Destacada intelectual, pesquisadora e ativista senegalesa em defesa dos direitos das mulheres na África, é um nome importante entre as feministas africanas. Realizou sua formação acadêmica na França, onde cursou dois doutorados, um em antropologia cultural na Universidade de Paris VIII, e outro em filosofia na Universidade Pantheon-Sorbonne Paris I. Durante este tempo, foi membro da Coordination des Femmes Noires (Coordenação das Mulheres Negras), um dos primeiros grupos de feministas negras na França. De retorno ao Senegal, passou a atuar como Assistente de Pesquisa na Universidade de Dakar Cheikh Anta Diop – UCAD. Em 1987 ela propôs a criação, nesta universidade, de um departamento de antropologia das relações sexuais, mas a iniciativa não foi aprovada.
Como pesquisadora e escritora, sua obra de maior impacto foi La parole aux négresses (A palavra das negras), publicada em 1978 e logo depois traduzido ao inglês com o título Black sisters, speak out: feminism and opression in Black África (As irmãs negras falam: feminismo e opressão na África Negra). O livro, um dos primeiros do gênero, apresenta os resultados de entrevistas com mulheres sobreviventes de violência física e sexual, onde é feita a denúncia aberta da poligamia, do dote e sobretudo da mutilação genital feminina. E reivindica mudanças na estrutura da sociedade que é eminentemente patriarcal. Outras obras de sua autoria, como Continents noirs (Continentes negros) (1987), Woman’s struggle for the abolition of sexual mutilation (A luta das mulheres pela abolição da mutilação genital) (1998), aprofundam temas como a liberdade, igualdade e a busca pela libertação feminina.
Em busca de espaços para a voz das mulheres africanas, Awa Thiam posiciona-se criticamente em relação às iniciativas de feministas ocidentais (brancas), por tentarem intervir e ajudar as mulheres africanas baseadas em critérios e julgamentos de valor que não tem relação com a mentalidade e costumes das pessoas que integram as sociedades em questão. Para ela, as mulheres da África já sofreram o suficiente com atitudes coloniais ou neocoloniais como essas.
Fora do campo acadêmico, ela fundou em 1982 a Comissão para a Abolição das Mutilações Sexuais (CAMS), que foi logo depois dissolvida, e recriada como CAMS-Internacional. Alguns anos mais tarde dirigiu o Centro Nacional de Assistência e Treinamento da Mulher, órgão vinculado ao Ministério da Mulher e da Criança. Ela também foi Ministra da Saúde e Ação Social e Presidente da Comissão de Saúde, População, Assuntos Sociais e Solidariedade, e co-fundadora da Aliança para uma Nova Cidadania em Dakar.
Considerada uma das maiores lideranças feministas africanas na luta contra o costume da mutilação genital feminina, ela considera que tal prática é apenas um fino véu que esconde o controle patriarcal, e declara: “o objetivo dessas práticas, admitidas ou não, é controlar a sexualidade feminina. Algumas não hesitam em dizer que o objetivo é reduzir a hiper-sensualidade das mulheres. De qualquer forma, o resultado permanece o mesmo: fazer da jovem um elemento reprodutivo e produtivo futuro, daí sua vida ser ordenada e traçada para desde o nascimento até a morte por uma sociedade patriarcal que garante que ela seja mantida em seu lugar em todas as etapas de seu desenvolvimento” (1998).
BIBLIOGRAFIA
THIAM, Awa. Women’s fight for the abolition of sexual mutilation. International Social Science Journal, v. 50, n. 157, p. 381–386, 1998.
KONATE, Dior. “Awa Thiam”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 12-13.
MIANDA, Gertrude Mutonkoley. Reading Awa Thiam’s La parole aux Négresses through the lens of feminisms and hegemony of english language. Atlantis: critical studies in gender, culture & social justice, v. 36, n. 2, 2014: https://journals.msvu.ca/index.php/atlantis/article/view/1954
Última atualização em: 28/01/2021
































