Ahangbé (século XVIII)

Guerreiras do Daomé (1852)
Fonte da imagem: The New York Public Library. Disponível em: https://digitalcollections.nypl.org/items/510d47da-7503-a3d9-e040-e00a18064a99. Acesso em: 11 de jan. de 2021.

Também referenciada na literatura francesa  como Tassi Hangbé. Nascida no antigo reino de Daomé, era irmã gêmea de Akaba, o quarto governante daomeano a que se atribui o fortalecimento militar do reino e que governou entre 1685-1708. Dividia com ele o poder e tinha um palácio próprio em Alada-Vikpé.

Segundo a tradição oral, logo após sair pela primeira vez da residência real, Akaba teria dito: “Dé bé kaba kaba aganman non lia houn”, que significa “O camaleão aproxima-se lentamente e docemente para comer o queijo”, numa alusão a sua idade avançada ao assumir o trono. Sua principal atividade militar foi dirigida contra os Ouéménou, de Huedá. Liderados por Yahassé Kpolou, atacaram Abomé logo no início do reinado de Akaba e Ahangbé, sendo entretanto logo rechaçados.

A morte repentina de Akaba, acometido pela varíola, doença contagiosa que assolou o Golfo do Benin no fim do século XVII, logo após os primeiros contatos com os europeus, fez como que ela assumisse integralmente o poder, governando sozinha durante alguns meses. Para não afetar o ânimo dos guerreiros e desmotivá-los ela inicialmente manteve em segredo e assumiu sua identidade  na luta contra os Ouéménou, obtendo a vitória contra o rei Yahassé Kpolou. A seguir, criou um batalhão especial de mulheres da guarda real conhecido como Ahosi ou Mino, que a literatura ocidental denomina “Amazonas do Daomé”.

Em fongbé, a língua falada no Daomé, Ahangbé significa, literalmente “a voz da canção”. Desde menina ela adorava cantar e amava belas canções. Seu nome porém foi apagado da linhagem real após a ascensão de seu irmão mais novo, Doussou, que assumiu o reino com o nome de Agajá e  o governou de 1708 até 1732, e cujos apoiadores ajudaram a afastá-la do governo. Este transformou as guerreiras da guarda real em uma milícia armada, que utilizou com sucesso no ataque ao reino de Savi em 1727.

Embora Ahangbé não tenha sido formalmente entronizada nem incluída na lista dos governantes oficiais, no período de seu governo ela usava as insígnias do poder real, como as sandálias (saloubata), o grande pano de tecido decorado (avotita), o bastão de comando (mankpó) e era acompanhada do assento e do guarda-sol. Diante da indignação dos ministros e conselheiros da corte, que não admitiam a idéia de uma mulher sozinha ocupar o assento real, para evitar querelas e preservar a vida de seus dois filhos, ela teria enfim concordado em abdicar e ceder o direito de governo a Agajá. 

Até o presente, uma cerimônia anual realizada por mulheres celebra a memória de Ahangbé, presidida por sacerdotisas que a encarnam, que são entronizadas e enterradas ritualmente como rainhas, tema tratado no documentário de Arnaud Zohou intitulado Hangbé, reine oubliée (Ahangbé, rainha esquecida) (2002).

BIBLIOGRAFIA 

ALPERN, Stanley B.. On the Origins of the Amazons of Dahomey. History in Africa, n.  25, p. 9–25, 1998.

BAY, Edna. Wives of Leopard: gender, politics, and culture in the kingdom of Dahomey. Charlotesville; London: University of Virginia Press, 2012 (or. 1998).

BAY, Edna. “Hangbe”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 19-20.

SERBIN, Sylvia. Tassin Hangbé, éphémère reine du Dahomey. In: IDEM.  Reines d’Afrique et héroïnes de la diaspora noire. Saint-Maur-des-Fossés: Sépia, 2004, p. 50-56.

Última atualização em: 28/01/2021

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