganikan nationalism, 1955-1965. Portsmouth:  Heinemann, 1997.

SHELDON, Katleen. “Lucy Lameck”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 464.


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Legenda: Luisa Dias Diogo | World Economic Forum

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Luisa_Dias_Diogo_-_World_Economic_Forum_Annual_Meeting_Davos_2009.jpg. Acesso em: 22 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Organização econômica

Luisa Dias Diogo (1958)

Nascida na Província de Tete, em Moçambique colonial. Frequentou a escola secundária em Maouto realizou o curso superior na Universidade Eduardo Mondlane, formando-se em 1983, e obteve o título de mestra em Economia e Finanças na Universidade de Londres em 1992.

Começou a atuar no Ministério da Economia em 1980, vindo a ocupar postos de direção no período de 1989-1993. Trabalhou temporariamente no Banco Mundial em Moçambique (1993-1994), e retornou ao governo em 1994, nomeada Ministra de Planejamento e Finanças em 1999-2005, e assumiu também o cargo de Primeira-Ministra (2004-2010), sendo a primeira chefe de estado mulher da África austral contemporânea.

Durante a sua atuação como Primeira Ministra, Luisa Diogo elegeu como uma das prioridades de seu governo a questão da paridade de gênero e do empoderamento das mulheres. Criou a Rede das Mulheres Ministras e Parlamentares de Moçambique, rede essa que luta pela defesa e promoção das mulheres a cargos de liderança.

Em 2012 tornou-se presidenta do Barclays Bank de Moçambique e é também participante da African Union Foundation e do Clube de Roma.

BIBLIOGRAFIA

HENDERSON, Frances. Luísa Dias Diogo: gender and political leadership in Mozambique. In: Montecinos, V. (Eds). Women presidents and prime ministers in post-transition democracies. Londres: Palgrave MacMillan – Studies in Political Leadership, 2017.

HENDERSON, Frances. “Luisa Dias Diogo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 208.

HUGHES, M. M.;  Tripp, A. M.. Civil war and trajectories of change in women’s political representation in Africa, 1985–2010. Social Forces, v. 93, n. 4, p. 1513–1540, 2015.

JACOBSON, R.. Women’s political participation: Mozambique’s democratic transition. Gender & Development, v. 3, n. 3, 29–35, 1995.

NZEGWU, N. (2007). The indomitable Luisa Dias Diogo.  JENDA: A Journal of Culture and African Women Studies, v. 10, p. 2-8, 2007.


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Legenda: Mulher negra na Bahia (1835)

Fonte: Biblioteca Nacional Digital Brasil. Disponível em: http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_iconografia/icon94994/icon94994_084.jpg. Acesso em: 19 de jan. de 2021.
Palavras-chave:

Luiza Mahin (século XIX)

Nasceu em data incerta no Golfo da Guiné, em uma comunidade dos povos Mahi – também referenciados como Marrim, Maki, Makim ou Maquim. Este povo falante de língua gbé mesclada ao yoruba, cuja principal organização estatal era o pequeno reino de Savalu, rendia tributo ao estado de Oyó e era uma presa preferencial dos caçadores de escravos do reino de Daomé, e, junto com os povos de Quêto, Sabe e Idaisa, esteve na origem de milhares de pessoas transportadas em cativeiro para o Novo Mundo. Em 1823 a cidade mahi de Kpaloko foi atacada e invadida pelo rei Ghezo do Daomé, que em 1840 ocupou definitivamente o seu território.

Foi este o contexto de aprisionamento de uma cativa cuja existência histórica encontra-se envolvida pela lenda. Na carta escrita a Lúcio de Mendonça (1880), seu filho, Luiz Gama, diz que Luiza, de nação Nagô, era da Costa da Mina, uma africana livre, que sempre recusou o batismo cristão, pagã, uma quitandeira de espírito livre e rebelde, envolvida na revolta dos Malês de 1835 e da Sabinada de 1837 na Bahia, depois estabelecida (por, ou contra a sua vontade) no Rio de Janeiro.

O filho diz que a procurara, em vão, nos anos de 1847, 1856 e 1861, e que a última notícia que tivera dela era que anos antes vivia entre “malungueiros”, isto é, grupos de companheiragem de escravos, metida em atividades condenáveis pela lei da época. Sobre o seu aspecto e índole, afirma: “Minha mãe era baixa de estatura, magra, bonita, a cor era de um preto retinto e sem lustro, tinha os dentes alvíssimos como a neve, era muito altiva, generosa, insofrida e vingativa”.

Pouquíssimos(as) pesquisadores(as) que estudaram os movimentos sociais de que Luiza Mahin participou atestam sua existência devido a ausência de registros históricos, exceção a Arthur Ramos (1956) e José Honório Rodrigues (1961). O historiador Pedro Calmon a idealizou como a rainha que liderou o movimento dos Malês em seu romance intitulado Malês, a insurreição das senzalas (1933) e Ana Maria Gonçalves inspirou nela a protagonista Kehinde, uma princesa sequestrada ainda criança na Guiné e escravizada no Brasil, no romance Um defeito de cor (2006).   

Como quer que tenha sido, Luiza Mahin é lembrada na cultura negra brasileira como exemplo de resistência e determinação, sendo homenageada em músicas, poemas e na literatura de cordel. Em 2002 sua história foi retratada pelo bloco afro Ilê Aiyê, no carnaval de Salvador, o mesmo tendo ocorrido na homenagem que lhe foi feita pelos carnavalescos da Escola de Samba Mangueira, no samba-enredo Histórias para ninar gente grande, com os heróis e heroínas populares que a história não conta.

BIBLIOGRAFIA

GONÇALVES, Aline Najara da Silva. Luiza Mahin: uma rainha africana no Brasil. Rio de Janeiro : CEAP, 2011.

LIMA, Dulcilei da Conceição. Desvendando Luíza Mahin: um mito libertário no cerne do feminismo negro. Dissertação (Mestrado em Educação, Arte e História da Cultura), Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2011. SILVA, Ana Maria Vieira. Um defeito de cor: escritas da memória, marcas da história. Anais do Siliafro, n. 1, 2012: http://www.ileel.ufu.br/anaisdosiliafro/wp-content/uploads/2014/03/artigo_SILIAFRO_4.pdf


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave:

Lúwo Gbàgìdá (séc. XIV)

Participantes ativas das formas arcaicas de organização da comunidade yoruba antiga, as mulheres não aparecem nas listas de reis, porém as tradições orais mantêm relatos de rainhas que detinham autoridade palaciana, sendo distinguidas com o título de anosin, primeiras-esposa dos reis, os quais tinham seu título designado pelo termo osin, Elas eram vistas como a “mãe” da comunidade, enquanto o seu cônjuge era tido como o “pai”.

Segundo os mitos de fundação de Ile-Ifé, os filhos e filhas dos oònis, os reis-sacerdotes que sucederam a Oduduwa, o progenitor mítico dos yorubas, constituíam categorias de príncipes e princesas distinguidos com o título de sòóko. A primeira portadora deste título, segundo as tradições, teria sido uma mulher chamada Núyìn, e quem o detinha dispunha de certas prerrogativas e autoridade. E entre as linhagens das famílias reais o governo podia se concentrar na linhagem feminina.

Embora não seja reconhecida nas listas oficiais dos oònis de Ifé, Lúwo Gbàgìdá é lembrada nas tradições mitológicas como a décima sexta governanta da cidade. Ela teria sido casada com o chefe Obaloran de Ilode, sendo mãe de Adekola Telu, o fundador da cidade e reino de Iwo, na atual Província de Osun. Em seu período de governo é que a cidade teria sido pavimentada, e o trabalho foi realizado por infratores e condenados a penas públicas.  Devido a essa e outras medidas muito rigorosas, quando o seu reinado chegou ao fim, no momento da sucessão o conselho da cidade decidiu por não permitir mais o governo de mulheres.

É provável que o papel do mito de Lúwo Gbàgìdá seja explicar a posterior exclusão feminina nas regras de sucessão monárquica. 

BIBLIOGRAFIA

SALAMI, Ejitoyosi Olayemi. The Complexity and Ironic Nature of Sòókò in Ife Praise Poetry. Africology: The Journal of Pan African studies, v.9, n. 6, p. 73- 84, 2016.

IKIME, O. Groundwork of Nigerian history. Ibadan: Heinemann Educational Books, 1980.


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Legenda: Cena de possessão de um calundu (1630)

Fonte: Slavery Images. Disponível em: http://www.slaveryimages.org/s/slaveryimages/item/1018. Acesso em 24 de jan. de 2021.
Palavras-chave:

Luzia Pinta (século XVIII)

Nascida em data desconhecida na África central, foi escravizada e transportada ao Brasil.

Teria partido de Luanda, ainda pequena, e sem que se saiba como conquistou a liberdade por alforria, vivendo como pessoa livre e detentora de uma pequena propriedade em Sabará, Minas Gerais.

Ainda que para alguns o seu sobrenome, Pinta, pudesse vir a ser um indicativo ao local da origem de seu grupo étnico na África central, a região de Mpinda, na atual República de Angola, o documento de sua alforria foi recentemente encontrado nos arquivos da antiga Vila de Sabará / Comarca de Rio das Velhas, o que comprova ter ela comprado sua própria liberdade. Ao que tudo indica, a nomeação de Luzia Pinta provém do sobrenome dos senhores que lhe venderam a sua alforria, chamados João Pinto Dias e Manoel Pinto Dias, aparentemente, irmãos.

Luzia era sacerdotisa tradicional, com experiência em práticas de cura e participava de rituais coletivos de possessão e transe conhecidos no Brasil colonial como calundu. O termo designa a crença africana na circulação de energia vital entre espíritos dos ancestrais e determinadas pessoas especialmente preparadas para recebê-las em seu corpo, que no antigo reino do Congo e Ndongo eram chamados de xinguilas.

Por meio da possessão ritual por espíritos tais pessoas obtinham a capacidade de fazer previsões, produzir a cura ou administrar venenos que podiam provocar a morte. Estas manifestações, por sua vez, eram associadas pelas autoridades católicas à feitiçaria e idolatria, sendo consideradas criminosas. Foi por isso que, denunciada em 1739 como “feiticeira”, Luzia Pinta foi presa e enviada a Portugal no ano de 1742 para ser julgada pelo Tribunal de Inquisição de Lisboa, onde permaneceu encarcerada no calabouço do “Santo Ofício” durante dois anos, sem que se saiba qual o seu destino.

BIBLIOGRAFIA

LIMA, Douglas. Libertos, patronos e tabeliães: a escrita da escravidão e da liberdade em alforrias notariais. Belo Horizonte: Caravana Editorial, 2020.

MARCUSSI, Alexandre Almeida. Estratégias de mediação simbólica em um calundu colonial. Revista de História, n.  155, p. 97-124, 2006.

MOTT, Luiz. O calundu-Angola de Luzia Pinta: Sabará, 1739. Revista do Instituto de Arte e Cultura, n. 1, p. 73-82, 1994.

SOUZA, Laura de Mello. O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial. São Paulo: Cia. das Letras, 1987.


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Legenda: Luzia Van-Dúnem

Fonte: Wizi-Kongo. O caso de Luzia Inglês Van-Dúnem na luta de libertação e na construção do Estado-Nação. 13 de mai. de 2017. Disponível em: http://wizi-kongo.com/luta-de-libertacao-de-angola/o-caso-de-luzia-ingles-van-dunem-na-luta-de-libertacao-e-na-construcao-do-estado-nacao/. Acesso em: 27 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Luzia Van-Dúnem (1948)

Nascida em Luanda, Luzia Pereira de Souza Inglês Van-Dúnem é  filha de Guilherme Pereira Inglês, um importante pastor metodista que participou dos primórdios da resistência angolana ao colonialismo Português, sendo assinado em 1961.  Este acontecimento trágico influenciou a decisão de Van-Dúnem, ainda adolescente, de se exilar no Congo, em 1964, onde completou o estudo secundário e juntou-se ao Movimento Popular de Libertação de Angola – MPLA em Brazzaville, tornando-se uma das pioneiras da Luta de Libertação Nacional. Ela perdeu vários membros de sua família durante a luta armada, incluindo uma irmã e um irmão – mortos na década de 1960.

Entre 1964 e 1967, Van-Dúnem esteve em Kinshasa (República Democrática do Congo) com o MPLA, e depois em Brazzaville (República do Congo), onde recebeu instruções para ser combatente. Passou a maior parte da luta armada na província Moxico (Angola) ministrando aulas de alfabetização. Identificada nos documentos da polícia política portuguesa, a PIDE, pelo pseudônimo de “Nina”, recebeu instrução militar e treinamento técnico especializado em curso de rádio e telecomunicações realizado na União Soviética (1969-1970). 

Com a formação técnica recebida no exterior, teve destacada atuação nos setores de logística, organização financeira e inteligência militar. Em 1973 foi designada como Chefe de Comunicações de Cassamba e logo passou a chefiar todas as comunicações do MPLA em Dar-es-Salaam (Tanzânia). Com a independência, foi a chefe de gabinete do Centro de Comunicações do Governo de Agostinho Neto. E a partir de 1979 ocupou postos estratégicos no governo de José Eduardo dos Santos. Neste período, transformou o Centro de Telecomunicações em um órgão específico de gestão e refinamento de informações de caráter militar.

Entre 1991-1999 acompanhou o marido, que é um diplomata, em serviços de representação da República de Angola na ONU, onde coordenou o Grupo de Mulheres Africanas naquela instituição. De retorno ao país, foi eleita Secretária Geral da Organização da Mulher Angolana – OMA, a ala feminina do MPLA criada em 1961, tomando uma série de iniciativas para que a representatividade das mulheres fosse ampliada no governo.

Em 2014 tornou-se a primeira mulher a ser promovida ao posto de oficial General, e em 2017 foi eleita para a Assembleia Nacional como deputada.

BIBLIOGRAFIA

BATSÎKAMA, Patrício. A mulher na Luta de Libertação e na construção do Etado-nação em Angola: o Caso de Luzia Inglês Van-Dúnem. História, n. 3, 2017: https://www.historia.uff.br/cantareira/v3/wp-content/uploads/2017/05/e25a06.pdf

MATEUS, Dalila Cabrita. Luzia Inglês: Antiga guerrilheira, dirigente da OMA, Angola. In:  Memórias do Colonialismo e da Guerra. Porto, Portugal: Edições ASA, 2006, p. 427-443.

REDVERS, Louise. Politics-Angola: a  tradition of strong women. IPS News, 2008: http://www.ipsnews.net/2008/11/politics-angola-a-tradition-of-strong-women/

SHELDON, Katleen. Luzia Ván-Dunem”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 112-113.


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Legenda: M'Balia Camara

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/ File:M%27Balia_Camara_Guinean_freedom_icon.png. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

M’balia Camara (1929-1955)

Nasceu em uma família de camponeses da Baixa Guiné, na aldeia de Posseya.

Foi ativista anticolonial  na cidade de Tondon em meados de 1950, quando liderou o comitê local de mulheres pelo Rassemblement Democratique Africain – RDA (Ajuntamento Democrático Africano).

O chefe local, Almamy David Sylla, se opunha aos propósitos do RDA. Quando ele chegou na cidade de Bembaya em 1955 para cobrar impostos, mandou prender Thierno Camara, o marido de M’Balia,  e outros ativistas que o criticavam.  Apoiadores tentaram libertá-los mas foram rechaçados violentamente.

A casa da família Camara também foi invadida e M’balia, que estava grávida, foi atingida e teve ferimentos graves no estômago. Ela foi transferida para o hospital Bally, em Conakry,  onde deu à luz um bebê prematuro e morreu sete dias mais tarde. Muitas pessoas se juntaram ao seu funeral, e seu corpo foi carregado pelos líderes do RDA desde o hospital até o cemitério.

A imagem de M’Balia Camara se tornou uma referência da luta anticolonial para o RDA, e ela é considerada uma heroína nacional que sacrificou a vida na luta pela independência. A data de sua morte, 9 de fevereiro, é considerada o Dia da mulher na Guiné, em sua memória.

BIBLIOGRAFIA

CAMARA, Idiatou. La contribution de la femme (1945-1958) (Mémoire de fin d’études supérieures). Conakry: IPGAN, 1979.

SCHMIDT, Elizabeth. “M’Balia Camara”.  In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 28.

SCHMIDT, Elizabeth. Cold War and decolonization in Guinea, 1946-1958. Athens: Ohio University Press, 2007.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:

Maame Harris Tani (1870-1958)

 Profetisa e co-fundadora da Igreja dos Doze Apóstolos, nasceu na região litorânea da Costa do Ouro, na atual República de Gana, entre o povo Nzima. Seu nome original, Maame Tani, significa, literalmente “nascida de Tano”, em referência ao fato de ter sido entregue à divindade protetora dos rios chamada Nana Tano. Quando se tornou adolescente, ganhou notoriedade local como sacerdotisa da deusa Tano por sua grande habilidade em invocar e ser possuída por espíritos.

No início do século XX, associou-se, junto com Papa Kwesi John Nackabah, aos seguidores e promotores das idéias difundidas pelo profeta William Wade Harris, fundador de um movimento cristão de massas na Libéria que de 1910 a 1914 se difundiu pela Costa do Marfim e Costa do Ouro. Logo após serem convertidos, ambos se tornaram “apóstolos” do profeta, sendo considerados “irmão” e “irmã”, e fundaram uma comunidade religiosa que mesclava elementos da espiritualidade cristã com rituais de possessão e de transferência de poder, conhecido como “trabalho espiritual” (Sunsum edwuma), realizado com água em bacias preparada por Maama Tani na década de 1920.

 Vista com desconfiança pelas autoridades coloniais e missionários cristãos, e considerada como uma “seita fetichista”, o movimento ganhou grande popularidade. A Igreja dos Doze Apóstolos persiste até a atualidade como movimento religioso independente em Gana, sendo frequentada principalmente por mulheres.

BIBLIOGRAFIA

BREIDENBACH, Paul S..  Maama Harris Tani and Papa Kwesi John Nackabah: independent church leaders in the Gold Coast, 10914-1958. The International Journal of African historical Studies, v. 12, n. 4, p. 581-614, 1979.

HACKET, Rosalind. Women and new religious mouvements in Africa. In: KING, Ursula (Ed.). Religion and gender. Oxford: Blackwell, 1995, p. 257-283.

STEEGSTRA, Marijke. “Maame Harris Tani”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p.  504-505.


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Legenda: Caixão de Maatkare Mutemhat

Fonte: Center for Egyptological Studies of the Russian Academy of Sciences. 17 de jan. 2017. Flickr: CESRAS. Disponível em: https://flic.kr/p/4Jfn71. Acesso em: 27 de dez. 2020.
Palavras-chave:

Maatkare Mutemhat (século XI a.C.)

Filha do sumo sacerdote de Amon Pinedjem I, que por volta de 1070 a.C. era o governamente de fato do Alto Egito e se proclamou faraó com o nome de Neferquerés I (Neferkare Amenemnisu) (1051-1047 a.C.). Sua mãe era Duathathor Henuttawy, filha de Ramsés XI, o último governante da 20ª dinastia. Outra mulher conhecida pelo nome de Maatkare viria a ser esposa de Osorkon I, da 22ª dinastia.

Maatkare recebeu o título de “adoradora divina”, sendo ritualmente entregue como  a esposa de Deus de Amon durante o reinado de seu pai. Veio a ser a primeira de uma série de governantas que herdaram essa função e esse título, que ela própria transmitiu à sua sobrinha,  Henuttawy D, filha de seu irmão, o Sumo Sacerdote de Amon Menqueperré (Menkheperre).

Várias de suas representações são conhecidas: ela foi retratada como uma jovem no templo de Luxor, junto com suas irmãs Henuttawy e Mutnedjmet.  Também aparece como alta sacerdotisa na fachada de um  templo em Karnak. Embora o local de seu sepultamento permaneça desconhecido, sua múmia foi encontrada em Deir el-Bahri em 1881,  junto com o seu sarcófago e outros de sua família.

BIBLIOGRAFIA

AYAD, Mariam. God’s wife, god’s servant: the god’s wife of Amun (ca.740–525 BC). New York: Routledge, 2009.

GRAHAM, Lloyd D. King’s daughter, god’s wife: the princess as high priestess in Mesopotamia and Egypt, 2017:

https://www.academia.edu/34248896/King_s_Daughter_God_s_Wife_The_Princess_as_High_Priest ess_in_Mesopotamia_Ur_ca._2300-1100_BCE_and_Egypt_Thebes_ca._1550-525_BCE_


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Legenda: Maaza Mengiste | Foto: Rhododendrites

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Maaza_Mengiste_at_BookExpo_(05586)_(cropped).jpg. Acesso em: 15 de dez. de 2020.

Maaza Mengiste (1974)

Nascida em Adis Abeba, capital da Etiópia, deixou o país aos quatro anos de idade quando sua família fugiu da Revolução Etíope. Ela passou o resto de sua infância na Nigéria , Quênia e Estados Unidos. Realizou os estudos de pós-graduação na Itália e concluiu um  mestrado em escrita criativa na  Universidade de Nova York.

Maaza Mengiste é escritora de ficção e não-ficção, e seus trabalhos tratam de questões relativas aos problemas sociais que envolvem as migrações, a situação dos imigrantes subsaarianos na Europa e os problemas políticos de seu país. Seu primeiro romance, Beneath the lion’s gaze (Sob o olhar do leão), retrata a história de uma família vivendo os anos tumultuados e sangrentos da revolução socialista etíope.

Como docente ela atuou como professora convidada em diferentes programas de pós-graduação, em cursos de escrita criativa, no Queens College, Universidade da Cidade de Nova York e no Lewis Center for the Arts da Universidade de Princeton. Ela participa de organizações de defesa dos direitos humanos, sendo filiada ao Young Center for Immigrant Child Rights.

BIBLIOGRAFIA

ASFAW, Zerihun. Stories of women in the novels of selected ethiopian women writers. Ethiopian Journal of Languages and Literature,, v. 12, n. 2,  p. 115-139, 2012.

MENGISTE, Maaza. Creative writing as translation. Callaloo, v. 35 n. 4, p. 939-943, 2012.


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Legenda: Mabel Dove Danquah

Fonte: Retrato utilizado na capa do livro “Selected Writings of a Pioneer West African Feminist”, Trent Editions. AZIKIWE, Abayomi. 05 de jul. 2010. Flickr: Abayomi Azikiwe. Disponível em: https://flic.kr/p/8gbh9e. Acesso em: 23 de dez. 2020.
Palavras-chave: Jornalistas

Mabel Dove Danquah (1905-1984)

Jornalista, escritora, nacionalista e ativista política e de gênero em Gana. Pertencia a uma família influente de Serra Leoa e aos  seis anos frequentou a prestigiada Annie Walsh Memorial School, a escola de meninas mais antiga do país. Depois de sua formação primária e secundária foi para a Inglaterra, onde frequentou o Anglican Covenant, em Bury, e o St. Michael College, além de cursar secretariado no Gregg Comercial College. Casou-se com o advogado e jurista Joseph Boakye Danquah.

Começou sua carreira jornalística como freelance, mas logo sua escrita com elegância e estilo rebuscado chamou a atenção dos editores, sendo contratada para o periódico Times of West África (1931-1935). Nas décadas seguintes, escreveu para os mais importantes jornais e revistas, como o Nigerian Daily Times, The African Morning Post e o Accra Evening News.

Na década de 1950, durante o processo de independência da então Costa do Ouro, ela já atuava como jornalista e escritora, e defendeu em seus textos o Partido da Convenção do Povo – CPP, mostrando-se favorável às idéias de Kwame Nkrumah. Embora não pertencesse formalmente ao partido, defendeu os ideais da independência em artigos publicados no jornal Accra Evening News sob o pseudônimo de Akosua Dzatsui.

Mabel foi a primeira mulher a ser eleita em uma candidatura, em 1954, para o Conselho da cidade de Accra, e defendeu as necessidades básicas de seus eleitores, lutando por melhorias de condições de vida e pela promoção da educação de meninas e o empoderamento das mulheres.

Apesar de ter obtido expressiva liderança, Mabel não voltou a ser indicada pelo partido em 1956. Ela porém continuou ativa no jornalismo político, explorando as poucas possibilidades reservadas às mulheres na vida pública durante o período em que viveu. 

BIBLIOGRAFIA

DAWUNI, Josephine. “Mabel Dove Danquah”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 165-167.

GADZEKPO, Audrey. The hidden history of gender in Ghanain print culture. On: OYEWUMI, Oyeronke (Ed.). African gender studies: a reader. Nova Iorque: Palgrave Macmillan, 2005, p. 279-296.

NEWELL, Stephanie; GADZEKPO (Eds.). Mabel Dove-Danquah: selected writings of a pionner west african feminist. Nottingham: Trent Editions, 2004.


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Legenda: Madina Ly-Tall

Fonte: Archivio storico della Presidenza della Repubblica. 01 de out. de 1996. Disponível em: https://archivio.quirinale.it/aspr/fotografico/PHOTO-004-034198/presidente/oscar-luigi-scalfaro/madina-ly-tall-nuovo-ambasciatore-della-repubblica-del-mali-presentazione-lettere-credenziali#n. Acesso em: 22 de dez. de 2020.

Madina Ly-Tall (1940)

Nascida em Bandiagara, Mali, de uma família influente na área cultural fula, de descendência do líder El-Hadj Omar Tall, o fundador do Império Tuculer no século XIX. Estudou em Koutiala (1947-1952) e no colégio para meninas de Bamako (1956). Realizou a formação universitária na França, na Universidade de Toulouse, e obteve doutorado em História na Universidade de Sorbonne sob orientação de Raymond Mauny (1972).

Na década de 1960 Madina lecionou em diversos colégios em Bamako, e nos anos 1970 participou do comitê internacional da UNESCO para a redação da coleção História Geral da África. Junto ao Institut Fondamental de l’Afrique Noire (Instituto Fundamental da Áfria Negra) (IFAN), publicou Contribution à l’histoire de l’Empire du Mali, XIIe-XVIe siècles: limites, principales provinces, institutions politiques   (Contribuição à História do Império do Mali, séculos XII e XVI: limites, províncias principais, instituições políticas (1977), e Un Islam militant en Afrique de l’Ouest au XIX siecle (Um islã militante na África ocidental do século XIX (1991). Junto com a socióloga Achola Pala, é autora da do livro pioneiro publicado no âmbito de um programa de pesquisa da UNESCO: La femme africaine dans la société precoloniale (A mulher africana na sociedade pré-colonial) (1979). 

Desde 1958 Madina Ly se envolveu na vida política, participando do Partido da Independência Africana e enquanto esteve na França fez parte dos quadros da Federação de Estudantes da África Negra (1965).

No início da década de 1970 ela integrou o movimento de oposição ao regime militar vigente no Mali no governo de Moussa Traoré, motivo pelo qual foi forçada a se exilar no Senegal. Retornou ao país em 1991, quando foi nomeada vice-presidente da Assembléia Nacional para a elaboração de uma constituição democrática. Teve participação ativa na campanha que levou o historiador Alpha Oumar Konaré à presidência em 1992, e atuou como diplomata representando o seu país no exterior.

BIBLIOGRAFIA

KONARÉ, Adama Ba. La recherche en Afrique, le domaine de l’histoire: de la période coloniale française à nos jours, état des lieux dans l ecas du Mali. In: VVAA. Cent ans d’Histoire des Outres mers. Paris: Société Française d’Histoire des Outres Mers, 2013, p. 635-645.

PALA, Achola; LY, Madina. La mujer africana en la sociedad precolonial. Barcelona: Serbal; UNESCO, 1982: https://unesdoc.unesco.org/images/0004/000402/040262sb.pdf


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Legenda: Magdalene Odundo | University for the Creative Arts

Fonte: Widewalls | Modern & Contemporary Art Resource. Disponível em: https://www.widewalls.ch/artists/magdalene-odundo. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Área swahili

Magdalene Odundo (1950)

Integrante do povo Anyanyala, um subgrupo do povo Abaluya, nasceu em Nairobi, filha de um jornalista, sendo educada no Quênia e em Nova Delhi, na Índia. A paixão do pai pelo jazz estimulou a jovem Magdalene a apreciar a arte. Após o ensino secundário, concluído em 1968, passou a atuar como designer gráfica enquanto estudava arte comercial na Nairobi Polytechnic, e em 1971 passou a estudar arte e tecnologia na Cambridge College of Art.

Desde o início da carreira tomou gosto pelas artes cerâmicas, estagiando no atelier de Bernard Leach na Cornualha, Escócia. Baseado nos princípios da simplicidade e pureza formal, sua cerâmica de inspiração asiática exerceu influência sobre ela. Em 1974-1975 esteve na Nigéria, visitando o Centro de Treinamento em Cerâmica em Abuja, onde estudou técnicas tradicionais de cerâmica feitas à mão. Ela também viajou para o Novo México, e de 1976-1979 retornou à comunidade britânica, onde obteve o Mestrado no Royal College of Arte, e no mesmo período atuou como docente de artes plásticas.

Em suas obras, observa-se o interesse pelas formas naturais. Muitos dos vasos criados por Odundo lembram a forma humana, geralmente seguindo as curvas da coluna, estômago ou cabelo.  Além disso, a forma de expressão de seus vasos é simbólica do corpo feminino; uma de suas peças mais famosas é um vaso preto e ocre, com base curva e pescoço alongado, semelhante à mulher grávida. 

Desde a década de 1970 suas obras eram expostas em museus de arte na Inglaterra, Oceania e América do Norte, mas o reconhecimento na cena internacional se consolidaria durante a década de 1980, onde ela se destaca como criadora de arte moderna e pós-moderna em que se combinam complexidade, refinamento e elegância formal. Nesse sentido, sua obra desafia as categorizações e extrapola rótulos, sendo incluída em exposições internacionais contemporâneas no British Museum de Londres e no Metropolitan Museum of Arts.  

BIBLIOGRAFIA

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JEGEDE, Dele. Magdalene Odundo. In: Contemporary african art: five artists, diverse trends. Indianapolis: Indianapolis Museum of Arte, 2000.

SLAYTER-RALPH, Anthony. Magdalene Odundo. Aldershot: Lund Humphries, 2004.

YOUMANS, Joyce. “Magdalene Odundo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 03-04.


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Legenda: Magodonga Mahlangu | Brett Roberts / AI UK

Fonte: Amnesty International. 17 de nov. de 2012. Flickr: Amnesty International UK. Disponível em: https:// flic.kr/p/dyyBZw. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Magodonga Mahlangu (1972)

Ativista dos direitos humanos e das mulheres, nasceu na cidade de Bulawayo, na província de Matebeleland, Zimbabwe. Cresceu em um subúrbio bastante pobre e populoso, onde completou seus estudos até o ensino médio. Apesar de Magodonga não ter tido formação acadêmica na área de Direitos Humanos, sua vivência em Bulawayo foi o suficiente para que se sentisse capaz de criticar e de agir.

Logo começou a trabalhar como administradora esportiva em Matebelelândia, uma região que depois da independência do país ficou para trás, significativamente precarizada em relação a escolas, hospitais, moradia, direitos básicos. Ela se indignava com a marginalização dos atletas, buscando fora de seu local de trabalho outros espaços de fala apropriados para denunciar as injustiças socias que acometiam o Zimbabwe.

Em 2003, conheceu outras mulheres – incluindo Jenniffer Williams e Sheba Dube- que buscavam realizar um trabalho de base quanto aos direitos das mulheres. Nessa época o país se encontrava no ápice de uma crise econômica e de direitos civis. Após alguns encontros, elas fundaram o grupo Women of Zimbabwe Arise – WOZA (Mulheres do Zimbabwe se Levantam), com o principal objetivo de protestar contra o clima de deterioração política e econômica que afetava desproporcionalmente as mulheres e as colocavam na posição de vítimas de violência e em condição de pobreza crônica. Atualmente Mahlangu é a diretora da organização.

Como um grupo de atuação de base comunitária, liderado por mulheres, a WOZA esteve na linha de frente na luta em prol dos direitos humanos e das mulheres, chegando a angariar mais de 75.000 membras no país. A forma de protesto dessas mulheres é a não-violência, com demandas de melhores escolas, hospitais, garantia de direitos, um governo responsável e eleições livres. Em 13/11/2009 Magodonga Mahlangu recebeu um prêmio do ex-presidente Barack Obama na Casa Branca, em Washington.

BIBLIOGRAFIA

FRANK, Liz. From good victims to victors women of Zimbabwe Arise. Sister Namibia, v. 21, n. 4-5, 2009.

BAUMGARTEN, Robin. WOZA and the People’s Charter: fighting for social justice in Zimbabwe. Sister Namibia, v. 19, n. 2, 2007.

BALANCE, Gladys; Mapuranga, Barbra; Musodza, Blessing. With women in mind: are they passive victims or active agents of civil strife? Reflections from the fast track land reform era in Zimbabwe. Research on Humanities and Social Sciences, v. 5, n. 20, 2015: http://citeseerx.ist.psu.edu/viewdoc/download?doi=10.1.1.1003.9196&rep=rep1&type=pdf

MUNOCHIVEYEm Munyaadzi. “Magodong Mahlangu”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 41-43.


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Legenda: Mai Chaza

Fonte: Muzi Ka Nkulunkulu. Disponível em: http://www.muzikankulunkulu.com/history-of-the-religion/. Acesso em 27 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Líderes religiosas

Mai Chaza (1914-1960)

Líder religiosa e profeta da Rodésia do Sul, atual República do Zimbabwe, fundadora da igreja Guta ra Jehova em 1950. Seu nome era Thereza Nyamushanya, nasceu na aldeia do Chefe Chitsunge e iniciou sua vida religiosa junto aos metodistas americanos, o que lhe conferiu distinção social em relação às mulheres das áreas urbanas e rurais.

De acordo com os registros do Sínodo Metodista, Mai Chaza passou a viver com uma família metodista na cidade de Highfield após a morte de seu marido. Enquanto vivia em Highfield ela passou por uma experiência semelhante à de muitos profetas religiosos do sudeste da África: depois de um incidente de quase morte, ela milagrosamente voltou à vida anunciando que tinha ido ao Céu, se reconciliado com sua cunhada e conversado diretamente com Deus.

Mai Chaza, mãe de seis filhos, depois daquele incidente de conversão se reuniu com os líderes metodistas da região, pedindo para pregar nas comunidades próximas, o que foi recusado pelos líderes, todos homens. Então, em 1954, ela seguiu a “missão divina” a qual foi incumbida, inaugurando o seu próprio centro de cura e oração na comunidade de kendaka, na região  de Mashonalândia, a cerca de 160 km ao sul de Harare. Ela deu o nome à comunidade de Guta ra Jehova, ou “Cidade de Deus”, e passou a ser reverenciada como Mai Muponesi, a “Mãe Salvadora”.

As notícias logo se espalharam sobre os seus poderes de cura, principalmente no caso de mulheres inférteis engravidaram, entre outros. Alguns meses depois centro já contava com mais de 600 habitações e em torno de 2.500 seguidores. Na comunidade, as crenças do cristianismo metodista foram associadas com as práticas de cura das religiões tradicionais africanas.

Muito criticada pelos cristãos metododistas, a igreja fundada por Mai Chaza, integra o grande movimento de irradiação do cristianismo africano, que se baseia fortemente em bases carismáticas. Como poderosa vidente e profeta, e com grande capacidade de liderança, ela conferiu cidadania e dignidade aos seus(uas) seguidores(as), e a sua fama atraiu inclusive pessoas da elite sul-rodesiana. Quando ela morreu, acreditava-se que seu espírito reencarnou em Taxwell Tayali, de origem zambiana, porém o número de adeptos e seguidores tendeu a diminuir.

BIBLIOGRAFIA

ANDERSON, Allan. African reformation: african initiated christianity in he twentieth century. Trenton: Africa World Press, 2001. 

MOSS, Barbara. Mai Chaza and the politics of motherhood in colonial Zimbabwe. In: HIGGS, C.; MOSS, B.; FERGUSON, E. R. (Eds.).  Stepping forward: black woman in Africa and the Americas. Athens:  Ohio University Press, 2002.

SCARNECCHIA, Timothy. Mai Chaza’s Guta ra Jehova (City of God): healing, reproduction, and urban identity in an african independente church. Journal of Southern African Studies, v. 23, n. 1, p. 87-105, 1997.

SCARNECCHIA, Timothy. “Mai Chaza”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 46-48.


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Legenda: Representação cristã europeia da Rainha de Sabá (1402-05)

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:BlackSheba-Text.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Makedda (século X a.C.)

Também referenciada em textos euro-cristãos como Rainha de Sabá, e em registros árabes como Bilqis.  No Novo Testamento, é mencionada como Rainha do Sul (Math 12:42;  Luc 11:31). Mesmo as origens do nome não muito certas, alguns pesquisadores acreditam que o nome Makedda derive do termo “Macedônia” enquanto outros conectam com o termo Candácia (rainha-mãe).

Ultimamente, todas as histórias sobre Makedda, mesmo com diferentes nomes, podem ser traçadas através da Bíblia dos Hebreus, com passagens quase idênticas em Reis 10:1-13 e Crônicas 9:1-12, onde a visita da Rainha de Sabá ao reino de Salomão em Israel é descrita. A rainha, tendo ouvido falar da grandeza de Salomão, é aconselhada a visitá-lo e presenteá-lo com temperos, ouro e pedras preciosas.

Na tradição etíope, Makedda é apresentada como uma rainha poderosa que, atraída pela sabedoria de Salomão, lhe rende visita. Antes de retornar o rei, por um ardil, vive com ela uma noite de amor, e quando ela retorna ao seu reino concebe um filho, Menelik, que é o fundador da dinastia real etíope. Os pormenores deste episódio lendário aparecem detalhadamente descritos em um texto do final do século XIV, redigido em geez, a escrita antiga abissínia que leva o nome Kebra Nagast (O livro da Glória dos Reis).

Já em outras tradições o encontro entre Salomão e a Rainha de Sabá é descrito de modo menos detalhado, e ela aparece como sedutora e insistente, a qual Salomão vence as investidas com sua superioridade. Na versão árabe, ela é descrita inclusive como demoníaca, com pernas de animal. Em todo caso, todas as histórias se preocupam com o status anômalo de uma mulher muito poderosa.

Entretanto, nem todas descrições são negativas. Algumas tradições a apontam como uma ancestral de um dos magos que visitam Jesus Cristo na manjedoura. A identidade nacional e racial de Makedda também é alvo de muitos debates e especulações, pois além da associação prévia com a Etiópia, ela também foi conectada ao Iêmen, Senegal, Núbia, Oriente Médio e Europa.

Lembrada em poemas, romances, musicais, e sobretudo no cinema, em 1959 ela foi retratada em um filme por Gina Lollobrigida, uma atriz branca, mas em dois filmes mais recentes (1995 e 1997) a personagem foi interpretada por Vivica Fox e Halle Berry, atrizes negras.

BIBLIOGRAFIA

BUDGE, Ernest A. Walis. The queen of Sheba and herr only son Menyelek. Londres: Oxford University Press, 1932.

KAPLAN, Stephen. “Makkeda”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 55-56.

LASSNER, Jacob. Demonizing the Queen of Sheba: boundaries of gender and culture in postbiblical judaism and medieval islam. Chicago: Univesity of Chicago Press, 1993. 

MACEDO, José Rivair. A rainha de Sabá e os mitos cristãos da Etiópia. Revista da Semana da África na UFRGS, v. 4, p. 10-15,  2017: https://issuu.com/deds-ufrgs/docs/revista_montada-m__dia

PRICHARD, James Benneth (Ed). Salomon and Sheba. Londres: Phaidon, 1974.


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Legenda: Makhetha Mantsopa

Fonte: Sunday Times. Resolute prophet lives on as a 'saint'. 05 de nov. de 2006. Disponível em: https://www.pressreader.com/south-africa/sunday-times-1107/20061105/282454229489986. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Povo Soto

Makheta Mantsopa (1793-1908)

Nasceu em Koena-li-fule, na região ocidental da área central do rio Caledônia, na atual África do Sul. Foi uma renomada vidente e curandeira do povo Soto, que habitava territórios das atuais África do Sul e Lesoto. Como era talentosa contadora de histórias, seu nome pessoal (Makheta) ficou associado ao do contador de lendas chamado Ntsopa.

Por volta de 1840 ela já era famosa por suas adivinhações sobre o destino das guerras travadas por seu povo contra o exército inglês às margens da Caledônia. Ela afirmava  que se os Basotho se unissem e fortalecessem suas tradições conseguiriam resistir aos colonizadores. Protestava contra os missionários cristãos enquanto viajava pelas terras do rei Moeshoeshoe I, que era seu primo, alertando e fazendo previsões.

Sua fama de vidente aumentou quando Maketa anunciou que as tropas de Moeshoeshoe iriam derrotar dois pelotões de Major Warden em Viervoet, em junho de 1851, e que depois derrotariam outra invasão em dezembro de 1852. Ela também especificou em 1853 onde ficavam as fortalezas de Sekonyela, um antigo inimigo do rei. A profecia de Viervoet foi a mais famosa porque ela anunciou uma chuva torrencial que realmente aconteceu durante a batalha. Além disso, uma derrota dos Basoto também foi prevista, em 1865, mas a essa altura Mantsopa estava ocupada se reconciliando com os missionários. Não mais os excomungava, mas louvava suas ações de caridade e a dedicação ao seu salvador, Jesus Cristo.

Embora não haja nenhum registro, Mantsopa parece ter-se convertido ao cristianismo em 1870, um dia depois do falecimento de Moeshoeshoe. Aparentemente ela se tornou uma anglicana bastante ativa, com diversas funções dentro da igreja. Os anglicanos a viam como uma “profetisa” que auxiliou estabelecer o pacto cristão entre os povos Soto. Seu nome de batismo passou a ser Anna Makheta, e quando morreu, foi queimada na seção branca do cemitério, ganhando uma tumba de estilo gótico. No imaginário popular, os poderes da época pré-cristã de Mantsopa têm ligação direta com o fato dela ter sido uma importante matriarca na igreja.

BIBLIOGRAFIA

CASALIS, Eugene. The Basutos, or twenty-three years in South Africa. Cape Town: C. Struik, 1965.

COPLAN, David. “Mantsopa” In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 91-92.

GERMOND, Robert. Chronicles of Basutoland: a running commentary on the events of the years 1830-1902. Morija: Morija Sesuto Book Depot, 1967.


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Legenda: Malak Hifni Nasif

Fonte: Women of Egypt Mag. Egyptian Women in the Workforce: Then and Now. 17 de out. de 2018. Disponível em: https://womenofegyptmag.com/2018/10/18/egyptian-women-in-the-workforce-then-and-now/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Feminismo islâmico Poetisas

Malak Hifni Nasif (1882-1918)

Escritora feminista histórica egípcia, nasceu em uma família bem situada economicamente. O pai foi professor e funcionário público e a mãe, educada em casa, foi uma leitora vivaz e tinha grande interesse por assuntos públicos. Malak foi a primeira mulher egípcia a obter o diploma primário de uma escola estatal (1900). Lecionou na escola Saniyyah, instituição governamental dedicada à educação de mulheres.

Aos treze anos de idade começou a escrever poemas na escola, e sua escrita expressava o sentimento nacionalista e anticolonial, pois sua família era contrária ao domínio otomano no Egito. Ganhou maior reconhecimento quando começou a escrever no jornal progressista al-Jaridah, fundado em 1907. Sua coluna al-Nisa’iyyat (Preocupações de/sobre mulheres), atraiu muitos leitores que tinham interesse pelas questões de gênero, bem como pessoas preocupadas com a libertação de uma nação colonizada. Nela Malak criticava os homens “progressistas” que restringiam a oportunidade de educação às meninas, que praticavam a poligamia; e refletia sobre o casamento moderno e sobre a vestimenta das mulheres.

Defendia uma reforma drástica nas leis egípcias e a abolição da poligamia e ela própria sofreu a opressão conjugal, pois o marido tinha outras esposas. Ela era especialmente contrária à prática do casamento com meninas menores de idade e acreditava na educação como pré-requisito para a tomada de decisões por parte das mulheres e a aquisição das condições necessárias para sua autodefinição. Preocupava-se em particular com as mulheres pobres das cidades do Cairo e Fayyum.

Nasif morreu jovem e sua morte foi amplamente lamentada em toda a imprensa.

BIBLIOGRAFIA

BOOTH, Marilyn. Biography and feminist rethoric in early twentieth-century Egypt: Mayy Ziyadah’s Studies of Three Women’s Lives. Journal of Women’s  History, v. 3, n. 1, p. 39-64, 1991.  

BOOTH, Marilyn. “Malak Hifni Nasif”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 396-398.

YOUSEF, Hoda.  Malak Hifni Nasif: negotiations of a feminist agenda between the european and the colonial. Journal of Middle East Women’s Studies , v. 7, n. 1, p. 70–89, 2011: https://doi.org/10.2979/jmiddeastwomstud.2011.7.1.70


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Legenda: Malika al-Fassi

Fonte: Aujourd'hui le Maroc. Malika El Fassi, symbole du patriotisme. 15 de mai. de 2007. Disponível em: https://aujourdhui.ma/societe/malika-el-fassi-symbole-du-patriotisme-49543. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Malika al-Fassi (1919-2007)

Primeira jornalista marroquina e pioneira do feminismo em seu país. Nasceu  no seio de uma família da elite da cidade de  Fez durante o período colonial francês.  Devido a sua condição privilegiada teve acesso aos melhores professores locais, tornando-se um brilhante estudante, e já questionava o motivo de seus irmãos poderem ir à escola enquanto as mulheres recebiam educação dentro de casa, sobre assuntos da vida doméstica.

Aos quinze anos escreveu o primeiro artigo em que defendia o direito das mulheres marroquinas a ter boa educação, sendo o texto publicado na revista al-Maghrib (1935). Ao fazê-lo, tornou-se não só a primeira mulher jornalisa, mas também a pioneira no movimento feminista moderno de seu país. 

No período de 1935-1943 Malika produziu diversos artigos acerca do acesso das mulheres ao ensino formal, e um deles, O renascimento da mulher marroquina, tratava da educação da princesa Lalla Aicha. Em 1947 ela criou o movimento de mulheres dentro do Istiqlal, o partido que advogava a independência do Marrocos, dando continuidade à bandeira da educação feminina. Também lutou pelo direito das mulheres ao voto. Embora muito ativa em todo o período da emancipação, nunca recebeu nenhuma proposta de participação em órgãos governamentais.

Nas décadas seguinte deu continuidade ao seu ativismo social e feminista, e além disso criou e lecionou em centros de alfabetização em várias cidades, sendo co-fundadora da Liga Marroquina de Educação Básica. Atuou até o fim da vida em uma associação de meninas órfãs.

BIBLIOGRAFIA

AKHARBACH, Latifa; Rerhaye, Narjis. Femmes et Politique. Casablanca: Editions le Fennec, 1992.

BAKER, Alison. Voices of Resistance: oral histories of moroccan women. Albany: State University of New York Press, 1998.

CASIELLES, Laura. Malika el Fassi, uma pioneira de la intersección entre la lucha anticolonial y el feminismo. Abaco: Revista de Cultura y Ciencias Sociales, n. 100, p. 70-75, 2019: https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=7219293  

GLACIER, Osire. “Malika al-Fassi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 354-356.


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Legenda: Malika Assimi

Fonte: Centre de Développement de la Région Tensift. Disponível em: https://www.cdrtmarrakech.org/presentation-du-livre-memoires-de-m-bensaid-ait-idder/. Acesso em: 22 de dez. de 2020.

Malika Assimi (1946)

Nascida em Marrakech, seu pai, Abdelkader Hassan, teve participação destacada na independência do Marrocos. Como ele, Malika Assimi desde cedo demonstrou interesse pela poesia, o que viria a se afirmar em sua juventude.

Proeminente intelectual e acadêmica, criou na década de 1970 a revista Al-Ikhtiar (A Opção), lecionou na Universidade de Marrakech e no Instituto Universitário de Investigação Cientifica de Rabat. Explorando sua inspiração como poetisa, escreveu Écritures hors des murailles du monde (Escritos fora das muralhas do mundo) e Le sang du soleil (O sangue do sol), e formulou uma crítica social ao conservadorismo vigente no ensaio La femme et la problematique de la démocratie (A mulher e o problema da democracia).

Engajada nas questões de seu tempo, Malika se envolveu nas questões políticas do país. Ingressou no partido L’Istiqlal, do qual veio a fazer parte do comitê executivo, e pelo qual foi eleita como deputada, uma das únicas do Marrocos.

BIBLIOGRAFIA

 JAY, Salim. Dictionnaire des écrivains marocains. Casablanca; Paris: A. Retnani; Éd. Paris-Mediterranée, 2005.


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Legenda: Mame Diara Bousso

Fonte: GSCom. MAME DIARRA BOUSSO UN EXEMPLE ACHEVÉ DE SAINTETÉ. 28 de mar. de 2019. Disponível em: https://www.gscom.sn/blog/magal-porokhane2019-141. Acesso em: 29 de dez. de 2020.

Mame Diara Bousso (século XIX)

Figura sagrada, cultuada por ser a mãe de Cheikh Amadu Bamba (1850-1927), o fundador do Muridismo, uma religião de raízes sufista e islâmica muito difundida no Senegal.

Os muridistas fazem anualmente peregrinagens até a tumba de Mame Diara, na cidade de Porokhane. Muito pouco é conhecido de Mame Diara como personagem histórica. Seus pais eram muito religiosos, sendo que depois de perseguições políticas, sobreviveram ensinando ao Alcorão – inclusive para sua filha. Tornou-se a segunda esposa de Mame Mor Anta Sali, dando a luz à três filhos, sendo um deles o futuro fundador do Muridismo.

Na mudança para Porokhane, Mame Diara adoeceu e nunca mais se recuperou totalmente. Por volta de 1855-60 a família retornou para Touba, a cidade sagrada dos muridistas, entretanto ela não pôde acompanhá-los por conta de sua doença, falecendo com cerca de 35 anos em Porokhane. Por isso é que tantos peregrinos caminham perfazendo a rota entre Touba-Porokhane.

Mame Diara Bousso é venerada tanto por mulheres quanto por homens, representada como uma mulher piedosa e sagrada. Sob um olhar místico ela é símbolo de regeneração. Ela também pode ser interpretada como uma representação do amor divino e incondicional materno. Também é relacionada ao mar, já que para os religiosos, o mar tudo dá, generosa e eternamente. Apreciada igualmente por sua crença na justiça, na pureza e sua submissão e obediência ao marido que Deus a abençoou.

Nos eventos dos peregrinos é comum uma atmosfera leve e alegre, onde inclusive os homens realizam as tarefas de cuidado com a casa como forma de acessar ao sacro-poder de Mame Diara, a “santa” mãe.

BIBLIOGRAFIA

ROSANDER, Eva Evers. Mam Diarra Bousso, la bonne mère de Porokhane. Revue AFRIQUE, v. 3, n. 4, 2003.

ROSANDER, Eva. “Mame Diarra”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 73-75.

THIAM, S.. Mame Diarra Bousso: um ideal de vie. Mémoire (Maitrise), Université Cheikh Anta Diop, Dakar, 1998.


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Legenda: Mame Madior Boye

Fonte: Civiltà Islamica. Disponível em: http://www.civiltaislamica.it/2017/page/12/?lcp_page0=4. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Mame Madior Boye (1940)

Primeira Ministra do Senegal. Nasceu na cidade costeira de Saint Louis. Pertence a uma família com muitos advogados. O pai e um dos irmãos trabalharam na Suprema Corte senegalesa, e outro lecionou Direito Internacional e ocupou cargo de direção na Universidade de Dakar.  Quanto a ela, frequentou a escola primária na sua cidade natal, cursou o secundário no Liceu Faidherbe matriculou-se no curso de graduação em Direito na Faculdade de Ciências Jurídicas e Econômicas na recém-fundada Universidade de Dakar, completando o curso universitário no Centre National d’Études Judiciaries –CNEJ (Centro Nacional de Estudos Judiciários) (1969) de Paris.

Quando retornou ao Senegal, logo foi integrada ao mundo do judiciário, como assistente da promotoria, como juíza-assistente da Corte de Dakar e depois assumiu a presidência da Corte Senegalesa de Apelação. Fundou e presidiu a Associação de Advogados Senegaleses (1975-1990) e foi vice-presidenta da Federação Internacional de Advogadas (1978-1998).  Conjugou o pioneirismo no campo jurídico com as causas femininas. Uma de suas maiores realizações foi a reforma do código legal da família senegalesa, que garantiu maior proteção às jovens, mulheres e esposas.

Madior Boye se afastou dos cargos públicos em 1990, ocupando cargo de diretoria na Compagnie Bancaire de l’Afrique Occidentale (Companhia Bancária da África Ocidental). Também permaneceu durante muitos anos na presidência da Association des Femmes Juristes du Senegal (Associação das Mulheres Juristas do Senegal), a associação de representação de advogadas, promotoras e juízas.

Tendo sido indicada Primeira Ministra por Abdoulaye Wade, líder do Parti Démocratique Sénégalais (Partido Democrático Senegalês), depois dele vencer a eleição presidencial em 2001, logo percebeu que seu cargo era meramente figurativo, o que gerou tensão e sua demissão, quando foi substituída por Idrissa Seck em 2002. Em parte, o afastamento também ocorreu como resposta às duras críticas contra ela feitas na imprensa e pela opinião pública, que a responsabilizavam pela pouca atenção dada à manutenção e segurança do navio Joola, que naufragou no litoral da Gâmbia provocando 1864 mortes e 64 pessoas feridas. Por este motivo, ela foi julgada e condenada por negligência em uma corte francesa, mas recorreu em uma corte de apelação, sendo absolvida em 2009.

Após a ocupação do cargo na administração, ela foi designada como Procuradora Geral do Senegal, e nos anos seguintes viria a desempenhar papel internacional no comitê de resolução de conflitos da União Africana (2004).  Visitou áreas em situação de graves conflitos internos, como o Sudão e República Democrática do Congo. Na continuidade de sua carreira internacional, ela monitorou as eleições municipais na Túnísia em 2010, e reivindicou maior atenção da comunidade internacional ao grave conflito do Sudão, que viria a dar origem à secessão e fundação da República do Sudão do Sul.  

Embora o seu nome continue a estar muito vinculado ao desastre do navio Joola, sua carreira pública e o seu envolvimento como defensora de direitos devem igualmente ser lembrados, e a aproximam de outras mulheres chefes de governo como Aissata Kane na Mauritânia.

BIBLIOGRAFIA

BANDIAKY-BADJI, S. Gender equity in Senegal’s forest governance history: why policy and representation matter. International Forestry Review, v. 13, n. 2, p. 177-194, 2011. 

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N’DIAYE, Marième. Le développement d’une mobilisation juridique dans le combat pour la cause des femmes : l’exemple de l’Association des juristes sénégalaises (AJS).  Politique africaine, v. 124, n. 4, p. 155-177, 2011.

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Legenda: Mulheres de Serra Leoa (1805)

Fonte: Slavery Images. Disponível em: http://www.yorubadiaspora.org/s/slaveryimages/item/1581. Acesso em 19 de jan. de 2021.

Mammy Skelton (1800-1855)

Nome pelo qual ficou conhecida Elisabeth Frazer Skelton, importante comerciante e chefe de família influente nos rios da Alta Guiné. Nasceu na cidade de Bengala no Rio Pongo, na Guiné-Conacri. Seu pai, John Frazer, era um escocês associado com empresas comerciais na Costa Windward. Casou-se em 1799 com Fenda, africana viúva de outro comerciante, com quem teve seis filhos. John mantinha residência no Pongo e na Carolina do Sul, mas mudou seu centro principal para Charleston e depois para a Flórida, onde morreu em 1813. Phenda ficou no Pongo para gerenciar a propriedade local. 

Elizabeth embarcou com a missão da Church Missionary Society (Sociedade da Igreja Missionária) no Pongo e depois viajou para Liverpool, onde viveu por quatro anos. Ela também estudou na França e falava fluentemente inglês e francês, além das línguas africanas usadas na costa. Em seu retorno para a África, casou-se com o euro-africano William Skelton Jr, comerciante no baixo Rio Pongo, em 1826. Tiveram duas filhas, Mary Anne e Emma, ambas fluentes na língua francesa.

Elizabeth e seu marido mantiveram uma empresa de negócios bem-sucedida em Victoria, perto da embocadura do rio Nunez, onde ficava o primeiro porto para embarcações que vinham do oceano. Ela usou seu conhecimento das línguas locais e práticas de negócio com os europeus que entravam no rio, atuando principalmente no “comércio lícito”, mas há relatos de que negociou escravos. Ela estabeleceu alianças com as principais famílias euro-africanas no Rio Pongo através dos casamentos de suas filhas. Após a morte do marido, casou-se com John Bicaise.

A vida de Elizabeth abrange importantes estágios da história da costa da Guiné. Nascida na era do comércio de escravos, foi fundamental para a afirmação dos britânicos e franceses na região. Recebeu uma herança significativa de seu pai nos EUA, tornando-se uma das mulheres mais ricas da costa da Guiné.

BIBLIOGRAFIA

MOUSER, Bruce L. Women slaveers of Guinea-Conacry. In: ROBERTSON, Claire; KLEIN, Martin (Ed.). Woman and slavery in Africa. Madison: University of Wisconsin Press, 1983, p. 320-339.

MOUSER, Bruce L.. “Elizabeth Frazer Skelton”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 409-410.

SCHAFER, Daniel. Family ties tha bind: anglo-african slave traders in Africa and Florida: John Fraser and his descndants. Slavery & Abolition, v. 20, n. 3, p. 01-21, 1999.


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Legenda: Mamohato Bereng Seeiso

Fonte: National Museum Publications. Exhibition News: National Museum hosts a virtual exhibition to celebrate Africa Month under lockdown. 25 de mai. de 2020. Disponível em: https://nationalmuseumpublications.co.za/ exhibition-news-national-museum-hosts-a-virtual-exhibition-to-celebrate-africa-month-under-lockdown/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Mamohato Bereng Seeiso (1941-2003)

Integrante da família real de Lesoto, rainha e três vezes regente. Nasceu Masentle Mojela, logo que encerrou o ensino fundamental foi frequentar a Bath Training College of Home Economics (Faculdade de economia doméstica do treinamento de Bath), no Reino Unido. Também participou de cursos relacionados às mulheres de área rural e sobre assuntos internacionais.

De princesa, Mamohato passou a ser reconhecida como “mãe da nação” pelos povos Soto quando Moshoeshoe II a escolheu para ser sua esposa, em 1962, dentre tantas outras princesas aspirantes. Os dois tiveram dois filhos meninos e por fim uma menina. Em 1995, quando seu primeiro filho assumiu o trono ela tomou o título de “rainha-mãe”, e ao nascer a sua primeira neta, chamaram-lhe de Nkhono, “avó da nação”. Mamohato era conhecida por sua gentileza, sensatez, e por ser de fácil acesso a todas as pessoas, que costumava chamar de “meu irmão” ou “meu querido”.

A sua posição social e a sua condição como consorte real conferiu-lhe o encargo natural da liderança. Aceitou e performou com muita humildade e determinação todas as suas responsabilidades, como regente nas duas vezes em que o marido foi exilado (1970, 1996) e após a morte dele. Como se trata de uma monarquia constitucional, seus encargos eram majoritariamente cerimoniais, mas ela estava sempre pronta a participar das cerimônias de abertura do Parlamento, visitar e receber emissários e representantes de outros estados. Dedicou-se ao cuidado dos enfermos da família real, em particular das co-esposas mais idosas, mas também de outros membros da linhagem com problemas mentais ou físicos.

Mamohato fundou uma instituição de caridade para crianças deficientes e órfãs chamada Take Care of The Children (Cuide das Crianças), além de ser representante da Lesotho National Council of Women – LNCW (Conselho Nacional das Mulheres do Lesoto).

Ela também encorajou as mulheres a preservarem suas danças tradicionais, participando dos festivais e competições nas comunidades do interior. Ela mesma dançava graciosamente. Por isso é descrita como uma “tradicionalista”. Foi muito admirada por seus discursos firmes quando era uma convidada oficial ou anfitriã em eventos.

BIBLIOGRAFIA

NTABENI, Mary Nombulelo. “ Mamohato Bereng Seeiso”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 76-77.

THAKALEKOALA, T.. Lesotho:  Queen Mother seen as a mother, a christian, a leader and a traditionalist. Mopheme (26/09/2003):  https://allafrica.com/stories/200309290289.html


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Legenda: Mamphela Ramphele

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Mamphele_Ramphele_3.jpg. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Mamphela Ramphele (1947)

Nasceu no Distrito de Bochum, Província de Transvaal, atual Limpopo, na África do Sul.  Pertence a uma família de formação cristã protestante, sendo neta de pastor e filha de pai e mãe educadores(as).   Com excelente formação primária e secundária deu início em 1967 ao curso de medicina, algo incomum para mulheres negras na época, formando-se na Universidade de Natal.

Pela mesma época teve contato com Steve Biko e Barney Pityana, fundadoresda African Student’s Organization – SASO (Organização Estudantil Africa) (1969), que viriam a liderar  o Movimento da Consciência Negra durante a década de 1970. Ramphele tornou-se oradora da SASO e fazia trabalho comunitário e voluntário em clínicas locais. Durante esse tempo, manteve um relacionamento amoroso com Biko, com quem teve um filho.  

Na década de 1980 ela passou por um segundo casamento, mudou-se para a Cidade do Cabo e passou a estudar os fundamentos sociais e econômicos da pobreza e da desigualdade, o que a tornou academicamente reconhecida. Realizou o curso de mestrado em Boston, Estados Unidos (1988) e completou o doutorado na Universidade do Cabo (1991), com pesquisas sobre relações sociais e relações de gênero junto ao African Gender Institute (Instituto Africano de Estudos de Gênero) que ela própria criara.

Ela viria a ocupar o cargo de vice-reitora da Universidade do Cabo, e continuou o ativismo no período de transição pós apartheid. Suas pesquisas renderam publicações de diversos livros, como Across boundaries: the journey of a south african woman Leader (Além das fronteiras: a jornada de uma mulher da África do Sul) (1996). Também estendeu sua influência ao mundo empresarial e às organizações sociais, prestando assessoria a corporações, ao Banco Mundial e a Organizações Não Governamentais, com projetos voltados para a promoção da educação, igualdade social e afirmação dos direitos das mulheres.  Ela fundou o Circle Capital Ventures, uma corporação de investimento para impulsionar o empreendedorismo negro.

BIBLIOGRAFIA

HADFIELD, Leslie. “Mamphela Ramphele”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 171-172.  

MAMPHELA, Ramphele . Political widowhood in South Africa: the embodiment of Ambiguity. Daedelus, v. 125, n. 1, p. 99–117, 1996.

PITYANA, N. Barney et alii. Bounds of possibility: Steve Biko and the legacy of Black Consciousness. Cape Town: David Philip, 1991.


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Legenda: Mulher rica da Costa do Ouro (1821)

Fonte: Library Company of Philadelphia. Disponível em: https://digital.librarycompany.org/islandora/object/Islandora%3A2915?solr_nav%5Bid%5D=7fa23d3d73a861f75812&solr_nav%5Bpage%5D=0&solr_nav%5Boffset%5D=7. Acesso em: 11 de jan. de 2021.
Palavras-chave: Donas Euro-africanas Signares

Manas Menezes (século XVIII)

Em Moçambique, para a ocupação da Zambézia a coroa portuguesa incentivou a concessão de prazos, conferindo (à revelia dos africanos) direitos de exploração a pessoas que pudessem explorar por conta própria áreas consideradas ignotas. Assim surgiu o grupo das “Donas da Zambézia”, como ficaram conhecidas poderosas terratenentes, em geral mulatas ou negras associadas a europeus, assumiram gradualmente posições de liderança em âmbito local como “prazeiras da coroa”.

As primeiras “Donas da Zambézia” a ganhar notoriedade viveram no século XVIII, como Dona Ignez Gracia Cardoso, que em 1757 era senhora de terra em Luabo; Dona Catarina de Fama Leitão, que por volta de 1780 detinha vasta extensão de terras em Quelimane e cerca de 1000 escravos, ou Dona Sebastiana Fernandes de Moura, proprietária de terras em Macuze e em Quizungo, além de cerca de 300 escravos.

As três “donas” mais influentes entre as prazeiras da coroa são lembradas pelo sobrenome “Menezes”.  Na passagem do século XVIII para o XIX, sob a liderança de Francisca Josefa de Moura e Menezes, esse grupo familiar, teve sob seu controle quase toda a região de Tete. As outras duas irmãs (“manas”) chamavam-se Dona Felipa Antónia e Dona Catarina.

BIBLIOGRAFIA

CAPELA, José. Donas, senhoras e escravos. Porto: Edições Afrontamento, 1996.


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Legenda: Margaret Atieno Ogola | Foto: Fr. Jay El Geofo

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Margaret_A_Ogola.jpg. Acesso em: 22 de dez. de 2020.

Margaret Atieno Ogola (1958)

Nasceu em Nairóbi, capital do Quênia, onde estudou na Thompson’s Falls High School e na Alliance Girls High School. Em 1984 obteve um diploma de medicina e enfermagem na Universidade de Nairobi e, em 1990, obteve um mestrado em medicina em pediatria na mesma universidade. Alguns anos mais tarde realizou estudos de pós-graduação em Planejamento e Direção de Projetos de Desenvolvimento na Universidade Católica da África Oriental (2004).

De 2002 a 2004 Margaret coordenou uma filial regional da Hope for African Children Initiative, uma associação de várias ONGs internacionais destinada a prestar apoio a mulheres e crianças soropositivas, de modo a evitar a propagação da epidemia. Atualmente trabalha como pediatra em Nairóbi e é diretora do Cottolengo Hospice, um lar adotivo para crianças órfãs soropositivas; vice-presidente de aconselhamento para a vida familiar (Quênia); e se envolve em projetos de promoção da situação das mulheres africanas.

Margaret Atieno também é escritora, e em seu romance The River and the source (O rio e a fonte) (1994), retrata quatro gerações de uma família queniana em uma sociedade em rápido processo de mudança.  Outras obras de sua autoria são: Cardinal Otunga: a gift grace com Margaret Roche  (Cardeal Otunga: um presente de graça com Margaret Roche) (1999), I sweet by Apollo (Juro por Apolo) (2002) e Place of destiny (Lugar de destino) (2005).

BIBLIOGRAFIA

ODHIAMBO, Tom Odhiambo.  Writing alternative womanhood in Kenya in Margaret Ogola’s The River and the source,  African Identities, v. 4, n. 2, p. 235-250, 2006.

SIRINGI, Samuel. African initiative launched to tackle HIV/AIDS in children. The Lancet, 05/01/2002: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(02)07255-0


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Legenda: Margaret Ballinger | An Illustrated History of South Africa

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Margaret_Ballinger.jpg. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Margaret Ballinger (1894-1980)

Historiadora liberal e ativista política da África do Sul. Nasceu em Glasgow, na Escócia. Seu pai, John Hodgson, emigrou para o Estado Livre de Orange, África do Sul, pouco depois do nascimento de Margaret. Após virar prisioneiro por conta da Guerra dos Bôeres, em 1904, ele passou a trabalhar como escriturário. Ele defendia ideias políticas liberais, postulando o princípio da igualdade perante a lei e, por extensão, a igualdade racial na África do Sul.

Depois de estudar no Convento do Santo Rosário, em Port Elisabeth, Margaret prosseguiu os estudos no colégio Huguenote, em Wellington, e depois na Universidade de Rhodes, na qual ela se graduou como bacharel de História da Arte, com honras de primeira classe em 1913. Seu mentor nessa universidade era o historiador liberal William Macmillan, que conseguiu para ela uma bolsa de estudos na Universidade de Oxford. Contudo, apesar dela ter completado o curso de História Moderna (1917), não foi possível dar continuidade imediata no nível de Mestrado pois este só foi aberto para mulheres em 1924, mas ela o fez assim que permitido.

Após terminar o Mestrado, Margaret ensinou em Rhodes por um curto período de tempo, mas depois tornou-se professora sênior da Universidade de Witwatersrand (1934) até se casar, pois as regras da universidade na época obrigaram-na a renunciar ao cargo. Em 1936, concorreu a um cargo no Parlamento, quando derrotou quatro candidatos masculinos nas eleições, tornando-se assim representante dos africanos negros da província Oriental do Cabo.

Quando o Partido Nacional interrompeu a sua representação no Parlamento, ela se tornou presidente do Partido Liberal, a fim de realizar reformas. Margaret Ballinger representou uma voz oficial para os seus eleitores, desempenhando papel de mediadora entre os africanos negros e o estado durante o período do Apartheid.  Tais esforços não foram suficientes para impedir o aumento da repressão estatal, como o que ocorreu no Massacre de Shaperville (1960), e o subsequente estado de emergência. No final de seu mandato, encontrava-se politicamente isolada em um país em clima de guerra racial. Sua atuação exemplifica as dificuldades para reformar uma sociedade marcadamente desigual desde dentro de suas estruturas de poder.

BIBLIOGRAFIA

BALLINGER, Margaret. From union to Apartheid: a trek to isolation. Nova Iorque: Praeger, 1969.

HEALY, Megan Elisabeth. “Margareth Ballinger”.  In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 362-363.

MOULTON, F. A. Voices in the desert: Margaret and William Ballinger: a biography. Pretoria: Benedic Books, 1997.

VIGNE, Randolph. Liberals against Apartheid: a history of the Liberal Party of South Africa, 1953-1968. Nova Iorque: St. Martin’s Press, 1997.


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Legenda: Margaret Dongo

Fonte: DONGO, Margaret. 10 de jun. de 2013. Facebook: Margaret Dongo. Disponível em: https://www.facebook.com/Margaret- Dongo-279538148857384/photos/ 279539392190593. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Corrupção

Margaret Dongo (1960)

Combatente da liberdade no Zimbábue e mulher pública com carreira política independente. Nasceu no seio de uma família simples que se opunha ao governo de minoria branca, e lembra-se de aos sete anos visitar o pai, que era pedreiro, na prisão. Aos quinze anos abandonou  a escola secundária  e caminhou cerca de 300 km até Moçambique para se juntar aos combatentes da liberdade da União Nacional Africana do Zimbábue -ZANU, que empreendia a guerra de libertação contra o regime colonial liderado por Ian Smith, líder da Rodésia, atual Zimbábue.  Atuou como assistente médica e participou do campo do combate.

Quando retornou ao seu país em 1980, após a independência, assumiu o cargo de Secretária dos Assuntos da Mulher na sede nacional da ZANU-PF em Harare. Três anos mais tarde passou a integrar o Ministério de Segurança do Estado, atuando como porta-voz de veteranos de guerra  – o que a levou a ajudar a fundar a Associação dos Veteranos de Guerra da Libertação Nacional (1989), um grupo de defesa dos antigos combatentes da liberdade. Com o apoio desta associação, tornou-se, aos trinta anos de idade, a parlamentar mais jovem do Parlamento  do Zimbábue.

Nas décadas seguintes, travou no parlamento combate incessante contra a corrupção praticada por membros do ZANU-PF. Como, por este motivo, não foi indicada pelo partido para as eleições de 1995, decidiu concorrer como candidata independente e conseguiu uma vaga após denunciar e provar a ocorrência de fraude no resultado da apuração. Numa ocasião, exigiu que o governo revelasse uma lista daqueles que se beneficiaram do programa de redistribuição de terras (2000), denunciou a a reimposição de taxas nas escolas do governo (2003) e contestou os critérios para determinar quem deveria ser enterrado no cemitério oficial do país, o National Heroes Acre .

Vista por alguns como símbolo de renovação e crítica ao sistema político, apesar de representar uma resistência corajosa tornou-se gradualmente uma força política marginalizada.  Embora em posição minoritária, mostra alternativas de mudança como porta-voz das mulheres no continente  e como símbolo do ideal democrático: presidiu a União dos Democratas do Zimbábue até o fim deste partido em 2006.

BIBLIOGRAFIA

COMPAGNON, Daniel. Margaret Dongo, nouveau hérault de la démocratie au Zimbbwe. Politique Africaine, v. 61, p. 122-127, 1996.

CHIKUHWA, Jaboc W. A crisis of governance. Zimbabwe. Nova  Iorque: Algora 2004.

KILGORE, James. “Margaret Dongo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 242-244.

MEREDITH, Martin. Robert Mugabe: power, plunder and tyranny. Johanesburgo: Jonathan Ball, 2002.


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Legenda: Margaret Ekpo

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/ File:Mrs_Margaret_Affiong_Ekpo.jpg. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Memorialistas

Margaret Ekpo (1914-2006)

Nacionalista nigeriana e líder dos direitos das mulheres. Nasceu Creek Town, no atual Estado de Rio Cross, durante o período colonial. Seu nome de nascimento era Bassey Sampson Ekpenyong Efa. Pertencia a uma família de comerciantes de origem yorubá e igbo, que no passado teve envolvimento com o tráfico de escravos. Ela se formou professora em 1932 e passou a lecionar em educação básica nas escolas da região de Calabar até 1938, quando se casou com John Udo Ekpo, um médico de origem Ibibio que atuava no Hospital Geral de Aba.

Quando esteve em Dublin para acompanhar o tratamento do marido teve contato com as mulheres irlandesas, com quem se identificou, e obteve um diploma em ciências domésticas na Escola de Economia Doméstica  do Dublin Institute of Technology,  em Rathimines. Ao voltar para a Nigéria (1948), fundou o Instituto Windsor Sewing for Girls,  destinado ao treinamento e formação para futuras esposas, muitas das quais mais tarde se tornaram empreendedoras de sucesso.

No final dos anos 1940, a participação política das mulheres havia se intensificado. Margaret Ekpo ajudou a criar o Aba Market  Women’s Association – AMWA (Associação das Mulheres do Mercado de Aba) e teve contato com Funmilayo Ransome-Kuti em 1948. Ela se juntou aos líderes do National Council of Nigeria and Cameroun – NCNC (Conselho Nacional da Nigéria  e dos Camarões),  pelo qual participou do protesto motivado pelo massacre de vinte e um mineiros que fizerem uma greve na mina de carvão de Enugu, sendo presa e quase deportada junto com outros líderes, mas foi libertada após uma manifestação de mulheres – algumas delas remanescentes da “Guerra das Mulheres Igbo”  de 1929.

Sua influência aumentou no NCNC durante a década de 1950, com representação das mulheres da região de Aba no contexto das negociações que levaram à independência do país, com participação nas delegações enviadas a Londres nos anos  1953, 1957 e 1958. Apesar de sua ampla popularidade, o comitê executivo do partido recusou-se a apoiá-la como candidata nas eleições gerais de 1959. Dois anos depois, ela foi indicada como candidata por Aba nas eleições regionais, ganhando  um assento na Assembléia  Regional do Leste.

A carreira de Margaret Ekpo sofreu um abalo após o golpe militar de 1966, que pôs fim à Primeira República nigeriana. Durante a Guerra de Biafra ela defendeu a unidade e os direitos das minorias, sendo encarcerada (1967-1968) e depois mantida sob prisão domiciliar até o fim da guerra (1970). Somente após a década de 1980, com o fim do regime militar, sua contribuição histórica ao movimento de mulheres foi reconhecida. Ela teve o nome atribuído ao Aeroporto de Calabar (2001), quando também recebeu  da Universidade de Abuja um diploma honorário de Doutora em Letras.

BIBLIOGRAFIA

ATTOE, Stella e S.O. Jaja. Margaret Ekpo:  lioness in nigerian politics. Abeokuta: ALF Publications, 1993.

DENZER, Laray. Margaret Ekpo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 280-282.

EKPO, Margaret; ABAM, Kammonke. Breaking barriers: an autobiography. Calabar: Profiles & Biographies, 2003.


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Legenda: Margaret Kenyatta

Fonte: Wikimedia Commons.Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Margaret-Kenyatta-3-1-780x500.jpg. Acesso em: 16 de mar. de 2021.
Palavras-chave: Diplomatas

Margaret Kenyatta (1928)

Educadora queniana, politica e diplomata, é filha do presidente fundador do Quênia, Jomo Kenyatta, e de sua primeira esposa, Wahu.

Formou-se no colégio Alliance, durante o período colonial, considerado a melhor escola para a elite africana. Ela era uma das poucas africanas alfabetizadas na época, mas optou por lecionar em uma escola africana independente, com poucas instalações, embora pudesse ter conseguido um emprego em escolas administradas por missionários cristãos que tinham instalações de ponta. Ensinou no Githunguri Teachers College, durante a década de 1950, uma escola independente que foi iniciada por Jomo Kenyatta e Mbiyu Koinange para liderar o nacionalismo no centro do Quênia.

Margaret se aventurou na política local abertamente em 1960, quando se juntou ao Conselho do País Kiambu. Depois, foi eleita como uma das conselheiras do Conselho da Cidade de Nairóbi (1963). Ela permaneceu como vereadora até se aposentar da política do conselho ao ser nomeada pelo presidente Jomo Kenyatta representante permanente do Quênia para o Programa Ambiental dos Estados Unidos em Nairóbi (1976). Nessa função, foi a mais nomeada para o serviço diplomático presidencial. Dirigiu o escritório de Programas Ambientais das Nações Unidas do país e forneceu o apoio político e técnico necessário.

Margaret Kenyatta desempenhou um papel importante não apenas no avanço da luta pela independência no Quênia, mas também na promoção dos padrões de vida na cidade de Nairóbi, como conselheira e como prefeita desta cidade.  Na comunidade internacional, além de atuar como embaixatriz queniana no Programa Ambiental das Nações Unidas, colocou-se como defensora dos direitos das mulheres, liderando a delegação queniana na Conferência das Mulheres da ONU em Nairobi (1985). Com isso, contribuiu para aumentar a conscientização sobre os direitos das mulheres e ajudou a legitimar os problemas das mulheres nas políticas governamentais em todo o mundo.

BIBLIOGRAFIA

GARLEY, M. The Nairobi Conference: the powerless majority. Political Science, no. 2, p. 255-265, 1986.

KIRUTCHU, Felix Macharia. “Margaret Kenyatta”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 339-340.


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Legenda: Marguerite Barankitse | Foto: Edbarseghyan

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Marguerite_Barankitse.jpg. Acesso em: 22 de dez. de 2020.

Marguerite Barankitse (1957)

Nascida entre o povo de Nyamutobo, na Província de Ruygi, no leste da República do Burundi, na África central, ela tem ascendência étnica tutsi. Formou-se como educadora e dedicou-se ao ensino nos anos 1979-1981. Em viagem à cidade de Lourdes, França, obteve formação em cursos da Igreja católica, e ao voltar ao país tornou-se secretária do Bispo de Ruyigi.  

No início da década de 1990, por se recusar a adotar a política de segregação determinada pelo governo, foi demitida.  Com a eclosão da crise humanitária que envolveu a guerra entre hutus e tutsis, passou a atuar, inicialmente junto com autoridades católicas locais, em atividades contra a discriminação e pela pacificação étnico-racial, e desde então adotou como foco preferencial de ação política a luta em defesa das crianças vítimas de ataques, perseguição e abandono.

Em 1993, no auge da guerra interétnica que eclodiu no Burundi e em Ruanda, ela liderou a criação de uma Organização Não Governamental de alcance internacional chamada Maison Shalom (A Casa da Paz), aberta ao abrigo  de crianças de quaisquer grupos étnicos e que além de proteção promove iniciativas educativas para que as crianças hutus, tutsis e twa possam conviver em harmonia. Durante os 26 anos em que operou no Burundi a Maison Shalom se transformou em uma grande rede de escolas, hospitais e serviços de saúde em todo o país. 

Em 2015, devido aos protestos públicos contra as infrações do governo do presidente Nkurunziza aos direitos humanos, Marguerite Barankitse foi ameaçada em sua integridade física, sendo forçada a abandonar o país, passando a viver no exílio. Abriu uma filial da Maison Shalom em Ruanda, e deu continuidade ao trabalho com crianças refugiadas. O foco assistencial se alargou, e embora atenda preferencialmente as “crianças soldados”, crianças órfãs e mutiladas de guerra, os serviços passaram a estar disponíveis para pessoas de toda a comunidade.

Por seu trabalho incansável e determinante em defesa dos direitos humanos Maggie Barankitse tornou-se internacionalmente reconhecida, sendo agraciada com diversos prêmios na Europa e nos Estados Unidos, inclusive na UNESCO (2008).

BIBLIOGRAFIA

IULM, Fondazione. Diritti umani e dei bambini – Un progetto di comunicazione sociale e di solidarietà. Rivista italiana di Comunicazione Pubblica, n. 27, 2006.

BUSCAGLIA, Ilaria. Randell, Shirley. Legacy of colonialism in the empowerment of women in Rwanda. Cosmopolitan Civil Societies: an interdisciplinary journal, v. 4,n. 1, p. 69-85, 2012: . https://search.informit.com.au/documentSummary;dn=988607999806253;res=IELHSS


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Legenda: Marguerite Taos-Amrouche

Fonte: Amazigh World News. Taos Amrouche or the Voice of the Amazigh Woman's Conflict. 11 de set. de 2018. Disponível em: https://amazighworldnews.com/taos-amrouche-or-the-voice-of-the-amazigh-womans-conflict/. Acesso em: 22 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Romancistas

Marguerite Taos-Amrouche (1913-1976)

Seu nome de nascimento era Marie-Louise Taos-Amrouche. Escritora de origem argelina e cantora de música folclórica berbere. Nasceu em Túnis, Pertencia a uma família cristã da região argelina de Kabylia emigrada na Tunísia devido à sua convicção religiosa.   Frequentou o ensino fundamental e médio na própria capital da Tunísia, e a seguir foi para a França, onde estudou na École Normale em Sévres (1935).

Sua mãe, Fadhma Ath Mansur Amrouche (1882-1967), era uma grande cantora e exerceu duradoura influência sobre ela, assim como o irmão mais velho, Jean Amrouch, conhecido escritor, poeta e jornalista francófono argelino. Segundo pesquisadoras recentes, este poderia ter contribuído para eclipsar o nome da irmã ao não dar crédito também a ela no trabalho de recolha e publicação da tradições de Kabylia que ambos realizaram, e que ele publicou em nome próprio no ano de 1939.

Considerada a primeira escritora moderna argelina, publicou o romance Le jacinthe Noir (O jacinto negro) (1947), e décadas mais tarde escreveu La rue des tambourins (A rua dos tamborins) (1969), L’amant imaginaire (O amante imaginário) (1975), e o romance póstumo Solitude ma mère (Solidão minha mãe) (1995). Nessas obras explora temas relacionados ao exílio, a alienação colonial,  e à identidade, ressaltando os sentimentos de separação, perda e um esforço incansável para encontrar paz e se reconectar com os grupos de origem.

Sua obra mais importante Le grain magique (O grão mágico) (1966), é uma compilação de histórias e poemas de Kabyle recolhidos da narração de sua mãe. Como cantora, gravou as tradições musicais populares de seu povo, nos álbuns Chants berbères de Kabylie (Cantos berberes de Cabilia) (1967), Chants de processions, méditations et danses sacrées berberes (Cantos de procissões, meditações e danças saradas berberes) (1967), entre outros.

BIBLIOGRAFIA

MALTI, Nathalie. Voix, mémoire et écriture: transmission de la mémoire et identité culturelle dans l’oeuvre de Fadhma et Taos Amrouche. Doctoral Dissertations, Louisiana State University and Agricultural and Mechanical College,  2006:  https://digitalcommons.lsu.edu/gradschool_dissertations/3839

MWANGI, Evan. “Marguerite Taos Amrouche”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 224-225.

SANTOS, José. Mythe des origines et nostalgie chez Taos Amrouche. The French Review, v. 77, n. 2, p. 326–339, 2003.


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Legenda: Maria das Dores Bento Macuacualala | Cortesia Lurdes Cossa

Fonte: COSSA, Lourdes. UFRGS/ILEA - Entrevista com autoridades tradicionais de Moçambique. YouTube: Ilea Ufrgs. 20 de jul. de 2018. Disponível em: https://youtu.be/rpG4LBGu2Zc. Acesso em: 19 de fev. de 2021.
Palavras-chave:

Maria das Dores Bento Macuacualala (1975)

Nascida na comunidade de Maundzane, situada no distrito de Chibuto, Província de Gaza, na República de Moçambique, pertence a uma antiga linhagem de régulos, líderes comunitários tradicionais.

