O estudo da medida é algo que acompanha a humanidade — mesmo que de maneira apenas intuitiva — desde o início da civilização. Apesar de ser um processo intuitivo, quando o ser humano passou a viver em grandes grupos, a necessidade de medir e pesar as coisas ao seu redor foi aumentando. A partir do comércio e da propriedade privada, também era preciso medir suas terras e os frutos de seu trabalho para venda ou troca.

Uma escala de medida pode ser definida como uma unidade, ou quantidade, padronizada para descrever alguma coisa. Em uma generalização do conceito, podemos utilizar uma moeda, como o real, como a unidade de medida da grandeza valor. Podemos sempre comparar o valor de bens ao valor da moeda, para o qual toda a sociedade concorda, possibilitando a comparação indireta de valor de coisas diferentes.
De maneira simplificada, a moeda também nos ajuda a entender o conceito da conversão de unidades, pois todos os dias vemos nos jornais o valor do Dólar em relação ao Real. Ignorando o fato da relação se alterar no tempo, a conversão que fazemos para saber o preço de algo importado em Dólares para Reais é similar à conversão de Milhas para Quilômetros, apenas multiplicativa. Essas duas conversões são comuns para quem assiste ao cinema Hollywoodiano, por mais que a gente não perceba e que a legenda nem sempre faz um bom trabalho.
Escalas arcaicas (antes de 1790)

Há muito tempo atrás, não havia o conceito de um sistema de unidades de medida universal. Muitas das unidades de medidas surgiram do seu uso cotidiano e se basearam na morfologia humana: pés, palmos e passos, por exemplo. No entanto, muitas dessas medidas não eram padronizadas nem mesmo em uma pequena sociedade, quem dirá entre países diferentes.
Como sabemos, nem todos os pés e passos são iguais. Povos antigos solucionaram esse problema padronizando suas medidas usando principalmente os pés e as polegadas de uma determinada pessoa. Padronizar essas medidas (sendo elas a medida de uma única pessoa, geralmente o líder local, como os faraós) também possibilitou a evolução do mercado entre os povos, além de facilitar o desenvolvimento de civilizações.
Um método comum de padronização era a utilização de um objeto, como uma barra de ferro ou uma quantidade de grãos regulares. Este padrão definido localmente podia ser replicado para facilitar as medições, mas o alcance destes padrões era curto, sendo comumente diferentes entre regiões e países.
Foi a partir do Século XVIII que os sistemas de medidas começaram a ser definidos internacionalmente. Antes disso, para cada ofício havia um conjunto de medidas diferentes. Estima-se que, ao final do Século XVIII, apenas na França, houvesse mais de 700 unidades de medida.
Os Sistemas Métricos (1790 — 1960)

