• Capítulo 07: Cadê o Ar?

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Figura 1. Desenho mera­mente ilus­tra­tivo da dife­rença da pressão da coluna de ar exer­cida no nível do mar e em uma montanha. 

No nosso coti­di­ano estamos sujei­tos à Pressão Atmos­fé­rica. No entanto, o que acon­tece quando estamos no vácuo do espaço, expos­tos à pressão zero, ou até mesmo quando estamos no fundo do mar expos­tos às altas pres­sões? Dife­ren­te­mente do que vemos no cinema, a rea­li­dade pode ser um pouco menos dra­má­tica e cho­cante, mas ainda assim peri­gosa. Por essa razão foram rea­li­za­dos expe­ri­men­tos com animais, ela­bo­ra­das câmaras  de simu­la­ção, criados trajes espe­ci­ais, dentre outros, tudo isso para con­tor­nar as limi­ta­ções físicas do corpo humano e explo­rar cada vez mais.

A Pressão Atmos­fé­rica, citada ante­ri­or­mente, também chamada de Pressão Baro­mé­trica, é a força exer­cida por unidade de área pela coluna de ar acima de nós.  Isso quer dizer que o ar exerce uma força sobre as super­fí­cies imersas nele, ou seja, quanto maior for a quan­ti­dade de ar acima dessa super­fí­cie, maior será também a força exer­cida pelo ar. Assim, a Pressão Atmos­fé­rica é uma gran­deza escalar, resul­tante da colisão entre essas molé­cu­las, pre­sen­tes no gás atmos­fé­rico, e os corpos inse­ri­dos no mesmo.  Uma vez que o ar é enten­dido como um fluido, a pressão exer­cida sobre os corpos depende da pro­fun­di­dade em que estes se encon­tram. Ou seja, quanto maior for a alti­tude menor será o módulo da pressão atmos­fé­rica, tor­nando o ar rare­feito. Essa redução na pressão acon­tece jus­ta­mente porque a quan­ti­dade de ar acima desse ponto é menor. Em con­tra­par­tida, os maiores módulos de pressão atmos­fé­rica estão no nível do mar.  A Pressão Atmos­fé­rica pode ser dada em diver­sas uni­da­des, as mais uti­li­za­das são o atm (atmos­fera) e o pascal (1 atm = 1,01.105 Pa).

Ainda em “Terra” firme

Imagem de domínio público. Autor: Jacques Alexandre César Charles, Cientista Francês
Figura 2. Esquema do Expe­ri­mento de Tor­ri­celli. Fonte: Kilom691, domínio público, via Wiki­me­dia Commons.

A pressão atmos­fé­rica pode ser medida por meio de um ins­tru­mento, muito uti­li­zado em mete­o­ro­lo­gia, deno­mi­nado Barô­me­tro. Atu­al­mente, existem dois tipos: os barô­me­tros de mer­cú­rio e os barô­me­tros ane­roi­des que são metá­li­cos e menos precisos.

O barô­me­tro de mer­cú­rio, inven­tado por Evan­ge­lista Tor­ri­celli (1608–1647) em 1643,  é com­posto por um tubo de vidro em posição ver­ti­cal con­tendo mer­cú­rio, com o topo fechado, fixo em uma base. A des­co­berta se deu quando Tor­ri­celli encheu o tubo de vidro com mer­cú­rio e o tampou com o dedo, para em seguida, invertê-lo e mer­gu­lhá-lo em um prato fundo que também con­ti­nha mer­cú­rio (figura 2.)

Acon­tece, que o mer­cú­rio não se esvai do tubo afora, mas a coluna se esta­bi­liza com uma altura bem defi­nida (apro­xi­ma­da­mente 760 milí­me­tros no nível do mar). Esse fenô­meno se dá devido à equi­pa­ra­ção entre a pressão exer­cida pela coluna de mer­cú­rio e a pressão exer­cida pela coluna de ar, a pressão atmos­fé­rica, apli­cada na base que contém mer­cú­rio. Dessa forma, quanto maior a pressão atmos­fé­rica, mais alta fica a coluna de mercúrio. 

O barô­me­tro ane­roide, por sua vez, con­siste em uma câmara par­ci­al­mente eva­cu­ada que com­prime, com o aumento da pressão, e expande, com a dimi­nui­ção de pressão. Essas modi­fi­ca­ções na câmara são trans­mi­ti­das a um pon­teiro, já cali­brado. O barô­me­tro ane­roide é muito uti­li­zado em baró­gra­fos que gravam con­ti­nu­a­mente as vari­a­ções de pressão.