Segundo ela conta, o seu avô, Maundzane Macuacua, chefiou a comunidade até por volta de 1950. Ao morrer, foi sucedido temporariamente pela filha mais velha, Maujalane, e depois por Pedro,  seu pai, que se manteve no cargo até 1985, quando a autoridade passou para um dos irmãos dela. Em 2010, na ausência de outros filhos que pudessem dar continuidade à liderança paterna, ela foi convidada pelos conselheiros de Maundzane a assumir o cargo, sendo aclamada como líder comunitária. Desde então, é reconhecida como Rainha de Chibuto e atua oficialmente como autoridade comunitária. Por isto, veste-se com o uniforme reservado às pessoas desta categoria social.

Com o auxílio e o apoio de um Conselho de Anciãos integrado por sete madodas, Maria das Dores dedica-se diariamente a dirimir conflitos entre os moradores da aldeia, a resolver problemas de interesse geral, a obter ajuda e assistência aos necessitados; representa localmente o governo e intermedia a comunidade quanto ao pagamento de impostos e outras obrigações com o Estado moçambicano.

Como autoridade tradicional, a ela cabe também a realização de cultos e práticas ancestrais, como a oferenda de bebidas aos ancestrais (kupahla) e a invocação da chuva.

Embora desempenhe papel de liderança, sua função não é remunerada.

Maria das Dores Bento Macuacualala mora em Chibuto, é casada e tem seis filhos. Em suas palavras, teve tantos filhos homens porque esperava a chegada de uma menina, mas esta nunca veio.

BIBLIOGRAFIA

COSSA, Lurdes José. A autoridade tradicional em Moçambique no século XX: estudo dos distritos d Mandlakazi e Chibuto – Província de Gaza. Tese (Doutorado em História), Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2018: https://lume.ufrgs.br/handle/10183/182783

UFRGS/ILEA. Entrevista com autoridades tradicionais de Moçambique, realizada por Lurdes Cossa: https://www.youtube.com/watch?v=rpG4LBGu2Zc


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Legenda: Maria das Neves Ceita Batista de Souza

Fonte: MundoaoMinuto. Candidata Maria das Neves critica inaugurações em dia de reflexão. 17 de jul. de 2016. Disponível em: https://www.noticiasaominuto.com/mundo/624065/candidata-maria-das-neves-critica-inauguracoes-em-dia-de-reflexao. Acesso em: 27 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Maria das Neves Ceita Batista de Souza (1958)

Economista, política e antiga primeira ministra de São Tomé e Príncipe. Nasceu como Maria das Neves Ceita Batista. Estudou no Liceu Nacional de São Tomé e Príncipe, e formou-se em Economia pela Universidade de Havana, com especialização em finanças e créditos. Em 2017 obteve o título de doutorado em Ciências Sociais e Desenvolvimento Econômico pela Universidade de Lisboa, com a tese São Tomé e Príncipe como um Gateway regional – Estratégia para um desenvolvimento sustentável.

Iniciou a carreira pública no Ministério das Finanças, onde ofereceu vários cursos de treinamento em Administração, Macroeconomia e sistema bancário. Junto ao Banco Mundial, atuou na UNICEF e, de 1999 a 2001, foi Ministra da Economia, Comércio, Agricultura, Pesca e Turismo.

Nas eleições de 2002, foi eleita deputada da Assembleia Nacional, em quinquagésima quinta posição. No mesmo ano foi apontada como Ministra do Comércio, Indústria e Turismo no governo da Unidade Nacional. Após a demissão do governo de Gabriel Costa em 2002, Neves foi a primeira mulher a assumir o cargo de Primeira Ministra, administrando a coalizão de três partidos na Assembleia.

No ano seguinte, após um golpe de Estado, ela e outros políticos foram presos pelos rebeldes, mas logo foi libertada em virtude de problemas de saúde. O golpe foi condenado pelos países da África e da comunidade internacional. Após alguns meses de negociações o governo foi restabelecido e o presidente reassumiu seu cargo, apontando Neves como Primeira Ministra em 03/08/2003 – mas ela foi afastada alguns meses depois sob a alegação de corrupção.

Seu retorno à vida pública ocorreu em 2006, quando foi reeleita deputada. Desde então Neves tem presidido uma comissão parlamentar sobre direitos humanos, seguindo a constituição da assembleia parlamentar da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa- CPLP realizado em São Tomé em 2009. Foi a primeira presidenta da Rede das Mulheres Parlamentaristas da CPLP. Em 2016 passou a presidir a Organização das Mulheres de São Tomé e Príncipe. 

BIBLIOGRAFIA

SEIBERT, Gerhard. Comrades, clients and cousins. Colonialism, socialism, and democratization in São Tomé and Príncipe. Leiden: Brill, 2006.

SEIBERT, Gerhard. “Maria das Neves”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 443-444.


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Legenda: Maria de Lurdes Mutola

Fonte: MUTOLA, Maria de Lurdes. 23 de jun. de 2020. Facebook: Maria de Lurdes Mutola. Disponível em: https://www.facebook.com/Maria-de-Lurdes-Mutola-25010029200/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Maria de Lurdes Mutola (1972)

Atleta e filantropa, nasceu em Maputo, Moçambique. Mutola dominou por duas décadas a corrida de 800 metros no atletismo, até se aposentar em 2008. Ganhou a primeira medalha de ouro do seu país em olimpíadas e venceu dez campeonatos mundiais (sete indoor). Ela ocupa o 17º lugar na lista de todos os tempos dos 800 metros. Invicta em seis pistas em 2003, foi a primeira a ganhar o prêmio de um milhão de dólares da International Association of Athletics Federations – IAAF (Associação Inyernacional das Federações de Atletismo) pela Golden League Jackpot.

Mutola é filha de João, trabalhador em um porto ferroviário, e Catarina, trabalhadora doméstica, e junto dos irmãos morou em Chamanculo, subúrbio de Maputo. Quando jovem, jogou em um time de futebol para meninos e ganhou o campeonato local, mas foi expulsa por ser menina. No clube Desportivo de Maputo, ela passou a praticar o atletismo e com 15 anos foi para as Olimpíadas de Seoul, em 1988.

Mutola ganhou uma bolsa para treinar no Oregon, Estados Unidos, com Margo Jennings: em apenas um ano, ela ficou em 4º lugar no Mundial de Tóquio, 5º nas Olimpíadas de Barcelona, e em primeiro na competição da IAAF em Havana (1992). Daí até 1996 ela ficou invicta em 50 finais e bateu muitos recordes. Entre outras conquistas, ganhou medalha de ouro nas Olimpíadas de Sydney e foi indicada para o top 10 da lista Track and Field News oito vezes, além de ser Atleta do Ano em 2003.

Em 2001, a moçambicana criou em Maputo a Fundação Lurdes Mutola, que oferece programas nas áreas de educação, esportes, cultura, empreendedorismo e ação social para crianças e jovens. Mutola é embaixadora da juventude honorária pela ONU. No manifesto de sua fundação, ela faz um elogio à sua terra natal: “Se eu cresci como pessoa e atleta é porque pude contar com o apoio de algumas pessoas sem o qual eu não teria sido campeã. Eu nunca esquecerei da relevância desse suporte e dos que me apoiaram. O que chamamos sentimento patriótico nasce do apoio mútuo, de um cuidado baseado na ideia de que somos uma grande família abrigada sob a mesma bandeira”. Como José Craveirinha caracterizou Mutola, “ela é a própria poesia, um poema vivo”.

BIBLIOGRAFIA

LEVINSON, David. Maria Mutola.  In: Christensen, Karen;  Guttmann, Allen; PFISTER, Gertrud. International Encyclopedia of Women and Sports. Nova Iorque: Macmillan Reference USA, 2001, p. 776-772.

MACEMA, Veronica. Mutola: a heroína de asas de águia. In: XIX Congresso Nacional de Linguística e Filologia, Rio de Janeiro, 2015: http://www.filologia.org.br/xix_cnlf/cnlf/08/024.pdf

NUNES, Catarina. A minha vida em 1 Minuto, 55 Segundos e 11 centésimos: a biografia de Maria de Lurdes Mutola . Maputo: FLM, 2008.

SAAVEDRA, martha; SPICER, Byron. “Maria Lurdes Mutola”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 363-364.


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Legenda: María Nsué Angue

Fonte: WANAFRICA, Ediciones. 14 de set. de 2019. Twitter: @Edwanafrica. Disponível em: https:// twitter.com/Edwanafrica/status/ 1172922825600065537/photo/1. Acesso em: 22 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Romancistas

María Nsué Angue (1945-2017)

Nascida em Ebebeyin, à beira do Rio Muni, na Guiné Equatorial, pertencia a uma família de origem étnica fang de Bidjabidján.  Foi confida a uma família missionária que a levou para a  Espanha, quando tinha oito anos. Em Madrid,  estudou literatura, música e jornalismo, e deu início à carreira como escritora.

Em sua obra, onde subsistem elementos autobiográficos, ela ressalta o impacto do domínio colonial espanhol que persistiu em seu país até 1968 e que depois caiu sob uma ditadura militar. Ela afirma ter nascido na prisão, em 1948, na cidade de Bata, onde seus pais foram confinados por resistir à autoridade do regime colonial. Seu pai, José Nsue Angue Osá, foi um líder anticolonial e pró-independência. 

Seu romance Ekomo (1985) é o primeiro de autoria de uma mulher da Guiné Equatorial. Trata da história de uma mulher de etnia fang que após a morte do marido passa por uma transformação pessoal e procura romper os tabus da sociedade africana.

BIBLIOGRAFIA

LIFSHEY, Adam. Ideations of Collective Memory in Hispanophone Africa: The Case of María Nsue Angüe’s “Ekomo”. Hispanic Journal, v. 24, n. 102, p. 173-185, 2003.

MESTER, Anna. Repensar Ekomo de María Nsué Angüe: um desafion ecuatoguineano a la hispanidad. Tesis (Bachelor of Arts), Departamento de Linguas Románicas, Mount Holyoke College, 2009.

VIZCAYA, Benita. “María Nsue Angue”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 499-500.


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Legenda: Hospital público em Ndjamena | Foto: Isabel Coelho

Fonte: European Civil Protection and Humanitarian Aid Operations Department. 14 de mar. de 2016. Flickr: EU Civil Protection and Humanitarian Aid. Disponível em: https://flic.kr/p/JvDjuC. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Mariam Brahim (1956)

Médica chadiana.  Nasceu na cidade de Abéché.  Frequentou a escola primária e completou o ensino secundário no Liceu Franco-Árabe de Abéché. Em 1976, foi submetida ao exame de ingresso na universidade na capital do país, N’Djamena, pretendia cursar arquitetura, mas acabou se matriculando no curso de Medicina na Universidade de Leningrado (1976), na então União Soviética, especializando-se em Pediatria, formando-se em 1983.

Com a instauração do regime ditatorial de Hissène Habré em 1982, ela e o marido, com quem tinha se casado na Rússia, decidiram não retornar ao país. Estabeleceram-se na República do Congo-Brazzaville, que mantinha laços estreitos com Moscou. O casal praticou medicina neste país no período de 1986 a 1989. Então, ele foi para o Canadá, onde continuaria seu treinamento na área de Engenharia de Petróleo, e ela decidiu retornar ao Chade e se reunir com a família em N’Djamena.

Após a queda de Habré e a ascensão de Idriss Déby em 1990, o novo governo indicou o marido dela como embaixador na Rússia em 1991. Aproveitando a oportunidade ela deu continuidade aos estudos acadêmicos, escrevendo uma tese na Academia de Ciências de Moscou (1996).

Ao completar a formação acadêmica em pós-graduação, Brahim trabalhou como pediatra e passou a lecionar na Universidade de N’Djamena (1997). Junto com Grace Kodindo, coordenou e supervisionou diversos programas de saúde pública (1996-2006). Um dos mais importantes, desenvolvido em todo o país, tinha por objetivo promover educação popular para a saúde infantil (1999). Esta atividade intensa não lhe permitiu se envolver em outras questões públicas, inclusive na esfera política.

BIBLIOGRAFIA

RICH, Jeremy. “Mariam Brahim”.  In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 519-520.

TUBIANA, Marie-José. Parcour de femmes: Les nouvelles elites, entretiens, 1997-2003. Paris: Éditions Sépia, 2004.


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Legenda: Marie Béatrice Umutesi

Fonte: Alchetron. Disponível em: https://alchetron.com/Marie-B%C3%A9atrice-Umutesi. Acesso em: 15 de dez. de 2020.

Marie Béatrice Umutesi (1959)

Escritora e socióloga de origem étnica hutu, nascida em Byumba, em Ruanda. Estudou economia em Kigali e ganhou o diploma pela Universidade Nacional de Ruanda. Tornou-se socióloga pela Universidade Católica de Louvain, na Bélgica. Ela trabalhou como funcionária pública e atuou no Ministério do Interior, no Banco Continental Africano e no Centro de Serviço para Cooperativas.

Em Ruanda, Umutesi presenciou muitos casos de violência entre hutus e tutsis e viu a sua família materna ser vítima de um grupo rebelde de Tutsis, a Frente Patriótica Ruandesa (RPF).  Ela se mudou com a mãe para Kigali e estava lá no início do genocídio de 1994, quando desenvolvia programas para uma associação de mulheres em Byumba.

Quando a Frente Patriótica Ruandesa assumiu o controle do país após o genocídio, Umutesi se juntou aos hutus que fugiram para a atual República Democrática do Congo, e lá morou em um campo de refugiados. Uma vez em Bukavu, na fronteira entre o Congo e Ruanda, ela aproveitou suas experiências trabalhando em Organizações Não Governamentais para dar assistência aos refugiados, até que a cidade foi tomada pelos rebeldes Banyamulenge em 1996 e todos foram forçados a fugir. Umutesi guiou um grupo de pessoas a pé durante um ano, até Kinshasa: neste meio tempo, foram atacados(as) por grupos armados das forças congolesas e do exército da RPF, e muitos não sobreviveram.

Já na Bélgica, publicou Fuir ou Mourir au Zaire (Fugir ou morrer no Zaire), com o registro de suas memórias sobre sua fuga. O livro a tornou conhecida no Ocidente nos anos 2000; a versão em inglês Surviving the slaughter: the ordeal of a rwandan refugee in Zaire (2004), chamou atenção para a condição dos milhares de hutus inocentes que precisaram fugir de seu país por serem perseguidos pela RPF e para o sofrimento que se seguiu devido ao fracasso da comunidade mundial ao intervir no genocídio e suas consequências.

BIBLIOGRAFIA

CANTRELL, Philip. “Marie Beatrice Umutesi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 101.

ELTRINGHAM, Nigel. Accounting for horror: Post-genocide debates in Rwanda. Londres: Pluto Press, 2004.

UMUTESI, Marie Béatrice. Surviving the slaughter: the ordeal of a rwandan refugee in Zaire.  Madison: University of Wisconsin Press, 2004.


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Legenda: Marie Elise Gbedo

Fonte: GBEDO, Marie-Elise. 12 de jan. de 2016. Facebook: Marie-Elise Gbedo. Disponível em: https://www.facebook.com/maitremarieelisegbedo/photos/a.157949270889840/1144225788928845. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Marie Elise Gbedo (1954)

Feminista e politica  beninense, nasceu na cidade de Mankono, na Costa do Marfim. Freqüentou a escola primária e secundária no Benin e obteve sua formação universitária na França, onde se formou em Direito e se especializou em Direito Empresarial pela Université de Paris I – Panthéon-Sorbonne (1985).

Em sua autobiografia, afirmou que escolheu manter sua independência, preferindo não se casar. Marie Elise começou a atuar na vida pública durante a ditadura de Mathieu Kérékou, no final dos anos 1980. Seu primeiro objetivo foi incorporar mais proteções aos direitos individuais das mulheres no código legal beninense. Ela entrou formalmente na arena política apenas em maio de 1998, quando foi nomeada Ministra do Comércio. Foi demitida em junho de 1999, quando o governo lançou uma grande investigação sobre a corrupção na empresa estatal petroleira beninense.

Em 2001 Marie Elise Gbedo fez história no Benin ao se tornar a primeira mulher a concorrer à presidência. Optou por participar como candidata independente em vez de formar um partido político. Seu slogan, “Hwénsu”, significava “É hora”, em fon, a língua nacional do país. A campanha não recebeu a devida atenção da imprensa e de apoiadores, e ela obteve apenas 3% dos votos do eleitorado. Voltou a concorrer nas eleições de 2006, no qual Bonii Yayi saiu vencedor, e teve sua campanha retratada em um documentário do cineasta Sanvi Panou, L’Amazone candidate (A candidata amazona) (2007).

Em continuidade ao trabalho legislativo, lutou  pela criação de normas jurídicas contra a poligamia, o que gerou crítica de muitos parlamentares homens.  Em uma conferência de 2005 sobre mulheres e política, proferida em Niamey, capital da República do Níger, Gbedo encorajou as mulheres a entrar no processo político. Outra importante frente de reivindicações diz respeito às melhorias da condição de acesso das meninas à educação, o que tem sido incentivado pela Organização Hwénsu, que ela fundou. Tal ativismo ocasionalmente tem consequências para sua segurança, e em 2009 ela sofreu ameças e ataques perpetrados por indivíduos desconhecidos, alguns deles mascarados.

Gbedo recebeu a medalha da Ordem Nacional do Benin e foi admitida pelo presidente francês Nicolas Sarkozy na Legião de Honra por seu ativismo em defesa dos direitos humanos. Sua trajetória aparece retratada em suas memórias, intituladas Le destin du roseau (O Destino do junco) (2009).

Ela voltou a concorrer sem sucesso à presidência em março de 2011, e apoiou Boni Yayi após ele ter obtido a vitória. Esta independência e tenacidade revelam ao mesmo tempo a fragilidade da democracia em seu país e a insistência das mulheres em aproveitar todas as oportunidades na contracorrente das realidades beninenses. 

 BIBLIOGRAFIA

AHISSOU, Virgile. “Marie-Elise Gbedo: the woman who dared”. Courier ACP-UE, p.  73-74, maio-junho 2001.

GBÉDO, Marie-Elise. Le destin du roseau. Cotonou: Ruisseaux d’Afrique, 2009.

RICH, Jeremy. “Marie Elise Gbedo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 437-438.


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Legenda: Marie-Angélique Savané

Fonte: Madmoizelle Agency. « J’ai appris à ne pas avoir peur des garçons » : Marie-Angélique Savané, féministe sénégalaise. 01 de mai. de 2018. Disponível em: https://www.madmoizelle.com/marie-angelique-savane-911877. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Marie-Angélique Savané (1947)

Socióloga e ativista senegalesa, nasceu na cidade de Dakar, em uma família católica. Frequentou a escola primária e secundária no Senegal e cursou sociologia na França.

Depois de completar os estudos tornou-se jornalista, editora-chefe da revista Famille et Développement de 1974 à 1978.  A seguir, atuou como pesquisadora do Instituto de Pesquisa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Social, tornando-se em 1990 assessora especial do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados e permaneceu nessa posição até assumir a direção da agência na África Ocidental (1992).  Mais tarde ela se tornou diretora dos projetos da agência em todo o continente africano (1994-1997).

Ao mesmo tempo em que Savané se engajou no desenvolvimento econômico, ela também direcionou o foco de suas propostas para as questões que afetam a condição legal e social das mulheres, em particular das mulheres senegalesas. Em 1987 ela foi uma das fundadoras do Yewwu Yewwi, uma associação feminista senegalesa. O título vem de uma expressão wolof que significa “acordar e depois acordar outra pessoa”. O grupo reivindicou igualdade de direitos econômicos, sociais e políticos para homens e mulheres e desenvolveu programas destinados a erradicar a mutilação genital feminina, bem como promover projetos econômicos rurais.

Ela também foi uma das fundadoras da Associação de Mulheres Africanas para Pesquisa e Desenvolvimento (1977) e do Fórum das Organizações Voluntárias Africanas de Desenvolvimento, além de participar do Conselho para o Desenvolvimento das Ciências Sociais na África – CODESRIA. Seu trabalho chamou a atenção de numerosas estudiosas feministas e ativistas em outras partes da África, Europa e América do Norte.

Ela também se envolveu em questões da vida política senegalesa. Seu marido, Lansing Savané, era um líder da oposição. Ela entrou em conflito com Mamadou Diouf Decroix, figura de proa da esquerda e  membro do Partido Democrático Senegalês, e criticou abertamente o presidente Abdoulaye Wade (2000-2012) por seu governo não fazer o suficiente para melhorar a situação das mulheres.

 Entre suas controvérsias pessoais, destaca-se em 1998 o processo movido por sua empregada, Elizabeth Senghor, que reivindicava o pagamento de horas extras quando prestou serviços a ela em Nova Iorque. Quando atuou como representante do NEPAD (Nouveau Partenariat pour le Développement de l’Afrique), foi acusada pela imprensa beninense de receber favorecimentos e benefícios ilegais do governo do Benin, e embora a acusação de corrupção não tenha sido provada ela foi demitida do cargo em 2009.

Em que pese tais problemas ou controvérsias, seu nome permanece influente entre as feministas do Senegal. 

BIBLIOGRAFIA

MORGAN, Robin (Ed.). Sisterhood is global: the international women’s movement anthology. New York: Peminist Press, 1996.

RICH, Jeremy. “Marie-Angelique Savané”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 290-291.

SAVANÉ, Marie-Angélique. Les projets pour les femmes en milieu rural au Sénegal. Genebra: Bureau International du Travail, 1983.


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Legenda: Marie-Clementine Nengapeta

Fonte: University of Notre Dame. Disponível em: http://faith.nd.edu/s/1210/faith/interior.aspx?sid=1210&gid=609&pgid=22893&cid=44306&ecid=44306&crid=0. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Marie-Clementine Nengapeta (1939-1964)

Religiosa integrante da Igreja Católica Congolesa, pertencia à irmandade da Sagrada Família.  Nasceu na cidade de Wamba, no então Congo Belga, atual República Democrática do Congo, e pertencia ao grupo étnico Budu. Quarta de seis filhas, o seu nome significa “a riqueza engana” e pode estar ligado à habilidade de sua mãe, Julienne Isude, em lidar apenas com filhas, na ausência de filhos. O pai, Amisi Batsuru Batobobo, serviu nas tropas coloniais a serviço dos belgas. Devido ao divórcio dos pais (supostamente porque sua mãe não deu um filho varão a seu pai), Marie-Clementine teve uma infância difícil, que iria marcar toda sua adolescência.

Em 1945, após ser batizada, Marie-Clementine estudou na escola missionária e, contra a vontade da mãe decidiu, em 1959, entrar para a vida religiosa em um convento de freiras, com o nome de Alphonsine Anuarite. Modelo de castidade e de humildade, ganhou o respeito da comunidade católica por sua forte espiritualidade e devoção.

Em 1964, durante a guerra civil que dividia o país após a execução do presidente Patrice Lumumba, um grupo de rebeldes sob o comando do Coronel invadiram e levaram dezenas de freiras a pretexto de garantir-lhes a segurança, e abusaram sexualmente delas. Foi quando Anuarite reagiu e tentou impedi-los, sendo então espancada e alvejada por tiros. Após o incidente, Coronel Olombe foi julgado e sentenciado a morte, mas escapou da prisão.

Admirada por sua coragem, respeitada e venerada, a Irmã Anuarite teve os restos mortais exumados em 1978, e logo depois foi iniciado um processo eclesiástico pela sua beatificação. Após a conclusão do processo ela foi oficialmente beatificada em 1985 pelo Papa João Paulo II em cerimônia realizada durante sua visita à então República do Zaire. 

BIBLIOGRAFIA

FANNING, James. Clementine Anuarite. Nairobi: St. Paul Publications, 1987.

MATUNGULU, Otene. The spiritual journey of Anuarite. Nairobi: St. Paul Publications, 1998. 

RICH, Jeremy. Marie-Clementine Anuarite Nengapeta”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 439-441.


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Legenda: Marie-Louise Sibazuri | Foto: Ian Davidson

Fonte: Moulin de Chaves. Disponível em: https://www.moulindechaves.org/marie-louise-sibazuri/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Marie-Louise Sibazuri (1960)

Escritora, dramaturga e ativista nascida na província de Kayanza, no Norte do Burundi, de uma família de etnia hutu. Durante os estudos secundários em uma escola católica participou da encenação de uma comédia de Molière, o que a inspirou a escrever sua primeira peça teatral quando tinha quatorze anos. Começou a vida pública como professora e bibliotecária em seu país de origem. 

Na década de 1980, atuou em defesa das mulheres, tornando-se vice-secretária geral da Union des Femmes Burundaises (União das Mulheres do Burundi). Isso a aproximou do governo de Pierre Buyoya, que a nomeou para integrar a comissão de unidade nacional em 1988. Na década de 1990 era dramaturga reconhecida por mais de setenta peças teatrais escritas e encenadas em seu país, França e Bélgica, onde tratava de temas importantes e difíceis, como guerra civil que devastou o Burundi no início daquela década, a disseminação da epidemia de HIV/AIDS e a violência contra as mulheres.

 Decidida a ajudar na promoção da paz entre hutus e tutsis, participou da Organização Não-Governamental  Search for Common Ground,  quando escreveu a novela Umumbanyi Niwe Muryango (Onde os vizinhos são nossa família), transmitida pela rádio nacional, que atraiu uma audiência de milhões de pessoas em todo o país. Contava a história das relações entre duas famílias vizinhas cujos laços de amizade e respeito eram mais fortes do que as diferenças culturais e tornava impossível sua identificação étnica.

Entretanto, ela e sua família passaram a ser hostilizadas por opositores políticos, o que a forçou a se mudar para a Bélgica em 1998, onde aprofundou os estudos na Université Catolique de Louvain.  A pedido do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, Marie-Louise Sibaruzi escreveu uma outra novela de rádio, desta vez sobre as relações entre ruandeses e burundianos nos campos de refugiados da Tanzânia. 

Em 2013 escreveu o seu primeiro romance, Les seins nus (Os seios nus), e no ano seguinte foi eleita embaixatriz da francofonia. Nos últimos anos vive na Austrália com o seu segundo marido, Hilaire Bucumi, e publicou em 2019 a coleção de contos folclóricos do Burundi chamada La femme sur le sentier des interdits (A mulher no canteiro dos interditos).

BIBLIOGRAFIA

RICH, Jeremy. Marie-Louise Sibazuri”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 370-371.

ZACHARY, G. Pascal. The diversity advantage: multicultural identity in the New World Economy. Boulder: Westview, 2003. 


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Legenda: Marina Pachinuapa

Fonte: Sala da Paz. 26 de mar. de 2020. Facebook: @SalaDaPaz · Non-Governmental Organization (NGO). Disponível em: https://www.facebook.com/ SalaDaPaz/photos/ pcb.692548478153517/692548344820197/. Acesso em: 22 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Marina Pachinuapa (1947)

Nascida como Marina Mangedye, nasceu em Mueda, Cabo Delgado, durante o período colonial em Moçambique. Foi alfabetizada e recebeu a educação primária em uma missão católica.

Entrou para a luta de libertação nacional em 1965, e nos anos seguintes recebeu treinamento militar, vindo a ser comandante de um destacamento feminino nas Forças Populares de Libertação de Moçambique – FPLM.

Após a independência do país ela seguiu a carreira militar, vindo a alcançar o posto de coronel. Quando obteve sua reforma no exército, passou a atuar como membro do Conselho de Estado.

BIBLIOGRAFIA

CAGLIARI, Maiara Cemin. Gênero e revolução: mobilização de mulheres na Frente de Libertação Nacional de Moçambique (1962-1975). Dissertação (Trabalho de Conclusão de Curso – História), Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2017.

MUSSANHANE, Ana Bouene. Protagonistas da luta de libertação nacional. Maputo: Marimbique, 2012.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave:

Mary Lokko (século XX)

Ativista ganense, foi uma jovem costureira nascida em Osu (Christianborg), um dos setores da cidade de Accra, durante o período do domínio colonial britânico. Foi a primeira mulher a participar de uma organização política aos moldes modernos.

Pouco se sabe sobre sua vida, e o seu nome ganhou projeção nacional em 1935, quando, indignada com o ataque brutal da Itália sobre a Etiópia, um dos poucos países africanos independentes, ela conclamou a sociedade a se manifestar e a apoiar os etíopes, em uma inédita demonstração de solidariedade racial.

Em outubro de 1935 ela foi indicada membro do Comitê de Defesa Etíope, um grupo vinculado à Liga da Juventude da África Ocidental – WAYL e à Associação dos Ex-Militares para arrecadar fundos e apoiar a resistência armada etíope. Impressionado pelo seu fervor, o editor do jornal Vox Populi, influente na Costa do Ouro, a descreveu como um “nobre exemplo de sincera simpatia racial”. O editor do jornal chamou atenção dos líderes homens para prestar mais atenção às questões das mulheres, especialmente a educação e participação delas em assuntos públicos.

Mary se envolveu na WAYL, estabelecida em 1934 por Isaac Theophilus Akuna Wallace-Johnson, um jornalista radical e organizador político da Serra Leoa.  Ela atuou como organizadora da seção feminina, viajando com a equipe de recrutamento através de toda a colônia da Costa do Ouro. Em 1936, ela foi indicada para a direção da entidade, algo inédito até então, quando a participação era exclusivamente masculina. Declarou que se inspirava na atitude e perfil político de Eleanor Rathbone (1872-1946), uma feminista britânica e integrante independente do Parlamento britânico que frequentemente defendia os interesses da Costa do Ouro na Casa dos Comuns durante os anos 1930.

Até o presente nada mais foi encontrado a respeito da continuidade de Mary Lokko na vida política de seu país. Todavia, apesar da escassa informação disponível sobre sua carreira, ela representa o perfil da mulher africana jovem, educada, atenta ao que se passava à sua volta, que, nos anos 1930, ampliou os limites de sua participação social para além dos espaços da igreja, música, e dos clubes sociais – que a elite considerava apropriada às jovens.

BIBLIOGRAFIA

DENZER, LaRay. Towards a study of the history of west african women’s participation in nationalist politics: the early years, 1935-1950.  Africana Research Bulletin, v. 6, p. 67-69, 1976.

DENZER, Laray. “Mary Lokko”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 516.


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Legenda: Mary Muthoni Nyanjiru | Foto: Martin Njuguna

Fonte: Owaahh. Disponível em: https://owaahh.com/ageless-defiance-muthoni-nyanjiru/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Grupo kikuyu

Mary Muthoni Nyanjiru (+1922)

Ativista anticolonial queniana pertencente ao grupo étnico kikuyu da região Weithaga. Embora os detalhes de sua biografia sejam mal conhecidos, sabe-se que era membro de uma comunidade missionária em sua comunidade, e que aderiu à rebelião contra a opressão das autoridades inglesas na imposição de trabalho forçado e a imposição e tributos. Essas exigências geraram oposição liderada entre 1919-1922 pelo nacionalista Harry Thuku, fundador da Young Kikuyu Association (Associação dos jovens Kuikuyus), renomeada em 1921 como East African Association (Associação Leste-Africana) e logo vista como o principal núcleo de resistência. Ela era reconhecida como “chefe das mulheres” pelo apoio moral que lhes dava em face das violências físicas e sexuais a que estavam sujeitas além de terem de se submeter ao trabalho forçado.

O aprisionamento de Harry Thuku pelas autoridades coloniais em 14/03/1922, deu início a um movimento de protesto capitaneado pelos membros da   East African Association, que se organizaram para libertá-lo, em um protesto na Delegacia de Polícia de Nairobi. Após tentativas infrutíferas, uma delegação composta por seis homens havia desistido de continuar, quando Mary Mothoni Nyanjiru, à frente de um grupo de mulheres, avançou contra a porta, algumas delas acusando os homens de covardia. Naquele momento, a líder levantou o pano de seu vestido até o rosto, propondo trocar suas roupas pela dos covardes que nada faziam pelo líder aprisionado. O gesto altamente ofensivo, nomeado guturamira ng’ania, funcionava como uma maldição sobre os homens e uma prova de poder e bravura das mulheres. Na sequência, os policiais abriram fogo sobre ela e mais três mulheres, e dezenas de homens, em uma massacre que contabilizou oficialmente 21 mortos e 28 feridos.

A morte de Mary Muthoni e das demais mulheres e manifestantes não alterou de imediato a ordem colonial, mas tornou-se um marco da resistência anti-colonial, sendo lembrada durante a guerra de libertação da Revolta dos Mau Mau na década de 1950.  Por sua bravura, ela é lembrada na tradição oral, em cantos populares, em poemas e foi lembrada na peça teatral intitulada Too early for birds (Demasiado cedo para os pássaros).

BIBLIOGRAFIA

ROBERTSON,  Claire C..  Trouble Showed the Way: Women, Men, and Trade in the Nairobi Area, 1890-1990. Bloomington : Indiana University Press, 1997.

TIBBETTS, Alexandra.   Mamas Fighting for Freedom in Kenya. Africa Today, v. 41, n. 4,‎ p. 27–48, 1994.

WIPPER, Audrey. Kikuyu women and the Harry Thuku disturbances: some uniformities of female militancy.  Africa:International African Institute, v. 59, n. 3, p. 300-337,  1989.

ZUKAS, Lorna Lueker. “Mary Muthoni Nyanjiru”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 518-519.


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Legenda: Mary Nzimiro

Fonte: Connect Nigeria. Nigerians in History: Mary Nzemiro. 24 de set. de 2020. Disponível em: https://connectnigeria.com/articles/2020/09/nigerans-in-history-mary-nzemiro/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Empreendedoras Igbos Magnatas

Mary Nzimiro (1898-1993)

Nascida como Mary Nwametu Onumonu, foi uma empresária nigeriana pioneira, política e ativista em defesa das mulheres. Pertencia a uma família igbo de alta posição social: o pai, Onumonu Uzoaru, era chefe de distrito durante o período colonial e a mãe, Ruth, uma bem-sucedida comerciante de produtos derivados da palmeira. Estudou em escola missionária em Oguta, sua comunidade natal, formando-se no secundário em 1920. Casou-se com Richard Nzimiro, da United African Company – UAC (Companhia União Africana).

Preparada pela mãe para dar continuidade aos seus negócios começou a negociar sal e óleo de palma nos mercados de Nkwo e Eke. Em meados da década de 1940, mudou-se com o marido para Onitsha, Opobo e Port Harcourt.  Ela passou a comercializar têxteis, pólvora e cosméticos. Como resultado de seu senso de negócios e sua reputação de confiabilidade, tornou-se agente da UAC, representando a empresa em todo o Leste Nigéria em 1948. Nessa condição, passou a distribuir mercadorias para atacadistas e varejistas na Nigéria, Gana e Serra Leoa. Paralelamente, abriu seus próprios pontos de venda de têxteis e cosméticos em Port Harcourt e cidades vizinhas.

Como representante da UAC, realizou diversas viagens de negócios a Londres, Manchester e Glasgow. Além disso, ela abriu dois postos de gasolina, um em Port Harcourt e outro em Lagos. Com isso, Mary Nzimiro tornou-se uma das pessoas mais ricas da África Ocidental, com várias propriedades Port Harcourt, foi capaz de oferecer bolsas de estudos aos estudantes e ajudou muitas de suas aprendizes a ingressar no negócio. Juntamente com o marido, em 1945, abriu uma escola em Oguta, mais tarde renomeada Priscilla Memorial Grammar School, em memória de sua filha, Priscila Nzimiro, que morreu logo após se formar em medicina na Universidade de Glasgow. Em 1966 Mary Nzimiro fundou a Escola Secundária para Meninas, atribuindo-a o nome do marido que tinha falecido em 1959.

Na plano político, Mary Nzimiro se tornou membro do Conselho Nacional da Nigéria e dos Camarões, participando de seu comitê executivo em 1957. Foi eleita vice-presidente da Estern Women’s Association (Associação das Mulheres da África ocidental) em 1962, junto com Margaret Epko. Durante a Guerra Civil da Nigéria, no período da República do Biafra (1967-1970) ela organizou as mulheres igbo para dar suporte aos soldados biafrenses. Como consequência, com a derrota de Biafra, Mary perdeu a maior parte de suas propriedades em Port Harcourt,  retornou à sua terra natal, Oguta, onde viveu até falecer em 1993.

BIBLIOGRAFIA

CHUKU, Gloria. Igbo women and economic transformation in southeastern Nigeria, 1900-1960. New York: Routledge, 2005.

CHUKU, Gloria. From Petty traders to international merchants: a historical account of three igbo women of Nigeria in trade and commerce, 1886-1970. African Economic History, n. 27, p. 1-22, 1999. 

CHUKU, Gloria. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 525-526.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave:

Massassi e Morongo

Personagens da tradição oral Xona, na área cultural dos antigos estados do Grande Zimbábue e do Monomotapa. Vincula-se aos territórios das atuais repúblicas de Moçambique e do Zimbábue. Protagonizam um conto etiológico cuja finalidade é explicar as origens do mundo.

Massassi, a “Estrela da Manhã”, teria sido um ser criado pela entidade primordial, Mwari, para ser a companheira de Muuetisi (Lua),  o primeiro homem a ser criado. Da relação entre ambos Massassi engravidou e pariu árvores, gramas e arbustos, e ambos plantaram e colheram alimentos.

Depois de viverem durante anos, ela morreu, e diante da súplica de Muuetsi, Mwari lhe deu uma segunda mulher, Morongo,  a “Estrela da Tarde”. Da relação entre ambos nasceram galinhas e galos, ovelhas e carneiros, cabras e bodes, antílopes, vacas e bois, e nasceram meninos e meninas.

Com as repetidas cópulas, vieram leões, leopardos, serpentes e escorpiões. Mas num dado momento ela recusou-se a deitar com ele, sugerindo que o fizesse com as filhas que já estavam adultas. E ele o fez, e os(as) filhos(as) que nasciam de manhã tornavam-se adultos(as) à noite. E assim Muuetsi tornou-se o mambo (rei) de um povo numeroso.

Mas Muuetsi continuava a desejar Morongo, e como ela recusasse suas investidas, ele a forçou e quando se deitaram uma serpente que estava embaixo da cama dela o picou e ele adoeceu e definhou. Os filhos consultaram o hacata (dado sagrado), e decidiram mandá-lo de volta ao Dsivoa – o fundo das águas onde ele tinha sido gerado. Então o estrangularam e o enterraram junto com Morongo. Depois escolheram outro homem para ser o mambo.

BIBLIOGRAFIA

FROBENIUS, Leo; FOX, Douglas C. A gênese africana: contos, mitos e lendas da África. São Paulo: Martin Claret, 2010.

HEUSCH, Luc de. Rois nés d’un coeur de vache (Mythes et rites bantous, II). Paris: Gallimard, 1982.

MUKONYORA, Isabel. Women and ecology in shona religion. World & World, v.  19, n. 3, p. 276-284, 1999: http://wordandworld.luthersem.edu/content/pdfs/19-3_politics/19-3_mukonyora.pdf


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Legenda: Matilda Lansana Minah V

Fonte: Politico SL. Southeastern women chiefs challenge north. 20 de ago. de 2013. Disponível em: https://politicosl.com/articles/southeastern-women-chiefs-challenge-north. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Chefia tradicional

Matilda Lansana Minah V (1935)

Também conhecida como “Tia Matty”, é uma professora e chefe tradicional, matriarca do povo Krim, nascida em Boma Sakrim, uma pequena vila litorânea no distrito de Pujehun, em Serra Leoa. Na sua infância foi enviada para a capital, Freetown, onde realizou seus estudos básicos e sua graduação como professora na Faculdade União de Professores (1961). Casou-se com o enfermeiro Albert T. Lansana, com quem teve oito filhos.

Oriunda de uma linhagem de governantes locais com muitos serviços prestados às etnias Mende e Krim, tornou-se líder por aclamação da Chefia Yakemo Kpukumu Krim (YKK) após a morte de seu pai (1986), tendo como prioridade a promoção da segurança alimentar para a agricultura e para a pesca, áreas nas quais obteve grande êxito em pouco tempo.

Na década de 1990 o país passava por grande instabilidade política pelas incursões dos rebeldes de Foday Sankoh e Charles Taylor, da vizinha Libéria. Situada próxima à fronteira, a YKK sofreu grande impacto. Em 1991, Chefa Minah foi capturada e mantida em cativeiro por quase um ano, até escapar para Monrovia, que estava sob o controle do Grupo de Monitoramento da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental – ECOMOG. Como a rebelião continuava, Chefa Minah decidiu ficar na cidade de Bo, e seu povo vivia principalmente de alimentos distribuídos por organizações de caridade. Em 1996 os rebeldes atacaram Bo, saqueando o lar de Minah tal qual haviam feito em 1991.

 Após o fim da guerra civil (2002), “Tia Matty” passou a trabalhar na busca de programas para reconstruir e reorientar sua chefia através de projetos de desenvolvimento da saúde, educação e agricultura. Em 2010 foi premiada pela Associação das Mulheres da ONU, em Roma, com o financiamento de um projeto destinado à melhoria das condições de vida das mulheres do campo através do treinamento educacional profissionalizante em diversas áreas.

BIBLIOGRAFIA

COULTER, Chris. Bush wives and girl soldiers: women’s lives through war and peace in Sierra Leone. Ithaka; Londres: Cornell Univerrsity Press,  2009.

DAY, Linda R.. Women chiefs and Post War reconstruction in Sierra Leone. African and Asian Studies, v. 14, n. 1-2, p. 19-39, 2015.

MAARGAI, Florence. “Matilda Lansana Minah V”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 222-223.


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Legenda: Matilda Newport em selo postal da Libéria (1947)

Fonte: Liberian Philately. Disponível em: http://www.liberianphilately.com/wiki:1947matilda. Acesso em: 27 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Matilda Newport (1795-1837)

Nascida  na Filadélfia, Estados Unidos, com o nome de Matilde Spencer, era uma liberta afro-americana que integrou o grupo de Retornados que se instalaram em território da atual Libéria no início da década de 1820.

Ela se estabeleceu na Ilha de Sherbro, cerca de 100 milhas distante da capital, Freetown e em 1827 casou-se com Ralph Newport, com quem teve um filho. Viveu como uma pessoa anônima, e teve o destino similar as demais mulheres das camadas populares de seu tempo.

Entretanto, na segunda metade do século XIX, quando a elite descendente dos Retornados elaborava a memória nacional da Libéria, a imagem de Mathilda ganhou contornos lendários devido a um episódio supostamente ocorrido em 1822, durante o conflito armado que opôs os recém-chegados aos habitantes nativos, no assentamento de Cabo Mesurado. De acordo com a lenda,  ao notar que os canhoneiros do lado dos colonos estavam mortos ou feridos Matilda teria acendido o estopim do canhão com uma brasa ardente de seu cachimbo, matando assim diversos atacantes africanos e bloqueando o ataque. 

A imagem de Matilda Newport como heroína da guerra de conquista a elevou ao panteão das figuras de proa da nação, e em 1916 foi criado um feriado nacional em sua homenagem, o Mathilda Newport Day. Mas as circunstâncias que cercam sua memória despertaram críticas e resistências por parte da população identificada com os habitantes locais, e após reiterados movimentos de protesto, até a data comemorativa se abolida em 1980.

A mais importante avenida de Monróvia, contudo, leva o nome de Matilda Newport, assim como uma importante escola secundária.

BIBLIOGRAFIA

HOLSOE, Svend E.. Matilda Newport: the power of a liberian-invented tradition. Liberian Studies Journal, v. 32, n. 1,  p. 84-93, 2007.

MORAN, Mary H.. “Matilda Newport”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 445-446.


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Legenda: Mulher do povo Zulu (1897)

Fonte: Internet Archive Book Images. Flickr: Internet Archive Book Images. Disponível em: https:// flic.kr/p/ove1uM. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Migrações Xhozas e Zulus

Mawa (c. 1770-1848)

Integrante da família real Zulu na África do Sul, era tia dos líderes do povo Zulu no momento de consolidação do reino, nos governos de  Chaka, de Dingane e de Mpande.

Ela serviu seus sobrinhos Chaka e Dingane como representante real no assentamento militar por muitos anos, entre 1815 e 1840. Naquele ano seu sobrinho Mpande se tornou regente. Em 1842 este temeu que seu irmão Gququ quisesse tomar o seu lugar e por causa disso mandou matar ele e sua família. Ao que parece, Mawa apoiava Gququ na disputa real e por isso fugiu o mais rápido possível pelas margens do Rio Tugela, seguida por pelo menos trinta mil refugiados, a quem liderava.

 A área que ela e seus seguidores deixaram para trás ficou praticamente despovoada.  Ela negociou com autoridades coloniais inglesas e obteve permissão para fixar um assentamento às margens do rio Umvoti, na Província de Natal.

BIBLIOGRAFIA

BRYANT, Alfred. Olden times in Zululand and Natal: containing the earlier political history of the eastern-nguni clans. Londres; Nova Iorque: Longmans Green, 1929.

KUPER, A.. The ‘house’ and Zulu political structure in the nineteenth century. The Journal of African History, v. 34, n. 3m p. 469-487, 1993.

SHELDON, Katleen. “Mawa”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 138.


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Legenda: Meekulu Mukwahepo | Foto: Ellen Ndeshi (cortesia)

Fonte: Retrato de Meekulu Mukwahepo utilizado na capa do livro "Mukwahepo. Women Soldier Mother" de Ellen Ndeshi Namhila. African Books Collective. Disponível em: http://www.africanbookscollective.com/books/mukwahepo.-women-soldier-mother. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Meekulu Mukwahepo (1937-2018)

Seu nome completo era Mkwanangombe Auguste Mkwahepo Immanuel. Meekulu é uma designação afetuosa, que significa, literalmente “Grande mãe”, por sua participação na construção da nação namibiana. Foi a primeira mulher recrutada pelo Exército de Libertação Popular da Namíbia – SWAPO. Dedicou parte de sua vida a cuidar de crianças nos campos de refugiados durante a guerra de fronteira na África do Sul.

Em 1963, Meekulu Mukwahepo deixou sua casa na Namíbia e seguiu seu noivo Shikongo Hangala através da fronteira para Angola, percorrendo um longo caminho em condições adversas até chegarem na Tanzânia, em 1965. Lá ela recebeu treinamento militar da SWAPO. Durante nove anos, foi a única mulher no campo de Kongwa, depois foi encarregada de cuidar das crianças nos campos situados entre a Zâmbia e Angola .

Após a independência da Namíbia, em 1990, ela foi repatriada junto com seus cinco filhos, de quem cuidou no exílio. Por não conseguir emprego, passou por grave dificuldade financeira, até que lhe foi concedida uma pensão. Além disso, em 1995 o Presidente Sam Nujoma conferiu a ela uma medalha em Omugulugwombashe em reconhecimento ao seu heroísmo e contribuições para a libertação da Namíbia. Ela ganhou uma casa do ex-presidente Pohamba enquanto o ex-primeiro-ministro Nahas Angula lhe deu os móveis da sala de estar. 

Quando faleceu, Mukwahepo recebeu um funeral com honras de Estado como heroína da independência. Sua vida foi retratada no livro da pesquisadora Ellen Ndeshi Namhila, da Universidade da Namíbia.

BIBLIOGRAFIA

AKAWA, Martha. The genderer politics of SWAPO during the namibian liberation struggle. In: SILVESTER, Jeremy (Ed.). Re-viewing resistente in namibian history. Windhoek: University of Namibia, 2015, p. 240-251.

NAMHILA, Ellen Ndeshi. Mukwahepo: women soldier mother. Africa Books Collective, 2013. Disponívem em: muse.jhu.edu/book/27576

NDJADILA, Olivia Ndiwakalunga. Disarmament, demobilisation and reintegration of combatants in Namibia: war veterans’ perception on ‘compensation’. Johnesburgo: University of Witwatersrand – Wits School of Governance, 2016.


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Legenda: Mekatilili pelo pintor Zarina Patel

Fonte: The Open University. Disponível em: http://www.open.ac.uk/arts/research/ferguson-centre/projects/managing-heritage/gallery-2. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Líderes religiosas

Mekatilili wa Menza (c. 1860-1924)

Também referenciada como Mnyazi wa Menza, ou Makatilili. Profetisa e líder anticolonial queniana, liderou o povo Giriama em uma rebelião contra a administração colonial britânica em 1912-1915. Seu nome indica que era mãe de um filho chamado Katilili, pois o prefixo “me”, na língua mijikenda, indica a condição de “mãe de”. Sua história pessoal foi registrada por historiadores a partir de depoimentos orais e registros coloniais.

Mekatilili  nasceu em Mutsara wa Tsatsu, na região de Kilifi. Pertencia ao povo Giriama, um subgrupo do grupo linguístico Mijikenda, do litoral do Quênia. Ela tinha cinco irmãos, e um deles, chamado Mwarandu,  foi sequestrado e levado como cativo por caçadores de escravos afro-muçulmanos que atuavam a partir do litoral do Oceano Índico.

Quando os oficiais e soldados britânicos estabeleceram-se no Quênia, o povo Giriama mantinha-se ligado aos cultos e ritos religiosos tradicionais, que eram realizados em lugares sagrados da floresta que chamavam kayas. Recusando-se a pagar os tributos impostos pelos recém-chegados, Mekatilili  conclamou os demais a lutar contra o invasor, em nome de suas divindades, e passou a ser respeitada como uma profetisa. 

Em 1913 ela realizou um discurso público contra as políticas coloniais britânicas invocando a tradição da profetisa Mepoho que, no século XIX, previu a chegada de homens brancos que trariam diversas mazelas às pessoas e às terras da região. Mekatilili também denunciou chefes locais que vendiam jovens que seriam, futuramente, negociados como escravos pelos britânicos.

Com o apoio de Wanje wa Mwadorikola, um antigo ancião local cujo poder estava enfraquecido, ela atravessou o leito do rio Sabaki discursando para homens e mulheres Giriamas, incitando todos(as) a visitarem o Kaya, o bosque sagrado, situado a noroeste de Mombasa, para consultarem os anciãos e realizarem os rituais necessários para a restauração da unidade política do grupo. Em novembro de 1913 Mekatilili e Wanje, seu marido, foram exilados por oficiais britânicos como líderes da agitação local, e os Giriama tiveram seu kaya realocado a uma posição mais facilmente controlável pela administração colonial.

Entre agosto e outubro de 1914 eclodiu uma revolta contra os britânicos, mas os rebeldes vencidos e submetidos a duras penalidades, ficando apenas em 1918 autorizados a voltar para seu território. Em 1919 Mekatilili e seu marido, Wanje, foram liberados do exílio e puderam também  retornar ao convívio de seu povo, ele como chefe e ela como líder de um conselho feminino.

Mekatilili é tida como uma heroína da luta anticolonial, tendo um festival anual, uma estátua no jardim que leva o seu nome na cidade de Malindi, e um centro cultural na aldeia de Ulaya wa Jele, em sua homenagem.

BIBLIOGRAFIA

BRANTLEY, Cynthia. The giriama and colonial resistance in Kenya, 1800-1920. Berkeley: University of California Press, 1981.

BRANTLEY, Cynthia. Mekatilili and the role of women in Giriama resistance. In: CRUMMERY, Donal (Ed.). Banditry, Rebellion and social protest in Africa. Londres: James Currey, 1986, p. 333-350.

CARRIER, Neil; Nyamweru, Celia. Reinventing Africa’a heroes: the case of Mekatilili, a kenyan popular heroine.  African Affairs, v. 115, n. 461, p. 599-620, 2016.

CARUSO, Yuusuf S.. “Mekatillii wa Menza”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 179-180.

MUGI-NDUA, Elizabeth.  Mekatilili Wa Menza: woman warrior.  Nairobi: Sasa Sema Publications, 2000.


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Legenda: Menen Asfaw

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Empress_Menen_Asfaw_with_Crown.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Menen Asfaw (1889-1962)

Nascida em Igwa, na Província de Wello, na Etiópia, era sobrinha do negus (imperador) Iyasu V. Casada duas vezes com proeminentes aristocratas da Etiópia, tornou-se no terceiro casamento a esposa de Ras Tafari Makonnen, que assumiu o trono como Haile Selassie I.

De modo incomum na Etiópia, Menen e Ras Tafari casaram-se na igreja, o que tornava o divórcio impossível, consolidando a união das famílias governantes de Wello e Shewa, às quais pertenciam. Em 1930 ele foi coroado como negus, e ela como etege (imperatriz).

Como outras nobres etíopes, possuía suas próprias terras e riquezas, acumuladas principalmente pelo cultivo e comércio do café. Em 1936, em virtude da invasão italiana, o casal exilou-se na Grã-Bretanha, onde Menen adoeceu e decidiu partir para um mosteiro etíope em Jerusalém (1938), onde permaneceu até a libertação da Etiópia, quando retornou ao país (1941).

Durante o período de governo do marido ela tomou algumas medidas para melhorar a situação das mulheres no país, foi protetora da Cruz Vermelha etíope e da Organização de Caridade Etiope para as Mulheres, além de ter fundado uma escola para meninas em Adis Abeba. Logo este estabelecimento se tornou um núcleo de educação moderna

Como era o costume, ela mandou construir ou reformar inúmeras igrejas na Etiópia e na Terra Santa, entre elas a Igreja de Santa Raguel, a Igreja Kidane Mehret e o Mosteiro da Santíssima Trindade, às margens do Rio Jordão.

Publicamente não assumiu posição em questões políticas, mas nos bastidores atuou como conselheira do imperador. Após a morte foi enterrada na cripta da Catedral da Santíssima Trindade, em Adis Abeba. Com Haile Selassie  deixou seis filhos: a princesa Tenagnework , Tsehai e Zenework, e os príncipes Asfaw Wossen ,  Makonnen e  Sahle Selassie.

BIBLIOGRAFIA

Marcus, Harold. Haile Selassie I: The formative Years, 1892-1936. Berkeley: University of California Press, 1987.

RUBINKOWSK, Hanna. “Asfaw Menen”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 189-190.


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Legenda: Mentewwab em manuscrito da Etiópia (séc. XVIII)

Fonte: The British Library. Disponível em: http://www.bl.uk/manuscripts/Viewer.aspx?ref=or_715_f134r. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Regentes

Mentewwab (1706-1773)

Nascida com o nome de batismo Walatta Giyorgis, na região de Qwara, com ascendência real da parte da mãe e do governo local da parte do pai, atuou como rainha regente da Etiópia. Recebeu educação formal de clérigos da rede monástica do santo Ewostatewos e apoiou sua doutrina, futuramente financiando as igrejas de Qwesqwam Debre Sehay e Narga Sellase.

Concubina do negus (imperador) Bakaffa, que governou de 1721 a 1730, teve seu filho Iyasu II, conduzido ao trono com 7 anos de idade, sendo ela coroada como etege, título usualmente dado à esposa oficial do rei. Em 1732 enfrentou uma rebelião que foi controlada com ajuda do seu irmão, Walda Leul, responsável pelas expedições militares.

Governando em Gondar, a capital do reino, no início de cada ano (setembro, no calendário etíope), ela e o rei reuniam os dignitários para a redistribuição das funções oficiais. Para além de Iyasu, Mentewwab teve três filhas, que se casaram com governantes regionais da Etiópia, fortalecendo assim suas alianças políticas.

Ela exerceu um papel importante principalmente nos primeiros nove anos do governo de Iyasu, até que ele se tornasse legalmente autônomo. Com a morte dele em 1755, Mentewwab voltou a adquirir importância com a coroação do seu neto, Iyoas, também criança, mantendo-se diretamente no governo até 1769, quando foi forçada a se refugiar em Gojjam devido a uma revolta do governante da Província de Tigré, Mikael Sehul.

Além do palácio de Gondar, mandou construir o complexo palaciano de  Kuskuam, às margens do Lago Tana, onde também fez edificar uma igreja em homenagem a Virgem Maria. Imperatriz caprichosa, ficou conhecida por vários epítetos de grande valor simbólico O mais conhecido, Mentewab, significa “muito bonita”, mas também era chamada de Walata Giyorgis, “filha de São Jorge” e  Berthan Mogasa “glorificada pela luz”.

BIBLIOGRAFIA

BOSC-TIESSÉ, Claire. “How beautiful she is!” in her MIrror: polysemic images and reflections of power of an eighteenth-century ethiopian queen.” Journal of Early Modern History,v. 8, n. 3-4, p. 294-315, 2004.

BOSC-TIESSÉ, Claire. “Mentewwab”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 201-202.

GUIDI, Ignazio (Ed.). Annales regum Iyasu II et Iyo’as (Annales des règnes de Iyasu II et de Iyo’as) (Corpus scriptorum christianorum orientalium, n. 61-66, Scriptores aethiopici, n. 28-29). Louvain: Louvain Catholic University, 1910-1912.

PANKHURST, R.. An eighteenth century ethiopian dynastic marriage contract between Empress Mentewwab of Gondar and Ras Mika’el Sehul of Tegre. Bulletin of the School of Oriental and African Studies, v. 42, n. 3, p. 457-466, 1979.


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Legenda: Mercy Oduyoye

Fonte: Mercy Oduyoye Fanpage. 29 de out. de 2017. Facebook: Mercy Oduyoye Fanpage. Disponível em: https://www.facebook.com/MercyOduyoye/ photos/ a.2235133343179087/2235136763178745/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Professoras universitárias

Mercy Oduyoye (1933)

Nascida no seio de uma família crisã axânti de orientação metodista, na época sob domínio colonial britânico, estudou na escola secundária de Achimota, e no Teacher Training College in Kumasi (Colégio Preparatório de Professores de Kumasi) e na Asawase Methodist Girl’s School (Escola Medodista para Meninas Asawase). A seguir, estudou teologia na Universidade de Gana e na Universidade de Cambridge, com dois bacharelados.

Foi uma das primeiras professoras a lecionar no Departamento de Estudos da Religião da Universidade de Ibadan, Nigéria. O foco de seus estudos diz respeito ao papel social da religião nas experiências sociais e culturais das mulheres africanas, em obras como Women and Ritual in Africa  (Mulher e ritual na África ) (1992), Feminist Theology in an African Perspective (Teologia feminista numa perspectiva africana) (1994), Daughters of Anowa: african women in patriarchy (Filhas de Anowa:  mulheres africanas sob o patriarcado) (1995), Beads and Strands: Reflections of an African Woman on Christianity (Miçangas e fios: reflexões de uma mulher africana sobre o cristianismo na África ) (2004) e Introducing african women’s theology (Introdução à Teologia das Mulheres Africanas ) (2001)

Paralelamente, foi secretária de educação de jovens no Conselho Mundial de Igrejas metodistas. Atuou como leitora nas universidades de Harvard, Princeton, Yale e no Union Theological Seminary  em Nova Iorque. E recebeu honrarias e distinções acadêmicas na Universidade do Cabo (2002) e na Universidade de Yale (2008).

BIBLIOGRAFIA

PHIRI, Isabel Apawo; NADAR, Sarojini (Eds). African women, religion and health: essays in honour of Mercy Oduyoye . Maryknow: Osbis Books, 2006.

LANDMAN, Christina. Mercy Amba Ewudziwa Oduyoye: mother of our stories. Studia Historiae Ecclesiasticae, v. 33, n. 1, p, 197-204.

SHELDON, Katleen. “Mercy Oduyoye”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 05-06.


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Legenda: Merieme Chadid

Fonte: International Astronomical Union. Disponível em: https://www.iau.org/administration/membership/individual/13461/. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Merieme Chadid (1969)

Exploradora, astrofísica e astrônoma. Nasceu em Casablanca, Marrocos filha de um pai que era ferreiro e mãe dona de casa. Apesar da origem humilde decidiu ser astrônoma aos 12 anos de idade quando o irmão lhe deu um livro do astrônomo Johannes Kepler. Passou  a adolescência leu intensivamente o que pôde sobre o céu, as estrelas e os planetas.

Em 1992  Merieme completou o Mestrado em Física na Universidade de Casablanca. Mudou-se para a França para continuar realizando seus objetivos profissionais na Universidade de Nice. Sendo uma mulher, marroquina, e trabalhando área dominada por homens e em um país colonizador, seus primeiros anos foram muito difíceis, mas graças a sua perseverança ela conseguiu completar em 1996 a formação pós-graduada com Doutorado em Astronomia e Astrofísica Universidade de Paul Sabatier, em Toulouse, França.

Merieme foi a primeira cientista a detectar ondas hipersônicas de choque pulsantes nas estrelas, além de explicar a origem dessas pulsações e assim contribuindo para melhorar o conhecimento dos mistérios do universo. Trabalhou no prestigiado Centre National de la Recherche Scientifique, em Montpellier. Liderou a equipe de instalação do maior telescópio do mundo, no deserto do Atacama, além de participar de um programa científico internacional no Polo Sul com o fim de instalar o maior observatório naquela região do Planeta.

Ela é a primeira astrônoma mulher e marroquina a pisar na Antártica e tenta incentivar que mais mulheres sigam a carreira das Ciências Exatas, como diversas conferências e mesas redondas sobre o assunto. Seu documentário sobre astronomia Tarik Annajah (A estrada para o sucesso) é apresentado na TV do canal Al Jazeera e é dedicado às  crianças. Ela ganhou em 2008 o honrado título de Young Global Leader (Jovens líderes globais), na cerimôna de encerramento  do Fórum Econômico Mundial de Davos, Suíça. 

BIBLIOGRAFIA

CHADID, Merieme et alii. Opening a new window on the Southern stars for less Money: PAIX the first Antarctica polar mission photometer. In: Proceedings, v. 9908, 2016: https://www.spiedigitallibrary.org/#

GLACIER, Osire. Merieme Chadid. In: Études Marocaines: https://etudesmarocaines.com/wp-content/uploads/2011/01/Merieme-Chadid.pdf

GLACIER, Osire. “Merieme Chadid”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2,  p. 54-55.


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Legenda: Provável busto de Meritaton | © Musée du Louvre/C. Décamps

Fonte: Musée du Louvre. Disponível em: http://cartelen.louvre.fr/cartelen/visite?srv=car_not_frame&idNotice=14658. Acesso em: 22 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Meritaton

Também identificada pelos nomes Meritaten, Merytaten ou Meryaten, viveu durante a 18ª dinastia faraônica. Foi a primeira das seis filhas de Nefertiti e do faraó Akhenaton. Seu nome é uma homenagem à divindade única cujo culto foi criado no reinado paterno, e significa “aquela que é amada de Aton”. Suas demais irmãs foram Meketaton, Ankhesenpaaton, Neferneferruaton Tasherif, Neferneferrure e Setepenre.

Ela nasceu provavelmente em Tebas, antes de Amenófis IV assumir o trono real, pois Meritaton aparece retratada ao lado de Nefertiti em relevos esculpidos no Hwt-Benben. Ela aparece em pinturas de diversos templos, túmulos e edifícios, inclusive em cenas oficiais, como as representadas no Palácio Maru-Aton em Amarna. Seu nome é mencionado em documentos diplomáticos da correspondência real, como em uma carta de Abimilki de Tiro.

Meritaton parece ter assumido a posição de esposa real, pois assim aparece ao lado do marido, o faraó Smenkhare – que reinou em 1335-1334 a.C., e pode ter servido como regente na parte final do reinado de Akhenaton. Segundo algumas interpretações, ela própria pode ter governado o Egito no período entre 1334-1332. Como sua imagem aparece na decoração do faustoso túmulo de Tutankhamon, certos(as) pesquisadores, como a arqueóloga Alaine Ziye, defendem a ideia de que ela poderia ter sido a mãe adotiva deste jovem governante. 

BIBLIOGRAFIA

TYLDESLEY, Joyce. Chronicle of the queens of Egypt:  From early dynastic times to the death of Cleopatra. Londres: Thames & Hudson, 2006.

DODSON, Aidan; HILTON, Dyan. The complete royal families of ancient Egypt. Londres: Thames & Hudson, 2004.

CYRIL, Aldred. Akhenaten: king of Egypt, Londres: Thames and Hudson, 1991.

WEGNER, Joseph. The sunshade chapel of Meritaten from the House-of-Waenre of Akhenaten. Philadelphia: University of Pennsilvanya Museum of Archaeology and Anthropology, 2017.


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Legenda: Micere Githae Mugo

Fonte: MZ. #KenyanHeroes Micere Githae Mugo. 08 de jul. de 2016. Mamb Zuri. Disponível em: http://karibu.mambozuri.com/2016/07/kenyanheroes-2/. Acesso em: 27 de dez. de 2020.

Micere Githae Mugo (1942)

Estudiosa e escritora transnacional e pan-africanista do Quênia, tem interesse de pesquisa em literatura e oratura na África e na Diáspora Africana, com ênfase em poesia, drama e teatro; estudos de mulheres e gênero; estudos culturais e filmográficos; e educação.

Em uma competição da Commonwealth Scholarship Award para alunos de graduação, Mugo recebeu bolsa para seu mestrado em literatura em 1971 e depois realizou o doutorado em literatura na Universidade de New Brunswick, no Canadá.

Micere Githae foi professora associada na Universidade de Nairóbi, a qual ela se juntou em 1973 como palestrante e onde, mais tarde, se tornou a primeira mulher reitora da Faculdade de Artes (1980-82).  Ela e suas filhas mais novas, Mumbi e Njeri, deixaram o Quênia como exiladas políticas durante o regime do presidente Daniel Arap Moi. Passou a viver nos Estados Unidos desde 1991 e é professora de Estudos africanos na Universidade Syracuse, onde ela recebeu o prêmio Meredith por excelência de ensino entre 2004 e 2007.

Destacada ativista na luta contra a mutilação genital feminina, ela é igualmente crítica de feministas ocidentais que ignoram o que feministas não-ocidentais têm a dizer sobre o que consideram equivalente à mutilação feminina no Ocidente, como os implantes mamários, a bulimia nervosa, a anorexia, entre outros.

Dentre muitos trabalhos estão: Muthoni wa Kirima Mau Mau  field marshall: interrogating silencing and, erasure and manipulation off female combatents’ texts (Muthoni wa Kirima marechal de campo Mau Mau: interrogando o silenciamento, apagamento e manipulação dos textos de mulheres combatentes) (2004); Re-envisioning pan-africanism: what is the role of gender, youth and masses? (Repensando o pan-africanismo: qual o papel do gênero, da juventude e das Massas?) (2002).

Os trabalhos de Micere Mugo têm sido incluídos em críticas que envolvem opressão feminina e de gênero, resistência à globalização e às guerras dos Estados Unidos por lucro e dominação, em trabalhos como Feminism and war: confronting U.S. imperialism (Feminismo e guerra: confrontando o imperialismo dos Estados Unidos) (2008).

Paralelamente, coloca-se como teoriza como oratura e tece críticas à literatura oral que reproduz os elementos da dominação masculina, lamentando que muitas escritoras africanas não tenham se dado conta disto. Em seu poema To be feminis tis (Ser feminista é), ela declara guerra a qualquer forma do racismo, sionismo, apartheid, tribalismo, homofobia, classismo.

BIBLIOGRAFIA

AGBETU, Olayemi. Micere Mugo, history, and the quest for justice and human right. In: FALOLA, Toyin Ed.).. The dark webs: perspective on colonialism in Africa.. Durham: Carolina Academic Press, 2005, p. 245-256.

MABURA, Lilly. “Micere Githae Mugo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 295-297.

MUGO, Micere Githae. Elitist anti-circumcision discourse as mutilating and anti-feminist colloquium: riding society,, culture and law : the issue off emale circuncision. Case Western Reserve Law Review , v. 47, n. 2,  p. 461-466, 1997: https://heinonline.org/HOL/Page?handle=hein.journals/cwrlrv47&div=25&collection=journals.


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Legenda: Miriam Makeba

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/ File:Miriam_Makeba,_Bestanddeelnr_922-1835_( cropped).jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Miriam Makeba (1932-2008)

Miriam Zenzi Makeba foi uma cantora e ativista sul-africana. Nasceu em Johannesburgo. O pai, um professor de origem Xhosa, morreu quando ela tinha seis anos. Sua mãe, de origem étnica swazi, era doméstica e uma curandeira tradicional. Quando criança ela estudou em escolas metodistas de Pretória, envolveu-se em um primeiro casamento em 1949, tendo a filha, Bongi, e quando a relação conjugal entrou em crise ela teve que sustentar a si e a filha como empregada doméstica, e depois como cantora.  

Makeba começou a carreira de cantora em um grupo chamado The Cuban Brothers, e participou de vários outros grupos musicais na África, como os Manhattan Brothers, com quem gravou uma de suas mais conhecidas canções, Pata Pata (1956).  Mas o que fez sua carreira deslanchar e ela se conhecida em outros continentes foi sua aparição no aclamado filme Come Back Africa, de Lionel Rogosin (1959). Ela foi participar da premiação do filme em Veneza, e de lá viajou para a Inglaterra, onde poucos meses depois se casou e viajou para os Estados Unidos. Foi apoiada pelo cantor Harry Belafonte, dando início a uma carreira cada vez mais prestigiada.

A década de 1960 foi bastante tumultuada para Miriam Makeba, tanto profissionalmente quanto politicamente. As autoridades sul-africanas permitiram que Bongi fosse morar com ela nos Estados Unidos, mas impediram que ela fosse participar do enterro de sua mãe na África do Sul, e seu passaporte foi revogado. Em 1963, Makeba já era uma importante porta-voz do movimento anti-apartheid, algo tão importante para ela quanto a sua carreira como cantora.

Por conta deste ativismo e o seu casamento em 1968 com Stokely Carmichael, um influente líder do movimento Black Power com passagem pelo Movimento dos Panteras Negras, sua carreira internacional começou a desmoronar, contratos foram cancelados, a procura por ela no meio artístico diminuiu drasticamente. Foi então que ela voltou a se estabelecer na África, mais precisamente na Guiné-Conacri, dando continuidade às suas apresentações e gravações.

Depois da libertação de Nelson Mandela em 1990, com o fim do Apartheid, Makeba retornou à África do Sul, onde passou a viver com os netos e bisnetos. Entre 1954 e 2008 a cantora gravou cerca de quarenta álbuns. Durante esse tempo, as influências culturais e políticas transformaram seu estilo e estética, tornando-a uma grandiosa referência para os jovens músicos sul-africanos. Miriam Makeba morreu de um ataque cardíaco quando se apresentava em um concerto no Castel Volturno, na Itália.

BIBLIOGRAFIA

ALLEN, Lara. Representation, gender and woman in Black South African popular music, 1948-1960. Tese (Doutorado), Quen’s College, Cambridge, 2000.

ALLEN, Lara. “Miriam Zenzi Makeba”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 53-55.

HASHACHAR, Yair . Playing the backbeat in Conakry: Miriam Makeba and the cultural politics of Sékou Touré’s Guinea, 1968–1986. Social Dynamics, v.  43, n. 2, p. 259-273, 2017.

LOUISE, Bethlehem. Miriam’s Place: south african jazz, conviviality and exile. Social Dynamics, v.  43, n. 2, p. 243-258, 2017.

MAKEBA, Miriam; MWAMUKA, Nomsa. Mama Africa: the Miriam Makeba story. Johabesburg: STE Publishers, 2004. 



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Legenda: Miriam Masoli Tlali

Fonte: TUKS English. 03 de mar. de 2017. Facebook: TUKS English. Disponível em: https:// www.facebook.com/tuksenglish/photos/miriam- masoli-tlali-1933-2017-south-africas-first-published-black-female-novelis/1894567650776791. Acesso em: 15 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Apartheid sul-africano

Miriam Masoli Tlali (1933-2017)

Nasceu em Doornfontein, Johanesburgo, filha de Moses Molefi Tlali e Moleboheng Tlali, e criada na cidade de Sofia. Educada pela mãe, que estimulou o seu amor pela leitura e a sua vocação para o ativismo, ela desde cedo se envolveu com a criação ficcional, com o drama e com a escrita de textos de natureza política, e organizou oficinas de escrita para mulheres. Foi a primeira autora negra sul-africana a ter o seu romance publicado. 

Miriam frequentou o ensino primário e o secundário nas escolas de São Cipriano e de Madibane, nos bairros reservados aos negros na periferia de Johanesburgo. Ela sonhava em estudar Medicina e tentou estudar na Universidade de Witwatersrand, mas não conseguiu devido às dificuldades financeiras e à política de segregação racial do Apartheid implantada em 1948.

Apesar das dificuldades – não só por ser uma mulher negra sob o Apartheid, mas também por ser uma mulher em uma sociedade patriarcal – ela escreveu seu primeiro romance entre os anos 1964-1969 que recebeu o título de I am… nothiing! (Eu sou… nada!), que contém diversos elementos autobiográficos.

Em sua carreira posterior, ela dirigiu o foco para o impacto do Apartheid na vida das mulheres negras, e no romance Amandla (1980) o pano de fundo são os eventos que levaram ao levante estudantil e o subsequente Massacre de Soweto em 1976. Sua preocupação com a opressão sobre o corpo das mulheres, com os traços patriarcais vigentes na sociedade sul-africana, e sobre a poligamia, ganha ainda maior destaque nas narrativas em prosa reunidas em Mihloti (1984).

O seu protagonismo como autora e o reconhecimento do valor de suas obras só começou a ocorrer após o fim do regime do Apartheid, sobretudo por autoras negras que a identificam como importante precursora. Ela continua a ser marginalizada ou criticada no mundo acadêmico sul-africano. A escrita de Tlali é, todavia, muito incisiva, assertiva, independente e comprometida com uma perspectiva renovada das relações de gênero em seu país.

BIBLIOGRAFIA

CULHED, Christina. Grappling with patriarches: narratives strategies of resistance in Miriam Tlali’s writing. Uppsala:  Uppsala University, 2006.

DAYMOND, Margaret J.. Inventing genderer traditions: the short stories of Bessie Head and Miriam Tlali. In: IDEM. South african feminism: writing, theory and criticismo. Nova Iorque: Garland Publishing, 1996, p. 223-239.

LEVEY, David Norman Ralph. “Miriam Masoli Tlali”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 33-34.

MPHAHLELE, Mante. Writings as transformational: a marxista feminist analysis of Miriam Tlali’s Works. Thesis (Master), Simon Fraser University, 1993.


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Legenda: Mulher do povo Zulu (1856)

Fonte: The New York Public Library. Disponível em: https://digitalcollections.nypl.org/items/510d47da-6da6-a3d9-e040-e00a18064a99. Acesso em: 20 de jan. de 2021.
Palavras-chave:

Mkabayi Kajama (1750-1843)

Princesa pertencente ao povo zulu, era tia de  Senzangakoma, pai do líder  Chaka. Filha do rei Jama, intermediou os contatos para o casamento dele com Mthaniya, do clã Sibisi, que lhe deu um filho. Em reconhecimento a esse esforço para garantir a continuação da linha  de sucessão da monarquia, ganhou prestígio e influência.

Quando o rei Jama morreu Mkabayi Kajama assumiu a posição de regente no período de 1781 a 1787, contrariando o costume. A seguir, atuou junto ao conselho real e também como chefe de guerra nos governos de Senzagakom,  de Dinguiswayo e de Chaka, contra quem ela conspirou e urdiu um plano de assassinato. Apoiadora de Dingane na luta pelo poder, Mkabayi  foi banida do reino após a ascensão de seu aliado e morreu no exílio.

Recentemente, um musical dirigido por Lwndile Jentile, baseado na vida da controversa princesa Zulu alcançou grande sucesso na África do Sul.

BIBLIOGRAFIA

Shamase, Maxwell. Gender and Behaviour – Women king makers: the case of zulu princess Mkabayi Kajama (c.1750 – c.1843). KwaZulu-natal:  University of Zululand, 2017.


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Legenda: Mulher do povo Tswana (1881)

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/ File:Seven_Years_in_South_Africa,_page_454,_Bella.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Mma-Besi (1846-1889)

Mohumagadi (rainha ou rainha-mãe) dos BaNgwato, o maior e mais poderoso grupo dos Tswana, no protetorado de Bechuanalândia, atual Botswana. Foi a primeira esposa de Khama III, kgosi (rei) dos BaNgwato, e avó do primeiro presidente do Botswana, Seretse Khama.

Em 1860 foi batizada “Elizabeta”, em homenagem a Elizabeth Moffat, filha do fundador da primeira missão cristã entre os BaNgwato, Robert Moffat. Seu casamento com Khama, em 1862, foi o primeiro realizado nos moldes cristãos em Shoshong, então capital dos BaNgwato. A adoção da monogamia por Khama III acabaria se tornando um símbolo da rejeição dos tswana à prática da poligamia, vigente até então.

Elizabeta teve muitas filhas, como Besi, Baboni e Pidio, tornando-se “Mma-Besi” devido à tradição Setswana de assumir a alcunha de “mãe de” mais o nome do primeiro filho ou filha. Entre os filhos homens, apenas um sobreviveu: Sekgoma, que viria se tornar Sekgoma II quando da morte do seu pai em 1923, reinando por apenas dois anos.

Muito amada e exaltada como mohumagadi, a mãe do seu povo, Mma-Besi morreu provavelmente em decorrência da malária, aos 44 anos, e continua sendo conhecida até hoje como “Mma-Besi a Khama”.

BIBLIOGRAFIA

ALLEN, Judith Van. “Mma-Besi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 232-233.

PRICE, Elizabeth Lees Moffat. The Journals of Elizabeth Lees Price: written in Bechuanaland, Southern Africa, 1854-1883, with an epilogue, 1889-1900. Editado por Una Long. Londres: E. Arnold, 1956.

TLOU, Thomas; PARSONS, Neil; HENDERSON, Willie. Seretse Khama 1921-1980. Braamfontein: Macmillan, 1995.


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Legenda: Mulher africana (1800-1899)

Fonte: The New York Public Library. Disponível em: https://digitalcollections.nypl.org/items/510d47df-c9d3-a3d9-e040-e00a18064a99. Acesso em: 11 de jan. de 2021.

Mmanthatisi (1784-1847)

Também referenciada como Ma Nthsi, Mantatise ou Manhatise, foi uma importante líder de um grupo do povo Soto, na África do Sul e Lesoto, durante a migração em massa no início do século XIX conhecida como Difaqane. Ela nasceu no Estado livre de Orange, África do Sul, filha de um chefe chamado Mothaha e se casou com o chefe de Tlokwa, que era seu primo. Seu nome, Mmanthatisi, indica que era mãe de uma filha chamada Nthatisi, após o nascimento de seu primeiro filho, por volta de 1800.

Quando o marido morreu em 1813, ela ocupou o cargo de regente de seu filho, chamado Sekonyele, que mais tarde se tornou o chefe de seu povo. No momento em que povos em fuga das guerras zulu começaram a invadir o seu território, em 1810, Mmanthatisi conduziu o seu povo, que na época se estimava em cerca de 35-40 mil pessoas, numa perigosa marcha para o oeste.

Liderou seu povo em um ataque bem sucedido contra Zwide, chefe do Ndwandwe, e capturou muitos bovinos. Ao longo dos anos seguintes, organizou várias campanhas militares dos Tlokwa, quando se juntaram à migração e invasão generalizada através dos rios Vaal e Orange. Embora alguns não atribuam a ela participação direta nos conflitos, mesmo que sua liderança tenha se limitado ao planejamento e estratégia, era um fato muito incomum uma mulher ter essa posição em uma sociedade patrilinear e suas atividades atraíram a atenção em toda a região.

Sekonyela se juntou a ela quando se estabeleceu no norte do Lesoto, embora continuasse ativa na política de Tlokwa depois que ele assumiu a chefia por volta de 1824.

BIBLIOGRAFIA

LYE, William F. The Difaqane: the Mfecane in the southern sotho area, 1822-24. Journal of African History, v. 8, n. 1,  p. 107-131, 1967.

SHELDON, Katleen. “Mmanthatisi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 23-233.

WEIR, Jennifer. Mmanthatisi. In:  SMITH, Bonnie (Ed).  Oxford encyclopedia of women in world history. Nova Iorque:  Oxford University Press, 2008, v. 3, p. 253-254.


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Legenda: Mohamed Bibi Titi

Fonte: African Feminist Forum. Disponível em: http://www.africanfeministforum.com/bibi-titi-mohamed-tanzania/. Acesso em: 27 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Mohamed Bibi Titi (1926-2000)

Líder nacionalista tanzaniana, nasceu em Dar es-Salaam, de pais que vieram de Rufiji. Ela estudou até o quarto ano do ensino fundamental, o que era mais do que a maioria das meninas muçulmanas da época. Aos 14 anos, casou-se com Mzee Bin Haji, vinte e seis anos mais velho do que ela. Alguns anos depois, ele se divorciou dela e Bibi Titi se casou mais duas vezes.

A vida política de Bibi Titi começou em 1955, quando, aos 25 anos, ajudou a estabelecer a União Nacional Africana de Tanganica – TANU, sendo a primeira mulher e tornar-se membro do comitê executivo do partido. Mobilizou as mulheres em Dar es-Salaam para o movimento nacionalista anti-colonial e ajudou a trazer mais de 6.000 delas para o TANU na época.

Após a independência, liderou a organização nacional de mulheres Umoja wa Wananawake wa Tanzania. No entanto, a vida de Bibi Titi era muito tumultuada. Em 1969, foi presa, juntamente com o ex-ministro do Trabalho Michael Kamaliza e quatro oficiais do exército, acusada ​​de traição e condenada à prisão perpétua. Alegou inocência, mas passou dois anos na prisão até que sua sentença foi comutada em 1972 pelo presidente Julius Nyerere, sem qualquer explicação. Ao deixar a prisão, viveu uma vida tranquila em Dar es-Salaam e perdeu muitos de seus colegas políticos e amigos durante esse período.

Bibi Titi morreu em um hospital na África do Sul, e seu funeral em Dar es-Salaam contou com a presença dos ex-presidentes Benjamin Mkapa, Ali Hassan Mwinyi e outros líderes do partido e do governo. Após sua morte seu nome foi atribuído a uma rua principal na capital do país.  Aqueles que a conheceram ficavam impressionados com sua perspicácia política, sagacidade e dedicação ao nacionalismo, justiça, igualdade de gênero e desenvolvimento na Tanzânia.

BIBLIOGRAFIA

GEIGER, Susan. TANU Women: gender and culture in the making of tanganyikan nationalism, 1955-1965. Oxford: James Currey, 1997.

GEIGER, Susan. Women in nationalist struggle: TANU activists in Dar es-Salaam. International Journal of African Historical Studies, v. 20, n.1, p. 1-26, 1987.

MEENA, Ruth. A conversation with Bibi Titi: a political veteran”. In: MBILINYI, Marjorie; RUSIMBI, Mary.  Activist voices: feminist struggles for an alternative world. Dar es-Salaam: Tanzania Gender Networking Programme and E&D Ltd, 2003.

TRIPP, Aili. “Bibi Titi Mohamed”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 245-246.


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Legenda: Molara Ogundipe

Fonte: EcuRed. Disponível em: https://www.ecured.cu/Archivo:Molara-Ogundipe.jpg. Acesso em: 22 de dez. de 2020.

Molara Ogundipe (1940-2019)

Molara Abiodun Ogundipe-Leslie nasceu em Lagos, capital da Nigéria, de uma família de educadores e clérigos, frequentou na infância a Queen’s School, em Ede, e foi a primeira mulher a obter um diploma de inglês no University College Ibadan (Colégio universitário Ibadan), na época vinculado à University of London (Universidade de Londres). A seguir, obteve o título de doutorado na Universidade de Leiden, com a tese intitulada Gender and subjectivity. Readings of “Song of Lawino” (Gênero e subjetividade. Leituras de “Song of Lawino”) (1999).

Abiodun ensinou inglês, redação, literatura comparada e relações de gênero em várias instituições de ensino, em particular na Universidade de Port Harcourt, na Nigéria.

Pioneira dos movimentos feministas na África, foi uma das primeiras a denunciar as estruturas patriarcais vigentes no continente, destacando-se na direção da Foundation for International Education and Monitoring (Fundação Internacional para a Educação e Monitoramento), que se dedica a difundir os fundamentos das teorias feministas e da igualdade de gênero. Participou da coletânea Sisterhood is global: the international women’s movement anthology (A sororidade é global: uma antologia do movimento internacional das mulheres) e tem alguns de seus poemas publicados na antologia Daughters of Africa (Filhas da África) (1992).

Desde o início de sua carreira, ela defendeu a ideia de que o reconhecimento social das mulheres nigerianas era uma chave para melhorar o funcionamento das instituições sociais e políticas. Como autora, expressou a complexidade das diferenças de gênero, em obras como Sew the old days and other poems (Costurar os velhos tempos e outros poemas) (1985), Re-creating ourselves: african women & critical transformations (Recriando a nós mesmas: mulheres africanas e transformações críticas) (1994) e Women as oral artists (Mulheres como artistas orais) (1994).    

