Nome pelo qual os escritores árabes designavam as mulheres negras escravizadas da África saariana, o vocábulo corresponde ao adjetivo “sudan”, um dos termos para designar “negro” na língua árabe. Elas eram vendidas e levadas pelas milhares de caravanas de atravessavam o Deserto do Saara para serem revendidas nas cidades do Magrebe, do lado europeu do Mediterrâneo e do Oriente Médio, onde trabalhavam como serviçais domésticas, como dançarinas e cantoras (kaynat; kiyam), serviçais palacianas e/ou mesmo eram colocadas em casas de prostituição. Encontra-se aí uma das raízes históricas da erotização do corpo das mulheres negras.
A primeira referência a escravidão feminina na África subsaariana aparece na descrição feita pelo cronista andaluz al-Bakri, no fim do século XI, quando ele descreve o comércio caravaneiro mantido com o reino de Gana, através da cidade saariana de Awdaghost, situada na atual Mauritânia. Diz ele que ali se encontravam excelentes cozinheiras, e uma delas valeria 100 meticais (moedas) ou mais. Elas seriam excelentes quituteiras, seus bolinhos com noz e mel (kata’if) e outros doces eram incomparáveis. Diz ainda que eram muito vistosas, e que o mercador Abu Rustan du Djabal Nafusa o informou ter certa vez avistado uma delas deitada de lado, com o filhinho divertindo-se ao lado dela enquanto passava por baixo de suas costas de um lado para outro, “tão fina era a cintura e tão grande era o quadril”.
Com o desenvolvimento do comércio transaariano a procura por cativos (as) aumentou gradualmente, e a preferência por mulheres (jawari) e por pessoas jovens (fityan) de cor negra conferiu ao tráfico um caráter eminentemente racial e de gênero. Em 1353, quando retornava de sua viagem à corte de Mansa Sulaiman, no Mali, o viajante marroquino Ibn Battuta comprou e devolveu uma mulher que não o agradou, e a caravana do qual ele fazia parte, com destino à cidade de Fez, levava seiscentas delas como cativas.
No Marrocos antes do século XVIII, além do serviço doméstico, as mulheres negras escravizadas pelas famílias influentes eram encarregadas de preparar as noivas e ajudá-las durante o ritual do casamento, preparando-as para a noite de núpcias. Com o tempo, organizaram-se em grupos sob a direção geral de uma líder referida como amina, a qual era sempre uma mulher idosa, rica e respeitada, reconhecida como responsável por todos os grupos de mulheres “casamenteiras”. Outras denominações ou qualificações, em língua local, aplicadas à essas mulheres eram neggafat, “prudentes”, “circunspectas”; e machitat, “penteadoras”, “roupeiras”.
BIBLIOGRAFIA
ENNAJ, Mohammed. Soldats, domestiques et concubines: l’esclavage au Maroc au XIX siècle. Paris: Balland, 1994 (Collection Le Nadir).
GOMES, Michael A.. African dominium: a new history of empire in early and medieval West Africa. Princeton; Oxford: Princeton University Press, 2018.
Última atualização em: 28/01/2021
