Começando a voar

Figura 3. Balão mete­o­ro­ló­gico tipo radi­os­sonda logo após o lan­ça­mento. Fonte: NOAA Photo Library, NOAA Central Library; OAR/ERL/National Severe Storms Labo­ra­tory, domínio público, via Wiki­me­dia Commons.

Outro ins­tru­mento bas­tante uti­li­zado para pes­qui­sar infor­ma­ções atmos­fé­ri­cas é o balão mete­o­ro­ló­gico. Esses tipos de balões são capazes de obter dados de pressão atmos­fé­rica, umidade, tem­pe­ra­tura e velo­ci­dade do vento, uti­li­zando ins­tru­men­tos quase des­car­tá­veis cha­ma­dos radi­os­son­das. O acom­pa­nha­mento da velo­ci­dade e direção do vento pode ser rea­li­zado ras­tre­ando o balão por radar, radi­o­go­ni­o­me­tria ou por sis­te­mas de nave­ga­ção, como  o GPS. Os cha­ma­dos balões radi­os­sonda são balões de voo livre e uso único; são cheios de hélio ou hidro­gê­nio e sobem até uma alti­tude de 35 km, quando estou­ram e caem. Já os balões que são des­ti­na­dos a per­ma­ne­cer em alti­tude cons­tante por longos perío­dos de tempo, são conhe­ci­dos como tran­sos­sonda. Esse último tipo de balão foi expe­ri­men­tado em 1958, para ajudar a diag­nos­ti­car detri­tos radi­o­a­ti­vos da pre­ci­pi­ta­ção atômica. Os balões tran­sos­sonda tem função de son­da­gem hori­zon­tal da atmos­fera em altas alti­tu­des, podendo também ser equi­pa­dos com ins­tru­men­tos de medidas atmosféricas.

O  pri­meiro expe­ri­mento com balões de hidro­gê­nio foi rea­li­zado na França, em 1783, por Jacques A. C. Charles (1746–1823) e pelos irmãos Nicolas-Louis Robert (1761–1828) e Anne-Jean Robert (1758–1820). Já uma das pri­mei­ras pessoas a usar balões para medi­ções mete­o­ro­ló­gi­cas foi Léon T. de Bort (1855–1913). Ele lançou, a partir do ano de 1896, cen­te­nas de balões mete­o­ro­ló­gi­cos de seu obser­va­tó­rio em Trapes na França. Esses expe­ri­men­tos o levaram à des­co­berta de certas carac­te­rís­ti­cas da atmos­fera ter­res­tre, pos­si­bi­li­tando a defi­ni­ção das cha­ma­das Tro­pos­fera e Estra­tos­fera. Acon­tece, que a atmos­fera ter­res­tre pode ser divi­dida em camadas atmos­fé­ri­cas, esti­pu­la­das de acordo com as carac­te­rís­ti­cas par­ti­cu­la­res de cada nível. A divisão abor­dada baseia-se na vari­a­ção da tem­pe­ra­tura de acordo com a alti­tude, porém existem várias manei­ras de dividir e clas­si­fi­car a atmos­fera, como, por exemplo, pela com­po­si­ção do ar. Essa divisão é mera­mente formal, e não apre­senta limites exatos entre as camadas, dado que a atmos­fera é um meio fluido. A clas­si­fi­ca­ção por tem­pe­ra­tura divide nossa Atmos­fera em cinco camadas: Tro­pos­fera, Estra­tos­fera, Mesos­fera, Ter­mos­fera e Exosfera. 

Além da Atmosfera

A palavra vácuo tem origem na palavra latina “vacua” que sig­ni­fica “vazio” (Mar­quardt, 1999). O vácuo ideal seria um espaço sem a pre­sença de matéria, ou seja, o com­pleto vazio. Porém, não existe região alguma do Uni­verso que apre­sente vácuo per­feito, já que há par­tí­cu­las ocu­pando o espaço. Por­tanto, o vácuo é sempre parcial. Na Física, costuma-se chamar de vácuo as regiões do espaço ocu­pa­das por uma pequena quan­ti­dade de matéria. Essas regiões podem ser for­ma­das arti­fi­ci­al­mente, apre­sen­tando uma pressão menor que a pressão atmos­fé­rica externa. A defi­ni­ção de vácuo de Mar­quardt (1999) é qual­quer volume de gás con­tendo menos par­tí­cu­las, molé­cu­las ou átomos (menor den­si­dade de par­tí­cu­las ou pressão de gás) que a atmos­fera externa que o envolve. 