BIBLIOGRAFIA

ALLAN, Tuzyline Jita: Re-Creating ourselves: african women and critical transformations by Molara Ogundipe-Leslie. Research in African Literatures, 1995.

OGUNDIPE-LESLIE, Molara. The female writer and her commitment. African Literature Today, v. 15, p. 5-13, 1987.

OGUNDIPE, Molara. Indigenous and contemporary gender: concepts and issues. In: Africa: implications for Nigeria’s development. Lagos: Malthouse Limited P., 2005.


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Legenda: Mônica por Benozzo Gossoli (1464–65)

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Monica_of_Hippo_by_Gozzoli.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Mônica (331-387 d.C.)

Santa cristã, mãe de Agostinho de Hipona, é a mulher africana mais famosa do seu século. Nascida provavelmente em Tagaste, atual Souk Ahras, na Argélia, morreu em Óstia, o porto de Roma.  Seu nome sugere que sua família era nativa da região e falava e trabalhava na tradição púnica deixada pelos cartagineses, mas sua família imediata era cristã e pertencia às classes altas da sociedade romana provincial.

Nos escritos de Agostinho sobre Monica,  notadamente no livro Confessiones (As Confissões), redigido entre os anos 397-400, em que ele descreve episódios de sua infância e juventude, antes de converter-se ao cristianismo,  Santa Mônica é retratada em na sua propriedade rural (vila) dos arredores de Milão durante o inverno que antecedeu seu batismo, como alguém com uma fé religiosa serena, amor paciente por seu filho e esperança para que ele obtivesse um aprofundamento religioso.

Agostinho atribuiu à persistência e exemplo dela o mérito de ter-lhe preparado para a vida espiritual. Ela foi santificada pela Igreja não por operar milagres ou pelo martírio, mas por ter sido responsável pela conversão do filho que viria a ser um dos principais pilares morais do cristianismo. Ela teria morrido aos cinquenta e seis anos, e seu túmulo encontra-se no interior da Basílica de Santo Agostinho, em Roma.

BIBLIOGRAFIA

BOIN, Douglas. Late antique Ostia and a campaign for pious tourism: epitaphs for bishop Cyriacus and Monica, mother of Augustine”. Journal of Roman Studies , v. 100,  p. 195-209, 2010.

BROWN, Peter Robert Lamont. Augustine of Hippo: a biography. London: Faber, 1967.

DI BERARDINO, A. Monnica. In: Fitzgerald, Allan D.. Augustine through the ages.. Grand Rapids: W.B, Eerdmans, 1999, p. 570-571.

O’DONNELL, James. “Monnica”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 261-262.


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Legenda: Montikelelo Veleko

Fonte: VILLIERS, Delia de. 20Q: Nontsikelelo Veleko. 30 de ago. de 2010. Design Indaba. Disponível em: http://www.designindaba.com/articles/interviews/20q-nontsikelelo-veleko. Acesso em: 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Fotógrafas

Montikelelo Veleko (1977)

Nascida na pequena cidade de Bodibe, na África do Sul. Cresceu na Cidade do Cabo, onde estudou o ensino fundamental e médio na Luhlaza High School.  A seguir fez um curso de design gráfico na Cape Technicon (1995), e em Johanesburgo obteve formação em fotografia no Market Theatre Photo Workshop (1999-2004).

Em 2003 Nontsikelelo documentou as inscrições parietais em grafite de Johanesburgo e Cidade do Cabo, na série intitulada “Os que estão no topo não vão parar”.  Este amplo registro fotográfico resume a atmosfera social e política de importantes áreas urbanas na África do Sul pós-Apharteid.  Três anos mais tarde, em 2006, suas fotografias fizeram parte da exposição coletiva Snap Judgments: New Positions in Contemporary African Photography (Julgamentos rápidos: novas posições na fotografia africana contemporânea), no International Center of Photography (Centro Internacional de Fotografia).

Seu trabalho propõe uma reflexão sobre a auto-representação, com registros da rua e do cotidiano, de modo a explorar as estratégias que as pessoas em meio urbano usam para se apresentar e construir sua identidade. O trabalho revela um compromisso político contra a discriminação e a falta de representação de certas comunidades negras, especialmente as dos jovens de bairros periféricos.

BIBLIOGRAFIA

PERRYER, Sophie. 10 years 100 artists: art in a democratic South Africa. Bell-Roberts Publishing, 2004.


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Legenda: Estátua de Moremi Ajasoro no palácio do (rei) Ooni de Ife

Fonte: Africa Global Radio. Did you know the Moremi Ajasoro Statue of Liberty is the tallest single statue of a woman in Africa at 42 feet tall?. Disponível em: https://www.africaglobalradio.com/ did-you-know-the-moremi-ajasoro-statue-of- liberty-is-the-tallest-single-statue-of-a-woman-in- africa-at-42-feet-tall/. Acesso em 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Moremi

Também referenciada como Moremi Ajasoro. Personagem mitológica da tradição oral yoruba, onde é apresentada como uma mulher com charme e inteligência que salvou seu povo em Ilê-Ifé dos ataques dos povos Igbo durante os primeiros séculos de existência da cidade. Em algumas narrativas, teria sido membro da família de Oduduwa, o progenitor do povo yoruba, sendo esposa de Oranmiyan – o fundador do reino de Oyó.

Fiel defensora de seu povo, por sua preocupação com os constantes ataques dos igbos, jurou aos deuses oferecer-lhes um sacrifício em troca da vitória sobre os inimigos. A promessa foi realizada na frente do rio de Esinmirin, uma divindade protetora das águas.   Ela foi a um lugar que era atacado com frequência e se deixou capturar. Encantado com a prisioneira, o governante igbo a tomou para si e contou-lhe informações secretas sobre futuros ataques planejados contra Ifé.

Moremi descobriu que, em preparação para a batalha, os guerreiros igbos cobriam-se da cabeça aos pés com grama e fibras de bambu e de ráfia, e que se alguém pudesse passar entre eles com uma tocha assim poderiam ser derrotados, o que de fato veio a ocorrer. A seguir ela fugiu e avisou os habitantes de Ifé, que assim procederam, vencendo o inimigo e salvando a comunidade.

Quando a missão foi cumprida ela cumpriu a promessa, oferecendo animais em sacrifício aos deuses, mas estes não foram aceitos. Os sacerdotes informaram-na que a única oferenda que aceitariam seria o seu único filho, Oluorogbo. Mesmo abatida, Moremi permitiu o sacrifício do filho. Todo o povo de Ifé  lamentou, e a reverenciou por  este supremo sacrifício.

Sua estória é recontada pelos tradicionalistas, e atualmente é recontada em livros, peças de teatro e no cinema. Na atualidade, o festival de Edi, realizado por ocasião da colheita do inhame, é feito anualmente em sua homenagem.

BIBLIOGRAFIA

ALLEN, Judith Van. “Elisabeth Pulane Moremi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 266-268.

OGUMEFU, M. I.  Yoruba legends: 40 west African folklore and tales from the yoruba people. London: Abella Publishing, 2009 (or. 1929).

HUTCHISON, Yvette Hutchison (1999). The seductive dance between history and literature: the modern legend by historian Samuel Johnson and play wrights Duro Ladipo and Femi Osofisan. South African Theatre Journal, v. 13, n. 1, p. 31-47, 1999.


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Legenda: Mosadi Seboko

Fonte: SETSWANA, Lobebe lwa Poko Ya. 21 de jun. de 2018. Facebook: Lobebe lwa Poko Ya Setswana. Disponível em: https://www.facebook.com/ThutoPrinceMosomane/photos/a.1700711443296896/1999216276779743/? type=3. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Mosadi Seboko (1950)

Primeira mulher a se tornar chefe suprema em Botswana, é a filha mais velha do kgosi (chefe supremo; rei) Mokgosi III.  Mosadi, que se traduz como “mulher” na língua setswana, nasceu em Ramotswa, uma aldeia a cerca de 32 km ao sul da capital, Gaborone, que é também a capital do grupo étnico Balete ou Bamalete.

Ela realizou os estudos no Colégio de Moedin, na aldeia de Otse e na Escola de Ultramar de Cambridge, onde se formou em 1969. Na juventude, começou a trabalhar para ajudar a mãe e os(as) sete irmã(o)s, uma vez que, depois que o pai morreu (1966) a regência passou ao irmão dele. Entrou no Barclays Bank (1971-1995) onde se tornou gerente e administradora de departamento, e depois foi gerente em um escritório em Broadhurst (2001).

 Quando o tio dela morreu (1996), a função real passou ao seu irmão, que foi nomeado como chefe supremo como kgosi (rei) Seboko II, e após a morte deste em 2001 sem deixar herdeiros os tios paternos indicaram um primo dela alegando que as mulheres não serviam para serem chefes supremos.

Tradicionalmente as mulheres eram autorizadas a participar nas assembleias de aldeia (kgotlas) apenas se fossem convidadas a fornecer informações ou evidências em processos judiciais, como testemunhas, mas poderiam, no entanto, servir como regentes. Seboko desafiou o costume e, com o apoio da mãe e das irmãs, assumiu a regência. Estando na função, desafiou uma vez mais as tradições e exigiu que fosse nomeada como chefe supremo, uma posição que ela argumentava ser legitimamente sua, e tomou como base a Constituição do Botswana, que proíbe qualquer forma de discriminação, inclusive de gênero.

Mosadi foi apoiada em suas demandas pelo movimento de mulheres representado por Emang Basadi, um grupo de ativistas e políticos de alto escalão, incluindo mulheres ministras de gabinete. Em dezembro de 2001, em uma reunião em Ramotswa com centenas de representantes da etnia Balete, a corte real a elegeu como a primeira chefe suprema feminina, e o ministro do governo local de Botswana, Dr. Margaret Nasha, aprovou sua nomeação. Em 7 de janeiro de 2002 Seboko assumiu oficialmente a posição de chefe supremo dos Balete e prestou juramento na Ntlo-ya-Dikgosi (Casa dos Chefes), uma assembleia consultiva de grande influência e dotada de poder de decisão em certas matérias.

No dia 03 de agosto de 2003 ela foi instalada como Kgosigadi (chefe) Mosadi Seboko em uma cerimônia em que compareceram mais de trinta mil pessoas. Devido à grande repercussão assumida pela controvérsia o próprio presidente e o alto escalão do governo compareceram. Ela foi envolta em uma pele de leopardo e recebeu uma lança e um escudo, símbolos de poder da monarquia tradicional.

Seboko preside a corte tradicional dos Balete, resolvendo determinados processos judiciais, e representa os interesses de seu povo junto ao governo federal. Em 2010 ela esteve à frente de um grupo no Supremo Tribunal de Lobatse para defender os seus direitos contra as violações promovidas por uma grande empresa de extração de pedras. Ela defendeu o empoderamento das mulheres e é reconhecida como um símbolo delas, e sua instalação no poder foi vista como um grande passo em frente para as mulheres no Botswana.

BIBLIOGRAFIA

LESLIE, Agnes. “Mosadi Seboko”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 316-317.

MATEMBA, Yonah Hisbon. A chief called “Woman”: historical perspectives on the changing face of Bogosi (chieftainship) in Botswana, 1834-2004. JENDA: a Journal of Culture and African Women Studies, v.7, 2005.


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Legenda: Muthoni Gachanja Likimani

Fonte: Amazon. Disponível em: https://www.amazon.com/Muthoni-Likimani/e/B008YVK6WE%3Fref=dbs_a_mng_rwt_scns_share. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Muthoni Gachanja Likimani (1925)

 Locutora e produtora de rádio e televisão queniana, especialista em relações públicas, educadora, fazendeira, escritora e ativista em defesa dos direitos das mulheres. Nasceu na Missão de Kahuhia, no Distrito de Fort Hall. Seu pai foi um dos primeiros ministros da Igreja Anglicana Queniana. Ela foi educada na Escola para Meninas de Kahuhia e na Faculdade Lowe Kabete. Depois de completar graduação, trabalhou como tutora em sua antiga escola, mas se mudou para Nairobi depois do casamento com o primeiro médico queniano, o Dr. Jason Clemente Likimani, do grupo étnico massai, com quem teve três filhas. 

Em 1955, devido à infidelidade conjugal do marido e ao autoritarismo dele na criação das filhas, ela o deixou e se mudou para Nairóbi, aprofundou os estudos em escola noturna e passou a se dedicar ao cuidado das meninas quenianas. Ingressou no movimento Girl Guides e ajudou a desenvolver o Maendeleo Ya Wanawake um grupo de mulheres de oficiais coloniais, além de ter participado da Associação de Jovens Mulheres Cristãs do Quênia.

Com uma bolsa de estudos do Conselho Britânico, viajou para a Inglaterra em 1958 e obteve formação em cursos de Desenvolvimento Comunitário e Educação para Adultos na Universidade de Londres, e em Nutrição na London School de Higiene e Medicina tropical. Quando retornou ao seu país, em 1960, desenvolveu programas de rádio para mulheres Kiswahili para a BBC e para o Kenya Broadcasting Services (atualmente Kenya Broadcasting Corporation). O programa de maior sucesso destinado ao público feminino e infantil, emitido em swahilo, chamava-se Shangazi na watoto (A titia e as crianças), que deu origem a publicações de literatura infanto-juvenil. 

Ela também publicou livros em língua kikuyu e kiswahili, entre os quais o romance They shall be chastised (Eles serão castigados) (1974) em que examina a situação dos primeiros convertidos gikuyu na comunidade missionária de Shimoni; e o poema narrativo What does a man want (O que um homem quer) (1974), onde comenta sobre a posição das mulheres no Quênia depois da emancipação. Apesar dela não ter se envolvido diretamente no movimento de resistência Mau Mau, mais tarde tratou da contribuição das mulheres na resistência em nove relatos fictícios de seu livro mais conhecido, Passbook number F. 47927: women and Mau Mau in Kenya (Caderneta número F. 47927: mulheres e Mau Mau no Quênia) (1985), título que se refere ao seu próprio número de identificação durante a Emergência Mau Mau.

Após diversas situações que revelavam discriminação e machismo nas instituições em que trabalhou, decidiu criar sua própria empresa em 1973, a Noni’s Publicity, que foi a primeira companhia de relações públicas de propriedade africana no Quênia, e também lidou com atividades de publicação, como o periódico Women of Kenya (Mulheres do Quênia).Nos anos 1980 foi indicada como Conselheira da cidade de Nairóbi, posição que ela manteve até o governo substituir o conselho por uma comissão. Em 2005 ela publicou sua autobiografia, Muthoni Likimani: Fighting without ceasing (Muthoni Likimani: lutando sem cessar).

BIBLIOGRAFIA

BEKERS, Elisabeth. “Muthoni Gachanja Likimani”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 499-500.

JAMES, Adeola. Muthoni Likimani. In: In their own voices: African woman writers. Portsmouth: James Currey and Heinemann, 1990.


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Legenda: Muthoni Wa Kirima

Fonte: AURN. Muthoni Wa Kirima: My Hair, My History. 13 de abr. de 2018. Disponível em: https://aurn.com/muthoni-wa-kirima-my-hair-my-history/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Grupo kikuyu

Muthoni Wa Kirima (1931)

Nascida em uma fazenda europeia na região central do atual Quênia, na localidade de Nyeri, durante a época colonial, de origem étnica kikuyu, ingressou desde muito jovem na luta anti-colonial e viria a se destacar como comandante militar na Revolta Mau Mau.

Foi empreendedora nos anos da juventude. Quando tinha cerca de vinte anos casou-se com o general Mutungi, e pela mesma época passou a residir em uma aldeia para africanos em Nyeri, e em 1952 passou a atuar como espiã dos combatentes do movimento dos Mau Mau, de base étnica Kikuyu, que viviam nas florestas. A seguir, entrou diretamente em combate, alcançando posto de comando, ferindo-se em operações de guerra mas sem nunca ter sido aprisionada até a independência do Quênia em 1963. Foi  promovida dentro do movimento a General pelo líder dos Mau Mau, Kimathi, tendo sido a primeira mulher a alcançar esse grau. Em entrevista, Muthoni Kirima referiu-se às difíceis condições de vida dos africanos no Quênia colonial, utilizados pelos colonos britânicos como força trabalho nas plantações e do seu engajamento na luta pelos direitos do seu povo.

Depois da guerra colonial, teve autorização para comercializar marfim até 1976, quando a atividade foi proibida. Na década de 1990 participou como conselheira no Conselho de Nyeri. Por sua trajetória de luta e por ser popularmente reconhecida como heroína da pátria, recebeu uma medalha do presidente Daniel Arap Moi (1998) e distinção do presidente Uhuru Kenyatta (2014).

Até o presente (2020),  ela vive no subúrbio da cidade de Nyeri.

BIBLIOGRAFIA

GÁMEZ FUENTES, María José, NUÑEZ PUENTES, Sonia and GÒMEZ NICOLAU, Emma (Eds.). Re-writing women as victims. From theory to practice, Londres:  Routledge, 2019.

MUGO, Micere Githae. Muthoni wa Kirima Mau Mau field marshall: interrogating silencing and, erasure and manipulation off female combatents’ texts. Harare: Sapes Book, 2004.

OJAKOROTU, Victor; SEGUN, Eesuola Elukayode. Gender and behaviour – resistance politics among the women of the old : Funmilayo Kuti, Muthoni wa Kirima and Miriam Makeba in comparative behavioural perspectives. Gender & Behaviour, v. 15 n. 2, p. 8512-8522, 2017.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave: Poetisas

Mwana Kupona (1820-1865)

Seu nome completo era Mwana Kupona Binti Msham. Nasceu na Ilha de Lamu, às margens do Oceano Índico, no litoral norte da atual República do Quênia, à época sob o domínio do Sultanato de Oman.

Em 1836, aos dezesseis anos, foi casada com o Xeque Mataka bin Mbarak (1799-1856), vinte anos mais velho do que ela, e passou a ser a sua quarta esposa. Dois anos mais tarde deu à luz ao primeiro filho, Mohammed bin Mataka (1838), e logo a seguir a uma filha, Mwanahashima binti Mataka, a quem dedicaria um poema que imortalizou as suas relações.

Tendo recebido boa formação escolar aos moldes islâmicos, correspondentes à posição aristocrática que detinha, escreveu o livro intitulado Utendi wa Mwanakupona (O livro de Mwana Kupona), obra das mais conhecidas da antiga literatura suaíle publicado em 1858, em forma de poema, e dedicado à sua filha  – na época uma adolescente de dezessete anos que se preparava para o casamento, conforme o costume de seu povo.

O poema contém cento e duas estrofes em estilo épico (utendi), cada estrofe com quatro versos e rimas em cada uma das linhas.  Nele, a mãe aconselha sua filha e outras garotas de sua idade como se comportar em relação aos maridos e filhos, fornecendo-lhes um guia espiritual e instrucional acerca das obrigações e responsabilidades das mulheres casadas, e sugestões sobre a arte da beleza feminina.

BIBLIOGRAFIA

BABUSA, Hamisi. “Mwanakupona Binti Msham”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 273-274.

KINGEI, Kingei. Mwana Kupona poetes from Lamu. Nairobi: Sasa Sema Publications, 2000.

TOPAN, Farouk. From Mwana Kupona to Mwavita: representations of female status in swahili literature. In: Caplan, Patricia; TOPAN, Farouck (Eds.). Swahili modernities: culture, politics and identity on the East Coast of Africa. Trenton; Asmara: Africa World Press, 2004.

WERNER, A.. The advice of Mwana Kupona upon the wifely duty. Medstead: Azania Press, 1034.


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Legenda: Mulheres negras no Rio de Janeiro (1770)

Fonte: Wikimedia commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Juliao11.JPG. Acesso em 24/01/2021.
Palavras-chave: Líderes religiosas

Na Agontimé (séculos XVIII – XIX)

Nascida entre os povos do grupo Mahi, de língua yoruba-nagô, foi aprisionada e, junto com o pai, levada como escrava ao Daomé.   Ganhou notoriedade por seu conhecimento e experiência em rituais religiosos, conhecimentos de magia e cura, e se tornou uma das oito esposas do rei Agonglo. Seu filho biológico, Gapke, ascendeu ao trono e passou a se chamar Ghezo, reinando de 1818 a 1858. 

Como kpojitó, isto é, rainha-mãe, Agontimé teve problemas por ocasião da morte de Agonglo (1797). Este antes de morrer demonstrava preferir ser sucedido por Gapke, mas o filho mais velho, Adandozan, tomou o poder, e para evitar oposição mandou vender Agontimé como escrava, e daí em diante o destino da governanta permanece rodeado de mistério.

Segundo alguns ela teria sido enviada para Cuba ou para o Nordeste Brasileiro. Outros afirmam que, na ocasião de seu exílio, teria sido acompanhada por sessenta e três serviçais. Costuma-se pensar que ela tenha levado o culto dos voduns para a Casa das Minas, antiga comunidade de São Luís do Maranhão onde se cultuam as divindades ancestrais da família real do povo fon, e da qual ela teria sido fundadora. No Brasil, ela passou a ser chamada de Maria Jesuína, e era sacerdotisa de Toi Zomadônu, um importante vodun do povo fon.

Quando depôs Adandozan, o rei Ghezo tentou encontrá-la nas Américas, sem sucesso. Ao que parece, o trono enviado pelo rei Adandozan ao Brasil em 1810, incinerado no incêndio do Museu Nacional em 2019,  poderia ter alguma relação com Agontimé.  Certos sugerem que poderia ser uma  maneira de simbolizar a transferência dela para este lado do Atlântico.

A questão da identidade de Na Agontimé e de seu vínculo com o importante núcleo religioso maranhense foi levantada pela primeira vez pelo pesquisador francês Pierre Verger, em pesquisas realizadas junto ao Institut Français d’Afrique Noire (IFAN) em 1952, embora até o presente não esteja plenamente esclarecido devido a ausência de fontes.

BIBLIOGRAFIA

BAY, Edna. Wives of the leopard: gender, politics, and culture in the Kingdom of Dahomey. Charlotesville; London:  University of Virginia Press, 1998.

GLEARSON, Judith. Agontime: her legend. New York: Viking Compass Books, 1970.

CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. A Casa das Minas de São Luís do Maranhão e a saga de Nã Agontimé. Sociologia & Antropologia,  v. 9, n. 2, p. 387-429,  2019 .


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Legenda: Dançarinas e músicas amazonas do Daomé (1852)

Fonte: HathiTrust Digital Library. Disponível em: https://hdl.handle.net/2027/uc1.c008845668?urlappend=%3Bseq=80. Acesso em: 19 de jan. de 2021.
Palavras-chave:

Na Hwanjile (+1770)

Detentora do título de kpojitó, equivalente a “rainha-associada” ou “rainha-mãe”, dividiu com o “filho” Tegbessu (1740-1774), as atribuições de governo do reino Fon do Daomé.

Nasceu na região de Ajahome, ao sudoeste de Abomé, a capital daomeana. Já adulta, com dois filhos, ganhou reputação como sacerdotisa vodun quando chegou ao Daomé, provavelmente como prisioneira de guerra durante o reinado de Agajá (1716-1740). Ela se tornou parte das mulheres do palácio real, junto com outras centenas de mulheres esposas ou dependentes do rei conhecidas como Ahosi, e de eunucos da corte – conhecidos como leguedés.

Pouco se sabe sobre como Na Hwanjile se tornou, dentro das estruturas do palácio, uma mulher de grande riqueza e poder, dona de inúmeros escravos e aldeias agrícolas concedidas pelo rei Agajá. O que se sabe é que ela tinha maior proximidade com um dos filhos do rei, Avissu, que assumiu a sucessão dinástica com o nome de Tegbessu. Este, ao reconhecer nela capacidades e poderes espirituais, a indicou como sua kpojitó, sua rainha-mãe, uma função provavelmente criada pelo rei Agajá, ligada aos fundamentos míticos do poder real. Na língua fongbé, a palavra significa, literalmente, “Aquela que ajuda o leopardo (kpo)”, em referência ao mito de fundação da linhagem real. 

A partir de 1740, durante o seu período de governo, Na Hwanjile realizou importantes mudanças na vida religiosa do reino, organizando o culto dos voduns em torno do par principal Mawu (feminino) e Lisa (masculino) como divindades principais e conferindo a eles cerimonia palaciana. Esta distinção ao par complementar equivalia à complementaridade da autoridade entre ela e o soberano. Além disso, organizava e presidia todas as cerimonias palacianas, e introduziu um novo sistema divinatório baseado no sistema do Fa – inspirado no sistema divinatório iorubano de Ifá. 

No âmbito político e administrativo, Na Hwanjile cercou-se de um vasto grupo de servidores, reservando para si a aplicação da justiça em determinadas matérias, e intercedendo em vários casos junto ao seu correspondente masculino. Por tudo isto, ela é vista por muitos como a mais poderosa mulher governante do século XVIII na área Ajá-fon.

BIBLIOGRAFIA

BAY, Edna. Wives of Leopard: gender, politics, and culture in the kingdom of Dahomey. Charlotesville; London: University of Virginia Press, 2012 (or. 1998).

BAY, Edna. “Hwanjile”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 96.

CORNEVIN, Robert. Histoire du Dahomey.  Paris: Éditions Berger-Levrault, 1962.


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Legenda: Nabawiyya Musa

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:%D8%A7%D9%84%D9%83%D8%A7%D8%AA%D8%A8%D8%A9_%D9%86%D8%A8%D9%88%D9%8A%D8%A9_%D9%85%D9%88%D8%B3%D9%89.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Nabawiyya Musa (1886-1951)

Educadora, nacionalista e feminista egípcia, nasceu em al-Zaqaziq, no Delta do Nilo. Ela não conheceu seu pai, soldado do exército; sua mãe, cujo nome e origens são desconhecidos, cuidou dela e de seu irmão no Cairo, onde ela estudou para ser professora.

Nabawiyya fundou o jornal Majallat al-Fatat (A Revista da Mulher Jovem) que circulou entre 1937 e 1942 e contava com a seção Dhikrayati (Minhas memórias), onde publicou memórias da infância e da luta pelo acesso à educação. Ela descreveu sua vida como uma constelação de lutas para conquistar igualdade e reconhecimento em meio à masculinidade hegemônica; ela narra situações de ridicularização por conta de sua dedicação aos estudos, e um momento em que se sentiu “mais anormal que os outros”; e também fala de outras escolhas não-convencionais, como a de optar por não casar e não ter filhos. Para Margot Badran, Nabawiyya representou um modelo para as mulheres da nova classe média determinadas a encontrar espaços fora da esfera doméstica.

            Nabawiyya foi a primeira mulher egípcia a obter o bacharelado (1907) e a ser diretora de uma escola; também fundou as escolas para meninas Tarqiyat al-Fatah Primary School e Banat al-Ashraf Secondary School. Impedida de estudar na Universidade do Cairo quando jovem, lecionou lá entre 1909 e 1912, e, crítica do governo britânico, Nabawiyya chegou a ser presa.

Ela favoreceu o avanço do feminismo no país como integrante da al-Ittihad al-nisa’i al-misri (União Feminista Egípcia), fundada por Huda Sha’rawi, e esteve na conferência da Aliança Internacional das Mulheres pelo Sufrágio Feminino – IWSA. Suas obras reúnem poemas, coletados em Diwan al-Fatat (Poesia de uma jovem mulher) (1937), o romance Riwayat al-Nabhutub, um livro didático e outros, como al-Mar’a wal-l’amal (A mulher e o trabalho) – marco para o feminismo nacional, por sugerir o trabalho e o patriotismo às mulheres,  e o livro al-Ayat al-bayyinat fi tarbyat al-Banat (Um modelo claro de educação para as meninas).

BIBLIOGRAFIA

BADRAN, Margot. Expressing feminism and nationalism in autobiography: the Memoirs of an egyptian educator.” In: Wmith, Sidonie; WATSON, Julia  (Eds.). De/colonizing the subject: the politics of gender in women’s autobigrapnhy. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1992, p. 270-293.  

BADRAN, Margot. Feminists, islam, and nation: gender and the making of modern Egypt. Princeton: Princeton University Press, 1995.

CIVANTOS, Christina. Reading and writing the turn-of-the-century egyptian woman intellectual: Nabawiyya Musa’s Ta’rikhi Bi-Qalami. Journal of Middle East Women’s Studies , v. 9, n. 2, p. 4–31, 2013: https://doi.org/10.2979/jmiddeastwomstud.9.2.4  

VEZZADINI, Elena. “Nabawiyya Musa”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 343-344.


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Legenda: Nácia Gomes | Foto: Pedro Moita (cortesia)

Fonte: Blog Mudjer Badia: Jornada de uma Badia. 29 de mar. de 2012. Disponível em: http:// mulherbadia.blogspot.com/2012/03/jornada-de-uma-badia.html. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Iletradas

Nácia Gomes (1925-2011)

Cantora tradicional de finaçon e ícone cultural Cabo-Verdiana. Seu nome de nascimento é Maria Inácia Gomes Correia,  e sua família era da Ilha de Santiago. Também conhecida como Nha Nácia Gomi (Dona Nácia Gomes),  foi uma dentre doze filhos, todos(as) criados(as) nas regras estritas da Igreja Católica. Nunca recebeu educação formal, sendo por isto analfabeta.

Começou a cantar quando tinha entre dez e doze anos. As cantoras de finaçon eram, em sua maioria, mulheres conhecidas como finadeiras, que improvisavam versos sobre eventos das vilas, celebrando festivais rurais, nascimentos, casamentos, dias de santos e batismos ou no acompanhamento de sepultamentos. O finaçon é normalmente cantado como duelo e é uma música muito rítmica e divertida. Também é cantada para apresentar uma pessoa que faz um discurso de forma rítmica enquanto é acompanhada por um grupo de percussionistas. Diferente do gênero similar conhecido como batuko ou batuque, o finaçon não inclui dança.

Nácia Gomes viveu uma vida simples na Ilha de Santiago. Ela serviu como inspiração para gerações mais novas de artistas cabo-verdianos, como Tcheka e Vadu, que retomaram às raízes e identidades africanas. Ela participou de diversos filmes sobre a cultura cabo-verdiana do cineasta Guenny K. Pires.

BIBLIOGRAFIA

LIMA-NEVES, Terza Silva. “Nacia Gomes”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 486-487.

LOBBAN, Richard. Cape Verde: crioulo colony to independente naton; Boulder: Westview Press, 1995.

NOGUEIRA, Gláudia Aparecida. Batuko, patrimônio imaterial de Cabo Verde. Percurso histórico musical. Dissertação de Mestrado, Universidade de Cabo Verde, Praia, 2011.


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Legenda: Nadine Gordimer | © Ulf Andersen/ Gamma Liaison

Fonte: Encyclopædia Britannica. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Nadine-Gordimer#/media/1/239064/17937. Acesso em: 23 de dez. de 2020.

Nadine Gordimer (1923-2014)

Romancista, ensaísta e contista.  Nasceu na cidade de Spings – atualmente Gauteng, cidade mineira na região oriental de Johanesburgo, no Transvaal, África do Sul.  Era filha de emigrantes judeus, o pai originário da Lituânia e a mãe, da Inglaterra. Estudou na Universidade de Witswatersrand, em Johanesburgo, e viajou para várias partes da África, Europa e América do Norte. Casou duas vezes e teve uma filha e um filho.

 Nos anos do regime do Apartheid, Nadine Gordimer esteve envolvida em uma organização político-literária de base, tendo sido membro fundadora e patrocinadora do Congresso de Escritores Sul-Africanos (COSAW) por vários anos. Foi abertamente uma defensora do Congresso Nacional Africano (ANC), mesmo mesmo durante os anos de clandestinidade.

Nadine começou a escrever aos quinze anos pequenas histórias que publicou com o nome de Face to Face (Face a face) dez anos mais tarde, em 1949, na revista liberal Forum, de Johanesburgo. É autora de mais de trinta livros, entre os quais romances, ensaios e crônicas em que retratou a deterioração social que afetou a África do Sul durante o Apartheid. Desde o seu romance de estreia, The Lying Days (Os dias da mentira) (1953), até The Conservationist (O conservador) (1974) e July’s people (A Gente de July) (1981), ela dedicou-se a abordar as difíceis escolhas morais surgidas numa sociedade marcada pela segregação racial.

Nos anos 1970, descreveu a si mesma como “uma branca sul-africana radical”. Na arena cultural, fundou o Congresso Sul-Africano de Escritores com o objetivo de tornar a leitura e a escrita acessível em comunidades negras. Depois das eleições democráticas de 1994, escreveu None to accompany me (Ninguém para me acompanhar) (1994) e The house gum (A arma da casa) (1998), romances que retratavam as cicatrizes deixadas pelo do regime do Apartheid

Alguns dos muitos prêmios que recebeu foram: O Booker Prizer (1974), o Grand Aigle d’Or (1975) o Prêmio Malaparte (1985) e o Prêmio Nobel de Literatura (1991) – tendo sido a primeira mulher do continente Africano a receber um. Ela é membro da Royal Society of Literature e membro honorário da American Academy of Arts and Sciences e da American Academy and Institute of Arts and Letters. Na África do Sul, Nelson Mandela a concedeu a Ordem da Cruz do Sul.

BIBLIOGRAFIA

BAZIN, Nancy Topping;  SEYMOUR, Marilyn Dallman  (Eds.). Conversations with Nadine Godimer. Jackson: University Press of Mississippi, 1990.

CLINGMAN, Stephen. “Nadine Gordimer”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 488-491.

ETTIN, Andrew. Betrayals of the body politic: the literary commitments of Nadine Gordimer. Charlottesville; Londres: University Press of Carolina, 1993.=

KING, Bruce (Ed.).. The later fiction of Nadine Gordimer. New York: The MacMillan Press, 1993.

OLIPHANT, Andries Walter (Ed.).  A writing life: celebrating Nadine Gordimer. London: Viking, 1999.


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Legenda: Nafissatou Niang Diallo

Fonte: Association Nafissatou Niang Diallo. Disponível em: http:// nafissatouniangdiallo.com/. Acesso em: 23 de dez. de 2020.

Nafissatou Niang Diallo (1941-1982)

Nascida em Dakar, Senegal, frequentou a escola primária Champ de Course, o Collège Moderne e o Liceu Van Vollenhoven, e aos dezoito anos matriculou-se em uma escola para parteiras.

Aos vinte e três anos, já casada com Mambaye Diallo, deixou o país para estudar na França, tendo vivido em Toulouse. Trabalhou como parteira no Centre de Protection Maternelle et Infantile. Em sua autobiografia, De Tilène au Plateau: une enfance dakaroise (De Tilène au Plateau, uma infância dakarense) (1975), retratou o crescimento de uma criança em meio urbano na África ocidental.

É autora de três romances, em que descreve aspectos da vida cotidiana da moderna sociedade senegalesa. São eles:  Le fort maudit (O forte maldito) (1980); Awa la petite marchande (Awa, a pequena vendedora) (1981) e La princesse de Tiali (A princesa de Tiali) (1987). Nafissatou  atuava em serviços sociais como parteira e como diretora de um centro de saúde e maternidade infantil. Foi mãe de seis filhos.

BIBLIOGRAFIA

COLE, Jonathan. Engendering health: pronatalist politics  and the history of nursing and midwifery in colonial Senegal,  1914-1967. In: D’ANTONIO, Patricia et alii (Eds). Routledge handbook on the global history of nursing. Nova Iorque: Routledge, 2012, p.  114-130.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave:

Nagima (séculos XIX-XX)

Nagima (ou Naguema) foi uma rainha dos povos macuas namarrais do Moçambique, sociedades de ascendência bantu, no final do século XIX e início do XX, e uma das maiores responsáveis pela resistência à ocupação colonial portuguesa do território a oeste da Ilha de Moçambique. Nagima compartilhava a chefia com outros dois líderes namarrais, em uma espécie de confederação: Muhammad e Mocuto-mwene – este último, também identificado nas fontes portuguesas como Ibrahim ou Nampepa; sendo mwene uma insígnia de poder em muitas sociedades bantu. Nagima era referida como pia-mwene – a “mãe-alimentadora”, representante da linhagem matrilinear. A ela, competia determinado território, além do encargo dos ritos de iniciação femininos. As pia-mwene também possuíam poder de escolha nas atribuições de chefia, o que levaria a conflitos com a administração portuguesa, que tendia a ignorar as indicações femininas, como no caso de M’Fatima, pia-mwene do Sultanato de Sangage, na década de 1890.

Em fins do século XIX, os macuas-imbamelas e namarrais, que ocupavam a hinterlândia do norte do Moçambique, mantinham alianças por vínculos de lealdade e parentesco com os sultanatos suaílis de Angoche, Sancul, Quitangonha e Sangage, estando integrados, portanto, tanto ao circuito caravaneiro suaíli ao interior quanto aos mercados do Índico catalisados pelos portos do circuito Madagascar, Comores e Zanzibar; estavam ligados, igualmente por esta via, ao Islã e à cultura cosmopolita suaíli. Estes contatos propiciaram a formação de uma coligação de resistência contra as crescentes incursões de portugueses, que visavam a ocupação efetiva do território moçambicano.

Em 1895, o governador-geral do Estado da África Oriental Portuguesa, Joaquim Mouzinho de Albuquerque, invadiu e devastou a principal vila sob o controle de Nagima, acusando-a de esconder o Sultão de Sancul, Swaleh Marave – uma das principais lideranças na resistência anticolonial. Além disso, a filha de Nagima, chamada de Máquia, é raptada pelos portugueses, e mantida refém na Ilha de Moçambique; em troca, os europeus exigiam a capitulação dos namarrais, a entrega de suas armas e de Marave. Mais do que isso, o sequestro teria gerado uma crise sucessória entre os namarrais, que, a despeito de sua islamização, seguiam o referido ordenamento político matrilinear. “Filha”, nesse contexto, tal como a “mãe-alimentadora”, pode ser entendido no sentido metonímico da função exercida naquele sistema tradicional.

Este episódio levou à produção da mais conhecida fonte a respeito de Nagima: uma carta, redigida de seu próprio punho ou por meio de um khatib (escriba), em língua kiswahili expressa em caracteres árabes (kiarabu), e datada de 1898. Suas palavras destemidas, endereçadas a um dos agentes portugueses – o capitão-mor das Terras Firmes, António Gonzaga -, dão uma ideia da liderança representada por Nagima; o documento atualmente se encontra no Arquivo Histórico de Moçambique (Fundo do Século XX, caixa nº 8-9, maço 2, 1898).

A 4 de abril de 1900, Nagima se viu forçada a cumprir com as demandas dos portugueses, rendendo suas tropas e armamentos em troca de sua filha Máquia. A respeito de Nagima, a partir destes acontecimentos, as fontes silenciam. Os macuas namarrais e seus aliados, por sua vez, resistiriam até meados de 1910-1913, quando são definitivamente incorporados ao Estado colonial português; o norte de Moçambique seria o último grande foco de resistência à ocupação colonial, no começo do século XX.

Elaboração do verbete: Gabriel Giacomazzi

REFERÊNCIAS

BONATE, Liazzat J. K. Islam and Literacy in Northern Mozambique: Historical Records on the Secular Uses of the Arabic Script. Islamic Africa, Vol. 7, p. 60-80, 2016.

MARTINS, Luísa Fernanda Guerreiro. Os Namarrais e a reacção à instalação colonial (1895-1913). Blog de História Lusófona, Ano VI. 2011. Disponível em:  <http://dspace.uevora.pt/rdpc/handle/10174/11710>. Acesso em: 27 jun. 2022.

MATTOS, Regiane Augusto de. A dinâmica das relações no norte de Moçambique no final do século XIX e início do século XX. Revista de História, n. 171, p. 383-419, 2014. 

MATTOS, Regiane Augusto de. Poder e estratégias políticas no norte de Moçambique: a relação das pia-mwene e o governo português no final do século XIX. Anos 90: Revista do Programa de Pós-Graduação em História da UFRGS, v.21, n. 40, pp. 91-110, 2014.

MATTOS, Regiane Augusto de. As dimensões da resistência em Angoche: da expansão política do sultanato à política colonialista portuguesa no norte de Moçambique (1842-1910). Tese (Doutorado em História) – Universidade de São Paulo (USP), 2012.


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Legenda: Nana Asma'u | Cortesia da ilustradora, Heba Amin

Fonte: Amin, Heba; Maydell, Natalie; Riahi, Sep. Extraordinary Women from the Muslim World. Global Content. 2014. Livro pode ser encontrado em: https://www.amazon.de/ Extraordinary-Women-Muslim-World-English-ebook/dp/B00NK3OSM0
Palavras-chave: Hauçás

Nana Asma’u (1793-1864)

Estudiosa muçulmana de maior destaque do califado de Sokoto, na África Ocidental. Nasceu em uma família instruída em Fulani no que hoje é o norte da Nigéria, junto com um irmão gêmeo, o shehu (líder supremo) do califado, Uthman Dan Fodio –  como indica o seu nome completo: Nana Asma’u bint Shehu Uthman Dan Fodio. O elemento “Nana”, que antecede o seu nome, equivale a “dama”, “senhora”, sendo, portanto, uma fórmula de respeito.  

Nana Asma’u foi educada pela sua mãe e pela avó, como era de costume na família. Entre os integrantes da família Fodio, os meninos e as meninas eram letrados, e escreviam em prosa e poesia sobre assuntos variados de interesse na época. Ela era ativa na comunidade de crentes e defendia os princípios e ideias compartilhados por sua família e pelo marido, que atuava como comandante nas guerras de religião (jihads). Seus conselhos eram levados em consideração, e ela acompanhava como testemunha as batalhas.

Asma’u também foi essencial na organização da comunidade após a guerra de conquista. Ela atuou como organizadora e promotora de educação entre mulheres, e também foi uma renomada estudiosa, reconhecida para além da sua região. Fluente em árabe, hauçá, tamaxeque e fulfulde – a língua dos fulas -, em seus textos a jihad africana é comparada às guerras santas dos primeiros muçulmanos da Arábia, no tempo de Maomé.

O efeito da atividade de Nana Asma’u no pós Jihad do norte da Nigéria foi uma afirmação do papel feminino enquanto educadoras e estudiosas na reforma da comunidade Islâmica. Os trabalhos de Asma’u foram publicados a partir de 200 anos do seu nascimento.

BIBLIOGRAFIA

BOYD, Jean. The Caliph’s Sister. Londres: Frank Cass, 1989.

BOYD, Jean; MACK, Beverly (Eds.). The collected works of Nana Asma’u, daughter of Usman dan Fodio, 1793-1864. East Lansing: Michigan State University Press, 1997.

MACK, Beverly; BOYD, Jean. One woman’s jihad: Nana Asma’u, scholar and scribe. Bloomington: Indiana University Press, 2000.

MACK, Beverly. “Nana Asma’u”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 283-284.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave: Intermediárias coloniais

Nancy Tucker (1825-1908)

Integrante de uma poderosa família de comerciantes do sul de Serra Leoa, descendente do oficial inglês John Tucker, que ali se estabeleceu em 1665. No século XVIII, era a mais influente família euro-africana que controlava o tráfico de escravos.

Nancy nasceu na região de Kittam e ingressou nas atividades de comércio na cidade de Bagru, no período de ocupação do país pelos britânicos, quando o tráfico de escravos foi substituído pelo comércio de produtos naturais tropicais, como o cacau.

Ela desempenhou importante papel a serviço dos ingleses em todo o período de ocupação, e foi instalada pelas autoridades coloniais como chefe da cidade de Bagru após a morte do titular, Humpa Rango, do Dodo. Nesta posição, foi responsável pela cobrança de impostos da população, sendo por sua vez atacada por rebeldes e protegida pelos colonizadores, mantendo-se como governadora local até o fim de sua vida.

BIBLIOGRAFIA

DAY, Linda. Gender and Power in Sierra Leone: Women Chiefs of the Last Two Centuries. New York: Palgrave MacMIllan, 2012.

WHITE, Frances. Creole women traders in the nineteenth century. The International Journal of African Historical Studies, v 14, n. 4, p. 626-642, 1981.


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Legenda: Nandi por Evelyn McCrea (1930)

Fonte: Ebay. Disponível em: https://www.ebay.co.uk/itm/Evelyn-McCrea-Irish-South-African-1905-Nandi-A-Zulu-Belle-1930s-Must- see-/153829146816. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Xhozas e Zulus

Nandi (c.1760-1827)

Importante referência na história do povo Zulu, na atual África do Sul, sua história se confunde com a lenda e muitos episódios provém da imaginação popular transmitida ao longo do tempo por via oral.

Teria nascido entre o povo Elangeni, na área cultural dos povos zulus, e do relacionamento com o chefe Senzanghakona (1757-1815) deu à luz ao guerreiro Chaka, unificador do seu povo. Segundo alguns relatos, ambos não eram casados, o que explicaria o afastamento de Chaka na linha de sucessão do reino. Outras versões informam que ela teria sido banida junto com o filho pelo governante, o que levou à exclusão de seu filho após a morte do rei e a posterior conquista e unificação do reino por seus próprios méritos.

No período de exílio, ela e o filho viveram junto com seu povo, e junto ao povo Mthethwa, sob o governo do rei Dingiswayo, que chefiava a mais importante confederação de povos zulus, onde Chaka começou a se destacar como chefe militar.

Com a morte de Senzanghakona e a tomada de poder por Shaka em 1815, como outras mulheres dos estratos governantes, Nandi exerceu considerável influência no governo dos povos zulus, inclusive exteriorizando divergências pessoais em relação a determinadas decisões do filho.

As razões e circunstâncias da morte de Nandi são desconhecidas, e a reação de Shaka na ocasião foi dramática, promovendo o sacrifício de milhares de pessoas em sua homenagem. Mas um dos poucos amigos íntimos de Nandi, Mnkabayi, o acusou de ter arquitetado a morte dela.  

BIBLIOGRAFIA

SHELDON, Katleen; WEIR, Jennifer. “Nandi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 388-389.

WEIR, Jennifer. I shall need to use her to rule: the power of “royal” zulu women in the pre-colonial zululand. South African Historical Journal, v. 43, p. 3-23, 2000.  


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Legenda: Nanny em nota de 500 dólares jamaicanos

Fonte: Numista. Disponível em: https://en.numista.com/catalogue/note207008.html. Acesso em: 23 de dez. de 2020.

Nanny (1685-1741?)

Também referenciada como Rainha Nanny ou Granny Nanny, o seu nome provavelmente não é pessoal, mas deriva de Nana, um título de respeito e autoridade empregado em referência às rarinhas-mães nas sociedades akans da África ocidental. Ela nasceu em uma comunidade do povo Koromantee (Koromandê), na Costa do Ouro, atual República de Gana.

 Foi capturada ainda criança e vendida a traficantes ingleses que a transportaram em um navio negreiro até a Jamaica, no Caribe, América Central, onde durante algum tempo ela trabalhou em uma plantation (fazenda) de cana-de-açúcar situada em Saint Thomas Parish, nas circunvizinhanças de Port Royal. Junto com outros(as) cativos(as), envolveu-se em rebeliões lideradas por chefes de escravos marrons, como Cudjoe (Cuffy), Johny e Quao, que conduziram grupos de rebeldes fugitivos para o interior da ilha. 

Em 1720 Nanny fundou e liderou uma comunidade na região das Montanhas Azuis, perto do Rio Stony. Segundo a tradição oral, ali ela se casou com um guerreiro chamado Adou, e fixou as bases da vida comunitária e do sistema de defesa, com barricadas e armadilhas espalhadas na mata. Certa quantidade de guerreiros ficava de prontidão e transmitia mensagens de alarme através do toque de uma espécie de buzina denominada Abeng. Empregando táticas de guerrilha, os marrons atacavam plantations, o que levou ao abandono de 27 delas em 1734.

Além da autoridade política, Nanny era reverenciada e temida, acumulando carisma espiritual. Ela detinha conhecimento de plantas e ervas medicinais. Além disso, a ela era atribuída a capacidade de se comunicar com os espíritos ancestrais, e a capacidade de vidência, elementos que integravam o sistema de crenças africanas conhecidas como obeah ou myal, que posteriormente se difundiu entre os afro-jamaicanos.

A comunidade desenvolveu uma agricultura de subsistência e parte de seus ocupantes se miscigenou com populações indígenas aruaques. O excedente era trocado em mercados próximos por vestimentas e armas.   Em 1739, após diversos ataques o governo britânico firmou um tratado de paz, reservando cerca de 2.500 hectares para a comunidade maroon na área em que estão localizadas na atualidade as cidades de Accompong, Treelawny, Mountain Top e Nanny Town.  Sua morte ocorreu em data incerta, após o ano de 1741.

A Rainha Nanny foi declarada heroína nacional pelo governo da Jamaica em 1976.  Ela tem sua memória preservada por diversos meios, nas tradições orais e também em símbolos e monumentos nacionais. Seu retrato idealizado aparece nas notas de 500 dólares jamaicano, que é popularmente conhecida como “Nanny”. Um monumento em sua homenagem foi edificado na cidade de Moore Town.

BIBLIOGRAFIA

ZIPS, Werner. Nanny: Nana ofthe marrons? Some comparativethoughtsof Queen Mothers in akanandjamaicanmaroonsocieties. In: NIEWAAL, Emile A. B. R.;DIJK,  Rijk van (Eds.). AfricanChieftaincy in a New Socio-politicalLandscape. Hamburg: LitVerlag, 1998, p. 191-227.

RISNER, lacy. Archaeology of memory: a case study of Queen Nanny. In: Scholars week – Programpanel, 2019:

https://digitalcommons.murraystate.edu/scholarsweek/Fall2019/LBA/2/

AIKINS, Joshua Kwesi. Queen Nanny and maroon resistance. In: NESSE, Immanuel (Ed). The internationalencyclopediaofrevolutionand protest. Londres: John Wiley& Sons, 2009: https://doi.org/10.1002/9781405198073.wbierp1227


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Legenda: Nasalsa | © The Trustees of the British Museum

Fonte: The British Museum. Disponível em: https://www.britishmuseum.org/collection/object/Y_EA55517. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Nasalsa (século VII a.C.)

Rainha de Kush, foi uma importante figura real do período de Napata, entre o século VII e o século III a.C., quando o antigo Kush, no atual Sudão, ganhou independência frente ao Egito faraônico. Nasalsa provavelmente viveu no final do século VII a.C., quando Napata, cidade localizada ao sul do rio Nilo, era a capital de de Kush. Provavelmente era filha de Atlanersa, esposa real de Senkamanisken e mãe dos soberanos Anlamani, Aspelta, e da rainha Maqiden.

É conhecida pelos quatro pilares reais que foram erguidos em templos em homenagem ao deus núbio Amon de Napata. Pelas inscrições do Pilar de Aspelta os historiadores supuseram que ela fosse a rainha-mãe, embora todos os nomes nessa inscrição tenham sidos rasurados – como se fosse para apagar a lembrança de Nasalsa.

Outra fonte importante de informações é a tumba-pirâmide de 11m² sob o cemitério real de Nuri. Ali se pode ver textos funerários marcados nas paredes de pedra na câmara B, com pequenas estatuetas funerárias conhecidas como “ushebtis” ou “shabti”,  potes de cerâmica e cartuxos com o nome de Nasalsa inscritos nos quatro cantos do lugar de sepultamento. A qualidade da pedra usada na construção das câmaras subterrâneas e o incomum privilégio de ter itens depositados em sua tumba são prova da importância da rainha.

BIBLIOGRAFIA

DAFA’LLA, Samia. Succession in the kingdom of Napata, 900-300 B.C. The International Journal of African Historical Studies, v. 26, n. 1, p. 167–174, 1995. 

LOHWASSER, A.. Queenship in Kush: status, role and ideology of royal women. Journal of the American Research Center in Egypt, v. 38, p. 61-76, 2001.

LOHWASSER, A. Die königlichen frauen im antiken reich von Kush: 25 dynastie bis zur zeit des Nastasen. Wiesbaden: Harrassowitz, 2001.

REVEZ, Jean. “Nasalsa”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 395-396.

TOROK, Laszlo. Between two worlds: the frontier region between Ancient Nubia and Egypt, 3700 BC – AD 500. Leiden; Boston: Brill, 2009.


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Legenda: Navanethem Pillay | UN Photo / Paulo Filgueiras

Fonte: United Nations Photo. Disponível em: https://dam.media.un.org/. Acesso em: 23 de dez. de 2020.

Navanethem Pillay (1941)

Juíza e advogada especializada em Direitos Humanos, nasceu em Clairwood, Durban, na África do Sul, de uma família tâmil, isto é, de origem indiana. Seu pai era motorista de ônibus e sua mãe nunca frequentou escola. Com a ajuda da família e amigos estudou na Universidade de Natal, onde se formou em artes (1963) e em direito (1965).  Em 1982 obteve o título de Mestra em Direito e em 1988 obteve o Doutorado em Direitos Humanos e Direito Internacional, ambos pela Universidade de Harvard.

Começou a carreira trabalhando como advogada no escritório do conhecido ativista N. T. Naicker e em 1967 fundou o seu próprio escritório junto com o marido. Atendeu diversos casos de violação dos direitos humanos, sobretudo os abusos cometidos em prisões e pela polícia, o que a colocou na mira das autoridades do regime do Apartheid. Ao longo dos anos 1970 representou ativistas do African National Congress (Congresso Nacional Africano) e em 1973 sua atuação possibilitou que os prisioneiros de Robben Island recebessem apoio jurídico de advogado.

Idealizadora e organizadora de grupos de apoio e acompanhamento pela garantia de direito das mulheres, fundou o grupo internacional de advocacia Equality Now (Igualdade Já). Em 1995, um ano após o início do processo de democratização da África do Sul, Pillay foi indicada para ser Juíza da Suprema Corte do seu país. Também foi indicada para o tribunal penal internacional da ONU após o genocídio de Ruanda, localizado em Arusha, na Tanzânia, do qual ela participou por oito anos e presidiu por quatro (1999-2003).  Ela inseriu a violência sexual como crime contra a humanidade e ato de genocídio, em sentença proferida no julgamento do líder político ruandês Jean-Paul Akayesu, primeira pessoa a ser condenada à prisão perpétua por genocídio em 1995.

Em 2003 Pillay esteve entre os dezoito nomes de juízes(as) escolhidos(as) para compor a Corte Internacional Criminal – ICC e em 2008 iniciou seu mandato de quatro anos como Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

BIBLIOGRAFIA

BOUVARD, Marguerite Guzman. Women reshaping human rights: how extraordinary activists are changing the world. Wilmington: Scholarly Resources, 1996.

HEALY, megan “Navanethem Pillay”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 106-108.

TERRIS, Daniel; Romano, Cesare P. R.; Swigart, Leigh. The international judge: an introduction to the men and women who decide the world’s cases. Waltham: Brandeis, 2007.


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Legenda: Nawal el Moutawakel

Fonte: CadenaSER. 16 de fev. de 2017. Disponível em: https://cadenaser.com/programa/2017/02/16/ acento_robinson/1487246421_284607.html. Acesso em: 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Nawal el Moutawakel (1962)

Nascida em Casablanca, Marrocos, começou a praticar o atletismo aos quinze anos, quando, sob a supervisão do técnico francês Jean François começou a participar de competições de corrida de obstáculos de 400 metros, apesar de sua baixa estatura e desta ser uma modalidade raramente praticada por mulheres na época.

Em 1982,  Nawal foi proclamada campeã da África em corrida de obstáculos de 400 metros e vice-campeã nos 100 metros. Estes resultados surpreendentes levaram a que fosse convidada a integrar a equipe de atletismo da Iowa State University, onde obteve uma bolsa esportiva para treinar e estudar.

Nawal obteve uma grande vitória na Olimpíada de Los Angeles em 1984 na categoria dos 400 metros.  Em 1985, conquistou o quarto lugar na competição em Canberra e dois anos depois conquistou a medalha de ouro nos Jogos do Mediterrâneo realizados em Latakia.

Nawal el Moutawakel se aposentou das pistas em 1987, com apenas 24 anos de idade, e depois se dedicou a usar sua imagem para promover o desenvolvimento das mulheres no esporte, especialmente as mulheres dos países islâmicos. Em 1995 ela foi eleita para o Conselho de Administração da Federação Internacional de Atletismo (IAAF). Atualmente, é vice-presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI) e uma das personalidades atléticas mais respeitadas e amadas do mundo.

BIBLIOGRAFIA

WILSON, Waine. Nawal El Moutawakel. In: Christensen, Karen;  Guttmann, Allen; PFISTER, Gertrud. International encyclopedia of women and sports. Nova Iorque: Macmillan Reference USA, 2001, p. 362-363.

FAQIR, Fatima El. Les femmes et le sport em Afrique du Nord: voix d’atletes marocaines. In:  BENN, Tansin;  PFISTER, Gertrud, JAWAD, Haifaa (Eds.).  Muslim woman and sport. Londres; Nova Iorque: Routledge, 2011, p. 236-248.


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Legenda: Nawal el Saadawi | Melafestivalen - Oslo

Fonte: Melafestivalen - Oslo. 27 de jul. de 2007. Flickr: Melafestivalen - Oslo. Disponível em: https://flic.kr/ p/a4TS65. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Nawal el Saadawi (1931)

Feminista egípcia, escritora,  médica e ativista política.  Nasceu na aldeia de Kafr Tahla, perto do Cairo, de uma família de altos servidores do Estado. Estudou em escola para meninas de Alexandria e depois no distrito de Menouf, no Delta do Nilo, onde frequentou uma escola inglesa, embora a família demonstrasse sua posição anti-colonial. Completou os estudos na escola secundária para meninas Nabeweya Moussa e tornou-se pensionista na Escola Secundária Helwan para Meninas, onde se especializou em Ciências (1945).

Mudando-se com a família para Gizé, Nawal estudou como bolsista na renomada Escola de Medicina Kasr Alainy da Universidade do Cairo (1949-1954) período em que começou a redigir os seus primeiros escritos para o teatro, para revistas estudantis  e também ingressou na luta anti-colonial, envolvendo-se com o líder estudantil revolucionário Ahmed Helmy (1951), com quem teve uma filha, Mona.  

Após a formatura, trabalhou como médica residente no Hospital Universitário de Kasr Alainy, em centros de saúde e em 1958 passou a integrar o Departamento de Doenças Torácicas no Ministério da Saúde do Cairo e Gizé. Depois montou uma clínica e envolveu-se em duas relações conjugais, até o terceiro casamento, com Sherif Hetata (1964). Enquanto isso, realizou Mestrado em saúde pública na Universidade de Columbia, serviu como secretária-geral adjunto da Associação Médica do Egito e foi editora de sua revista (1968-1974).

Em 1972, os comentários de Nawal sobre as dimensões políticas e econômicas da situação das mulheres em seu primeiro trabalho de não-ficção, Woman and sex (A mulher e o sexo) (1969), levaram a sua demissão dos cargos públicos que ocupava. Ela deu continuidade às pesquisas sobre mulheres e neurose na Universidade Aim Shams, no Cairo, que inspirou seu romance mais conhecido, Woman at point zero (Mulher ao ponto zero) (1973)  sobre uma prostituta condenada por assassinato. Deste envolvimento com a literatura veio o seu vínculo com a Egyptian Women Writers Association (Associação de Mulheres Escritoras Egípcias) (1971), que ajudou a fundar.  

No final de 1970 ela se tornou chefe do Programa das Mulheres das Nações Unidas na África e ganhou renome internacional como feminista com a publicação de The hidden face of Eve (A face oculta de Eva) (1977), em que denuncia a situação das mulheres mundo árabe com um contundente relato sobre a prática da mutilação genital da qual ela própria foi vítima aos seis anos. Em 1981, foi presa por criticar abertamente o regime do presidente Anuar Sadat, sendo libertada após o assassinato dele em 1981. No ano seguinte, fundou a Associação de Mulheres Solidárias Árabes, destinada a promover a participação ativa das mulheres árabes em todas as áreas da vida social. Em 1992, foi colocada sob  “proteção” do governo contra sua vontade, e saiu do país.  

Quando voltou ao Cairo, deu continuidade à luta contra o conservadorismo egípcio, sendo acusada de insultar o islã e ameaçada de prisão em 2001, 2007 e 2008. Uma de suas peças teatrais, God resigns at the summit meetings (Deus renuncia nas reuniões de cúpula) (2006) levou a que ela fosse julgada por apostasia e heresia pelas altas autoridades religiosas da Universidade de Al Azhar (2008), e a obra  continua proibida no país. 

El Saadawi sempre retorna ao Egito e não se furta a debater os assuntos mais delicados. Seus muitos romances, memórias e ensaios lidam com a repressão política e econômica, o fanatismo religioso e a opressão das mulheres e práticas misóginas, como a excisão genital feminina. Hoje, ela se vê principalmente como romancista, mas permanece politicamente ativa, como quando usou sua candidatura nas eleições presidenciais de 2005 para expor a superficialidade da democracia do Egito.  Em 2011, se juntou às manifestações contra o governo do presidente Hosni Mubarak na Praça Tahrir, no Cairo.

Ao longo dos anos, seus livros se tornaram disponíveis em vários idiomas, e ela recebeu vários prêmios e doutorados honorários em reconhecimento ao seu ativismo e sua obra. Tem sido convidada como professora visitante em várias instituições acadêmicas nos Estados Unidos e na Europa e é uma conferencista regular e apaixonada em eventos públicos e conferências acadêmicas em todo o mundo.

BIBLIOGRAFIA

BEKERS, Elisabeth. Nawal El Saadawi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 293-295.

EMMENYONU, Ernest N.; MAUREEN, N.. Emerging critical  perspectives on Nawal el Sadawi. Trenton; Asmara: Africa World Press, 2010.

LUZ, Flávia Abud. Entre memória e ativismo político: contribuições de Nawal el Saadawi para o feminismo egípcio e transnacional. Malala (USP), v. 8, n. 20, 2020: https://www.revistas.usp.br/malala/article/view/161802

SAADAWI, Nawal. A daughter of Isis: the autobiography of Nawal el Saadawi. Londres:  Zed Books, 2009.


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Legenda: Nefertari

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/ File:Maler_der_Grabkammer_der_Nefertari_004.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Nefertari (século XIII a.C.)

Rainha consorte e favorita do faraó Ramsés II, terceiro soberano da décima nona dinastia egípcia. Teria nascido por volta de 1290 a.C. e morrido por volta de 1250 a.C. Seu nome significa “a mais bela” ou “a mais perfeita”, e o seu epíteto de “amada de Mut” – a deusa consorte de Amon de Tebas – sugere que ela pudesse ter nascido no Sul.

A data de seu casamento é imprecisa, visto que não foi registrada oficialmente, mas há evidências indiretas de escritos registrados nas paredes de templos de Ramsés que ambos já estariam casados antes dele assumir o poder. Provavelmente ela não era integrante das altas famílias. Segundo algumas interpretações, teria sido mãe de quatro filhos e duas filhas da linhagem real.

Nefertari foi enterrada no túmulo QV66 no Vale das Rainhas em Tebas. O túmulo foi descoberto em 1904 por uma missão arqueológica do Museu de Turim, dirigida pelo arqueólogo italiano Ernesto Schiaparelli. Sua tumba foi saqueada na antiguidade, muitos objetos foram encontrados quebrados, e por conta disso restaram poucos artefatos da história da rainha.

A área do túmulo que mais sofreu danos com os saques foram as paredes, pois apresentavam uma requintada e bela decoração. A má qualidade do calcário impossibilitou que trabalhadores antigos entrassem diretamente na rocha do túmulo. Ao contrário, foram forçados a revestir as paredes da tumba com uma espessa camada de gesso que primeiramente fora esculpida e depois pintada em cores vibrantes. Recentemente confirmou-se que partes das pernas encontradas na tumba teriam sido da rainha Nefertari.  

BIBLIOGRAFIA

CORZO, M. A.; AFSHR, M. (Eds.). Art and eternity: the Nefertari wall paintings conservation project, 1986-1992. Los Angeles: Getty Conservation Institute, 1993.

TYLDESLEY, J. A chronicle of the queens of Egypt. Londres: Thames & Hudson, 2006.  

TYLDESLEY, Joyce. “Nefertari”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 434.


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Legenda: Nefertiti (1350 AC) | Neues Museum

Fonte: Encyclopædia Britannica. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Nefertiti/images-videos. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Nefertiti (século XIV a.C.)

Consorte real de Akhenaton, também conhecido como Amenófis IV (Amenhotep IV), que governou no período de 1352-1336 a.C. como décimo faraó da XVIII dinastia egípcia. Ela viveu com seu marido e suas seis filhas em Amarna, onde teve um importante papel na adoração da divindade solar conhecida como Aton.

Nefertiti teve seis filhas durante os dez anos de casamento, as 3 mais velhas (Meritaton, Meketaton e Ankhesenpaaton) nasceram em Tebas antes do fim do sétimo ano de reinado de seu marido, enquanto as três mais novas (Neferneferuaten, Neferneferure e Setenpere) em Armana.

Durante o seu governo, Akhenaton simplificou a religião politeísta do Egito ao abolir o culto ao panteão dos inúmeros deuses, concentrando a adoração em um único deus, Aton, representado pela luz do sol. Nefertiti teve um importante papel na nova religião. O templo tebano conhecido como Hwt-benben (lar da pedra de Benben), vinculado diretamente a ela, contém uma representação dela fazendo uma oferenda a Aton, com o auxílio de Meritaton.

Aton, o “pai e mãe” de todas as coisas criadas, combinava elementos masculinos e femininos. Ele era assexuado e andrógino, então não tinha uma esposa, o que era incomum.  Em geral as divindades egípcias eram visivelmente homens ou mulheres que se casavam e se reproduziam de modo convencional. Diferentemente, a nova divindade não tinha esposa divina nem filho para formar a tríade usual (deus, deusa, filho), o que retirava dela qualquer aproximação com a representação humana, tornando-a uma entidade abstrata. 

Akhenaton encorajou Nefertiti a promover o elemento ausente do novo culto. Apesar dela não ostentar uma titulatura real própria, é muito provável que governasse conjuntamente ao marido. Como ela era celebrada pela condição de gêmea religiosa e complemento feminino da figura masculina do faraó, passou a compor junto com ele e a divindade uma tríade invertida semi-divina.

BIBLIOGRAFIA

ALDRED, C. Akhenaten, king of Egypt. Londres: Thames & Hudson, 1988.

ARNOLD, D. The royal women of Amarna: images of beauty from Ancient Egypt. New York: Metopolitan Museum of Art, 1996.

HARRIS, J. R. Nefertiti rediviva. Acta Orientalia, v. 35, p. 6-13, 1973. Disponível em: https://journals.uio.no/actaorientalia/article/view/5173/4518

TYLDESLEY, J. A. Nefertiti: Egypt’s sun queen. Londres: Penguin Books, 2005.

Tyldsley, Joyce. “Nefertiti”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 434-437.


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Legenda: Reprodução de relevo sobre Nefruptah

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Relief_Neferuptah_by_Khuner.png. Acesso em: 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Nefruptah (século XIX a.C.)

Também conhecida como Neferuptah ou Ptahneferu, foi a filha de Amenemhat III (c. 1860-c.1814), e ao que tudo indica nunca reinou. O nome significa, literalmente, “Beleza de Ptah”.  Foi irmã da rainha Sobeknefru, cujo nome significa “Beleza de Sobek”.

Foi a primeira integrante de uma família dinástica a ter o nome mencionado em inscrições, sem ter o título de “esposa real”.  Deve ter desfrutado de um status especial, ou que fosse cogitada para governar. Ela é descrita como estando entre as melhores, alguém de grande valor, filha dileta de seu amado rei.

Seu túmulo foi encontrado intacto em 1955, em Hawara, perto da pirâmide de seu pai. O corpo tinha sido dissolvido pela infiltração de água, mas as joias, três vasos e prata e outros objetos e elementos do equipamento funerário estão preservados. Um sarcófago de granito com inscrições em sua homenagem também foi encontrado na câmara funerária de Amenemhat III, mas não foi usado ou foi usado apenas temporariamente.

BIBLIOGRAFIA

HILL, Brandi D. A study of royal female power and political influence in Ancient Egypt: contextualizing Queenship in the Twelfth Dynasty. Swansea: Swansea University, 2019.

TYLDESLEY, Joyce. Chronicle of the queens of Egypt. Londres: Thames & Hudson, 2006.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave:

Nehanda (+1460)

Também conhecida como Nehanda Nyamhita Nyakasikana, é uma personagem em parte lendária e em parte histórica; detalhes sobre a sua vida, incluindo onde ela viveu, são imprecisos, mas acredita-se que tenha vivido no nordeste do atual Zimbabwe. Ela permanece viva nos discursos históricos por causa de muitas mulheres que reivindicam incorporar o seu espírito ao longo dos séculos. Porém, a história das sucessivas médiuns que a reivindicam não é bem documentada, e foram muitas:  algumas eram mais poderosas ou memoráveis que outras.

Embora não haja consenso entre os historiadores sobre o surgimento da lenda de Nehanda, de acordo com a lenda seu nome próprio seria Nyamhita que era filha de Mutota, o fundador da dinastia do Monomotapa. Mutota decidiu que sua filha seria a nova líder da dinastia, mas para isso acontecer um de seus filhos teria que consentir em herdar o título de líder da dinastia participando de ritual de incesto com Nyamhita, sua irmã. Quando todos os outros filhos desistiram, o mais novo, Nyanhehwe Matope, mais tarde conhecido como Nebedza, aceitou participar do ritual. Uma vez promulgado o ritual, a dinastia Mutapa nasceu, dinastia que veio a se tornar um poderoso reino.

Nyamhita, antes de ser tornar Nehanda, participou de um ritual incestuoso enquanto ainda era virgem, daí o nome Nyakasikana, que significa “A jovem virgem”, ou literalmente “A detentora da pureza feminina”. Acreditava-se que que o ritual incestuoso com uma virgem produziria sangue e água que se misturariam com a terra em que o ato foi consumado. Essa mistura, então, se torna uma medicação protetora e sela a reivindicação e o apego da dinastia com a terra colonizada ou conquistada.

Como resultado de sua participação no ritual, Nyamhita se tornou a guardiã e transmissora do conhecimento sagrado e dos segredos da dinastia, que incluía um importante papel como “a pessoa que fazia chover”. Essa posição era crucial, já que não era comum mulheres herdarem títulos na dinastia. Nesse caso, Nyamhita, atuou como uma regente entre reis ou como mediadora em uma série de disputas, participando do conselho consultivo do reino. Vale notar que tais lendas fundadoras eram comuns em muitas outras sociedades daquela região na África.

Nyamhita Nehanda, então, foi a mãe fundadora da dinastia Mutapa, dinastia que veio a se tornar um poderoso reino. Historiadores divergem sobre o fato de Nyamhita não ter tido filhos de Nebedza ou mesmo se ela continuou a ter relações sexuais com ele após o ritual de incesto, sendo esse assunto um tabu n tradição Xona.

A mais influente das médiuns que incorporaram o espirito de Nehanda foi Nehanda Charwe Nyakasikana, conhecida como Charwe, uma das mais destacadas opositoras da presença europeia nos territórios dos Xonas e Matebeles da Africa do Sul no século XIX.

BIBLIOGRAFIA

CHARUMBIRA, Ruramisai. “Nehanda”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 437-438.

LAN, David. Guns and rain: guerrillas and spirit mediuns in zimbabwe. Londres: James Currey, 1985.

RODRIGUES, Eugénia. “Rainhas, princesas e donas: formas de poder político das mulheres na África oriental nos séculos XVII-XVIII”. Cadernos Pagu (Florianópolis), nº 49, 2017.


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Legenda: Ngalifourou

Fonte: NOFI. Ngalifourou, souveraine intemporelle du Royaume Téké. 03 de out. de 2014. Disponível em: https://www.nofi.media/2014/10/ngalifourou-souveraine-intemporelle-du-royaume-teke/1714. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Intermediárias coloniais

Ngalifourou (1864-1956)

Nascida com o nome de  Ngassié, na aldeia de Ngabé. O seu nome, na língua teke, significa “estrela bonita”. Logo na entrada da adolescência, por volta de 1880,  foi entregue em um casamento arranjado ao velho rei Iloo, do reino Teke de Bem, assumindo daí em diante a função de rainha de seu povo, às margens do Rio Congo. Como em outros casos similares, seu nome foi mudado para Ngalifourou, que significa, literalmente, “rainha do poder”.  Ela passou a dividir com o seu consorte a autoridade, tornando-se pessoa proeminente junto ao Conselho de Anciãos.

No momento da chegada dos colonialistas franceses liderados por Pierre Savorgnan de Brazza, ela estabeleceu relações de amizade e aliança, valendo-se do apoio dos recém-chegados para subjugar alguns chefes de família dissidentes.

Após a morte de Illo em 1892 ela assumiu o controle do governo  como Rainha-mãe (Man Ounko), dividindo com o novo rei mas sem depender dele ou ser sua esposa. Desfrutando do prestígio próprio de sua função, a que se atribuía uma forte aura espiritual,  ela  presidia diversos rituais vinculados aos espíritos ancestrais, tornando-se portadora de insígnias mágicas e famosa por seu carisma espiritual.

Para reforçar a sua imagem, ela adotou elementos do uniforme dos oficiais franceses, com inúmeras medalhas que recebeu do governo colonial do Congo-Brazzaville. Como guardiã do exército ela participava de todas  as reuniões do Congo, e enviou ajuda aos franceses durante a II Guerra Mundial, o que lhe garantiu, em troca, diversas condecorações, incluindo a Legião de Honra.

Quando ela faleceu, a cerimônia de enterro recebeu grande atenção dos administradores coloniais, e dela participaram dignitários de diversas outras colônias francesas, do Vaticano e do Congo Belga.

BIBLIOGRAFIA

MOUYANI OPOU, Eugenie. La reine Ngalifourou: souveraine des Téké. Paris: L’harmattan, 2006.

RICH, Jeremy. “Ngalifourou”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 446-447.

VANSINA, Jan. The kingdoms of the Savanna. Madison: University of Wisconsin Press,  1966.


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Legenda: Ngozi Okonjo-Iweala | Fundo Monetário Internacional

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Okonjo-Iweala,_Ngozi_(2008_portrait).jpg. Acesso em: 16 de fev. de 2021.
Palavras-chave: Organização econômica

Ngozi Okonjo-Iweala (1957)

Nascida em uma família de alta linhagem no atual Estado do Delta, ao sul da República da Nigéria, recebeu na infância sólida formação escolar. Seu pai, Chukwuka Okonjo, era professor de Economia e detinha o título de Obi (rei), na linhagem real do reino de Ogwashi-Ukwu;  e sua mãe, Kamene Okonjo, foi destacada médica e professora de sociologia na Universidade da Nigéria, em Nsukka.

Na infância, Ngozi estudou na Queen’s School, em Enugu, na St. Anne’s School, em Molete, e na International School, em Ibadan. No início da década de 1970 foi encaminhada para realizar estudos universitários nos Estados Unidos, tendo estudado na Universidade de Harvard no período de 1973-1976, onde se formou com máxima distinção em Economia. Alguns anos mais tarde completou o Doutorado em Economia Regional e Desenvolvimento no Massachusetts Institute of Technology, com tese  intitulada  Credit policy, rural financial markets, and Nigeria’s agricultural development ( Política de crédito, mercados financeiros rurais e desenvolvimento agrícola na Nigéria (1981).

Ojonjo-Iweala atuou em importantes postos de governo do seu país, tendo atuado como Ministra das Finanças da Nigéria durante o governo do presidente Olusegun Obasanjo (1999-2007), e depois como Ministra de Relações Exteriores. Por sua alta qualificação e sua grande capacidade de negociação,  liderou os acordo econômicos com o Clube de Paris que permitiram a renegociação da Divida Externa do seu país e em 2003 assumiu a liderança na gestão macroeconômica nigeriana e no desenvolvimento de práticas visando a transparência na governança e a eficiência na gestão financeira mediante sistemas eletrônicos e lançando as bases da criação de um  Sistema Integrado de Gestão Financeira e Informação do Governo (GIFMIS) – o que ajudou a coibir ações de corrupção na esfera pública. Suas ações contra a corrupção endêmica, sobretudo na área de exploração do petróleo, levou a que sofresse sucessivas ameaças pessoais, e motivou o sequestro de sua mãe, mantida em cativeiro durante seis dias no ano de 2012, episódio relatado na abertura do seu livro Fighting corruption is dangerous: the story behind the headlines (Lutar contra a corrupção é perigoso: a história por trás da manchetes) (2018)

Por sua formação e sua vivência nos Estados Unidos, ela desenvolveu longa experiência como executiva junto ao Banco Mundial durante cerca de vinte e cinco anos, ocupando duas vezes o cargo de diretora-executiva, diretora-gerente e supervisora da carteira operacional do Banco Mundial na África, Sul da Áia, Europa e Ásia Central. Liderou várias iniciativas dirigidas a promover as economias de países pobres ou emergentes, com projetos de cooperação. Desde 2015 preside iniciativas internacionais de promoção e oportunidades de financiamento de educação em nível global e participa de uma Comissão Global para a Economia e o Clima. Em 2020 foi nomeada pela União Africana para obter apoio internacional no combate aos efeitos da Pandemia de Covid 19.

Em junho de 2020 Ngozi Okonjo-Iweala foi indicada pela presidência da Nigéria para o cargo de Diretora-Geral da Organização Mundial do Comércio, obtendo apoio da União Européia e sofrendo restrição por parte do Governo norte-americano do Presidente Donald Trump. No início de 2021, com a ascensão da administração Joe Biden, o veto norte-americano foi retirado, o que levou à confirmação de sua candidatura. Primeira mulher a ocupar a posição máxima da mais importante instituição do sistema multilateral do comércio mundial, Ngozi alcança posição privilegiada e estratégica nas mais altas esferas de decisão da economia mundial.

Na vida pessoal, ela é casada com o neurocirurgião Ikemba Iweala, com que teve três filhos e uma filha, todos(as) coom formação universitária nos Estados Unidos, nas Universidades de Harvard e de Columbia. Formalmente, Ngozi recebeu cidadania nos Estados Unidos em 2019.  

BIBLIOGRAFIA

GILLARD, Julia; OKONJO-IWEALA, Ngozi. Women and leadership: real lives, real lessons. Midland (Australia): Penguim Handom House Austalia, 2020.

OKONJO-IWEALA, Ngozi; SOLUDO, Charles Chukwuma; MUHTAR, Mansur (eds.). The debt trap in Nigeria: towards a sustainable debt strategy. Trenton, NJ: Africa World Press, 2003.

VALLELY, Paul. Ngozi Okonjo Iweala: The woman who has the power to change Africa. JENDA: Journal of Culture and African Woman Studies, n. 9, 2006.


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Legenda: Nike Monica Okundaye

Fonte: Nike Centre for Art and Culture. 27 de dez. de 2014. Facebook: Nike Centre for Art and Culture. Disponível em: https://www.facebook.com/Nike-Centre-for-Art-and-Culture-318898328317408/photos/a.318902294983678/318902331650341. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Nike Monica Okundaye (1951)

Artista têxtil e pintora nigeriana, nasceu em Ogidi-Ijumu, Estado de Kogi, na Nigéria.  Ela trabalha com adire, uma técnica tradicional de tecelagem desenvolvida pelas mulheres yoruba da Nigéria. Sua bisavó, a yalode chamada Osadaun Ibitola, produzia tecidos adire e apresentou à Nike essa arte tradicional. Tais conhecimentos são tradicionalmente femininos e fazem parte de suas responsabilidades domésticas.

A técnica consiste em tingir os tecidos com tonalidades de azul obtido a partir do uso de tinta extraída das folhas da planta chamada indigo. Nike adicionou um novo ingrediente à arte, utilizando o batique, uma pintura de tecidos de origem indonésia, em pinturas sobre tela e em painéis de madeira. Suas obras representam a história, as tradições e a cosmologia do povo yoruba.

Aos seis anos de idade, sua mãe faleceu e aos sete sua avó Oraun Iyawo Amujobi também faleceu. Por conta do costume de as mães pagarem pela escolarização dos filhos, Nike teve que sair da St Michael Primary School (Escola Primária de St. Michael) quando estava no sexto ano. Então ela passou a trabalhar, carregando concreto para obras e realizou outros trabalhos pesados, porém continuou a produzir os tecidos.

Aos dezesseis anos, seu pai quis forçá-la a se casar com um importante político local. Ela decidiu fugir com um teatro itinerante para Osogbo, e mesmo menor de idade trabalhou como dançarina para o grupo dirigido por Taiwo Olaniyi Oyewale no Mbari Mbays Club (Clube de Mbari Mbay). Este local, de propriedade de Uli e Georgina Beir, dois imigrantes alemães, na década de 1960 foi um espaço importante para os artistas no renascimento da arte na Nigéria.

Apesar das dificuldades enfrentadas Okundaye desenvolveu-se profissionalmente e se tornou artista, educadora e filantropa, cujo trabalho ajudou a dar oportunidades econômicas para mulheres e jovens. Desde 1983 ela é diretora da Nike Center for Art and Culture (Centro de Arte e Cultura Nike), núcleo que ela fundou sem ajuda governamental. O centro oferece cursos em diversas ramos da arte sem custo para jovens nigerianos.

Em 1985 ela participou de uma exposição organizada pela ONU, em 1989 participou de uma exposição no National Museum of Women in the Arts (Museu Nacional das Mulheres nas Artes) em Washington. Dez anos mais tarde abriu uma fábrica de adire, empregando milhares de mulheres em Kabba, no estado de Kogi. Em 2000 ministrou oficinas de treinamento na Itália como parte de um evento contra a prostituição no país.

Em 2002 Nike abriu um museu e uma galeria de arte e centro de pesquisa para estudo sobre os tecidos adire, o Nike Research Centre for Art and Culture (Centro de Arte e Cultura Nike) na aldeia de Piwoyi. Em janeiro de 2007 a artista participou como facilitadora e painelista da conferência mundial Vital Voices: Pan-African leadership summit and initiative for women and girls (Vozes vitais: Iniciativa da cúpula pan-Africana para a liderança de mulheres e jovens), com o trabalho intitulado Art, actvism and women empowerment (Arte, ativismo e empoderamento feminino). Logo depois foi convidada a ministrar palestras e oficinas sobre batique e adire na Universidade do Sul da Flórida.

Nike Okundaye é membro da Society of Nigerian Artists (Sociedade dos Artistas Nigerianos) e da Society of Nigerian Women Artists (Sociedade das Mulheres Artistas Nigerianas). É casada com o chefe Reuben Osaruyi Okundaye e é mãe e seis filhos. Por sua liderança, ativismo e compromisso com as comunidades tradicionais, com as mulheres e jovens, ela recebeu diversos títulos e distinções, entre os quais os de “Yeye Oba”, “Ogidi-Ijumu” e “Yeye Tasase” em Osogbo.

BIBLIOGRAFIA

CASTELLOTE, Jess. Tola Wewe, Nike Okundaye and the emergence if third artist: “Nike & Wewe. In:  A view from my corner, 2009: http://jesscatellote.wordpress.com/2009/11/

VAZ, Kim Marie. The woman with the artistic brush: a like history of youruba batik artist Nike Davies. Armonk; M. E, Sharpe, 1995.

VAZ, Kim Marie. “Nike Monica Okundaye”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 25-26.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave: Historiadoras

Nina Ema Mba (1944-2002)

Historiadora, jornalista e pioneira em estabelecer estudos sobre as mulheres na Nigéria. Nasceu na Austrália, onde se graduou em história e educação (1965). No ano seguinte conheceu seu futuro marido, o nigeriano Benedict Okagube Mba, casou-se em 1967  e mudou-se com ele para a Nigéria, onde viveu até a sua morte.  

Em 1973 se inscreveu em um doutorado na Universidade de Ibadan, na Nigéria. Sua pesquisa pioneira foi publicada com o título Nigerian women mobilized: woman’s political activity in southern Nigeria, 1900-1965 (Mulheres nigerianas mobilizadas: atividade política de mulheres no sul da Nigéria, 1900-1965) (1982).Este livro serve até hoje como referência acerca da história de mulheres na política do país. Depois participou de outras pesquisas biográficas junto da Nigerian Biographical Foundation. Em 1987 engajou-se na comissão de planejamento da Women’s Research and Documentary Centre – WORDOC, que, aliado à outras universidades, criou um importantíssimo banco de dados sobre as mulheres e seus papeis na cultura, política e sociedade da Nigéria.

