• Capítulo 04: Como sair da Terra?

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Desde a metade do século passado, as viagens espa­ci­ais dei­xa­ram de ser ficção cien­tí­fica para se tornar parte da nossa rea­li­dade. A cada ano, mais e mais objetos (como saté­li­tes de tele­co­mu­ni­ca­ções) são lan­ça­dos em direção ao espaço, e viagens turís­ti­cas já estão sendo comer­ci­a­li­za­das. A per­gunta é: como tudo isso se tornou possível? 

Muito antes de cons­truir­mos grandes motores de pro­pul­são capazes de nos levar para fora do nosso planeta, foram neces­sá­rios anos de estudo para que pudés­se­mos com­pre­en­der a gra­vi­ta­ção. A gra­vi­dade é uma força de atração, que puxa corpos com massa um em direção ao outro. É a força da gra­vi­dade que nos faz voltar ao chão após pular, pois nosso corpo e a Terra se atraem, ou seja, é esta a força que não nos permite sair voando por aí.

Figura 1. Ilus­tra­ção da Balança de Torção uti­li­zada por Henry Caven­dish para medir a Cons­tante Gra­vi­ta­ci­o­nal em 1798. Cópia da figura 1 do artigo “Expe­ri­men­tos para deter­mi­nar a den­si­dade da Terra”. Fonte: Henry Caven­dish, Public domain, via Wiki­me­dia Commons.

Mas por que não sen­ti­mos essa atração em relação a outros corpos? O que a Terra tem de espe­cial? A Terra tem muita massa, apro­xi­ma­da­mente seis tri­lhões de tri­lhões de qui­lo­grama (\inline \fn_phv 5,972\cdot 10^{24}\, kg), ou o equi­va­lente a 80 bilhões de tri­lhões de pessoas. Por esse motivo, a atração que sen­ti­mos pela terra é muito maior do que a que sen­ti­mos por uma pedra qual­quer, mas isso não quer dizer que não exista uma força da gra­vi­dade nos atraindo em direção à pedra e vice-versa.

O famoso Expe­ri­mento de Caven­dish, pro­je­tado por John Michell, foi o pri­meiro a medir a força da gra­vi­dade entre massas em um labo­ra­tó­rio e for­ne­cer valores pre­ci­sos para a cons­tante gra­vi­ta­ci­o­nal. A mon­ta­gem deste expe­ri­mento con­siste em: uma haste com uma esfera de chumbo em cada ponta, sus­pensa hori­zon­tal­mente por um fio (ou balança de torção); outras duas esferas de chumbo maiores são postas pró­xi­mas às esferas menores. A atração gra­vi­ta­ci­o­nal puxa as esferas menores em direção às maiores, fazendo com que a haste gire. As esferas grandes são des­lo­ca­das para o outro lado, fazendo com que a haste gire na outra direção. Este movi­mento com­prova a exis­tên­cia de atração entre as esferas e, rea­li­zando medidas das massas, dis­tân­cias e da torção do fio, é pos­sí­vel cal­cu­lar a cons­tante da gra­vi­ta­ção expressa na Lei de Gra­vi­ta­ção Uni­ver­sal de Newton. Uma breve demons­tra­ção moderna do Expe­ri­mento de Caven­dish da Uni­ver­si­dade de Michi­gan, similar à rea­li­zada nos Labo­ra­tó­rios de Ensino de Física da UFRGS, pode ser visu­a­li­zada neste link.

É impor­tante lembrar que, apesar de estar­mos acos­tu­ma­dos a asso­ciar ‘’gra­vi­dade’’ ao valor de \inline \fn_phv 9,81\, m/s^{2}, esse é uma apro­xi­ma­ção válida para a ace­le­ra­ção de um corpo próximo ao chão. A cons­tante gra­vi­ta­ci­o­nal é dife­rente do valor da ace­le­ra­ção da gra­vi­dade na super­fí­cie da Terra, ela é uma cons­tante uni­ver­sal, para qual­quer par de corpos, e equi­vale a \inline \fn_phv 6,674\cdot 10^{-11}m^{3}/kgs^{2}. Cal­cu­lando-se a ace­le­ra­ção causada pela força de atração para um corpo em relação à massa da Terra, à uma dis­tân­cia igual ao raio da Terra, chega-se no valor apro­xi­mado de \inline \fn_phv 9,81\, m/s^{2}.

Figura 2. Imagem digi­ta­li­zada do ter­ceiro volume da obra de Newton, na qual ele explica o expe­ri­mento mental do canhão. Fonte: Newton, Isaac. 1728. Sobre o Sistema do Mundo, tra­du­zido para o Inglês, Londres : Impresso para F. Fayram. 