Figura 4. AMLEF320, Hemis­fé­rios de Mag­de­burgo para demons­tra­ções de pressão.

Por essa razão uma defi­ni­ção simples de vácuo (em um ambi­ente com atmos­fera) poderia ser, sem sombra de dúvida, qual­quer pressão menor que a pressão atmos­fé­rica. Existem duas formas de medir o vácuo: a rela­tiva e a abso­luta. Vácuo rela­tivo é uma medida de pressão em com­pa­ra­ção à pressão atmos­fé­rica, cujo valor é 1 atm. Essa medida é a con­si­de­rada no expe­ri­mento dos Hemis­fé­rios de Mag­de­burgo, por exemplo, e é também a mais usada em indús­trias ou no nosso coti­di­ano, pois nesses casos a fina­li­dade é a dife­rença de pressão (e con­se­quen­te­mente força de ligação entre as super­fí­cies) que se obtém em relação à pressão atmos­fé­rica. O Vácuo abso­luto é medido dire­ta­mente pela pressão, na qual a pressão zero sig­ni­fica a ausên­cia  de matéria, o vácuo ideal. A medida abso­luta é inte­res­sante quando tra­ta­mos de situ­a­ções espa­ci­ais, sendo também empre­gado em situ­a­ções nas quais a ausên­cia, quase total, de gases e pressão são necessárias.

É até difícil expli­car a dife­rença entre a quan­ti­dade de matéria que temos na atmos­fera e no vácuo do espaço. O próprio espaço tem uma grande vari­a­ção de pressão e quan­ti­dade de matéria em dife­ren­tes loca­li­za­ções. A pressão pode variar entre um bilhão (109) de vezes menor que a atmos­fé­rica no espaço inter­pla­ne­tá­rio e cem quin­ti­lhões (100x1018) de vezes menor do que a pressão atmos­fé­rica no espaço inter­ga­lá­tico. Enquanto na atmos­fera temos dois sex­ti­lhões (2x1021) de molé­cu­las por litro, na Lua essa quan­ti­dade cai para qua­tro­cen­tos milhões (4x108), no espaço inter­pla­ne­tá­rio para onze mil (11x103), no espaço inte­res­te­lar para mil (103) e no espaço inter­ga­lá­tico para um milé­simo (10-3) por litro. Isso sig­ni­fica que há uma par­tí­cula para cada mil litros de espaço intergalático.

Mas não é apenas no espaço que temos este tipo de vazio. No Grande Colisor de Hádrons (LHC), no Labo­ra­tó­rio CERN, a tubu­la­ção por onde as par­tí­cu­las ace­le­ra­das correm precisa de ultra alto vácuo, ou seja, pres­sões quase tão baixas quanto as da super­fí­cie da Lua. Outros sis­te­mas, expe­ri­men­tos e equi­pa­men­tos também fazem bom uso de tec­no­lo­gias de vácuo, essen­ci­ais para o desen­vol­vi­mento da física e engenharia.

Efeitos no corpo humano

Assim que o corpo humano é exposto ao vácuo o Oxi­gê­nio é expe­lido dos pulmões, fazendo com que a pessoa perca a cons­ci­ên­cia por volta de quinze segun­dos. Depois de dois minutos os órgãos param de fun­ci­o­nar oca­si­o­nando o óbito. A NASA diz, em site oficial, que no ano de 1965 ocorreu um aci­dente com humanos no vácuo durante uma simu­la­ção. O traje de um dos astro­nau­tas (nome não divul­gado) sofreu uma pequena ruptura, ele ficou cons­ci­ente por cerca de catorze segun­dos e em seguida des­maiou. Foi ini­ci­ada, então, a des­pres­su­ri­za­ção do simu­la­dor e ele sobre­vi­veu. Quando o astro­nauta reco­brou a cons­ci­ên­cia disse ter ouvido o Oxi­gê­nio saindo de seu corpo e teve a sen­sa­ção de que sua saliva estava fervendo.

Figura 5. Selo postal da Posta Romana (serviço postal da Romênia), de 1959, home­na­ge­ando a cadela espa­cial Laika. Fonte: esca­ne­ado pelo usuário Neozoon, domínio público, via Wiki­me­dia Commons.