Em meados dos anos 1990, Nina Mba foi responsável pela criação da Network for Women’s Studies, também na Nigéria, com uma missão parecida com a WORDOC. Também liderou o Nigerwives, um grupo de mulheres expatriadas casadas com Nigerianos. Além do mais era uma leitora e escritora ávida por literatura, chegou a contribuir alguns anos para o importante jornal nigeriano The Vanguard. na coluna “The Insider/Outsider” (por dentro e por fora), tendo em conta a sua experiência de expatriada com uma longa permanência na Nigéria.

BIBLIOGRAFIA

AWE, Bolanle. Bio-profile, Obituary: Dr. Nina Mba. Feminist Africa, v. 13, 2009.

JOHNSON-ODIM, Cheryl. “Nina Emma Mba”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 147-149.



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Legenda: Ndaté Yalla Mbodj, irmã de Njémbot Mbojé (1853)

Fonte: Gallica – Biblioteca Nacional da França. Disponível em: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b23001280/ f5.item.r=Senegal%20reine. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Wolofs

Njémbot Mbojé (c. 1800-1846)

Rainha-mãe (linger) e regente do reino senegalês de Walo.

Ela e sua irmã Ndaté, que a sucedeu no trono, presenciaram, quando crianças, uma tragédia que até hoje é relembrada e celebrada no Senegal como a “Terça-feira de Nder”. A mãe das duas, junto de outras mulheres da realeza decidiram pôr um fim às próprias vidas, em 1820, para não terem de servir como escravas aos invasores que derrotaram Walo naquele período. Apesar das circunstâncias da morte de sua mãe, Njebot viveu sua vida dedicada a proteger o seu povo, sobretudo contra a presença dos franceses.

Njémbot Mboj era forte e determinada, como revelava o seu nome. Na cultura Walo, os nomes das princesas eram escolhidos para trazer uma mensagem de esperança, Njebot significa “crescer”, “florescer”.

Deixou sua marca política entre 1830 e 1846, em um período que Walo sofria constantes invasões dos Trarzas – tendo inclusive de se refugiar em Kayor. Os reinos de Walo e Trarzas faziam fronteira e mantinham contato militar desde o século XVI. Apesar dos conflitos rotineiros, que por fim ameaçaram a economia de Walo, Njebot mantinha uma postura diplomática, chegando a se casar com Mohamed el-Habib, líder dos Trarzas. Uma das interpretações sobre esse casamento foi que Njebot tentou amenizar as constantes agressões de Trarzas sobre Walo, outra foi de que ela quis apenas ampliar seu poder. O que aconteceu de fato foi que os franceses aumentaram seu interesse sobre o território, inclusive chegando a interferir internamente.

Um mês após o casamento de Njebot, os franceses invadiram o reinado de Walo na intenção de quebrar a aliança com Trarzas, forçando-a a se refugiar no reino de Kayor novamente. Seu marido el-Habib assinou dois tratados, em um deles selou parceria comercial com os franceses e no outro abriu mão do trono de Walo tanto para si como para seus filhos. O acordo também implicava no retorno de Njebot para Walo. Lá, ela reforçou seu poder e suas alianças, deixando o reinado para sua irmã, ao morrer.

BIBLIOGRAFIA

BARRY, Boubacar. Ndyombot and Ndaté des reines qui n’ont jamais regné. Afrique-Histoire, n. 8, p. 60-64, 1983.

CREEVEY, Lucy. Islam, women and the role of the state in Senegal. Journal of Religion in Africa, v. 26, n. 3, 1996.

DIOUF, Sylviane.  Kings and queens of West Africa. Nova Iorque: Franklin Watts, 2000.

KONATÉ, Dior. “Njembot Mboj”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 161-162


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Legenda: Nkanga Otobong | Temi Kogbe / Fatcityafrica (cortesia)

Fonte: KOGBE, Temi. 03 de jan. de 2008. Flickr: Temi KOGBE. Disponível em: https://flic.kr/p/biPv3Z. Acesso em: 21 de jan. de 2021.
Palavras-chave: Fotógrafas Hauçás

Nkanga Otobong (1974)

Nascida em Kano, região de área cultural islâmica da Nigéria, iniciou os seus estudos de arte na Universidade Obafemi Awolowo e os concluiu na École Nationale Supérieure des Beaux-Arts, em Paris.

Como artista visual, Nkanga trabalha com desenho e escultura, e sobretudo com fotografia. Seus trabalhos exploram as mudanças sociais e topográficas dos ambientes, empregando os recursos naturais como valores potenciais da criação artístico-cultural. Assim, ela usa a fotografia, a performance, a instalação e o desenho para questionar a maneira pela qual construímos nossa identidade.

As obras de Nkanga Otobong participam desde 2002 de inúmeras exposições nos Estados Unidos, Japão, Alemanha, África do Sul, México, Espanha, Canadá e Holanda, entre outros países, sendo mostradas em várias bienais e exposições internacionais, entre elas a 20ª Bienal de Sidney (Austrália) (2016)e na 58ª Bienal de Veneza (Itália) (2019).

Ela vive e trabalha em Antuérpia, na Bélgica. 

BIBLIOGRAFIA

CLARCK, Chris. Otobong Nkanga: the breath from fertile grounds. Art Montly, Londres, n. 413, p. 435, 2018.

SZEWCZK, Monika.  Exchange and some change: the imaginative economies of Otobong Nkanga, Afterall: a Journal of Art, Context and Enquiry, n. 37,  p. 38-51, 2014; https://doi.org/10.1086/679375


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Legenda: Nkosazana Clarice Dlamini-Zuma

Fonte: Parliament of the Republic of South Africa. Disponível em: https:// www.parliament.gov.za/person-details/53. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Nkosazana Clarice Dlamini-Zuma (1949)

Ativista anti-apartheid, médica e política sul-africana.  Nasceu em KwaZulu-Natal, filha de pai professor. Completou o ensino médio no Adams College, em Amanzimtoti (1967), estudando a seguir Zoologia e Botânica na Universidade de Natal.

Já durante o curso superior assumiu a luta anti-racista, filiando-se ao African National Congress – ANC (Congresso Nacional Africano) e de organizações estudantis durante a revolta de Soweto (1976), o que a levou a buscar o exílio em Botswana e na Tanzânia. A partir daí completou os estudos de Medicina na  Universidade de Bristol (1978), e atuou como pediatra na Suazilândia.  Casou-se com Jacob Zuma, ex-companheiro do ANC e que posteriormente viria a ser presidente da África do Sul (2009-2018), e realizou pós-graduação em Saúde Infantil na Universidade de Liverpool.

Quando retornou à África do Sul no período posterior ao Apartheid, Nkosazana Clarice atuou como pesquisadora no Conselho de Pesquisa Médica em Durban, com destacada participação no período de transição do país para a democracia. Atuou como Ministra da Saúde, inovou o sistema de saúde antes discriminatório, implementando serviços de saúde gratuitos para crianças menores e mulheres grávidas, programas preventivos do HIV-AIDS, embora tenha sido envolvida em acusações por irregularidades financeiras da qual foi formalmente inocentada – mas ficou com a imagem pública manchada.

Ainda que parcialmente enfraquecida em virtude das acusações mencionadas Dlamini-Zuma foi nomeada Ministra das Relações Públicas Exteriores (1999) e esteve à frente da Conferência Mundial contra o Racismo de Durban (2001), além de participar da Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável (2002) e da Comissão de Licitação que assegurava o direito da África do Sul a sediar a Copa do Mundo da FIFA (2010). Concorreu sem sucesso à presidência do ANC em 2017. Ela é  considerada a mulher mais poderosa da política sul-africana pós-apartheid.

BIBLIOGRAFIA

DU PLECIS, Carien. Woman in the wings: Nkosazana Dlamini Zuma and the race for the presidency. Cape Town: Peguin Books, 2017.

MURPHY, Gabrielle. South African health  care in black and white. The Lancet, v. 351, p. 1421-1424, 1998.

STRAUSS, Helene. Nkosazana Clarice Dlamini-Zuma”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 234-236.   

The two women who may determine the fate of South Africa and Zimbabwe – regional focus – southern Africa.  Africa Conflict Monitor, . v. 2017, n. 9, p. 39-45, 2017.


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Legenda: Noémia de Souza

Fonte: Blog Templo Cultural Delfos. Noémia de Sousa - Sangue Negro. 18 de mai. de 2018. Disponível em: http://www.elfikurten.com.br/2015/07/noemia-de-sousa.html. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Jornalistas Poetisas

Noémia de Souza (1926-2002)

Consagrada poetisa, tradutora, jornalista militante na luta de libertação nacional. É lembrada como a “mãe dos poetas moçambicanos”.

Seu nome completo é Carolina Noémia Abranches de Souza Soares, nasceu em Catembe, Moçambique, durante o período colonial, em uma família de comerciantes com origem germânica, goesa e moçambicana. Sua, mãe, Clara Bruheim, nasceu de um pai alemão e de uma mãe Ronga pertencente a uma linhagem tradicional.  Os familiares de sua mãe eram parentes da família Albasini – uma família que desde os anos vinte se envolveu fortemente na luta por direitos e liberdades em nome da população mestiça na colônia moçambicana.  

Aos seis anos ela mudou-se para Maputo e começou a frequentar a escola “Primeiro de Janeiro”, tornando-se altamente envolvida com a maçonaria. Aos oito anos ela perdeu o pai e enquanto dois dos seus cinco irmãos já frequentavam a universidade em Lisboa, ela seguiu seus estudos na Escola Comercial.

Enquanto isso, começou a mostrar sinais de sua vocação literária e paixão por línguas estrangeiras e literaturas. Viver na capital de Moçambique permitiu a ela estar em contato com as tensões sociais e raciais centrais na colônia moçambicana. Aos dezesseis anos, enquanto continuava seus estudos, começou a trabalhar para uma empresa dirigida por indianos.

Na metade da década de 1940 Noémia começou a frequentar a Associação Africana, e a trabalhar para o jornal da associação O Brado Africano, criada com o objetivo de recolher as queixas dos “filhos da colônia”. Em 1951 publicou por conta e financiamento próprio o seu livro Sangue Negro, que começou a circular ilegalmente. Durante o mesmo ano, deixou Moçambique para escapar da polícia política portuguesa, a PIDE.

No exílio, passou por Angola e viveu de 1951 a 1964 em Lisboa, trabalhou como tradutora, mas devido a sua oposição ao regime do Estado Novo português teve que se exilar em Paris, onde trabalhou na Embaixada do Marrocos, adotando em seus textos o pseudónimo de Vera Micaia. 

A poesia de Noémia de Souza é altamente inspirada em dois elementos: a cultura negra na América e outras expressões da Diáspora Africana. Ela teve contato e inspiração no negrismo cubano e na poesia do Haiti. O conteúdo de sua poesia foi, no entanto, influenciado principalmente pelo neo-realismo português, o que torna a sua criação poética altamente cosmopolita.

Em 1970, separou-se do marido e decidiu voltar a Portugal em 1973, onde viu a Revolução dos Cravos e colaborou com muitas novas agências, incluindo a Agência Nacional de Notícias portuguesa – conhecida como LUSA. Ela não compareceu à cerimônia de independência de Moçambique sob a alegação de não ter sido convidada.

Somente em 2001 a Associação dos Escritores Moçambicanos coletou seus poemas e publicou um volume chamado Sangue Negro. Ela morreu em Cascais, Portugal, em dezembro de 2001.

BIBLIOGRAFIA

APA, Livia. “Noémia de Souza”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 445-446.

HOWEN, Hillary. Mother Africa, Father Marx: women’s writing of Mozambique, 1948-2002. Lewisburg: Bucknell University Press, 2007.

LABAN, Michel. Moçambique – Encontro com Escritores. Porto: Fundação Eng. António de Almeida, 1998, v. 1.

SANT’ANNA, Jacqueline Britto. O discurso poético de Noémia de Sousa: resistência, poder e subalternidade. Kalíope, v. 5, n. 10, 2009:  http://revistas.pucsp.br/index.php/kaliope/article/viewFile/7472/5456

SOUZA, Carla Maria Ferreira. Noémia de Sousa: modulação de uma escrita em turbilhão. África e africanidades, ano 1, n. 1, 2008: http://www.africaeafricanidades.com.br/documentos/Noemia_de_Sousa.pdf


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Legenda: Nongqawuse

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Nongqawuse_and_Nonkosi.jpg. Acesso em: 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Nongqawuse (1841-1898)

Nasceu perto do rio Gxarha, na região oriental da Província do Cabo, atual África do Sul, foi uma vidente e profetisa que deu origem a um movimento de caráter milenarista junto ao povo Xosa, ao qual pertencia, contra os colonialistas britânicos. 

Em 1856, aos quinze anos de idade, juntamente com a menina Mpongo Nonkos, que tinha entre oito e dez anos, tornou pública uma profecia, alegadamente inspirada por espíritos ancestrais do seu povo.  Segundo seu vaticínio, os antepassados estariam prontos a retornar ao mundo terreno para varrer os colonos britânicos para o mar e restituir as riquezas aos xosas. Mas a condição para que tal acontecesse era a  destruição das colheitas e a matança dos rebanhos. 

A divulgação da “profecia”  motivou um movimento de matança do  gado e destruição das plantações, entre 1856 e 1857. Alguns estimam que entre 300.000 e 400.000 cabeças de gado tenham sido abatidas, o que acarretou grande mortalidade humana como consequência da fome.

Presas temporariamente, as videntes foram a seguir libertadas, e Nongqawuse passou a viver em uma fazenda, onde veio a falecer várias décadas depois. Até hoje, o vale em que Nongqawuse afirmou ter avistado os espíritos é conhecido como  Intlambo kaNongqawuse, que em Xosa significa “Vale de Nongqawuse”.

BIBLIOGRAFIA

ASHFORTH, Adam. The xhosa Cattle Killing and the politics of memory”. Sociological Forum, v. 6, n. 3, p. 581–592, 1991.

STAPLETON, Timothy J. “They no longer care for their chiefs”: another look at the Xhosa Cattle-Killing of 1856-1857. The International Journal of African Historical Studies, v. 24, n. 2,  p. 383–392, 1991.


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Legenda: Noni Jabavu

Fonte: Grocott’s Mail. Be inspired by Noni Jabavu. 13 de ago. de 2019. Disponível em: https:// www.grocotts.co.za/2019/08/13/helen-nontando-noni-jabavu/#prettyPhoto. Acesso em: 23 de dez. de 2020.

Noni Jabavu (1919-2008)

Seu nome completo era Helen Nontando Jabavu, nasceu em Middledrift, na Província do  Cabo, África do Sul, de uma família originária do grupo étnico Xhosa com proeminentes intelectuais e ativistas dos séculos XIX-XX. Seu avô, John Tengo Jabavu, foi editor do primeiro jornal da África do Sul a ser escrito em Xhosa , o Imvo Zabantsundu (Opinião Negra), e sua tia materna,  Cecilia Makiwane , foi a primeira enfermeira profissional africana registrada na África do Sul e uma das primeiras ativistas na luta pelos direitos das mulheres. Sua mãe, Thandiswa Florence Makiwane, fundou a Associação de Melhoria da Mulher de Zenzele.

Após completar os seus estudos na Inglaterra, tornou-se escritora de longas-metragens e trabalhou para a BBC, em Londres, como apresentadora e produtora. Quando se casou com o diretor de cinema inglês Michael Cadbury Crosfield, como o marido era branco e isto violava as leis de segregação racial vigentes na África do Sul ele não pôde acompanhá-la no país.  O casal morou em Moçambique, Zimbábue e Uganda.

Noni Jabavu começou a escrever durante os anos em que esteve em Uganda.  Em 1955, ela retornou à África do Sul para uma estadia de três meses que inspirou a redação de seu livro Drawn in color: african contrasts (1960), em que relata as experiências e impressões de uma africana sobre o impacto da segregação racial vigente no país.

Em 1961, Jabavu assumiu o cargo de redatora da revista The New Strand, dando início a uma longa carreira como jornalista que incluiu passagens pelas revistas e periódicos John O’London’s Weekly, o The New Strand e o Daily Dispatch.  Seu segundo livro, The ochre people: scenes from a South African life (O povo ocre: cenas da vida sul-africana) (1963), também foi uma narrativa de memórias que teve grande repercussão internacional.

BIBLIOGRAFIA

DECK, Alice A. Autoethnography: Zora Neale Hurston, Noni Jabavu, and cross-disciplinary discourse. Black American Literature Forum, v. 24, n. 2, p. 237–256, 1990.

HEALY, Meghan. “Noni Jabavu”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 182-183.

XABA, Makhosazana. Noni Jabavu: a peripatetic writer ahead of her times. Tydskr Letterkd., Pretoria, v. 46, n. 1, p. 217-219, 2009.


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Legenda: Representação de Nontetha Nkwenkwe

Fonte: MHLANGA, Mitchell. 01 de jan. de 2020. Twitter: @MimiReeds. Disponível em: https://twitter.com/MimiReeds/status/1212294711945371649. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Nontetha Nkwenkwe (c. 1875–1935)

Foi uma vidente e profetisa sul-africana. Nascida na região imiDushane, ocupada pelos povosXhosa. Pertencia a uma família tradicional dos amaqaba, os quais rejeitavam qualquer influência europeia, restringindo-se à sua indumentária simples, falando sua língua nativa e evitando a escolarização formal oferecida pelos missionários locais.

Os dados sobre a vida de Nontetha são escassos. Sabe-se que se tornou uma ixhwele (herborista), e que tinha a capacidade de prever acontecimentos futuros. Contudo, existe evidência de que ela conhecia também os rituais metodistas dos missionários, seus hinários e preces. Isto parece ter influenciado sua aproximação com o mundo religioso das igrejas ocidentais, além de ter sido um estímulo para a educação mais europeizada que seus filhos receberam após o batismo na Igreja Metodista Wesley, ao fim da Primeira Guerra. Nontetha teve dez filhos, dos quais apenas cinco sobreviveram. Eles foram fruto de seu casamento com Bungu Nkwenkwe, um trabalhador migrante que prestava em vilarejos ou fazendas de pessoas brancas.

  Durante a pandemia da gripe espanhola de 1918, Nontetha caiu seriamente doente, assim como grande parte da população nativa de sua região. Segundo os relatos orais, ficou em coma, e ao acordar compreendeu as mortes causadas pela gripe como uma punição divina, que só poderia ser redimida por meio de renovação social e reforma dos costumes. Ela passou a acreditar que seu papel como profetisa era o de espalhar a mensagem de Cristo e instruir o povo acerca do dia do Juízo Final. Esta mensagem deveria ser pregada junto aos Cristãos e aos amaqaba, além dos chefes locais.

Assim, ela iniciou suas pregações na região e logo atraiu um número considerável de seguidores, além da atenção dos fazendeiros brancos e do governo. Não obstante o caráter pacífico de suas pregações, o medo da elite era que ela causasse algum perigo à ordem da vida diária, uma vez que havia rumores que Nontetha desencorajava seus seguidores ao trabalho pesado nas minas e fazendas. O que se sabe é que ela pregava para que os fiéis praticassem o autocontrole e que abandonassem certos hábitos tradicionais que incluíssem bebidas alcoólicas, além da circuncisão.

A despeito do aspecto mais conciliador de sua mensagem, as autoridades a prenderam em 1922 e decretaram que fosse internada em uma clínica psiquiátrica. Ela foi liberada em 1923, mas ao retornar às pregações, foi novamente internada, e como fosse procurada por inúmeros seguidores, foi transferida para o Hospício de Pretória, onde ficou confinada por tempo indeterminado como pessoa com doença mental.

O regime do hospital era mais próximo ao de uma instituição de encarceramento, e os registros – ainda que poucos – comprovam que sua vida era extremamente difícil, em condições insalubres e privada de qualquer contato com familiares. Após duas “Peregrinações da Graça”, organizadas por seus fiéis (1926, 1930), peregrinações nas quais seus fiéis percorreram 800 km a pé até Pretoria para apelar pela profetisa junto às autoridades, os médicos decidiram que, se liberada, ela representaria um perigo em potencial à ordem social, ainda que não fosse uma pessoa perigosa.

Nontetha faleceu de câncer do estômago e do fígado em 1935. Devido à demora da família em reclamar o corpo para o enterro, as autoridades decidiram enterrá-la em uma vala de miseráveis em Pretória. Diversos apelos foram feitos junto às autoridades para o translado do corpo para a sua aldeia natal, apelos que continuaram infrutíferos por vários anos, até 1955. Somente em 1998, com o regime de transição na África do Sul, seus restos mortais foram enterrados no local de seu nascimento.

BIBLIOGRAFIA

EDGAR, R.; Sapire, H.. African apocalypse: the story of Nontetha Nkwenkwer, a twenty-century prophet. Athens: Ohio University Center for Inyernational Studies,  2000.

SHAPIRE, Edgar. Bones of contention: the return of Nonteta, an Eastern Cape prophet.University of Witwatersrand, 1998: http://wiredspace.wits.ac.za/handle/10539/8677

SAPIRE, Hilary. “Nontetha Nkenkwe”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 491-492.


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Legenda: Detalhe da obra de Danor Shtruzman

Fonte: SHTRUZMAN, Danor. 16 de jun. de 2017. Flickr: danor shtruzman. Disponível em: https://flic.kr/p/ VQZuJc. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Poetisas Xhozas e Zulus

Nontsizi Mgqwetho (+ 1920–1929)

Poetisa Xhosa da África do Sul, sua mãe era do clã Cwarha e seu pai do clã Chizama. Pouco se sabe sobre ela para além da sua obra.

Foi politicamente ligada à ativista Charlotte Maxeke, promoveu alguns bailes em Rand, e a dança é um elemento recorrente na sua poesia. Um jornal de 1949 refere-se a ela como “Miss Nontsizi Mgqwetho”, sugerindo que não tenha se casado. Sua obra foi publicada, no período situado entre 1920 e 1956, no jornal multilíngue de Johanesburgo Umteteli wa Bantu (O Porta-Voz do Povo), num total de 103 poemas, praticamente todos em xhosa.

Depois do seu primeiro poema, em que se autonomeou de Imbongi u Chizama (Poeta Chizama), passou a assinar como Imbongikazi Nontsizi u Chizama (A mulher poeta Nontsizi do clã Chizama) e, em seguida, Imbongikazi Nontsizi Mgqwetho (A mulher poeta Nontsizi Mgqwetho), indicando sua autoria feminina. O imbongi, poeta da corte real, era sempre homem. Ela alegava que sua atividade poética gerou oposição e inveja dos homens do seu grupo, e criticava-os por sua ineficiência política e perseguição às mulheres oradoras. Sua imagética é toda feminina, e gostava de enfatizar que a própria África seria uma imagem fêmea, notadamente, “uma galinha que protege seus filhotes sob as asas”.

Foi membro de uma manyano, grupo de oradorasmulheres, onde demonstrou preocupação com a falta de moral dos jovens. Cristã, não se furtava a criticar a hipocrisia de seus congêneres urbanos, e incentivava interpretações africanas da Bíblia frente às mulheres brancas. Foi uma entusiasta da luta anticolonial.

Sua obra foi esquecida por décadas, tendo sido recuperada em 1984 e republicada em 2007, consolidando-a como uma das maiores poetisas xhosa de todos os tempos.

BIBLIOGRAFIA

BROWN, Duncan. “Modern prophets, produce a new Bible’: christianity, africanness and the poetry of Nontsizi Mgqwetho. Current Writting , v. 20, p. 77-91, 2008.

BROWN, Duncan. My pen is the tongue of a skilful poet: african-christian identity and the poetry of Nontsizi Mgqwetho.” English in Africa , v. 31, p. 23-58, 2004.

OPLAND, Jeff. Nontsizi Mgqwetho: stranger in town.” In: Furniss, Graham; Gunner, Liz (Eds.).  Power, marginality and african oral literature Cambridge: Cambridge University Press, 1995, pp. 162-184.

OPLAND, Jeff. “Notsizi Mqqwetho”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 206-207.

OPLAND, Jeff (Ed.). The nation’s bounty: the xhosa poetry of Nintsizi Mgqwetho. Johanesburgo: Wits University Press, 2007.


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Legenda: Estátua de Nwagboka | Foto: Ed Keazor

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Omu_Nwaegboka_Uzoka_was_the_first_queen_of_Onitsha_(Omu_of_Onitsha),_she_was_the_first_women_to_rule_Onitsha- Ado_Kingdom._She_reign_between_1834-1890.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Igbos

Nwagboka (+ 1890)

Omu do povo igbocom grande influência na cidade de Onitsha no sudeste da Nigéria. O título de omu, reservado à chefia feminina e concedido a mulheres comerciantes de grande prestígio social, lhe conferia poder de mando equivalente ao seu correspondente masculino, o obi, e por vezes é concebido como equivalente a “rainha”.

Em 1886, Nwagboka foi a líder de uma insubordinação das mulheres contra o poder do rei (obi) Anazonwu (1823-1899). As causas deste conflito não são claras, mas o posicionamento favorável da omu favoreceu a presença de missões cristãs na região e pode ter agravado o conflito com o governante. Inicialmente desfavorável às missões e igrejas, ela converteu-se ao cristianismo e passou a encorajar as mulheres a fazer o mesmo, a ponto de proibir qualquer atividade no mercado aos domingos, de forma que as mulheres pudessem participar dos cultos. Aparentemente, os homens de Onitsha temiam que a crescente influência das missões cristãs interferissem em práticas tradicionais, inclusive a poligamia.

A causa mais provável da insurgência feminina liderada por Nwagboka parece estar relacionada com a crescente presença das companhias mercantis europeias em Onitsha. Todo o controle das atividades do mercado, incluindo os preços praticados, assim como a corte que adjudicava questões de violações de regras e disputas entre os comerciantes, estavam sob a égide da omu e seus conselheiros. O controle das atividades mercantis era tal que o mercado apenas começava após a chegada da omu e sua corte. Em 1884 ela própria havia assinado um tratado com os ingleses, aliando-se a eles colocando-se sob sua proteção.   

A influência das companhias mercantis européias sobre as atividades mercantis afetou a subsistência das famílias de Onitsha, o que por sua vez, afetava diretamente as atividades das mulheres naquela sociedade, uma vez que o mercado estava tradicionalmente sob o controle feminino. Conquistando igualmente o apoio de alguns homens, Nwagboka incitou as mulheres a interromperem seus afazeres domésticos e suas interações de qualquer natureza com os seus maridos, o que elas fizeram. Este boicote é relevante para a análise histórica, pois demonstra um importante aspecto da rede social entre homens e mulheres e sua interdependência na estrutura social de Onitsha. A omu representava um contrapeso para a autoridade patriarcal (exercida pelo obi) na vida política da cidade.

Nwagboka havia conquistado o cargo de omu em 1884 após um bem sucedido começo como negociante: consta que ela conseguiu vender um carregamento de marfim  por 10.000 libras esterlinas, uma parte da qual teria repassado ao obi Anazonwu. Como recompensa de tal generosidade e reconhecendo sua grande capacidade como negociante, Nwagboka recebeu do obi o seu ofo (cetro de autoridade) e passou a integrar o gabinete real, o que lhe conferiu o poder sobre  o mercado e seu prestígio entre as mulheres da sociedade.

Após a sua morte, o seu cargo não teve sucessora imediata.  Outras lideranças femininas desempenhariam papel proeminente na história nigeriana posterior, tendo reconhecida a sua função de chefia política e econômica.

BIBLIOGRAFIA

CHUKU, Gloria. (2009). Igbo Women and political participation in Nigeria, 1800-2005. The International Journal of African Historical Studies, v. 42, n. 1, p. 81-103, 2009:  www.jstor.org/stable/40282431

CHUKU, Gloria. “Nwagboka”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 510-511.

HANDERSON, H.K. Onitsha women: the traditional context for political power. In: KAPLAN, Flora E. S. (Ed.). Queens, queen mothers, priestesses, and power: case studies in African gender.  Nova Iorque: Academy of Sciences,  1997, p. 215-243.

NZEGWU, N.. Gender equality in a dual-sex system: the case of Onitsha. Canadian Journal of Law & Jurisprudence, v. 7, n. 1, 73-95, 1994.


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Legenda: Nwando Achebe | © Michigan State University

Fonte: Michigan State University. Disponível em: https://socialscience.msu.edu/diversity/DABDI1/dabdi-members/nwando- achebe.html. Acesso em: 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Historiadoras Igbos

Nwando Achebe (1970)

Nascida em Enugu, no Leste da Nigéria, é filha do romancista, ensaísta e poeta Chinua Achebe, e da professora Christie Chinwe Achebe. Realizou os estudos primário, secundário e superior na Nigéria, e realizou o doutorado na área de história na Universidade da California, em Los Angeles, Estados Unidos.

Ela é docente e pesquisadora de história da África na Universidade de Michigan desde 2005, e é editora-chefe e fundadora do Journal of West African History (Revista da História da África ocidental).

Seus interesses de pesquisa dizem respeito à história oral, à história das mulheres, de relações de gênero e sexualidade na África durante o período colonial. Suas duas principais obras são Farmers, traders, warriors, and kings: female power and authority in northern Igboland (Agricultores, comerciantes, guerreiros e reis: poder feminino e autoridade no norte da Igbolândia, 1900-1960) (2005), e o premiado   The Female king of Nigeria: Ahebi Ugbabe (O Rei-fêmea da Nigéria colonial: Ahebi Ugbabe) (2011).

BIBLIOGRAFIA

ACHEBE, Nwando. Nwando Achebe – Daurghter, wife and guest – a researcher at the crossroads. Journal of Women’s History, v. 14. N. 3, 2002.

ACHEBE, Nwando. Twenty-five years of african women writing african women’s and gendered worlds. Journal of Women’s History, v. 25. N. 4, 2013: https://muse.jhu.edu/article/531348


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave: Migrações

Nyamazana (+ 1890)

Nascida em data incerta, na linhagem real do povo Ngoni (nguni), em território da Zululândia, era sobrinha de Zwangendaba, o chefe tribal que em 1819 conduziu este povo durante a sua migração até o território da atual República do Zimbábue.

Durante a travessia do Rio Zambeze, Nyamazana assumiu a liderança de uma parte do grupo, atravessando-o em 1835, e durante alguns anos pilhou e devastou as comunidades existentes em território dos Xonas. Quando o líder guerreiro Mzilikazi (1795-1868) entrou no território do Zimbabwe em 1839  ela e os seus seguidores foram vencidos e se submeteram a ele, o que deu origem ao reino Ndebele. Ela posteriormente se casou com Mzilikazi, vindo a ser rainha do povo Ndebele.  

BIBLIOGRAFIA

RASMUSSEN, R. Kent. Mzilikazi of the Ndebele. London: heinemann Edutional Books, 1977.

JACKSON, Guida M.. Women rulers through out the Ages: an illustrated guide. Santa Clara, California: ABC Clio, 1999.


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Legenda: Mulheres do povo Nuer (detalhe de gravura de 1866)

Fonte: Frobenius-Institut. Disponível em: http://bildarchiv.frobenius-katalog.de/rech.FAU?sid=C67B60391&dm=1&auft=0. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Líderes religiosas

Nyaruac Kolang Ket (c. 1900–1973)

Vidente do povo Nuer, no Sudão Nilótico, também conhecida como Nyakolang Ket, foi a filha e sucessora do vidente e profeta Nuer Kolang Ket, que desde 1890 afirmava ser possuído pela divindade conhecida como Maani.   Aprisionado durante a guerra contra os Dinka, seus adversários tradicionais, ele foi preso pelas autoridades coloniais anglo-egípcias e morreu na prisão em 1925.

A expressão Nyaruac significa « filha da palavra », « filha do discurso », em referência ao poder de previsão que ela afirmava ter herdado do pai. Era casada mas abandonou o companheiro para cuidar do pai antes dele morrer, tendo-o posteriormente sucedido ao trono, embora um de seus irmãos tenha reivindicado a sucessão  e morreu pouco tempo depois em batalha contra as tropas do governo colonial.  

Ao assumir a sua liderança como vidente, Nyaruac Ket adotou uma posição diferente das lideranças religiosas anteriores e anunciou que não iria atacar pessoas. Por ter evitado a guerra, e talvez por ser mulher, ela não foi perseguida pelas autoridades coloniais. Manteve sua liderança junto ao povo, realizando sacrifícios contra as doenças que acometiam o gado e epidemias que afetavam as pessoas. Acreditava-se também na eficácia de suas curas para o caso de infertilidade de mulheres.

BIBLIOGRAFIA

JOHNSON, Douglas H. Nuer phrophets : a history of phrophecy from the Upper Nile in the nineteenth and twentieth centuries. Oxford : Clarendon Press, 1994.

JOHNSON, Douglas. “Nyaruac Kolang”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 519-520.


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Legenda: Rainha Nzinga Mbandi com sua comitiva militar (1622)

Fonte: Slavery Images. Disponível em: http://www.slaveryimages.org/s/slaveryimages/item/2284. Acesso em: 18 de jan. de 2021.
Palavras-chave:

Nzinga Mbandi (1583–1663)

Também referida popularmente como Rainha Jinga ou Rainha Ginga, ou como Dona Ana de Souza pelos portugueses. Nome pelo qual é conhecida Nzinga Mbandi Kia Mbandi, soberana dos reinos de Dongo e Matamba, de 1623 até o fim da vida,  no território da atual Angola.  Filha do Ngola Mbandi Kiluanji, em 1617 disputou o trono do Ndongo com seu irmão mais jovem ou” meio-irmão”, o qual, vencendo a disputa, foi entronizado com o nome Ngola Mbandi.

Em 1622 ela foi enviada a Luanda para negociar um tratado de paz com o governador português João Correia de Souza, permanecendo lá por cerca de um ano, tempo em que inclusive, recebeu os sacramentos do batismo católico e o nome cristão de Ana de Souza. Após seu regresso ao Dongo, com a morte de Ngola ela assumiu o trono, que ocupou por cinco anos, descumprindo não só o tratado assinado com os portugueses como o pacto cristão do batismo mas também bloqueando as rotas de comércio que levavam a Luanda. Atacada pelos portugueses  ela se refugiou nas ilhas do rio Kwanza e nos anos 1626-1627 se estabeleceu no reino de Matamba, onde passou a comandar grupos de guerreiros imbangalas e a liderar a guerra contra os portugueses no período que se estendeu de 1630 até 1656, quando aceitou a paz e se converteu pela segunda vez ao catolicismo.  

No contexto da independência angolana frente aos portugueses, na segunda metade do século XX. Nzinga aparece como heroína nacional, personificação maior da luta anticolonial, sendo enaltecida em romances, poesias, no teatro e no cinema. A preservação de sua memória na tradição oral assumiu na Diáspora  caráter religioso e político, com forte conotação de resistência cultural.

Sua imagem foi preservada e transmitida nas irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Lisboa ou de diferentes partes do Brasil,  onde por vezes, as rainhas Gingas (ou Jingas) são ritualmente coroadas.  Tais celebrações ocorreram (e por vezes continuam a ocorrer) em Minas Gerais, Goiás, Bahia, Paraíba e Pernambuco – e sobretudo na comunidade quilombola de Morro Alto (Rio Grande do Sul), em que desde pelo menos o fim do século XIX as rainhas Gingas são anualmente coroadas, ao lado dos reis do Congo, durante a festa do Maçambique de Osório.

BIBLIOGRAFIA

MATA, Inocência (Org.). Nzinga Mbandi: história, memória e mito. Lisboa: Edições Colibri, 2012

PANTOJA, Selma.  Nzinga Mbandi: mulher, guerra e escravidão. Brasilia: Editora Thesaurus, 2000.

PANTOJA, Selma. “Nzinga a Mbandi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 527-528.

PARREIRA, Adriano. Economia e sociedade em Angola na época da Rainha Jinga. Lisboa: Editorial Estampa, 1990.

PANTOJA, Selma. Jinga de Angola: a rainha guerreira da África. São Paulo: Todavia Editora, 2019.



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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave:

Okinpa Pampa (+ 1930)

Nas antigas sociedades bijagó da Guiné-Bissau, Okinka é adenominação de cada  uma das chefes de linhagens, que ao mesmo tempo são sacerdotisas. Nessa sociedade, de base matrifocal,  as mulheres ocupam posição diferencial, como guardiãs dos lugares dedicados aos espíritos ancestrais, e em momentos de crise ou dissensão assumem o papel de liderança.

No período anterior ao domínio colonial efetivo na Guiné-Bissau, diversas dessas governantas controlaram as ilhas do arquipélago, como Idiana Ibop, que reinara na Ilha de Canabaque, e liderou o seu povo na luta armada contra os invasores portugueses. Mas a maior delas foi Okinka Pampa, governante  da  Ilha Orango Grande. Também conhecida como Pampa Kanyimpa, ou Ocanto, sucedeu o pai, Bankanyapa, como governante da ilha no período de 1910-1930. Residia na aldeia de Etikoka, situada ao noroeste de Orango Grande. Era auxiliada por um conselho composto por 10 mulheres e cinco homens.

Com a autoridade que detinha,  resistiu durante algum tempo às “campanhas de pacificação”, nome dado pelos portugueses à guerra de conquista dos povos africanos que caíram sob seu domínio. Após algum tempo ela finalmente assinou um tratado de paz. Quando morreu, com mais de cem anos de idade, de causas naturais, as autoridades portuguesas que já estavam há décadas sediadas em Bolama instalaram postos militares nas ilhas, efetivando o controle direto nas ilhas dos bijagós. Foi sucedida pelo filho, Mankaridu Okodoki.

BIBLIOGRAFIA

BERNATZIK, Hugo Adolf. En el reyno de los Bydiogo. Barcelona: Editorial Labor, 1959.

MENDY, Peter. Colonialismo português em África: a tradição de resistência na Guiné-Bissau (1879-1959). Bissau: INEP, 1994.


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Legenda: Okwei de Osomari

Fonte: MelesZenawi. Memory Lane.her Highness,omu Okwei: The Nigerian Merchant Queen Of Ossomari. Nairaland Forum. 15 de ago. de 2019. Disponível em: https://www.nairaland.com/5361562/memory-lane.her-highnessomu-okwei-nigerian. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Okwei de Osomari (1872–1943)

Nascida Okwei Afubeho em 1872 na cidade de Osomari, localizada na região do baixo Rio Níger, na atual Nigéria. Pertenceu a uma importante linhagem do grupo igbo. Seu pai, Osuna Afubeho, foi um conhecido guerreiro, além de um príncipe de grande riqueza, proprietário de centenas de escravos, que controlava localmente o comércio e fazia a guerra. Seu avô, chamado Nzedegwu, foi Atamanya (rei) de Osomari, assinou acordos comerciais com os britânicos em 1854 e em 1860 e convidou a missão da igreja católica para sua cidade. O avô materno, Obi Aje, foi um dos filhos de Obi Ossai, rei de Aboh que em 1830 assinou acordos comerciais com europeus.

Aos nove anos de idade Okwei aprendeu com um tia materna a arte do comércio, além de aprender igala, língua oficial do comércio no Delta do Níger. Aos quinze, mudou-se com sua mãe para a cidade comercial de Atani, onde comercializavam vinho de palma, inhame, porcelana e noz de cola. De um primeiro casamento, herdou bens e contatos comerciais que fortaleceu sua posição no comércio ao longo do Rio Níger, e em um segundo casamento (1895), com o herdeiro de uma influente família de mercadoras de Aboh e Onitsha, tornou-se agente da concessionária britânica Niger Company. Com isso ela passou a comprar diversos produtos – tabaco, fósforos, lâmpadas, louças, vasos, álcool –  para distribuí-los a atacadistas e varejistas locais. Além do mais, ela arranjava casamentos de jovens mulheres com negociantes estrangeiros, empresários locais, gerentes de bancos e trabalhadores assalariados. Além do mais, instituiu parceiros comerciais nos principais portos do Rio Niger: Oguta, Ndoni, Brass, Port Harcourt e Warri.

Durante a I Guerra Mundial os produtos derivados da palmeira tiveram baixa no mercado Okwei o que a levou a comercializar tecidos de origem indiana (madras), além de continuar a vender pólvora, marfim, álcool e miçangas de coral. Como já tinha capital e organização suficiente, deixou de comprar dos intermediários europeus e estabeleceu contato direto com as fábricas da Inglaterra. Na condição de agente de empresas estrangeiras incluindo bancos, passou a atuar como agente local de câmbio, o que não agradava os nativos.

Em 1926 ela começou a trabalhar com empréstimo de dinheiro a novos comerciantes, agricultores e piscicultores. Sua taxa de lucro foi tão alta que alguns de seus devedores a processaram. Sua capacidade de adaptação e gerência de negócios variados a mantiveram durante o período da Grande Depressão. Ela soube investir em Onitsha, adquirindo a propriedade de 25 lotes, 24 casas, caminhões de carga e transporte marítimo. Okwei comprou uma casa moderna em sua cidade natal e um carro particular.

Apesar de sua falta de estudo formal, o comércio rendeu lucros e reconhecimento. Ela legou aos filhos os frutos de seu império, o que lhes garantiu posição de poder econômico e influência política na década de 1930. Ela própria teve destacada participação política, como representante da Onitsha Native Court (1912), da Waterside Settlement e da Native Court de Onitsha, junto ao governo colonial britânico.  Em 1935 ela foi coroada como Omu (título equivalente a rainha) de Osomari, tornando-se chefe do conselho feminino cujo trabalho era ajudar o Rei e seus conselheiros a administrar Osomari. Ela tinha o seu próprio palácio e uma equipe de conselheiras que a ajudavam nas disputas de pautas femininas e do mercado de Osomari, além de ser responsável por guardar as tradições e organizar cerimônias e festas.

Por sua enorme influência e prestígio, ela é tida como a mais importante omu da história do povo igbo, sendo lembrada e homenageada em Onitsha, cuja rua principal leva o seu nome.

BIBLIOGRAFIA

CHUKU, Gloria. Igbo women and political participation in Nigeria, 1800-2005. International Journal of African Historical Studies, v. 42, n. 1, p. 81-103, 2009. 

CHUKU, Gloria. “Okwei”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 26-28.

EKEJIUBA, Felicia Ifeoma.  Omu Okwei of Osomari. In: AWE, Bolanle (Ed.). Nigerian woman in historical perspective. Lagos: Sankore Publishers, 1992, pp. 89-104.


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Legenda: Olive Schreiner

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Olive_Schreiner.jpg. Acesso em: 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Romancistas

Olive Schreiner (1855–1920)

Seu nome completo era Olive Emilie Albertina Schreiner. Pertencente ao grupo dos(as) boeres, os(as) colonos(as) brancos(as) durante a formação da África do Sul.  Nasceu no Lesoto, filha de um missionário germânico e de mãe inglesa, e era irmã de W. P. Schreiner, que foi o primeiro ministro da Colônia do Cabo de 1899-1902. 

Embora não tenha tido acesso à educação formal, aprendeu a ler com a mãe. Viveu na Inglaterra no período de 1874-1881, quando pretendia estudar medicina,  mas ganhou a vida como governanta. Foi quando escreveu The history of a african farm (A história de uma fazenda Africana) (1883), que alcançou grande sucesso na Europa e na América e é considerado o primeiro romance sul-africano. Retrata as circunstâncias da vida cotidiana de famílias rurais, rompendo com certos pontos de vista rígidos da era vitoriana. Tem como protagonista uma garota de uma fazenda situada no meio da savana que luta por sua independência pessoal.

Após o período das Guerras dos Boêres, quando ela criticou abertamente a política inglesa e as atividades do governador inglês Cecil Rhodes, Olive assumiu abertamente a causa das mulheres. No livro Woman and labour (Mulher e trabalho) (1911)  ela denunciou abertamente o “parasitismo sexual” dos homens, motivo pelo qual a obra se tornou referência para o movimento feminista radical sul-africano.

Casada desde 1894 com o político Samuel Cronwright (1863-1936), ela passou os sete últimos anos de vida na Europa, onde trabalhou no romance que nunca acabou de finalizar, publicado postumamente com o título de  From man to man (De Homem a Homem) (1926).

BIBLIOGRAFIA

BERKMAN, J.  A.. The healing imagination of Olive Schreiner: beyond south african colonialism. Boston: University of Massachusetts Press, 1993.

BURDETT. Carolyn. Olive Schreiner and the progress of feminism: evolution, gender and empire. New York: Palgrave Macmillan, 2001.

HEILMAN, Ann. New woman strategies: Sarah Grand, Olive Schreiner, and Mona Caird. Manchester; New York: Manchester University Press, 2004.

SAMUELSON, Meg. “Olive Albertina Schreiner”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 305-306.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave:

Orompotó (século XVI)

Personagem da história do povo yoruba, era irmã de Egunoja ou Eguneju,  o alafim (governante) de Oyó, na área cultural yoruba da atual Nigéria. Ela o teria sucedido no governo a   partir da cidade de Igboho, durante o período de invasão do povo Nupê. Assim é mencionada na obra de Samuel  Johnson, The history of the Yorubas (A história dos yorubas) (1897).

Nos anos de 1960  o pesquisador Robert Smith encontrou diversas versões sobre o seu período de governo entre os detentores das tradições orais.   Como regente, Orompotó teria liderado a guerra de resistência aos invasores nupês em 1555.

Nos últimos anos, pesquisadoras nigerianas ampliaram o conhecimento acerca dessa governanta, vendo nela mais do que uma substituta temporária, e sim uma governanta que deteve o poder durante cerca de vinte anos. Para Oyèronké Oyewumi, é equivocado considerá-la apenas  uma regente, porque na sociedade yoruba os postos de governo podiam ser indistintamente ocupados por pessoas do sexo masculino ou do sexo feminino, sem distinção de gênero, e por sucessão colateral – entre irmãos ou irmãs. Orompotó teria governado “porque era a pessoa mais adequada naquele momento para ocupar o trono, uma vez que na cultura yoruba os direitos de sucessão das pessoas não supõem automaticamente a superioridade de irmãos em relação  a irmãs”.

BIBLIOGRAFIA

OLAJUBU, Oyeronke. Women in the yoruba religious sphere. Albany: State University of New York Press, 2003.

OYEWÙMÍ, Oyèronké. La invencion de las mujeres: una perspectiva africana sobre los discursos occidentales de género. Bogotá: En la Frontera, 2017. 

SMITH, Robert.  Kingdoms of the yoruba. London: The University of Wisconsin Press, 1988.


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Legenda: Oumou Sangaré | Diario de Madrid

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/ File:De_la_poes%C3%ADa_a_la_m%C3%BAsica_de_ra%C3%ADz,_sonidos_de_la_segunda_noche_de_San_Isidro_07.jpg. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Oumou Sangaré (1969)

Nasceu em Bamako, no Mali. Como o pai emigrou para a Costa do Marfim quando ela tinha apenas dois anos, em busca de emprego e uma segunda esposa, sua mãe buscou o sustento da família cantando em casamentos e batizados, e já em 1974 ela acompanhava nessas apresentações. Aos treze anos começou a cantar individualmente em eventos.

Em 1985, quando cantava nas ruas de Bamako, chamou a atenção de Lamine Sidibé, diretor de um conjunto Instrumental, que a convenceu a se juntar ao seu grupo  musical chamado Bamba Dembélé Djoliba,  que se preparava para uma turnê na Europa. Ela era a mais jovem do grupo, mas sua voz foi destaque. As primeiras canções foram inspiradas no passado de sua mãe, que veio da região  da floresta de Wassoulou – região famosa por seus caçadores que dizem adquirir poderes místicos através de suas canções.

Ao contrário das canções tradicionais dos griots, feitas em honra de famílias poderosas, as letras de Omou Sangaré enfatizavam os desafios das mulheres e a vida das pessoas comuns. Seus fãs do Mali a aclamavam e presenteavam, como forma de incentivo. Amadou Ba Guindo produziu seu primeiro álbum em 1990, chamado Moussoulou, que em bambara significa “mulheres”, e que alcançou grande sucesso em toda a África ocidental, vendendo 200.000 cópias.

Guindo morreu em um acidente em 1991 e Sangare escreveu uma música em sua homenagem que é considerada uma de suas composições mais refinadas, Saa Magni.  O guitarrista Ali Farka  Touré ficou impressionado com o  talento dela e a ajudou a assinar um contrato com a gravadora inglesa World Circuit, o que lhe permitiu lançar vários álbuns, incluindo Ko Sira (1993), Worotan (1996), Oumou (2004) e Seya (2009).

Ela incentivou músicos africanos e fez parcerias com artistas nacionais e internacionais. Suas letras lidam com questões femininas, como a circuncisão, prática que considera inaceitável.  A UNESCO lhe concedeu prêmio por seus esforços altruístas em 2001, e ela se tornou embaixatriz da Organização para Agricultura e Alimentação.

Oumou Sangaré tornou-se uma empresária bemsucedida, com participação em instituições de caridade e grande ícone da moda em seu país. Casada com Ousmane Haidara, foi considerada uma das cantoras mais amadas da África Ocidental no início do século XXI.

BIBLIOGRAFIA

CHARRY, Eric. Mande Music: traditional and modern music of the maninka and the mandinka of Western Africa. Chicago: University of Chicago Press, 2000.

BENSIGNOR, François. Oumou Sangaré: malienne, femme et artiste. Hommes et Migrations, Paris, n. 1206, p. 137-139, 1997.

RICH, Jeremy. “Oumou Sangare”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 264-266.

SANGARÉ, Oumou. Saa Magni, 1991: https://www.youtube.com/watch?v=kHMFie-BOPs


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Legenda: Oyèrónkẹ́ Oyèwùmí

Fonte: OYÈWÙMÍ, Oyèrónkẹ́. 25 de fev. de 2020. Facebook: Oyeronke Oyewumi. Disponível em: https://www.facebook.com/photo.php? fbid=10219585575923020&set=pb.1024104697.-2207520000..&type=3. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Oyèrónkẹ́ Oyèwùmí (1957)

Cientista social, teórica e feminista nigeriana.  Nasceu em Ògbọ́mọ̀sọ́, cidade situada no atual Estado de Oyó, na República da Nigéria. Pertence a uma importante linhagem yoruba,Seu pai foi elevado em 1973 à condição de sòún (monarca) de sua cidade natal, o que fez com que ela tivesse desde a juventude grande familiaridade com a vida no ààfin sọ̀ún (palácio), e continuada participação nos rituais, festas e costumes tradicionais de matriz yoruba-oyó.

 Oyèronké completou o estudo primário e secundário em Ògbọ́mọ̀só, realizou o curso superior de Sociologia na Universidade de Ibadan e obteve o Doutorado em Sociologia na Universidade da California, onde defendeu a tese Mothers not women: making an african sense of western gender discourses  (Mães e não mulheres: criando um sentido africano para os discursos de gênero ocidentais) (1993). Este trabalhou veio depois a ser publicado com o título The invention of women; making an african sense of western gender discourses (A invenção das mulheres: construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero) (1997), livro que lhe rendeu o prêmio da American Sociological Association (Associação Americana de Sociologia) e se distinguiu como finalista ao Prêmio Herskovitts da African Studies Association (Associação dos Estudos Africanos). 

A obra de Oyèronké Oyèwúmi propõe uma crítica pós-colonial e feminista do predomínio ocidental nos Estudos Africanos, a partir de uma argumentação de cunho epistemológico. Com base em trabalho interdisciplinar, ela argumenta, com base em evidências linguísticas e  etnográficas que antes da colonização britânica,  a sociedade yoruba-oyó do sudoeste da Nigéria não organizava os papeis sociais a partir de hierarquias sexuais, corporais e de gênero, e sim pela senioridade. Ela sustenta que a tradução dos termos obìnrin e ọkùnrin, correspondem, respectivamente, a mulher/fêmea e homem/macho, já carrega em si mesmas a divisão ocidental da percepção dos modos de organização social baseada no gênero; o mesmo acontecendo com a tradução de aya e ọkọ para “esposa” e “marido”, que também supõem tal distinção. No contexto yoruba, seria a idade cronológica relativa, e não o tipo sexuado de corpo, a responsável pela distribuição dos lugares de prestígio na sociedade.

Na construção de seu argumento, nota que a percepção ocidental, introduzida durante o período colonial, organiza a lógica cultural em torno do sentido da visão, que identifica pelo olhar lugares sociais destinados a determinados tipos de corpos, o que não aconteceria nas sociedades yorubas, onde maior importância tende a ser dada ao sentido da audição. Tal centralidade conferida ao corpo na perspectiva ocidental acaba por ser projetada nas formas de organização social, naturalizando em termos de uma bio-lógica os discursos sociais e produzindo paradigmas etnocentrados segundo critérios de hierarquia e subordinação. Nas cosmologias e instituições africanas, haveria distinção anatômica dos corpos sem diferença social. Esta seria conferida pela estrutura da linhagem familiar, tanto pela posição etária quanto pela origem social.

Beneficiada com diversas bolsas de pesquisa pela Fundação Rockfeller, Ford Fondation e pelo Conselho Nacional de Pesquisa Sobre Mulheres – NCRW, dos Estados Unidos, Oyèronké leciona Sociologia na Universidade de Stony Brook, no Estado de Nova Iorque.  Entre outras obras, publicou African Women and Feminism: Reflecting on the Politics of Sisterhood (Mulheres africanas e feminismo: refletindo sobre políticas de sororidade) (2003);  African Gender Studies: A Reader  (Estudos africanos de gênero: uma leitura) (2005) e Gender epistemologies in Africa: gendering traditions, spaces, social institutions and identities  (Epistemologias de gênero na África: tradições, espaços, instituições e identidades de gênero) (2011).

BIBLIOGRAFIA

ADESINA, Jimi. Práticas da Sociologia Africana: Lições de endogeneidade e género na academia. In: SILVA, Tereza Cruz e; COELHO, João Paulo Borges; SOUTO, Amélia Neves de (Orgs.). Como Fazer Ciências Sociais e Humanas em África: questões epistemológicas, metodológicas, teóricas e políticas (Textos do Colóquio em Homenagem a Aquino de Bragança). Dakar: CODESRIA, 2012, p. 195-210.

OYEWÙMÍ, Oyèwùmi.  La invención de las mujeres: una perspectiva africana sobre los discursos occidentales del género. Bogota: En la Frontera, 2016:  https://ayalaboratorio.files.wordpress.com/2019/06/a-invencao-das-mulheres-oyc3a8ronke-oyewumi.pdf

ROCHA, Aline Matos da. A corporal(idade) discursiva à sombra da hierarquia e do poder: uma relação entre Oyewúmí e Foulcault. Dissertação de Mestrado (Filosofia), Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2018: https://repositorio.bc.ufg.br/tede/bitstream/tede/8955/5/Disserta%C3%A7%C3%A3o%20-%20Aline%20Matos%20da%20Rocha%20-%202018.pdf


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Legenda: Oyinka Morenike Abayomi

Fonte: Lagos Records and Archives Bureau - LASRAB. 12 de mar. de 2020. Twitter: @LASRABofficial. Disponível em: https://twitter.com/LASRABofficial/status/1238190674354323458/photo/1. Acesso em: 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Direitos das mulheres

Oyinka Morenike Abayomi (1897-1990)

Destacada nacionalista e feminista nigeriana, nasceu com o nome de Oyinkansola Ajasa, em uma família da alta sociedade nigeriana. Seu pai, Sir Kitoye Ajasa, foi o primeiro nigeriano a receber o título de “cavaleiro” dos britânicos, e a mãe, Lucretia Olayinka Moore, pertencia à família real Egba . Ela estudou no Seminário para Meninas da Sociedade Missionária da Igreja Anglicana, em Lagos, e também do Ryeford Hall College, na Inglaterra, tendo frequentado em 1917  a  Royal Academy of Music (Real Academia de Música) de  Londres . 

Em 1927 criou o Queen’s College, único instituto secundário de toda a Nigéria até o início dos anos 1950, onde realizou importantes ações em termos de formação de jovens meninas. Todavia, a escola não escapou a uma visão colonial da divisão sexual de tarefas em que as alunas eram fundamentalmente treinadas para se tornarem perfeitas donas de casa.

Integrante da elite econômica e política do país, nos anos 1930-1950 Abayomi assumiu a liderança espiritual, social e política de mulheres abastadas, tornando-se chefe e orientadora de clubes para garotas ricas da Nigéria no Nigerian Girl Guides Association (Associação Nigeriana de Guias de Garotas),  e  líder da Associação Cristã de Moças. Seguindo os passos pioneiros de algumas mulheres da África ocidental, sensibilizou várias jovens nigerianas a lutarem pelo poder político.

Em 1944, Oyinka Abayomi  fundou e depois presidiu o Nigerian Women’s Party – NWP (Partido Nigeriano das Mulheres), que reivindicava para as mulheres direitos iguais aos homens. O partido porém teve vida curta devido às divergências com mulheres provenientes de outras tendências mais radicais.

Seu nome permaneceu como uma referência entre os integrantes das elites locais no período colonial, e quando Kofo Abayomi, seu segundo marido, foi agraciado com o título de “cavaleiro” pela rainha da Inglaterra em 1954, ela passou a ser chamada de “Lady Abayomi”.

BIBLIOGRAFIA

COKER, Folarin. A lady: a  biography of Lady Oyinkan Abayomi. Ibadan: Evans Brothers, 1987.

JOHNSON-ODIM, Cheryl. Lady Oyinkan Abayomi: a profile. In: IDEM. Nigerian Women in Historical Perspective. Lagos: Sankore Press, 1993, p. 149-163.

FALOLA, Toyin; AMPONSAH, Nana Akua. Women’s role in Sub-Saharan Africa. Santa Barbara (California), Denver (Colorado), Oxford (England), 2012, p.190.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave:

Pabré (século XVI)

De acordo com as tradições orais dos povos Mossi, da atual República de Burkina Faso,  uma grave ameaça pairou sobre o reino quando o naba (rei) Nassibiri morreu. Era um dos sucessores de Ouedrago, que governara muito tempo antes e dera início à linhagem real. O falecido tinha dois filhos que poderiam sucedê-lo: Koundoumié, que era o seu favorito, e Yadega, o mais velho, que era o sucessor por direito.

Durante o período de sucessão, era costume atribuir temporariamente o poder à filha mais velha do governante morto, que adquiria o título de napoko, isto é, de “soberana”. A ela eram entregues os namtibo, isto é, os amuletos e demais emblemas do poder real.

Pabré, a filha mais velha de Nassibiri, recebeu os fetiches das mãos do “senhor da terra” no palácio de Tenkodogo, e aguardava o retorno de Yadega para proceder à sua investidura. Conforme o costume, Koundoumié teria que, após a entronização, abandonar o reino.

Os chefes dos clãs que integravam o conselho real resolveram reunir-se e indicaram Koundoumié como sucessor, contrariando o costume, e sem consultar Pabré. O que não sabiam é que ela, por desconfiar da manobra, já tinha entregue os fetiches e insígnias à Yadega, que, assim, embora tenha sido preterido na sucessão do reino Mossi, fundou o reino de Yatenga tendo a legitimidade dos símbolos da monarquia tradicional.

A lenda de Fabré, a princesa guardiã dos fetiches reais, é narrada para explicar a divisão entre os mossi e o aparecimento de Yatenga – divisão que de fato ocorreu por volta de 1540, no século XVI.

BIBLIOGRAFIA

SOREL, Jacqueline. Femmes de l’ombre: Pabré, la gardienne des fetiches, 2002: http://www1.rfi.fr/fichiers/MFI/CultureSociete/650.asp


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Legenda: Pamela Jelimo | Foto: Ragnar Singsaas

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/ File:Pamela_Jelimo_Bislett_Games_2008_cropped.jpg. Acesso em: 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Pamela Jelimo (1989)

Nasceu em Kabirisang, no Quênia, em uma família pobre, sem condições de custear os seus estudos. Na infância e juventude, vendeu leite nas ruas para obter dinheiro e pagar a escola secundária. Ajudada pelo diretor da escola, que lhe deu equipamento esportivo, ela começou a praticar o atletismo aos treze anos como corredora em provas de campeonatos de 100, 400 e 800 metros, logo alcançando destaque em nível nacional.  

Em junho de 2007, obteve o quarto lugar nos 400 metros do Campeonato Queniano de Atletismo e no Campeonato Africano Junior nos 400 metros, e também estabeleceu um recorde nacional na prova de 200 metros. No mesmo ano, começou a trabalhar como oficial de polícia.

Alcançando recordes impressionantes nas provas quenianas, participou de competições em campeonatos africanos, com sucessivas vitórias e recordes em provas de 800 metros. Sua maior conquista ocorreu nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, quando ela ganhou a medalha de ouro nos 800 metros júnior, com o recorde olímpico, o que lhe garantiu a posição da atleta mais importante de seu país e uma das de maior destaque do continente.  

Ela continuou a participar de provas internacionais, com excelentes resultados até as Olimpíadas de 2012 de Londres, quando alcançou o quarto lugar e depois recebeu do comitê olímpico medalha de bronze. 

BIBLIOGRAFIA

NJORORAI, W.W.S. Gender and sport socialization in Kenya. Journal of Eastern African Research & Development, v. 26, p. 24–31, 1996.

MWISUKAHA, Andanje;  Rintaugu, Elijah G.. Insights into the under-representation of women in sports-leadership in Kenya. International Journal of Applied Sociology v. 3, n. 5, p. 102-108, 2013:  http://www.ku.ac.ke/schools/human_sciences/images/stories/2016/10.5923.j.ijas.20130305.02.pdf


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Legenda: Pascaline Bongo | Embaixada do Gabão em Marrocos

Fonte: Ambassade du Gabon au Maroc. Disponível em: https://www.ambagabon.ma/media-gallery/detail/475/774. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Pascaline Bongo (1956)

Política e Ministra das Relações Exteriores do Gabão. É uma das filhas do presidente Omar Bongo Ondimba, que governou o país de 1967 a 2009, e Louise Mouyabi Moukala. Nasceu em Franceville, capital da província de Haut -Ogooué.  Por sua condição privilegiada, frequentou o ensino primário e secundário no país e mudou-se com a irmã mais nova para Los Angeles, Estados Unidos, onde passou a frequentar a Universidade da Califórnia (1979). Pouco antes de sair do país, manteve um breve romance com o cantor Bob Marley.

Depois de formada, foi nomeada pelo pai como Ministra das Relações Exteriores (1991-1994), não mediu esforços para organizar a visita de Michael Jackson ao Gabão em 1992, e teve papel fundamental no resultado das eleições presidenciais de 1993, que garantiram, segundo muitos, por meios fraudulentos, a continuidade de Omar Bongo, em disputa contra o adversário Paul Mba Abessolé.

Pascaline participou do conselho do Banque Gabonaise et Française Internationale – BGFI (Banco Internacional Gabonês e Francês), uma das mais importantes instituições financeiras nacionais na passagem do século XX para o XXI e também integrava o conselho executivo do Total Gabon, o ramo gabonês da corporação multinacional Elf/Total. Suas atividades na França chamaram por vezes a atenção das cortes e deram origem a investigações. Tendo sido condenada em um processo movido por corrupção envolvendo a Elf/Total, foi multada em 2 milhões de euros pela corte francesa em 2007.

Em julho de 2008 Pascaline foi indicada como Diretora da Gabon Mining Logistics (GML), principal responsável pela parceria entre o governo gabonês e as empresas chinesas que pretendiam construir um complexo gigante de exploração de minério de ferro em Belinga, uma região remota no nordeste da Província de Ogooué-Ivindo. Também trabalhou ativamente para gerenciar o lobby nos Estados Unidos em favor do Gabão.

Mesmo com influência limitada nos rumos do governo gabonês, sua presença e participação no regime da dinastia dos Bongos vem se consolidando desde a década de 1980. Após a morte do pai, em 2009, ela continuou a ser a principal conselheira do irmão, Ali Ben Bongo, que venceu a eleição presidencial naquele mesmo ano.

BIBLIOGRAFIA

NJOYA, Jean. Parenté et politique em imbrication: la construction politico-juridique de la succession héréditaire. Polis, v. 16, n. 102, 2009: http://polis.sciencespobordeaux.fr/vol16n1-2/njoya.pdf

RICH, Jeremy. “Pascaline Bongo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 487-488.

YATES, David. Neo-“Petro-monialism” and the rentier state in Gabon. In: BASEDAU, Matthias; MEHLER, Andreas (Eds.). Resource politics in Sub-saharan Africa. Hamburg:  Hamburg African Studies, 2005,  p. 173-190.


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Legenda: Mulher escravizada | Carlos Julião (1740 – 1811)

Fonte: Biblioteca Digital Luso-Brasileira. Disponível em: http://bdlb.bn.gov.br/acervo/handle/20.500.12156.3/36150. Acesso em: 19 de jan. de 2021.
Palavras-chave:

Páscoa Vieira (século XVII)

Nasceu em Massangano, no interior do atual território de Angola,  em 1658, filha de escravos, sendo ela própria escrava de uma senhora chamada Domingas de Carvalho, que a batizou e realizou o seu casamento com outro cativo da mesma propriedade, de nome Aleixo.

 Em 1695, devido ao descontentamento da proprietária com o seu comportamento, foi vendida e embarcada para Salvador, no atual Nordeste do Brasil, onde foi comprada pelo tabelião Francisco Álvares Távora. Anos mais tarde, contra a vontade deste, estabeleceu relações conjugais com o cativo Pedro Ardas, motivo pelo qual no ano de 1700 foi denunciada pelo senhor à Inquisição de Lisboa, tendo sido inquirida, julgada e condenada pelo crime de bigamia. Passou três anos em degredo na cidade de Castro Marin, no sul de Portugal, tendo fim ignorado.

BIBLIOGRAFIA

CALAINHO, Daniela Buono. Magias de cozinha: escravas e feitiços em Portugal –  séculos XVII e XVIII. Cadernos Pagu, v. 39, p. 159-176, 2016.

VIEIRA,  Rita de Cássia Santos. Páscoa Vieira: uma escrava angolana – do casamento arranjado   ao Tráfico atlântico. In: V Encontro Internacional de  Jovens Investigadores em História Moderna, Associação Nacional de História, BA, Feira de Santana, 2016: Disponível em http://www.encontro2016.bahia.anpuh.org/resources/anais/49/1476837794_ARQUIVO_PascoaVieiraumaescravaacusadadeBigamianaBahiaseiscentista.pdf Acesso eletrônico em 28/02/2020.  


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Legenda: Patience Dabany

Fonte: Arts el Cultures: Patience Dabany : Elle est venue, elle a conquis. 30 de mai. de 2011. Disponível em: http:// stephaniedongmo.blogspot.com/2011/05/concert-elle-est-venue-elle-conquis.html. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Teatro

Patience Dabany (1937)

Primeira dama do Gabão, e cantora.   Nome adotado por Marie Josephine Kama Bongo em 1986, após o divórcio do Presidente Omar Bongo Ondimba.

Marie-Josephine Kama, conhecida informalmente como Marie-Jo, nasceu em Akiene, na região do Alto-Ogooue, que até 1946 fazia parte do Congo. Seu pai era oficial do exército colonial francês, fazia parte da Sociedade Secreta de Obamba. Ele e a mãe dela pertenciam ao clã Assele do povo de Obamba, a quem o povo Teke do seu distrito, incluindo a família de Omar Bongo, era tributário.

A menina recebeu todo a sua formação escolar em língua francesa. Formou-se em um programa do governo que preparava professores no nível primário. Depois disso, casou-se com Dieudonne Pascal Ndouna-Okogo (1937-1977), que também era de origem Obamba, tinha formação francesa e viria a se notabilizar  como poeta com o nome de Ndouna-Depenaud. Embora o breve casamento tenha terminado em divórcio, contribuiu para o desenvolvimento das habilidades e realizações literárias de Marie-Jo.  Tempos depois, em 1977 Ndouna-Okogo foi assassinado por marroquinos não identificados da guarda presidencial, mas os criminosos nunca  foram levados à justiça.

Em 31 de outubro de 1959, Marie-Jo casou-se com Omar Bongo em Brazzaville, onde ele prestava serviço militar como segundo-tenente da aeronáutica francesa.  Tornou-se assim a  madrasta de Pascaline Bongo (1956), que viria a ser ministra e diretora do gabinete presidencial, e de Ali Bongo (1959), futuro ministro da defesa que  viria a se tornar presidente do Gabão após a morte de Omar em 2009.

Devido a sua esterilidade, em um país em que a sociedade tradicional  valoriza a maternidade e abomina a infertilidade, Madame Bongo passou por grande sofrimento pessoal, ainda mais quando, ao longo do tempo, o parceiro continuou a gerar filhos durante os vinte e sete anos de casamento. Esta situação levou a que ela se preocupasse em melhorar os cuidados que cercam a maternidade no Gabão.

Ao mesmo tempo, Patience perseguia seus próprios interesses literários e artísticos. Duas de suas peças sobre temas sociais, Obali (1978) e Ayouma (1977), foram filmadas pela Les films gabonais, uma empresa de propriedade do marido. Mas não foram as  atividades culturais do casal Bongo que atraíram a atenção da imprensa parisiense, e sim o uso indevido de cargos públicos para enriquecimento pessoal em grande escala e a supressão de críticos, rivais e opositores por meios violentos.

Na década de 1980, jornais, semanários e revistas francesas denunciaram diversos casos em que o casal presidencial ou familiares próximos do casal acumularam propriedades imobiliárias ou empresas por meios ilícitos, e escândalos e assassinatos, como o dos amantes de Marie-Jo, Robert Luong e Charles Onanga. Após a morte deste último, que dirigia um nightclub frequentado por ela, Patience abandonou o país a pretexto de acompanhar duas filhas em seus estudos nos Estados Unidos, e depois pediu o divórcio. 

Pertencente a uma família que valorizava a música, Patience cultivava a prática da interpretação musical e tinha participações eventuais na banda presidencial chamada Kounabele. Depois da separação ela deu início a uma carreira profissional como cantora, alcançando grande sucesso na área francófona do continente e na França durante a década de 1990. Entre os seus álbuns gravados estão: Chen ton disque est rage, Associé, P. D., Nouvelle atitude, Article 106 e Oboniyya, que ela fez durante uma turnê junto com James Brown.

BIBLIOGRAFIA

GABON. Les 50 hommes et femmes qui comptent. Jeune Afrique, p. 50-84, 2003.

GARDINER, David E.. “Patience Dabany”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 146-148.

YATES, Douglas. The dynastic republic of Gabon.  Cahiers d’études africaines, v. 243, n. 2, p. 483-513, 2019.


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Legenda: Paula Fortes

Fonte: Geni.com. Disponível em: https://www.geni.com/photo/view? photo_id=6000000002053458111. Acesso em: 23 de dez. de 2020.

Paula Fortes (1945–2011)

Nascida em Mindelo, na Ilha de São Vicente, Arquipélago de Cabo-Verde, destacou-se na luta armada contra o colonialismo português.

            No início da década de 1970 era aluna no Liceu Gil Eanes, e dos debates políticos sobre abusos coloniais decidiu entrar para a clandestinidade e assumir a luta armada. Estudou enfermagem no Hospital Santa Maria, em Lisboa, quando entrou formalmente no campo da saúde, e redirecionou os seus conhecimentos para a Escola Piloto de Conakry, onde também atuou nos cuidados com crianças. Serviu no hospital militar e civil de Boké (Guiné-Conacri) e trabalhou como formadora de enfermeiras militares. Nesta época, foi representante do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde – PAIGC,  na 10ª Juventude de Berlim (Leste), Festival focado na Paz Mundial e Libertação Nacional.

Após a independência, em 1975, ela e outras “mulheres armadas” criaram a Organização de Mulheres de Cabo Verde – OMCV para continuar a luta pelos direitos das mulheres e melhorar sua condição social, política e econômica em Cabo Verde. Foi eleita delegada na Assembléia Nacional Popular – ANP da Ilha do Sal. Ficou conhecida por seu trabalho que vincula questões de juventude, sociais e de saúde, como planejamento familiar e divórcio relacionados ao desenvolvimento e reconstrução nacional. Em 2013, dois anos após sua morte, ocorrida em Portugal, foram publicadas suas memórias pessoais em volume autobiográfico, com o título Minha Passagem (2013). 

  
BIBLIOGRAFIA

FORTES, Paula. Minha passagem. Praia: Fundação Amílcar Cabral, 2013.


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Legenda: Paulina Chiziane | Foto: Otavio de Souza

Fonte: Exclusiva!BR. 08 de nov. de 2008. Flickr: Exclusiva!BR. Disponível em: https://flic.kr/p/ 5Aiua3. Acesso em: 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Direitos das mulheres

Paulina Chiziane (1955)

Nascida na cidade de Manjacaze, na Província de Gaza, cresceu nos subúrbios de Maputo, em Moçambique. Fez parte de uma família protestante, mas nunca foi batizada. Seu pai, um alfaiate e anticolonialista, exigia que, em casa, se falasse apenas chope, seu idioma de origem. Sua mãe foi uma camponesa. Estudou numa escola primária católica e, depois, em escolas secundárias, onde teve mais contato com valores ocidentais e desenvolveu seu conhecimento da língua portuguesa. Obteve um diploma da Escola Comercial em Maputo. Casou-se aos 19 anos, separando-se poucos anos depois, e teve dois filhos.

Realizou estudos de linguística na Universidade Eduardo Mondlane. Na juventude, participou ativamente da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique). Trabalhou com a Cruz Vermelha Internacional durante a guerra civil. Após o fim do conflito, trabalhou no Núcleo das Associações Femininas da Zambézia (NAFEZA). Atualmente presta consultoria ao desenvolvimento de projetos de ajuda internacional com foco em conflitos e defesa dos direitos das mulheres.  

Afastou-se da política para se dedicar a vida literária, o que fez, segundo ela, devido a desilusão com os rumos assumidos pelo partido que ascendeu ao poder após a independência do país, em virtude das contradições sociais e  da profunda opressão imposta às mulheres, que leva ao bloqueio de suas possibilidades de independência pessoal, coletiva e econômica. 

Chiziane define-se “contadora de histórias”, e não romancista ou escritora. Ela estreou na literatura em 1984, quando publicou crônicas nas revistas Domingo e Tempo. Escreveu a seguir diversos romances consagrados, como Balada de amor ao vento (1990), Ventos do apocalipse (1993), O sétimo juramento (2000) e O alegre canto do perdiz (2008).

Niketeche: uma história de poligamia (2002) garantiu-lhe o Prêmio José Craveirinha, entregue pela Associação Moçambicana de Escritores ao melhor romance do ano. Neste romance, abordou a questão da “poligamia oculta”, presente numa sociedade na qual as mulheres são dependentes dos homens.  A trilogia de contos As andorinhas (2008) centra-se no imperador Ngungunhane, no líder da independência Eduardo Mondlane e na atleta olímpica Lurdes Matola.

Sua literatura denuncia a marginalização das mulheres moçambicanas e contempla dignamente as diferentes esferas culturais moçambicanas, sendo um instrumento de (re)conciliação entre elas.

BIBLIOGRAFIA

APA, Livia. “Paulina Chiziane”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2,  p. 88-89.

CHABAL, Patrick. Paulina Chiziane. In: IDEM. Vozes Moçambicanas – Literatura e Nacionalidade. Lisboa, Portugal: Vega, 1994, , p. 292-301.

DIAS MARTINS, Ana Margarida. Niketeche, a Story of Sucess. Ellipsis, v. 7, p. 109-137, 2009.

DIOGO, Rosália Estelita Gregório. Paulina Chiziane: as diversas possibilidades de falar sobre o feminino. Scripta, v. 14, n. 27, p. 173-182, 2010.

TEDESCO, Maria do Carmo Ferraz.  Narrativas da moçambicanidade: os romances de Paulina Chiziane e Mia Couto e a reconfiguração da identidade nacional. Tese de doutorado (História),  Universidade de Brasília, 2008.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave:

Paulina Mateus N’Kunda (1952–2013)

Nasceu em Nachingwea, no Sul da Tanzânia, uma das bases de atuação da FRELIMO. O pai participou ativamente da luta de libertação nacional, o que a levou desde muito cedo, com treze anos, a ingressar na guerra.

Em 1965 ela atuava em uma milícia no distrito de Muidumbe. Participou do primeiro grupo de vinte e cinco mulheres que ingressou no Destacamento Feminino e obteve treinamento no Centro de Preparação Político-Militar em Nachingwea, sendo secretária e chefe de uma de suas sessões.

Apesar de o Destacamento Feminino ter atuado de forma bastante específica, o seu objetivo principal era dividir tarefas entre a população e organizá-la para que houvesse sucesso na luta. Paulina ofereceu contribuição substancial nas áreas libertadas. Participou do 2º Congresso da FRELIMO (1968) e em 1971 esteve no comando setorial do Destacamento Feminino em Manica, em Cabo Delgado e foi delegada deste destacamento na Primeira Conferência Constitutiva da Organização da Mulher Moçambicana (1973).

Após a independência, Paulina N’Kunda permaneceu ativa na vida pública, como deputada da Assembleia Municipal da Beira (1981-1988). Em 1996, foi eleita Secretária Geral da Organização da Mulher Moçambicana – OMM. 

BIBLIOGRAFIA

CAGLIARI, Maiara Cemin. Gênero e revolução: mobilização de mulheres na Frente de Libertação Nacional de Moçambique (1962-1975). Dissertação (Trabalho de Conclusão de Curso – História), Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2017.

ISAACMAN, Allen & ISAACMAN, Barbara. The role of women in Liberation of Mozambique. Journal of African Studies, nº13, 1994, p.128-185.

MUSSANHANE, Ana Bouene. Protagonistas da luta de libertação nacional. Maputo: Marimbique, 2012.


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Legenda: Pauline Berthé

Fonte: Maliweb.net. Femmes célèbres du Mali : Sage- femme, politiciennes et reines mères. 03 de jun. de 2017. Disponível em: https://www.maliweb.net/societe/femmes-celebres-mali-sage-femme-politiciennes-reines-meres-2295242.html. Acesso em: 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Enfermeiras Parteiras

Pauline Berthé (1912–?)

Nascida em Sikasso, na área cultural Bambara, no Mali, de uma família muçulmana distinta na região. O pai, Keletigui Berthé, tinha sido chefe de guerra durante o período da ocupação francesa e se tornou chefe de administração local no período colonial; a mãe pertencia ao grupo étnico Senufo.

Na juventude, passou por treinamento em obstetrícia, tornando-se parteira, atividade que a distinguiu em toda a África ocidental. No período de 1920-1928 estudou em uma escola primária para crianças mestiças em Bamako e depois entrou para a Escola de Medicina e de Farmácia em Dakar (1931), onde estava a sede do governo francês.  

Ela atuou no período de 1931-1932, durante o período colonial, na Maternidade de Dakar, no Senegal, em 1939 casou-se com o médico Sidi Yaya Diallo, com quem teve seis filhos.  De retorno ao Mali, concluiu um estágio de um ano em Bamako, e a seguir trabalhou em hospitais em Nyoro, Djenné, em condições por vezes muito adversas. Diz-se que, em certas ocasiões ela se deslocava às aldeias em lombo de burro ou de boi.

Aposentada em 1969, continuou a atuar na direção de uma maternidade em Boundial, na Costa do Marfim por mais uma década.  Por sua notoriedade como mulher sábia, enfermeira e parteira, foi condecorada em 1992 com a Ordem Nacional do Mali, distinção reservada a apenas três mulheres até aquela época.

BIBLIOGRAFIA

KONARÉ, Adama Ba. Dictionnaire des femmes célèbres du Mali. Bamako: Editionss Jamana, 1993.

Pauline Berthé : la brillante sage-femme et petite fille de Kélétigui Berthé. In: Maliweb.net: virtuellement au Mali: https://www.maliweb.net/societe/femmes-celebres-mali-sage-femme-politiciennes-reines-meres-2295242.html


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Legenda: Penda Mbow | Foto: Serigne Diagne

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://es.wikipedia.org/wiki/Archivo:Penda_mbow.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Penda Mbow (1955)

Historiadora senegalesa, nasceu em Dakar, na capital. Crescia enquanto cuidava de seus irmãos no bairro periférico de Medina. Estudou o ensino fundamental e médio, e depois frequentou o curso de história, graduando-se e desenvolvendo estudos de mestrado da Universidade Cheikh Anta Diop – UCAD.  A seguir, na França, realizou o doutorado na Universidade de Aix-Marseille com a tese L’Aristocratie militaire mamelouke d’après le cadastre d’Ibn al-Jian. Élements de comparaison avec la France (XIV-XV siècles) (A aristocracia militar mameluca segundo o cadastro de Ibn al-Jian. Elementos de comparação com a França) (Séculos XIV-XV) (1986).

Com a titulação, foi admitida no Departamento de História para atuar na disciplina de História Medieval, primeiro como assistente de classe, depois como professora associada. Penda manteve seu interesse pela história do Islã e do mundo islâmico, oferecendo disciplinas com esses tópicos na universidade e conduzindo diversas pesquisas sobre o papel das mulheres nas sociedades muçulmanas, o que se tornou um vasto campo de estudo em virtude do aumento do conservadorismo religioso no Senegal durante os anos 1980.

Como feminista, estudiosa e ativista, ela desenvolve seu ensino e interesse na pesquisa pela língua árabe, ao estudo do Alcorão e da lei corânica (xaria), e aos direitos das mulheres nas sociedades islâmicas, propondo uma reinterpretação do Alcorão em algumas questões. Também escreveu extensivamente sobre direitos humanos, cidadania, democracia e relações de gênero. Entre suas obras estão: Le vécu des castes au Sénégal (O vivido das castas no Senegal) (1992), Démocratie, droits humains et castes (Democracia, direitos humanos e castas) (2004) e Men and women between public and private spheres (Homens e mulheres entre a esfera pública e a esfera privada) (2005).

Quando o Parti Démocratique Sénégalais (Partido Democrático Senegalês) assumiu o poder em 2001, apontaram Penda Mbow como Ministra da Cultura, cargo que ela ocupou  durante dois meses. Em 2002 ela fundou o Movement Citoyen (Movimento Cidadão) em seu distrito, um movimento focado na restauração de valores democráticos.

Penda Mbow integrou e integra várias organizações senegalesas e internacionais, entre as quais Conselho para o Desenvolvimento da Pesquisa em Ciências Sociais em África – CODESRIA, recebeu vários prêmios de universidades dos Estados Unidos, Itália, França e Senegal. Ela é uma figura importante, uma referência de ativista política e historiadora para seus contemporâneos.

BIBLIOGRAFIA

HERVIEU-WANE, Fabrice. Penda Mbow: femme d’utilité publique. In: IDEM. Dakar: insoumise. Paris: Autrement, 2008, p, 94-99.

KONATÉ, Dior. “Penda Mbow”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 165-166.

MBOW, Penda. Cheikh Anta Diop et la libéralisation de la femme africaine. Afrique Espoir, n. 4, 1990.

MBOW, Penda. Women and academic freedom in Senegal. In: SALL, Ebrima. Academic Freedom. Dakar: CODESRIA, 1999.


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Legenda: Pendukeni Maria Livula-Ithana | UN Photo / Ariana Lindquist

Fonte: United Nations Photo. Disponível em: https://dam.media.un.org/. Acesso em: 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Direitos das mulheres

Pendukeni Maria Livula-Ithana (1952)

Política e ministra de gabinete. Nasceu na Namíbia, na aldeia de Uukwandongo e cresceu em uma área devastada pela guerra, ocupada até a independência do país (1990) pelo exército sul-africano. Foi casada com Joseph Ithana (+2008), um ex-funcionário do alto escalão, com quem teve vários filhos.

Assim como muitos estudantes da época, ela entrou cedo para o movimento de libertação, na seção juvenil do South West Africa People’s Organisation – SWAPO (Organização dos Povos do Sudoeste Africano). Em 1974 foi exilada por ter sido umas das primeiras mulheres-soldados do exército de libertação que desde 1966 travava uma guerra pela independência contra as forças de ocupação sul-africanas das bases de Zâmbia e Angola.  Mais tarde veio a ser Secretária Geral do Conselho das Mulheres da SWAPO,  e também  passou a fazer parte do comitê central até 1991. Durante este período, Iivula-Ithana convenceu mais mulheres a se juntarem ao partido, fazendo com que fossem aceitas em nome da igualdade de gênero. 

