• IPK — International Prototype of the Kilogram

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Esta peça é uma réplica em tamanho real do Pro­tó­tipo Inter­na­ci­o­nal do Qui­lo­grama (IPK) uti­li­zado entre 1889 e 2019, objeto extre­ma­mente impor­tante para a his­tó­ria da huma­ni­dade. Esta réplica de aço inox é mais leve que os pro­tó­ti­pos ori­gi­nais, que eram feitos com uma liga de platina com 10% de irídio, e não serve para a cali­bra­ção de massa.

Esta peça foi recen­te­mente doada ao Ins­ti­tuto de Física da UFRGS pelo prof. João Alziro Herz da Jornada, que foi aluno de gra­du­a­ção, mes­trado, dou­to­rado e pro­fes­sor titular do IF. Além disso, foi pre­si­dente do INMETRO (Ins­ti­tuto Naci­o­nal de Metro­lo­gia, Qua­li­dade e Tec­no­lo­gia) entre 2004 e 2015. Abaixo repro­du­zi­mos o texto enviado pelo pro­fes­sor para expo­si­ção junto ao objeto.

Réplica do padrão internacional do quilograma (IPK), usado até 20 de maio de 2019

No final do século 18 ‒ com a expan­são do comér­cio entre nações, o sur­gi­mento da indús­tria e impor­tan­tes avanços em C&T ‒, emergia neces­si­dade de um sistema de uni­da­des de medida e padrões metro­ló­gi­cos mais sofis­ti­cado, aces­sí­vel e ampla­mente aceito. Em 1795, o governo repu­bli­cano francês ins­ti­tuiu o sistema métrico decimal para ‘pesos e medidas’, defi­nindo as uni­da­des a partir de atri­bu­tos uni­ver­sais e perenes da natu­reza, dentro do espí­rito ilu­mi­nista da Revo­lu­ção Fran­cesa. O metro, medida de com­pri­mento, foi defi­nido como a décima mili­o­né­sima parte da dis­tân­cia entre o polo norte e o equador; o grama (massa) era a massa contida em um cen­tí­me­tro cúbico de água.

A mesma lei deter­mi­nava que o metro fosse ‘repre­sen­tado’ por uma barra de platina, a qual seria, então, usada como ‘padrão pri­má­rio’ na dis­se­mi­na­ção, no país, dessa unidade. O mesmo deveria ser feito para o qui­lo­grama (1.000 gramas, que passou então a ser o padrão).

Décadas mais tarde, a neces­si­dade de har­mo­ni­za­ção inter­na­ci­o­nal para ‘pesos e medidas’ levou à grande arti­cu­la­ção entre países. A Con­ven­ção do Metro, tratado inter­na­ci­o­nal for­ma­li­zado em 20 de maio de 1875, foi assi­nado por 17 nações ‒ Brasil, inclu­sive. Por razões prá­ti­cas, decidiu-se que as uni­da­des do metro e qui­lo­grama seriam defi­ni­das por padrões feitos de metal estável e resis­tente (espe­ci­fi­ca­mente uma liga de platina com 10% de irídio), base­ando-se nos padrões fran­ce­ses para o metro e quilograma.

A con­ven­ção criou o Birô Inter­na­ci­o­nal de Pesos e Medidas (BIPM), que iria cus­to­diar esses padrões e coor­de­nar a dis­se­mi­na­ção dessas uni­da­des aos sig­na­tá­rios do acordo. Também foi criada a Con­fe­rên­cia Geral de Pesos e Medidas (CGPM), sistema de reu­niões de acom­pa­nha­mento e deci­sões polí­ti­cas dos países membros, e o Comitê Inter­na­ci­o­nal de Pesos e Medidas (CIPM), órgão técnico-cien­tí­fico de asses­so­ra­mento e gestão.

Em 1889, ficaram prontas dezenas de arte­fato pra­ti­ca­mente idên­ti­cos da liga Pt10%Ir que seriam usados como padrões de ‘pesos e medidas’- Barras para o metro e cilin­dros para o qui­lo­grama. Uma barra foi esco­lhida como padrão inter­na­ci­o­nal para o metro, e um dos cilin­dros (conhe­cido como IPK), como padrão inter­na­ci­o­nal do qui­lo­grama (con­forme mos­trado na figura ao lado). O res­tante, ou foi dis­tri­buído entre países, ou ficou no BIPM. O arte­fato mos­trado aqui é uma réplica dos padrões de qui­lo­grama que foram dis­tri­buí­dos entre países membros da Con­ven­ção do Metro. Esta réplica tem o mesmo formato e dimen­sões do IPK e dos ‘padrões naci­o­nais’, contudo sua massa é bem menor, por ser feito de aço inox ao invés da liga Pt-10%Ir, a qual tem den­si­dade muito maior. Durante cem anos, o qui­lo­grama foi defi­nido como a massa do IPK, mantido num cofre nas ins­ta­la­ções do BIPM, em Sèvres, nos arre­do­res de Paris, e usado de tempos em tempos para cali­brar outros padrões, espe­ci­al­mente os ‘padrões naci­o­nais’. Por­tanto, durante esse tempo todas as medidas de massa, assim como de algumas outras gran­de­zas, como cor­rente elé­trica, eram ulti­ma­mente refe­ri­das ao IPK. Esta situ­a­ção mudou a partir de 20 de maio de 2019. Por decisão da 26ª reunião da CGPM, em 20 de março de 2019 entrou em vigor uma com­pleta revisão do SI, incluindo a nova defi­ni­ção do qui­lo­grama, baseada em pro­pri­e­da­des fun­da­men­tais da natu­reza, espe­ci­al­mente a cons­tante de Planck. Essa nova defi­ni­ção já per­mi­tiu mate­ri­a­li­zar o qui­lo­grama por dois métodos dife­ren­tes ‒ e com incer­te­zas bem menores que a dis­per­são de valores obser­vada nos padrões em platina-irídio idên­ti­cos ao IPK. Agora o SI está total­mente inde­pen­dente de artefatos! 

A nova defi­ni­ção do qui­lo­grama é: “O qui­lo­grama, símbolo kg, é a unidade de massa do SI. Ele é defi­nido tomando-se o valor numé­rico da cons­tante de Planck, h, como sendo 6,62607015×10−34 quando expressa na unidade J⋅s [joule segundo], a qual é igual a kg⋅m2/s”. Note-se que para a defi­ni­ção do qui­lo­grama são neces­sá­rias as defi­ni­ções de duas outras uni­da­des, o metro e o segundo, ambas defi­ni­das em termos de outras cons­tan­tes (a velo­ci­dade da luz no vácuo e a frequên­cia de tran­si­ção hiper­fina do estado fun­da­men­tal não per­tur­bado do Césio 133) dentro do SI.

Prof. João Alziro Herz da Jornada / Dezem­bro 2019

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