Desde a inven­ção da Bomba de Vácuo, feita por Otto von Gue­ricke (1602–1686),  vários expe­ri­men­tos com animais foram con­du­zi­dos, inclu­sive pelo próprio inven­tor. Assim, às custas da morte de diver­sos animais, o ser humano estudou os efeitos do vácuo em corpos bio­ló­gi­cos seme­lhan­tes ao seu. Com a Corrida Espa­cial, durante a Guerra Fria, muitos animais foram envi­a­dos para o espaço. O pri­meiro ser vivo a con­quis­tar esse feito foi  a cachor­ri­nha Laika, lançada no saté­lite russo Sputnik 2, em 3 de novem­bro de 1957. Ela foi enviada ao espaço quando ainda não existia tec­no­lo­gia para voltar à Terra, sua morte era certa.

Quanto aos perigos de explo­rar o espaço, é impor­tante res­sal­tar que se houver alguma pequena  avaria na nave ou no traje do astro­nauta ele não será sugado para fora. Acon­tece algo similar com os aci­den­tes em aviões. Devido a dife­rença de pressão e ao ar ser rare­feito, no caso de aero­na­ves, há uma des­com­pres­são na nave, oca­si­o­nando o escape do ar de dentro. Se a avaria é muito grande e ocorre a chamada des­com­pres­são explo­siva, na qual o ar se esvai em menos de meio segundo, há grande pro­ba­bi­li­dade de dano nos pulmões e baro­trauma. Em des­com­pres­sões mais lentas, há tempo sufi­ci­ente para o ar sair de forma segura do sistema res­pi­ra­tó­rio, sem causar danos. 

Além do dano aos pulmões, a pessoa estaria sujeita à doença des­com­pres­siva, um dis­túr­bio no qual o Nitro­gê­nio dis­sol­vido no sangue e nos tecidos, devido a expo­si­ção a uma dada pressão elevada, forma bolhas quando a pressão diminui. Os sin­to­mas podem incluir fadiga, dor nos mús­cu­los e arti­cu­la­ções, podendo causar em casos mais graves embolia pul­mo­nar e Aci­dente Vas­cu­lar Cere­bral (AVC). Isso acon­tece pelo mesmo motivo pelo qual mer­gu­lha­do­res devem ter cuidado ao retor­nar à super­fí­cie, para que a mudança de pressão não seja muito rápida. Se apenas uma parte do corpo humano for exposta ao vácuo, a mão por exemplo, os efeitos da pressão nula é apenas um leve inchaço, res­fri­a­mento (não há um con­ge­la­mento ime­di­ato) e ver­me­lhi­dão no local. 

No entanto, o espaço exte­rior não é um com­pleto vazio, mas um vácuo quase per­feito, no qual há pre­do­mi­nan­te­mente plasma de Hidro­gê­nio e Hélio. Além destes poucos átomos, há radi­a­ção ele­tro­mag­né­tica, neu­tri­nos e raios cós­mi­cos. Caso o sujeito seja exposto a essas con­di­ções, pode sofrer severas quei­ma­du­ras por radi­a­ção, já que não há atmos­fera ter­res­tre para protegê-lo. Porém, isso é assunto para outro capítulo.

Cristiane Pinheiro / Equipe AMLEF 2021

Saiba mais:


Referências:

  1. Manual MSD Versão Saúde para a Família
  2. AZEHEB: O corpo humano no vácuo do espaço. O que real­mente acontece?
  3. Wiki­pé­dia: Barômetro
  4. Indutec: O que é vácuo?
  5. Mundo Edu­ca­ção: O que é vácuo?
  6. CERN: Intro­duc­tion to the prin­ci­ples of vacuum physics
  7. Wiki­pé­dia: Balões de grande altitude
  8. Wiki­pé­dia: Balão meteorológico
  9. Wiki­pé­dia: Otto von Guericke
  10. Wiki­pé­dia: Hemis­fé­rios de Magdeburgo
  11. Ame­ri­can Mete­o­ro­lo­gi­cal Society: Radiosonde
  12. Ame­ri­can Mete­o­ro­lo­gi­cal Society: Transosonde
  13. BBC NEWS: Laika, a vira-lata ‘pio­neira’ enviada ao espaço há 60 anos em missão ‘sem volta’
  14. Wiki­pé­dia: Espaço sideral
  15. CERN: A vacuum as empty as inters­tel­lar space
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