Durante as eleições pela independência da Namíbia (1989) ela participou na capital Windhoek como representante da SWAPO na Assembléia Constituinte, e ao ser proclamada a independência (1990) ela se tornou membro do gabinete do governo como Ministra da Vida Selvagem, Preservação e Turismo, ocupando a pasta até 1991. Depois ocupou pastas em outros ministérios,  como os do Esporte e Juventude (até 1996); Ilhas, Reassentamento e Reabilitação (até 2001) e, a partir de 2005, o Ministério da Justiça, após obter seu bacharelado em Direito pela Universidade da Namíbia (1999).

Em 2001, foi a primeira mulher a alcançar o cargo de Procuradora Geral da Namíbia, ficando no cargo até 2008, tudo isso sem abandonar os outros cargos que já possuía no governo. 

Iivula-Ithana foi uma das mais bem sucedidas mulheres da Namíbia, com grande poder e influência política. Durante sua carreira pública, lutou pela representação equitativa de gênero em espaços públicos, de modo a garantir paridade entre homens e mulheres nos cargos públicos.

BIBLIOGRAFIA

BECKER, Heike. Namibian women’s movement, 1980-1992: from anti-cokonial resistance to reconstruction. Rankfurt:  IKO- Verlag fur Interkulturelle Kommunikation, 1995.

DUBELL, Lauren.  Swapo’s  struggle for Namibia, 1960-1991: war by other means. Basel:  P. Schlettwein Publishing, 1998.


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Legenda: Penina Muhando | UONGOZI Institute

Fonte: UONGOZI Institute. Disponível em: http://uongozi.or.tz/about-us/organisational-structure/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Penina Muhando (1948)

Dramaturga e estudiosa, também conhecida como Penina Mlama – seu sobrenome conjugal.  Nasceu colônia britânica de Tanganica, atual Tanzânia, na pequena sociedade Kaguru. Estudou na Universidade de Dar es-Salaam e obteve bacharelado em Arte Teatral, Mestrado em Educação e Doutorado em Linguagem e Linguística.

Penina se juntou ao Departamento de Teatro, Arte e Música da mesma Universidade como palestrante e mais tarde como professora de Arte Teatral. Em 1982 se tornou chefe do departamento tendo sido reitora da Universidade de Artes e Ciências Sociais, assim como vice-chanceler adjunta da Universidade de Dar es Salaam.

Em 2003, ganhou licença e se mudou para o Quênia para se tornar diretora executiva do African Women Educationalists – FAWE (Fórum de Mulheres Africanas Educadoras). Tornou-se membro de instituições acadêmicas, conselhos nacionais e internacionais. Também ganhou diversos prêmios, como Shaaban Roberts Writers Award (1999), pela sua escrita criativa divulgando a linguagem Kiswahili, e o National Cultural ZeZe Award (2000), por seu trabalho de promoção do teatro africano para a educação de crianças e jovens.

Nos seus trabalhos, ela explorou questões sociais mais amplas e se voltou para formas teatrais africanas tradicionais, e optou por escrever em língua kiswahili para ser lida pelos(as) tanzanianos(as). As perspectivas do socialismo africano e da idéia da Ujamaa (comunidade ) aparecem em sua obra Haitia (1972). Harakati za ukombozi (Luta pela libertação) (1982), escrita em co-autoria com Naduanao Balisidya e Amandina Lihamba, apresenta a história de Tanzânia, com muitas cenas de improviso, cantos e danças. Este entusiasmo desaparece nas obras seguintes, onde a postura torna-se crítica em relação aos limites da democracia e da igualdade social, algo que aparece em Nguzo Mama (Mãe, o principal pilar) (1982), Lina Ubani (Existe um limite para a podridão) (1984). Já em Mitumba Ndui (A varíola) (1989), ela denuncia o interesse econômico desmedido e a corrupção política colocada acima dos interesses da comunidade. 

Junto com outros(as) dramaturgos(as) africanos(as), ela é da opinião que o teatro pode vir a ser meio pelo qual pessoas marginalizadas e desprezadas possam se envolver em projetos coletivos e expressas suas visões de mundo. Sua obra explora diversos temas e situações da sociedade tanzaniana contemporânea, frequentemente relacionados às mulheres. Todavia ela não se considera feminista, e é da opinião que “o problema das mulheres não pode ser separado dos demais”.

BIBLIOGRAFIA

BALISIDYA, Nadyanao M. The construction of sex and gender roles in Penina Muhando’s works.  Sage: a scholarly journal on black women, v. 5, n. 1,  15-20, 1988.

MBUGHUNI, L.A. Old and new drama from East Africa. A review of the works of four comtemporary dramatists: Rebecca Njau, Ebrahim Hussein, Peninah Muhando and Ngugi. African Literature Today , v. 8, p. 85-98, 1976.

MULE, Katwiwa. Oral performance and the creative imagination in Penina (Mlama) Muhando’s Nguzo Mama.  Folklore Forum , v. 28, n. 1,  p. 83-102, 1997.

ZÚBKOVÁ, Elena. “Penina Muhando”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 312-313.


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Legenda: Perpétua e Felicidade (séc. VI) | Foto: Nick Thompson

Fonte: Nick Thompson. 23 de abr. de 2010. Flickr: Nick Thompson. Disponível em: https://flic.kr/p/9NG1XH. Acesso em: 21 de jan. de 2021.
Palavras-chave: Santas

Perpétua e Felicidade (século III d.C.)

Duas mártires do cristianismo. Viveram em Cartago, região onde atualmente é a Tunísia, durante o período do Império Romano. Foram executadas em uma arena na celebração de aniversário de Geta, filho do Imperador Sétimo Severo. Elas não foram as primeiras cristãs a serem executadas, porém ficaram conhecidas pois durante a sua prisão Perpétua escreveu um diário relatando seus sonhos e experiências pessoais, texto que ficou conhecido como Passio sanctarum Perpetuae et Felicitatis (paixão das Santas Perpétua e Felicidade).

Perpetua nasceu por volta de 182 d.C. e pertencia a uma família rica, os Vibii. O pai era provavelmente um oficial do governo e tinha três irmãos.  Felicidade era escrava de Perpétua e assim como sua senhora era catecúmena, isto é, adotou o cristianismo e preparava-se para ser batizada.

Em 202, com a criminalização do judaísmo e do cristianismo, os seguidores dessas crenças ficaram sujeitos à prisão e pena de morte, o que levou a que alguns anos mais tarde ambas tenham sido presas – inclusive estando Felicidade grávida. Após um breve julgamento, as duas e demais pessoas aprisionadas foram sentenciadas à morte, e toda a circunstância do processo, prisão e julgamento aparecem em seu diário, cuja leitura se tornou muito popular na comunidade cristã. O seu martírio foi amplamente divulgado em textos hagiográficos, que detalham a forma cruel com que foram executadas publicamente.

O fato de que no diário Perpétua tenha descrito sonhos e visões celestiais e paradisíacas aumentou a popularidade de seu escrito, mas gerou desconfiança nas autoridades cristãs, como Santo Agostinho, que teceu uma série de comentários e interpretações sobre como considerar a experiência mística vivida e narrada pela mártir. 

Sua popularidade e influência representam a voz de uma mulher africana educada do terceiro século.

BIBLIOGRAFIA

RAVEN, Susan. Rome in Africa. London; New York: Routledge, 1993.

SALISBURY, Joyce E.. Perpetua’s passion: death and memory of a young roman woman. New York: Routledge, 1997.

SALISBURY, Joyce. Perpetua and Felicity”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 93-94.

VON FRANZ, Marie-Louise; SHAR, Daryl. The passion of Perpetua: a psychological interpretation of her visions. Toronto: Inner City Books, 2004.

WALSH, Joseph (trad). What would you die for? Perpetua’s passion. Baltimore: Apprentice House, 2006.


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Legenda: Ilustração de medalha de Pheretime (1815)

Fonte: Internet Archive. Disponível em: https://archive.org/details/CostumeancienetAfriFerr/page/256/mode/2up?q=Pheretime. Acesso em: 18 de jan. de 2021.
Palavras-chave:

Pheretime (c. 570-510 a.C.)

Rainha da cidade de Cyrene, fundada por gregos no norte da África, na atual Líbia, foi uma liderança influente. Sua origem é desconhecida e sua aparição nos registros data dos anos de 520. Acredita-se que tenha sido herdeira da dinastia Battiad, que governou Cyrene por algumas gerações. Ela se casou com Battos III, que governou a partir de 570 a.C., com quem teve um filho e uma filha.

Quando o filho, Arkesilau, foi expulso da cidade e procurou refúgio em Samos, onde procurou apoio militar para atacar Cyrene e recuperar o governo, Pheretime tentou o mesmo na cidade de Chipre. Porém, o rei Euelthon rejeitou sua proposta e ao invés de armas e exército deu a ela um tear, pois considerava este artefato mais apropriado a uma mulher. Arkesilau encontrou o apoio necessário junto aos Persas e conseguiu retornar a Cyrene, mas logo depois foi de novo derrubado. Coube então a Pheretime reivindicar os seus direitos, já que fazia parte do conselho da comunidade. Após diversas peripécias ela conseguiu que a sucessão no trono fosse garantida ao seu neto, Batos IV, mas ela teve que deixar a cidade e encontrou exílio no Egito.

As circunstâncias de seu falecimento não são muito precisas, mas acredita-se que tenha sido por envenenamento. Seu bisneto, o último parente de que se tem notícia, Arkesilau IV, ocupava o trono em 440 a.C.

Os dados de sua biografia foram registrados por Heródoto, e apresenta um exemplo de mulher poderosa em um contexto adverso ao espaço feminino.

BIBLIOGRAFIA

BURN, A. R. The lyric age of Greece. N.p., 1960.

CHAMOUX, F.. Cyrene sous la monarchie des Battiades. Paris: E. de Boccard, 1953.

ROLLER, Duane W.. “Pheretime”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 101-102.


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Legenda: Phillis Wheatley | Scipio Moorhead (1773)

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Phillis_Wheatley_frontispiece.jpg. Acesso em: 15 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Poetisas

Phillis Wheatley (1753–1784)

Poetisa e escritora de prosa epistolar, nasceu provavelmente às margens do Rio Gambia, na África ocidental. Ao que parece pertencia a uma família do grupo étnico fula, praticante do islamismo. Aprisionada e escravizada aos sete ou oito anos de idade, foi levada para os Estados Unidos. Lá passou a ser chamada de Phillis, o nome do navio negreiro que a transportara, foi comprada pelafamília Wheatley, vivendo em Boston.

Aprendeu a ler e escrever em cativeiro, e aos treze ou quatorze anos começou a escrever os seus primeiros poemas, cuja temática em geral era espiritual, religiosa. Em 1772, diante da incredulidade de que uma cativa pudesse ser autora de poemas com linguagem sofisticada, foi submetida a uma avaliação pública em Boston e recebeu um certificado público assinado pelo governador Thomas Hutchinson e outros cidadãos de bem de que era “qualificada para escrever”.  

Ganhou fama, em 1773, aos vinte anos de idade, quando sua primeira obra foi publicada com o título Poems on various subjects and moral (Poemas sobre vários assuntos e temas morais), despertando o interesse de personalidades como George Washington e Voltaire. 

Emancipada após a morte de seu proprietário, casou-se em 1778 com um negro livre, John Peters. A partir daí, teve grande dificuldade em dar sequência à carreira de escritora: trabalhando como  doméstica para sobreviver, perdeu dois filhos ainda bebês. Wheatley faleceu em 1784, aos 31 anos de idade, em situação de extrema pobreza. É vista pelos(as) afro-americanos(as) como uma inspiração e um símbolo de liberdade.

BIBLIOGRAFIA

GATES JR., Henry Louis. The trials of Phillis Wheatley. New York: basic Civitas Books, 2003.

SHIELDS, John. “Phillis Wheatley”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 168-170.

SHIELDS, John C.. The collected Works of Phillis Wheatley. New York: Oxford University Press, 1988.

SHIELDS, John C.. Phillis Wheatley and the romantics. Knoxville: University of Tennessee Press, 2010.


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Legenda: Pregs Govender

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://es.wikipedia.org/wiki/ Archivo:Pregs_Govender_.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Pregs Govender (1960)

Feminista da África do Sul de origem indiana, ativista, educadora e política. Nasceu em Durban, filha de mãe professora e pai dramaturgo. Quando, em 1974, frequentou uma escola em Durban  para meninas indianas, começou a se envolver em atividades subversivas. Foi quando conheceu Jayendra Naidoo, seu primeiro marido e pai dos seus dois filhos mais velhos, Parusha e Yashodan.

Nos anos 1980, Govender lecionou durante algum tempo na Universidade de Durban-Westville, enquanto atuava numa base voluntária de organizações, como a Organização da Mulher de Natal, a qual ela se tornou membro junto com o movimento antiapartheid; e da Frente Democrática Unida.

Em 1990, mudou-se de Durban para Cidade do Cabo e em 1992 se estabeleceu em Johanesburgo com os filhos para dirigir a Coligação Nacional da Mulher – WNC, constituída por mulheres vinculadas ao African National Congress – ANC (Congresso Nacional Africano).  Foi indicada por esta coligação ao parlamento em  1994 e participou de uma ampla mobilização de associações e movimentos de mulheres que teve papel decisivo na elaboração da Carta de Mulher Sul-africana – documento que permitiu inserir as questões e interesses femininos na Constituição da África do Sul de 1996. Neste mesmo período conheceu Paul Benjamin, seu companheiro de vida e pai do seu terceiro filho, Saien.

Pregs Govender participou da elaboração do relatório do país que foi encaminhado para a Conferência Internacional das Mulheres em Pequim (1995), estabeleceu medidas contra a violência doméstica, os casamentos forçados ou arranjados e reivindicou melhorias concernentes à maternidade. Em 1996 se posicionou criticamente em relação à política neoliberal em curso na África do Sul,  defendeu o aborto e  forçou o governo de Thabo Mbecki a quebrar o silêncio oficial sobre os efeitos sociais do HIV-AIDS.

Por seu ativismo e seu espírito insubmisso, foi honrada  em 1999 com o prêmio de Associação Internacional dos Direitos das Mulheres em Inspiração do Desenvolvimento, que distinguia aquelas que contribuíram para a luta de igualdade de gênero. Em 2003 recebeu um doutorado honorário da Universidade de Durban-Westville. Crítica da marginalização das mulheres, Govender foi nomeada vice-presidenta da Comissão de Direitos Humanos da África do Sul em 2009.

BIBLIOGRAFIA

GOVENDER, Pregs. Love and courage: a story of insubordination. Auckland Park: Jacana, 2007.

STRAUSS, Helene. “Pregs Govender”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 497-498.


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Legenda: Promise Mthembu | University of KwaZulu-Natal

Fonte: University of KwaZulu-Natal. Disponível em: https://ndabaonline.ukzn.ac.za/UkzndabaStory/NdabaOnline-Vol2-Issue11/Human%20Rights%20Day%20Address%20on%20HIVAIDS/. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Promise Mthembu (1975)

Ativista sobre gênero, AIDS e direitos humanos, nasceu no distrito de Umlazi, de Durban, na África do Sul. Ela foi a primeira sul-africana a falar publicamente que vivia com AIDS. Durante o ensino médio, participou de um projeto de conscientização sobre AIDS. Ela descobriu que vivia com AIDS durante a gravidez, em seu primeiro ano como aluna universitária.

Aos dezesseis engravidou da sua primeira filha, uma menina chamada Mbali, que nasceu com paralisia cerebral. Sua segunda gravidez resultou em um natimorto. Mthembu tem bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de ZwaZulu-Natal.

Em 1996 se tornou ativista na National Association of People Living With HIV-AIDS– NAPWA  (Associação Nacional de Pessoas Vivendo com HIV-AIDS) e na National AIDS Convention of South Africa –NACOSA  (Convenção Nacional de AIDS da África do Sul) em Durban. O seu interesse na intersecção entre problemas de gênero e AIDS começou nesse período.

O seu marido na época a agrediu por atender às reuniões sobre AIDS e falar abertamente sobre seu diagnóstico, o que a levou a se separar dele. Na sequência, em 1997, Mthembu descobriu que estava grávida de novo. Ela solicitou um aborto, e os médicos apenas consentiram com a condição de que ela concordasse em ser esterilizada, o que acabou acontecendo à sua revelia.

Em 2003 Promise se tornou advogada global por direitos sexuais e reprodutivos na International Comunity of Women Living with HIV-AIDS – ICW (Comunidade Internacional de Mulheres Vivendo com HIV-AIDS), em Londres e logo depois passou a participar da Womandla AIDS Network – WIN,  em que ativistas sul-africanas produziram uma declaração de direitos das mulheres em contexto de epidemia.

Em 2010 ela se tornou líder do Her Rights Initiative (Iniciativa pelos seus Direitos), uma organização de mulheres vivendo com AIDS na África do Sul, que promoveu o acesso a serviços de saúde para prevenção e tratamento de câncer de útero.

BIBLIOGRAFIA

BELL, Emma; Mthembu, Promise.  Sexual and reproductive health services and HIV testing: perspectives and experiences of women and men living with HIV and AIDS.  Reproductive Health Matters, v. 15, p. 113-135, 2007: https://www.tandfonline.com/doi/pdf/10.1016/S0968-8080%2807%2929029-9

MBALLI, Mandisa. “Promise Mthembu”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 278-279.

MTHEMBU, Promise.  A positive view. Agenda, v.14, n. 39,p.  26-29, 1998: https://doi.org/10.1080/10130950.1998.9674428


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Legenda: Promise Ogochukwu Okekwe

Fonte: OKAFOR, Emeka. Promise Okekwe | Author and Publisher. Emergent Africa. 30 de jun. de 2011. Disponível em: http://africaunchained.blogspot.com/2011/06/promise-okekwe-author-and-publisher.html. Acesso em: 15 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Área yoruba Romancistas

Promise Ogochukwu Okekwe (1970)

Nascida com o nome de Promise Ogochukwu Onwudiwe, em Enugu, Nigéria. O pai, P. D. I.  Onwudiwe, trabalhou no Ministério da Educação e a mãe, Janet, era professora. Em 1989 formou-se em Inglês e Estudos Literários na Universidade de Calabar (1989), e depois concluiu o mestrado em Comunicação e Artes Linguísticas (1992) e o doutorado (1997) na Universidade de Ibadan.

Entre os anos de 1989 e 1991, Promise trabalhou na Comissão de Iluminação Pública da Federal Road Safety Comission, onde desenvolvera trabalhos educativos sobre segurança no trânsito, prevenção à acidentes, além de ser responsável pelas relações públicas do órgão. Depois deu início à sua carreira acadêmica, lecionando entre os anos de 1995 e 1998 no Yaba College of Technology (Colégio de Tecnologia de Yaba) e em seguida no  The Polytechnic Ibadan (Politécnico de Ibadan), onde ensinou comunicação, redação, literatura africana , Inglês  e relações públicas.

Envolvendo-se em atividades muito variadas, no final da década de 1990 ela atuou durante algum tempo em corporações bancárias, nas áreas de informação, inovação, marketing e comunicação.  Paralelamente, aproximou-se de autoras consagradas como Flora Nwapa e Buchi Emecheta, e fundou a Oracle Books Ltd, voltada para a promoção de jovens escritoras talentosas, e em 2005 criou a Organização Não Governamental The Lumina Foundation, voltada para a promoção, com suporte técnico e pedagógico, da excelência intelectual, da criatividade  e do desenvolvimento.

 Como escritora Promise tem publicações nos mais diversos gêneros literários, com quatorze romances, seis coleções de poesia, duas coleções de contos, quatro peças teatrais, duas obras motivacionais, além de ensaios e literatura infanto-juvenil.  Por vezes ela assina sob o pseudônimo Ada Iloekunanwa. Algumas obras são: In the middle of the night (No meio da noite) (2005), Soul-Journey into the Night (Viagem da alma à noite) (1992), Marry me to the rain god  (Case-me com o deus da chuva) (1993), Rubble (2000), The Street Beggars (Os mendingos da rua) (2001). Com destaque em várias áreas da criação e do conhecimento, na esfera acadêmica, administrativa, educativa, como editora, romancista e dramaturga, Okekwe exerce notável influência na literatura contemporânea nigeriana.

BIBLIOGRAFIA

EMENYONU, Ernest. “Promise Ogochukwu Okekwe”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 14-15.

IWUCHUKWU , Onyeka. Nigeria —The Challenge of (and for) the Female Playwright. Critical Stages / Scenes Critiques, n. 15, 2017: http://www.critical-stages.org/15/nigeria-the-challenge-of-and-for-the-female-playwright/

OKOYE, Chikwuma. Posting the agenda in african women’s writing: the postcolonial condition in Promise Okekwe’s novels. In: AZODO, Ada Uzoamaka; EKE, Ngozi (Eds.). Gender and sexuality in african literature and film. Trenton:  Africa World Press, 2007, p. 55-71.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:

Pumla Kisosonkole (1911–1997)

Mulher pública e ativista de organizações de mulheres na Uganda durante o período colonial.  Nasceu na África do Sul, onde começou sua formação em escolas missionárias. Depois continuou sua formação em Londres, onde estudou Pedagogia e publicou um panfleto intitulado Education as i saw it in England (A educação como eu a vejo na Inglaterra).

Em 1939 Pumla conheceu e casou com Christopher Kisosonkole, que era de Uganda, país em que ela passou a morar, e onde deu início à vida política. Em 1956 ela foi a primeira mulher africana nomeada para ser representante do Conselho legislativo de Uganda junto ao governo britânico (1956-1958), e teve participação legislativa durante o processo de independência.

Ela se tornou a primeira africana a ser presidenta do conselho de mulheres da Uganda (UCW) (1957), cargo que deteve durante quatro anos. Kisosonkole também foi eleita presidenta do Conselho Internacional de Mulheres (1959-1962). Foi incansável defensora das mulheres, promovendo a liderança e aumentando sua visibilidade e legitimidade na cena nacional.

Em 1963, Milton Obote, o Primeiro-Ministro de Uganda, a indicou como representante na delegação das Nações Unidas de Uganda.  Kisosonkole também trabalhou como especialista em alfabetização na UNESCO nos anos 1960.

Ela foi uma das poucas mulheres de Uganda colonial que se envolveu em política e que teve poder para tomar decisões em âmbito nacional. Kisosonkole é conhecida por quebrar barreiras de gênero como parlamentar e por defender a liderança das mulheres e o avanço das questões de gênero, tanto em organizações governamentais quanto em Organizações Não Governamentais.

BIBLIOGRAFIA

MILLER, Kim. “Pumla kisosonkole”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 393.

TAMALE, Sylvia. When hens begin to crow: gender and parliamentary politics in Uganda. Abington: Routledge, 2018 (or. 1999).

TRIPP, Aili Mari. Women’s mobilization in Uganda: nonracial ideologies in European-African-Asian encounters, 1945-1962. The International Journal of African Historical Studies, v. 34, n. 3, 2001.

TRIPP, Aili. Women and politics in Uganda. Madison: University of Wisconsin Press, 2000.


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Legenda: Mulher mandinga (1853)

Fonte: Gallica – Biblioteca Nacional da França. [Sítio institucional]. Disponível em: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b23001280. Acesso em: 20 de jan. de 2021.
Palavras-chave:

Qasa (século XIV)

Também chamada de Kassa ou Kasa, foi uma governanta do antigo estado Mandinga conhecido como Império do Mali. Sua existência é atestada por uma informação fornecida pelo viajante marroquino Ibn Battuta, que visitou no Mali em 1352 e ali permaneceu durante cerca de oito meses, até 1353.

Segundo as informações do viajante, Qasa era prima pelo lado paterno de Mansa Sulaiman, o governante do Mali, e ocupava o lugar de primeira-esposa, sendo co-governante do reino. Por razão desconhecida ele mandou prendê-la e colocou em seu lugar uma baramuso, isto é, uma esposa “preferida”, chamada Bandju.  Entretanto, isto teria desagradado o povo e Sulaiman foi forçado a libertar Qasa.

A disputa entre ambos teve continuidade, e Sulaiman foi informado de uma conspiração urdida por Qasa para derrubá-lo do poder. Ela procurou um de seus parentes e lhe propôs uma aliança para atacar o seu marido. Ao tomar ciência do ocorrido, Sulaiman tentou prendê-la novamente, mas ela encontrou refúgio na casa de um pregador muçulmano, um local de asilo onde podia permanecer em segurança.  Nada mais foi informado sobre o seu destino nem sobre os desdobramentos do conflito.

Embora fragmentária e incompleta, o episódio relatado sobre Qasa revela a dimensão de poder das mulheres no antigo Mali, onde ao que parece as primeiras-esposas governavam conjuntamente aos maridos, sendo mais do que cônjuges. Ibn Battuta fornece outras informações importantes. Segundo ele, Qasa era a palavra empregada para designar a governanta máxima, equivalente ao que denominamos “rainha”, e acrescenta:  “segundo o costume dos sudaneses, ela (a primeira-esposa) era associada ao sultão no poder, de modo que os nomes de ambos eram mencionados juntos nas orações de sexta-feira”.

BIBLIOGRAFIA

KONARÉ, Adama Ba. Dictionnaire des femmes célèbres du Mali. Bamako: Editionss Jamana, 1993.

IBN BATTUTA . Tuhfat al-zuzzar fi ghara’ib al amsar wa  adja’ib al-asfar.  In: CUOQ, Joseph M. (trad). Recueil des sources arabes concernant  l’Afrique occidentale du VIII au XVI siècle. Paris : CNRS, 1985.

SACHT, Lucas Engel. “Ela a quem chamavam Qasa, o que em sua língua significa ‘rainha’”: o papel politico da Qasa no “império” do Mali (século XIV), um questionamento à historiografia. 2018.  Monografia (Licenciatura e Bacharelado em História) – Departamento de História – Setor de Ciências Humanas da Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2018.

SHELDON, Katleen. “Qasa”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 148-149.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:

Radha Poonoosamy (1924–2008)

Ativista política e feminista nascida em Durban, na África do Sul, com nome Radha Padayachee. Cresceu em uma família católica de origem indiana. Completou os estudos primários e secundários em Durban e ingressou na Universidade de Natal, onde tornou-se uma ferrenha oponente do regime do Apartheid.

Assumiu a liderança feminina do Student Council of the Indian National Congress (Conselho Estudantil do Congresso Nacional da Índia), organização estudantil que combatia a discriminação contra a comunidade indiana da África do Sul, assim como fez parte do comitê executivo do African National Congress (Congresso Nacional Africano).

Casou-se com Valaydon Poonoosamy e juntos foram morar nas Ilhas Maurício, no Oceano Índico. A barreira linguística, já que as línguas oficiais são francês e criolo e Radha falava inglês, e o fato de ela não ser do país não a impediram de ser uma ativista. Fundou com John Thivy a Indo Mauritian Catholic Association (Associação Católica dos Indo-Maurícios) no início dos anos 1960 e foi secretária da instituição. Ela também passou a integrar os quadros do Labor Party (Partido Trabalhista) e em 1975 era a responsável pela seção feminina.

Nos anos 1970 intensificou sua atuação em várias frentes políticas, assumindo inclusive o cargo de Ministra dos interesses femininos, do Controle de Preços e Proteção do consumidor. Mesmo com a diferença de idioma, o que dificultou a interação dela com a maior parte da população, Radha sempre lutou pelos mais pobres do seu país adotivo.

BIBLIOGRAFIA

DEDANS, Jean-Claude. Militante féministe avant d’etre travailliste. 5-Plus Dimanche, 2002: Disponível em: http://www.splusltd.com/archive/2002/juillet/07_07_2002/annees.htm

RICH, Jeremy. “Radha Poonoosamy”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 118-119.


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Legenda: Ranavalona I I Ramanankirahina (1860 - 1915)

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ranavalona_I.jpg. Acesso em: 15 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Ranavalona I (c. 1785–1861)

Monarca do Reino de Imerina da Ilha de Madagascar, chefe militar do reinado mais longo da história da dinastia Imerina, com 33 anos de duração. Seu nome pessoal era Ramavo mas  foi modificado para Ranalavalona quando ela chegou ao poder.

Foi uma das esposas do fundador do reino de Imerina, Andrianampoinimerina. Sua irmã Rafaramanjaka casou-se com o militar Andriantsalama, comandante em Ambatondrazaka – atualmente capital da região de Alaotra Mangoro. Em 1809 Andrianampoinimerina morreu e o seu filho, Radama, assumiu o trono. De acordo com o costume Ramavo passou a ser sua primeira esposa.  Em julho de 1828, com a morte do monarca, ela urdiu uma conspiração, eliminou os parentes e o sucessor indicado, tomando as rédeas do poder.

No reinado de Ranavalona houve uma expansão burocrática, militar e cultural. O alfabeto latino foi adotado na corte, além de incorporar talentos de outras províncias em sua administração. Ela também incentivava as danças de Sakalava (grupo étnico que habita as zonas oeste e noroeste de Madagascar) e agregou vestuários do Oeste em rituais e eventos sociais. Por sua vez, o número de escravos cresceu bastante em seu reino em conta da expansão e investidas militares. Boa parte dos escravos eram mulheres e crianças que trabalhavam em campos de arroz e cuidavam das crianças locais, introduzindo novos conhecimentos e idiomas para a população de Imerina.

A presença ocidental tornou-se um fator de desestabilização do poder da dinastia Imerina.  A ação de missionários ingleses foi barrada e eles foram expulsos em 1836, mas os cristãos convertidos passaram a ser um grupo gradualmente importante e contestatário do poder.  As tentativas da governanta em se fortalecer mediante relações diplomáticas com a França, onde esperava encontrar armas de fogo, pólvora e sabão, também não tiveram bom resultado, e a longo prazo levou à conquista colonial de Madagascar. 

BIBLIOGRAFIA

AYACHE, Simon. Esquisse pour le portrait d’une reine: Ranavalona I. Omaly sy Anio, v. 1-2, p. 251-270, 1975.

BERG, Gerald M. Writing ideology: Ranavalona, the ancestral bureaucrat. History in Africa, v. 22, p.  73-92, 1995.

LARSON, Pier. “Ranavalona I”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 173-174.

VALETTE, Jean. L’accession au trône de Ranavalona I. Revue de Madagascar, v. 31, p. 51-59, 1965.


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Legenda: Ranavalona II I Ramanankirahina (1860 - 1915)

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ranavalona_II.jpg. Acesso em: 15 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Mediadoras culturais

Ranavalona II (1829–1883)

Primeira monarca Cristã do Reino de Madagascar, filha do Príncipe Razakaratrimo de Imamo (regiao central da ilha), e da Princesa Rafarasoa, irma da Rainha Ranavalona I. Tinha três irmaos, casou-se com seu primo Rakoto (Rokoto-Radama), tornando-se a sua segunda esposa ao lado da Rainha Rasoherina (nascida Princesa Rabodo). Um dos seus irmaos, Ramboasalama, era opositor do governo.

Em 1863 o rei Radama II foi assassinado depois de uma artimanha dos nobres em um culto de dança chamado Ramanenjana. Rasoherina assumiu até 1868 quando morreu, e Ranavalona II assumiu o poder militar, tornando-se autoridade das famílias comerciantes de Merina. Em 1869 ela se casou com Rainilaiarivony, que se tornou primeiro ministro.

Ranavalona II adotou o cristianismo e propôs muitas mudanças nas instituições: no ritual de ascensão da Rainha, chamado Fisehoana, o juramento foi prestado sobre uma versão da Bíblia na língua malgaxe e o livro de Leis de Madagascar; em seu guarda-sol com cúpula de veludo estavam bordadas passagens da bíblia; os talismas reais (sampy) deixaram de ser utilizados.

A quebra da tradição do uso dos talismãs gerou revolta liderada pelo clã dos Kelimalaza (1869), que foi sufocada. A soberana prestou ajuda financeira às igrejas criadas pela London Missionary Society (Sociedade Missionária de Londres) e admitiu a presença de pastores cristãos no próprio palácio. Ela também introduziu alterações na estrutura de governo, mandou libertar os escravos, chamados “Moçambiques”, e tornou obrigatória a educação infantil e a prestação de serviço militar, acentuando o processo de europeização que estava em curso.

BIBLIOGRAFIA

BROWN, Mervyn. A History of Madagascar. London: Marcus Wiener, 2002.

RAISON-JOURDE, Francoise. Les souverains de Madagascar: l’histoire royale et ses ressurgences contemporaines. Paris: Karthala, 1983.

RAISON-JOURDE, Francoise. Madagascar et le christianisme. Paris: Karthala, 2001.

SKEIE, Karina hestad. “Ranavalona II”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 174-175.


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Legenda: Ranavalona III | Foto: Algier J. Geiser

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ranavalona.jpg. Acesso em: 15 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Ranavalona III (1861–1917)

Nascida como princesa Razafindrahety, foi a última rainha da dinastia Imerina em Madagascar, durante o período de 1883-1897. Seu reinado foi marcado por contínuos e infrutíferos esforços de resistência em face do avanço dos projetos coloniais franceses.  Foi educada por missionários protestantes, e substituiu ainda jovem a rainha Ranavalona II. Como aconteceu com governantas anteriores, casou-se por arranjo matrimonial com o primeiro-ministro, Rainilaiarivony, que governou de fato o reino.

A despeito de seu poder efetivo ter sido limitado, tentou de todas as formas, mediante atividade diplomática, impedir a invasão e colonização francesa, fortalecendo as relações comerciais e políticas com os Estados Unidos e a Grã-Bretanha. Já em 1885 e depois em 1887 ela foi pressionada a assinar tratados que garantiam à França graduais direitos e concessões. A médio prazo levaram a um quadro de tensão e a revolta popular de Menelamba em 1895-1898. Responsabilizada pelo acontecimento, Ranavalona III foi exilada em 1897 e a monarquia foi abolida.

No mesmo ano o marido morreu, e ela foi transferida da Ilha de Reunião para a Argélia, junto com sua família mais próxima. Apesar de usufruir de vida confortável, com criadagem a sua disposição e receber um subsídio periódico do governo francês, Ranavalona nunca recebeu permissão para retornar ao seu país, e morreu no exílio. Seus restos mortais foram trasladados para Madagascar apenas em 1938, quando ela foi enterrada junto com os demais membros de sua dinastia, na colina real de Ambohimanga.

BIBLIOGRAFIA

CORREIA, Silvio Marcus de Souza. Fotografias do exílio e da vilegiatura de uma rainha malgaxe em coleções digitais. Confluenze: Revista di Studi Iberoamericani, v. 12, n. 2, 2020: https://doi.org/10.6092/issn.2036-0967/12124

ELLIS, Stephen. The political elite of Imerina and the revolt of the Menalamba : the creation of a colonial myth in Madagascar. Journal of African History, v. 28, p. 219-234, 1980.

SHELDON, Katleen. “Ranavalona III”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 175-176.


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Legenda: Rasoherina | Ramanankirahina (1860 - 1915)

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Queen_Rasoherina.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Rasoherina (1814–1868)

Nascida como Rabodozanakandriana, pertencia a uma família da aristocriacia malgaxe. Em 1847, após a separação do seu primeiro marido, se casou com o então príncipe herdeiro Rakoto, que em 1861 viria a se tornar o rei Radama II, da dinastia Imerina, e ela a rainha consorte de Madagascar. Em 1863, após o assassinato do marido o trono do país lhe foi oferecido, porém com a condição de que ela cedesse parte de seus poderes ao parlamento. Tornou-se assim a rainha Rasoherina, porém o verdadeiro poder passou ao Primeiro-ministro, na época chamado Raharo.

Nestas frágeis condições, governou o país por cinco anos, período em que representou o país em atividades diplomáticas em Londres e Paris. Algum tempo depois, por sua influência na corte, e com o apoio de aliados conservadores, conseguiu depor o primeiro ministro Raharo (1864), que foi substituído pelo seu irmão, Rainilaiarivoni, com quem ela se casou com a intenção de ver aumentada sua autoridade no parlamento.

Durante o seu governo, procurou se afastar da França, que exercia gradual influência em Madagascar, aproximando-se da Inglaterra e dos Estados Unidos. Com a proclamação, em 1864, do livre exercício da religião, aumentou no reino a presença e a influência de missionários cristãos, católicos e protestantes, embora, no palácio, tivesse continuidade os rituais tradicionais politeístas.

Em 1865 ela assinou um tratado com a Grã-Bretanha que conferia aos cidadãos britânicos o direito de alugar terras e propriedades na ilha e de ter um embaixador residente. Isto fez com que os aliados dos franceses lhe fizessem forte oposição. Diversas conspirações foram urdidas para destroná-la, e em uma delas previa-se o assassinato do primeiro-ministro. Ela morreu de causas naturais, convertida poucos dias antes ao cristianismo. Foi sucedida pela prima, Ramoma, que ficaria conhecida pelo nome de Ranavalona II.

BIBLIOGRAFIA

LARSON, Pier. “Rasoherina”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 184-185.

RAISON-JOURDE, Françoise. Bible et pouvoir à Madagascar au XIX siècle : invention d1une identité chrétienne et construction de l’etat, 1780-1880. Paris : Karthala, 1991.

SULLY CHAPUS, Georges ; MONDAIN, Gustave. Rainilaiarivony: un homme d’état malgache. Paris ; Editions Diloutremer, 1953.


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Legenda: Ray Alexander Simons

Fonte: Mano. Cutting Through the Mountain. Manofesto. 20 de jul. de 2009. Disponível em: http://manofestoyomi.blogspot.com/2009/07/cutting-through-mountain.html. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Ray Alexander Simons (1913–2004)

Líder sindical e ativista pelos direitos das mulheres da África do Sul. Nasceu na Letônia com o nome de Rachel Esther Alexandrowitch, aos quinze anos foi estudar em Riga e ingressou no movimento comunista clandestino. Perseguida pela polícia, foi enviada pela mãe aos dezesseis anos para a África do Sul, onde ela fez parte de uma comunidade de ativistas judeus que trouxeram da Europa um forte compromisso com o socialismo e o comunismo.

Militante desde muito jovem no movimento sindical, na década de 1940 ela participou de organizações operárias no Cabo Ocidental e na região da Namaqualândia, na atual Namíbia. Articulou uma série de ações para unificar os trabalhadores sazonais, e na época da instauração do regime do Apartheid conseguiu formar um sindicato não-racial e ativo, a Food and Canning Workers Union – FCWU (União dos Trabalhadores em Alimentos e Conservas), que promoveu mulheres e homens a cargos de liderança. Além disso, ela desempenhou papel importante na organização do Conselho dos Sindicatos Não Europeus (CNETU).

Na década de 1950, lutou contra a organização sindical oficialmente sancionada (TUCSA) pois seus sindicatos eram racialmente segregados e negava a adesão de trabalhadores negro-africanos. Por tudo isso ela se tornou um alvo da repressão governamental. Em 1954, foi banida pela Lei de Supressão do Comunismo (1950). Milhares de trabalhadores entraram em greve em resposta ao ataque de sua líder, chamada de “mãe” por alguns.

Em sua campanha por um assento no parlamento, em 1954, sua plataforma eleitoral previa direitos de voto aos negros, porém, embora eleita por uma maioria esmagadora de votos ela não teve permissão tomar posse. Como uma das iniciadoras da Federação de Mulheres Sul-Africanas – FSAW (agora conhecida como Fedsaw), ajudou a organizar uma das mais importantes lutas da década, onde milhares de mulheres protestaram contra a as leis de passe, e ajudou a redigir a “Carta das Mulheres”, que culminou na marcha de 20.000 mulheres para Pretória  (1956) para apresentar ao Primeiro-Ministro, Johannes Strijdom, milhares de petições contra o uso do passe para a circulação de mulheres – acontecimento que deu origem ao Dia da Mulher Sul-Africana e ao famoso slogan político: “Atingiu uma mulher, atingiu uma rocha”.

Seu marido, Harold Jack Simons, professor de Estudos Africanos na Universidade da Cidade do Cabo, também comunista, foi proibido de ensinar, e ambos deixaram a África do Sul para viver em exílio na cidade de Lusaka, na Zâmbia, onde permaneceram até 1990. Ela continuou a ser membro influente da seção feminina do African National Congress (Congresso Nacional Africano) e ambos escreveram em co-autoria o livro Class and colour in the South Africa, 1850-1950 (Classe e Cor na África do Sul, 1850-1950) (1969), além de diversos artigos e relatórios em jornais do sindicato e periódicos.

No mês de janeiro de 2004, oito meses antes da sua morte, o ANC concedeu a Ray Simons sua maior honra, o Isithwalandwe, uma distinção tradicionalmente conferida aos guerreiros – cujo nome faz referência às penas da cauda do pássaro que é o símbolo nacional da África do Sul.  Na ocasião o presidente Thabo Mbeki qualificou-a como uma “excelente líder de nossos trabalhadores, que passou toda a sua vida adulta lutando pela liberdade de nosso povo”.

BIBLIOGRAFIA  

BERGER, Iris. Threads of solidarity: women in South African industry, 1900-1980. Bloomington: Indiana University Press, 1992.

BERGER, Iris. “Ray Simons”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 390-391.

SIMONS, Ray Alexander. All my life and all my strength. Johanesburgo: STE Publishers, 2004.

WALKER, Cherryl. Women and resistance in South Africa. Nova Iorque: Monthly Review Press, 1991.


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Legenda: Rebecca Mulira

Fonte: The British Library. Disponível em: https://eap.bl.uk/project/EAP656/search?page=4. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Direitos das mulheres

Rebecca Mulira (1920–2002)

Defensora dos direitos das mulheres, nasceu Rebecca Allen Namugenze Mukasa em um hospital em Mengo, Kampala, na atual República de Uganda. Seu pai, Hamu Mukasa foi um chefe importante e líder político em Ganda, como líder da igreja e escritor importante da história de Buganda. Sua mãe, Sarah Nabikolo Mukasa, foi uma figura de liderança na Igreja de Uganda e pioneira por direito das mulheres.

Sua mãe começou uma escola de enfermagem na sua casa, onde Rebecca e as crianças da comunidade foram instruídos. Em 1939, com 18 anos, ela se casou com Eridadi M. K. Mulira, que se tornaria mais tarde um dos líderes políticos e intelectuais durante a descolonização. Entre 1949 e 1950, Rebecca recebeu formação especializada em ciência doméstica e comunicação. Dirigiu a seção feminina do Progressive Party (Partido Progressista) de 1955 a 1958. Em 1957 foi eleita presidente do grupo das “Jovens Esposas”, um ramo menor da Mother’s Union (União das Mães), criada para influenciar e mobilizar mulheres dos círculos eleitorais mais jovens.

Rebecca Mulira se tornou uma defensora dos direitos das mulheres. Tanto na Igreja de Uganda quanto na arena política mais ampla. Foi uma das duas mulheres enviadas pelo Conselho de Mulheres de Uganda para os Estados Unidos para dar início à Associação de Jovens Mulheres Cristãs de Uganda (1952), tendo encorajado igualmente a participação das mulheres muçulmanas na associação. Dentro dos seus inúmeros postos, fez parte do Conselho da Cidade de Kampala (1962-71), foi presidente do Conselho Feminino de Uganda (1962-64, 1967-69), e membro do Conselho Administrativo do Hospital de Mengo (1997-2001).

Da década de 1950 até a década de 1990, frequentemente proferiu conferências internacionais sobre temas relacionados à condição das mulheres.

BIBLIOGRAFIA

BROWN, Winifred. Marriage, divorce, and inheritance: the Uganda Council of Women’s Movement for Legislative Reform. Cambridge: Centre for African Studies, 1988.

EARLE, Jonathan. “Rebecca Mulira”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 327-328.

MULIRA, Rebecca. “Rebecca Mulira.”. In: Byanyima, Winnie; Mugisha, Richard (Ed.)..  A rising tide: ugandan women’s struggle for a public voice, 1940-2004. Uganda: Forum for Women in Democracy, 2005.

TAMALE, Sylvia. When hens begins to crow: gender and parliamentary politics in Uganda. Boulder: Westview Press, 1999.


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Legenda: Rebeka Njau

Fonte: Great African Writers: Rebeka Njau. 17 de dez. de 2012. Disponível em: http://greatafricanwriters.blogspot.com/2012/12/rebeka-njau.html. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Rebeka Njau (1932)

Nascida em Kanyariri, é uma influente escritora queniana, além de designer têxtil, editora e pesquisadora. Foi educada na Escola Secundária Aliança para Meninas, e recebeu seu diploma em Educação pela Universidade de Uganda.

Os temas tratados em sua prolífica obra incluem temas das tradições africanas, narradas pela perspectiva das mulheres, o que significa uma revisão e crítica do papel da mulher na sociedade, em particular, da importância da resistência às tradições cruéis como a mutilação genital feminina. Na obra The Scar (A cicatriz) (1965), a escritora trata deste tema, além do abuso e do estupro perpetrados pelo personagem do pastor na personagem principal, Mariana. A questão do estupro, bastante presente em sua obra, é usada como símbolo do abuso e da violação a que as mulheres africanas são comumente submetidas.

Outro elemento fundamental em suas obras é o mito e sua importância como ferramenta educacional no contexto africano. É por meio do mito e das narrativas orais que Rebeka Njau se comunica com uma ampla gama de leitores, abordando questões como a moralidade, os padrões culturais, a corrupção política e principalmente, a esperança e a liberdade da mulher africana.

Obras como  Ripples in the Pool (Ondulações na Piscina) (1975), e The Sacred Seed (A semente sagrada) (2003) tratam destes temas a partir dos pontos de vista de suas protagonistas. No caso de A semente sagrada, o tema do abuso e do estupro de Tesa, uma jovem e talentosa professora de música, é acrescido pelo tema do sobrenatural (representado pela personagem Mumbi, uma mulher com poderes mágicos, e que é oriunda de uma aldeia africana). A semente sagrada é o símbolo da capacidade de superação dos traumas pessoais, permitindo que Tesa canalize seus poderes para ajudar outras mulheres que sofreram violências semelhantes às quais ela própria foi submetida.

Outras obras de Njau incluem a coleção de contos The hypocrite and other stories (O Hipócrita e outras Histórias) (1977), e a co-autoria na coleção de biografias intitulada  Kenya woman heroes ad their mystical power (Heroinas quenianas e seu poder místico(1984).

  BIBLIOGRAFIA

JONES, Eldred Durosimi. African Literature Today. Londres: Heinemann,  1980.

KILLIAM, Douglas and Ruth Rowe. The Companion to African Literatures. Oxford: James Currey,  2000.

NJAU, Rebeka; MUluki, Gideon. Kenya women heroes and their mystical power. Nairobi: Risk Publications, 1984.

MUCHIRI, Jennifer. “Rebeka Njau”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 473-474.


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Legenda: Ribka Sibhatu

Fonte: Poetry Translation Centre. Disponível em: https://www.poetrytranslation.org/poets/ribka-sibhatu. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Ribka Sibhatu (1956)

Poetisa eritreana, crítica e acadêmica, com atuação na Itália. Nasceu em Asmara e escreve em tigrinia, a língua originária da região de Tigré. Foi aprisionada em 1979, durante a ocupação da Eritréia pelas forças militares da Etiópia por se recusar a se casar com um oficial etíope.

Ela viveu por algum tempo em Addis Abeba, capital da Etiópia, onde estudou no Instituto Técnico Galileu Galilei. Lá conheceu um francês com quem se casou em 1985 e a quem acompanhou à Paris e à Lyon. Com o fim do casamento em 1996 ela se estabeleceu na Itália, onde realizou estudo de doutorado na Universidade La Sapieenza, em Roma.

Publicou em 1993 sua primeira coletânea de poesia, Aulò: canto-poesia dall’Eritrea, em texto bilíngue tigrinia-italiano, onde expressa sentimentos pessoais, familiares, e elementos da identidade eritréia inspirados na tradição oral através de canções, provérbios, rimas e lendas.  Também escreveu as obras Cittadino che non c’è. L’immigrazione nei media Italiani (1999) e L’esatto numero delle stelle e alia fiabe dell’altopiano eritreo (2012).

BIBLIOGRAFIA

CANTALUPO, Charles. “Ribka Sibhatu”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 199-200.

PONZANESI, Sandra. Living in translation: Ribka Sibhatu, Aulo – Canto-poesia dall’Eritrea. In: IDEM. Paradoxes of postcolonial culture:  contemporary women writers of the indian and afro-italian Diaspora. Albany: State University of New York Press, 2004, pp. 167-183.

PARATI, Graziella. Living in translation: thinking with an accent. Romance Languages Annual, v. 8, p. 272-277, 1993.


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Legenda: Ririkumutima

Fonte: Black Unity Matters. Disponível em: https:// panafricanrevoluntionmovement.wordpress.com/2017/10/10/african-queen-ririkumutima-of-burundi-kingdom/. Acesso em: 15 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Intermediárias coloniais

Ririkumutima (+ 1927)

Rainha-mãe do Burundi e líder política. Quando as forças alemãs chegaram ao reino em meados da década de 1890, Mwezi Gisabo, seu marido, deteve os esforços dos oficiais alemães para derrotar seu reino através da força militar, mas aceitou a autoridade alemã em 1903 no Tratado de Kiganda.

Ririkumutima era a esposa favorita de Mwezi Gisabo com quem teve quatro filhos: Karabona, Bishinga, Nduwumwe e Bangura. Possuía grande poder por direito próprio. De acordo com relatos orais, ela interveio em nome de um homem falsamente acusado por membros da corte real e exigiu que o caso fosse julgado pelo conselho real de Bashingantahe, que absolveu o réu.

Depois da morte do rei em 1908, Ririkumutima  exerceu influência pessoal na sucessão que decidiu pela ascensão de Mwezi Gisabo, entronizado como Rei Mutaga, e disputou com um alto membro da linhagem real, o tio do rei, Ntarurega,  pelas principais responsabilidades de administrar o governo do Burundi.

Aproveitando essas dissenções internas, os alemães passaram a apoiar outro governante no Estado de Burundi Kilima, o que fez com que o reino ficasse dividido entre três grupos governantes. Com a morte de Mutaga em 1915 Ririkumutima eliminou outros pretendentes e se aliou aos germânicos, enquanto Ntarurega apoiou o avanço dos belgas. Esse clima de guerra se prolongou até 1917, quando ela morreu em circunstâncias mal explicadas – segundo a tradição, por estrangulamento.

Sua morte favoreceu a nova administração belga e seus inimigos na corte. Ela foi enterrada na floresta sagrada de Mpotsa, com as demais rainhas-mães do Burundi. Sua posição de poder e a excepcional capacidade de manobra e de manipulação sugerem não apenas o poder de mulheres governantas antes do período colonial, mas que algumas delas podiam ser tão maquiavélicas quanto qualquer líder do sexo masculino.

BIBLIOGRAFIA

GAHAMA, Joseph. Le Burundi sous administration belge.  Paris: Karthala, 1983.

NDIHOKUBWAYO, Jean Berchmans; Ndayisenga; Appolinaire. Reflection on the place of women in burundian society. Disponível online: https://www.researchgate.net/profile/Jean_Ndihokubwayo/publication/331284817_Reflection_on_the_place_of_women_in_Burundian_society/links/5c7012af299bf1268d1df807/Reflection-on-the-place-of-women-in-Burundian-society

RICH, Jeremy. “Ririkumutima”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 204-205.


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Legenda: Roberta Leymah Gbowee | UN Photo / Emma Simmons

Fonte: United Nations Photo. Disponível em: https://dam.media.un.org/. Acesso em: 23 de dez. de 2020.

Roberta Leymah Gbowee (1972)

Destacada ativista social na Libéria,  foi uma das três pessoas agraciadas com o Prêmio Nobel da Paz em 2011, junto com sua compatriota Ellen-Johnson  Sirleaf e com a iemenita Tawakkol Karman – destacada defensora dos direitos das mulheres em seu país.

Nasceu na região central da Libéria e aos dezessete anos mudou-se para a cidade de Monróvia, quando eclodiu no país a Segunda Guerra Civil. Recebeu formação como terapeuta e durante o período do conflito trabalhou com acompanhamento  e recuperação de crianças antes recrutadas como meninos-soldados.

Ela organizou o movimento de mulheres que passou a pressionar a sociedade para o fim da guerra, unificando mulheres de fé cristã e de fé muçulmana em um amplo movimento pela paz.  O movimento ganhou grande notoriedade na mídia internacional, por conter, entre suas formas de ação, a indicação de uma greve de sexo como meio para conscientizar os homens a abandonar a violência que assolava a Libéria. O sucesso do movimento contribuiu para as negociações de paz que levaram à eleição da presidenta Ellen Johnson-Sirleaf em 2006. 

A seguir, ela criou Fundação Gbowee, cujo foco de ação é a promoção educacional dos jovens liberianos, em particular as meninas.  Participa em fóruns mundiais para tratar de assuntos de governança global com base na segurança e desenvolvimento em bases solidárias, com ênfase no empoderamento feminino. 

BIBLIOGRAFIA

AFRICAN Women and Peace Support Group. Liberian Women Peacemakers: fighting for the right to be seen, head, and counted. Trenton: Africa World Press, 2004.

GBOWEE, Leymah; MYTHERS, Carol. Guerreiras da paz: Como a solidariedade, a fé e o sexo mudaram uma nação em guerra. São Paulo: Companhia das letras, 2014.

PRASCH, Allison M.. Maternal bodies in militant protest: Leymah Gbowee and the rhetorical agency of african motherhood. Women’s Studies in Communication, v. 38, n. 2, p. 187-205, 2015.


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Legenda: Rokhaya Aminata Maïga Ka

Fonte: MEMIM Encyclopedia. Disponível em: https://memim.com/aminata-maiga-ka.html. Acesso em: 13 de dez. de 2020.

Rokhaya Aminata Maïga Ka (1940–2005)

Figura pública senegalesa, educadora, escritora de ficção e ativista pelos direitos das mulheres.  Nasceu na cidade de Saint-Louis durante o período colonial francês, de uma família muçulmana cujo pai era do grupo étnico Songai e a mãe, do grupo étnico Fula.

Obteve o Mestrado em Língua Inglesa e Especialização em Literatura e Civilização Inglesa e Americana, ambos pela Universidade Cheikh Anta Diop. Foi professora de inglês no Lycée Malick Sy de Thiès e no Lycée Van Vollenhoven de Dakar, atual Lycée Lamine Gueye.

Em sua atuação pública, trabalhou no Escritório Regional da UNESCO, em comissão para a Alimentação e Agricultura do Programa Alimentar Mundial (1978). Militante do Partido Socialista Senegalês e engajada em causas feministas, integrou a Secretaria de Estado da Condição Feminina, a Federação das Associações Femininas do Senegal e a Associação Senegalesa das Mulheres Graduadas, comprometendo-se com organizações como o Clube Internacional Soroptmista de Thiès e o Conselho Senegalês das Mulheres. Ela também foi membro de comitês científicos do Museu das Mulheres “Henriette Bathily”.

Como autora, suas principais obras são La voie du salut suivi de le miroir de la vie (O Caminho para a salvação seguido do espelho da vida) (1985), En votre nom et au mien (Em seu nome e no meu) (1989), Brisures de vies (Fragmentos de Vidas) (1998).

Casou-se duas vezes e teve três filhos. Recebeu títulos e homenagens, como o de Cavaleira da Ordem Nacional do Leão da República do Senegal e Cavaleira da Ordem das Palmas Acadêmicas pelo Ministério da Educação do Senegal.

BIBLIOGRAFIA

BEKERS, Elisabeth. “Rokhaya Aminata Maiga Ka”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 239-240.

HERZBERGER-FOFANA, Pierrette. Littérature féminine francophone d’Afrique Noire: suivi d’un dictionnaire des romancières. Paris: L’Harmattan, 2000.

KIBA, Simon. Femme de grande culture, Aminata Maïga Ka dénonce l’excision et le pouvoir de l’argent”. Amina, n. 327, p. 22-23, 1997.


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Legenda: Mulher rica em Gambia | Thomas Edward Bowdich (1825)

Fonte: The British Library’s collections on Flickr Commons. 26 de nov. de 2013. Flickr: British Library. Disponível em: https://flic.kr/p/hLydKt. Acesso em: 20 de jan. de 2021.

Rosa de Carvalho Alvarenga (c. 1780 – c. 1865)

Também conhecida como Dona Rosa ou Nhá Rosa. Nasceu na cidade de Cacheu,  na costa da Alta Guiné,  atual Guiné-Bissau, em uma família de origem cabo-verdiana, vinculada ao cristianismo, que dominava o comércio ribeirinho ao longo dos rios de Cacheu e de Casamance, as principais saídas para exportação de escravizados, marfim, cera de abelha e couro cru.

Casou-se, efetivando uma vantajosa aliança comercial, com João Pereira Barreto, alto oficial da Capitania de Cacheu, e com isso lançou a base para empreendimentos comerciais prósperos, operando através de uma rede de negócios ligava costa senegambiana a Santiago de Cabo Verde, Lisboa e o Maranhão no Brasil.

Dona Rosa, como era conhecida, era muito habilidosa em manter relações comerciais e afinidade com, chefes, dignatários e intermediários papéis, banhus e felupes, tendo acesso a  fornecedores do interior dos rios. Com a morte do marido, em 1829, o filho de ambos, Honório Pereira Barreto, retornou de Portugal, onde estudava, para a Guiné, a fim de dar seguimento aos negócios da família com a mãe. A cooperação entre ambos expandiu suas transações comerciais, permitindo o domínio da região de Cacheu a Zinguinchor até o final de 1850. Contrariando as determinações da Inglaterra, davam continuidade ao tráfico de cativos para o Brasil e o Caribe. 

Na metade do século XIX, a casa comercial de Dona Rosa ganhou um monopólio virtual no que diz respeito as transações no norte da região, do que virou depois a Senegambia portuguesa. O censo de 1856 mostra que ela detinha a propriedade de fazendas onde se cultivavam arroz e algodão com base na exploração de mão-de-obra escrava, e que 15% dos(as) escravizados(as) de Cacheu pertenciam a ela e ao filho. A morte de Honório em 1859 –  na época ele era governador de Guiné – contribuiu para o declínio de suas operações. Ela morreu alguns anos depois, no início da década de 1860.

Sua trajetória exemplifica as possibilidades de mulher africana empreendedora e poderosa.  A família dos Barreto e Alvarenga continuou a integrar a elite guineense até os dias atuais.

BIBLIOGRAFIA

BROOKS, George E. Western Africa and Cabo Verde, 1790s-1830s: symbiosis of slave and legitimate trades. Bloomington: Author House, 2010.

HAVIK, Philip J. Silences and soundbytes: the gendered dynamics of trade and brokerage in the pre-colonial Guinea-Bissau region. Munster: LIT Verlag, 2004.

HAVIK, Philip. “Rosa de Carvalho Alvarenga”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2,  p. 38-39.

MOTA, Avelino Teixeira da. Um luso-africano: Honório Pereira Barreto. Lisboa: Sociedade de Geografia de Lisboa, 1959.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave:

Rosa Egipcíaca (1719 – 1778)

Nascida em data incerta no litoral do Golfo do Benim, na terra de Courá. Foi escravizada e vendida aos traficantes de escravos, sendo desembarcada no Rio de Janeiro em 1725, aos seis anos de idade.

Rosa Courana viveu durante oito anos em condição de cativeiro no Rio de Janeiro, quando foi estuprada pelo dono e “tratada torpemente”, vendida para uma compradora em Minas Gerais no ano de 1733, quando ela tinha quatorze anos. Sua proprietária passou a ser Dona Ana Garcês de Morais, que vivia nas proximidades de Mariana. Ali permaneceu durante cerca de vinte anos, e praticou a prostituição, entregando o corpo aos escravos que trabalhavam na extração do ouro.

Quando tinha cerca de trinta anos, contraiu uma enfermidade que lhe provocava dor atroz e a prostrava no chão, seguida de uma experiência mística. Por volta de 1748 ela vendeu seus parcos bens – joias e roupas amealhadas com a venda do corpo e distribuiu tudo aos pobres. Adotou vida regrada, frequentando missas e liturgias, e ganhou fama de visionária e profetisa em Mariana, Ouro Preto, São João del Rei e depois no Rio de Janeiro, para onde ela foi em 1751.

Deu a si mesma o nome de Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz, ao que parece em homenagem a Santa Maria Egípcíaca, que segundo a lenda era também uma prostituta antes das manifestações de Santidade.  Vivia acompanhada do padre Francisco Gonçalves Lopes, conhecido como padre Xota-Diabos (Enxota-Diabos) por ser exorcista, que se tornou o seu confessor.  Era admirada por populares e mesmo alguns membros da igreja, afirmava ter visões do Menino Jesus em êxtase, e profetizava acontecimentos futuros, como um provável terremoto que iria ocorrer no Rio de Janeiro à semelhança do que estremeceu Lisboa em 1750.

Em um livro de mais de 250 folhas chamado Sagrada teologia do amor de Deus luz brilhante das almas peregrinas, descreve a experiência sensorial de contato com Jesus Menino, de quem recebera o título e o encargo de ser Mãe de Justiça. Ela própria seria a esposa da Santíssima Trindade, a nova Redentora do mundo. Ao mesmo tempo, realizava sessões de culto religioso em que se mesclavam elementos do misticismo cristão com práticas afro-brasileiras que beirava à idolatria, com danças em torno do altar e o uso de pitar cachimbo. 

Por essas e por outras, ela caiu em desgraça junto às autoridades religiosas, sendo considerada herege e falsa santa. Foi denunciada pelo Bispo do Rio de Janeiro ao Tribunal da Inquisição de Lisboa em 1762, sendo presa e enviada com o padre para Lisboa, onde permaneceu na prisão do Santo Ofício até o ano seguinte. O processo foi encerrado em 1765, não sendo identificada a pena aplicada.

BIBLIOGRAFIA

MAIA, Moacir Rodrigo de Castro. De reino traficante a povo traficado: A diáspora dos courás do Golfo do Benim para Minas Gerais (América Portuguesa, 1715-1760). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2022.

MOTT, Luiz. Rosa Egipcíaca: uma santa africana no Brasil. Rio de Janeiro: Bertrand do Brasil, 1993.

GUIMARÃES, Rosely Santos. Corpo negro: entre a história e a ficção. O caso de Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz. Revista Em Tese, v. 6, p. 01-25, 2003.


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Legenda: Rose Dieng | © Inria / Photo J. Wallace

Fonte: INRIA. Disponível em: https:// phototheque.inria.fr/phototheque/media/4586. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Rose Dieng-Kuntz (1956 – 2008)

Cientista da Computação e especialista em inteligência artificial senegalesa, nascida em Dakar. Frequentou a Escola Superior Van Vallenhoven em Dakar e a escola de Concours Général, em que conquistou as melhores posições em matemática, francês e latim, e a segunda em grego (1972). Recebeu uma bolsa para a Grande École Polytechnique de Paris, tornando-se a primeira mulher negra africana a ser admitida naquela prestigiosa instituição onde obteve o Doutorado em tecnologia da informação.

Logo Rose Dieng-Kuntz passou a fazer parte do Instituto Nacional de Pesquisa em Informática e de Inovação – INRIA. Enquanto isso, deu continuidade aos estudos e pesquisas, realizando pós-doutorado em Ciências da Computação na École Nationale Supérieure des Télécommunications com uma tese sobre a especificação do paralelismo.

Trabalhou na Digital Equipment e em 1985 estabeleceu uma parceria do INRIA com o Parque Tecnológico francês chamado  Sophia-Antipolis. Em 1995 foi nomeada chefe do projeto Acacia e permaneceu neste trabalho até a sua morte, em 2008. Como pesquisadora sênior e diretora deste projeto, desenvolveu métodos e ferramentas que se tornaram não apenas o fundamento da pesquisa sobre modelagem e aquisição de conhecimento, mas também um caminho para a evolução da gestão do conhecimento e da semântica na web.

Com o seu trabalho ela estimulou toda uma nova geração de cientistas e incentivou a educação de meninas. Foi uma pioneira que causou um importante impacto na pesquisa sobre inteligência artificial, o que a levou a ser agraciada com o Prêmio Irène Joliot-Curie para mulheres cientistas em 2005 e de ter recebido a distinção da Ordem da Legião de Honra  francesa em 2006.

BIBLIOGRAFIA

DIENG-KUNTZ, Rose;  MATTA, Nada. Knowledge management and organizational memories. Boston: Kluwer Academic, 2002.

KONATÉ, Dior. “Rose Dieng-Kuntz”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 199-200.

LE HIR, Pierre. Rose Dieng: un cerveau sans frontiers. Le Monde, 12/01/ 2006: https://www.lemonde.fr/planete/article/2006/01/11/rose-dieng-un-cerveau-sans-frontieres_729645_3244.html

MÜLLER, Heinz Jürgen; Dieng-Kuntz, Rose. Computational conflicts: conflict modeling for distributed intelligent systems with contributions by numerous experts. Berlim; Nova Iorque: Springer, 2002.


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Legenda: Rose Francine Rogombe

Fonte: Election Management Consulting Agency of Africa. Disponível em: https://www.emca.co.za/rose-francine-rogombe/. Acesso em: 15 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Rose Francine Rogombe (1942–2015)

Política, juíza e teóloga gabonesa, nascida na cidade de Lambarèné, pertencente à comunidade étnica Omyènè. Membro de uma família bem situada socialmente, durante o período colonial ela recebeu oportunidades educacionais. Concluiu o secundário no Gabão e os cursos de graduação e pós-graduação em Direito na França.

Ela retornou ao país após a independência, prestando apoio ao Partido Democrático do Gabão (PDG), regime de partido único de Omar Bongo Ondimba que passou a controlar o país desde o ano de 1968, num dos mais longevos regimes autoritários na África contemporânea. Neste tempo ela atuou como magistrada, ministra dos assuntos das mulheres e direitos humanos, produziu relatórios sobre essas questões em periódicos como o Africa Report – onde criticou a falta de oportunidades econômicas e educação para mulheres, especialmente nas áreas rurais.

Em 1990, com o apoio de Omar Bongo ela alcançou posições de destaque no sistema judicial, tornando-se vice-presidenta do tribunal criminal especial do Gabão. Em 2008 decidiu concorrer ao cargo municipal em Lambaréné, sendo eleita senadora.

Após a morte de Omar Bongo, em 2009, Rose Rogombe se tornou a primeira mulher gabonesa a governar interinamente o país, garantindo a continuidade do PDG no poder. Sua carreira mostra como também regimes autoritários africanos podem vir a reservar espaço para a participação de mulheres no governo.

BIBLIOGRAFIA

MOUITY, Patrice Moundounga. La société gabonaise de cour. Paris: L’Harmattan, 2010.

RICH, Jeremy. “Rose Francine Rogombe”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 213-214.

TURSHEN, Meredith; HOLCOMB, Briavel (Eds.).  Women’s lives and public policy: the international experience. Santa Barbara: Greenwood, 1993.


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Legenda: Rose Ziba Chibambo em uma cédula de Malawi

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:MWK0200v.jpg Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Rose Ziba Chibambo (1928–2016)

Ativista anticolonial em Niassalândia, no atual Malawi,  nascida na aldeia de Ephandeni. Foi peça chave na criação do Nyasaland African Congress – NAC(Congresso Nacional de Niassalândia), organização através do qual a luta pela independência do domínio colonial britânico foi travada e, eventualmente, ganha.

Chibambo teve grande envolvimento durante a luta para união da Niassalândia, Rodésia do Norte (atual Zâmbia) e Rodésia do Sul (atual Zimbábue) em Federação Central Africana –CAF. Indignada com as injustiças do sistema colonial e acreditando que o  CAF teria mais controle, aproximou-se de membros do NAC. Depois de ouvir que  politica não era coisa para mulher, encontrou-se com mulheres da cidade de Zomba para educa-las sobre questões politicas, formando depois a Liga de Mulheres de Niassalândia, associação politica que pautava problemas de mulheres.  Mudou-se com seu marido para os arredores de Blantyre, em seguida recebeu a oportunidade de estender seu ativismo em outra cidade, onde se juntou ao NAC – sendo a única membra feminina, também fundando uma liga de mulheres.

Em 1959, duas semanas depois do sistema colonial impor um estado de emergência e dois dias depois de dar à luz, foi presa por seu ativismo e levada com seu bebê para a prisão de Zomba, onde ficou presa por um ano e um mês.

Em 1964, o Malawi se tornou oficialmente independente. Rose Chibambo foi uma Ministra e continuou a servir o comitê executivo do Malawi Congress Party – MCP (Partido do Congresso do Malawi), nova denominação do NAC após a independência. As divergências dela e do marido com Hastings Kamuzu Banda, que viria a ser presidente do país, levou a que ela fosse expulsa do parlamento e do partido, sendo acusada de traição e de ameaça à segurança nacional, no evento conhecido como “Gabinete da Crise”. Ambos foram ameaçados, enviando seus quatro filhos para serem cuidados por outros membros da família, e passaram a viver exilados na Zâmbia.

Mesmo exilada, Chibambo continuou sua luta e também a ser perseguida pelo governo do Malawi. Ela só visitou o país em 1993, antes da primeira eleição multipartidária. Em 1994, retornou e fixou-se na cidade de Mzuzu, passando a se dedicar aos cuidados de sua família, a viver uma experiência religiosa, e a prestar assistência social em programas de apoio à contaminação pelo HIV-AIDS.

Por seu protagonismo, recebeu homenagens post-mortem, e sua imagem aparece na nota de 200 kwacha – a moeda circulante do país.  

BIBLIOGRAFIA

BAKER, Colin. Revolt of the ministers: the Malawi cabinet crisis, 1964-1965. Londres: I. B. Tauris, 2001.

CHIBAMBO, Rose. The truth will always speak. In: LIHAMBA, Amadeine et al. (Eds.). Women Writing Africa: the eastern region. Nova Iorque: The Feminist Press, 2007, v. 3,  p. 214-216.

GILMAN, Lisa. Rose Ziba Chibambo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2,  p. 65-66.

SHORT, Philip. Banda. Londres; Boston: Routledge and Kegan Paul, 1974.


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Legenda: Rosini Soglo

Fonte: Rosine Vieyra Soglo. 08 de abr. de 2016. Facebook: @RosineVieyraSoglo. Disponível em: https://www.facebook.com/RosineVieyraSoglo/photos/1106439399376153. Acesso em: 18 de jan. de 2021.
Palavras-chave: Corrupção

Rosini Soglo (1934)

Primeira dama do Benin, com o nome de Rose-Marie (ou Rosine) Honorine Vieyra.  Pertence a uma família da comunidade de elite de afro-brasileiros retornados ao Benin. Seu pai a enviou para a França aos doze anos de idade e lá ela realizou o ensino médio e conheceu Nicéphore Dieudonné Soglo, um colega beninense e membro de um ramo proeminente da família real do Daomé. Ela estudou direito, estagiando como jurista, e em 1958 casou-se com Soglo, com quem teve dois filhos. A família retornou ao seu país em 1965 e Nicéphore foi Ministro das Finanças; depois partiu em 1972 para Washington, onde trabalhou por vários anos no Banco Mundial.

Quando alegações de má administração e fracasso econômico forçaram Mathieu Kérékou, o governante marxista-leninista do Benin (1972-1990), a convocar uma Conferência Nacional, Nicéphore emergiu como o líder interino: um não-político e economista que serviu como primeiro-ministro através do período de transição para eleições democráticas. Nicéphore, então, ganhou um mandato como presidente (1991-1996) em uma vitória esmagadora.

Os Soglo foram elogiados internacionalmente como um primeiro casal ideal – um tecnocrata-presidente que era bem-educado, experiente em administração e completamente moderno com uma esposa similarmente voltada para o futuro. No início dos anos 1990, às vezes eles eram comparados aos americanos Bill e Hillary Clinton. Como Hillary, Rosine foi reprovada por ultrapassar o que muitos consideravam os limites do papel da primeira-dama – acusada de violar o protocolo, ridicularizada por seus chapéus de abas largas de marca registrada e por rumores de ter enviado ordens a funcionários do Estado em papel timbrado do governo.

Em 1992 ela financiou e tornou-se chefe do La Renassaince du Benin (RB), um partido criado, financiado e orientado pelos interesses da família Soglo; também fundou a Vidolé (criança é um tesouro), uma Organização Não Governamental que trabalha com grupos de crianças em áreas rurais e com organizações de mulheres, pela qual é promovida uma ação social relevante que, ao mesmo tempo, consolida a posição do RB.

Rosini passou a atuar diretamente na vida política beninense a partir de 1995, sendo diversas vezes eleita como deputada e passando a exercer forte influência na assembleia legislativa, o que lhe valeu o apelido de “Dama de ferro”, e o que fez com que ela e o marido fossem diversas vezes acusados de corrupção. A partir de 2005, devido a sua influência, seus filhos passaram a atuar em diversos âmbitos das esferas governamentais e públicas, e ela conduziu diversas manobras para livrar as acusações que pesavam sobre o seu marido, o que levou ao descrédito do partido que ela e sua família criaram e manobraram em seu próprio benefício político.

BIBLIOGRAFIA

BAY, Edna. “Rosine Soglo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 434-435.

SAGE, Alexandra. Premières Dames et First Ladies: la femme du chef est-elle le chef du chef? In:  L’afrique politique: femmes d’afrique.Paris: Karthala; CEAN, 1998, p. 45-62.

TOZO, Émile A. Rosine Soglo, famille et entreprise politique. Politique africaine, n. 95, p. 71-90, 2004.


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Legenda: Ruth Chinamano em selo postal do Zimbábue (2008)

Fonte: Colnect. Disponível em: https://colnect.com/en/stamps/stamp/163268-National_Heroine_- _Ruth_Lottie_Nomonde_Chinamano- National_Heroes-Zimbabwe. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Ruth Chinamano (1925–2005)

Ativista da luta pela libertação do Zimbábue. Nasceu na cidade do Cabo, África do Sul. Inicialmente, na escola, era motivada pelas histórias de Mahatma Gandhi, contadas por sua professora. Recebeu uma bolsa para seguir os estudos em uma escola anglicana na Provincia do Cabo, porém não os completou pois foi expulsa uma vez que era líder de protestos contra um diretor que agia de forma inapropriada com as jovens estudantes.

Depois de nove meses trabalhando como empregada doméstica, se inscreveu em uma escola católica com interesse de se tornar freira. Abandonou a ideia quando percebeu a hipocrisia racial da escola, uma vez que era forçada a carregar na cabeça os cobertores de um grupo de freiras brancas, por 64 km de distância. Após essa e outras situações, abandonou a fé católica.

Posteriormente, entrou na atividade política. Filiou-se ao National Democratic Party – NDP (Partido Nacional Democrático) e tornou-se secretaria do Zimbawe African Women’s Union (União de Mulheres do Zimbábue). Por serem considerados(as) “perigosos(as)”, ela e o marido, Josiah  Chinamano, já que se opunham ao regime colonial branco, foram mantidos na prisão no período de 1964-1972, e depois exilados na Zâmbia até a emancipação do Zimbábue (1980).

Com a independência, retornou ao país e tornou-se integrante do parlamento através de Zimbabwe African People’s  Union – ZAPU (União dos Povos Africanos do Zimbábue ),  representando os pobres e vulneráveis. Participou do comitê central do partido até sua morte.

 Seu corpo foi cremado no panteão dos heróis, o National Heroes Acre in Harare, em reconhecimento a sua grande contribuição na luta pela libertação.

BIBLIOGRAFIA

CARRY, Robert. African nationalist leaders in Rhodesia: who´s who. Bulawayo: Books of Rhodesia, 1977.

NDLOVU-GATSHENI, Sabelo. “Ruth Chinaqmano”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2,  p. 74-76.

NYANGONI, Christopher; Nyandor, Gideon (Eds.). Zimbabwe independence movements: selected documents. Londres: Rex Collings, 1979.


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Legenda: Ruth First

Fonte: Mundos de Mulheres 2021. Disponível em: https://mm2021.uem.mz/2020/08/18/ruth-first/. Acesso em: 23 de dez. de 2020.

Ruth First (1925–1982)

Foi uma jornalista, professora universitária, historiadora e ativista anti-apartheid. Nasceu em Johanesburgo, de uma família de judeus emigrados da Letônia, no Mar Báltico – Leste Europeu. Formou-se na Universidade de Witwatersrand.  Ainda estudante conheceu Nelson Mandela,  e ingressou no Partido Comunista da África do Sul. Em 1949 casou-se com Joe Slovo, uma das lideranças influentes do movimento comunista sul-africano.

Ela entrou para o Partido Comunista, ajudou a fundar a Federação Multi Racial de Estudantes Progressistas, e serviu como secretária Jovem Liga Comunista e Conselho da Juventude Progressista. Com a institucionalização do Apartheid, First denunciou o regime e defendeu os direitos das populações negras em artigos publicados em jornais como o The Guardian, New Age e Fighting Talk, o que a levou duas vezes à prisão, na última delas, em 1963, na  solitária. Após a libertação, abandonou o país com os filhos, passando a viver no exílio, primeiro na Inglaterra (1972-1979) e depois em Moçambique.

Em 1972-1973 atuou como pesquisadora da Simon Research Fellow na Universidade de Manchester e lecionou sociologia na Universidade de Durham, saindo em 1977 quando ela foi apontada como professora e diretora de pesquisa do Centro para Estudos Africanos para Universidade Eduardo Mondlane em Maputo, Moçambique, onde dirigiu pesquisas que apoiavam o desenvolvimento socialista no Moçambique.

Ruth fez a pesquisa que serviu de base para o livro  Longa Caminhada Até a Liberdade (1965) de Nelson Mandela. Outros de seus livros são: Power in Africa (O poder na África) (1970); Portugal’s Wars in Africa (As guerras de Portugal na África) (1972); The South African Connection (A conexão sul-africana) (1972); Libya: the elusive revolution (Líbia: a elusiva revolução) (1973); e Black gold: the Mozambican miner (Ouro negro: a mina moçambicana) (1983).

Convidada pelo intelectual e militante Aquino de Bragança, ela participou da fundação do Centro de Estudos Africanos no período de instalação da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) e da formação da primeira república moçambicana, onde realizou pesquisas sobre o impacto social do Apartheid. Morreu em um atentado à bomba promovido por agentes do governo sul-africano em seu escritório na cidade de Maputo.

BIBLIOGRAFIA

ALLEN, Judith Van. “Ruth First”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 373-374.

BRAGANÇA, Aquino de; O’Laughlin, Bridget. O Trabalho de Ruth First no Centro de Estudos Africanos. Estudos Moçambicanos, n. 14. p. 113-126, 1996.

MARKS, Shula. Ruth First: a tribute. Journal of Southern African Studies, v. 10, n. 1, p. 123-128, 1983.

PONNOCK, Donald. Writing left: the radical journalism of Ruth First. Pretoria: Unisa Press, 2007.

WILLIANS, Gavin. Ruth First’s contribution to African Studies. Journal of Contemporary African Studies, v.14, n.  2, p. 197-220, 1996.


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Legenda: Mulher do Quênia | John Seldon (c.1960)

Fonte: WorthPoint. Disponível em: https://www.worthpoint.com/worthopedia/john-seldon-1960-african-woman-518523940. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Ruth Habwe (+ 1996)

Pioneira do ativismo em defesa das mulheres no Quênia. Nasceu em data incerta e pertencia ao povo luhya.  Recebeu formação em Pedagogia na Faculdade de Formação de Professores de Kabete.

Em 1962, recebeu uma bolsa do governo de Israel para criar a Escola de Trabalhadores Sociais Rurais em Machakos.  Ela participou de treinamento de liderança em Nova York patrocinado pelo Instituto Africano-Americano  (1963) e da organização chamada Maendeleo Ya Wanawake, presidindo-a no período de 1968-1971.  Esta entidade foi criada em 1952, durante o período colonial, e teve papel importante para a formação qualificada de mulheres de modo a capacitá-las a atividades extra-domésticas. Durante o seu mandato, reivindicou a inclusão de mulheres na universidade e no mercado de trabalho.

Ruth concorreu ao parlamento em 1964, mas não teve apoio do partido Kenyan African National Union – KANU (União Africana Nacional Queniana). Um dos integrantes masculinos do partido rejeitou sua candidatura e a aconselhou a “voltar para a cozinha e cozinhar para os filhos do Sr. Habwe”. Diante de atitudes como essa ela argumentava quão semelhantes eram seus compatriotas homens com os antigos colonialistas, segundo os quais os africanos seriam “naturalmente” incapazes de governar a si mesmos.   Isto não a impediu de concorrer às eleições de forma independente, o que a levou a ser expulsa do KANU.

Ruth Habwe ofereceu contribuição substantiva para a organização do Seminário das mulheres da África Oriental em 1964, e atuou intensivamente na vida pública em prol dos direitos humanos e dos direitos das mulheres.

BIBLIOGRAFIA

NZOMO, Maria. Kenyan woman in politics and public decision. In: MIKELL, Gwendolyn (Ed.). African feminism: the political of survival in sub-saharan Africa. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1997, p. 232-256.

RICH, Jeremy. “Ruth Habwe”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 525.

WIPPER, Audrey. Equal rights for women in Kenya? Journal of Modern African Studies , v. 9, n. 3, p.  429-442, 1971.

WIPPER, Audrey. The politics of sex: some strategies employed by the kenyan power elite to handle a normative-existential discrepancy. African Studies Review, v.14, n. 3, p. 463-482, 1971.


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Legenda: Ruth Khama

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/ File:Photo_of_Ruth_Williams_Khama.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Ruth Khama (1923–2002)

Primeira-dama de Botsuana e humanitária. Nasceu Ruth Williams, em Blackheath, um subúrbio de classe média de Londres, filha de George Williams um oficial aposentado do exército indiano e sua esposa Dorothy. Como Ruth Khama, esposa de Seretse Khama, que mais tarde foi o primeiro presidente de Botsuana, ela protagonizou um conflito político internacional.

Ruth conheceu Seretse Khama em junho de 1947 em um baile na Nutfield House, um albergue organizado pela Sociedade Missionária Congregacionista de Londres para estudantes africanos. Ele tinha sido enviado para a Inglaterra para estudar direito como parte da preparação para se tornar kgosi (chefe) da BaNgwato, o mais poderoso grupo étnico do Protetorado de Bechuanalândia. Ambos decidiram se casar em 1948, mas a união despertou forte oposição tanto em Botswana quanto no governo da Grã-Bretanha, África do Sul e Rodésia do Sul , primeiro pelo fato dela não ter linhagem real, e depois por se tratar de um casamento inter-racial.

Indo contra as determinações, ambos se casaram em 1948, mas o casamento não foi reconhecido e o cargo de chefe foi negado a Seretse, e ambos viveram temporariamente no exílio. Com o nascimento da primeira filha, Jaqueline Tebogo, Ruth denunciou as pressões governamentais, e ao se estabelecerem na Bechuenalândia ambos assumiram publicamente sua oposição ao regime do Apartheid. Foram vetados nas atividades sociais reservadas a brancos, Ruth se autodeclarou Motswana e começou a trabalhar entre os BaNgwato para promover a saúde e bem-estar para mulheres e crianças que ficavam sozinhas nas tribos enquanto os homens iam trabalhar nas minas sul-africanas. Seretse trabalhou na eliminação da discriminação racial nas leis do protetorado e juntos, os Khamas  organizaram vários eventos não raciais, o que fez com que eles ficassem sob vigilância da divisão especial no Protetorado de Bechuanalândia.

Apesar da perseguição interna, os Khama  receberam apoio Internacional na sua luta contra o Apartheid. Em 1958 Ruth deu à luz a gêmeos. Em 1965, numa campanha bem-sucedida, Seretse concorreu à presidência de Botsuana e se tornou presidente em 30 de setembro de 1966. Como primeira-dama, Ruth se tornou a fundadora da Cruz Vermelha em Botswana, participou do Conselho de Mulheres de Botsuana e da Fundação Child to Child (De criança para criança). Ela era saudada como “Mma Rona” – “nossa mãe”.

O marido, que sofria de diabetes, faleceu em 1980. Ruth continuou a se dedicar à população de Botsuana, especialmente nas áreas do bem-estar de mulheres e crianças. Ela se tornou uma porta-voz na educação para HIV/AIDS, e estimulou a ampliação do papel das mulheres na vida pública. Morreu aos 79 anos, quando mais de 10 mil pessoas foram ao funeral. Seu corpo foi enterrado ao lado do de Seretse no cemitério em Serowe. Sua determinação a transformou em um símbolo antirracista.

BIBLIOGRAFIA

ALLEN, Judith Imel Van. “Ruth Khama”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 354-355.

DUTFIELD, Michael. A marriage of inconvenience: the persecution of Ruth and Seretse Khama. Londres: Unwin Hyman, 1990.