Apesar de haver registros de uma proposta de sistema métrico desde 1668 na Inglaterra, não houve vontade política ou social para esta mudança. Foi durante a Revolução Francesa (1789 — 1799) que diversos eventos e reformas importantes na sociedade e cultura ocidental se definiram. A quebra de paradigmas trazida pela iconoclastia do movimento levou a uma série de mudanças que também afetaram o campo das ciências. Neste fervor, foi proposta na Assembléia Nacional Francesa em 1790 que se abandonassem as unidades de medida arcaicas e novas unidades fossem desenvolvidas, baseadas em medidas naturais. Havia o intuito de internacionalização do sistema, mas o projeto foi posto em prática pela Academia Francesa de Ciências.
Após alguns anos de pesquisas e medições, a Academia publicou a definição do metro: um décimo de milionésimo da distância mais curta entre o Pólo Norte e a linha do Equador que passa por Paris. Essa unidade parece uma monstruosidade, mas era uma medida da natureza considerada, na época, independente de variações climáticas ou do humor de quem faz a medição. O processo de medição levou seis anos e coube a comitivas geodésicas que enfrentaram prisões, doenças e outros infortúnios. As medidas foram realizadas ao longo de trechos retos de estradas, utilizando barras de platina padronizadas com comprimento em toesas (unidade de comprimento arcaica utilizada na França) e triangulações. A partir da comparação das medidas e do cálculo do achatamento da Terra foi possível extrapolar os resultados e definir o metro. Além da unidade de medida, se definiu o uso de frações decimais para a escala como padrão, usadas até hoje, do “mili” (por mil) ao “kilo” (vezes mil).
Como medir o meridiano não é muito prático, foram criadas barras de Platina-Irídio para servir de padrão de uso. Foi selecionada aquela cujo comprimento mais se adequava à medida realizada e a esta se atribuiu o nome de metro, sendo guardada nos Arquivos da República de Paris. A partir deste metro, foram definidas outras unidades para outras grandezas: quilograma para medir massa, litro para volume et cetera. Assim como para o metro, um protótipo foi criado para o quilograma. Este foi o período d’O Metro dos Arquivos.
A difusão dos sistemas métricos não se deu apenas por conveniência. Há de se lembrar que a França não era apenas uma grande potência científica e cultural do mundo ocidental, mas uma potência militar. Durante as Guerras Napoleônicas, o Império Francês dominou grande parte da Europa continental, o que aumentou as rotas de comércio e ajudou na difusão de sistemas métricos. A partir de 1840, o sistema métrico passou a ser o único permitido na França, o que ajudou a fazer com que, aos poucos, outros países aderissem a este. No Brasil, o sistema métrico se tornou oficial em 1875. É interessante perceber que a Inglaterra, cujo histórico de relações com a França não foi muito amigável e que resistiu à expansão napoleônica, só foi abandonar seu sistema de unidades antigo, conhecido como medida imperial ou medida inglesa, em 1963; poucos países de origem anglo-saxã ainda mantém essa herança do Império Britânico.

Em 1875 ocorreu um marco importante para a metrologia: realizou-se a Convenção do Metro, em Paris. Nesta, 17 países assinaram um acordo de utilização conjunta do sistema métrico e protótipos do metro e do quilograma foram distribuídos. Também foram criadas 3 organizações para desenvolver e administrar os pesos e medidas. Este foi o primeiro passo para o desenvolvimento do Sistema Internacional de Unidades que utilizamos atualmente.
O SI: Sistema Internacional de Unidades (1960 — hoje)

Já evoluímos muito como comunidade científica, mas vale lembrar que, inicialmente, as unidades eram definidas em relação a membros de pessoas, passando a considerar partes do corpo de líderes relevantes. Posteriormente, as unidades eram relativas a materiais e artefatos, mesmo que estes tivessem significados em grandezas naturais, como o Metro e o Quilograma dos Arquivos. Desde a Convenção do Metro de 1875, ocorreram encontros regulares, com cada vez mais participantes, revisões de unidades e a inclusão de outras unidades no acordo (ampère, kelvin, mol e candela). Em 1960, com a ampla disseminação do sistema métrico KMS (quilograma, metro e segundo), foi publicado o Sistema Internacional de Unidades (SI), que hoje é aceito mundialmente, com poucas exceções, como o sistema padrão para as ciências, comércio, indústria e tecnologia.
O SI também inclui a lista de prefixos que definem a escala. Alguns deles são anteriores à publicação deste sistema, como o “micro” (por milhão), o “mega” (vezes um milhão) e aqueles adotados pelos sistemas métricos. Algumas escalas maiores são bem conhecidas, como o “giga” e o “tera”, que já estão aparecendo em componentes de computadores pessoais; da mesma forma, o nano ficou famoso para o público leigo quando a nanotecnologia começou a aparecer nos jornais. Há ainda escalas muito maiores, até o “yotta”, para o septilhão, e o “yocto”, para a septilionésima parte, mas essas ainda estão longe de se tornarem comuns.
Ao longo do tempo, as definições de unidades foram mudando. Havia o interesse de definir as unidades a partir de constantes e medidas naturais, ao invés de artefatos, mas foi somente em 1960 que a primeira unidade natural foi definida. O metro foi redefinido como: 1.650.763,73 vezes o comprimento de onda da radiação luminosa vermelha-alaranjada de um isótopo de criptônio, o Kr-86. Isso parece muito complicado, mas as definições de unidades naturais apresentam vantagens, pois diminuem o relativismo das unidades, vinculando-as a propriedades universais da natureza.

