Gudit (século X)

Mulher da Abissínia (1854)
Fonte da imagem: The New York Public Library. Disponível em: https://digitalcollections.nypl.org/items/510d47da-6fa2-a3d9-e040-e00a18064a99. Acesso em: 11 de jan. de 2021.

Também referenciada com os nomes de Yuit ou Judith, ou então pelo seu nome próprio etíope, Esato (Fogo), foi uma rainha abissisínia legendária que, segundo consta, teria invadido Axum com seu exército, queimado e saqueado a cidade, e tomando para si o trono, o que teria posto fim ao poderio axumita. Ela também é tida por vezes como a fundadora da dinastia Zagwe.

Muito da lenda de Gudit provém de uma crônica composta no século XV por Tekla Haimanot que reúne fragmentos e compilações de vários estabelecimentos monásticos.  Segundo esta crônica, Gudit teria sido uma princesa pertencente a uma família real de Hahayle, no planalto do Tigré. Devido a uma intriga, acabou banida da corte e se tornado uma prostituta em Axum. Acusada pela sedução de um religioso, teria sido punida com a amputação de um seio e com o banimento. Acolhida do outro lado do Mar Vermelho pelo príncipe sírio  Zenobis, com quem se casou, ela teria se convertido ao judaísmo. Por meio de espiões, foi informada sobre quando o rei de Axum, Degnaia, deixou o país com o exército para ir à Arábia e encontrou a oportunidade para concretizar sua vingança.

De acordo com as mesmas tradições inseridas nas crônicas,  Gudit liderou seu exército por Massawa e fez uma parada em Dohono, de onde enviou uma mensagem à terra de sua mãe pedindo ao povo que se juntasse a ela. Quando conquistou Axum, queimou a igreja de Santa Maria de Zion, o palácio do rei e vários outros edifícios cristãos. Depois disso, reinou por quatro anos e quando morreu, Anbesa Wedem, filho de Degnajan, a sucedeu no trono.

A lenda de Gudit pode ter parcialmente fundamento histórico. Algumas outras fontes escritas sugerem que por volta de 970  Axum teria sido conquistada por uma rainha, cujo nome permanece aberto a debate, e alguns afirmam ter sido Gudit. Também na crônica intitulada História dos Patriarcas de Alexandria é dito que o rei núbio  chamado Girgis (Jorge), contemporâneo do patriarca  Philotheus, teria pedido socorro aos cristãos do Egito pois seu reino teria sido devastado  por Bani al-Hamwiyah, uma rainha que teria se levantado contra ele. Outra versão ainda contada no século XVIII, recolhida pelo explorador escocês James Bruce em 1770, afirma que ela teria sido uma governanta judia do povo Falacha, os judeus negros da Etiópia. Certos historiadores, como o italiano Conti Rossini, presumem que ela pudesse provir do povo Sidamo, residente no reino de Damot, enquanto outros, como Steven Kaplan, afirmam que ela teria sido uma rainha pagã.

Em meio a tantas evidências e hipóteses conflitantes, a figura histórica de Gudit deve ser apenas presumida. É muito difícil estabelecer com precisão os fatos e informações sobre a vida e os feitos desta rainha devido a inconsistência das fontes, o que dificultada a sua caracterização seja como uma rainha cristã rebelde, seja como uma governanta judia ou mesmo uma governanta pagã.

BIBLIOGRAFIA

ANDERSEN, Knud Tage. The queen of the Habasha in Ethiopian history, Tradition and chronology. Bulletin of the School of Oriental and African Studies, v. 63, n. 1, p.  31-36, 2000.

AUGUSTYNIAK, Zuzanna. “Gudit”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 511-512.

SELASSIE, Sergew Hable. The Problem of Gudit. Journal of Ethiopian Studies, v. 10, n. 1,  p. 113-124, 1972.

Última atualização em: 28/01/2021

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