RAMSAY, Jeff. Ruth Khama: a life of servisse. Botswana Notes & Records, v. 34, n. 1, p. 133-140, 2003.


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Legenda: Ruth Meena | Foto: Kadama Malunde

Fonte: Habari Mpya za Leo. Disponível em: https://uptymes.com/tz/habari-mpya-za-leo/newsnow/picture-the-president-of-the-president-samia-survives-opening-the-convention-to-celebrate-world-womens-day-wants-to-choose-to-choose-the-choice-2020/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Ruth Meena (1946)

Ativista feminista e educadora, nasceu em Moshi, na Tanzânia. Foi uma das primeiras mulheres escolhidas a ingressar na Universidade-Colégio da África Oriental em 1968 – que se tornou depois a Universidade de Dar es-Salaam. Também foi a primeira a obter um doutorado e se tornar professora no campo da ciência política.

Como um dos pré-requisitos para ingressar na universidade na época, ela participou do treinamento de dois anos em serviço nacional, que incluía serviços de construção e treinamento militar. Seus desafios bem-sucedidos em relação ao assédio sexual durante esse período fortaleceram seu interesse e confiança para lutar contra discriminação de gênero nos anos seguintes. Suas maiores influências foram o presidente da Tanzânia, Julius Nyerere, com sua ética igualitária, e o pesquisador brasileiro Paulo Freire, pioneiro de uma filosofia de educação voltada aos pobres. Foi aluna de Walter Rodney, com quem entrou em contato com literatura sobre o imperialismo e a teoria da dependência.

Casou-se no primeiro ano da faculdade e teve quatro filhos. Apesar dos desafios de estudar e cuidar de uma família, foi premiada por ser uma aluna de destaque em ciência política.

Iniciou sua carreira dando aula para o ensino médio e poucos anos depois, em 1979, conseguiu uma posição como conferencista no Departamento de Ciência Política e Administração na Universidade de Dar es-Salaam – UDSM; depois como conferencista sênior e por fim como professora, em 1997. Lá, tornou-se editora-chefe do TAAMULI, um jornal de ciência política, e ensinou uma ampla gama de cursos relacionados aos direitos humanos, política africana, relações internacionais e métodos de pesquisa em ciências sociais.

Na universidade, lutou vigorosamente contra as desigualdades de gênero e as dificuldades que as estudantes sofrem no cotidiano. Fez parte da primeira força-tarefa relacionada a esses assuntos e na introdução de políticas de ações afirmativas e estabelecendo um centro de pesquisas de gênero e acolhimento. Meena ainda criou a Environmental and Human Care Association – ENVIRONCARE (Associação de Ambientação e Relação Humana) e participou da liderança da Associação Africana de Cientistas Políticos. Entre suas obras está o livro Gender in Southern Africa: conceptual and theoretical issues (Gênero no Sul da África: perspectivas conceituais e teóricas) (1992).

 Depois de se aposentar, ela construiu uma escola preparatória de ensino médio em Dar es-Salaam.

BIBLIOGRAFIA

BUSKENS, Ineke; WEBB, Anne (Eds.).. African women and ICTs: investigating technology, gender and empowerment. Londres: Zed Books, 2009.

MEENA, Ruth. Situationa analysis of educations of girls/women in Tanzania. UTAFITI, v. 3, n. 2, p. 39-90, 1996:

http://journals.udsm.ac.tz/index.php/uj/article/download/1233/1133

TRIPP, Aili. “Ruth Meena”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 175-176.


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Legenda: Ruth Sando Perry

Fonte: WikiPeaceWomen. Disponível em: http://wikipeacewomen.org/wpworg/en/? page_id=3098. Acesso em: 15 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Direitos Humanos

Ruth Sando Perry (1939–2017)

Nascida com o nome de Ruth Sando Fahnbullah, em Dia Town, área rural da Grand Cape Mount County, região noroeste da Libéria. Filha de Marjon e de A Haji Semila Fahnbullah, muçulmanos e membros do grupo étnico Vai, foi ainda na infância iniciada na sociedade secreta Sande, porém seus pais eram progressistas o suficiente para colocá-la em escolas católicas missionárias. Ela completou o ensino secundário na St. Theresa Convert High School.  Mais tarde estudou na Universidade da Libéria onde graduou-se em pedagogia na Teachers College (Colégio para Professores).

Ruth lecionou em seu condado por um tempo e casou-se com McDonald Perry, um político que estava construindo sua carreira como juiz e como integrante da legislatura. Ela ficou viúva e para sustentar os sete filhos começou uma carreira bancária, chegando a supervisora do Chase Manhattan Bank, em Monrovia no início dos anos 1970.

O momento político do país estava complicado: os grupos autóctones eram oposição à elite política que descendia de retornados afro-americanos. Em 1980 um grupo militar tomou o controle, com Samuel K. Doe como governante, quando a Constituição foi reescrita. Nas eleições de 1985, Ruth se elegeu para o senado representando Grand Cape Town County pelo Unity Party (Partido da Unidade), sendo durante muito tempo a única senadora de oposição ao governo. Seus projetos eram voltados aos direitos da mulher e da criança.

No início da década de 1990, durante os quatorze anos de guerra civil em seu país, onde morreram cerca de 200 mil pessoas e cerca de 1,5 milhão ficaram desabrigadas, Ruth Perry assumiu a liderança pelo restabelecimento da paz e organizou a mobilização de mulheres através da Liberian Women’s Initiative (Iniciativa das Mulheres Liberianas), além de ser membro do um grupo da elite feminina da Libéria, Serra Leoa e Guiné, a  Mano River Union Women for Peace Network  – MARWOPNET (União das Mulheres de Mano River pela Negociação da Paz). Sua influência a fez ser conselheira do Conselho de Estado que assumiu o controle do país no momento conturbado em que duas facções rivais estavam se enfrentando em Monrovia, chegando a governar interinamente o país no período de 1996-1997.

O MARWOPNET, junto com a ONU e a Organização da União Africana, em seus esforços diplomáticos para amenizar os efeitos das guerras civis, encontraram em Ruth Perry uma liderança capaz de servir de mediadora entre os senhores da guerra, sobretudo no período entre 1999 e 2003. Ela fundou o Perry Center, uma Organização Não Governamental que trabalhou para dar suporte e assistência às mulheres e crianças nas áreas afetadas de seu país e de outros países da África Ocidental. 

BIBLIOGRAFIA

AFRICAN Women and Peace Suport Group. Liberian women peacemakers: fighting the righ to be seen, heard and counted. Trenton: Africa World Press, 2004.

ANDERLINE, Samam Naragbi. Woman at the Peace table: making a difference. Nova Iorque:  United Nations Development Fund for Women, 2000.

MORAN, Mary H.. “Ruth Sando Perry”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 95-96.


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Legenda: Saba Kidane

Fonte: Asmarino Independent Media. Saba Kidane - A Poet’s Upbringing. 19 de jun. de 2017. Disponível em: http://delina.org/alewana/4913-saba-kidane-a-poet-s-upbringing. Acesso em: 15 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Poetisas

Saba Kidane (1978)

Poetisa eritreia, nasceu em Asmara. Começou cedo seu interesse pelas artes, particularmente em canto e poesia.

Como a maioria dos eritreus que nasceram no ambiente de guerra (1961-1991), Saba juntou-se à Frente de Libertação do Povo da Eritreia (EPLF) quando tinha apenas treze anos, mas não chegou a participar de combate.

Acumulou experiência no exército, onde começou a demonstrar seu talento, escrevendo poemas sobre mulheres e guerra na Eritreia. Além de suas poesias, ela também atuou como jornalista. O conteúdo de seus poemas escritos em língua tigrinya trata de questões relacionadas a situação das crianças e mulheres, à pobreza, à vida cotidiana na Eritreia.

Sua primeira aparição pública internacional ocorreu na conferência internacional, Against All Odds: Línguas e Literaturas Africanas no Século XXI (2000), o que a tornou famosa no campo artístico de seu país. Alguns de seus poemas foram traduzidos para o inglês por Charles Cantalupo e Ghirmai Negash (2006). Ela continua fazendo poesia Tigginya, importante ferramenta de conscientização para o público eritreu.

BIBLIOGRAFIA

CANTALUPO, Charles; NEGASH, Ghirmai. Who needs a story? Contemporary eritrean poetry in tigriny, tigre and arabic . Asmara: Hdri Publishers, 2005; Londres; East Lansing: African Book Collective, 2006.

TESFAGIORGIS, Mussie. “Saba Kidane”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 233-234.


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Legenda: Safi Faye

Fonte: © Bundeszentrale für politische Bildung. Black Perspectives. 19 de out. de 2018. Disponível em: https://m.bpb.de/gesellschaft/bildung/filmbildung/276806/black-perspectives. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Cientistas Sociais Cinema

Safi Faye (1943)

Cineasta e etnóloga, nascida em Fad’jal, uma pequena aldeia do grupo étnico  Serere, na região de Sine-Salum, Senegal.  Seu pai era um negociante polígamo e chefe da aldeia e ela tinha treze meios-irmãos e treze meias-irmãs. Fez o ensino primário em uma escola em Dakar e obteve o certificado de professora na Escola Normal de Rufisque (1962).

 Trabalhou como professora em Dakar (1963-1969). Conheceu o cineasta e etnólogo francês Jean Rouch durante o I Festival de Artes e Culturas Negras (1966) e participou em um filme dele: Petit à petit: lettres persanes (Pouco a Pouco: cartas persas) (1968). Embora não tenha gostado do filme, muitos críticos mencionam o estilo de Rouch como uma influência em sua carreira como cineasta. 

Safi  Faye estudou etnologia na École Pratique des Hautes Études em Paris (1972-1977), período em que teve sua  única filha, Zaiba (1976), e  no mesmo período estudou cinema na École Nationale Supérieure Louis Lumière (1972-1974).  A seguir, defendeu tese de doutorado sobre religião e cultura Serere na Universidade de Paris VII (1979).

Ela produziu seu primeiro filme, La passante (A passante) em 1972, e daí até 1996 realizou um total de 12 filmes e documentários (1972-1996). É uma pioneira, sendo bem conhecida como cineasta negra africana independente. Ela é muito elogiada pelos seus afetuosos porém precisos registros da vida nas aldeias do Senegal, pela sua sensibilidade e lucidez, bem como pela sua abordagem original da etnografia.

Entre as obras cinematográficas de Safi Faye estão Kaddu Beykat (1975), que foi exibido em diversos festivais de cinema e amplamente premiado. Seu outro longa metragem, Fad’jal foi exibido no Festival de Cannes de 1979 e recebeu um prêmio no Festival de Filme de Carthage em 1980. Ambos são documentários que retratam a vida nas aldeias. Sua abordagem socioantropológica nos filmes é uma característica proeminente de todos os seus trabalhos seguintes. Goob Na Nu (1979) trata de questões rurais, e Man Sa Yay (1980) baseia-se em uma troca de cartas entre um estudante senegalês em Berlim e sua mãe no Senegal.  Seu filme 3 ans 5 mois (Três anos e cinco meses) (1983), mostra como crianças se adaptam a culturas estrangeiras.

Muitos de seus documentários contaram com o apoio ou o financiamento da ONU e da UNICEF, por desenvolverem temas sensíveis como a situação de mulheres e crianças pobres de áreas rurais ou litorâneas, como camponesas ou secadoras de peixe. O seu primeiro  filme de ficção, Mossane (1996), palavra que significa “beleza”, “pureza” e “virtude” na língua Sererer, foi selecionado para o Festival de Cannes, co-produzido pelas redes de televisão na França, Alemanha, Grã-Bretanha e Senegal, celebra de forma poética e sensual a beleza efêmera da adolescência.

Safi Faye foi honrada em um tributo especial no Festival International de Films de Femmes de Créteil nos anos de 1998 e 2010.

BIBLIOGRAFIA

ELLERSON, Beti. Africa through a woman’s  eyes: Safi Fayes’s  cinema. In: PFAFF, Françoise (Ed.).  Focus on african films. Bloomington: Indiana University Press, 2004, p. 185-202.

GEMMEKE, Amber. “Safi Faye”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 367-369.

PFAFF, Françoise. Twenty-five  black african filmmakers: a critical study, with filmography and bio-bibliography. Nova Iorque: Greenwood Press, 1988.

THACKWAY, Melissa. Africa shoots back: alternative perspectives in sub-saharan francophone african film. Bloomington: Indiana University Press, 2003.


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Legenda: Safiya Husseini com sua filha, Adama | The Nation

Fonte: The Nation. Safiya: Pregnant woman sentenced to death for adultery 18 years ago, says: I’ve forgiven my tormentors. 28 de mar. de 2020. Disponível em: https://thenationonlineng.net/safiya-pregnant-woman-sentenced-to-death-for-adultery-18-years-ago-says-ive-forgiven-my-tormentors/. Acesso em: 10 de jan. de 2021.

Safiya Husseini (1971)

Nascida no estado de Sokoto, norte da Nigéria, região fortemente influenciada pelo islã, seu nome completo é Safiya Hussaini Tungar-Tudu. Em 2001, logo após a adoção pelas autoridades religiosa locais da xaria, a lei muçulmana, ela foi condenada à morte por apedrejamento sob a acusação de adultério, quando tinha trinta anos.

Depois de se divorciar, Safiya se envolveu com Yahaya Abubakar e não se casou formalmente. Quando engravidou, foi acusada de adultério. Diante das autoridades, durante a fase de provas, Abubakar admitiu ter tido relações sexuais com ela em três ocasiões diferentes, mas foi libertado pelo tribunal por não haver quatro testemunhas masculinas que comprovassem o seu crime.

O caso teve repercussão internacional, e o presidente do país, general Olusegun Obasanjo, pediu publicamente sua absolvição, o que ocorreu em 2002 sob o argumento de que ela tinha engravidado pouco antes da implementação da xaria. No mesmo ano em que Husseini foi absolvida, outra mulher, Amina Lawal, também foi acusada de adultério e depois absolvida.

BIBLIOGRAFIA

BUNTING, Annie. “Authentic Sharia” as cause and cure for women’s human rights violations in northern Nigeria.  Hawwa, v. 9, n. 1-2,  p. 152-170, 2011.

MIKEL, Gwendolyn. Working from within: nigerian women and conflict resolution. Georgetown Journal of International Affairs, v. 6, n. 2, p.87-94, 2005

Women’s access to justice and personal security in Nigeria: a  syntesis report. Lagos: Baobab for Women’s  Human Rights, s.d.: http://www.gsdrc.org/docs/open/ssaj33.pdf


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Legenda: Sally Mugabe | Foto: TSGT James F. Clawson

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Sally_Hayfron.jpg. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Sally Mugabe (1931–1992)

Primeira dama de Zimbábue de 1980-1992, seu nome de nascimento era Sarah Francesca Hayfron, mas passou a ser conhecida como Sally. Nasceu na então Costa do Ouro, atual República de Gana. Era filha de John e Mavis Haypfron e integrava uma família politicamente ativa e com laços fortes com Kwame Nkrumah. Ela tinha uma irmã gêmea, Esther. Em 1958 Robert Mugabe se tornou palestrante em Saint Mary’s, uma escola de treinamento de professores em Tokoradi, onde conheceu Sally. Eles se casaram e fevereiro de 1961.

Em 1963, Sally foi acusada de fazer uma declaração subversiva, atacando a Grã-Bretanha por abandonar negros na Rodésia e recebeu uma pena de dois anos de prisão, cumprindo nove meses em detenção e tendo os outros quinze meses suspensos, sendo libertada mediante o pagamento de fiança e por estar grávida do seu segundo filho. Ela já tinha perdido o primeiro no nascimento, no ano anterior. Os Mugabe partiram para Dar es-Salaam (Tanzânia), onde nasceu o seu filho Nhamodzenyika, que morreu de malária algum tempo depois sem que o pai, que estava preso, o tivesse conhecido.

Em 1967 Sally obteve um diploma em economia doméstica e trabalhou no Runnymede Trust, em Londres, onde interveio em nome de negros Rodesianos. Seu marido Robert Mugabe, quando liberado da prisão (1974) foi para Moçambique  (1975) liderar a Zimbabwe African National Union Patriotic Front – ZANU- PF (Frente Patriótica da União Nacional Africana do Zimbábue). O  casal, separado há mais de uma década, só voltou a se reencontrar após a independência de seu país.

Em 1980, Robert se tornou o Primeiro Presidente de Zimbábue independente e Sally, a Primeira Dama. Ela foi indicada como Secretária Geral da Liga Feminina da ZANU-PF (1989) e teve assento no conselho de governo.

Depois de uma luta longa e corajosa contra uma doença nos rins, Sally morreu em 27/01/1992 e foi enterrada cemitério monumental do National Heroes’ Acre, em Harare.  

BIBLIOGRAFIA

GRANT, Miriam. “Sally Mugabe”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 293-295.

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MEREDITH, Martin. Our votes, our guns: Robert Mugabe and the tragedy of Zimbabwe. New York: Public Affairs, 2002.

NYAROTA, Geoffrey. Against the grain: memoirs of a zimbabwean newsman. Cape Town:  Zebra Press, 2006.

KACHINGUE, Sarah K.. Sally Mugabe: a woman with a mission. Harare: Zimbabwe African national Union – Central Committee, Department of Infomation and Publicity, 1994.


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Legenda: Sally Njie

Fonte: The Fatu Network. Tribute: Sally P.C Njie(1932-2020), (The Gambia’s First Librarian; Pioneer Chief Librarian Of The Gambia National Library). 29 de ago. de 2020. Disponível em: https://fatunetwork.net/tribute-sally-p-c-njie1932-2020-the-gambias-first-librarian-pioneer-chief-librarian-of-the-gambia-national-library/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Sally Njie (1932)

Nascida em Bathurst, na atual República de Gâmbia, estudou na Escola Metodista para Meninas e hoje é diretora da Biblioteca Nacional da Gambia. Foi uma das primeiras mulheres na Gâmbia a conquistar uma posição no serviço público após uma árdua luta pela formação acadêmica: trabalhou nos Correios, no Conselho Britânico, tendo conquistado uma bolsa de um ano na Biblioteca Nacional de Gana (1957), e aprofundando seus estudos no Reino Unido, onde obteve sua licença de bibliotecária (1959).

A primeira biblioteca pública de Banjul foi criada em 1945 pelo bispo John Daley, da Missão Anglicana e, em 1946, o Conselho Britânico abriu uma biblioteca e uma sala de estudos cujo acervo chegou a ter 5.000 exemplares. A biblioteca funcionou até 1965, quando os livros foram doados para o governo do país recém-independente. Sally deu início a um Serviço Nacional de Biblioteca com o acervo doado e, trabalhando sozinha, com pouco apoio e recursos, conseguiu construir uma biblioteca com cerca de 45 mil volumes no início dos anos 1970. Anualmente circulavam em empréstimos cerca de 36 mil exemplares, e um serviço de biblioteca móvel fazia livros chegarem em escolas.

O trabalho de Sally conferiu reputação internacional sólida à Biblioteca Nacional da Gambia por sua coleção de materiais publicados relacionados à Gambia chamada de Gambiana, que hoje é um recurso de valor imensurável para os pesquisadores e especialistas. Ela escreveu ainda o primeiro Who’s who: the Gambia (Quem é quem: a Gâmbia) (1979), além de publicar a coleção dos discursos de Dawda Jawara, de 1965-1975, obra que fornece aos pesquisadores materiais de grande relevância acerca das políticas governamentais nos primeiros dez anos de independência da Gâmbia.

Sozinha, treinou um pequeno grupo de bibliotecários, em geral mulheres, que a sucederam e nos anos 1970 deu início a um programa de treinamento para professores de ensino primário. Promoveu hábitos de leitura ao estabelecer seções de leituras para crianças, jovens e mulheres na Biblioteca Nacional. Além disso, levou os serviços da biblioteca para o interior do país, criando filiais da Biblioteca Nacional nas comunidades de Basse e de Bansang.

Sally é uma das poucas mulheres de Gambia que, depois de muita luta para conseguir educação e treinamento profissional, se tornou funcionária pública de carreira. Ela é membro de todas as principais associações de profissionais de biblioteca na comunidade britânica (Commonwealth).

BIBLIOGRAFIA

CEESAY, Hassoum. Gambian women: na introductory history. Gambia: Fulladu Publishers, 2007.

CEESAY, Hassoum. “Sally Njie”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 476-477.

MBYE, Abdou. The book chain in the Gambia. In: STRINGER, Roger (Ed.). The book chain in anglophone Africa: a survey and directory. Oxford: INASP, 2002.



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Legenda: Mulher da cidade de Timbuctu, Mali (1830)

Fonte: The New York Public Library. Disponível em: https://digitalcollections.nypl.org/items/510d47da-6f39-a3d9-e040-e00a18064a99. Acesso em: 20 de jan. de 2021.
Palavras-chave:

Salou Casais (século XV)

Personagem  lendária na Europa. Teria sido uma princesa Songai, da cidade de Gao, oferecida em casamento ao viajante originário do sul da França,  Anselm Ysalguier de Toulouse, que teria visitado a cidade de Gao em 1410, onde permaneceu durante oito anos. 

Após esse tempo, teria retornado para a Europa com Salou Casais, uma filha, domésticos e eunucos negros. A filha, batizada com o nome de Marta, teria depois se casado com Eugène de Faudoas  e dado à luz um filho, Eustache de Faudoas, que devido à pele escura foi apelidado de Lo Morou (O mouro).

A estória é narrada na Historia Chronologica parlamentorum patriae Occitanae, é atribuída ao cronista francês Guillaume Bardin, cujo manuscrito encontra-se nas bibliotecas de Toulouse e de Carcassonne como tendo sido redigida no século XV, mas o original não foi encontrado, o que sugere que se trata de uma invenção posterior.

BIBLIOGRAFIA

BÉRAUD-VILARS, J. L’empire de Gao: um état soudanais aux XV et XVI siècles. Paris: Plon, 1943.

KAKE, Ibrahima Baba. Salou Casais: un idylle franc-songhay au XV siècle. Paris; Dakar; Yaoundé: ABC Nouvelles Éditions Africaines, 1975.


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Legenda: Mulher do povo Khoi (1815)

Fonte: Muséum National d’Histoire Naturelle. Disponível em: https:// bibliotheques.mnhn.fr/medias/detailstatic.aspx? INSTANCE=EXPLOITATION&RSC_BASE=IFD&RSC_DOCID=MNHN_FOLBN18_2_0141#. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Racismo Repressão Sexual

Sara Baartman (1789–1815)

Mulher originária do grupo khoi, escravizada na atual África do Sul, levada para a Europa, exibida publicamente na Grã- Bretanha e França do século XIX onde ela ficou conhecida como “Vênus Hotentote”.

“Hotentote”, assim como “bosquímano” e “pigmeu”, são termos depreciativos usados para descrever grupos que hoje são chamados Khoi, San, Khoikhoi ou San, originários em regiões das atuais África do Sul,  Namíbia e ao sul de Angola.

Nascida em uma família Khoisan,  em uma área situada ao norte do vale do rio Gamtoos na Colônia do Cabo oriental, por vezes o seu nome é grafado na forma da língua africânder,   “Saartjie”, embora prevaleça a forma da língua inglesa, “Sara”.  Tendo perdido a mãe na infância, foi criada pelo pai, mas sua comunidade foi atacada em um ataque dos boêres (1810), e ela foi levada para a Cidade do Cabo para ser vendida como escrava, e Pieter Cesars, um negro liberto, a comprou.

O tamanho e forma de suas nádegas e órgãos genitais, considerados exóticos pelo médico britânico Alexander Dunlop, motivou a sua transferência para a Inglaterra, onde ela foi exibida publicamente em um show, com uma performance de canto e dança, como a “Venus Hotentote”.  Exposta fisicamente, objeto de admiração e exploração de natureza sexual, seu caso despertou também a indignação de parte da opinião pública.   Zachary Macaulay, um membro da Instituição Africana, e outros apoiadores de Baartman levaram seu caso ao Tribunal do Rei em Westminster Hall (1811), e o tribunal decidiu proibir sua exibição pública.  Levada em 1814 para a França, continuou a ser exibida, desta vez para públicos ainda maiores. Sua dificuldade com a língua francesa, falta de dinheiro e, nos últimos anos, dependência alcóolica e possível prostituição, completaram a tragédia que envolveu sua vida. 

Sara Baartman faleceu um ano depois de chegar na França, aos vinte e seis anos de idade, provavelmente de gripe, bronquite ou pneumonia. Objeto de exploração extrema de cunho racista e sexista, sua imagem foi amplamente divulgada com evidente conotação erótica e seu corpo passou por dois tipos de exposição: em vida, ao ser mostrado em espetáculos e examinado em supostas sessões de anatomia; e após a morte, ao ser examinado e  dissecado pelo naturalista e zoologista Georges Cuvier, e depois de ser parcialmente preservado foi exposto no Musée de l’Homme até 1974, quando só então seu esqueleto, órgãos genitais e cérebro foram retirados da exibição pública.

O caso motivou reiteradas manifestações de repúdio e pedidos de retorno de seus restos mortais ao continente africano, o que só veio a ocorrer após um pedido formal encaminhado pelo Presidente Nelson Mandela em 1994. Após uma longa tramitação, os restos mortais de Sarah Baartman foram repatriados para a África do Sul em 2002, sendo então enterrados no Vale do Rio Gamtoo, onde um memorial foi edificado em sua homenagem.

A sua história tem sido evocada para denunciar a exploração e distorção da sexualidade das mulheres Africanas. Entre as numerosas publicações populares e acadêmicas sobre  sua vida, a escritora Barbara Chase-Riboud publicou um romance, Hottentot Venus (Vênus Hotentote) (2003), enquanto que o diretor de filmes Zola Maseko fez dois documentários relacionados a sua exibição pública e retorno dos restos mortais à África do Sul: The life and times of Sara Baartman: the Hottentot Venus (A vida e o tempo de Sara Baartman: A Vênus Hotentote) (1998) e The return of Sara Baartman (O retorno de Sara Baartman)(2003).

BIBLIOGRAFIA

ABRAHAMS, Yvette Disempowered to consent: Sara Baartman and khoisan slavery in the nineteenth century Cape Colony and Britain.  South African History Journal, v. 35, p. 89-114, 1996.  

CRAIS, Clifton; SCULLY, Pamela. Sara Baartman and the Hottentot Venus: a ghost story and a biography. Princeton: Princeton University Press, 2009.

FERREIRA, Jonatas; HAMLIN, Cynthia. Mulheres, negros e outros monstros: um ensaio sobre corpos não civilizados. Revista de Estudos Feministas, v. 18, n. 3, 2010.

HOLMES, Rachel. African queen: the real story of the Hottentot Venus. Nova Iorque: Random House, 2007.

MADER, Jodie. “Sara Baartman”.  In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 330-331.


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Legenda: Sarah Chaves

Fonte: Ares e Mares. Disponível em: https://www.aresemares.com/index.php/noticias/sara-chaves-cantora-luanda-angola/. Acesso em 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Euro-africanas

Sarah Chaves (1932)

Cantora angolana de origem portuguesa. Nasceu em Santo Antônio do Zaire, atual cidade e Soyo. Frequentou a escola primária no liceu Salvador Correia (1942). Já no período escolar demonstrou tendência para a música, sendo influenciada pelo fado e outros estilos da canção popular portuguesa.

O início de sua carreira data de 1947, quando passa a participar do programa de rádio De tanga, que misturava textos de humor e música popular com ritmos brasileiros, boleros e rumbas. Em 1953, trabalha como locutora na rádio oficial de Angola, no período colonial. Alguns anos mais tarde, participa do 1º Festival Internacional da Canção realizado no teatro Monumental em Lisboa (1959),  e começa a interpretar canções de autores angolanos como Eleutério Sanches, Tonito, José Cordeiro dos Santos e mornas de B. Leza.  Adere a partir daí aos ritmos e inspirações africanos, e durante o período da Luta de Libertação Nacional  passa a cantar algumas canções em quimbundo.

O reconhecimento efetivo do seu talento ocorreu em 1966, quando participou do Festival da Canção de Luanda e, junto com o N’Gola Ritmos, interpretou a música “Maria Provocação”, que não ganhou o prêmio por ter sido tocada ao som de instrumentos tipicamente africanos – o que era proibido. Outras canções de grande sucesso interpretados por ela, escritas por Ana Maria de Mascarenhas e Adelino Tavares da Silva, foram “Senhora da Muxima”, “Benguela Rua Nova”, “Ritmo de Coração”, “Sangazuza”.

A partir de 1972 afastou-se do palco e começou a atuar na produção musical da Emissora Oficial de Angola e em 1975, com o clima de insegurança aos portugueses após a independência de Angola, muda com o marido e os filhos para Portugal.  Retornaria a Angola apenas em 1998, a convite da emissora de rádio Luanda Antena Comercial – LAC, para fazer parte do grupo de jurados do 1º Festival da Canção realizado em Luanda, quando pode voltar aos palcos em sua terra de origem.

BIBLIOGRAFIA

ALVES, Amanda Palomo. Angolano segue em frente: um panorama do cenário musical urbano de Angola entre as décadas de 1940 e 1970. Tese (Doutorado em História), Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2015.

WEZA, José. O percurso histórico da música urbana luandense: subsídios para a história da música angolana.  Luanda: Governo da Província de Luanda,  2007.


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Legenda: Sarah Forbes Bonetta | Imagem: Camille Silvy

Fonte: © National Portrait Gallery. Disponível em: https://www.npg.org.uk/collections/search/portrait/mw86361/Sarah-Forbes-Bonetta- Sarah-Davies. Acesso em: 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Área yoruba

Sarah Forbes Bonetta (1843–1880)

Nascida na aldeia de Oke-Odan, em Egbado, no seio da aristocracia dos egbas, o nome nativo pelo qual foi conhecida era Omoba, provavelmente do iorubá, significando “filha do rei”, “princesa”. Seus pais morreram durante um ataque do exército daomeano no período de governo do rei Ghezo, em 1848, quando ela foi levada como cativa para o Daomé.

Resgatada pelo oficial britânico Frederick E. Forbes, passou a ser chamada de Sarah, sendo-lhe acrescentado o sobrenome do seu protetor, Forbes, e o nome do navio deste (Bonetta). Dada como presente pessoal do rei daomeano Ghezo à rainha Vitória, viveu desde os cinco anos no palácio real britânico, na qualidade de afilhada da rainha.

Recebeu alta instrução na Europa e na África, na idade adulta, casou-se com o Capitão J. P. L. Davies, influente negociante iorubano na cidade de Lagos, com quem teve três filhos. Sua descendência passou a integrar o rol das famílias aristocráticas em Serra Leoa e na Nigéria no século XX.

BIBLIOGRAFIA

BRESSEY, Caroline. Of Africa’s brightest ornaments: a short biography of Sarah Forbes Bonetta. Social & Cultural Geography, v. 6, n. 2, 2005.

MYERS, Walter Dean. At her majesty’s request: an african princess in victorian England. London: Scholastic, 1999.


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Legenda: Sarah Gertrude Millin | South African Heroes Gallery

Fonte: Jewish Women's Archive. Disponível em: https://jwa.org/media/sarah-gertrude-millin-circa-1940. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Sarah Gertrude Millin (1888–1968)

Escritora, nascida Sarah Gertrude Liebson na pequena vila de Zagar, Lituânia. Sua família judia mudou-se para a África do Sul quando ela tinha cinco meses de idade por conta do antissemitismo russo, assentando-se na região mineradora de diamantes e logo integrando-se com a classe média branca local. Embora muitos mineiros brancos casassem com mulheres negras ou mestiças, Sarah sempre teve noção das fronteiras raciais e sociais e uma forte convicção na superioridade branca.

Seus primeiros escritos abordavam principalmente o tema da miscigenação. Em 1912 casou-se com Phillip Millin, estudante de direito liberal que viria a ser juiz da Suprema Corte sul-africana, e com ele mudou-se para Johanesburgo. A maior parte da sua produção se deu entre 1919 e 1965, e compreende 17 romances, as biografias de Cecil Rhodes e Jan Smith, memoriais, contos, ensaios e textos de não-ficção sobre a sociedade local durante a Segunda Guerra.

Em God’s Stepchildren (Filhos Adotivos de Deus) (1924), Sarah Millin tratou a miscigenação como degeneração, embora fosse uma crítica do antissemitismo incorporado por muitos nacionalistas africânderes. Esta obra fez grande sucesso nos Estados Unidos, país no qual foi recebida na residência de Franklin e Eleanor Roosevelt.

O advento do apartheid em 1948 e a vitória do Partido Nacionalista foram emblemáticos no fracasso liberal na África do Sul. Sarah Millin, além de não criticar o regime pela sua afinidade com o nazismo, apoiou-o com base na sua branquitude. A partir de então sua obra perdeu qualquer aparência de compaixão que tivera. The Wizard Bird (O Pássaro Mago) (1962), foi o seu romance mais assumidamente racista.

Morreu em 1968, com certa aclamação na imprensa sul-africana e mesmo na estadunidense e britânica. Devido ao caráter da sua obra, acabou sendo eclipsada fora da África do Sul por autores e autoras anti-apartheid.

BIBLIOGRAFIA

COETZEE, J. M. Blood, taint, degeneration: the novels of Sarah Gertrude Millin. English Studies in Africa, v. 23, n. 1,  p. 41-48, 1980.

GREEN, Michael. Blood and politics/morality tales in literary history and social history. English in Africa, v. 18, n. 1, p. 1-23, 1991.

HEALY, Meghan. “Sarah Gertrude Millin”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 218-220.

RUBIN, Martin. Sarah Gertrude Millin: a south african life. Johanesburgo: Ad. Donker, 1977.

WADE, Michael.  Myth, truth and the south african reality in the fiction of Sarah Gertrude Millin. Journal of Southern African Studies, v. 1, n. 1, p. 91-108, 1974.


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Legenda: Mulher muçulmana de alta linhagem (1856)

Fonte: Slavery Images. Disponível em: http://www.slaveryimages.org/s/slaveryimages/item/1609. Acesso em 24/01/2021.
Palavras-chave:

Saran Kegni (século XIX)

Não mencionada nos livros de história, mas presente na memória dos griots da Guiné, foi a esposa favorita do líder oeste-africano Samori Turê (Samoy Touré) (1830-1900), que de 1878 a 1898 organizou e liderou um império militar dos  povos mandingas da atual Guiné-Conacri que se estendia da região do curso superior do rio Volta até o Futa Djalon.

Entre os mandingas, onde prevalecia a poligamia, algumas mulheres dos soberanos gozavam de prestígio, poder e autoridade. Uma delas eram as primeiras-esposas, e outras eram as esposas favoritas, distinguidas pelo título de baramuso. Era este o caso de Saran Kegni, filha de um dos chefes mandingas capturados e executados por Samori. Segundo os tradicionalistas, além de rara beleza e encanto, tinha inteligência e astúcia incomparáveis. Sua fama devia-se à capacidade de convencer o marido em diversas situações, algumas das quais contra a vontade inicial dele.

Saran tinha acesso aos conselheiros reais, que a respeitavam por estarem cientes de sua influência na corte. Em certa ocasião, obteve o apoio desses conselheiros para contestar a opinião de Karamoko, filho mais velho de Samori, que se manifestou favorável ao estabelecimento de paz com os franceses durante as guerras de ocupação colonial da Guiné. Em outra oportunidade, obteve sucesso na indicação do próprio filho, Saranké Mory, o “Filho de Saran”, como chefe dos exércitos.

Porém, segundo as tradições, quando o marido, vencido pelos franceses foi enviado ao exílio e pediu que ela o acompanhasse, ela teria negado, e lhe dito: “Fafaga dein tê gnina”, isto é, “Nunca se pode esquecer o assassino do pai”.

BIBLIOGRAFIA

PALA, Achola; LY, Madina. La mujer africana en la sociedad precolonial. Barcelona: Serbal; UNESCO, 1982: https://unesdoc.unesco.org/images/0004/000402/040262sb.pdf


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave: Regentes

Sayyida al-Hurra (c. 1492–1552)

Nome pelo qual ficou lembrada Lalla Aicha bint ibn Rachid al-Alami, governadora da cidade de Tetuan, ao norte do Marrocos, por vezes também chamada de “Sitt al-Hurra”. Era filha de wi Mulay ‘Ali Ibn Rashid, emir de Chefchaouen, e de Lalla Zohra Fernandez, originalmente de Veger, comunidade situada perto de Cádiz, ao sul da atual Espanha, em território do antigo Reino de Granada.   

Embora numerosos historiadores, tanto europeus como marroquinos, tenham notado sua posição eminente como liderança, divergem quanto a sua identidade, alguns considerando-a como governanta e outros apresentando-a como uma “mulher pirata” ou “rainha pirata”.  Todos concordam porém que ela desempenhou um papel de considerável importância nas relações mantidas no Mediterrâneo no início do século XVI. Para os marroquinos ela é considerada como “uma das mais importantes figuras femininas do Ocidente islâmico na era moderna”.

Sua liderança coincide com um momento em que os portugueses encontravam-se em posição de superioridade na luta pela expansão marítima, e ocupavam parcialmente o norte do Marrocos, com domínio sobre Ceuta (1415), Tetun (1437), Tânger e Arzila (1471).  Assim, uma unidade de resistência foi estabelecida em Chefchaouen em torno da família Ibn Rashid, com guerreiros e marinheiros de origem marroquina e de origem andaluza que se organizaram para defender fortalezas e realizar ataques aos ocupantes cristãos.

Foi nesse contexto que em 1529, após a morte de seu marido, que governou Tétuan, Sayyda tornou-se a última pessoa na história islâmica a receber o título “al-Hurra” (Rainha). Ela se destacou pela capacidade de liderança junto aos chefes locais, encorajando-os na luta contra os portugueses, e se aliou ao comandante turco Khair-ed-Din Barbarossa (1470 – 1546), dividindo com ele o controle do Mar Mediterrâneo.  Sua influência diminuiu após a morte de irmão, que governava a cidade de Fez e lhe prestava grande apoio, de modo que em 1542  ela foi afastada do governo de Tetuan após um golpe planejado por seu adversário, Hassan Hassin.

BIBLIOGRAFIA

GIL GRIMAU, R.. Sayyida al-Hurra, mujer Maroqui de origen Andalusi. Anaquel de Estudios Árabes, n. 11, p. 311-320, 2000.

GOZALBES BUSTO, Guillemo. Sit al Hurra, governadora de Tetuan (siglo XVI). In: Actas del Congreso Internacional – El Estrecho de Gibraltar. Madrid: UNED, 1988, v. 2, p. 461-479.

LEBBADY, Hasna. “Sayyda al-Hurra”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 301-302.


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Legenda: Semane Setlhoko Khama | A. M. C.

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/ File:Semane_Setlhoko_Khama.png. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Regentes

Semane Setlhoko Khama (1881–1937)

Mohumagadi (rainha ou rainha mãe) do protetorado de Bechanalândia de BaNgwato, atual Botsuana. Descendia dos BaBirwa e BaSeleka, que eram povos dependentes dos BaNgwato, o povo mais rico, mais numeroso e mais poderoso dos BaTswana. Foi uma líder cristã e educadora.

Em 1900, ela se tornou a quarta esposa de Khama III, kgosi (rei) de BaNgwato, apesar de desaprovação inicial de muitos pelo fato dela não pertencer a uma linhagem real. Semane teve cinco filhos, mas três morreram novos. Os que sobreviveram foram a filha Bonyerile e o filho Tshekedi que depois se tornaria Regente de BaNgwato, de 1925 a 1950, e um líder poderoso na política Colonial de Bechuanalândia.

Em 1907, com a Khama III e a ascensão de Sekgoma II, filho dele de outro casamento, a proeminência religiosa e social de Semane foi desafiada. Contudo, ela continuou vivendo no palácio real e quando o novo rei ficou muito doente ela tornou-se sua enfermeira, sendo muito criticada por adotar os métodos da medicina europeia em vez de recorrer aos detentores dos conhecimentos da medicina tradicional Tswana. Como o rei morreu, ela foi acusada de envenená-lo para que seu próprio filho assumisse o trono.

Com a morte de Sekgoma, em 1925, ela assumiu temporariamente a regência, e trabalhou para promover obstetrícia moderna e medicina. Como diaconisa chefe, tomou medidas para promover a inclusão das mulheres na igreja, treinando mulheres para conduzir as próprias aulas em Serowe e outras vilas de BaNgwato, e na década de 1930 ela liderou as mulheres cristãs para o Movimento de Temperança de Mulheres Cristãs. A iniciativa era para, na continuidade das determinações anteriores do marido, impor a proibição tanto de bebidas alcoólicas europeias quanto da cerveja africana. Na sequência o seu filho Tshekedi também tentou banir o álcool da Província de BaNgwato, fixando a proibição para o seu consumo pelos homens, e de sua fabricação pelas mulheres.

BIBLIOGRAFIA

ALLEN, Judith Imel Van. “Semane Sethoko Khama”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 354-355.

LANDAU, Paul. The realm of the word: language, gender and christianity in a Southern african kingdom. Portsmouth: Heinemann, 1995.

MGADLA, P. T.. Missionary wives, women and education: the development of literacy among the Batswana 1840-1937. PULA Journal of African Studies, v. 11, n. 1, 1997: https://archive.lib.msu.edu/DMC/African%20Journals/pdfs/PULA/pula011001/pula011001011.pdf


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Legenda: Senuwy | Harvard University

Fonte: Museum of Fine Arts Boston. Disponível em: https://collections.mfa.org/objects/141967/statue-of-lady-sennuwy. Acesso em: 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Senuwy (século XX a.C.)

Foi a esposa de Hepzefa, um alto funcionário e sumo-sacerdote designado durante o governo do faraó Sesóstris I (1972-1927 a.C) como governador de Asyut, território situado no Alto Egito, ao norte da atual República do Sudão. Ela tinha provavelmente origem núbia.

Em 1913, uma expedição arqueológica sob o comando de George Reisner, financiada pela Universidade de Harvard e o Museu de Belas Artes de Boston, promoveu prospecções em Kerma, na Núbia, e entre as sepulturas e tumbas escavadas foram encontradas diversas estátuas funerárias, uma delas de Hepzefa e outra de sua esposa. As peças estavam muito danificadas, mas os pedaços da estátua dela foram reconstituídos, o que permitiu que a reconstituição completa pudesse ser exibida no Museu de Belas Artes de Boston.

BIBLIOGRAFIA

REISNER, George A. The tomb of Hepzefa, nomarch of Siut. The journal of Egyptian Archaeology, v. 5, n. 2, p. 79-98,  1918.

SHAW, Maria C. Ceiling Patterns from the Tomb of Hepzefa. American Journal of Archaeology, v. 74, n. 1, p. 25–30, 1970.


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Legenda: Mulher do Egito (1683)

Fonte: Past Pages. Disponível em: http://www.pastpages.co.uk/site-files/prints-africa/Swp003.jpg. Acesso em: 20 de jan. de 2021.
Palavras-chave: Regentes

Shajarat al-Durr (+ 1257)

Também referenciada como Shaja al-Durr, que em árabe significa “Árvore de Pérolas”. Seu nome completo era al-Malika Asmat ad-Din Umm-Khalil Shajarat ad-Durr, e por vezes aparece nomeada como Umm Khalil, a “mãe de Khalil. Nascida em local incerto, muito provavelmente no atual Turcomenistão, foi levada como escrava para a Síria, onde passou a integrar o harém do sultão a-Salih, da dinastia ayyubida, que governava o Egito desde 1238. Ela se tornou sua concubina favorita, teve um filho dele, e depois se tornou sua principal consorte.

Os historiadores são unânimes quanto a enorme habilidade política de Shajarat al-Durr, e que a mesma já exercesse alguma influência no governo do marido, mas sua influência e domínio político no Egito ocorreu em 1249-1250, quando um exército de cavaleiros cruzados francos, sob a liderança do rei Luís IX, atacou a cidade de Damietta. Com o apoio de generais e ministros de origem turca, conhecidos como mamelucos, ela ocultou a morte do marido, organizou a resistência e infligiu uma derrota ao invasor, que acabou derrotado e o rei francês, aprisionado e depois resgatado.

Com o fim da 7ª cruzada, sua autoridade ficou estabelecida. Com o apoio do general Aybeck ela venceu e eliminou o sucessor do sultão e se proclamou governanta única com o título de sultana, mandando cunhar moedas com a sua efígie e o seu nome como “rainha dos muçulmanos e mãe de Khalil”, fato raríssimo na história dos estados islâmicos. Sua ascensão despertou forte oposição na Síria, entre os membros da linhagem ayyubida, que a contestavam tanto por ser mulher quanto por ter origem escrava. Ela então, por conveniência, se casou com o general Aybeck, que assim foi elevado ao governo do sultanato, e permaneceu com forte influência na corte até o ano de 1257, quando foi assassinada – segundo as tradições orais, pelas mulheres o harém.  

Por sua atuação, ela foi figura chave na fase de transição entre a dinastia ayuubida e a dinastia de sultões mamelucos, que, como ela, eram de origem turca, e controlariam o Egito até o ano de 1516 – quando o país caiu sob domínio otomano. 

No século XX, Sharajat al-Durr se tornaria uma inspiração para as feministas árabes. Em discursos e publicações, figuras femininas excepcionais na história islâmica, como ela, foram lembradas para reforçar o apoio à ideia de que as mulheres deveriam ser educadas e envolvidas na vida pública. Uma das revistas da imprensa feminina egípcia na virada do século XXI traz seu nome, que também é invocado por feministas árabes contemporâneas como a marroquina Fatima Mernissi.

BIBLIOGRAFIA

DUNCAN, David. Scholarly views of Shajarat al-Durr: a need for consensus. Arab Studies Quarterly, v. 22, n. 1, p. 51-69, 2000.

 FARAH, Shoukry. The conservation history of the mausoleum of Shajarat al-Durr. Dissertação de Mestrado (Arte e Arquitetura Islâmica), The American University in Cairo, 2015: http://dar.aucegypt.edu/handle/10526/4537

HUFFAKER, Shauna. “Shajarat al-Durr”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 347-348.

WOLF, Caroline. “The pen has extolled her virtues’: gender and power within the visual legacy of Shajar al-Durr in Cairo. In: GharipourGHARIPOUR, Mohammed; SCHICK, Irvin (Eds.). Caligraphy and archicteture in the muslim world. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2013: http://www.academia.edu/download/41008518/GHARIPOUR_11_Proof_1.pdf


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Legenda: Shanakdakheto | UNESCO

Fonte: UNESCO. Disponível em: http://www.unesco.org/culture/museum-for-dialogue/item/en/84/statue-of-queen-and-prince-of-meroe. Acesso em: 27 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Shanakdakheto (130 a.C.)

Rainha de Kush, governou Meroé após o governo consecutivo de quarenta reis cuxitas que se sucederam durante sete séculos. Seu governo foi um divisor de águas, abrindo um período de poderosas rainhas que governaram o antigo Vale do Nilo. 

Ao contrário de seus antecessores e suas sucessoras, informações sobre ela podem ser obtidas em sua pirâmide, ao Norte do assentamento da cidade de Meroé, mas também no Templo F, na Ilha de Naga, no coração da “Ilha de Meroë” –  localizada entre os rios Nilo, Atbara e Nilo Azul -,  e o grupo de estátuas CG 684 (provavelmente originário de sua capela funerária) exibido no Nubian Museum of Aswan (Museu Núbio de Assuã). Sua iconografia segue um padrão distinto, o que permite tirar conclusões sobre as precondições de sua coroação e alguns detalhes de seu reinado.

O Templo erigido ao pé de Jebel Naqa e parcialmente destruído por um deslizamento de rochas é um santuário dedicado à tríade tebana (deuses Amon, Mut e Chonsu), bem como ao deus leão meroítico Apedemak e sua companheira Amesemi. Em todas as cenas, Shanakdakhete é seguida por um homem que, por sua posição, pode ser considerado de nível inferior, mas, mesmo assim, é alguém do círculo real e tem contato direto com os deuses. Neste mesmo monumento há outra cena notável: a passagem de um rei falecido para outra vida e deificado, incluído na procissão de deuses. Cartuchos inscritos em ambos os lados do santuário contêm o nome de Shanakdakhete em hieróglifos meroíticos, o que atesta o primeiro uso da língua local em forma escrita – que viria gradualmente a substituir os ideogramas egípcios.

As cenas representadas nas estátuas do grupo CG 684 mostram Shanakdakhete usando a coroa ornamentada acompanhada por um homem sem insígnia real, exceto por um diadema principesco que toca sua coroa em um gesto conhecido de vários monumentos, o que sugere sua legitimação. A figura masculina pode ser a representação de seu filho. Também são representados deuses, e na capela real uma governanta aparece em alto relevo junto da deusa Isis-Selket, sugerindo sua relação com a maternidade.

Chama atenção que ela não tenha escolhido para si um nome de governanta que contivesse Amani, em referência ao deus Amon (Amun), como a maioria dos(as) seus(uas) predecessores(as), e que tenha abandonado os títulos usados pelos(as) governantes egípcios. Embora isso reflita um passo significativo no processo de emancipação do domínio cultural egípcio, seu reinado é marcado por um aumento quantitativo de bens de luxo importados, demonstrando boas relações e comércio com o Egito ptolomaico contemporâneo.

Ao que tudo indica, foi a sua posição como rainha-mãe que lhe conferiu a legitimidade necessária para que aparecesse como a primeira governanta de Meroé. Isto pode sugerir que o filho dela era jovem demais para assumir o trono, e que ela governou em nome dele, como regente, tendo sempre que representá-lo em todos os monumentos, fixando na iconografia uma nova forma de legitimação. A presença da imagem de guerreiros de origem estrangeira na iconografia de sua capela mortuária pode ser uma referência aos contatos de Meroé com o Mediterrâneo. 

Outro ponto que chama atenção é que o seu governo é datado mais ou menos na mesma época em que Cleópatra II Filometer Soteira se tornou a primeira mulher governanta do Egito ptolomaico, em 131 a.C. Para alguns, permanece sem resposta saber se autoridade de governo das mulheres de Meroé resultou da estrutura social núbia ou se foi influenciado pelo Egito daquela mesma época. O certo é que as rainhas meroíticas cumpriam as mesmas responsabilidades que os reis, embora a maioria delas exigisse uma contraparte masculina cuja presença parece ter sido requerida para sua legitimação.

BIBLIOGRAFIA

CHAPMAN, Susan; Dunham, Dows. The royal cemeteries of Kush. Boston: Museum of Fine Arts, 1952, v. 3: Decorated chapels of the meroitic pyramids at Meroe and Barkal.

TORÖK, Lászlo. The kingdom of Kush. Handbook of the napatan-meroitic civilization. Londres: Brill,1997.

ZACH, Michael H. Shanakdakhete.  In:  KENDALL, Timothy (Ed.). Nubian Studies – Proceedings of the ninth conference of the International Society of Nubian Studies (August 21-26, 1998). Boston: Boston: Northeastern University, 2004, p. 449 464.

ZACH, Michael H.. “Shanakdakhete”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 352-353.


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Legenda: Sheena Duncan

Fonte: Black Sash. Disponível em: https://www.blacksash.org.za/index.php/our- legacy/tributes-to-black-sash-stalwarts. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Apartheid sul-africano

Sheena Duncan (1932–2010)

Assistente Social, ativista e líder de organizações pacifistas na África do Sul. Nasceu em Johanesburgo e estudou Ciência Doméstica em Edimburgo. Trabalhou no Departamento de Assistência Social da Câmara Municipal de Johanesburgo como oficial de economia doméstica. Participou da Women’s Defence of the Constitution League (Liga Feminina de Defesa da Constituição), organização fundada por sua mãe, em protesto pacífico contra as medidas  de segregação racial das “pessoas de cor” tomadas pelo Partido Nacional em 1955. O grupo passou a ser conhecido como  Black Sash (Faixa Negra), devido ao uso de uma faixa negra que os membros traziam no ombro em protesto contra a violação da Constituição. Tratava-se de um grupo constituído de mulheres brancas, em geral de classe média, pacifistas e defensoras de ideais liberais.

Duncan se juntou ao Black Sash em 1963  e sucedeu a mãe, Jean Sinclair, na presidência do grupo até 1975 e depois foi reeleita em 1982. Ela atuou em Johanesburgo, tendo papel importante na assistência a trabalhadores negros migrantes e na luta contra o aborto.  Fez oposição à  Lei do Movimento Organizado e Assentamento de Pessoas Negras, proposta em 1982 pelo governo de P. W. Botha, publicando artigos, folhetos e panfletos contrários a esta medida restritiva.

Prestou assistência  a acusados de traição contra o regime, como no caso de traição Delmas (1986), quando vinte e um membros do United Democratic Front – UDF (Frente da União Democrática) foram acusados de liderar movimentos de subversão ao regime, momento em que defendeu abertamente a desobediência civil como forma de contestação ao Apartheid.  Mesmo em face de séria oposição interna, continuou sempre a afirmar o compromisso tradicional da Black Sash com a oposição não-violenta.

Na década de 1970, Sheena Duncan teve participação em associações e grupos da Igreja Anglicana que tinham por finalidade acaba com o racismo no seio de instituições religiosas, e representou o Sínodo Provincial desta igreja na divisão de justiça e reconciliação do Conselho Sul-Africano de Igrejas (SACC). Mais tarde tornou-se presidenta honorária do SACC e integrante do Conselho do Instituto de Direitos Humanos da África do Sul. Também presidiu associações contrárias ao uso de armas de fogo.

Por sua trajetória e ativismo, recebeu premiações e doutorados honorários na Universidade de Witwatersrand,  Universidade da Cidade do Cabo e da Universidade de Natal. Em 2006, foi premiada com a Ordem do Baobá de Prata pelo governo sul-africano em reconhecimento de sua excepcional contribuição para a promoção da justiça social e dos direitos humanos básicos.

BIBLIOGRAFIA

KROS, Cynthia. “Sheena Duncan”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 262-263.

HENDRICKZ, Annemarie. Sheena Duncan. Duncan Sisters, 2015.

MICHELMAN, Cherry. The Black Sash of South Africa: a case study in liberalism. Londres: Oxford University Press, 1975.

SPINK, Kathryn. Black Sash: the beginning of a bridge  in South Africa. London: Methuen, 1991.


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Legenda: "Signare", mulher rica do Senegal (1853)

Fonte: Gallica – Biblioteca Nacional da França. Disponível em: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b23001280/f1.item#. Acesso em: 10 de jan. de 2021.
Palavras-chave:

Signares

Denominação (do  português “senhora”), que, entre os séculos XVII e XIX, principalmente no litoral do Senegal, designava as mulheres negras ou mestiças que viviam em concubinagem (casadas “ à moda africana”) com mercadores ou oficiais europeus.

Aplicado a   mulheres com grande influência nas feitorias de Rufisque, Gorée, Saint Louis e Joal,  o termo (com variantes  como séniare; signara etc.) acabou por se estender a  toda mulher de alguma notoriedade, tanto pela mestiçagem quanto por habilidades comerciais, ou por reunir essas duas características.

Célebres signares foram: Anne Pépin, companheira de Stanislas de Boufflers, governador do Senegal na década de 1780; Caty Louet e sua filha, Helene Aussenac,  que mantinham no Reino de Cayor negócios com a Companhia das Índias por volta  de 1770; Marie-Thérèse Picard, dona da residência hoje conhecida como Maison des Esclaves, na ilha de Gorée, companheira do prefeito da ilha, de 1849 a 1872, e outras.

Essas mulheres   detinham posição de prestígio,  participavam inclusive das redes de comércio que alimentavam o tráfico negreiro. Não obstante, pelo prestigio de que desfrutavam,   desempenharam importante papel como  intermediárias sociais.

 

BIBLIOGRAFIA

MARCROFT, Andrew. The Signares of Senegambia. Villanova: Villanova University, 1995.

SMITH, Tammi D.. The Signares: Architects of identity during 18th & 19th century pre-colonial West Africa. Thesis (Master of Arts in History), Chicago State University, Chicago, 2016.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave: Sindicalistas

Simone Saint-Dénis (1930–1980)

Chefe do sindicato do comércio do Gabão, nasceu em Libreville, filha do político Mathurin Anguiley. Pertencente ao grupo étnico Mpongwe. Freqüentou escolas missionárias católicas, rompeu com as tradições familiares e tornou-se professora na missão católica de Donguila, localizada em uma região rural do Estuaire.   

Neste período ela se tornou ativista sindical e em 1944, juntando-se ao líder Félix Adande criou o Sindicat des Employés de Libreville – SEL (Sindicato dos Empregados de Libreville) e a Confederation Française des Travailleurs Chrétiens – CFTC (Confederação Francesa dos Trabalhadores Cristãos), atraindo a participação dos professores.

Depois que Gabão se tornou um país independente em 1960, Saint-Dénis continuou a promover a CFTC entre os educadores, tornando-se representante da organização em reuniões internacionais em Copenhagen, Roma e Bucareste, quando se aproximou de outras organizações socialistas e sindicais que buscavam construir laços com sindicatos africanos.

A ascensão ao poder do Partido Democrático Gabonês – PDG, em 1967, sob o controle de Omar Bongo, pôs sob ameaça a autonomia de uma líder como ela, que aos poucos se afastou da atividade sindical. Sua tremenda capacidade de relacionamento foi direcionada para a promoção de eventos sociais e artísticos, inclusive em festas e espetáculos do governo. Quando se distanciou da vida pública, em meados da década de 1980, recebeu uma pequena pensão, vivendo retirada em um bairro simples de Libreville.

BIBLIOGRAFIA

RACHEL, Jean-Baptiste. Une ville Libre?: mariage, divorce and sexuality in colonial Libreville. Dissertação (Mestrado), Stanford University, 2005.

RICH, Jeremy. A workman is worthy of his meat: food and colonialism in the Gabon Estuary. Lincoln: University of Nebraska Press, 2007.

RICH, Jeremy. “Simone Saint-Denis”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 247-248.


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Legenda: Sindiwe Magona | Rhodes University

Fonte: Rhodes University. Rhodes confers Honorary Doctorate to Dr Sindiwe Magona. 28 de mar. de 2018. Disponível em: https://www.ru.ac.za/latestnews/archives/2018/ rhodesconfershonorarydoctoratetodrsindiwemagona.html. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Sindiwe Magona (1943)

Romancista sul-africana do grupo Xhosa, poetisa, dramaturga, contadora de histórias, atriz e palestrante motivacional, nascida em Gungululu, uma aldeia em Tsolo, na antiga região de Transkei, na atual Província Oriental do Cabo. Formada em pedagogia pela Faculdade de Treinamento de Professores de St. Matthews (1961), graduada na Faculdade de Damelin (1981) e Mestra pela Universidade de Columbia (1983).

Atuou junto à Organização das Nações Unidas – ONU no período de 1984 a 2003, principalmente no Departamento de Informação Pública, na seção de Programas de Rádio Anti-Apartheid.  Sua produção literária compreende uma autobiografia, coleções de contos, romances, peças de teatro e mais de 100 livros infantis e para alfabetização, muitos dos quais publicados nos onze idiomas oficiais sul-africanos.

Sua experiência de vida permitiu que ela abordasse questões relativas às circunstâncias que as mulheres enfrentavam, como a necessidade de deixarem suas casas e filhos em busca de melhores oportunidades e as condições miseráveis da população negra nas periferias das grandes cidades. Parte da sua obra dedica-se à vida cotidiana dos negros. Em contraste com as abordagens de outras autoras sul-africanas contemporâneas, ela lançou o desafio à dominação de gênero dentro da própria comunidade negra.

Seu feminismo se diferencia do das mulheres brancas e ela questiona dados da vida negra produzidos e filtrados por feministas brancas, além de confrontar o privilégio da escrita sobre a oralidade. Entre suas obras estão To My Children (Para meu filho) (1994), Mother to Mother (De mãe pra mãe) (1998), Beauty’s Gift (Presente de beleza) (2008) e Awam Ngqo (2009).

Sindiwe recebeu diversos prêmios pelo seu trabalho, como um doutorado honorário pela Faculdade Hartwick, em Nova York (1993), o Prêmio Heróis Xhosa (1997) e a Fita Branca pelo grupo Women Demand Dignity, em virtude do seu romance sobre os desafios das mulheres sul-africanas na sua luta contra o HIV/AIDS (2008).

BIBLIOGRAFIA

ATTWELL, David; HARLOW, Barbara. Interview with Sindiwe Magona. Modern Fiction Studies, v. 46, n. 1, p. 282-295, 2000.

KOYANA, Siphokazi.  Sindiwe Magona: the first decade. Scottsville: Universidade de KwaZulu-Natal Press, 2004.

KOYANA, Siphokazi. “Sindiwe Magona”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 32-33.


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Legenda: Siti Binti Saadi

Fonte: Mkuki na Nyota Publishers. 01 de set. de 2020. Facebook: @MkukinaNyota. Disponível em: https://www.facebook.com/MkukinaNyota/photos/a.619099371477717/3155542861166676. Acesso em: 28 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Área swahili

Siti Binti Saadi (1880–1955)

Cantora tanzaniana, filha de agricultores pobres de Zanzibar. Batizada como Mtumwa, termo que em suaíle significa “escravo”, nasceu em um período em que cerca de três quartos da população de Zanzibar era comercializada pelos mercadores árabes e afro-muçulmanos.  

A popularidade local e regional de Siti ocorreu não apenas por causa de sua voz e da música, mas também do fato de ter se tornado um ícone para pessoas de origem pobre e servil “sobreviverem” no início do século XX após a abolição da escravidão. Siti foi vocalista feminina em uma banda que se tornou a primeira da África Oriental a gravar e produzir um disco de gramofone. Considerada por muitos como a mãe da música contemporânea taarab, ela popularizou o canto da poesia kiswahili com acompanhamento de instrumentos musicais originários da Arábia.

 Adulta, começou a estudar o Alcorão, aplicando seus talentos como vocalista na recitação. Na década de 1910, ela era uma das mais procuradas intérpretes de leituras corânicas para casamentos e outras ocasiões em Zanzibar. No decorrer de uma de suas recitações, um destacado membro da sociedade de Zanzibar ficou tão emocionado pela recitação do Livro por Mtumwa, que lhe conferiu o título de “Siti”, que significa Senhora, que a partir daquele momento passou a ser parte e seu nome.

Em 1928 ela viajou de Zanzibar com sua banda para Bombaim, Índia, onde gravou centenas de músicas. Essas gravações venderam quase 72 mil cópias de discos nos três anos seguintes, espalhando o nome de Siti e a fama do taarab por toda a África Oriental, Oceano Índico e Arábia.

Por seu sucesso como artista, Siti tornou-se uma das mulheres mais influentes e respeitadas na África Oriental do início do século XX. Muitas de suas canções abordam questões de desigualdade econômica, discriminação de gênero e o chauvinismo das autoridades coloniais britânicas.

BIBLIOGRAFIA

FAIR, Laura. Pastimes and politics: culture, community and identity in post-abolition urban Zanzibar, 1890-1945. Athens: Ohio University Press, 2001.

FAIR, Laura. “Siti Binti Saadi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 403-404.

SHAABAH, Robert. Wasifu wa Siti binti Saad. Dar es-Salaam: Mkuki na Nyota, 1991.


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Legenda: Mulher do Egito (1797)

Fonte: Los Angeles County Museum of Art. Disponível em: https://collections.lacma.org/node/208621. Acesso em: 20 de jan. de 2021.
Palavras-chave: Regentes

Sitt al-Mulk (970–1023)

Princesa da dinastia Fatímida, a dinastia xiita que governou o Egito durante os séculos X-XII. Nascida em al-Mansuriyya, era filha do príncipe Nizar Abu Mansur, que mais tarde se tornou o califa al-Aziz (“o poderoso, glorioso” em árabe), e de uma cristã cujo nome permanece no anonimato. Em 971, sua família transferiu-se para o Cairo, a nova capital da dinastia Fatímida.

Sitt al-Mulk foi criada em grande fausto.  O historiador egípcio al-Maqrizi registrou que ela tinha cerca de 4.000 escravas a seu serviço, mantidas em seu luxuoso palácio. Por sua alta posição na família real Fatímida ela foi proibida de casar, mas gozou de grande influência e poder na vida política da época, tendo desempenhado um papel fundamental na sucessão do califado, quando da morte de seu pai, e mais tarde de seu irmão.

Quando o seu pai faleceu em 996 ela tentou um malsucedido golpe para impedir que seu irmão, al-Hakim, de apenas onze anos, assumisse o califado, mas foi impedida pelo eunuco de seu irmão, Barjawan, que posteriormente assumiu o cargo de primeiro-ministro. Depois voltou a estabelecer uma relação de proximidade com o novo califa. Al-Hakim lhe concedeu terras e uma renda anual de 10.000 dinares. Quando Barjawan morreu ela recuperou sua influência e entrou em conflito com al-Hakim em 1013, e passou a disputar sua autoridade, sendo, entretanto, afastada da corte.

Al-Hakim foi assassinado alguns anos mais tarde, o que recolocou Sitt al-Mulk em posição de vantagem. Por esta razão, alguns cronistas da época a acusaram de envolvimento na morte do irmão, mas não há evidências de que ela tenha sido responsável pelo assassinato.

Como Sitt al-Mulk tinha sido parcialmente responsável pela criação do sobrinho, al-Zahir, ela garantiu que ele se tornasse califa e assumiu a direção do governo como regente, governando até sua maioridade, período em que ela reverteu muitas das restrições religiosas aprovadas por seu irmão, além de realizar uma reforma tributária e econômica no Egito.

BIBLIOGRAFIA

BAKER, Christine. “Sitt al-Mulk”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 404-405.

CORTESE, Delia; CALDERINI, Simonetta. Women and the fatimids in the world of islam. Edinburg: Edinurg University Press, 2006

DAFTARY, Farhad. The ism‘ilis: their history and doctrines. Cambridge: Cambridge University Press, 2007.


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Legenda: Sizani Ngubane

Fonte: Hans Thoolen on Human Rights Defenders and their awards. 07 de jan. de 2020. Disponível em: https://humanrightsdefenders.blog/2020/01/07/more-about-mea-finalist-sizani-ngubane-from-south-africa/. Acesso em: 16 de fev. de 2021.
Palavras-chave:

Sizani Ngubane (1946-2020)

Nascida em KwaMpumuza, uma comunidade rural nas proximidades de Pietermaritzburg, na Província de KwaZulu Natal, atual República da África do Sul. Desde a infância experimentou a opressão resultante da articulação de diferentes lugares de subalternidade que vivenciou, expressos numa frase que costumava dizer: “sou do campo, sou pobre, sou negra e, é claro, sou mulher”.

Ainda na infância, em pleno regime segregacionista do Apartheid,  Sizani Ngubane testemunhou diversas situações de discriminação e violência que recaíram sobre sua mãe, por parte dos parentes do sexo masculino e de seu próprio pai. Segundo consta, em 1965, quando tinha dezenove anos, ela e a mãe foram expulsas da terra em que moravam por força das pressões feitas por seus tios, já que o próprio pai anos antes tinha cometido suicídio em Johanesburgo. Isto porque o direito costumeiro vigente não reservava  às mulheres a capacidade jurídica de obter e transmitir títulos de propriedade de terras, a não ser mediante a intermediação de parentes ou congêneres masculinos.

Desde a década de 1980, Sizani fez parte dos quadros do African National Congress – ANC (Congresso Nacional Africano), dirigindo os seus esforços para a organização das mulheres do campo. Junto com outras lideranças, foi uma das fundadoras do Rural Women’s Movement – RWM (Movimento de Mulheres Rurais) no final da década de 1980, cujos esforços iniciais dirigiam-se para a erradicação da violência política do regime instituído e o estabelecimento da paz.   

Tendo sido vista desde a metade da década de 1990 como representante das mulheres camponesas, veio a ser convidada a participar de fóruns e reuniões em que, junto com outras representações, foram traçadas as bases da reconstrução da África do Sul no período pós-Apartheid. Foi Coordenadora Províncial da Coalização Nacional de Mulheres da África do Sul em 1991,  responsável pela preparação de uma Carta das Mulheres para a Igualdade Efetiva, e ajudou a definir vários pontos com reivindicações de direitos que foram incorporados em uma seção reservada às mulheres rurais e indígenas na Constituição da África do Sul em 1996.

Como ativista e líder comunitária, sua atuação no Movimento de Mulheres Rurais –  RWM  ganhou força no final da década de 1990, quando a organização passou a ter mais de 50.000 filiadas. O objetivo era, além da luta pelo direito das mulheres ao acesso à terra, a erradicação da violência contra as mulheres, a promoção de comunidades rurais soberanas, saudáveis e democráticas. O movimento oferecia e oferece treinamento  para mulheres em agricultura sustentável, geração de renda, construção de confiança e apoio mútuo, dando-lhes apoio em períodos de crise e de dificuldade e garantindo-lhes assistência jurídica em casos de discriminação e preconceito de gênero na alocação de terras. O principal foco de ação diz respeito aos direitos comunitários tradicionais, nos quais as mulheres eram excluídas do direito de propriedade e transmissão de propriedade da terra, nem tinham reconhecido o direito de acesso aos tribunais.

Por sua liderança, Sizani Ngubane sofreu inúmeros ataques pessoais e contra a sua família. Em 1993 sua casa foi atacada e um de seus irmãos morreu à tiros. Outros ataques ocorreram em 1998, 2000 e  2010, momentos em que, junto com os seus, teve que fugir para salvar a vida.  Por outro lado, ela recebeu diversos prêmios na África do Sul e em outros países, sendo reconhecida mundialmente como defensora dos direitos humanos, pela ONG CSW Woman of Distinction (2018) e como finalista  do Prêmio Martin Ennals (2020).

No dia 23/12/2020, aos setenta e quatro anos, a uGogo (que significa avó na língua isiZulu) Sizani Ngubane faleceu em decorrência da pandemia global de COVID-19.

BIBLIOGRAFIA

BARBOSA, Viviane Oliveira. Gênero, identidades e mobilização  na África do Sul. In:  XXV Simpósio Nacional de História, ANPUH (Fortaleza, 2009): https://anpuh.org.br/uploads/anais-simposios/pdf/2019-01/1548772192_eece35f734a2a47feebf63e57e17d220.pdf Acesso em 12/02/2021.

MEINTJES, Sheila. The women’s struggle for equality during South Africa’s transition to democracy. Transformation, v. 30, 1996.

Sizani Ngubane: the impact of traditional authority on rural women in South Africa: https://www.youtube.com/watch?v=Bd1cA70qQho  Disponibilizado no YouTube em 10/10/2014. Acesso em 12/02/2021.

WALKER, Cherryl. Land reform and gender in Post-Apartheid South Africa. In: United nation Research Institute for Social Development (UNRISD), 1998.


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Legenda: Sobeknefru

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Statue_of_Sobekneferu_(Berlin_Egyptian_Museum_14475).jpg. Acesso em: 21 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Sobeknefru (século XIX a.C.)

Também identificada pelo nome de Sobekneferu ou Neferusobek, que significa, literalmente “Beleza de Sobek”. Foi a sétima e última governante da 12ª dinastia e, ao que parece, a primeira mulher conhecida a governar como faraó, tendo adotado os títulos e insígnias tradicionais da monarquia faraônica. Foi por isto chamada de “Amada de Rá”, de “Senhora das duas terras”, de “Sobek a perfeita” e outros qualificativos distintivos.

Ela administrou diretamente o Egito no período de 1799-1795 a.C. Era filha do faraó Amenemhat III (c. 1860-c.1814) e meia-irmã de Amenemhat IV, com quem, seguindo o costume, foi casada. Como este último governante morreu sem deixar um herdeiro, ela assumiu o governo. Por não ter tido filhos, seu reinado sinalizou o fim de sua dinastia e o início da 13ª dinastia. 

Sobekneferu poderia ter sido a responsável direta pela construção do complexo monumental do templo de Amenemhat III, em Hawara. Porém, poucos monumentos e representações iconográficas fazem referência a ela.

Ao que parece, um busto desaparecido durante a II Guerra Mundial que estava no acervo do Museu Egípcio de Berlim poderia constituir uma das raras representações dela, e alguns pequenos registros pictóricos podem ter sido feitos em sua memória. Outra peça importante é o “Dorso de Sobekneferu”, pertence ao Museu do Louvre, na França. Ao todo, restam cinco imagens dela, embora o seu nome e o seu governo constem nas mais conhecidas listas reais. Nem o seu túmulo e nem a sua pirâmide foram até o momento descobertos.

BIBLIOGRAFIA

DODSON, Aidan;  Dyan Hilton. The complete royal families of Ancient Egypt. Londres: Thames & Hudson, 2004. 

GRAJERZKI, W. The Middle Kingdom of Ancient Egypt: history, archaeology and society. Londres: Duckworth, 2006.

HILL, Brandi D. A study of royal female power and political influence in Ancient Egypt: contextualizing queenship in the twelfth dynasty. Doctoral thesis, Swansea University, 2019. Disponível em: http://cronfa.swan.ac.uk/Record/cronfa51920


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave:

Sogolon Kedju (século XIII)

De acordo com as tradições orais de língua mandê, na África ocidental, em particular na Guiné-Conacri e no Mali, Sogolon Kedju ou Sogolon Kuduman, também referenciada como “Sogolon a feia”, “Sogolon, a corcunda” ou “Sogolon, a escrofulosa”, era a mãe de Sundjata Keira, o herói unificador dos povos Mandingas após a vitória na Batalha de Kirina, em 1235.

Sogolon descendia de uma entidade sobrenatural, Dô-Kamissa Kondé, a Mulher-Búfalo que atormentava o reino de Dô, na região do Rio Sankarani. Dois caçadores da linhagem Traorê teriam descoberto o seu segredo e a mataram, mas antes assumiram o compromisso de levar a filha e protegê-la, o que fizeram e a entregaram ao rei Maghan Kon Fatta, que a tomou como uma de suas esposas. Isto despertou a ira da primeira-esposa, Tassouma Beretê (ou Sassouma Beretê), a mãe do herdeiro do trono, Dankaran Touman, que temia a concorrência  ao trono da descendência de Sogolon.

Como Rainha-Mãe, Sogolon desempenha importante papel na legenda de Sundjata, na formação, iniciação às tradições e orientação espiritual do filho, pois detém conhecimentos mágicos. Coube a ela ensinar-lhe  o segredo das plantas que curam, a intermediar o contato dele com os espíritos ancestrais e djinns. Por causa disso, permaneceu na memória popular dos mandingas, sendo representada na estatuária em terracota, onde se pode ver em diversa peças mulheres deformadas e/ou escrofulosas com indicações de maternidade.

BIBLIOGRAFIA

BOUTTIAUX, Anne-Marie; CHYSELS, Marc. Sogolon, la scrofuleuse. L’Épopée de Soundjata passée aux rayons X. Tribal Art, Bruxelles, v. XIX:2, n. 75, p. 88-101, 2015.

NIANE, Djibril Tamsir. Sundjata ou a epopeia mandinga. São Paulo: Editora Ática, 1982.

CISSÉ, Youssouf Tata; KAMISSOKO, Wa. La grande geste du Mali: 1- des origines à la fondation de l’Empire. Paris: Karthala-Arsan, 2000.


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Legenda: Irmã de Sokhna Magat Diop

Fonte: Blog Eric Ross, academic: The Iyakhine Temple in Thiès, Senegal. 05 de jan. de 2011. Disponível em: https://ericrossacademic.wordpress.com/ 2011/01/05/the-iyakhine-temple-in-thies-senegal/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Sokhna Magat Diop (1917–2003)

Líder religiosa  (khalif) nascida em Thiés, Senegal. Era a filha mais velha do serigné chamado Adoulaye Yakhine Diop, de um dos ramos da confraria múrida, a Irmandade Sokhana, e de Tanara Cissé, pertencente à nobreza mandinga de Gâmbia. O pai era discípulo de Cheikh Ahmadu Bamba, e em 1914 fundou uma comunidade em Thiés. Era o terceiro nome mais importante do movimento múrida, sendo declarado mahdi – o líder espiritual renovador do islã.

Sokhna sucedeu o pai em 1943 e chefiou a comunidade múrida até sua morte, conquistando o respeito e a admiração por sua ascese e misticismo, por sua piedade e habilidades organizacionais.  Passou a viver em Touba, onde mandou construir uma grande mesquita, considerada a maior da África ocidental,  e, com o apoio das irmãs, organizou a comunidade em associações (daairas) em Dakar e Thiés, organizando as atividades cotidianas, cerimônias e peregrinações.

Seus seguidores consideram que ela herdou o Baraka – termo sufi que significa algo como o sopro ou a pulsação de vida – de seu pai e da linhagem nobre da mãe. Seu status de santidade foi muito reforçado pelo estilo de vida ascético e místico. Apesar do volume de responsabilidades e da agitação com as obrigações religiosas, ela levou uma vida reclusa, em boa parte do tempo em oração e meditação, lendo os escritos de Ahmadu Bamba e de seu pai, ou conduzindo  retiros místicos conhecidos como khalwah, que incluem sessões de orações, interpretação de sonhos, visões e abstinência que podem levar quarenta dias.

Passou por três casamentos, com Cheikh Ibra Fall, Masamba M’Backé e e Cheikh Atta M’Backé, sucessivamente falecidos, o último deles em 1983. Ao morrer, Sokhna transferiu o seu califado  para a irmã mais jovem, Sokhna Seybatou Aidara.

BIBLIOGRAFIA

BOP, Coudou. Roles and the position of women in sufi brotherhoods in Senegal.  Journal of the American Academy of Religion, v. 73, n. 4, p. 1099-1119, 2005.

COULOUN, Christian; REVEYRAND, Odile. L‘islam au féminin: Sokhna Magat Diop, cheikh de la confrérie mouride (Sénégal). Bourdeaux: Université de  Bourdeaux – Centre d’Étude d’Afrique Noire, 1990.

GEMMEKE, Amber. “Sokhna Diop”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 223-224.


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Legenda: Sophoniba | Giambattista Pittoni (séc. XVIII)

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Giambattista_Pittoni-Sophonisba.jpg. Acesso em: 15 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Teatro

Sophoniba (século III a.C.)

Aristocrata cartaginense, era filha de Asdrúbal, o notável comandante cartaginês da Segunda Guerra Púnica. Seu nome também é dado como Sophonisba e Spnb’l (“Baal pronunciou julgamento”).  Hoje tudo o que se sabe sobre ela é o modo de sua morte, preservada em uma tragédia conhecida por Tito Lívio; outros relatos existentes são de Apiano e Dion Cassio.

Ela era educada, conhecia literatura e música, e ficou lembrada por seu grande charme. Chegou a ser noiva de Massinissa, o grande rei da Numídia, mas acabou se casando com Syphax, um importante chefe rebelde da Numídia. Quando ele e ela foram capturados pelos romanos em 203 a.C Massinissa tentou, em vão, resgatá-la, e então, para evitar um destino pior para ela enviou-lhe veneno que ela bebeu. Depois Sophoniba foi enterrada com um digno funeral real. 

Este escasso relato parece ter excitado a imaginação grega e romana, pelo seu caráter dramático. A morte trágica de Sophoniba foi encenada em uma peça em 148 a.C., e lembrada nos textos dos autores romanos acima mencionados.

A morte de Sophoniba tornou-se comum na arte. O mais notável exemplo é uma pintura mural na Casa de Giuseppe II em Pompeia, datada do primeiro quartel do século I a.C., onde se vê mulher em trajes reais em um sofá segurando uma grande taça de metal enquanto outra personagem real olha por cima do ombro. Em tempos mais recentes, Sophoniba tem sido objeto de inúmeras representações artísticas em pintura, teatro e ópera.

BIBLIOGRAFIA

DOREY, T. A. Massinissa, Syphax, and Sophoniba. Proceedings of the African Classical Associations, v. 4, p.  1–2, 1961.

HORN, Hein Gunther; RUGER, Christoph B. (Eds.). Die numider. Colônia: Reinhard-Verlag, 1979.

ROLLER, Duane W. “Sophoniba”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p.  441-442.


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Legenda: Souad Triki

Fonte: Tunisie-Tribune. Femmes et Egalité dans l’Héritage : le combat des Tunisiennes se poursuit. 08 de mar. de 2018. Disponível em: https:// www.tunisie-tribune.com/2018/03/08/femmes-et- egalite-dans-lheritage-le-combat-des-tunisiennes-se-poursuit/. Acesso em: 23 de dez. de 2020.

Souad Triki (1948)

Nascida em Túnis, capital da Tunísia. O pai era enfermeiro e chefe de serviço no Hospital Ernest Couteil e a mãe permaneceu até o fim da vida no serviço doméstico do lar. Estudou o primário e o secundário em escolas na capital, e desde aquele momento recusou-se a usar o véu. No início dos anos 1970 cursou Economia na Universidade de Paris, onde também completou o mestrado (1975) e desenvolveu estudos de doutorado.

Nos anos 1980 Souad Triki ingressou na vida universitária tunisiana, vindo a atuar como pesquisadora no Centre National d’Études Industrielles (Centro Nacional de Estudos Industriais) e foi professora assistente na Universidade de Túnis, antes de prestar concurso no Departamento de Economia do Institut National Agronomique de Tunisie – INAT (Instituto Nacional Agronômico da Tunísia).

Paralelamente, ingressou na vida política, com militância no Partido Comunista e na União Geral dos Trabalhadores, mas aos poucos se alinhou aos movimentos feministas, primeiro no Club Tarar Haddad (1979-1980), depois na criação da Revista “Nissa” (Mulher) (1983-1986) e na fundação da Association Tunisienne des Femmes Démocratiques –ATFD (Associação Tunisiana das Mulheres Democratas) (1989) e a Association des Femmes Tunisiennes Pour la Recherche sur le Développement – AFTURD (Associação das Mulheres Tunisianas para a Pesquisa e o Desenvolvimento) (1989), que ela presidiu de 1999 a 2006.

Em sua trajetória como militante e como pesquisadora, destaca-se pelas pesquisas em economia e estatística que permitiram um mapeamento das condições de trabalho e salário das mulheres na Tunísia, em particular o trabalho doméstico e o trabalho não assalariado. Também participou dos debates sobre as reformas do código de família e sobre a aquisição de direitos civis no âmbito de uma sociedade como a tunisiana, marcada pelos preceitos corânicos.

Participou ativamente da Revolução de Jasmin, o conjunto de manifestações ocorridas entre 2010-2011 que levaram à queda do regime de Zine el-Abidine Ben Ali, que governava o país desde 1987. Na ocasião ela foi eleita vice-presidente da comissão que preparou as eleições para a Assembleia Nacional Constituinte.

BIBLIOGRAFIA

LOCH, Thérèse; MERON, Monique. Souad Triki, une feministe pour la démocratie en Tunisie. Travail, Genre et Sociétés, n. 38, p. 5-25, 2015.


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Legenda: Specioza Wandira Kazibwa | UN Photo / Eskinder Debebe

Fonte: United Nations Photo. Disponível em: https://dam.media.un.org/. Acesso em: 23 de dez. de 2020.

Specioza Wandira Kazibwa (1955)

Vice-presidenta de Uganda. Estudou no colégio católico Mount Sinai Saint Mary’s Namagunga, um internato feminino na cidade de Lugazi, formou-se com destaque nos exames do ensino médio e em 1974 ganhou um lugar na Universidade Makerere, a principal instituição de ensino na África Oriental, onde obteve o grau de bacharela em Medicina Humana e Cirurgia. Também fez Mestrado em Medicina na mesma instituição, especializando-se em Cirurgia Geral e qualificando-se como Médica Consultora, e obteve o Doutorado pela Universidade de Harvard.

Kazibwa começou sua carreira política como membro da ala jovem e juvenil do Partido Democrático de Uganda. Nos anos 1980, tornou-se membro do Movimento Nacional pela Resistência, liderado por Youweri Museveni, que mais tarde se tornou presidente de Uganda.

Specioza Kazibwa foi uma das mulheres nomeadas para servir no gabinete em 1989, quando se tornou Vice-Primeira-Ministra e Ministra da Indústria, cargo que ocupou até 1991. Ela foi promovida a Ministra do Gênero e Desenvolvimento Comunitário (1991-1994) e passou a ocupar assento no Parlamento como representante de Kigulu, no sul do distrito de Iganga.  Desempenhou papel fundamental na introdução de cláusulas com direitos das mulheres na redação da nova constituição de Uganda (1994-1995), e na ampliação de sua representatividade nas instâncias legislativas.