O metro ainda mudou de definição em 1983 para a distância percorrida pela luz no vácuo em 1/299.792.458 segundos, e a escrita da definição já foi aprimorada em 2019. Assim, essa unidade está vinculada a uma constante universal e à definição de segundo. Este, que por sua vez teve definições a partir da duração de um dia solar médio e do ano solar, medidas demonstradas irregulares, é definido desde 1968 a partir da frequência de transição entre dois níveis de energia de uma átomo de césio-133 (definição de segundo). Já foi demonstrado que outros átomos possibilitam uma medida mais precisa do que o césio, mas essa mudança ainda está por vir.
Atualmente, há revisões periódicas das unidades e definições, a última ocorrida em 2019. Contudo, mesmo que as convenções para escalas de medida tenham sido criadas para universalizar as medidas, possibilitando a reprodução precisa de dosagem de remédios, medidas experimentais e produções industriais, assim como eliminar a confusão em relações comerciais, ainda há muita gente que não observa as unidades. Se não tomarmos cuidado, podemos causar problemas, derrubando até aviões. Então, valorize este trabalho centenário, cuidado com as unidades!
Curiosidade:
Até hoje utilizamos “unidades” práticas, como passos, para coisas que não exigem precisão, como a distância da barreira em uma cobrança de falta no futebol. Curiosamente, certos jornais dominicais utilizavam unidades bizarras para facilitar, ou não, o entendimento do público; os mais “experientes” darão risadas ao lembrar que o dito jornal dava valores altos em quantidades do carro Gol, e ainda usa grandes áreas ou comprimentos medidas em campos de futebol. Esta última, muito similar à utilizada por Eratóstenes de Cirene (276 AEC — 194 AEC) ao medir indiretamente a circunferência da Terra em 252.000 Estádios.
Camila Raupp da Luz, Laila Berg da Nobrega e Gabriel Cury Perrone / Equipe AMLEF 2022
Saiba mais:
- Ciência Programada — Erro de conversão de unidade derruba avião? — Ciência Programada
- Wikipedia: Sistema Internacional de Unidades (Português/Inglês)
- Wikipedia: Antigas unidades de medida portuguesas
Referências:
- Escritório Internacional de Pesos e Medidas (BIPM — Bureau international des poids et mesures)
- MTIInstruments: History of Measurementes
- Fisica.net: Pesos e Medidas
- MedeInstrumentos: A origem da metrologia
- Wikipedia: História do metro (Inglês)
felipe leme bandeira
5 de fevereiro de 2024 em 17:26.
otimo conteudo
DOUGLAS TAYLOR GOMES DE OLIVEIRA
17 de setembro de 2024 em 21:57.
AS MEDIÇOES SAM PRIRMODIAIS DES DA ANTIGUIDADE COM MUDANÇAS DE POLEGADAS ‚PES,E OUTROS MAIS COM MEDIÇOES DA VELOCIDADE DA LUZ HOJE EM DIA CADA DIA APREDEMOS MAIS.
Ricardo Barbosa
14 de fevereiro de 2025 em 15:17.
Ótimo conteúdo. Resumo da história sobre o assunto.
Fernando da Silva Rocha
10 de julho de 2025 em 10:08.
Desde do princípio da humanidade usamos medidas , até nas coisas mais simples do nosso contidiano
Rodrigo de Mendonça Fernandes
26 de janeiro de 2026 em 09:42.
Adorei o conteúdo muito útil..
Carlos de Oliveira junior
13 de fevereiro de 2026 em 13:44.
A metrodologia ainda e uma evoluçao de vasto conhecimento para ser aprofundado
Carlos de Oliveira junior
13 de fevereiro de 2026 em 13:46.
ok