Eleni da Etiópia (1430?-1522)

Ilustração mariana
Fonte da imagem: Livro dos Milagres de Maria (Etiópia, séc. XVII)

Eleni – na língua amárica, ‘Ǝlǝni (እልኒ), também romanizado como Helena – foi uma das rainhas consortes do nǝguś etíope Za’rä Yäcǝqob (1434-1468), da chamada Dinastia Salomônida. Sua influência e atuação política na corte da Etiópia excederam em muitas décadas o próprio reinado deste monarca, sendo determinantes para o decurso histórico do Estado cristão entre o final do século XV e início do XVI.

Originária do Sultanato de Ḥadīya, tributário do Estado cristão, Eleni chegou à Etiópia possivelmente ainda criança, mediante um contrato matrimonial estabelecido por Za’rä Yäcǝqob após o apoio militar daquele sultanato nas guerras contra cAdal, subjugado em 1445. Portaria o título esposal de QäñBä’altēḥat (ቀኝዕ : በእልቴሐት), “Rainha da Mão Direita”, denominação que carregou consigo mesmo durante o reinado de Bä’əda Maryam (1468-1478), sucessor de Za’rä Yäcǝqob – o que era considerado incomum. Conforme a Crônica de Bä’əda Maryam registra, Eleni preservou o título devido às suas qualidades e proficiências em todos os campos – suas boas obras, sua fé, habilidades culinárias, elegância, seu conhecimento das Escrituras Sagradas e da boa linguagem –, considerando-a “como sua própria mãe”.

Durante a breve regência dupla em nome do ainda infante ‘Ǝskənder (1478-1494), Eleni é ostracizada da vida política pela rainha Romna, viúva de Bä’əda Maryam, e pelo Beḥt Wäddäd (governador) Amdä-Mika’əl, da velha guarda de Qwäsṭantinos. Amdä-Mika’əl assumiria grandes poderes de forma despótica, e um grande movimento de oposição – aparentemente, liderado por Eleni – pôs fim à sua regência e garantiu a autonomia de governo a ‘Ǝskənder; desta vez, com Eleni cumprindo o papel de matriarca simbólica da Corte. Com efeito, quando o nǝguś Nacod (1494-1507), irmão de ‘Ǝskənder, foi morto em campanha militar contra os muçulmanos de cAdal, seria Eleni a responsável por assumir o protagonismo da regência em nome da menoridade de Lǝbnä Dǝngǝl (1508-1540), que governaria sob o nome régio de Däwit II.

A conjuntura do início do século XVI, entre a crescente ameaça do Egito Mameluco e o estabelecimento dos primeiros contatos com Portugal a partir da chegada de Pêro da Covilhã à Corte etíope (1494) levam Eleni a tomar a iniciativa de enviar uma embaixada formal a D. Manuel I (1495-1521), com uma proposta de aliança militar entre ambos reinos cristãos – africano e europeu. A embaixada, que partiu em 1509 e chegaria a Lisboa somente em 1513, capitaneada pelo clérigo armênio Matewos, era coroada com uma oferta de matrimônio entre a Casa Salomônida e a Dinastia de Avis, presentes diplomáticos e relíquias.

Eleni era ainda viva quando a embaixada de D. Rodrigo de Lima, em resposta a seu apelo, finalmente chegou em 1520 aos altiplanos da Etiópia para ter com Däwit II, agora reinante; de idade já avançada, a reverência à sua figura é ainda relatada por Francisco Álvares. Afasta-se da vida na Corte e passa a residir em suas propriedades na província de Gojjam, onde faleceria em 1522.

Pesquisa e redação: Gabriel Giacomazzi

Referências

HERMAN, Margaux. Figures féminines chrétiennes, exaltation de la dignité de roi et participation politique des reines (Éthiopie, XVe-XVIIIe siècle). Annales d’Éthiopie, Vol. 30, n. 1, pp. 71–118, 2015.

KREBS, Verena. “Ǝleni’s Mission to Portugal, 1508-1509”. In: ____. Medieval Ethiopian Kingship, Craft, and Diplomacy with Latin Europe. Cham (Suíça): Palgrave Macmillan, 2021, pp. 143-146.

Última atualização em: 08/10/2024

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