O ponto alto de sua carreira pública ocorreu entre 1996 e 2000, quando ela assumiu o cargo de Vice-Presidenta do país e Ministra da Agricultura, Industria Animal e Pesqueira. Tratava-se de um setor importante, considerando que Uganda tem estrutura basicamente agrária, e que as mulheres são responsáveis por 80% da produção rural.

A principal contribuição de Kazibwa para o povo de Uganda e o continente foi defender a causa das mulheres africanas. Em 1998, ela trabalhou em estreita colaboração com a extinta Organização da União Africana para estabelecer o Comitê das Mulheres Africanas para a Paz (AWCPD), do qual ela se tornou presidenta.

BIBLIOGRAFIA

ASEKA, E. M. Transformational leadership in East Africa: politics, ideology and community. Kampala: Fountain Publishers, 2005.

KANYORO, Musimbi R. A.; ROBINS, Wendy S. R. (Eds.). The power we celebrate: women’s stories of faith and power. Genebra: WCC Publications, 1992.

KIRUTHU, Felix Macharia. “Specioza Wandira Kazibwa”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 319-320.

TRIPP, Aili M. The politics of autonomy and cooptation in Africa: the case of the Uganda Women’s Movement. Journal of Modern African Studies, v. 39, n. 1 p.  101-128, 2001.

TRIPP, Aili M.. Women and politics in Uganda. Kampala: Fountain Publishers, 2000.


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Legenda: Stella Piedade Mendonça

Fonte: Stella Mendonça. Disponível em: http://www.stellamendonca.com/ biography.html. Acesso em: 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Stella Piedade Mendonça (1970)

Nascida em Nampula, no Distrito de Membra, Moçambique, é uma cantora lírica moçambicana de reconhecimento internacional.  Realizou os seus estudos iniciais na cidade de Beira. Com carreira artística dedicada à ópera, é uma soprano e se especializou no repertório de bel canto.Recebeu sua educação vocal no Conservatório Nacional de Música e Dança de Lyon,  na França, com uma bolsa integral e, posteriormente, estudou com Dennis Hall, Ernst Haefliger , Magda Olivero . Estudou Lieder com VerenaSchwermer e Peter Berne. 

Stella reside na Suiça desde 1993, onde dirige o Studio diBelcanto. Em sua carreira, representou Mimi da ópera La bohème, de  Giacomo Puccini , e  Bess, da ópera Porgy and Bess, de  George Gershwin.  

Em 2001-2002, colaborou com o cantor de ópera Mark Jackson na adaptação de Carmen, de Georges Bizet, produziu a ópera e estrelou o papel principal durante performances no Centro Cultural da Universidade Eduardo Mondlane, e na cidade de   Beira. 

BIBLIOGRAFIA

AZEVEDO, Vera. Moçambique em cena: nação, género e modernidade no teatro: Maputo, 1992-2010. Dissertação (Mestrado em Antropologia), Instituto de Ciência Sociais, Universidade de Lisboa, 2010: https://core.ac.uk/reader/12425980

SOROMENHO, Sofia. Dançar as vicissitudes de uma nação. Tradição e contemporaneidade na Companhia Nacional de Canto e Dança de Moçambique: transacções criativas e debates identitários em Gold, de Rui Lopes Graça. Dissertação (Mestrado),  Universidade Técnica de Lisboa, 2013.


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Legenda: Mulher da Tunísia (1888)

Fonte: The New York Public Library. Disponível em: https://digitalcollections.nypl.org/items/510d47e1-3daf-a3d9-e040-e00a18064a99. Acesso em: 19 de jan. de 2021.
Palavras-chave:

Su’da (século XI)

Personagem que se confunde com as lendas de fundação de seu povo, a princesa berbere Suda foi imortalizada como a protagonista da saga dos Banu Hilali no texto escrito em língua árabe denominado Sira al Hilaliyya, que descreve a chegada de um ramo do povo árabe no Magrebe no século XI.

Segundo consta na parte deste livro denominada taghriba, os Banu Hilali teriam sido enviados à região da atual Tunísia como forma de punição aos berberes por sua insubmissão ao califado Fatímida no Cairo. Apresentada como filha de al-Zenati, um rei mítico berbere, Suda se apaixona pelo príncipe árabe Mari, que era prisioneiro de seu tirânico pai, e tenta ajudá-lo contra a vontade do pai.

A narrativa, encontrada em diversas versões, apresenta variantes do enredo. Na versão egípcia, quando o pai da princesa falece, ela é cortejada pelo general árabe Diyab, que é amigo do prisioneiro Mari, ambos passam a disputá-la, e o destino de Su’da acaba sendo decidido em uma corrida de cavalos. O general vence, mas ela o rejeita e ele a mata.

A taghriba de Su’da é de grande valor histórico devido ao seu retrato da luta entre os árabes e os berberes. A personagem representa um arquétipo da mulher berbere e da relação tensa e complexa deste povo com os árabes.

Existe ainda uma relação de analogia entre a princesa e a personagem Dido, rainha mítica de Cartago, amante do príncipe troiano Enéias, conforme narrado na Eneida, obra prima do escritor latino Virgílio. Da mesma forma que na narrativa da princesa cartaginense, a princesa Suda incorpora o mito formador do povo berbere.

BIBLIOGRAFIA

BERQUE, Jacques. Du nouveau sur les Bani Hilal. Madrid: Instituto de Estudios Africanos, 1995.

FROMHERZ, Allen J.. “Su’da”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 465-466.

NORRIS, H.T. The berbers in arabic literature. Londres: Longman, 1982.


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Legenda: Suad al-Badawi

Fonte: Women Economic Forum. Disponível em: https://www.wef.org.in/suad-al-fatih-mohammed-al-badawi/. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Suad al-Badawi (1932)

Suad al-Fatih Mohammed al-Badawi é uma intelectual sudanesa, educadora, líder política, defensora das mulheres.  Nasceu na cidade de El Obeid, Província de Kordofan, e foi criada por uma família islâmica. Seu avô, al- Shaykh Mohammed al-Badawi, foi proeminente acadêmico islâmico. O pai era um chefe local que assumiu o governo após a independência do Sudão.

Educada formalmente em escolas ocidentais em diferentes cidades do país, obteve seu diploma de bacharelado pelo Gordon Memorial College, em Cartum, com graduação na Faculdade de Artes (1956). Obteve o Bacharelado em Árabe (1958), Mestrado em Árabe pela School of Oriental and African Studies da Universidade de Londres (1961), e Doutorado em árabe na Universidade de Cartum (1981). Algum tempo depois, realizou estágio pós-doutoral na Universidade de Edimburgo (1991-1992).

De retorno ao Sudão, Suad al-Fatih foi nomeada chefe do Departamento de História no Instituto de Treinamento de Professores para a Escola Intermediária, e mais tarde ela se tornou inspetora de educação no Ministério da Educação. Atuou como consultora para a UNESCO na Arábia Saudita (1969), trabalhou como especialista na educação de meninas na Arábia Saudita, e dirigiu diversas instituições de ensino. Em 1980, passou a lecionar como professora associada de Árabe na Universidade Islâmica de Omdurman, no Sudão, e trabalhou como vice-chanceler adjunta da Universidade dos Emirados Árabes. Em 1983, assumiu a Reitoria da Faculdade para Meninas da Universidade Islâmica de Omdurman, sendo a primeira mulher sudanesa a manter essa posição.

Paralelamente, participou de diversas entidades e instituições, sendo uma das fundadoras da União das Mulheres Sudanesas e membro de seu comitê executivo, onde ela servia como tesoureira (1951). Devido a divergências de linha de atuação, Suad e outras abandonaram a União das Mulheres Sudanesas, e fundaram a Frente Nacional de Mulheres, que enfatizava valores islâmicos (1964), entidade que ela presidiu durante muito tempo. Também foi fundadora da revista al-Manar, onde trabalhou como editora-chefe, e depois foi colunista em numerosos jornais diários sudaneses, incluindo al-Ayam, al-Rai al-Am, e al-Sudan al-Jadeed.  Em sua trajetória e ativismo, procurou conciliar reivindicações progressistas dos direitos das mulheres nos limites do que prescreve o islã.

Na década de 1990, manteve o vínculo com diversas entidades representativas de mulheres muçulmanas, e desempenhou a função de secretária geral da União Internacional das Mulheres Muçulmanas, sediada no Paquistão (1995-2000). Dentro do próprio país, desempenhou vários postos junto ao governo, nas áreas de educação, pesquisa e assuntos relacionados com mulheres e crianças. Passou a representar o Sudão no Parlamento Pan-Africano na África do Sul (2004).

Por sua trajetória acadêmica e sua vida pública, recebeu mais de vinte prêmios e honrarias oferecidas pelo governo ou por Organizações Não Governamentais, como o Prêmio Dois Nilos e a Estrela Dourada para Ciências e Artes, e o Escudo de Excelência do governo da Arábia Saudita, a Medalha Pioneira de Excelência dos Emirados Árabes Unidos, a Medalha Dourada para Mulheres Árabes Pioneiras do rei do Bahrein, e uma filiação honorária do Clube de Jornalistas Britânicos.

BIBLIOGRAFIA

HALE, Sondra. Gender politics in Sudan: islamism, socialism and state. Boulder: Westwiew Press, 1996.

HALL, Marjorie; ISMAIL, Bakhita Amin. Sisters under the sun: the story of sudanese women. London; Nova Iorque: Longman, 1981.

MUHAMMAD, Baqi’e Badawi. “Su’ad al-Fatih Mohammed al-Badawi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 339-340.


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Legenda: Suad Ibrahim Ahmed

Fonte: Black Women Radicals. 30 de abr. de 2020. Facebook: @blackwomenradicals. Disponível em: https://www.facebook.com/blackwomenradicals/photos/a.696696650806862/855460421597150. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Suad Ibrahim Ahmed (1935–2013)

Educadora sudanesa e advogada, ativista dos direitos das mulheres, direitos humanos e democracia. Nasceu em Omdurman, uma das três cidades que, junto com Cartum e Cartum do Norte, constituem as capitais do atual Sudão. Seu pai, Ibrahim Ahmed, era engenheiro, professor universitário e destacada liderança na luta pela independência do país frente aos britânicos. Ela frequentou a escola de freiras católicas de Cartum, a Escola Secundária para meninas de Omdurman (1949), e em 1955 foi aceita na Universidade de Cartum. Durante o curso universitário, começou a participar ativamente da vida literária e artística (1956-1957), e ingressou no movimento estudantil e no debate político

Logo após a conclusão do curso, em 1960, Suad foi destacada para integrar uma equipe de pesquisa sobre a região em que viria a ser construída a Barragem de Assuã, no Egito, mas ao se juntar à população local que protestava contra esta construção, foi presa, demitida do emprego e deportada para o seu país.

Quando retornou a Cartum, ingressou no jornal Women’s Voice (Voz das Mulheres), vinculado à União de Mulheres Sudanesas, e passou a lecionar na escola de ensino médio Al-Ahfad. Com uma bolsa de estudos, realizou estudos de Mestrado em Estatística e Cálculo e em Psicologia Educacional na Universidade de Wisconsin em Madison (1963). A seguir, de volta ao Sudão, começou a lecionar na Escola de Estudos de Extensão na Universidade de Cartum, onde organizou um grupo de acadêmicos vinculados ao socialismo, e onde se envolveu intensamente a partir de 1964 nas reivindicações pela ampliação da representatividade feminina no mundo acadêmico.

Da segunda metade da década de 1960 em diante ela foi designada representante da Universidade de Cartum em um evento em Nairobi que deu origem à Associação de Educação para Adultos da África, e passou a atuar como consultora da UNESCO em projetos e programas sobre a Educação de Adultos, Tecnologia da Educação e Educação Superior. Também coordenou trabalhos e cursos especiais de educação de mulheres, e produção de material pedagógico áudio-visual destinado à educação de mulheres e crianças.

Devido à sua posição de liderança no comitê central do Partido Comunista Sudanês, rompeu com a União de Mulheres Sudanesas, por entender que a postura liberal das demais integrantes não era suficiente para trazer a emancipação das mulheres sob o regime islâmico, entrando em conflito com a posição tendencialmente mais conciliadora e conservadora de Fatima Ahmed Ibrahim. A partir de 1969, quando um regime militar foi instaurado no Sudão, ela criticou abertamente as determinações do governo, sendo por isso presa várias vezes durante o governo do ditador Ja’far al-Nimeiry (1971-1985).

BIBLIOGRAFIA

HALE, Sondra. Gender politics in Sudan: Islamism, Socialism, and the state. Nova Iorque; Londres: Routledge, 1997.

HALE, Sondra. Notes on sudanese women’s activism, movements and leadership”. In. Sadiqi, Fatima (Ed.). Women’s movements in post-“Arab Spring” North Africa. Londres: Palgrave Macmillan, 2016.

MUHAMMAD, Baqi’e Badawi. “Su’ad Ibrahim Ahmed”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 131-134.


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Legenda: Dançarina do povo Soolima, Serra Leoa (1820)

Fonte: Slavery Images. Disponível em: http://www.slaveryimages.org/s/slaveryimages/item/1636. Acesso em: 19 de jan. de 2021.
Palavras-chave:

Sudaniyyat

Nome pelo qual os escritores árabes designavam as mulheres negras escravizadas da África saariana, o vocábulo corresponde ao adjetivo “sudan”, um dos termos para designar “negro” na língua árabe. Elas eram vendidas e levadas pelas milhares de caravanas de atravessavam o Deserto do Saara para serem revendidas nas cidades do Magrebe, do lado europeu do Mediterrâneo e do Oriente Médio, onde trabalhavam como serviçais domésticas, como dançarinas e cantoras (kaynat;  kiyam), serviçais palacianas e/ou mesmo eram colocadas em casas de prostituição. Encontra-se aí uma das raízes históricas da erotização do corpo das mulheres negras.

A primeira referência a escravidão feminina na África subsaariana aparece na descrição feita pelo cronista andaluz al-Bakri, no fim do século XI, quando ele descreve o comércio caravaneiro mantido com o reino de Gana, através da cidade saariana de Awdaghost, situada na atual Mauritânia. Diz ele que ali se encontravam excelentes cozinheiras, e uma delas valeria 100 meticais (moedas) ou mais. Elas seriam excelentes quituteiras, seus bolinhos com noz e mel (kata’if) e outros doces eram incomparáveis. Diz ainda que eram muito vistosas, e que o mercador Abu Rustan du Djabal Nafusa o informou ter certa vez avistado uma delas deitada de lado, com o filhinho divertindo-se ao lado dela enquanto passava por baixo de suas costas de um lado para outro, “tão fina era a cintura e tão grande era o quadril”.

Com o desenvolvimento do comércio transaariano a procura por cativos (as) aumentou gradualmente, e a preferência por mulheres (jawari) e por pessoas jovens (fityan) de cor negra conferiu ao tráfico um caráter eminentemente racial e de gênero. Em 1353, quando retornava de sua viagem à corte de Mansa Sulaiman, no Mali, o viajante marroquino Ibn Battuta comprou e devolveu uma mulher que não o agradou, e a caravana do qual ele fazia parte, com destino à cidade de Fez, levava seiscentas delas como cativas.

No Marrocos antes do século XVIII, além do serviço doméstico, as mulheres negras escravizadas pelas famílias influentes eram encarregadas de preparar as noivas e ajudá-las durante o ritual do casamento, preparando-as para a noite de núpcias. Com o tempo, organizaram-se em grupos sob a direção geral de uma líder referida como amina, a qual era sempre uma mulher idosa, rica e respeitada, reconhecida como responsável por todos os grupos de mulheres “casamenteiras”. Outras denominações ou qualificações, em língua local, aplicadas à essas mulheres eram neggafat, “prudentes”, “circunspectas”; e machitat,  “penteadoras”, “roupeiras”.

BIBLIOGRAFIA

ENNAJ, Mohammed. Soldats, domestiques et concubines: l’esclavage au Maroc au XIX siècle. Paris: Balland, 1994 (Collection Le Nadir). 

GOMES, Michael A.. African dominium: a new history of empire in early and medieval West Africa. Princeton; Oxford: Princeton University Press, 2018.


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Legenda: Sue Williamson | Marc Newton & SCAD Museum of Art

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/ File:SAV_2015Fall_Exhibitions_Portrait_SueWilliamson_MN_WEB.jpg. Acesso em: 15 de dez. de 2020.

Sue Williamson (1941)

Artista plástica, escritora e ativista de direitos humanos, nasceu em Lichfield, Inglaterra, em 1941. Sua família emigrou para a África do Sul em 1948, poucos meses antes de o Partido Nacionalista chegar ao poder. Criada no que era então o Transvaal Ocidental, ela estudou jornalismo na Universidade de Natal (1969), obteve um diploma de Belas Artes na Art Students League de Nova York e um diploma de estudos avançados em Belas Artes pela Escola de Belas Artes Michaelis na Cidade do Cabo (1984). Sue Williamson adquiriu cidadania sul-africana em 1990, quando o regime do Apartheid chegou ao fim.

Como artista e ativista, ela se envolveu em organizações de direitos humanos associadas ao movimento antiapartheid, e desenvolveu projetos que tinham por objetivo tornar visíveis as experiências de pessoas e comunidades marginalizadas e racialmente discriminadas. Foi membro fundadora e presidenta do Movimento das Mulheres pela Paz, uma organização de direitos humanos da Frente Democrática Unida), e se envolveu diretamente na luta para impedir a demolição de Crossroads, uma comunidade de posseiros das vizinhanças da Cidade do Cabo. Paralelamente, no período de 1982-1987 criou uma série de retratos que celebravam mulheres sul-africanas que contribuíam para a luta contra o apartheid, em geral mantidas no anonimato Albertina Sisulu, Lilian Ngói, Amina Cachalia, Mamphela Ramphele.

Em outras obras, Sue Williamson deu visibilidade e conferiu valor estético à vida de indivíduos e comunidades deslocadas e destruídas pelo Apartheid.  Na obra A Última Ceia (1981), ela retratou a destruição do Distrito Seis, uma comunidade histórica ocupada por grupos inter-raciais e inter-religiosos na Cidade do Cabo que foi demolida pelo estado. Ela reuniu escombros e objetos quebrados que foram deixados para trás e os apresentou em uma pilha no centro de uma galeria da Cidade do Cabo. A peça de instalação foi acompanhada por uma gravação de som que incluía declarações e memórias de antigos residentes, sons de escavadeiras destruindo casas e chamadas para a oração da mesquita local.

Depois de 1994, seu trabalho tratou dos dilemas e impasses no pós-Apartheid, como o trauma revelado durante a Comissão da Verdade e Reconciliação, na série denominada Truth Games (Jogos da verdade) (1998), e a devastação provocada pela AIDS, na série From the Inside (De dentro) (2000-2002), e a escalada da xenofobia e restrições impostas aos imigrantes na série Better Lives (Vidas melhores) (2003).

Além do trabalho como artista, Sue Williamson atua como crítica de arte. Seu primeiro livro, Resistance art in South Africa (Arte da resistência na África do Sul) (1989, reeditada em 2004), apresenta o perfil da obra de  mais de 100 artistas que dedicaram seu trabalho ao campo de batalha política durante do  Apartheid, tanto alguns aclamados como muitos outros que até então permaneciam no anonimato. O livro fornece um diagnóstico do quanto o regime segregacionista moldou o curso da arte contemporânea na África do Sul. Por seu papel seminal na crítica e consciência artística, seu nome passou a estar vinculado a importantes centros de debate, na fundação que leva o seu nome e na organização de artes da Cidade do Cabo Public Eye (1999).

BIBLIOGRAFIA

ENWEZOR, Okwui;  Chika, Okeke-Agulu. Contemporary african art since 1980.Bolonha: Damiani, 2009.

MILLER, Kim. Trauma, testimony, and truth: contemporary south african artists speak. African Arts, v. 38, n.3, p. 40-51, 2005.

MILLER, Kim. “Sue Williamson”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 173-174.

WILLIAMSON, Sue. Resistance art in South Africa. Cape  Town: Double Storey Books, 1990.


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Legenda: Suzanne Tanella Boni | Foto: Ludovic Péron

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Tanella_Boni_-_salon_du_livre_Gen%C3%A8ve_2012.jpg. Acesso em: 23 de dez. de 2020.

Suzanne Tanella Boni (1954)

Nascida em Abidjan, capital da Costa do Marfim. Frequentou escolas de ensino fundamental e médio no norte do país e seguiu os estudos universitários na França, primeiro na Universidade de Toulouse e depois na Universidade de Paris IV, onde concluiu o Doutorado.

Durante anos lecionou filosofia na Universidade de Cocody, em Abidjan, onde também exerceu outras atividades acadêmicas e administrativas, inclusive como vice-reitora no período de 1993-1997. Neste mesmo período foi presidenta da Associação de Escritores da Costa do Marfim.  Ela participa de diversas comunidades e redes de interlocução intelectual e acadêmica, entre os quais o Instituto Internacional de Filosofia, a Academia de Ciências, Artes e Culturas da África e da Diáspora – ASCAD, e o Grupo de Estudos e Investigações sobre as Mundializações.

Como filósofa e pesquisadora, seus interesses maiores dizem respeito aos direitos humanos; arte, cultura e diversidade cultural; às questões de gênero e da participação feminina na sociedade; as relações entre a ética e a política e o lugar da África no mundo contemporâneo.

É autora de obras de ficção em prosa e em poesia, como o romance Les nègres n’iront jamais au paradis (Os negros jamais irão ao paraíso) (2006). Nas obras de não-ficção, merecem destaque os livros (La diversité du monde: reflexion sur l’écriture et les questions e notre temps (A diversidade do mundo: reflexão sobre a escrita e as questões de nosso tempo) (2010), e o ensaio Que vivent les femmes d’Afrique? (Como vivem as mulheres na África?) (2008), que trata dos lugares sociais das mulheres, do feminismo e das estratégias de resistência em revoltas femininas. Para o público infanto-juvenil, escreveu, entre outros, Myriam Makeba: une voix pour la loberté (Miriam Makeba: uma voz pela liberdade) (2009).

BIBLIOGRAFIA

Tanella Boni. In: Archived: lire les femmes écrivains et les litteratures africaines, 2013: https://aflit.arts.uwa.edu.au/BoniTanella.html


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Legenda: Sy Koumbo Singa Gali

Fonte: SINGA, Sy Koumbo. 6 de dez. de 2019. Facebook: Sy Koumbo. Disponível em: https://www.facebook.com/photo.php? fbid=10220240554673846&set=pb.1527110484.-2207520000..&type=3. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Direitos Humanos Jornalistas

Sy Koumbo Singa Gali (1961)

Jornalista e ativista de direitos humanos. Nasceu em N’Djamena, no Chade. Foi a segunda de dezesseis crianças nascidas em sua família que pertence aos povos falantes de língua Sara e cresceu em Ridina, um bairro pobre da capital.

Estudou no liceu feminino e ao completar o estudo secundário ingressou no Ministério da Informação sob o novo presidente do país, Hisséne Habré (1982), sendo a seguir enviada para formação em Paris, Canadá e Estados Unidos (1984). Formou-se em jornalismo em Dakar e retornou ao país em 1988. Continuou a trabalhar no serviço público até  ascensão do governo de Idriss Déby (1990), quando foi afastada do governo (1993). 

Ingressando no jornalismo, juntou-se  à equipe do jornal Contact, editado por Abderaman Koulamallah, e depois criou o seu próprio jornal, L’Observateur (1997), e passou a divulgar também através da internet. Devido ao perfil crítico, passou a ter problemas com os ocupantes do poder, tendo sido presa em 1998 a mando do poderoso político chadiano Wadel Abdelkader Kamougue sob acusação de difamação. Ela passou um ano na prisão em 2005 após condenação por incitação ao ódio movido pelo governo de Déby, o que despertou protesto da Anistia Internacional.

Sy Coumbo deixou o país em 2006 para atuar como voluntária das Nações Unidas na República Democrática do Congo.

BIBLIOGRAFIA

RICH, Jeremy. “Sy Koumbo Singa Gali”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 412-413.

TUBIANA, Marie-José. Parcours de femmes: Les nouvelles élites, entretriens, 1997-2003. Paris: Sépia, 2004.


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Legenda: Sylvia Tamale

Fonte: VOX Populi. Sylvia Tamale’s scholarship comes of age and she crowns it with a page-turner, Decolonization and Afro-Feminism. 17 de dez. de 2020. Disponível em: https://voxpopuli.ug/sylvia-tamales-scholarship-comes-of-age-and-she-crowns-it-with-a-page-turner-decolonization-and-afro-feminism/. Acesso em: 27 de dez. de 2020.

Sylvia Tamale (1962)

Sylvia Rosila Tamale é destacada intelectual, acadêmica, feminista, e ativista dos direitos humanos ugandense, em particular dos direitos das mulheres e das minorias sexuais. Formada em direito pela Universidade de Makerere, obteve mestrado na Harvard Law School e doutorado em Sociologia e Estudos Feministas pela Universidade de Minnesota em 1997. Atuou como professora visitante na Universidade do Cabo, África do Sul, e na Universidade de Wisconsin. Foi a primeira reitora da Faculdade de Direito e Jurisprudência da Universidade de Makerere, de 2004 a 2008.

Em 2003 ela tomou parte de uma Comissão pela Igualdade de Oportunidades, e propôs que gays e lésbicas fossem incluídos(as) na definição de minorias. Por causa disso, foi objeto de uma campanha de difamação durante semanas pelos conservadores, que a elegeram a “Pior mulher do ano”. Em um dos jornais diários de Kampala, a New Vision, ela foi responsabilizada pela “degeneração moral da nação” e até pelo risco de os(as) adolescentes ugandenses irem para o inferno. 

Como membro do grupo de trabalho no Fórum Feminista Africano – AFF, participa da discussão de estratégias, abordagens e desenvolvimento de redes mais fortes para promover os direitos das mulheres na África. Ela é membro do Conselho Consultivo da Open Society Fondations, uma organização ativa em mais de 120 países que fornece subsídios a indivíduos e grupos para a construção de democracias inclusivas e dinâmicas.

Pioneira nos estudos de gênero e sexualidade em seu país, é autora, entre outras, das obras When hens begin to crow: gender and parliamentary politics in Uganda (Quando as galinhas começam a cantar: gênero e política parlamentar em Uganda) (1999) e Homossexuality: perspectives from Uganda (Homossexualidade: perspectivas para Uganda) (2007).

BIBLIOGRAFIA

TAMALE, Sylvia. When hens begin to crow: gender and parliamentary politics in Uganda. Boulder: Westview Press, 1999.

TAMALE, Sylvia. Homossexuality: perspectives from Uganda. Kampala: Sexual Minorities Uganda, 2007.

TAMALE, Sylvia. Gender trauma in Africa: nehancing women’s links to resources. Journal of African Law, v. 48, n. 1, p. 50-61, 2004.

TRIPP, Aili. “Sylvia Tamale”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 499-501.


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Legenda: Sylvie Kinigi

Fonte: Policy Press Blog. Murder, bloodshed, dictatorship and resistance: becoming a woman in power. 30 de jul. de 2014. Disponível em: https://policypress.wordpress.com/tag/women-prime-ministers/. Acesso em: 27 de dez. de 2020.

Sylvie Kinigi (1953)

Primeira-ministra do Burundi de junho de 1993 a fevereiro de 1994. Nasceu com o nome de Sylvie Ntigashira, em Mugoyi, na província de Bujumbura. Depois dos estudos do primário e secundário com as irmãs da paróquia Ijenda, estudou e se formou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Burundi (1979), com graduação direcionada a crédito bancário. A seguir, obteve DES (Diplôme d’etudes supérieures) em atividade bancária e finanças no Centro Internacional de Formação da Profissão Bancária em Paris (1990).

No mesmo ano, ao retornar ao seu país, foi contratada pelo Banco Central da República do Burundi (BRB), vinculado ao FMI, onde foi diretora do Departamento de Pesquisa e Estatísticas (1990 – 1991), o que lhe permitiu manter um programa de ajustamento estrutural ligado ao Primeiro Ministro (1991-1993).  Com a vitória da Frente pela Democracia no Burundi (Frodebu) nas eleições gerais em junho de 1993, Sylvie foi escolhida como Primeira Ministra pelo novo presidente, Melchior Ndadaye.

Como líder do governo, ela logo reconheceu as divisões que prejudicavam o partido vencedor. A escolha de uma Tutsi para liderar o governo foi, sem dúvida, parte de uma estratégia do novo presidente para construir unidade entre os dois principais constituintes do Burundi (Tutsis e Hutus). Este modelo foi inspirado em Ruanda, onde também uma mulher, Agathe Uwilingiyimana, tinha sido indicada como líder do governo de transição.

Porém, o assassinato do presidente quatro meses depois da posse, a morte do presidente em exercício da Assembléia Nacional e a escalada de violência que tomou conta do país inviabilizou sua possibilidade de governar. A reconciliação entre os grupos étnicos Hutu e Tutsi foi anunciado como prioridade antes do desenvolvimento de um plano econômico para um Burundi moderno. Seus esforços em mudar o país tiveram sucesso no início de 1994 – uma aparente ordem foi restaurada e planos foram estabelecidos para uma nova eleição presidencial.

 Passada a crise e restabelecida a normalidade, Kinigi voltou para administração bancária, dessa vez como a número 2 do Banco Comercial do Burundi (Bancobu). Ela então assumiu uma carreira internacional que a levou à UNESCO. Depois, trabalhou como representante especial da Secretaria Geral das Nações Unidas para os Grandes Lagos. Ao voltar ao Burundi em 2008, ela trabalhou como consultora independente do setor econômico e afirmou sua vontade em auxiliar mulheres do Burundi na luta pelo acesso à propriedade de terra e bens.

Sylvie se casou em 1973 com acadêmico Firmin Kinigi, falecido em 1993, com quem teve cinco filhos.

BIBLIOGRAFIA

HATUNGIMANA, Alexandre. “Sylvie Kinigi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 387-389.

KINIGI, Sylvie, Women and conflict management in Africa: an experiential perspective. In: ADERINWALE, Ayodele (Ed.). Empowering women for the 21st century: the challenges of politics, business, development and leadership. Accra: African Leadership Forum Publications, 1997.


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Legenda: Tawhida Bin Shaykh

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Tawhida_Ben_Cheikh.jpg. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Tawhida Bin Shaykh (1909–2010)

Também referenciada como Tewhida Bem Sheikh. Foi uma médica tunisiana, pioneira no trabalho com saúde reprodutiva feminina.

Com a orientação da mãe, Haluma, ela frequentou o ensino fundamental e em 1920 teve a chance de conhecer um respeitado médico francês, Etienne Burnet, e sua esposa russa, Lydia. O casal viu nela uma promessa no campo médico. Após uma grande resistência da família, ela obteve autorização para realizar estudos em Paris, onde poderia receber formação adequada. A pressão persistiu até o dia do embarque, quando um grupo de seus parentes homens tentaram, com a presença de um xeique da mesquita de Zaytuna dissuadi-la a partir em viagem.

Após completar os estudos na Faculdade de Medicina de Paris (1936), foi a primeira mulher muçulmana norte-africana a receber um diploma de Medicina na França. De retorno ao país, trabalhou em um consultório particular em Túnis especializado em saúde reprodutiva das mulheres, oferecendo tratamento gratuito (1937). No entanto, o colonialismo freou sua carreira médica, pois os cargos e funções em hospitais eram entregues aos franceses.

Tawhida trabalhou como editora da revista feminina Leila, periódico que circulou no período de 1936-1941, assinando diversos artigos dedicados à emancipação de mulheres muçulmanas do norte da África.

Durante as lutas nacionalistas do início da década de 1950, atuou como vice-presidenta da filial tunisiana da Cruz Vermelha. Após a independência da França (1956), criou a primeira clínica de planejamento familiar em 1963 e teve um papel de liderança na Associação Tunisiana de Planejamento Familiar. Em 1970, abriu em Túnis a primeira clínica exclusivamente dedicada à medicina reprodutiva das mulheres.

BIBLIOGRAFIA

BOUJMIL, Hafedh (Ed.). Leila: revue illustrée de la femme, 1936-1941. Tunis: Editions Nirvana, 2007.

CLANCY-SMITH, Julia. Envisioning knowledge: educating the Muslim woman in colonial North Africa, c. 1950-1918. In: BARON, Beth; MATTHEE, Rudi (Eds.).  Iran and beyond: essays in Middle Eastern history in honor of Nikki R. Keddie, Los Angeles: Mazda Press, 2000, p. 99-118.

CLANCY-SMITH, Julia A.. “Tawhida Bin Shaykh”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 452-453.

HUSTON, Perdita. Motherhood by choice: pioneers in women’s health and family planning. Nova Iorque: The Feminist Press, 1992.


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Legenda: Taytu Betul | Le Petit Journal - H. Meyer (1896)

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Taytu_Betul.jpg. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Taytu Betul (c. 1853–1918)

Nascida em Debre Tabor,  em Begemdir, na Etíopia. Seu nome de nascimento era Weletta Mikael. Era filha de Betul Haile Maryam de Yejju e Yewibdar de Gojjam. Sendo relacionada com a família governante de Semen através de seu avô, dejazmach Haile Maryam Gebre, representava os interesses da aristocracia rural do norte do país.

De acordo com as tradições etíopes, Taytu Betul se casou várias vezes antes de ser desposada pelo futuro imperador Menelik II em 1883, na Igreja de Medhane Alem. O casal viveu algum tempo em um palácio na colina de Entotto, e parece ter sido dela a idéia de transferir sua morada para a cidade que viria a ser capital do reino, Addis Abeba, nome que parece ter originado de uma sugestão dela, e significa “Nova Flor”.  Atribui-se também a ela o primeiro hotel da Etiópia, o Etege Taytu Hotel.

Em 1889, Menelik e Taytu foram coroados Imperador e Imperatriz, e ela passou a ser tratada com o título de etege, “a esposa coroada do imperador”. Ambos são lembrados como o casal imperial mais patriota, bem-sucedido e inteligente. Ela foi uma conselheira das mais confiáveis, porém temia influencias estrangeiras e não confiava nos europeus.  Acreditava que a força da Etiópia residia em sua cultura, religião e em sua mitologia. Embora bem informada quanto ao que se passava no mundo, era resistente quanto às inovações tecnológicas e aos modelos modernos de governo. Ela lia na língua Geez (a língua da liturgia e da literatura etíopes), escrevia poesia e tocava instrumentos típicos do país.

Taytu participou com Menelik na luta contra os italianos na Batalha de Adwa, contribuindo com uma força de trezentos mil soldados para o exército da Etiópia e liderando um grupo de mulheres nobres que serviram como enfermeiras e carregadoras durante os combates. Também se fez presente no campo de batalha, rezando e encorajando os soldados, e após o conflito deu assistência pessoal aos feridos. O exército privado de Taytu, que participou da batalha tinha aproximadamente três mil soldados e se diz que eram muito bem treinados.

Embora tendo sido uma imperatriz extremamente bem sucedida, Taytu Betul não teve herdeiros(as). Ela assumiu a função materna para Zewditu, a filha de Menelik de um outro casamento, e exerceu forte influência sobre aquela que viria a ser a futura imperatriz da Etiópia.

 Taytu arranjou o casamento de Zewditu com seu sobrinho, ras Gugsa Wele, e pairou a suspeita de que pretendesse assumir o controle completo do trono após a morte do marido, que ficou muito doente em 1906 e paralítico em 1908.  Seus planos foram frustrados pelos influentes conselheiros de Shewa, que garantiram ao sucessor masculino da linhagem imperial, Iyasu, o direito de sucessão, forçando a imperatriz a apenas cuidar do imperador enfermo.   Depois da morte dele, em 1913, ela se mudou para a igreja de Entotto Maryam e lá ficou até 1916, quando Zewditu foi coroada imperatriz  da Etiópia.

BIBLIOGRAFIA

MARCUS, Harold. The life and times of Menelik II: Ethiopia, 1844-1913. Oxford: Clarendon Press, 1975.

PROUTY, Chris. Empress Taytu and Menilek II: Ethiopia, 1883-1910. London:  Raven’s Development Services, 1986.

RUBINKOWSKA, Hanna. “Tayty Betul”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 519-520.


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Legenda: Tejumade Alakija

Fonte: The Official Website of the State of Osun. Disponível em: https://osun.gov.ng/2013/09/04/osun-civil-service-mourns-tejumade-alakija/. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Tejumade Alakija (1925–2013)

Educadora nigeriana, funcionária pública, ativista dos direitos das mulheres.  Nasceu em Ile-Ifé, era filha do Ooni (governante) Adesiji Aderemi, governante tradicional da cidade sagrada da comunidade yoruba. Frequentou a escola primária nas Escolas Primária e Central Aiyetoro em Ile-Ife (1933-1937) e no Internato de ensino primário Kudeti em Ibadan. Completou a formação na Inglaterra, onde se graduou em História e fez pós-graduação em Educação na Universidade de Oxford (1951).

Retornando ao seu país, atuou no serviço colonial, lecionando na Escola Pública Primária da Rainha na cidade de Ede (1950-1953). A seguir, fundou uma escola secundária para meninas com o apoio da Missão Anglicana na diocese de Ijebu-Ode, que dirgiu por quatro anos, e lecionou na escola primária de Abeokuta (1958).

Com a independência (1960), Tejumade Alakija assumiu a função de secretária assistente no Ministério Público do Trabalho, e como oficial de treinamento na região da Nigéria Ocidental, no Estado de Oyó (1962), quando seu pai era o governador regional. Nos anos seguintes, foi nomeada secretária assistente do Ministério do Comércio e Indústria na Nigéria Ocidental (1964), e depois diretora de investimentos no Ministério do Comércio (1969), quando supervisionou diversos projetos industriais e de desenvolvimento. De 1976 a 1978 assumiu o cargo de secretária adjunta do Ministério da Saúde. Depois, no Ministério da Educação, simplificou o sistema de admissão para universidades de toda a Nigéria (1978-1979). Continuou a ocupar postos na administração pública até 1983, quando se aposentou.

Nos anos 1990, Tejumale Alakija teve participação importante na administração do ensino superior, como pró-chanceler e presidenta do Conselho na Universidade de Abuja (1993- 1997). Na primeira década do século 21, prestou assessoria informal a líderes políticos nigerianos e continuou a servir como iyalodê (chefe mulher) de sua cidade. Muitos líderes políticos e destacados intelectuais compareceram na festa de seu 80° aniversário em 2005, quando representava um modelo de estadista para jovens gerações de feministas nigerianas.

BIBLIOGRAFIA

FALOLA, Toyn; GENOVA, Ann. Historical dictionary of Nigeria. Lanham: Scarecrow Press, 2008.

MADICHIE, N. O.. Setting an agenda for women entrepreneurship in Nigeria: A commentary on Faseke’s journey through time for The Nigerian Woman. Gender in Management, v. 26, n. 3, p. 212-219, 2011:  https://doi.org/10.1108/17542411111130972

RICH, Jeremy. “Tejumade Alakija”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 155-156.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave: Migrações

Temba Ndumba (século XVI)

Persona­gem lendária da his­tó­ria centro-afri­ca­na, tida por algumas  tradições como a primeira rai­nha dos ja­gas ou imbangalas (mbangalas). Consoante  al­gu­mas ver­sões, te­ria si­do mu­lher e lu­gar-te­nen­­te do ja­ga Zimbo. Segundo os ex­plo­ra­do­res por­tu­gue­ses Ca­pelo e Ivens, no livro De Angola à contracosta, ela teria sido fi­lha de Mussassa, mu­lher igual­men­te no­tá­vel do guer­rei­ro Donji, rei de Ma­tamba. 

Em outra linha de relatos tradicionais, Temba Ndumba, cujo nome é tam­bém gra­fa­do nas  for­mas Tembandumba, Ntemba Ndumba ou Ndumba Ntemba, teria sido a fundadora das instituições militares dos povos jagas, ou seja, ela criou os ritos do quiilombo e o conjunto de normas e regras de funcionamento do grupo,  conhecidas como kijila ou “lei dos jagas”. As circunstâncias que cercam a origem deste povo são descritas  pelo missionário Giovanni Cavazzi de Montecúccolo, no livro Descrição Histórica dos três reinos do Congo, Ndongo e Matamba (1684).

Chefiando um grupo de guerreiros que teriam partido da região do Planalto, ao sul do Rio Cuanza, originários do reino de Lunda, ela os teria conduzido em direção ao reino de Nsonho, e daí os jagas, ou imbangalas,  se espalharam através do Ndongo e do Reino do Congo, na primeira metade  do século XVI.

BIBLIOGRAFIA

MILLER, Joseph. Poder político e parentesco. Os antigos estados Mbundu em Angola. Luanda: Arquivo Nacional, 1995.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave:

Tenenbaa (séculos XIII–XIV)

Personagem mítica considerada a ancestral dos povos mandingas de territórios do atual Gabu, na Guiné-Bissau, também referenciada nas tradições orais da Gâmbia e da região de Casamance, no Senegal.

De acordo com relatos orais, a origem das elites governantes do antigo estado  do Kaabu, que nos séculos XVI-XIX  exerceu influência política em parte de territórios situados atualmente nos países da Gâmbia, Senegal, Guiné-Conacri e Guiné-Bissau, vincula-se à descendência da mulher misteriosa conhecida como Tenenbaa ou Balaba Tinki-da. Ela  teria pertencido à família de Sundjata Keita, o fundador do Império do Mali no século XIII. Após desentendimentos deixou seu povo e migrou para o Oeste.

Ao ser avistada numa  floresta por caçadores e ferreiros, estes avisaram o rei Manforong por terem considerado estranha a sua aparição. O rei mandou trancá-la em uma caverna, mas algum tempo depois os guardas ouviram sons semelhantes ao choro de bebês. Quando o muro que fechava a entrada da caverna foi derrubado, todos viram-na sentada amamentando três crianças recém-nascidas do sexo feminino.  O fato foi considerado tão extraordinário que pessoas de várias localidades acorreram para ver o ocorrido.

O próprio rei Manforong casou-se com Tenembá e criou as  meninas, cujos nomes eram Balaba, Oufoula e Kani. Quando elas cresceram, foram entregues em casamento a três importantes chefes locais: os reis de Pathiana, de Djimara e de Sama. Cada um desses reinos vieram depois a constituir importantes províncias do Império do Kaabu. A própria Tenemba teria recebido do rei a província de Propana, onde viria a estar localizada Kansala,  a capital do Kaabu.

Assim, somente os descendentes dela e de suas três filhas teriam direito à sucessão no governo do Kaabu. Essa aristocracia local integrava o conselho dos Niantio (Nantcho), e deu origem às mais importantes famílias mandingas da Senegâmbia, os Mané e os Sané.

BIBLIOGRAFIA

CISSOKO, Sékené Mody; SAMBOU, Koussou (éds). Recueil des traditions orale des mandingues de Gambie et Casamance. Niamey (Níger): Centre Regional de Documentation pour la Tradition Orale, 1974.

NIANE, Djibril Tamsir. Histoire des mandingues de l’Ouest: le royaume du Gabou. Paris: Karthala; Arsan, 1989.

GIESING, Cornelia; VYDRINE, Valentin (eds). Tarikh mandinka de Bijini. La mémoire des mandingues et les sooninkés du Kaabu (African sources for African History). Londres: Brill, 2007,

SIDIBÉ, Boubacar . A brief history of Kaabu and Fuladu: 1300-1930. A narrative based on some oral traditions of Senegambia. S/l: Gambia Cultural Archives, 1974.


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Legenda: Teodora Inácia Gomes | Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa

Fonte: Casa Comum. Disponível em: http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=07934.014.001. Acesso em: 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Direitos das mulheres

Teodora Inácia Gomes (1944)

Também conhecida como Obono, nasceu em Empada, na região de Quínara, sul da Guiné-Bissau, de pai bijagó e mãe de origem manjaca. Era de família católica, e o pai Inácio Pedro Gomes, exerceu cargos de prestígio em Bolama, na Guiné colonial, tendo participado dos primeiros movimentos de resistência anti-colonial e do Partido Comunista Português.   Ele e a esposa, Nhanha da Silva, foram militantes na origem do PAIGC, e juntos participaram da luta armada, militância também assumida por Teodora.

Em 1964, já nas fileiras do Partido Africano pela Independência da Guiné e Cabo Verde – PAIGC, Teodora recebeu uma bolsa de estudo para Kiev, Ucrânia, na então União Soviética, onde participou de cursos de formação e de organizações juvenis no movimento revolucionário.  Formou-se em pedagogia infantil pelo Instituto Gorca de Kiev. Foi professora nas escolas do mato durante os anos da guerrilha e diretora do jardim escola de Ratoma entre 1969 e 1971, na República da Guiné Conacri, onde o PAGC tinha instalado o secretariado.

No período posterior à independência, ela participou da União Democrática das Mulheres da Guiné e Cabo Verde – UDEMU, organização criada em Conacri que existiu no período de 1961-1966. Como deputada da nação, Teodora participou na preparação de diversos projetos de lei sobre mulheres, hoje aprovadas como leis (a lei da saúde reprodutiva, a lei do planejamento familiar e a lei contra a mutilação genital feminina).

BIBLIOGRAFIA

GOMES, Patricia Godinho. A Mulher guineense como sujeito e objecto do debate histórico contemporâneo: excertos da história de vida de Teodora Inácia Gomes. Africa Development, v. XLI, n. 3, p. 71-95, 2016.


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Legenda: Teresa Chikaba | Giovani Chavarri (1961)

Fonte: CARVALHO, Giovani. Serva de Deus Teresa Juliana Chikaba, Virgem dominicana. Santos, Beatos, Veneráveis e Servos de Deus. 03 de mai. de 2018. Disponível em: http:// www.santosebeatoscatolicos.com/2018/05/serva-de-deus-teresa-juliana-chikaba.html. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Racismo

Teresa Chikaba (1676–1748)

Nascida na África Ocidental em local incerto – por vezes denominado em espanhol como Mina Baja del Oro, onde atualmente estão localizados os países de Gana, Togo, Benin e o sudoeste da Nigéria. Seu nome de nascimento, Chikaba, faz crer que pertencesse aos povos de língua ewe, e ao que tudo indica era uma princesa.  Ainda na infância, quando tinha nove anos, foi reduzida em cativeiro e enviada à Ilha de São Tomé. Recebendo o batismo cristão, passou a ser chamada Tereza.

Escrava doméstica na casa dos marqueses de Mancera, em Madrid, recebeu instrução formal para ser acompanhante da senhora.  Depois da morte da proprietária, conquistou a liberdade e o direito a uma pequena renda mensal.  Em 1704 tornou-se monja no Convento da Penitência, em Salamanca, onde foi conhecida como Sor Tereza Juliana de Santo Domingo, ou pelo apelido La negrita de la Peniténcia ou apenas La Negrita.

De acordo com sua biografia, este foi o único estabelecimento religioso a aceitá-la, por ser negra. Apesar dela ter levado consigo um belo dote financeiro, esperava ser aceita como membro da comunidade em alguma função oficial, mas o pedido foi inicialmente negado pelo bispo local, que só concedeu permissão para que ela ficasse no convento como serviçal para a comunidade religiosa. Somente alguns anos mais tarde ela prestou os votos como freira dominicana, e ainda assim suas tarefas na comunidade continuaram as mesmas: ela fazia trabalho servil e às vezes cuidava dos doentes. O racismo a colocou em desvantagem na hierarquia social altamente estratificada das casas monásticas da época.

Apesar de sua situação marginal inicial, ela ganhou gradualmente o reconhecimento e respeito das demais freiras por suas excepcionais qualidades espirituais, e pelo suporte financeiro que ela prestava com doações periódicas. Ao final da vida, escreveu um texto autobiográfico que serviu de base para a sua hagiografia, intitulada Compendio de la vida ejemplar de la Venerable Madre Sor Tereza Juliana de Santo Domingo, redigida por Juan Carlos Paniagua em 1752. 

BIBLIOGRAFIA

HOUCHINS, Sue E.; FRA-MOLINERO, Baltasar. The saint’s life of Sister Chikaba: an as-told-to slave narrative. In: MCNIGHT, Kathryin;  GARAFALO, Leo. Afro-Latina voices: narratives of the early modern ibero-atlantic world, 1550-1812. Cambridge: Hackett Publiching, 2009.

HOUCHINS, Sue E.; FRA-MOLINERO, Baltasar. “Teresa Chicaba”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 543-544.

MELIAN, Elvira M.. Chikaba, la primera monja negra em el sistema esclavista finiseccular espanol del siglo XVII. Hispania Sacra, v. 64, n. 130, 2012: http://hispaniasacra.revistas.csic.es/index.php/hispaniasacra/article/view/321 Acesso em 28/03/2020  

MAESO, María Eugenia. Sor Teresa Chikaba: princesa, esclava y monja. Salamanca: Ediorial San Esteban, 2004 (Google Books).


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Legenda: Princesa malembe | Godfroi (1801)

Fonte: Library Company of Philadelphia. Disponível em: https://digital.librarycompany.org/islandora/object/Islandora%3A2909?solr_nav%5Bid%5D=51e6915b619aa546485c&solr_nav%5Bpage%5D=0&solr_nav%5Boffset%5D=46. Acesso em: 10 de jan. de 2020.
Palavras-chave: Quilombolas

Tereza de Benguela (+ 1770)

Nascida, como o nome indica, na região de Benguela, na região da África central da atual República de Angola, foi líder de uma comunidade quilombola na região do Rio Guaporé, atual estado do Mato Grosso, o Quilombo de Quaritêrere, por vezes também chamado de Quilombo do Quariterê ou Quilombo do Piolho – nesse último caso,   devido ao nome do companheiro dela com que dividia o governo da comunidade, conhecido como José Piolho.

Segundo parece, José Piolho teria governado a comunidade até o fim da década de 1740, e depois de sua morte a liderança coube a Tereza de Benguela da década de 1750 a 1770. O quilombo era constituído por cativos de origem africana e por indígenas. Tereza, que o governou por cerca de vinte anos,  aparece qualificada como rainha, e tomava as decisões mediante a consulta a um conselho.  A comunidade dispunha de um sistema de defesa, com armas trocadas com os brancos ou levadas em saques praticados nas vilas e povoados das redondezas. Sustentava-se do plantio de alimentos e de algodão, dispunha de tendas de ferreiro e teares de tecido.

Nos Anais de Vila Bela consta o relato detalhado do ataque contra a comunidade feito pelas tropas de Luís Pinto de Souza Coutinho no ano de 1770. O quilombo era integrado por 79 pessoas, homens e mulheres originárias da costa ocidental africana (gentio da Guiné), nove das quais foram mortas em combate e tiveram as orelhas cortadas, várias foram aprisionadas e acorrentadas, e trinta e sete fugiram através da mata.

Tereza de Benguela, que também foi aprisionada e levada. Segundo o sociólogo Clóvis Moura, teria ingerido ervas venenosas e, talvez pela ação do veneno, morreu. De acordo com o relato da expedição, então “se lhe cortou  a cabeça e se pôs no meio da praça daquele quilombo, em um alto poste, onde ficou para memória e exemplo dos que a vissem”.

Por sua capacidade de liderança e de resistência à escravidão, tornou-se um símbolo da luta das mulheres negras, e a data de sua morte, 25 de julho, foi instituída pela Lei Federal n° 12.987 como o Dia Nacional de Teresa de Benguela e da Mulher Negra. Ela também inspirou obras acadêmicas, literárias e artísticas, como o tema de enredo da Escola de Samba Viradouro, que tinha por título Tereza de Benguela – uma rainha negra do Pantanal (1994), e o  livro de Jarid Arraes, Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis (2017). 

BIBLIOGRAFIA

FARIAS JUNIOR, Emmanuel de   Almeida. “Negros do Guaporé: o sistema escravista e as territorialidades específicas”. Ruris, vol. 5 nº 2, p. 89-91, 2011.

LACERDA, Thais de Campos. Tereza de Benguela: identidade e representividade negra. Revista de Estudos Acadêmicos de Letras, UNEMAT, v. 12, n. 2, 2019: https://periodicos.unemat.br/index.php/reacl/article/view/4113


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Legenda: Tess Osonye Onwueme

Fonte: Dr. Osonye Tess Onwueme. Disponível em: http://www.writertess.com/africanwriter/Writer-Tess-in-Action_51. Acesso em: 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Professoras universitárias

Tess Osonye Onwueme (1955)

Nasceu em Ogwashi-Uku, cidade localizada atualmente no Estado de Delta, República da Nigéria, de uma família de alta linhagem e foi criada pelos avós na aldeia de Isa. Estudou o ensino secundário na Mary Mount Secondary School, quando começou a se interessar por poesia.

Após obter o doutorado na Universidade do Benin ela passou a lecionar na Universidade de Ifé (1979-1982), na Universidade do Estado da Nigéria (1983) e na Universidade Federal de Tecnologia (1987). Mudou-se para os Estados Unidos, onde atuou como convidada ou como professora em diversos estabelecimentos universitários, sendo em 1994 indicada como professora destaque na Universidade de Wisconsin.

Como romancista e escritora de peças teatrais, as obras de Tess Osonye tratam de temas relacionados com a opressão de gênero e de classe, com o nacionalismo cultural e a mudança social. Discute o choque entre o tradicional e o moderno, história e cultura, as relações entre ricos e pobres, entre homens e mulheres. Ela se preocupa em trazer a voz de mulheres, africanos(as), afrodescendentes e nativos(as) americanos(as) nos currículos escolares, na ciência e na política. Suas principais obras são: Broken calabash (Cabaça quebrada) (1984), The desert encroaches (O deserto invade) (1985), Tell it to women: an epic drama (Diga para as mulheres: um drama épico) (1995), Riot in heaven: drama for the voices of color (Motim no céu: drama para vozes de cor)  (1996, 2006) e No vacancy (Não há vagas) (2005).

Por sua obra e sua atuação intelectual, recebeu diversas premiações concedidas por diversas instituições, entre as quais a Ford Foundation (2001).

BIBLIOGRAFIA

BARTLETT-PACK, Juluette. Recovering the pass: transatlantic migration, hybrid identities, and healing in Tess Onwueme’s The Missing Face.  In: Brown-Guillory, Elizabeth (Ed.). Middle passages and the healing place of history: migration and identity in black women’s literature. Columbus: Ohio State University Press, 2006, p. 171-182.

KOLAWOLE, Mary. “Tess Osonye Onwueme”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 42-43.

KOLAWOLE, Mary E Modupe. Drama of self-definition across two generations – Zulu Sofola and Tess Onwueme. In: Womanism and african consciousness. Trenton: Africa World Press, 1996, p. 142-152.

OLU, Obafemi. “Tess Onwueme.  In: Ogunbiyi, Yemi (Ed.). Perspectives on nigerian literature. Lagos: Guardian Books, 1988, p. 309-313.


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Legenda: Tewabech Ali em detalhe de pintura (1855-1893)

Fonte: The British Museum. Disponível em: https://www.britishmuseum.org/collection/image/151826001. Acesso em: 18 de jan. de 2021.
Palavras-chave: Zemene Mesafint

Tewabech Ali (c. 1830–1858)

Primeira-esposa do negus (imperador) etíope Teodoro II e figura politicamente influente na Etiópia. Erafilha do ras Ali Alula e neta da etege (imperatriz) Menen Liben Amede, pertencentes a uma família de poderosos governantes da região de Gondar nos anos 1830 e 1840, durante o período de influência senhorial conhecido como Zemene Mesafint (Era dos Príncipes).

Ela se casou pela primeira vez em 1847 com Kasa Hailu, um senhor da guerra de Kwara, por decisão de sua avó. Em fevereiro de 1855 o seu marido foi coroado negus (imperador) com o nome de Teodoro, e ela recebeu o título de etege Tewabech Ali.

Tewabech exerceu forte influência sobre Teodoro, encorajando-o a conquistar novos territórios e a aumentar seu domínio. Dessa forma, ele chegou a governar sobre uma Etiópia recém-unida, após cem anos sem a presença de um governo centralizado.

No entanto, manter o poder não é tarefa fácil, e seu governo foi um período de intensos conflitos. Tewabech, sua melhor amiga e importante conselheira, costumava acompanhá-lo nos campos de batalha, e foi em campo que acabou morrendo, durante uma campanha na região de Wello, em agosto de 1858. Ela foi sepultada em Gishe, na fronteira de Shewa e Wello.

BIBLIOGRAFIA

MARCUS, Harold Golden. A history of Ethiopia: updated edition. Berkeley: Londres: University of California Press, 2002.

RUBENSON, Sven. King of Kings Tewodros of Ethiopia. Adis Abeba; Nairobi: Haile Selassie I University; Oxford University Press, 1966.


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Legenda: Theodosia Salome Okoh

Fonte: Alchetron. Disponível em: https://alchetron.com/Theodosia-Okoh. Acesso em: 15 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Theodosia Salome Okoh (1922–2015)

Artista, ativista política, idealizadora da bandeira de Gana. Nascida em Gana, na cidade de Wenchi, na região de Brong-Ahafo. Sua mãe chamava-se Dora Asihene e seu pai Emmanuel Victor Asihene trabalhava na igreja Presbiteriana. Na infância estudou em escolas da missão presbiteriana, foi apelidada de Joana D’Arc do  hóquei tamanha sua habilidade no esporte, assim como se destacava por seus trabalhos de arte. Na universidade de Achimota College, Okoh  ela ficou conhecida por suas pinturas e colagens.

Graduou-se professora e desempenhou a profissão na cidade de Kukurantumi, e ficou conhecida na região por “Teacher Awura” (Senhora Professora). Durante os anos 1940 e 1950, Theodosia foi muito inspirada pelas ideias revolucionárias de Kwame Nkrumah e atendeu ao  chamado de luta pela independência de Ghana e de todos os africanos feito pelo Convention People’s Party (Partido da Convenção do Povo) (CPP).

Em 1957 Gana tornou-se o primeiro país independente da África negra. Naquele mesmo ano, um concurso para a escolha da nova bandeira do país foi lançado.  Okoh participou  e desenhou a bandeira inspirada nos ideais pan-africanos:  cor dourada é uma alusão ao ouro e riqueza da região (anteriormente chamada de Costa do Ouro);  o vermelho é em memória dos que padeceram lutando pela liberdade e, também, em homenagem à música patriótica de Ephraim Amu chamada Yen Ara Asase Ni; a cor verde representa a bela vegetação e a agricultura do país; a estrela preta no centro da bandeira é em referência ao Black Star, o navio em que Marcus Garvey idealizou retornar com os africanos-americanos dos Estados Unidos ao continente de seus antepassados.

Foi apenas em 1992 que Okoh teve reconhecimento por ter desenhado a bandeira, quando recebeu o prêmio Entertainment Critics and Reviews Association of Ghana Mahogany e a Grande Medalha do governo ganense por seus serviços à comunidade.  Okoh também se empenhou em promover o hóquei. Participou ativamente da Ghana Hokey Association, ajudou na construção de um campo de hóquei em Accra e foi a primeira mulher a presidir Ghanaian Nacional Sports Association (Associação Nacional de Esportes Ganense).

BIBLIOGRAFIA

ASIHENE, Emmanuel. A brief history of art with special reference to West Africa. Accra: Woeli, 2003.

RICH, Jeremy. “Theododia Salome Okoh”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 21-22.

Mrs. Theodosia Salome Okoh, The designer of the Ghana flag, 2012: https://www.youtube.com/watch?v=mgnCrxYB0Xs


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Legenda: Tin Hinan | Hocine Ziani

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:2_-_La_reine_Tin_Hinan,_125x150cm,_huile_sur_toile.jpg. Acesso em: 15 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Berberes Tuaregues

Tin Hinan (século V)

Legendária líder dos povos de língua tamaxeque, teria vivido perto do oásis de Abalessa, a oeste de Hoggar localizado na Argélia. Ela é tida como a ancestral dos povos tuaregues do deserto, e o significado literal de seu nome pode ser “aquela que vive em tendas”, mas o significado real seria “mãe da tribo” ou “rainha dos que acampam”. Segundo as tradições orais, teria sido uma mulher de grande beleza, rosto perfeito, olhos grandes e luminosos, em tudo evocando beleza e autoridade.

Ela teria chegado em Hoggar e no Tafilalet depois de ter atravessado o deserto em companhia de uma serva pessoal chamada Takamat. O filho da rainha, chamado Kella, é lembrado como fundador da confederação tribal dos Kel Rela, de alta linhagem. Já os dois filhos de Takamat, Dag Rali e Ait Loaien, são os fundadores de linhagens consideradas menos nobres. A centralidade de sua imagem é um indicativo da importância da matrilinearidade e do matriarcado entre os povos do deserto, o que contrasta com as tradições berberes e árabes, onde prevalecem mitos de origem vinculados a organização social de tipo patriarcal.  Outras lendas saarianas sobre descendência por linha matrilinear, através da imagem de nobres rainhas, aparecem na obra do erudito tunisino Ibn Khaldun, e na crônica de Agadez, colocada por escrito no século XVII, consta que os povos de Air, ao sul do Saara, teriam sido descendentes de uma mulher chamada Bashan.

Durante o período da colonização francesa uma missão arqueológica identificou em Abalessa, a oeste de Hoggar, no sul da Argélia, um túmulo dentro da qual se encontrava um esqueleto, peças de moedas romanas com a efígie do imperador romano Constantino, joias de ouro e prata e mobiliário funerário. O túmulo, datado do século IV, divide opiniões. Para alguns, o local poderia ter sido simplesmente um qasr, isto é, um palácio ou mesmo uma habitação nobre transformada em tumba. Outros acreditam que tenha sido construído especificamente para o corpo da legendária rainha.

A história de Tin Hinan não é a única de uma ancestral feminina dos povos saarianos de língua tamaxeque. Segundo antropólogos, ela reflete a posição de prestígio das mulheres saarianas nas composições familiares e nas relações sociais.

BIBLIOGRAFIA

FROMHERZ, Allen J.. “Tin Hinan”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 26-27.

GAST, Marceau. Témoignages nouveaux sur Tine Hinane. Revue de l’Occident Musulman et de la Mediterranée, v. 13-14, p. 395-400, 1973.

KHUN DE PRORK, Byron. Mysterioux Sahara: the land of gold, of sand, and of ruins. Londres: John Murray, 1930. 

REYGASSE, Maurice. Le monument de Tin Hinan. Bulletin de la Société Géographique et Archéologique d’Oran, p. 148-166, 1940.  


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Legenda: Tiye | Foto: Einsamer Schütze

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:%C3%84gyptisches_Museum_Berlin_027.jpg. Acesso em: 15 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Tiye (c. 1398–1338 a.C)

Também identificada pelos nomes Tiya, Teye, Taia, Ty e Tiyi, Tí, nasceu nas proximidades de Akhmin, no Alto Egito. Seu pai, Yuya, era um grande proprietário de terras, sacerdote e comandante do corpo de carruagens; e sua mãe, Tuya, vinculava-se a diversos cultos religiosos à deusa Hathor. A forma dos nomes deles sugere que tenham sido originários da Núbia, área bastante explorada pelas incursões egípcias neste período.

Das relações de sua família na corte, em Menfis, resultou o seu casamento com o príncipe Amenófis (Amenhotep), que assumiu o trono do império egípcio com o nome de Amenófis III. Isto fez com que a influência dela fosse considerável no círculo restrito do governante. Seu irmão, Anen, foi indicado para ocupar a posição de Segundo Profeta de Amon, em Karnak, e o outro irmão dela, Aya, tomou parte do corpo dos guerreiros das carruagens. 

Como primeira-esposa, teve quatro filhas e dois filhos, um dos quais foi Amenófis IV, o sucessor do trono – também conhecido pelo nome de Akhenaton. Durante a vida do marido, eles residiram em um suntuoso palácio em Malkata, na margem ocidental de Tebas. Posteriormente, durante o governo do filho, passou a residir na nova capital, em Amarna.

A influência de Tiye nos governos do marido e do filho pode ser confirmada por diferentes meios. Primeiro, seu nome aparece reiteradamente mencionado nos documentos oficiais do reino, o que indica sua função como conselheira, e sua participação em negociações diplomáticas com governantes do Oriente Médio e da Ásia Menor, como o Reino de Mitani. Além disso, na iconografia do período, sua representação aparece com destaque: nas estátuas colossais dela e de Amenófis III, ambos aparecem em tamanho igual, algo incomum na época, quando as esposas reais tendiam a ser esculpidas em tamanho menor que o faraó.

O local de seu sepultamento suscita debate entre os pesquisadores. Ela pode ter sido enterrada em Amarna e o seu corpo poderia ter sido transferido para a necrópole ocidental de Tebas. Santuários em sua homenagem foram edificados nessas localidades e também em Fayum, conforme descobertas arqueológicas reveladas em 1910. Tiye foi celebrada em um templo em Sedegna, onde ela aparece na forma da deusa Hator, ou associada a Maat – uma representação da justiça e da ordem cósmica.

BIBLIOGRAFIA

EATON-KRAUSS, Marianne.  Tiye. In: REDFORD, D. B. (Ed). The Oxford Enciclopaedia of Ancient Egypt. New York: Oxford University Press, 2001, v. III, p. 411.

KOZLOFF, Arielle; BRYAN, Betsy Morrell. Egypt’s dazzling sun: Amenhotep III and his world. Cleveland, Ohio: Cleveland Museum of Art; Indiana University Press, 1992.

REDFORD, Donald. “Tiye”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 32-33.

REEVES, C. N.; WILKINSON, Richard. The complete Valley of the Kings: tombs and treasures of Egypt’s greatest pharaohs. New York: Thames and Hudson, 1996.

SCHMITZ, Bettina. Teje. Lexicon der agyptologye, v. 6, p. 305-308, 1986.


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Legenda: Touria Chaoui

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://ar.wikipedia.org/wiki/ %D9%85%D9%84%D9%81:%D8%AB%D8%B1%D9%8A%D8%A7_%D8%A7%D9%84%D8%B4%D8%A7%D9%88%D9%8A_%D8%A8%D8%A7%D9%84%D8%B2%D9%8A_%D8%A7%D9%84%D8%B1%D8%B3%D9%85%D9%8A_%D9%84%D9%84%D8%B7%D9%8A%D8%A7%D8%B1%D9%8A%D9%86.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Jornalistas Pilotas

Touria Chaoui (1936–1956)

Nascida em Fez, Marrocos, foi a primeira aviadora do Magrebe e do mundo árabe, durante o período da colonização francesa. De origem burguesa, frequentou aulas de cultura ocidental, francesa, árabe e marroquina. No colégio, demonstrou habilidades de liderança, quando aos 7 anos organizou uma greve para protestar contra a violência das autoridades coloniais.
Fascinada por qualquer coisa que voasse, lia tudo o que podia sobre aviação. No entanto, se perguntava qual a possibilidade de uma jovem Fatma – maneira como os colonizadores chamavam as mulheres marroquinas – ser admitida na única escola de voos do país, que aceitava apenas a elite francesa masculina. Apesar do desprezo inicial, a escola acabou aceitando-a e com 14 anos começou seu treinamento de piloto de avião. Dois anos depois, se tornou a primeira aviadora marroquina e do mundo árabe.
Depois disso, tornou-se uma estrela local, com várias publicações sobre ela em jornais internacionais e homenagens de diversas organizações femininas. Criou o Aéro Club Royal (Aeroclube Real), um clube para reunião de pilotos locais e nacionais. Fundou e dirigiu a escola Lalla Amina, cujo objetivo principal era ensinar mulheres jovens a tornarem-se autônomas e independentes dos homens. Foi também membro do partido l’Istiqlal, escrevendo artigos no jornal do partido e para outros jornais políticos.
Foi assassinada com dois tiros quando tinha 19 anos, em frente de sua casa, durante o clima de euforia e festividades pelo anúncio oficial da independência do país em relação à França. Considerando que ela foi retirada da história oficial do Marrocos, seu assassinato pode ser considerado um evento político, pois Touria era uma figura representativa da modernidade e emancipação feminina no Marrocos e no Magrebe.

BIBLIOGRAFIA

CHAOUI, Salah Eddine. Ma Soeur Touria Chaoui, première aviatrice du monde árabe. Paris: Editions L’Harmattan, 2018.


DALLE, Ignace. Les trois rois: la monarchie marocaine, de l´indépendence à nos jours. Paris: Fayard, 2004.

DAOUD, Zakya. Féminisme et politique au Maghreb: soixante ans de lutte. Paris: Maisonneuve & Larose, 1993.GLACIER, Osire. “Touria Chaoui”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2,  p. 59-60.


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Legenda: Tsehaytu Beraki

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Tsehaytu.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Tsehaytu Beraki (1939–2018)

Musicista, poetisa e ativista política da Eritreia. Nasceu na cidade de Quatit e foi levada ainda bebê para Asmara, a capital do país. Ela frequentou a escola primária e parte do ensino secundário, abandonando os estudos para se dedicar à carreira musical.

Tsehaytu Beraki ganhou notoriedade por sua habilidade pessoal em tocar krar, instrumento de cinco cordas similar à harpa, muito apreciado na tradição musical etíope e da Eritréia. Começou a tocar esse instrumento quando tinha cerca de oito anos, eventualmente em casamentos e festas. Ao longo da carreira, se inspirou em grandes intérpretes como Tsehaytu Ghergish, Fana Etel e principalmente Tsehayty Zennar.

De modo geral, ela própria compôs e escreveu suas canções, e pessoas se deslocavam de Adis Abebba até Asmara para gravá-la. Entre os seus discos gravados estão Hadareye / Megemeria fikirie (1972), Le bola (1972), Bazay / Aminie (1972) e Ab may jah jah  / Adieka Mirissa (1973).

A partir de 1964, suas letras passaram a incorporar temas cada vez mais inspirados em questões políticas que envolviam as reinvindicações de independência da Eritréia, e em 1977 se envolveu diretamente na luta pela emancipação de seu país, então sob domínio etíope. Tsehaytu se mudou temporariamente para o Sudão (1988), Roterdam, na Holanda, e retornou ao seu país apenas em 1999.

BIBLIOGRAFIA

ANDEMICHAEL, Yohannes Abraha; MAGARA, Elisam; NYUMBA, Joyce Burkiwa. Design of an indigenous music information storage and retrieval system in Eritrea. Indilinga African Journal of Indigenous Knowledge Systems, v. 2, n. 1, p. 69-79, 2003.

GHEBREHIWOT, Petros Kahsai. A study sample of the eritrean art and material culture in the collections of the National Museum of Eritrea.   Dissertation (Master of Arts in Fine Art), University of Kwazulu-Natal, 2006.


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Legenda: Tsitsi Dangarembga | Franklin & Marshall College (cortesia)

Fonte: Franklin & Marshall College. Disponível em: https://www.fandm.edu/wgs/international-women-s-week. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Cinema Romancistas Teatro

Tsitsi Dangarembga (1959)

Romancista, roteirista, dramaturga, consultora e diretora de cinema do Zimbábue. Nasceu em Mutoko, na então Rodésia do Sul  colonial, atual Zimbábue. Aos dois anos de idade mudou-se com os pais para a Inglaterra, onde frequentou a escola primária. Realizou o secundário em escola missionária localizada em Mutare. Na juventude, começou a frequentar o curso de Medicina na Inglaterra (1977) e o curso de Psicologia  na Universidade do Zimbábue, período em que teve início o seu envolvimento com teatro, escrevendo e encenando. 

Foi a primeira mulher negra do Zimbábue a  publicar um romance escrito em inglês, Nervous Conditions (Condições nervosas) (1988), que lhe rendeu reconhecimento internacional. A obra foi escrita em 1985 e não recebeu atenção de uma editora do seu país por ser considerada excessivamente crítica aos padrões patriarcais do mundo cultural xona, em que a estória transcorre. Foi publicada pela  editora The Women Press, de Londres, e logo teve outras edições nos Estados Unidos e na Dinamarca. O núcleo narrativo é a trajetória de auto-conhecimento e emancipação de Tambu das dimensões cruzadas da opressão colonial, racial e patriarcal  que envolvem a mulher negra.

Dangarembga escreveu muitas peças e contribuiu significativamente para a indústria cinematográfica do Zimbábue. Seu trabalho com o grupo de teatro Zambuko, liderado por Robert McLaren, aproximou-a do teatro comunitário, e nesta linha ela escreveu as peças Katshaa e Mavambo.

Em 1983, escreveu e dirigiu The lost of the soil (Os perdidos da terra), seguida por She no longer weeps (Ela não chorará mais) – que foi apresentada pela primeira vez na Universidade do Zimbábue em 1984. A peça conta a história de Marta, que é confrontada pelas normas familiares patriarcais e opressivas e resiste por todos os meios, lutando por sua independência pessoal. Ela também escreveu o roteiro do filme Neria (1993), que dramatiza as experiências das viúvas no Zimbábue e sua disputa pelo direito à herança familiar.  Já em Everyone’s child (Fihos de todo mundo) (1996)o o enredo gira em torno da tragédia que se abate na vida de quatro crianças órfãs  em meio aos efeitos devastadores da AIDS.

Quanto ao seu filme, Kare Kare Zvako: Mother’s day (Kare Kare Svako: o dia das mães) (2004), baseia-se em um conto popular do seu país, e tem sido exibido em mostras internacionais de cinema.

O livro The book of note: a sequel to Nervous Conditions (Livro de notas: uma sequência de Condições Nervosas) (2006), dá continuidade à busca de Tambu durante a década de 1970,  após  a independência do país, quando persistem restrições de diversa natureza em relação às mulheres, e principalmente as de natureza racial em relação às mulheres negras, a quem é constantemente negada igualdade de oportunidade sobretudo de formação educacional.

BIBLIOGRAFIA

BERNDT, Katrin.  Female identity in contemporary zimbabwean fiction. Bayreuth: Bayreuth University Press, 2005.

MKWESHA-MANYONGA, Faith. “Tsitsi Dangaremba”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 161-162.

SUGNER, Charles. Nervous conditions: Dangarembga’s  feminist reinvention of Fanon. In: OBIAMA,  Nnaemeka (Ed.). The politics of mothering: womanhood, identity and resistence of african literature. Nova Iorque: Routledge, 1997, p.  32-49.

WILEY, Ann Elizabeth.  Negotiating the postcolonial: emerging perspectives on Tsitsi Dangaremba. Trenton: African World Press, 2002.


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Legenda: Umm Kulthum

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Umm_Kulthum4.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Umm Kulthum (c. 1904–1975)

Cantora egípcia, nasceu em Tammay al-Zahayra, uma pequena aldeia no Delta do Nilo. Filha de al-Shaykh Ibrahim al-Sayyid al-Baltaji, imam (líder religioso) da Mesquita local e  de Fatma al-Maliji, ela foi ensinada a recitar o Alcorão  quando criança. Esse treinamento foi importante como preparação técnica para a sua carreira como cantora. Quando mais jovem, seu talento musical foi percebido e ela viajou com o irmão, o pai e um primo para cantar músicas religiosas em casamentos e festivais religiosos nas aldeias vizinhas. Às vezes o pai a vestia como menino porque não era apropriado uma menina se apresentar em espaço público.

Por volta de 1920 a fama da qualidade de sua voz tinha se espalhado e a demanda por performances em aldeias e cidades maiores havia aumentado. Assim, em 1922 a família se mudou para o Cairo a fim de dar continuidade à carreira de Umm. Ela assinou um contrato com a Odeon Records(1923) e lançou 14 músicas entre os anos 1924-1926. As gravações foram bem-sucedidas e lhe permitiram negociar um contrato dos mais lucrativos. Em vez de cantar músicas religiosas, como tinha sido até então, passou a cantar músicas seculares, com a participação de músicos profissionais do Cairo.

As transmissões mensais de suas performances no rádio, durante a década de 1930, solificaram sua posição como estrela no Egito e no Mundo árabe, posição que desfrutou até 1973. Ao contrário de suas concorrentes, consideradas promíscuas, ela ganhou o respeito por conta de sua conduta pessoal e de se manter fiel às tradições egípcias. Também participou de alguns filmes entre 1935-1947.

Entre os anos 1940-1950 Umm Kulthum tornou-se uma figura pública poderosa sendo presidente do sindicato dos músicos e participando do comitê de ouvintes da Rádio egípcia – um grupo que determinava quais músicas eram adequadas para transmissão. Assim como outros artistas de sua época, durante os anos 1950 ela  incluiu em seu repertório algumas canções nacionalistas. Em 1960, foi premiada com a ordem do mérito pelo governo egípcio.

 Em 1971 sua saúde começou a deteriorar rapidamente, embora continuasse a trabalhar e manter sua agenda de shows. Morreu em decorrência de problemas cardíacos, e o funeral contou com a presença de muitos fãs e admiradores.

Umm Kulthum casou-se em 1954 com o Dr. Hasan al-Hifnawi, e o casal não deixou filhos. Ela é lembrada como uma figura icônica da música egípcia e do mundo árabe do século 20.

BIBLIOGRAFIA

DANIELSON, Virginia. The voice of Egypt: Umm Kulthum, arabic song, and egyptian  society in the twentieth century. Chicago: University of Chicago Press, 1997.

LOHMAN, Laura. Umm Kulthum: artistic agency and the shaping of an arab legend, 1967–2007. Middletown: Wesleyan University Press, 2010.

THOMAS, Anne Elise. “Umm Kulthum”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 437-440.


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Legenda: Unity Dow | UN Photo / Jean-Marc Ferré

Fonte: United Nations Photo. Disponível em: https://dam.media.un.org/. Acesso em: 23 de dez. de 2020.

Unity Dow (1959)

Jurista, ativista dos direitos das mulheres e dos direitos humanos e escritora. Nasceu em Mochudi, no distrito de Kgatleng, em Botsuana. Recebeu educação fundamental e secundário em Mochudi e cursou Direito na Universidade de Botsuana e depois na Universidade de Edimburgo (1983). Casou-se  em 1984 com Peter Nathan Dow, um cidadão americano, com quem criou três filhos(as).

Começou a atuar como advogada e logo depois assumiu o cargo de Promotora Criminal nas Câmaras Gerais de Attoney, em Gaborone. Depois voltou a advogar em prática privada, com foco nos direitos humanos e direitos das mulheres, fundando o programa Mulheres e Direito na África Austral  – WLSA, um grupo de pesquisa que se concentrou nos direitos das mulheres, além de participar de outras associações voltadas para os direitos de mulheres e crianças, como o Metlhaetsile Women’s Information Centre.

Unity Down ganhou renome nacional ao mover um processo contra o Estado de Botsuana que ficou conhecido como “Caso da Cidadania”, em que contestou com sucesso a constitucionalidade de certos dispositivos do Ato de Cidadania (1982) que a impedia, por ser mulher, de transferir sua cidadania para seus filhos. A lei botsuana até então estipulava que os filhos herdavam a cidadania apenas pelo lado paterno, em evidente discriminação contra as mulheres e fortalecimento de uma visão patriarcal da sociedade.

Durante o processo, ela contou com o apoio do grupo  Emang Basadi (Levantem-se Mulheres), organização fundada para pressionar pela reforma de leis discriminatórias como essa. O caso foi parar na Corte Suprema. Em duas decisões marcantes, a Suprema Corte e, posteriormente, a Corte de Apelação declararam as disposições da “Lei da Cidadania” inconstitucionais, e o direito das mulheres foi constitucionalmente reconhecido.

Em 1998, Dow quebrou outra barreira de gênero ao se tornar a primeira juíza do Supremo Tribunal de Botswana, e mais tarde foi nomeada para o Tribunal de Recurso como juíza interina. Por tudo isso, ela é vista na África e no mundo como uma personalidade marcante e influente em defesa da afirmação dos direitos das mulheres e dos direitos humanos.

No século XXI Unity Down deu início a uma carreira paralela como autora de diversos romances, entre os quais Far and beyon (2000), The screaming  of the innocent (o grito do inocente) (2001), Jugling truths (2003) e The heavens may fall (O céu pode cair) (2006), cujas protagonistas em geral são mulheres em busca de afirmação e reconhecimento.

BIBLIOGRAFIA

DOW, Unity (Ed).  The Citizenship Case: the Attorney General of the Republico f Botswana v. Unity Down. Gaborone: Lentswe la Lesedi, 1995.

GAGIANO, Annie. Entering the oppressor’s mind: a strategy of writing in Bessie Head’s A question of poweer, Yvonne Vera’s The stone virgins  nd Unity Down’s  The screaming  of the innocent. Journal of Commonwealth Literature, v. 41 n. 2, p. 43-60, 2006.

LEDERER, Mary; MACHARIA-MOKOBI, Elizabeth. “Unity Dow”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 248-249.


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Legenda: Urieta Kazahendike | Archiv- & Museumsstiftung der VEM

Fonte: United Evangelical Mission. Disponível em: http://reformation.brot-fuer-die-welt.de/persoenlichkeiten-der-reformationsgeschichte/johanna-urieta- kazahendike.html. Acesso em: 11 de dez. de 2020.

Urieta Kazahendike (1837–1936)

Primeira missionária Herero,  tradutora, professora e parteira. Nasceu na atual Namíbia central, de uma família empobrecida pelos conflitos que devastavam a região na década de 1840 e migravam em busca de abrigo e sustento. Ela tinha cerca de dez ou doze anos quando foi entregue ao missionário germânico Carl Hugo Hahn e sua esposa inglesa Emma, que haviam chegado à Namíbia em 1844.

Alguns anos mais tarde ela acompanhou a família  Hahn até a Província do Cabo (1852), e de lá para a atual Alemanha (1860). Na Europa, ela se tornou um instrumento em seus esforços para propagar a missão de conversão dos Herero, arrecadar fundos, e dar credibilidade à empreitada. De volta à África, levou adiante o trabalho missionário e prestou ajuda na tradução de histórias bíblicas, de um pequeno catecismo luterano e um hinário para a língua falada dos Hereros, o Otjiherero. Através destes esforços, contribuiu significativamente para a codificação da sua língua materna.

Urieta era uma mulher de grande habilidade lingüística que falava a língua dos bôeres, alemão, inglês e khokhoegowab (a língua Nama), além de Otjiherero. Seu trabalho como tradutora e editora foi inestimável, embora sua participação não tenha sido reconhecida e as nove obras, incluindo uma gramática e um dicionário Otjiherero tenham sido publicadas apenas no nome de Carl Hugo Haan. Em 1873 ela recebeu um doutorado honorário na Universidade de Leipzig.

Após o retorno de sua passagem pela Europa ela se casou em 1864 com o viúvo Samuel Gertze (1805-1889), que trabalhou para a missão Herero em várias funções, inclusive como instrutor agrícola na década de 1870. Ela criou os oito filhos que ele tinha, e mais nove que teve com ele. Após a morte do marido, trabalhou como professora de crianças em idade pré-escolar e como parteira.  Morreu  aos noventa e nove anos em Otjinbingwe.

BIBLIOGRAFIA

BECKER, Heike. “Urieta Kazahendike”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 317-319.

KAZAHENDIKE, Kambauruma. Two lions who changed themselves into people and married tow herero girls. In: Daymond, M. J. (Ed.). Women writing Africa: the southern region. Nova Iorque: The Feminist Press, 2003.

LAU, Brigitte (Ed.).  Carl Hugo Hahn Diaries, 1837-1860. Windhoek: Archives Services Division – Departament of National Education – Namibia, 1985.


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Legenda: Vera Mlangazuwa Chirwa

Fonte: Afro Tourism. Disponível em: https://afrotourism.com/travelogue/city-icon-dr-vera-chirwa-the-fearless-fighter/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Vera Mlangazuwa Chirwa (1932)

Política, advogada, professora e ativista dos direitos humanos de Malawi, nascida no distrito de Mzimba, em Niassalândia. Ambos os lados de sua família eram associados ao trabalho missionário cristão, à educação e à política na colônia britânica. Ela morava com seu avós paternos,  frequentou a escola primária e secundária em escola missionária, e cresceu junto à família materna.

Em 1950 recebeu treinamento para ser professora, casando-se no ano seguinte com  Orton Chirwa, que tinha envolvimento com o Congresso Africano de Niasaalândia – NAC, e ambos ingressaram no movimento nacionalista e anti-colonial.

