No antigo Mandinga, o governo do reino coube desde o princípio a uma única linhagem, a dos Keita, e pouco ou quase nada é tratado sobre suas consortes do sexo feminino. As pesquisas da historiadora Madina Ly-Tall trouxeram à tona o papel representado pelas mulheres dos governantes do Império do Mali, algumas delas como primeiras-esposas, outras como rainhas-mães e outras ainda como esposas-preferidas, identificadas pelo título de Baramuso.
Embora as responsabilidades do governo estivessem na esfera pública de poder das primeiras-esposas, a posição de esposa-preferida era digna de nota devido a influência que elas podiam exercer sobre os seus maridos na esfera privada. Devido a essa influência, sua posição na corte dos governantes lhes garantia grande prestígio e muitos disputavam sua atenção e sua amizade. Somente com elas os mansas (governantes) compartilhavam os seus segredos.
Na conhecida crônica histórica dos acontecimentos transcorridos no Império Mandinga e no Império Songai intitulada Tarikh al-Fattash, cuja redação data da metade do século XVII, constam diversas anedotas sobre o Mansa Mussa do Mali e sua faustosa peregrinação à Meca nos anos 1324-1325. Uma delas diz respeito ao relacionamento dele com sua esposa-preferida durante a travessia do Saara. O evento, registrado três séculos após ter supostamente ocorrido, foi recolhido da tradição oral e reveste-se de elementos fantasiosos que sugerem o seu caráter lendário.
Certa noite, quando a caravana encontrava-se acampada entre as cidades de Tagazza e Touat, Mansa Mussa repousava com Inari Konté em sua tenda, e ao perceber que ela não conseguia dormir, perguntou-lhe o motivo. Ela teria então explicado que não conseguia dormir devido ao incômodo da areia sobre o seu corpo, e que necessitava banhar-se nas águas do Rio – numa provável alusão ao grande rio Níger. Na manhã seguinte o marido encarregou o ministro, Farba, de providenciar fornecimento de água, algo aparentemente impossível de ser feito. Mas uma gigantesca operação permitiu que a água do Níger fosse drenada através do Saara por uma espécie de aqueduto construído por milhares de escravos, e a rainha pode então realizar o seu desejo, banhando-se junto com suas quinhentas acompanhantes e serviçais.
O sobrenome da governanta lendária, Konté, sugere o seu vínculo ao povo Sosso, ligado ao grupo linguístico soninké. Nesse caso, o seu casamento com Mansa Mussa poderia sinalizar arranjos políticos com a antiga linhagem Kanté, que dominou o Mali antes do advento de Sundjata Keita no trono mandinga.
Para alguns tradicionalistas, como Dioma Hamana, o nome da rainha teria sido Niériba Kondé, que é como o historiador Djibril Niane também a designa. Segundo este pesquisador, mesmo historiador, a tradição mandinga conservou a memória do episódio lendário que envolveu o desejo da rainha e transformou Niériba Kondé numa espécie de ninfa, sempre rondando a margem do grande rio Níger.
BIBLIOGRAFIA
LY-TALL, Madina. Contribution a l’histoire de l’Empire du Mali (XIII-XVI siècles): limites, principales provinces, institutions politiques (thèse de doctorat de 3º cycle, Sorbonne, juin 1972). Dakar; Abidjan: Les Nouvelles Éditions Africaines, 1977.
NIANE, Djibril Tamsir. Recherches sur l’Empire du Mali au Moyen Age. Recherches africaines: études guinéenes (Conacry), t. 1, 1959, p. 6-56. Texto disponível em: http://www.webguinee.net Acesso em 20/08/2019.
PALA, Achola; LY, Madina. La mujer africana en la sociedad precolonial. Barcelona: Serbal; UNESCO, 1982: https://unesdoc.unesco.org/images/0004/000402/040262sb.pdf
Última atualização em: 22/01/2021
































