Luzia Pinta (século XVIII)

Cena de possessão de um calundu (1630)
Fonte da imagem: Slavery Images. Disponível em: http://www.slaveryimages.org/s/slaveryimages/item/1018. Acesso em 24 de jan. de 2021.

Nascida em data desconhecida na África central, foi escravizada e transportada ao Brasil.

Teria partido de Luanda, ainda pequena, e sem que se saiba como conquistou a liberdade por alforria, vivendo como pessoa livre e detentora de uma pequena propriedade em Sabará, Minas Gerais.

Ainda que para alguns o seu sobrenome, Pinta, pudesse vir a ser um indicativo ao local da origem de seu grupo étnico na África central, a região de Mpinda, na atual República de Angola, o documento de sua alforria foi recentemente encontrado nos arquivos da antiga Vila de Sabará / Comarca de Rio das Velhas, o que comprova ter ela comprado sua própria liberdade. Ao que tudo indica, a nomeação de Luzia Pinta provém do sobrenome dos senhores que lhe venderam a sua alforria, chamados João Pinto Dias e Manoel Pinto Dias, aparentemente, irmãos.

Luzia era sacerdotisa tradicional, com experiência em práticas de cura e participava de rituais coletivos de possessão e transe conhecidos no Brasil colonial como calundu. O termo designa a crença africana na circulação de energia vital entre espíritos dos ancestrais e determinadas pessoas especialmente preparadas para recebê-las em seu corpo, que no antigo reino do Congo e Ndongo eram chamados de xinguilas.

Por meio da possessão ritual por espíritos tais pessoas obtinham a capacidade de fazer previsões, produzir a cura ou administrar venenos que podiam provocar a morte. Estas manifestações, por sua vez, eram associadas pelas autoridades católicas à feitiçaria e idolatria, sendo consideradas criminosas. Foi por isso que, denunciada em 1739 como “feiticeira”, Luzia Pinta foi presa e enviada a Portugal no ano de 1742 para ser julgada pelo Tribunal de Inquisição de Lisboa, onde permaneceu encarcerada no calabouço do “Santo Ofício” durante dois anos, sem que se saiba qual o seu destino.

BIBLIOGRAFIA

LIMA, Douglas. Libertos, patronos e tabeliães: a escrita da escravidão e da liberdade em alforrias notariais. Belo Horizonte: Caravana Editorial, 2020.

MARCUSSI, Alexandre Almeida. Estratégias de mediação simbólica em um calundu colonial. Revista de História, n.  155, p. 97-124, 2006.

MOTT, Luiz. O calundu-Angola de Luzia Pinta: Sabará, 1739. Revista do Instituto de Arte e Cultura, n. 1, p. 73-82, 1994.

SOUZA, Laura de Mello. O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial. São Paulo: Cia. das Letras, 1987.

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