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Beryl Markham (1902-1986)

Personagem feminina com trajetória precursora no Quênia: foi treinadora de cavalos, pilota de avião e escritora das memórias de suas aventuras. Nasceu na Inglaterra e aos dois anos sua família (pai, mãe e irmão mais velho) foram morar no Quênia, à época sob domínio britânico, atendendo à demanda do governo em estabelecer o assentamento de brancos no território. Sua vida ilustra as possibilidades em privilégios reservados às mulheres brancas vinculadas ao colonialismo que viveram no continente africano.

Sua autonomia emocional marcante se desenvolveu cedo com o “abandono” de sua mãe, que logo voltou à Inglaterra com o irmão, como ela descreve em uma de suas memórias. Assim seu laço com o pai intensificou e Beryl aprendeu a domar cavalos. Um dos destaques de sua carreira foi a vitória de um potro que ela havia cuidado de ferimentos anteriormente, na corrida de St. Leger, um clássico circuito queniano na época.

Em 1930 ela começou a aprender a pilotar, apesar dos perigos (pouco acesso à manutenção mecânica, território inóspito e longas distâncias), sua natureza intrépida a tornaram uma das melhores pilotas comerciais e guias de safári do Quênia.

Se sua vida profissional são emblemáticas por conta do desprendimento aos papeis femininos, sua vida particular não foi diferente: casou-se três vezes, mas seus casamentos foram apimentados com envolvimentos emocionas e infidelidade conjugal. Ela teve um filho de seu segundo casamento, mas logo após se separarem a criança foi criada pela família do ex-marido, os Mansfield. Sua renomada beleza física e sensualidade contribuíram para sua reputação como mulher capaz de buscar seu próprio prazer.

Beryl Markham realizou um feito extraordinário ao cruzar o Atlântico pilotando sozinha o avião, tornando- uma celebridade, e inclusive chegando a participar de um filme de Hollywood, Safari, em 1941. Sua fama tornou a vida itinerante, tendo ficado cerca de vinte anos se mudando entre os Estados Unidos, as Bahamas e a Inglaterra. Depois de se separar do último marido, ela voltou ao Quênia para treinar cavalos, obtendo ainda maior sucesso.

Em suas memórias e depoimentos, Beryl sempre reafirmou sua condição africana.  Mesmo sendo um símbolo de liberdade para muitas mulheres, a sua liberdade como mulher branca não deve ser desvinculada do contexto colonial, com a desapropriação das terras e a exploração do trabalho dos africanos nativos.

BIBLIOGRAFIA

BOOKMAN, Ariel. “Beryl Clutterbuck Markham”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 111-113.

LOVELL, Mary S.. Straight on till morning: the biography of Beryl Markham. Nova Iorque: St. Martins Press, 1987.

MARKHAM, Beryl. West with the night. San Francisco: North Point Press, 1983.

TRZEBINSKI, Errol. The livres of Beryl Markham: out of Africa’s  hidden free spirit and Dennis Finch Hatton’s last great love. Nova Iorque: W. W. Norton, 1993.

Touria Chaoui (1936–1956)

Nascida em Fez, Marrocos, foi a primeira aviadora do Magrebe e do mundo árabe, durante o período da colonização francesa. De origem burguesa, frequentou aulas de cultura ocidental, francesa, árabe e marroquina. No colégio, demonstrou habilidades de liderança, quando aos 7 anos organizou uma greve para protestar contra a violência das autoridades coloniais.
Fascinada por qualquer coisa que voasse, lia tudo o que podia sobre aviação. No entanto, se perguntava qual a possibilidade de uma jovem Fatma – maneira como os colonizadores chamavam as mulheres marroquinas – ser admitida na única escola de voos do país, que aceitava apenas a elite francesa masculina. Apesar do desprezo inicial, a escola acabou aceitando-a e com 14 anos começou seu treinamento de piloto de avião. Dois anos depois, se tornou a primeira aviadora marroquina e do mundo árabe.
Depois disso, tornou-se uma estrela local, com várias publicações sobre ela em jornais internacionais e homenagens de diversas organizações femininas. Criou o Aéro Club Royal (Aeroclube Real), um clube para reunião de pilotos locais e nacionais. Fundou e dirigiu a escola Lalla Amina, cujo objetivo principal era ensinar mulheres jovens a tornarem-se autônomas e independentes dos homens. Foi também membro do partido l’Istiqlal, escrevendo artigos no jornal do partido e para outros jornais políticos.
Foi assassinada com dois tiros quando tinha 19 anos, em frente de sua casa, durante o clima de euforia e festividades pelo anúncio oficial da independência do país em relação à França. Considerando que ela foi retirada da história oficial do Marrocos, seu assassinato pode ser considerado um evento político, pois Touria era uma figura representativa da modernidade e emancipação feminina no Marrocos e no Magrebe.

BIBLIOGRAFIA

CHAOUI, Salah Eddine. Ma Soeur Touria Chaoui, première aviatrice du monde árabe. Paris: Editions L’Harmattan, 2018.


DALLE, Ignace. Les trois rois: la monarchie marocaine, de l´indépendence à nos jours. Paris: Fayard, 2004.

DAOUD, Zakya. Féminisme et politique au Maghreb: soixante ans de lutte. Paris: Maisonneuve & Larose, 1993.GLACIER, Osire. “Touria Chaoui”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2,  p. 59-60.

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