Mas o que isso importa para sair da Terra? Isaac Newton, em seu tra­ba­lho inti­tu­lado Phi­lo­sophiæ Natu­ra­lis Prin­ci­pia Mathe­ma­tica (Prin­cí­pios Mate­má­ti­cos da Filo­so­fia Natural), sugeriu o expe­ri­mento mental da Bala de Canhão. Neste expe­ri­mento hipo­té­tico, imagina-se um canhão no topo de uma alta mon­ta­nha ati­rando hori­zon­tal­mente uma bala com uma dada velo­ci­dade inicial. Não havendo resis­tên­cia do ar ou atração da gra­vi­dade, a bala sairia voando em linha reta, sem nenhuma inter­fe­rên­cia, mas como há gra­vi­dade, a bala é puxada em direção à Terra. Ati­rando a bala com baixa velo­ci­dade, ela cai de volta na Terra; aumen­tando o sufi­ci­ente a velo­ci­dade de lan­ça­mento, a bala vai sempre “caindo” em direção ao centro da Terra, mas nunca chega a tocar sua super­fí­cie e dá a volta nela, che­gando nova­mente ao canhão; aumen­tando ainda mais a velo­ci­dade, seria pos­sí­vel lançar a bola para o infi­nito, seguindo uma tra­je­tó­ria para­bo­lóide ou hiper­bó­lica. A velo­ci­dade mínima neces­sá­ria para que a bala se perca no infi­nito é a chamada Velo­ci­dade de Escape. Este expe­ri­mento mental é bem ilus­trado de maneira inte­ra­tiva neste link.

A velo­ci­dade de escape de um astro depende da massa dele, da Cons­tante Uni­ver­sal Gra­vi­ta­ci­o­nal e da dis­tân­cia inicial do corpo que se pre­tende lançar e, para a Terra, em sua super­fí­cie, essa é de apro­xi­ma­da­mente \inline \fn_phv 40270\, km/h, muito maior do que as velo­ci­da­des do nosso dia-a-dia. É inte­res­sante per­ce­ber que podemos uti­li­zar a própria rotação da Terra para ajudar no lan­ça­mento, pois a velo­ci­dade tan­gen­cial de um corpo na Linha do Equador, em relação a um obser­va­dor esta­ci­o­ná­rio, é de apro­xi­ma­da­mente \inline \fn_phv 1675\, km/h e diminui quando vamos em direção aos pólos. Por isso os lan­ça­men­tos de fogue­tes são rea­li­za­dos pró­xi­mos à Linha do Equador e a Base Militar de Alcân­tara, no estado do Mara­nhão, possui posição privilegiada.

Mas atingir a velo­ci­dade de escape não é neces­sá­rio para sair da Terra, tudo depende de para onde dese­ja­mos ir. Ao cal­cu­lar a órbita de um saté­lite, não que­re­mos que ele escape da atração da Terra, mas apenas equi­li­bre a sua inércia e a atração gra­vi­ta­ci­o­nal, man­tendo sua alti­tude estável. É inte­res­sante obser­var que quanto mais alta a órbita, menor é a velo­ci­dade neces­sá­ria para se manter nela. Um saté­lite geo­es­ta­ci­o­ná­rio, que dá uma volta na Terra em um dia, mantém sua alti­tude em torno de \inline \fn_phv 35786\, km e sua velo­ci­dade  em \inline \fn_phv 11300\, km/h; já a Lua, que encon­tra-se a uma dis­tân­cia média de \inline \fn_phv 384400\, km, possui velo­ci­dade média de \inline \fn_phv 3700\, km/h, com­ple­tando sua órbita em apro­xi­ma­da­mente 27 dias.

Laila Berg da Nobrega / Equipe AMLEF 2021

Saiba mais:

  • Vídeo do canal Cons­tante de Planck, do Pro­fes­sor André Mendes, sobre o Expe­ri­mento de Caven­dish e suas con­clu­sões: https://youtu.be/gbXiy7SFY2k

Referências:

  1. Viagem espa­cial – Wiki­pé­dia, a enci­clo­pé­dia livre (wikipedia.org)
  2. Turismo espa­cial – Wiki­pé­dia, a enci­clo­pé­dia livre (wikipedia.org) 
  3. Astro­náu­tica: Velo­ci­dade de escape — UOL Edu­ca­ção 
  4. Velo­ci­dade de escape: fórmula, exem­plos, exer­cí­cios — Mundo Edu­ca­ção (uol.com.br) 
  5. O que é velo­ci­dade de escape? — Brasil Escola (uol.com.br) 
  6. Gra­vi­ta­ção Uni­ver­sal — Brasil Escola (uol.com.br) 
  7. http://www.if.ufrgs.br/historia/cavendish.html
  8. Velo­ci­dade de escape — Astro­fí­sica — Info­Es­cola 
  9. (10) The Caven­dish expe­ri­ment and G — YouTube
  10. Gra­vi­ta­ti­o­nal cons­tant — Wikipedia
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