Em 1956, Orton Chirwa foi para Londres terminar os seus estudos, enquando Vera e seus filhos permaneceram em Domasi, em uma área não muito longe de Zomba, onde ela trabalhava na sede do Departamento de Terras. Assim que seu marido retornou, a família se estabeleceu em Blantyre (1958), e  Orton passou a atuar juridicamente em defesa do NAC, reconectando os Chirwa à campanha de descolonização. Algum tempo depois, participariam da criação de uma nova organização política, o Malawi Congress Party – MCP (Partido do Congresso do Malawi), que substituiu o NAC. Ambos assumiram a liderança da nova agremiação, ficando ela com a responsabilidade de criar e dirigir a Liga da Mulheres. Ao mesmo tempo, completou os estudos na Europa, formando-se em Direito em Londres no ano de 1966 e obtendo o título de Mestre pela University College (1967).

Após a independência do Malawi o casal teve dificuldades políticas com o governo do Primeiro Ministro Hastings Banda, tendo que se exilar em diversos momentos na Tanzânia e na Zâmbia, onde ela lecionou na Universidade da Zâmbia (1977). Quando visitaram o Malawi em 1981, foram sequestrados por agentes do governo, levados para o quartel general da polícia, acusados de traição, condenados e sentenciados à morte (1982).  Uma comoção internacional forçou o presidente Banda a comutar a pena para prisão perpétua: ele morreu durante o encarceramento e ela foi libertada apenas em 1993.

Daí em diante, Vera Chirwa passou a se dedicar aos direitos humanos, criando o Centro de Conselho, Pesquisa e Educação em Direitos Humanos, e em 1999 passou a integrar a comissão de direitos humanos da União Africana.

BIBLIOGRAFIA

BAKER, Colin.  Revolt of the ministers: the Malawi “Cabinet Crisis”, 1964-1965. Londres; Nova Iorque: IB Tauris, 2001.

CHIRWA, Vera M. Fearless fighter: an autobiography. Londres: Zed Books, 2007.

KALINGA, Owen. “Vera Mlangazuwa Chirwa”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2,  p. 80-81.

POWER, Joey. Political culture and nationalism in Malawi: building  Kwacha. Rochester: University of Rochester Press, 2010.


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Legenda: Mulher de alta nobreza em São Salvador, Reino do Congo (1697)

Fonte: Slavery Images. Disponível em: http://www.slaveryimages.org/s/slaveryimages/item/2228. Acesso em: 18 de jan. de 2021.
Palavras-chave:

Verônica I (+ 1721)

Rainha de Matamba, Angola, sucessora de Francisco Guterrez Ngola Kanini (Francisco I), seu irmão, falecido em 1681. Por vezes é identificada com o nome de rainha Jinga Verônica I, porque o termo nzinga (jinga, ginga), antes de ser um nome próprio, era um título privativo dos antigos governantes do Ndongo e de Matamba.

Por sua posição estratégica nas rotas do tráfico de escravizados e mercadorias do interior, desde 1670 a região próxima ao curso do Rio Cwanza era palco de frequentes disputas e conflitos entre os portugueses e seus aliados vindos de Luanda, Matamba e o jagado de Cassanje. Pouco antes de morrer o Ngola Kanini atacara Cassanje, e logo depois os portugueses invadiram matamba.

Ao suceder o irmão no trono, Verônica restabeleceu as boas relações com as autoridades portuguesas, firmando um tratado de paz em 1683, pelo qual ficava garantida a paz e a circulação de comerciantes e mercadorias, e a entrada de missionários em suas terras.

Estas negociações não adiantaram muito porque Kassanje manteve-se em estado de guerra, e alguns anos mais tarde a própria rainha se inclinaria a seguir o seu exemplo. Em 1688 ela mandou atacar Kahenda, uma chefatura vassala do estado português, capturando o seu chefe e destruindo as plantações e casas da comunidade. Após o ataque de uma tropa portuguesa uma nova negociação de paz foi estabelecida, e assim se manteve até 1716, quando ela foi sucedida no governo de seu reino pelo filho, D. Afonso.

BIBLIOGRAFIA

BIRMINGHAN, David. Trade and conflict in Angola: the Mbundu and their neighbours under the influence of the portuguese, 1483-1790. Oxford: Clarendon Press, 1966.

CAMPOS, Fernando. A data da morte da rainha jinga Dona Verónica I. Africa: Revista do Centro de Estudos Africanos (USP), n. 4, p. 79-104, 1981.

SHELDON, Katleen. “Veronica I”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 122.


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Legenda: Véronique Tadjo | Foto: Rama

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Veronique_Tadjo_IMG_2385.JPG. Acesso em: 15 de dez. de 2020.

Véronique Tadjo (1955)

Filha de mãe francesa e pai marfinense, a escritora, pintora, ilustradora e acadêmica nasceu em Paris, mas foi em Abidjan, capital da Costa do Marfim, que ela cresceu. Foi lá também que se graduou em Inglês pela Universidade Nacional de Abidjan, onde teve contato com os textos de poetas da Négritude que futuramente teriam grande influência em sua escrita. Após um doutorado na Sorbonne e uma bolsa de pesquisa na Universidade de Howard, em Washington, ela voltou à Universidade de Abidjan, onde lecionou até 1993 – momento em que decidiu dedicar-se à carreira de escritora.

A escrita de Véronique, além de conter a mistura de “comprometimento político e lirismo” da Négritude, é também fortemente marcada pelas impressionantes experiências da autora, que já visitou e morou em diversas partes do mundo. Segundo ela, para ser um escritor competente, é preciso não “[se] confinar às fronteiras de [sua] nacionalidade”, visão que permite que suas obras, de fato, não se restrinjam às fronteiras em que foram criadas, sendo facilmente assimiladas pelos mais diferentes leitores.

Dentre os assuntos que surgem em sua produção, está o amor, considerado por Véronique o bem mais precioso que podemos ter. A autora tem interesse também pela relação entre memória e história, e tem se dedicado a observar mais de perto a história africana, com especial atenção às tradições orais e mitos de origem.

Ganhadora do Prêmio Literário da L’Agence de Coopération Culturelle et Technique (Agência de Cooperação Cultural e Técnica) (1983), do Prêmio UNICEF (1993) e do Grand prix littéraire d’Afrique Noire (Grande Prêmio Literário da África Negra) (2005) por Rène Pokou, Véronique não escreve apenas para o público adulto. Além de escrever (e ilustrar) obras infanto-juvenis, como o livro La Chanson de la vie et autres histoires (A canção da vida e outras histórias) (1989), a autora também oferece workshops de escrita para jovens de várias partes do mundo.

Suas principais obras são:Latérite (1984); La Chanson de la vie et autres histoires (A canção da vida e outras histórias)  (1989); Le Royaume aveugle (O reino cego) (1990); Champs de bataille et d’amour (Campos de batalha e de amor) (1999); L’Ombre d’Imana – voyages jusq’au bout du Rwanda (A sombra de Imana: viagens aos confins de Ruanda) (2000);  Reine Pokou: concerto pour un sacrifice (A Rainha Poku: concerto por um sacrífico) (2005).

BIBLIOGRAFIA

HITCHCOTT , N. Travels in Inhumanity: Véronique Tadjo’s Tourism in Rwanda. French Cultural Studies, n.20, p. 149–164, 2009.

MAGNIER, Bernard. Véronique Tadjo, a collector of travel souvenirs. The UNESCO Courier, v. 2, p. 5–7, 2008.  

NYATETU-WAIGWA, Wangari. “Veronique Tadjo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 486-487.

RICE-MAXIMIN, Micheline. Nouvelle écriture from the Ivory Coast: a reading of Véronique Tadjo’s A Vol d’oiseau.  In: Post-colonial subjects francophone women writers. Minneapolis: University of  Minnesota Press, 1996,  p. 157–172.


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Legenda: Victoire Ingabire Umuhoza

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Victoire_Ingabire_Umuhoza.jpg. Acesso em: 21 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Hutus e Tutsis

Victoire Ingabire Umuhoza (1968)

Ativista dos direitos humanos e política ruandesa de origem Hutu. Fez parte do Ministério da Economia do país e atualmente realiza estudos na cidade de Roterdam, na Holanda.

Em 1994, no início do genocídio dos povos tutsis, ela estava em Haia quando soube que seu irmão e vizinhos haviam sido mortos por milícias e que seu marido havia conseguido escapar e se refugiado em Goma (República Democrática do Congo),  de onde o ajudou a, junto com sua família, a encontrarem abrigo no sul da Holanda.

Lá, o casal tornou público o genocídio, deu assistência as vítimas e refugiados, e fundaram a Association of Charitable Contact, Dialogue, and Actions – CODAC (Associação de Caridade, Contato e Diálogo), para envio de suprimentos a esses.  Ela também fundou a Uraho, uma instituição de ajuda às refugiadas nos Países Baixos, e a Harambe, organização para coordenar as ações das mulheres africanas que moravam na Holanda, cuja denominação, na língua swahili, quer dizer “todos juntos, como se fosse um”; além de compor o PRO-JUSTITIA-Rwanda, grupo de pressão por justiça para todas as vítimas do genocídio.

Umuhoza fez oposição ao regime de Paul Kagame e a Frente Patriótica Ruandesa – RPF, que controla Ruanda.  Ela se uniu ao Republican Rally for Democracy in Rwanda – RDR (Ajuntamento pela Democracia em Ruanda) e, em 2000, tornou-se a presidente do partido; entre 2003 e 2006, liderou a aliança entre a oposição, as Forças Democráticas Unidas – FDU, e formou uma coalizão de Organizações Não Governamentais, enquanto supervisionava filiais de uma multinacional e publicava textos sobre política em Ruanda e na região dos  Grandes Lagos.

De retorno à Ruanda em 2008, criticou os julgamentos gacaca que, organizados pela RPF nas cortes locais, tinham caráter fraudulento. Ela concorreu às eleições presidenciais de 2010, mas foi presa e condenada a 15 anos de reclusão, sendo libertada por indulto presidencial apenas em 2018.  Contra ela pesou a acusação de que tramava com a Frente Democrática pela Libertação de Ruanda – FDLR, liderada por Hutus envolvidos no genocídio, e cometia discurso de ódio por evocar a memória também de Hutus vítimas da guerra civil.

Sua trajetória demonstra o papel determinante de lideranças femininas em movimentos democráticos na África do início do século XXI.

BIBLIOGRAFIA

MBORI, H. Ingabire Victoire v. Republic of  Rwanda. American Journal of International Law, v. 112, n. 4, p. 713-719, 2018. 

MWAMBARI, David. Leadership emergence in post-genocide Rwanda: the role of women in peacebuilding. African Leadership Centre, v. 2, n. 1, 2017: http://leadershipandsocieties.com/index.php/lds/article/view/65

RICH, Jeremy. “Victoire Ingabire Umuhoza”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 100-101.



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Legenda: Victoria Fikile Chitepo

Fonte: The Herald. Victoria Chitepo found dead. 09 de abr. de 2016. Disponível em: https://www.herald.co.zw/victoria-chitepo-found- dead/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Victoria Fikile Chitepo (1928–2016)

Nascida em Natal, África do Sul,  com o nome de Victoria Fikile Mahamba-Sithole. Foi educadora, ativista política, membro do Parlamento, ministra de gabinete e integrante  do Zimbabwe African National Union-Patriotic Front – ZANU-PF (Frente Nacional da União Patriótica do Zimbábue). Originária de uma família emigrada da então  Rodésia do Sul, frequentou  a escola secundária  no Adams College, uma dos mais antigos estabelecimentos voltados para a educação de pessoas negras. Neste período, conheceu o futuro marido, o nacionalista  Herbert Wiltshire Tapifumanei Chitepo.  

Obteve o bacharelado na  Universidade de Birmingham, tornando-se professora e ativista política em Natal (1955), e foi a primeira advogada negra a atuar na Rodésia do Sul. Participou da liga das mulheres e jovens da Salisbury City Youth League – SCYL, movimento de resistência criado em 1956 por educadores, intelectuais e ativistas políticos anti-coloniais que depois viria a constituir o National Democratic Party – NDP (Partido Nacional Democrático), criado em 1960, antes que os partidos políticos e ativistas fossem banidos pelo governo da Rodésia do Sul.

Victoria militou junto com Herbert na resistência colonial na Rodésia do Sul e o acompanhou até a Tanzânia, onde ele trabalhou no Ministério Público a convite do presidente Julius Nyerere e ela se tornou funcionária na Universidade de Dar es-Salaam. Sua situação ficou muito precária quando Herbert foi assassinado por um atentado à bomba em Lusaka, na Zâmbia. Victoria permaneceu com os seus seis filhos na Tanzânia (1974-1980), trabalhando como professora de inglês na biblioteca da International School Moshi (ISM), onde alguns de seus filhos estudaram.

Com a emancipação política do Zimbábue ela voltou ao país, concorreu e foi eleita para o Parlamento representando a província de Manicalândia.  Foi indicada como Vice-Ministra da Educação e da Cultura e Vice-Ministra de Informação e Telecomunicações (1980-1982), e depois foi nomeada Ministra dos Recursos e do Turismo(1982-1990). Também atuou como presidenta do Conservation Trust, uma Organização Não Governamental (ONG). Foi durante o seu mandato como ministra que o Zimbábue, junto com outros países africanos, juntaram-se para reivindicar maior engajamento da comunidade internacional em assuntos como sustentabilidade, clima e meio ambiente. Após a sua aposentadoria em 1992 ela continuou a participar do ZANU-PF, onde manteve  certa influência.

BIBLIOGRAFIA

CHARUMBIRA, Ruramisai. “Victoria Fikile Chitepo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2,  p. 86-88.

MITCHELL, Diana. Makers of history: who’s who, 1981-1982: nationalist leaders in Zimbabwe. Harare: IMS Causeway Printers, 1982.

White, LUISE. The assassination of Herbert Chitepo: texts  and politics in Zimbabwe. Bloomington: Indiana University Press, 2003.


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Legenda: Victoria Mxenge | South African History Archive

Fonte: South African History Archive. Disponível em: https://www.saha.org.za/index.htm. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Victoria Mxenge (1942–1985)

Nascida na comunidade de Tamara, na cidade de King Williams, Província Oriental, África do Sul. Estudou na Escola Secundária de Forbes Grant e foi treinada no Hospital Vitoria para ser enfermeira (1964).

Em 1960 ela se casou com Griffiths Mxenge, um advogado e militante do African National Congress – ANC (Congresso Nacional Africano), com quem teve dois filhos e uma filha.  A família se mudou para Natal, onde trabalhou alguns anos no Hospital King Edward, e como enfermeira comunitária em Umlazi.

Em 1965 Griffiths foi condenado e ficou preso durante dois anos na Ilha de Robben, e após a libertação voltou a sofrer uma série de restrições, proibições e detenções sancionadas pelo regime do Apartheid. Enquanto isso, ela buscou obter formação jurídica e obteve licença para advogar em 1981. No mesmo ano, seu marido foi assassinado supostamente por membros do ANC, algo que Victoria refutou vigorosamente mediante processo judicial.

Na sequência, Victoria manteve a prática da advocacia, defendendo com sucesso estudantes e pessoas perseguidas pelo regime. Participou do comitê pela libertação de Nelson Mandela e passou a integrar a NOW (Organização Nacional das Mulheres).  Ela fez parte da equipe de defesa no inquérito que examinava as circunstâncias da morte de Mathew Goniwe, Fort Calata, Sparrow Mkhonto e Sicelo Mhlauli, assassinados por policiais em 1985, quando se referiu ao assassinato como um “ato de covardia”.

Pouco depois ela foi assassinada a tiros por quatro homens negros quando retornava de uma reunião política, integrantes de um “esquadrão da morte” a serviço do governo.  Sua morte desencadeou amplas manifestações e protestos em Durban, teve ampla repercussão nacional e internacional. Os confrontos nas ruas produziram a morte de nove pessoas e 138 pessoas feridas.

O esclarecimento do caso ocorreu em 1997, no Relatório da comissão da Verdade e Reconcialiação, quando Marvin Sefako (também conhecido por Bongi Raymond Malinga), admitiu ter sido recrutado pelo departamento de segurança, e que, a serviço do Brigadeiro Peter Swanepoel, confessou ter matado Victoria Mxenge.

Em 2006, o casal Mxenge foi condecorado postumamente com a Ordem de Luthuli em Prata, pela sua contribuição e seu sacrifício em nome dos direitos humanos. Em 2017 estátuas foram edificadas em homenagem a ela e ao marido na cidade de Durban.

BIBLIOGRAFIA

MCGEE, Holly. “Victoria Mxenge”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 376-377.

NEWTON, C. Victoria Mxenge: a story about more than women building their community. Urban Forum , v. 23, p.197–207, 2012: https://doi.org/10.1007/s12132-012-9150-4


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Legenda: Amazonas do Daomé | Frederick Forbes (1851)

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Seh-Dong-Hong-Beh. Acesso em: 20 de jan. de 2021.
Palavras-chave:

Visesegan (+ 1912)

Alta servidora do governo do rei Glelê (1858-1889), no reino fon do Daomé, atual República do Benin. Ela era parte integrante do Tononu, uma instituição do governo central e sua posição às vezes é comparada com a das mulheres-chefe. Visesegan não é nome pessoal, mas um título distintivo, indica a favorita do rei entre as ahosi, as mulheres-guerreiras da guarda real descritas pelos observadores ocidentais pelo nome de “Amazonas do Daomé”.

Pessoa influente e com grande riqueza acumulada em atividades comerciais, ela desempenhou um papel político central em duas grandes lutas internas do final do século XIX: primeiro, durante a sucessão do rei Glelê; e posteriormente, durante a fase de ocupação francesa em 1892.

Por volta de 1863 Visesegan era assistente de Yavedo, a mulher que controlava o Tononu durante o governo de Glele, passou a ter essa posição em 1870. Ela mantinha contato com agentes comerciais reais, tendo acesso às mais altas decisões relacionadas com a vida econômica do reino, e contato direto e pessoal com o rei. Com o adoecimento e morte do rei em 1889, Visesegan tentou garantir a sucessão do trono ao seu protegido, Sassé Koka, mas foi vencida por Kondo, que assumiu o controle do reino com o nome de Behanzin.

Alguns anos mais tarde, no momento da ocupação colonial e da resistência militar capitaneada por Behanzin, para preservar os seus direitos em Cotonou ela se alinhou ao lado dos franceses, e ainda em 1906 exercia influência junto ao palácio real, tendo ao seu dispor grande um  número de mulheres da corte real.

BIBLIOGRAFIA

BAY, Edna G. The royal women of Abomey. Tese (doutorado), Boston University, 1997.

BAY, Edna G.. “Visesegan”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 132-133.

BAY, Edna G. Wives of the leopard: gender, politics, and culture in the kingdom of Dahomey. Charlottesville: University of Virginia Press, 1998.


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Legenda: Walatta Petros em manuscrito criado entre 1716-1721

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/ File:Portrait_of_Ethiopian_Saint_Walatta_Petros,_painted_in_1721.tif. Acesso em: 21 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Walatta Petros (1593–1643)

Santa da igreja ortodoxa etíope, seu nome significa “filha espiritual de São Pedro”.  Ela ficou conhecida por resistir à influência dos jesuítas e do cristianismo latino na Etiópia. Os dados sobre sua vida estão registrados no texto hagiográfico intitulado Gadla Walatta Petros (As lutas da vida de Walatta Petros), cujo texto foi escrito em 1672.

Ela pertenceu a uma família nobre de Dawaro e Fatagar, regiões situadas ao sul do reino. Era filha do poderoso senhor Baher Sagad, e tinha cinco irmãos que se tornaram altos dignitários da corte. Seu marido, Malkea Krestos, era conselheiro pessoal do negus (imperador) Suzênio – que governou a Etiópia de 1607 a 1632.

Desde 1617 Walatta Petros manifestou publicamente sua inconformidade com a influência crescente dos missionários jesuítas na corte imperial, que levaria à conversão de Suzênio ao catolicismo e à proibição temporária do rito ortodoxo. Ela fundou comunidades monásticas em Danqwa, na planície de Dembeya, ao norte e a leste do Lago Tana (1630) e na ilha de Mesele (1630-1632) e incentivou seguidores a se manter na fé tradicional.  

Por sua oposição às determinações de Suzênios, foi perseguida e inclusive mantida prisioneira durante três anos na região de Zabal. A libertação ocorreu devido aos pedidos de seu irmão junto ao príncipe Fasilidas, que viria a suceder o pai e restaurar o cristianismo etíope como religião oficial.  Com a ascensão de Fasilidas ao poder, em 632, os jesuítas foram expulsos da Etiópia, e Walata Petros continuou por mais uma década a liderar a restauração da igreja ortodoxa.

Quando faleceu, seu corpo foi enterrado na Ilha de Rema, em frente à igreja que foi edificada em sua homenagem. Sua memória é reverenciada na posteridade, e a ela são entoados hinos nos ofícios sagrados.

BIBLIOGRAFIA

BOSC-TIESSÉ, Claire. Creating an iconographic cycle: the Actos of Wälättä Petros and the emergence of Qwärata as a place of asylum. In:  UHLIG, Siegbert (Ed.).  Proceedings of the 15th International Conference of Ethiopia Studies.. Wiesbaden: Harrassowitz, 2006, p.386-393.

BOSC-TIESSÉ, Claire. “Walatta Petros”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p.145-146.

COHEN, Leonardo. The missionary strategies of the jesuits in Ethiopia (1555-1632). Wiesbaden: Harrassowitz, 2009.

RICCI, Lanfranco. Vita di Walatta Petros (Corpus Scriptorum Christianorum Orientalium 316, scriptones aethiopici 61). Louvain: Université Catholique de Louvain,  1970.


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Legenda: Wangari Muta Maathai | UN Photo / Paulo Filgueiras

Fonte: United Nations Photo. Disponível em: https://dam.media.un.org/. Acesso em: 23 de dez. de 2020.

Wangari Muta Maathai (1940–2011)

Líder ambiental e primeira mulher africana a vencer o Prêmio Nobel em 2004. Nasceu e cresceu numa vila rural em Nyieri, no centro da atual República do Quênia, na época sob o domínio britânico. Sua mãe era uma agricultura e o pai trabalhava como mecânico e motorista. Até o ensino médio sua educação dependeu de missionários católicos. Incentivada por seu professor de Ciências, e por seu gosto por química e biologia, decidiu que não seria professora ou enfermeira, únicas opções para garotas africanas em 1950, mas que entraria na  Universidade.

Ela estudou na Universidade de Pittsburg, nos Estados Unidos. Em 1966 retornou ao Quênia, passando a lecionar no Departamento de Veterinária e Anatomia da Universidade de Nairóbi. Nesse ano ela também conseguiu abrir uma loja com suas irmãs e conheceu o futuro marido, Mwangi Mathai.  Realizou estudos de doutorado na área de medicina veterinária em Nairóbi (1971), sendo a primeira mulher da África Oriental a obter esse título.

Deu à luz ao primeiro dos três filhos com Mwangi em 1969, que a deixou em 1970, tendo-se divorciado em 1979, de forma litigiosa. Nos anos 1970 Maathai se envolveu com a Cruz Vermelha e com a Associação Queniana das Mulheres Universitárias. Também se juntou ao Centro Liaison de Meio-ambiente, que trabalhava juntamente com o programa de meio-ambiente das Nações Unidas.

Seu trabalho com o Conselho Nacional das Mulheres do Quênia (NCWK) foi a maior fonte de inspiração para o trabalho que seguiria depois. Como ela descreve, aprendeu que as mulheres nos meios rurais têm uma enorme conexão com a degradação ambiental, o que a levou um dia a pensar: “por que não plantar árvores?”. Foi esta a origem do Green Belt Movement, organização que ela fundou em 1977 com o apoio do NCWK. O trabalho baseava-se no plantio de árvores por mulheres nos arredores de Nairobi, como forma de proteger o solo contra a erosão. Em 1992 mais de dez milhões de árvores tinham sido plantadas, com trabalho assegurado a 80.000 mulheres, e foi então criado o Uhuru Park.

Paralelamente, ela entrou na vida política, tendo tido papel decisivo na afirmação de democracia no país, o que a levou a ser indicada em 2003 para o cargo de Ministra do Meio Ambiente. Por sua carreira e ativismo em defesa do meio ambiente, justiça e direitos humanos ela ganhou o Prêmio Nobel em 2004.

BIBLIOGRAFIA

CHILKWENDU, Eudora. Wangari Maathai: Nobel laureate, envoronmentalist, and engagement with Kenya state. In: KORIEH, Chima; OKEKE-IHEJIRIKA, Philomina (Ed.).. Gendering global transfomations: gender, culture, race and identity. Nova Iorque: Rotledge, 2009.

MAATHAI, Wangari. The Green Bolt Movement: sharing the approach and the experience. Nova Iorque: Lanten Books, 2003.

SHELDON, Katleen. “Wangari Muta Maathai”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 03-05.


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Legenda: Wangu Wa Makeri | Kenya National Archives

Fonte: Google Arts & Culture. Disponível em: https://artsandculture.google.com/asset/wangu-wa-makeri/xQFKxfRe2GbykA. Acesso em: 21 de dez. de 2020.

Wangu Wa Makeri (c. 1850–1936)

Nasceu na aldeia de Gitie, no distrito de Kangema, atual distrito de Muranga na República do Quênia.

Era casada com Makeri Wa Mbogo, com quem teve seis filhos, mas se envolveu em relações amorosas com o rei Kaguri Wa Gakure, o chefe supremo de Muranga, que a elevou à posição de chefe local em Kangema – função que desempenharia no período de 1902-1909. Trata-se de um caso único de chefia feminina na sociedade kikuyu, que era eminentemente patriarcal. 

O período de governo de Wangu coincide com o momento de ocupação colonial britânica, e ela passou a desempenhar importante papel como intermediária. Além de coletar impostos, controlar o consumo de bebidas na comunidade e manter a lei e a ordem, ela introduziu os métodos e técnicas modernas na agricultura, saúde e educação. E ainda prestou amplo apoio à entrada de missionários e escolas missionárias no distrito de Weithaga e Kahuhia.

Lembrada nas tradições orais como governanta cruel e tirânica, teria sido forçada a renunciar quando, em uma reunião pública ela praticou a dança da Kibata, que era reservada exclusivamente aos guerreiros. Sua imagem está associada ao domínio colonial britânico.

BIBLIOGRAFIA

MURIUKI, G. A..  History of the kikuyu, 1500-1900. Naiorobi: Oxford University Press, 1974.

MURIUKI, Godfrey. “Wangu wa Makeri”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 152-153.

WANYOIKE, M.W. Wangu wa Makeri. Nairobi: East African Educational Publishers, 2002.


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Legenda: Waris Dirie | UN Photo / Eskinder Debebe

Fonte: United Nations Photo. Disponível em: https://dam.media.un.org/. Acesso em: 23 de dez. de 2020.

Waris Dirie (1963)

Nascida em uma família nômade na área de Galkayo, na Somália, fugiu aos treze anos para a cidade de Mogadíscio para escapar de um casamento arranjado com um homem de sessenta anos.  Levada para Londres, trabalhou na Embaixada da Somália sem remuneração, e depois em atividades de baixa remuneração. 

Aos dezoito anos, descoberta pelo fotógrafo Terence Donovan, que a fotografou em 1987 junto com a então ainda desconhecida Naomi Campbell, teve sua imagem associada ao calendário da Pirelli, o que marcou o início de uma carreira de grande sucesso como top model mundialmente famosa. Sua imagem apareceu em anúncios de marcas como a Channel, Levi’s, l’Oreal e Revlon, e em revistas especializadas de moda, além de participar eventualmente de filmes e documentários.

Em 1997, no auge da carreira, revelou à jornalista Laura Ziv, da revista Marie Claire, sobre a mutilação genital que ela tinha sofrido aos cinco anos de idade, junto com suas irmãs, e passou a atuar junto à ONU em campanhas pela abolição da prática. No ano seguinte, junto com Cathleen Miller, escreveu a autobiografia Desert Flower (Flor do Deserto) que se tornou best-seller em todo o mundo, sendo adaptado para o cinema em 2008. Além dele, lançou outros livros, Desert dawn (Alvorecer no deserto), Letter tom my mother (Carta para minha mãe) e Desert children (Criança do deserto), o último dos quais lançado em uma campanha contra a mutilação genital.

Líder de uma campanha internacional contra a mutilação genital, fundou a Desert Flower Foundation (Fundação Flor do Deserto) (2002) em Viena, Áustria, e organizou diversas campanhas na União Européia para erradicar a prática entre os(as) imigrantes(as). Também fundou a Desert Dawn Foundation, que arrecada dinheiro para escolas e clínicas na Somália. Em 2010 foi nomeada pela União Africana como Embaixadora da Paz e Segurança no continente.

BIBLIOGRAFIA

ZABUS, Chantal. Acquiring Body: Waris Dirie, Infibulation, and New African Female Self-Writing.  In: African and its significant others. Londres: Brill, 2003,  p. 61-76.

SHELDON, Kathleen. Historical Dictionary of Women in Sub-Saharan Africa, Lanham: Scarecrow Press, 2005.


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Legenda: Webe Celine Kadima | State University of New York at Oswego

Fonte: Oswego State University of New York. Disponível em: https://www.oswego.edu/chemistry/content/webe-kadima. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Webe Celine Kadima (1958)

Educadora e cientista, nasceu em Bujumbara, capital do Burundi e aos quatro anos foi levada pela família para viver na República Democrática do Congo, onde cresceu, estudou na Escola para Meninas do Instituto Janua Caeli, na cidade de Kananga, completando o ensino secundário em Kinshasa (1975).

Desde jovem interessou-se por matemática, química e biologia. Iniciou os estudos em Química na Universidade de Kinshasa e, um ano depois, transferiu-se para Montreal, no Canadá, onde concluiu sua graduação e foi assistente de pesquisa do Dr. Miklos Zador. Sua dissertação de mestrado em ciência analisou um análogo de paládio da cisplatina, uma droga usada no tratamento de câncer. Resultados da sua dissertação foram publicados na revista Inorganica Chimica Acta (1983). Durante o seu doutoramento em química bioanalítica na Universidade de Alberta, analisou a atuação do cádimo, um metal pesado tóxico, na corrente sanguínea.

Concluída a sua formação, Kadima atuou em diversas universidades, como a Universidade da Califórnia, em Riverside, na Universidade Real de Veterinária e Agricultura de Copenhagen, na Dinamarca, na Universidade Internacional da Flórida e na Universidade Estadual de Nova York, em Oswego. Suas pesquisas englobaram questões relacionadas à química e bioquímica da insulina no controle do metabolismo da glicose e a ação da preparação da insulina para diabéticos.

Em 2004 ela passou a colaborar com projetos de pesquisa sobre plantas medicinais com outros cientistas da Universidade de Kinshasa (UNIKIN), no âmbito do Programa Nacional de Promoção da Medicina Tradicional e das Plantas Medicinais, um programa interno do Ministério Nacional de Saúde Pública Congolês.

Ela criou uma organização sem fins lucrativos, o Instituto de Pesquisa Botânica Bioativa – BBRI, para a investigação de plantas medicinais usadas na República Democrática do Congo   a fim de desenvolver fármacos efetivos, seguros e acessíveis.

BIBLIOGRAFIA

BEOKU-BETTS, Josephine. African women pursuing graduate studies in the sciences: racism, gender bias, and Third World marginality. NWSA Journal, v. 16, n. 1, 2004, p. 116–135, 2004.

KADIMA, Webe. Kinetic studies of the interaction of inosine with Pd(en)Cl². Dissertação de Mestrado, Universidade de Montreal, 1982.

KADIMA, Webe. NMR Studies of the Interaction of Cd(II) with biological ligands and Red Blood Cells.” Dissertação de Pós-Doutoramento, Universidade de Alberta, 1986.


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Legenda: Werewere Linking | Corporación de Arte y Poesía Prometeo

Fonte: Festival Internacional de Poesía de Medellin. Disponível em: https:// www.festivaldepoesiademedellin.org/es/Festival/23/Galeria/Clausura/80S.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Werewere Liking (1950)

Escritora camaronesa, crítica, pintora, escultora, intérprete de teatro e dançarina.  Nasceu na comunidade de Bondé e foi criada pelos seus avós em ambiente tradicional, em contato com as tradições orais de seu país antes de se mudar para Abidjan, na Costa do Marfim, quando tinha vinte e oito anos.

Sua participação é notável no movimento cultural do Renascimento Africano. Fundou a internacionalmente reconhecida companhia teatral Ki-Yi Mbock, pela qual ela tem expressado obras que articulam a tradição da África ocidental com a Modernidade. Por sua formação autodidata, valoriza temas retirados de sua experiência, tratando de assuntos como modernidade, raça, opressão de gênero e a exploração econômica dos pobres pelos ricos, com forte valorização da africanidade. Ela criou para si uma performance visual pela qual expressa a sabedoria feminina e a condição de rainha, um modo de incorporar as tradições, reinventando-as e estimular a criatividade. Em entrevistas descreve Ki-Yi como “um movimento para o renascimento das artes africanas, para o nascimento de uma cultura pan-africana contemporânea e para uma aproximação e reconhecimento das culturas do mundo negro”.

Entre suas peças teatrais, estão La puissance de Um (O poder de Um) (1979); La veuve dylemme (O dilema da viúva) (1994); La queue du diable (O rabo do diabo) (1979) e Un touareg s’est marié à une pygmée (Um tuareg casou-se com uma pigmeia) (1992). Também é autora de romances repletos de intensidade e de realismo social, entre os quais estão Orphée d’Afric (Orfeu africano) (1981); Elle sera de jaspe et de corail (Ela será de jaspe e de coral) (1983);  L’Amour cent vies (Amor através de cem vidas) (2000).

Werewere Liking é altamente consciente sobre política e discurso de gênero. Da sua coleção de poesia On ne raisonne pas avec le venin (Não raciocinamos com veneno) (1977), nos Contes d’initiations féminines (Contos de iniciação femininos) (1983), e na canção-romance La mémoire amputée (A memória amputada) (2004), as questões de gênero assumem lugar central.  Em sua concepção, diante da negligência, opressão e desvalorização, só uma rainha tem suficientemente valor para falar com autoridade. Assim, valendo-se das tradições para subverter a situação atual, em uma solução teatral capaz de enfrentar os problemas sociais, torna-se uma intérprete social e uma mulher conectada aos problemas contemporâneos da sociedade africana em suas relações com o mundo.

BIBLIOGRAFIA

ADAMS, Anne. To write in a new language: Werewere Linking’s adaptation of ritual to the novel. Callaloo, v. 16, n. 1, p. 153-168, 1993.

EKOTTO, Frieda. “Werewere Liking”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 500-501.

MILLER, Judith.  Werewere Linking: pan/artist and pan-africanism in the theatre. Theatre Research International, v. 21, p. 229-238, 1996.

TÊKO-AGBO, Ambroise. Werewere Liking et Calixthe Beyala. Le discours féministe et la fiction. Cahiers D’Études Africaines, v. 37, n. 145, p. 39–58, 1997.


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Legenda: Winnie Madikizela-Mandela

Fonte: Nelson Mandela University. Disponível em: https://news.mandela.ac.za/News/Mandela-University-tribute-to-Winnie-Madikizela-Ma. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Apartheid sul-africano

Winnie Madikizela-Mandela (1936–2018)

Winnie Zanywe Madikizela-Mandela foi destacada líder política, ativista anti-apartheid e assistente social. Nasceu  num pequeno distrito ao leste da África do Sul (Bizana), tendo sido a quinta filha de nove irmãos.  O pai era professor de ciências, e a mãe, professora de história – vindo a falecer enquanto Winnie tinha nove anos. Desde então suas figuras mais importantes durante o crescimento foram as duas avós.

Graduou-se na Jan H. Hofmeyr School of Social Work (Escola de Desenvolvimento Social Jan H. Hofmeyr), em Johannesburgo, a primeira instituição a habilitar assistentes sociais negros na África do Sul. Durante esse período, em torno de seus vinte e dois anos, conheceu Nelson Mandela, que já era uma figura leal ao Congresso Nacional Africano – ANC. Casaram-se em 1958 e tiveram dois filhos.

Winnie é mundialmente conhecida como a esposa do prisioneiro político mais emblemático da luta anti-apartheid, reverenciada como a mãe de uma nação em apuros e admirada por sua coragem de lutar contra o apartheid. Ela foi vítima de perseguições, assédios e humilhações nas mãos das autoridades da África do Sul. Sua primeira detenção foi em 1958, enquanto grávida de seu primeiro filho e sua primeira ordem de banimento ocorreu em 1962, quando foi obrigada a permanecer confinada em Soweto. Em 1967 foi presa por alguns dias e em 1969 novamente, sob a acusação de terrorismo. Ficou reclusa por dezoito meses em uma solitária. Em 1976 foi presa novamente, durante cinco meses, sendo banida do país em 1977 porque as autoridades não conseguiram provar seus “crimes”. Algum tempo após a libertação de Mandela, ambos se separaram (1992).

Apesar de muitas controvérsias e acusações que pesaram contra ela, Madikizela foi uma das lideranças políticas mais importantes da África do Sul contemporânea, sendo lembrada por alguns como a “Mãe da nação”. Foi eleita presidente da liga feminina do Partido Nacional Africano em 1993 e depois 1997, continuou sendo um nome respeitado por sua coragem e perseverança. Foi vice-ministra de Artes e Cultua (1994-1996), atuou como membro do parlamento sul-africano de 1994 a 2003, e de 2009 até sua morte.

BIBLIOGRAFIA

BEZDOBR, Anne Marie du Perez. Winnie Mandela: a life. Cape Town: Zebra Press, 1994.

GTILBEY, Emma. The lady: the life and times of Winnie Mandela. Londres: Vintage, 1994. POHLANDT-MCCORMICK, Helena. Controlling woman: Winnie Mandela and the 1976 Soweto uprising. International Journal of African Historical Studies, v. 33, n.  3, p. 585-614, 2000.

POHLANDT-McCORMICK, Helena. “Winnie Madikizela-Mandela”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 21-23.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave: Romancistas Teatro

Woizero Senedu Gebru (1916–2009)

Nascida em Menagesha, na Etiópia ocidental, pertencia a uma família aristocrática. Seu pai foi um escritor e ex-prefeito de Adis Abeba. Ela foi educada em uma escola missionária sueca em seu país e completou os estudos na Suiça, onde estudou na Université de Lausanne (1928). 

De retorno à Etiópia, Woizero foi professora na Escola de São Jorge em Adis Abeba, e começou a atuar como jornalista. No período da ocupação italiana (1935-1942), participou ativamente da resistência, recebendo inclusive formação em uma academia militar. Ela atuou durante a guerra na assistência médica aos combatentes. Foi presa pelos italianos em 1937, sendo mantida na prisão até 1939.

Nos anos 1940-1950 Senedu Gebru retomou a carreira como educadora, tendo atuado na direção da Escola Etege, em Adis Abeba, que era mantida pela Imperatriz Menen Asfaw e destinava-se exclusivamente a meninas, onde ela incentivou o desenvolvimento do teatro e da oratória pública. Paralelamente,  escreveu em língua amhara (amárico) uma coletânea de contos, músicas e poemas intitulada  YaLebbe Meshaf (Livro do Meu Coração) (1956), e diversas peças de teatro popular, como Keyekketit quenoch (Dias de fevereiro) (1956).

Também teve intensa participação na vida política, tendo sido a primeira mulher eleita ao Parlamento da Etiópia (1957), onde foi nomeada vice-presidente da Câmara dos Deputados. Atuou na Cruz Vermelha e foi secretária-geral do Ministério de Assuntos Sociais. Deixou o país em 1974, por ocasião da derrubada do governo de Haile Selassie, imperador da Etiópia (1930-1974). Retornou ao país alguns anos mais tardem, voltando a escrever peças teatrais e a colaborar na “coluna das mulheres” do jornal Addis Zemen.

BIBLIOGRAFIA

BIZUNEH, Belete. Women in ethiopian history: a bibliographic review. Northeast African Studies, v. 8, n. 3, p. 7–32, 2001.

BURGESS, Gemma. A hidden history: women’s activism in Ethiopia. Journal of International Women’s Studies, v. 14, n. 3, p. 96-107, 2013.


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Legenda: Wuraola Adepeju Esan

Fonte: Sheroes. Disponível em: https://sheroes.ng/tributes/2018/07/29/senator-wuraola-esan-1909-1985/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Área yoruba Iyalodê

Wuraola Adepeju Esan (1909–1985)

Política, ativista feminista e educadora, nasceu em Calabar, cidade portuária no leste da Nigéria. Seu pai pertencia a uma poderosa família de Ibadan, serviu às autoridades coloniais e era chefe maior da cidade. Sua mãe,  Madame Ajitie Ojo, recebeu o apelido de  Iya Gbogbo, que significa “a mãe de todos”, por sua riqueza e generosidade enquanto realizava grandes negócios de noz-de-cola e  de pimenta.

Wuraola estudou na Escola Batista para Meninas Idi-Aba, em Abeokutá (1927), sendo então admitida na universidade missionária para mulheres na Nigéria. Depois lecionou no Girl’s Training Centre (Centro de Treinamento para Meninas) de Akure, onde introduziu temas relacionados com a promoção de igualdade de oportunidades para a educação de garotas e garotos.

Casou-se em 1934 com Victor Owolabi Esan, membro de uma influente família cristã de Ibadan,   com quem se estabeleceu em Lagos, e uma década mais tarde fundou em Ibadan uma escola para meninas com um programa voltado para a formação profissional (1944). Junto com outras mulheres yoruba, como Funmilayo Ransome-Kuti, atuou até a década de 1950 no movimento nacionalista e anti-colonial, em particular na seção feminina do Action Group – AG  e na Ibadan Union Progressive (União Progressista de Ibadan).

A imersão de Wuaraola na vida política ocorreu em 1958,  quando pela primeira vez ganhou assento no Conselho do distrito  de Ibadan, e em 1960 foi eleita como senadora no Parlamento nigeriano, onde atuou até 1965.  Foi uma ferrenha crítica da corrupção e tomou várias iniciativas para a promoção das mulheres e a melhoria das condições das mulheres negociantes dos mercados municipais. Representou a Nigéria na Conferência Afro-Asiática no Cairo (1957-1958) e participou das negociações que deram origem ao Conselho da Nigéria e de Camarões.

Quando ocupou uma vaga no Parlamento como senadora (1960-1965),  foi uma crítica da corrupção e da sonegação de impostos e lutou pela ampliação da educação das mulheres e provisão de empréstimos e serviços para ajudar mulheres do mercado. Retirou-se formalmente da vida política em 1966, mas permaneceu ativa em projetos pela promoção da igualdade de direitos das mulheres até a sua morte.

Em 1975 ela recebeu a grande honra de ser chamada pelo título de Iyalodê, reservado à chefia feminina na sociedade yoruba. Uma de suas filhas, Jadesola Olayinka Akande (1940-2008) foi notável ativista feminista, como ela.

BIBLIOGRAFIA

AKANDE, Jadesola. The contribution of woman to national development in Nigeria. Lagos: Nigerian Association of University Woman, 1990.

DENZER, LaRay. Gender and decolonization: a study a three women leaders in West African public life. In: CORNWALL, Andrea (Ed.). Readings in gender in Africa. Oxford: James Currey, 2003, pp. 217-223.

RICH, Jeremy. Iyalode Wuraola Adepeju Esan”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 311-312.


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Legenda: Busto de Yaa Asantewaa

Fonte: Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Yaa_Asantewaa. Acesso em: 01 de jul. de 2020.
Palavras-chave:

Yaa Asantewaa (c. 1830–1921)

Pertencente ao poderoso clã de Eijisu, no antigo Império Axânti, liderou um exército contra  o estabelecimento dos britânicos na Costa do Ouro no período de ocupação colonial (1900-1901). Nasceu em Besease, e,  junto com o irmão Kwesi eram os únicos filhos de Nana Atta Poo (mãe) e Nana Kweku Ampoma (pai). Pelo lado materno, fazia parte do clã real de Ejisu. Acredita-se que tenha nascido durante o período de governo do asantehene  Osei Taw Akoto. Casou-se com Owusu Kwabena, um dos irmãos do asantehene  Osei Bons, sendo mãe de uma filha, Ama Seiwaa Boankra.

Yaa Asantewa era proprietária de uma grande e bem sucedida fazenda em Boankra especializada em produzir cebola e amendoim. Sua filha teve onze filhos, os quais eram membros do clã real pela descendência materna.

Quando, após a conquista britânica, seu neto, Kofi Tene, que reinava com o nome de Kwesi Afrane II, foi derrubado e levado para uma prisão em Serra Leoa,  ela, na qualidade de  guardiã  e protetora do “trono de ouro”, o mais importante símbolo da monarquia axânti, reuniu-se com a assembleia dos chefes e organizou uma resistência armada.    A guerra ocorreu de abril de 1900 e durou sete meses, mas o episódio só se encerrou em março de 1901, quando ela  foi efetivamente presa, pois os oficiais britânicos sabiam que enquanto ela continuasse solta, uma resistência futura poderia voltar a ocorrer.

Estudos recentes sugerem que Yaa Asantewa se entregou para os britânicos para que a vida da sua filha e neta, que estavam sendo mantidas como reféns no forte em Kumasi, fossem poupadas. Ela e mais quinze outros líderes da rebelião, assim como seus dependentes, foram exilados para as ilhas Seychelles em 22 de março de 1901, onde morreu vinte anos depois.

Sua imagem póstuma e as representações que dela variaram desde o período colonial, quando foi lembrada como perigosa subversiva, e no período posterior à independência de Gana, momento a partir do qual tendeu a ser lembrada como liderança anticolonial, heroína nacional e mesmo como antecipação de uma feminista africana. Em 1960, a Escola de Ensino Médio para Meninas Yaa Asantewa  foi criada em sua homenagem na cidade de Kumasi, antiga capital do Império Axânti. Em 2000,  um museu dedicado a ela foi inaugurado em Kwaso, perto de Ejisu, como parte da celebração centenária da Guerra Axânti-Britânica.

BIBLIOGRAFIA

BOAHEN, A. Adu. Yaa Asantewaa and the Asante-British War of 1900-1901. Acrra: Sub-Saharan Publishers, 2003.

DAY, Linda. “Yaa Asantewa”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p 274-276.

DAY, Linda. “Long live the queen. The Yaa Asantewaa centenary na the politics of history”. Ghana Studies, Wisconsin, v. 3, p. 153-166, 2000.

McCASKIE, Thomas. The Golden Stool at the end of the nineenth century: setting the record straight. Ghana Studies, Wisconsin, v. 3, p.  61-96, 2000.


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Legenda: Mulher de alta linhagem o Daomé (1797)

Fonte: Los Angeles County Museum of Art. Disponível em: https://collections.lacma.org/node/208543. Acesso em: 20 de jan. de 2021.
Palavras-chave: Intermediárias coloniais

Yaya Migansi (c. 1850–1932)

Princesa daomeana, viveu na corte de Abomé, ao sul da atual República do Benin. O nome Yaya Migansi é um apelido de Houekodé. “Yaya”, da língua yorubá, significa “velha”, e Migansi, no Daomé, era o nome dado à esposa do migan, o mais alto ministro da corte real. Sua mãe, Miagbe, era esposa do rei Glelé, e lhe deu três pares de gêmeos, sendo Houekodé a filha mais velha do primeiro grupo.  Na condição de na  dabo, na língua fongbé, “princesa mais velha”, ela detinha posição de grande prestígio, como responsável pela educação, orientação e preparação para a vida do filho do soberano e seu eventual sucessor.

Após a morte de Glelé em 1889, as pressões dos franceses pelo domínio de Cotonou geraram um clima de crescente tensão com o sucessor daomeano, o rei Benhanzin, que liderou a resistência armada contra os invasores até ser derrotado em batalha no ano de 1892, preso e exilado na Argélia em 1894. Foi neste contexto de conquista militar que Yaya Migansi tomou a frente nas negociações com os franceses em nome da família real para a entronização de um novo rei, chamado Agoliagbo. Respeitada pelos franceses por sua remarcável inteligência e por sua influência palaciana, ela é lembrada com rancor pelos descendentes do soberano deposto, que disputam até o presente momento a continuidade da linhagem dinástica interrompida.  

BIBLIOGRAFIA

BAY, Edna. Wiwes of Leopard: gender, politics and culture in Kingdom of Dahomey. Charlottesville: University of Virginia Press, 1998.

BAY, Edna. “Yaya Migansi’. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 02-03.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:
Palavras-chave: Mossis

Yennenga (século XII)

Princesa, governanta e chefe militar, nasceu em Gambaga, às margens do Rio Volta, ao Norte da atual República de Gana. Filha do rei Naba Ndega e da rainha Napoko, que governavam os reinos de Dagomba Dagomba, Mamprusi e Nankana, defendendo-os contra ataques dos povos mandingas. Por sua bravura e capacidade de liderança ela se destacou em diversos combates, assumindo o posto de chefe do exército paterno. 

Segundo os tradicionalistas, era muito hábil na montaria, e foi após um ataque e perseguição por parte de seus inimigos que ela conheceu o jovem caçador de elefantes de origem mandinga chamado Rialle, com quem teve um filho, Ouedraogo, considerado o fundador do Império Mossi.

No atual país de Burkina Faso, pátria dos Mossi, Yennenga é considerada a “mãe da nação”, tendo o seu nome lembrado em livros, obras de arte e monumentos, empregado na denominação de logradouros, estabelecimentos e espaços públicos. Sempre representada montada em seu cavalo, ela personifica a união dos mais de sessenta grupos étnicos espalhados pelo país. Em um dos eventos mais importantes, o Festival Pan-Africano de Cinema e Televisão de Ouagadougou, o mais alto prêmio concedido é o Étalon de Yennenga (Garanhão de Yennenga), prova de que sua imagem é um dos símbolos maiores da nacionalidade burquinense.

BIBLIOGRAFIA

BALIMA, Salfo-Albert. Légendes et histoire des peuples du Burkina Faso. Paris: J. A. Conseil, 1996.

OUÉDRAOGO, Jean. “Yennenga”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 207-208.

SKINNER, Elliot P.. The Mossi of Upper Volta: the political development of a sudanese people. Stanford: Stanford University Press, 1964.


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Legenda: Yoko de Senehun

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://de.wikipedia.org/wiki/Datei:Madam_Yoko.jpeg. Acesso em: 21 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Intermediárias coloniais

Yoko de Senehun (1849–1906)

Pertencente a uma família de alta linhagem do grupo étnico Kpa, do povo Mende, em Serra Leoa. Desde a infância, na comunidade de Gbo, em Taiama, foi iniciada na sociedade secreta de mulheres denominada Sande (também conhecida como Bundu), o que lhe garantiu uma rede de alianças com as mulheres de sua comunidade, e se destacou como excelente dançarina, o que aumentou o seu prestígio pessoal.

Casada sucessivamente com dois importantes chefes de guerra, Gongoima e Gbanya, após a morte deste último, em 1878, assumiu pessoalmente a liderança de seu povo, passando algum tempo depois a ser conhecida como “Mamãe Yoko”, “Madame Yoko” ou “Yoko de Senehun”.

Sua liderança nas décadas de 1880-1890 coincidiu com o período de ocupação colonial inglesa, quando Yoko desfrutou de considerável influência local. Por seu prestígio familiar e sua excepcional capacidade de comunicação e negociação, atuou em diversas situações para o estabelecimento da paz entre ingleses e chefes locais resistentes, obtendo vantagens pessoais e reconhecimento. Promoveu entretenimento e diversão aos oficiais ingleses.  Valendo-se dos contatos com mulheres dançarinas pertencentes a sociedade Sande, promoveu o casamento de muitas delas com oficiais e administradores europeus.  Ao incentivar tais alianças, passou a dispor de uma rede de informação e de apoio, o que fortaleceu ainda mais sua autoridade e prestígio local. Tudo isso levou a que fosse reconhecida pelo poder colonial desde 1884 como “Rainha de Senehun”.

BIBLIOGRAFIA

DAY, Linda R.. “Yoko of Senehun”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 213.214.

EASMON, M. C. F.. Madam Yoko ruler of the Mende Confederacy. Sierra Leone Studies, n. 11, p. 165-168, 1958.

HOFFER, Carol P.. Madam Yoko: ruler of the Kpa Mende confederacy. In: ROSADO, Michelle; LAMPHERE, Louise. Woman, culture and society. Lamphere: Stanford University Press, 1974. 


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Legenda: Yolanda Morazzo

Fonte: SOARES, Fonseca. Faleceu ontem 27 de De jan. de uma Voz feminina da poesia cabo-verdiana... Adeus a Yolanda Morazzo. teatrakacia. 28 de jan. de 2009. Disponível em: http://teatrakacia.blogspot.com/2009/01/faleceu-ontem-27-de-de jan.de-uma-voz.html. Acesso em: 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Poetisas

Yolanda Morazzo (1927–2009)

Nascida na Ilha de São Vicente, em Cabo Verde, diplomada com o curso superior de Francês e o Curso de Moderna Literatura Francesa e Língua Inglesa. Era neta de José Lopes, renomado poeta cabo-verdiano, e cedo demonstrou interesse pela literatura.

Na juventude, Yolanda Morazzo publicou seus primeiros poemas nas revistas culturais e literárias Suplemento Cultural, Claridade, e Arquipelago. Em 1958, mudou-se com o marido para Angola, onde acompanhou o período inicial da guerra colonial. Em Luanda, atuou como professora particular até 1968, e ao fim desse tempo passou a trabalhar na Embaixada da Ioguslávia. 

Suas poesias exploram frequentemente os temas da identidade cabo-verdiana na diáspora. Entre os livros publicados, destaca-se Poesia de intervenção (1976).

BIBLIOGRAFIA

FIGUEIREDO, Jaime de. Modernos poetas cabo-verdianos. Praia: Edições Henriquinas, 1961.

ANJOS, José Carlos Gomes dos. Intelectuais, literatura e poder em Cabo Verde: lutas de definição da identidade nacional. Porto Alegre: EDUFRGS, 2006.


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Legenda: Younousse Seye

Fonte: Em reportagem para a revista "AWA: la revue de la femme noire" pág. 23, edição de novembro de 1972. Awa: an online archive of african magazines. Disponível em: https://www.awamagazine.org/article/younousse-seye-peintre/. Acesso em: 10 de jan. de 2021.
Palavras-chave: Cinema Tradições africanas

Younouss Seye (1940)

Artista plástica e atriz de formação autodidata, nasceu em Saint-Louis, no Senegal.  Participou do Primeiro Festival Mundial de Artes e Culturas Negras de Dakar (1966) e do Primeiro Festival Cultural Pan-Africano de Argel (1969). Nesta ocasião, ganhou apoio financeiro da UNESCO para realizar uma residência de treinamento na Costa do Marfim – que deu origem a uma exposição individual no Hotel Ivoire (1972), e uma exposição no Grand Palais, em Paris (1974). Ela também participou do II Festival de Artes e Culturas Negras de Lagos – FESTAC (1977).

Sua arte visual é conhecida pelo uso de conchas de búzios denominadas cauris, e escultura em mármore. Seu interesse e investigação sobre as propriedades e o peso simbólico dos cauris colocaram-na em linha com os círculos de patrocínio na África pós-independência, em que estados, organizações internacionais e intelectuais pós-coloniais valorizavam os vocabulários visuais pan-africanos.  Mas o seu interesse por estes pequenos artefatos vai além dos padrões estéticos valorizados pela chamada “Escola de Dakar” e pela Negritude. Seu trabalho preocupa-se em valorizar o que os búzios representam dos elementos sagrados e seculares da vida cotidiana – como representação monetária, como instrumentos empregados na geomancia (previsão), como marcadores de status e identidade, como portadores da história e como indicadores do trabalho feminino.

O sucesso de Younouss abriu caminho para outras mulheres em uma profissão dominada por homens, como Madeleine Senghor e Germaine Anta Gaye. Esse interesse pelas implicações sociais mais amplas do trabalho artístico e o papel das mulheres nas sociedades contemporâneas africanas também informariam sua escolha de projetos cinematográficos e seu ativismo, levando-a a ser co-fundadora de um coletivo de artistas, Le Collectif Artistes Plasticiens (Coletivo de Artistas Plásticos), que patrocina o intercâmbio artístico entre a Europa, Dakar e a cidade senegalesa oriental de Tambacounda.

Ela também teve grande sucesso como atriz, e atuou em papéis importantes nos filmes do cineasta Ousmane Sembene, primeiro em Xala (1974) e trinta anos depois, em Faat Kiné (2000),  onde representa Venus Seye, uma mulher injustiçada e abusada por homens ao longo da vida.

BIBLIOGRAFIA

FALL, Youma. Of some women in the history of art in Senegal. In: KONATÉ, Yacouba (Éd). DAKART 2006 – 7ème Biennale de l’Aart Africain Contemporain. Grenoble: Imprimerie Les Deux-Ponts, 2006.

HARNEY, Elisabeth. “Younouss Seye”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 340.

SYLLA, Abdou. Les arts plastiques senegalais contemporains: evolution et tendances. Ethiopiques: revue negro-africaine de litterature et de philosophie, n. 81, 2008: http://ethiopiques.refer.sn/spip.php?article1618


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Legenda: Yvonne Vera | Foto: Eric Beauchemin

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Yvonne_Vera,_Zimbabwean_author.jpg. Acesso em: 21 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Ensaistas HIV/AIDS Romancistas

Yvonne Vera (1964–2005)

Romancista, ensaísta e contista zimbabweana, nasceu em Bulawayo, na época colonial chamada de Rodésia do Sul, filha de pais professores: Ericah Gwetai e Lambert Gwetai. Foi educada na Mzilikazi High School, em Bulawayo, e começou a carreira como professora de inglês. Casou-se com o canadense John José, em 1987. Na América do Norte, completou o curso de graduação na York University, em Toronto, e no ano de 1995 defendeu a tese de doutorado The prison of colonial space: narratives of resistence (A prisão do espaço colonial: narrativas da resistência).

Em 1997 retornou ao seu país, de 1997 a 2003 dirigiu a Zimbabwean National Gallery (Galeria Nacional do Zimbabwe), em Bulawayo, onde desenvolveu diversos projetos com artistas profissionais, jovens talentos e crianças em idade escolar. Neste período, editou a importante antologia de textos de escritoras africanas, intitulada Opening spaces: an anthology of contemporary african’s women’s writings (Abrindo espaços: uma antologia de escritoras africanas contemporâneas) (1999). 

Pertencente a geração de jovens escritoras africanas, Yvonne Vera foi autora de diversas obras de ficção, entre as quais a coleção de contos Why don’t you carve other animals? (Porque você não esculpe outros animais?) (1992), seguida de cinco romances, alguns deles ganhadores de prêmios internacionais: Nehanda (1993), Whitout a name (Sem nome) (1994), Under the tongue (Sob a língua) (1996), Butterfly burning (A queima da borboleta) (1998) e The stone virgins (As virgens de pedra) (2002).

Em sua prosa ela explorou os problemas decorrentes da herança colonial em seu país (como o Massacre de Matabeleland), desenvolveu biografias de mulheres fortes (Nehanda) e temas considerados tabus, como a violência sexual contra as mulheres.

Seus trabalhos foram publicados no Zimbabwe, Canadá e outros países, incluindo traduções em língua espanhola, italiana e sueca.  Faleceu vítima de meningite, relacionada à AIDS, no Canadá, onde procurou tratamento para a doença.

BIBLIOGRAFIA

HUNTER , Eva. Shaping of the struggle: an interview with Yvonne Vera. Current Writing, v. 10, n. 1, p. 75-86, 1998.

MUPONDE, Robeert; TARUVINGA, Mandivavarira (Eds). Sign and taboo: perspectives on the poetic fiction of Yvonne Vera. Harare: Weaver Press, 2003.

SHELDON, Katleen. “Yvonne Vera”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 121-122.

VERA, Yvonne (Ed). Opening spaces: an anthology of contemporary african’s women’s writings. Portsmouth: Heinemann, 1999.


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Legenda: Imagem ilustrativa

Fonte:

Zara Schmelen (c. 1793–1831)

Nascida em Steinkopf, região ocupada pelo povo Nama ou Namaqua, do grupo linguístico khoi, no Sul da atual Namíbia, foi levada para missão da London Missionary Society (Sociedade Missionária de Londres), cristianizada e alfabetizada. Tinha cerca de vinte anos quando se casou em 1814 com Johann Hinrich Schmelen (1778-1848), um missionário alemão estabelecido na Namaqualândia em 1811, depois de ter servido algum tempo como sua serviçal. 

Nos dezessete anos em que viveram juntos, ela, ele e os três filhos que tiveram passaram por diversas missões nas comunidades da Colônia do Cabo, atuando na evangelização dos povos de língua khoi. Johan Schmelen continua amplamente reconhecido como um pioneiro no estudo e tradução dos evangelhos no Novo Testamento para a língua namaqua, mas muito desse crédito cabe na verdade a Zara, que ensinou a ele a complexa língua nativa e o aconselhou durante todo o trabalho de tradução, sobretudo sobre as implicações dos cliques – que é uma particularidade das línguas dos povos khoi.

Depois de uma primeira tentativa fracassada de editar os textos neo-testamentários em namaqua no ano de 1824, na Cidade do Cabo, eles continuaram o trabalho nos anos seguintes, finalizando a edição em 1830. Ela morreu pouco mais de um ano após, em uma fazenda de Botma, nas proximidades de Tulbagh, onde foi enterrada.

BIBLIOGRAFIA

BECKER, Heike. “Zara Schmelen”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 304-305.

DEDERING, Tilman. Hate the old and follow the new: khoekhoe and missionaries in early nineteenth century Namibia. Stuttgart: Franz Steiner Verlag, 1997.  

ELBOURNE, Elizabeth. Blood ground: colonialism, missions and the contest for christianity in the Cape Colony and Britain, 1799-1852. Montreal: McGill Queen’s University Press, 2002.

TRÜPER, Ursula. The invisible woman: Zara Schmelen, african mission assistant at the Cape and in Namaland. Basel: Basler Afrika Bibliographien, 2006.


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Legenda: Mulher moura (1878)

Fonte: The British Library’s collections on Flickr Commons. 26 de nov. de 2013. Flickr: British Library. Disponível em: https://flic.kr/p/hSDjmd. Acesso em: 20 de jan. de 2021.
Palavras-chave:

Zaynab al-Nafzawiyya (+ 1072)

Também conhecida pelos nomes de Zainab, Zeineb, Zineb e Zaynab bint Ishaq al-Hawwariyya. Viveu nas proximidades dos Montes Atlas, no atual Marrocos. Foi esposa dos líderes almorávidas Abu Bakr ibn Umar e posteriormente de Yusuf ibn Tashfin, grande comandante militar do movimento de reforma muçulmana almorávida e fundador de um estado unificado almorávida.

Ela fazia parte do povo Maghrawa, e seu primeiro marido, Ibn Wattas, era governador da cidade de Aghmat. Mulher de rara beleza e dotada de grande carisma e capacidade de influência pessoal, uniu-se a Abu Bakr quando sua cidade foi conquistada, por volta de 1060, servindo de intermediária com os chefes locais.

Quando Abu Bakr retornou ao Deserto do Saara, em 1161, ela e Ibn Tashfin se uniram em uma relação conjugal, e o alcance de sua influência aumentou e se refletiu em decisões de caráter político, administrativo e militar na fase inicial da conquista política do Marrocos. Por isto ela ficou lembrada como “rainha” do império almorávida mesmo tendo falecido antes da consolidação das conquistas posteriores promovidas sob a liderança de seu parceiro no Norte da África e em al-Andalus.

BIBLIOGRAFIA

DAOUD, Zakya. Zaynab, reine de Marrakech. PARIS: AUBE, 2004.

GLACIER, Osire. “Zaynab al-Nafzawiyya”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 232-233.

MERNISSI, Fatima. Sultanes oubliées: femmes chefs d’etat en Islam. Paris: Albin Michel, 1990.


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Legenda: Zaynab Amina Alkali | Kaduna Book & Arts Festival (2017)

Fonte: Kaduna Book & Arts Festival. Disponível em: https://kabafest.org/more-than-a-hijabi-muslim-women-writing-for-the-world/. Acesso em: 11 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Hauçás Romancistas

Zaynab Amina Alkali (1950)

Escritora nigeriana e educadora. Nasceu na comunidade de Tura-Wazila do Estado de Bornu, Completou sua graduação na Universidade Bayero, em Kano, onde fez doutorado em literatura africana. Pertencente a uma família convertida ao cristianismo, ela própria adotou o islã durante a década de 1960. Em 1971, casou-se com Dr. Mohammed Nur Alkali, diretor-geral do Instituto Nigeriano de Política e Estudos Estratégicos, em Jos, Nigéria, com quem teve seis filhos.

Profissionalmente, foi diretora do Internato para meninas Shekara, em Kano, e trabalhou como professora assistente na Universidade Bayero, como professora sênior de Inglês e coordenadora de Inglês e estudos gerais nos estabelecimentos de Modibbo Adama College e Universidade de Maiduguri. Em 2009, assumiu a reitoria da Faculdade de Artes em Nasarawa State University, onde antes lecionara Escrita Criativa e Literatura Africana em Inglês.

Em suas obras, Zaynab discute o impacto das transformações sociais sobre as áreas urbanas do Norte da Nigéria, com destaque para a situação das mulheres, questões de gênero, identidade religiosa e os desafios da modernização. Seu primeiro romance, intitulado em inglês The stillborn (O natimorto) (1984), ganhou pela Associação Nigeriana de Autores – ANA, trata dos desafios enfrentados por pela jovem esposa Li, ao tentar negociar suas aspirações pessoais e independência com as pressões da tradição e da família, num cenário de transição entre a vida comunitária rural e o meio urbano, e a alternativa do ensino e formação pessoal como meio de afirmação social feminina sem que isso represente uma ruptura com as convenções sociais e religiosas. Considerada conservadora para alguns críticos, a obra procura equilibrar diversas instâncias numa perspectiva de reconciliação das mulheres com a tradição em um contexto moderno.

A alternativa educacional para a afirmação feminina reaparece em várias estórias criadas por Zaynab Alkali, tema desenvolvido no romance The virtuous woman (A mulher virtuosa), que explora a trajetória de duas jovens muçulmanas ao ganharem bolsas de estudo em um internato, e como a obtenção da formação educacional não precisa necessariamente afetar a modéstia e as virtudes morais pessoais. Também em Cobwebs (Teias de aranha), a personagem principal, Mama, tem a visão de mundo alterada ao ingressar na Universidade de Azir, e o quanto tal mudança afeta a sua relação com os seus filhos pequenos.   Quanto ao romance The vagabond (A indigente), o problema diz respeito à proibição do acesso ao ensino por uma mãe à filha, a quem obriga a um casamento. Após a perda do filho durante o parto a adolescente Bibi contrai uma fístula vesico vaginal e outras doenças que, associadas ao trauma da perda, a transformam em uma indigente de rua. 

Em todas as suas obras, uma questão central diz respeito aos efeitos da poligamia na subjetividade feminina, e as consequências sociais dos privilégios patriarcais reservados aos homens, bem como a educação como alternativa de afirmação social feminina. Nelas, a autora problematiza a posição convencional esperada das mulheres, mostrando alternativas para que ganhem autoconfiança pessoal sem entrar em choque com sua devoção religiosa.

BIBLIOGRAFIA

GARBA, Ismail Bala. Of real freedom and gender equality. Jenda: a Journal of Culture and African Women Studies, v. 8, 2006.

LOFLIN, Christine. “Zaynab Alkali”. In: PAREK, Pushpa Naidu; JAGNE, Siga Fatima (Eds.).  Postcolonial african writers: a bio-bibliographical  sourcebook. Londres; Chicago: Fitzroy Dearborn, 1998.

WHITSITT, Novian.  “Zainab Amina Alkali”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 178-179.


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Legenda: Zaynab bint Muhammad

Fonte: SPHINX. Lalla Zineb l'insoumise. Ethnopolis. 11 de mai. de 2015. Disponível em: http://ethnopolis-net.over-blog.com/2015/05/lalla-zineb-l-insoumise.html. Acesso em: 21 de dez. de 2020.

Zaynab bint Muhammad (c. 1850–1904)

Também lembrada na Argélia como “Lalla Zaynab” e considerada uma “mulher santa”, nasceu e viveu no oásis de al-Hamil, no Deserto do Saara.

Assumiu a liderança de uma comunidade espiritual (confraria, tariqa) vinculada ao sufismo, corrente espiritual e mística muçulmana muito difundida na África. Substituiu o pai, Xeique Muhammad ibn abi al-Qasim, falecido em 1897. Já notabilizada por sua sabedoria, erudição, piedade, probidade e ascetismo, passou a ser seguida por numerosos discípulos que também atribuíam a ela a capacidade de operar milagres.

Na época, a Argélia estava sob domínio colonial francês (desde 1830). As autoridades instituídas viram no caso da ascensão de uma liderança religiosa feminina um perigoso precedente, e apoiaram o seu concorrente por ocasião da transferência da chefia da comunidade. Lalla Zaynab pleiteou em todas as instâncias governamentais o seu reconhecimento, sem jamais ter alcançado isso da parte dos franceses.

Até sua morte ela permaneceu como líder incontestável, ensinando estudantes (talibés) e administrando al-Hamil. Sua atuação ilustra o recrudescimento da exclusão feminina sob o imperialismo europeu, que fortaleceu o patriarcalismo já existente na própria sociedade magrebina.

BIBLIOGRAFIA

CLANCY- SMITH, Julia. The house of Zainab: female authority and saintly succession in colonial Algeria. In: KEDDIE, Nikki R.; BARON, Beth (Ed). Women in Middle Eastern history: shifting boundaries in sex and gender. New Haven: Yale University Press, 1991.

CLANCY-SMITH, Julia. “Zaynab bint Muhammad”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 234-236.


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Legenda: Zaynab Fawwaz

Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Zeinab_Fawaz.jpg. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Zaynab Fawwaz (c. 1850–1914)

Romancista libanesa-egípcia, biógrafa e primeira escritora sobre política de gênero e reforma no Egito.  Nasceu na cidade de Tibnin, no sul do Líbano, em uma família simples sobre o qual sabe-se pouco.  Ao que parece, fez parte da casa  de Ali Bek al-As’ad, um poderoso governante local. Foi a esposa deste, chamada Fatimah bint As ‘ad al-Khalil, que escrevia poesia e tinha considerável educação religiosa, que parece ter ensinado Zaynab a ler e a escrever.

As fontes discordam sobre a trajetória precisa da juventude de Zaynab Fawwaz. Não há certeza sobre seu casamento, nem sobre quando e porque ela se mudou para o Cairo, talvez através de Beirute ou de Alexandria.  O certo é que, no Egito, ela começou a trabalhar com o editor literário de polímeros e jornais, Hasan Husni Pasha al-Tuwayrani (c1849- c.1896). Seu jornal, al-Nil (O Nilo), publicou muitos dos mais conhecidos e polêmicos ensaios de Fawwaz nos anos de 1890.

Esta foi a década em que as reivindicações pela educação das meninas e pelos direitos das mulheres se confundiu  com o pensamento e ativismo nacionalista após a ocupação britânica do Egito (1882). O nome mais associado a esse debate é o do advogado Qasim Amin, cujo tratado de 1899 Tahrir al-mar’ah (A Libertação da Mulher) criou um furor, especialmente em virtude de questões com a segregação de gênero e a cobertura corporal, gerando muitas críticas em livros e ensaios escritos por homens inconformados. No entanto,  naquela década uma pequena elite de mulheres emergiu e manifestou por escrito suas reivindicações, algumas delas a partir de uma perspectiva ocidental e cristã, e outras, como Fawwaz, a partir de uma perspectiva islâmica – e ainda mais, calcada na tradição do xiismo, o que era bastante incomum no Egito.

Ela foi provavelmente a mais prolífica dessa geração de mulheres escritoras. Escreveu o romance Husn al- ‘awaqib aw Ghadat al-Zahirah (Boas consequências, ou a Donzela de al-Zahirah),  uma peça de teatro al-Hawa wa’l-wafa’ (Amor e Fidelidade) – que provavelmente nunca foi encenada. Sua grande obra foi o dicionário biográfico de mulheres do mundo, al-Durr al-manthur fi tabaqat rabbat al-khudur (Pérolas espalhadas entre as classes de senhoras enclausuradas) (1894), em que apresenta vidas de mais de quinhentas mulheres, de poetisas da Arábia pré-islâmica a renomadas mulheres da Grécia e Pérsia Clássica, da realeza na Europa Medieval, escritoras, cientistas, artistas, governantes e educadoras de seu próprio tempo.

Por volta de 1905, quando a sua coleção de ensaios jornalísticos e alguns poemas foram publicados no al-Rasa’il al-Zaynabiyyah (As epístolas de Zaynab), parece que ela já não estava mais publicando imprensa periódica, embora seu segundo romance tenha saído no mesmo ano, e é dito que ela escreveu pelo menos mais dois trabalhos que nunca foram publicados.

Em sua própria vida, Fawwaz traçou um caminho notavelmente independente: o seu casamento com o escritor sírio e funcionário público otomano Adib Nazmi al-Dimashqi (c.1840- c.1915) não durou muito devido ao fato dele ser polígamo e de tê-la  mantido em isolamento em uma propriedade rural síria sem os jornais egípcios.  Manteve correspondência com Berthe Honoré Palmer, em Chicago, e pretendeu que o seu dicionário de mulheres viesse a integrar a  Biblioteca de Mulheres na Exposição Universal de Chicago de 1893.

BIBLIOGRAFIA

BOOTH, Marilyn. Exemplary lives, feminist aspirations: Zaynab Fawwaz and arabic biographical tradition. Journal of Arabic Literature, v. 26, n. 1-2,  p. 120-146, 1995.

BOOTH, Marilyn. “Zaynab Fawwaz”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 365-366.


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Legenda: Zewditu Menelik

Fonte: RAFAELA, Sandra. Queen Zewditu I Ethiopia 1916 to 1930. Queen Mothers of Africa and Their Daughters. Disponível em: http:// queenmothersofafricaandtheirdaughters.blogspot.com/2014/09/queen-zewditu-i-ethiopia-1916-to-1930.html. Acesso em: 21 de dez. de 2020.
Palavras-chave:

Zewditu Menelik (1876–1930)

Nascida em 1876 em Inewari, com o nome de Askala Mariam, foi a terceira filha do imperador Menelik II da Etiópia.  Sua mãe, Abchiw de Wello, era uma das consortes do imperador, motivo pelo qual a chegada da criança desagradou à primeira-esposa, Bafena, que moveu uma guerra temporária contra o marido. Foi esta rainha-mãe quem entregou Askala, aos seis anos de idade, em casamento ao filho do antigo imperador Johanes IV, chamado Ras Araya Selassiê, cerca de 30 anos mais velho. Com a morte dele, em 1888, Askala contraiu casamento com Wag Seyyum Gwangul,  e depois com Dejazmach Webe Atnaf Seged, o Ras Gusa Wele, com quem viveu a partir de 1900.

Zewditu exerceu forte influência na corte, junto à mais nova primeira-esposa do pai, chamada Taytu Betul. Após a morte de Menelik II, foi proclamada imperatriz (negasta Negestat: rainha dos reis) em 1916, tendo como regente Tafari Mekonnen (Ras Tafari), que logo depois viria a governar a Etiópia com o nome de Hailê Selassiê I.

No governo ela tomou importantes decisões em nome de seu país na Liga das Nações, onde a Etiópia foi admitida em 1923; e na proibição do tráfico de escravizados. Mas a crescente influência de Tafari gerou uma situação de conflito que levou ao confronto armado e a sua derrubada em 1928, quando seu adversário foi coroado como imperador.

Nos dois últimos anos de vida ela permaneceu com alguma influência na corte, até falecer em decorrência de diabetes.  

BIBLIOGRAFIA

MARCUS, Harold Golden. Haile Sellasie I: the formative years, 1892-1936.  Berkeley: University of California Press, 1987.

RUBINKOWSKA, Hanna. “Zewditu Menilek”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 245-246.


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Legenda: Zinha Vaz

Fonte: Conosaba do Porto. «42 Anos de Independência da Guiné-bissau» "Desencantados com o Rumo da Independência", - Zinha Vaz. 11 de set. de 2015. Disponível em: http://conosaba.blogspot.com/2015/09/42-anos-de-independencia-da-guine.html. Acesso em 23 de dez. de 2020.
Palavras-chave: Organização econômica

Zinha Vaz (1952)

Seu nome completo é Francisca Monteiro e Silva Vaz.  Nasceu em Bissau e foi educada em Portugal, onde obteve diploma  em Educação no Instituto Superior de Ciências Educativas (ISCE) e em Sociologia no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa.

Foi professora primária em Portugal e na Guiné antes de trabalhar na Sociedade Distribuidora dos Combustíveis e Lubrificantes da Guiné-Bissau, atuando na importação e distribuição de gás e petróleo durante o período de instalação do governo do PAIGC. Em 1976, junto com Mauro Laurentino da Costa, Luís Badaró, Olívio Mendes e Helder Vaz, participou de um movimento de oposição ao governo, o que a levou a prisão de 1977 a 1980, durante a presidência de Luís Cabral. Algum tempo depois, fundou em Portugal a Resistência da Guiné-Bissau Movimento Bafatá (RGB-MB).

Nos anos 1990, foi uma das únicas dez mulheres a atuar na Assembleia Nacional Popular, onde assumiu oposição ao governo. Participou de diversas comissões legislativas e fez parte da Comissão de Boa Vontade, que mediou as relações entre o presidente João Bernardo Nino Vieira e o Ministro de Defesa demissionário, Ansumane Mané, que levou à Guerra Civil de 1998-1999.

Por uma década (1992-2002), Zinha Vaz fundou e presidiu a Associação das Mulheres de Atividade Econômica da Guiné-Bissau (AMAE), além de ocupar postos de administração na cidade de Bissau e na  administração central do país.

BIBLIOGRAFIA

ASSUNÇÃO, Márcia Gomes. Representação política das mulheres na Guiné-Bissau. Lisboa: ISCTE,  2018.

MENDY, Peter; LOBBAN JR., Richard. Historical dictionary of the Republic of Guinea-Bissau. Lanham; Toronto; Plymouth: The Scarecrow Press, 2013.


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Legenda: Zoë Wicomb | Yale University

Fonte: Windham Campbell Prizes. Disponível em: https://windhamcampbell.org/festival/2013/recipients/wicomb-zo%C3%AB. Acesso em: 21 de dez. de 2020.

Zoë Wicomb (1948)

Escritora e professora, nasceu em Vanrhynsdorp, na província do Cabo Ocidental, e cresceu em uma pequena cidade da Namaqualândia. Frequentou o ensino secundário e a Universidade do Cabo Ocidental, criada em 1960, durante o regime do Apartheid para a população dos “coloured” – a população mestiça que, na classificação oficial, era incluída entre os racialmente discriminados.

Após se formar, Zoë Wicomb partiu para a Escócia, onde morou em Nottingham e em Glaslow, no Reino Unido, no qual viveu até o início da década de 1990, quando assumiu o cargo de professora de língua inglesa na Universidade do Cabo Ocidental. Depois, mais uma vez na Europa, foi contratada pela Universidade de Stellenbosh (2005) e Universidade de Strahclyde, onde lecionou escrita criativa até a sua aposentadoria (2009).

Como autora, a ficção de Zoë Wicomb concede grande espaço aos problemas relacionados com os dilemas identitários das populações “coloured” durante o regime do Apartheid, e os impasses sociais vividos por elas na “nova” África do Sul.  A sua primeira obra de sucesso, You can’t get lost in Cape Town (Você não pode se perder na Cidade do Cabo) (1987), é uma coleção de contos curtos e contém visivelmente marcas autobiográficas. Já o livro seguinte, David’s story (A história de David) (1991), trata da ambiguidade das identidades na “Nova África do Sul”, os recalques decorrentes da segregação racial anterior e os perigos do exclusivismo étnico.

Lançado em 2006, o romance Playing in the light (Jogando às claras) explora a situação dos sujeitos sul-africanos que, da condição de “colored” (pessoas de cor) passaram a ser reclassificados como brancos” sul-africanos. Este cruzamento de fronteira racial coloca em foco a auto-humilhação resultante do discurso do Apartheid e a “vergonha” herdada do sistema de reclassificação. A estrutura narrativa permite que as ambivalências ocultadas no passado racializado da África do Sul venham à tona, desnudando o desconforto do discurso do nacionalismo arco íris, que minimiza o peso dos traumas político e pessoal na África do Sul.

Zoë também é autora de extensa lista de trabalhos relacionados com a crítica literária e temas culturais. Seu trabalho questiona abordagens simplistas dos problemas nacionais e identitários em uma sociedade multirracial e multicultural, a autonegação e a luta contra a homogeneidade.

BIBLIOGRAFIA

LEWIS, Desiree. Writing hybrid selves: Richard Rive and Zoë Wicomb.In: ERASMUS, Zimitri (Ed.). Coloured by history, shaped by place: new perspectives on coloured identity in Cape Town. Cape Town: Kwela Books, 2001, p. 131-158.

MARAIS, Mike. Bastards and and bodies in Zoë Wicomb’s David’s Story”. Journal of Commonwealth Literature, v. 40, n. 3, p. 21-36, 2005.

MORKEL, Nancy Laura. “Zoe Wicomb”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 170-172.

SAMUELSON, Meg. The disfigured body of the female guerilla: (de)militarization, sex violence, and redomestication in Zoë Wicomb’s David’s Story. Signs: journal of women in culture and society, v. 32, n. 4, p. 833-856, 2007.

WICOMB, Zoë. Shame and identity: the case of the coloured in South Africa. In: Attridge, Derek; JOLLY, Rosemary (Eds.). Writing South Africa: literature, Apartheid, and democracy, 1970-1995. Cambridge: Cambridge University Press, 1998, p. 91-107


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Legenda: Zulu Sofola

Fonte: ADEDOYIN, Wole. Biography And Works Of Zulu Sofola. Lagos Books Club. 02 de jul. de 2015. Disponível em: https:// lagosbooksclub.wordpress.com/2015/07/02/biography-and-works-of-zulu-sofola/. Acesso em: 14 de dez. de 2020.

Zulu Sofola (1935–1995)

Nasceu com o nome de Onekwuke Nwazulu Sofola, de uma família real, os Okumabua de Issele-Uku, na localidade de Aniocha, no Estado do Delta, na atual Nigéria. Zulu é uma abreviação de seu nome igbo, Nwazuluoha, e não um nome sul-africano. Estudou no Seminário Batista da União da Virgínia onde obteve seu bacharelado em 1959, e na Universidade Católica da America, em Washington, onde obteve Mestrado em teatro (1966)  e Doutorado na Universidade de Ibadan (1977). Casou-se com J. A. Sofola, um professor de sociologia, com quem teve cinco filhos, e com quem viveu até a morte.

Ela foi a primeira dramaturga nigeriana, e teve também uma carreira acadêmica como docente nas universidades de seu país. Foi conferencista na Universidade de Ibadan(1968-1983) e trabalhou na Universidade de Ilorin até 1995, tendo sido a primeira professora de Artes da Performance e reitora da Faculdade de Artes.

Zulu escreveu dezoito peças, em geral sobre temas das tradições e da história nigeriana, e sobre as relações dessas tradições com a modernidade ocidental. Ela enfrentou algumas críticas por ser eurocêntrica demais devido a sua influência ocidental. Suas peças incluem The disturbed peace of christmas (A paz perturbada do Natal (1971), Wedlock of the gods (O casamento dos deuses) (1972), King Emene (Rei Emene) (1974), The wizard of law (O Mago da Lei) (1975), Old wines are tast (Vinhos Velhos são Saborosos) (1981), Memories in the moolinght (Memórias ao luar) (1986), e Song of a maiden (Canção da Donzela) (1991).

Ela pertenceu à primeira geração de escritoras africanas, deu voz às mulheres e à cultura igbo. Suas primeiras peças lamentavam o silenciamento das vozes femininas, sobretudo de mulheres ativas como as de sua sociedade ancestral, como por exemplo a peça Queen Omu Aliko (Rainha Omu Aliko). Ela identificou na emergência da consciência feminina das mulheres africanas um vento de mudança que iria varrer o planeta, por isso criou heroínas femininas que são agentes de mudança, resilientes, vivazes e resolutas em sua busca pela auto-expressão e auto-inscrição.

BIBLIOGRAFIA

GILBERT, Helen e Joanne Tompkins. Post-colonial drama:theory, practice, politics. London: Routledge, 1996.

KOLAWOLE, M. E. M. Zulu Sofola: her life & her works. Ibadan, Nigéria: Caltop Publications, 1999.

KOLAWOLE, Mary. “Zulu Sofola”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 428-429.

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