Nascida em data incerta no século XIX na região do Planalto de Bandiagara, na atual República do Mali, pertencia a uma distinta linhagem de origem étnica fula (fulani, peul). Seu pai, Paté Poullo, era administrador do rebanho de gado dos antigos governantes do Reino de Maciná, e sua mãe, Anta N’Diobdi, era bem conhecida e respeitada na comunidade. Na infância, foi entregue a um guia espiritual para aprender os conhecimentos corânicos e os elementos das tradições ancestrais dos fulas e tucolores.
Quando tinha cerca de quinze anos foi entregue pela família ao seu primeiro marido, Hampaté, provavelmente na década de 1890, e com ele teve três crianças, uma das quais faleceu quando tinha seis meses e outra morreu aos quinze anos. Por volta de 1903 o casal se separou, e logo ele morreu. Kadidja aceitou ser a terceira esposa de um outro pretendente, Tidjani Amadou Ali Thiam, que era líder do clã tucolor na Província de Luta, no atual Burkina Fasso. Viveu com ele até o fim da vida, com quem teve seis filhos.
Sua história pessoal e familiar se confunde com o período de efetivação da conquista colonial francesa em Bandiagara, onde as tropas foram chefiadas pelo coronel Archinard (1893-1897). Embora as antigas chefias locais não tenham sido eliminadas, a autoridade francesa era mantida em última instância, sendo imposta pelas armas e pela colaboração de exércitos recrutados localmente.
Por volta de 1902-1903, uma disputa entre os povos Tucolores e os Samos por causa da recusa no pagamento de impostos levou ao aprisionamento de Tidjani Thiam em um posto militar de Bougouni, situado a 700 km de Bandiagara. Nesta ocasião, Kadidja, que dispunha de considerável herança familiar em dinheiro, jóias e em cabeças de gado, empenhou os bens, o tempo e os contatos pessoais para garantir a sobrevivência do marido na prisão. Na qualidade de líder de uma waaldé, isto é, uma associação de mulheres de sua faixa etária, valeu-se desta rede de comunicação para localizar e se aproximar de Tidjani Thiam e lhe oferecer alguma segurança durante os três anos que passou na prisão, visitando-o regularmente, com entrada livre na prisão, até a libertação dele em 1908.
Ela foi a única das esposas a oferecer apoio e sustentação ao marido em um momento difícil, mas devido às intrigas no interior da família de Tidjani, o casal renunciou à sua condição de nobreza, passando a viver uma relação monogâmica, e de seu próprio trabalho: ela, como próspera comerciante de artigos e artefatos de consumo diário (balas, fósforos, açúcar, biscoitos, licor, vinho e tabaco) e ele como marabu (sacerdote) e alfaiate-bordador. Ambos se fixaram na cidade de Kati.
Kadidja vivia bem com o marido quando em 1915 recebeu a visita de seu filho do primeiro casamento, Amadou Hampaté Bâ, então com quinze anos, e foi ele quem deixou o registro de sua história no primeiro livro de sua autobiografia. A admiração e profundo respeito por ela, compartilhados pela cultura de seu povo, transparece em toda a narrativa de sua vida e seus feitos, e podem ser sintetizadas no provérbio malinês, segundo o qual “Tudo o que somos e tudo o que temos devemos somente uma vez a nosso pai, mas duas vezes a nossa mãe”.
BIBLIOGRAFIA
BÂ, Amadou Hampaté. Amkoullel, o menino fula. São Paulo: Palas Athena; Casa das Áfricas, 2003.
CHARTIER, Anne-Marie. L’enfance d’Hampâté Bâ, de l’école coranique à l’école des colons. Strenæ , n. 3, 2012: http://journals.openedition.org/strenae/543
STÄDTLER, Katharina. Tout ce que nous sommes et tout ce que nous avons: la représentation de la mère chez Amadou Hampâte Bâ. Francofonía, n. 11, p. 143-158, 2002: https://www.redalyc.org/pdf/295/29501111.pdf
Última atualização em: 28/01/2021
































