• Metrologia: História das Escalas e Relativismo

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O estudo da medida é algo que acom­pa­nha a huma­ni­dade — mesmo que de maneira apenas intui­tiva — desde o início da civi­li­za­ção. Apesar de ser um pro­cesso intui­tivo, quando o ser humano passou a viver em grandes grupos, a neces­si­dade de medir e pesar as coisas ao seu redor foi aumen­tando. A partir do comér­cio e da pro­pri­e­dade privada, também era preciso medir suas terras e os frutos de seu tra­ba­lho para venda ou troca.

Figura 1: Massas padrão para uso culi­ná­rio em Sistema Métrico CGS (cen­tí­me­tro, grama e segundo) e Escala Impe­rial. Fonte: Kmtex­tor, CC BY-SA 4.0, via Wiki­me­dia Commons.

Uma escala de medida pode ser defi­nida como uma unidade, ou quan­ti­dade, padro­ni­zada para des­cre­ver alguma coisa. Em uma gene­ra­li­za­ção do con­ceito, podemos uti­li­zar uma moeda, como o real, como a unidade de medida da gran­deza valor. Podemos sempre com­pa­rar o valor de bens ao valor da moeda, para o qual toda a soci­e­dade con­corda, pos­si­bi­li­tando a com­pa­ra­ção indi­reta de valor de coisas diferentes.

De maneira sim­pli­fi­cada, a moeda também nos ajuda a enten­der o con­ceito da con­ver­são de uni­da­des, pois todos os dias vemos nos jornais o valor do Dólar em relação ao Real. Igno­rando o fato da relação se alterar no tempo, a con­ver­são que fazemos para saber o preço de algo impor­tado em Dólares para Reais é similar à con­ver­são de Milhas para Quilô­me­tros, apenas mul­ti­pli­ca­tiva. Essas duas con­ver­sões são comuns para quem assiste ao cinema Hollywo­o­di­ano, por mais que a gente não perceba e que a legenda nem sempre faz um bom trabalho.

Escalas arcaicas (antes de 1790)

Figura 2: Dife­ren­tes uni­da­des de medida de com­pri­mento base­a­das na mão. Fonte: Unit­freak, Domínio Público, via Wiki­me­dia Commons.

Há muito tempo atrás, não havia o con­ceito de um sistema de uni­da­des de medida uni­ver­sal. Muitas das uni­da­des de medidas sur­gi­ram do seu uso coti­di­ano e se base­a­ram na mor­fo­lo­gia humana: pés, palmos e passos, por exemplo. No entanto, muitas dessas medidas não eram padro­ni­za­das nem mesmo em uma pequena soci­e­dade, quem dirá entre países diferentes.

Como sabemos, nem todos os pés e passos são iguais. Povos antigos solu­ci­o­na­ram esse pro­blema padro­ni­zando suas medidas usando  prin­ci­pal­mente os pés e as pole­ga­das de uma deter­mi­nada pessoa. Padro­ni­zar essas medidas (sendo elas a medida de uma única pessoa, geral­mente o líder local, como os faraós) também pos­si­bi­li­tou a evo­lu­ção do mercado entre os povos, além de faci­li­tar o desen­vol­vi­mento de civilizações.

Um método comum de padro­ni­za­ção era a uti­li­za­ção de um objeto, como uma barra de ferro ou uma quan­ti­dade de grãos regu­la­res. Este padrão defi­nido local­mente podia ser repli­cado para faci­li­tar as medi­ções, mas o alcance destes padrões era curto, sendo comu­mente dife­ren­tes entre regiões e países.

Foi a partir do Século XVIII que os sis­te­mas de medidas come­ça­ram a ser defi­ni­dos inter­na­ci­o­nal­mente. Antes disso, para cada ofício havia um con­junto de medidas dife­ren­tes. Estima-se que, ao final do Século XVIII, apenas na França, hou­vesse mais de 700 uni­da­des de medida.

Os Sistemas Métricos (1790 — 1960)

Figura 3: AMLEF021 — Metro Padrão. Uti­li­zado para cali­brar ins­tru­men­tos de medida de comprimento.

Apesar de haver regis­tros de uma pro­posta de sistema métrico desde 1668 na Ingla­terra, não houve vontade polí­tica ou social para esta mudança. Foi durante a Revo­lu­ção Fran­cesa (1789 — 1799) que diver­sos eventos e refor­mas impor­tan­tes na soci­e­dade e cultura oci­den­tal se defi­ni­ram. A quebra de para­dig­mas trazida pela ico­no­clas­tia do movi­mento levou a uma série de mudan­ças que também afe­ta­ram o campo das ciên­cias. Neste fervor, foi pro­posta na Assem­bléia Naci­o­nal Fran­cesa em 1790 que se aban­do­nas­sem as uni­da­des de medida arcai­cas e novas uni­da­des fossem desen­vol­vi­das, base­a­das em medidas natu­rais. Havia o intuito de inter­na­ci­o­na­li­za­ção do sistema, mas o projeto foi posto em prática pela Aca­de­mia Fran­cesa de Ciências.

Após alguns anos de pes­qui­sas e medi­ções, a Aca­de­mia publi­cou a defi­ni­ção do metro: um décimo de mili­o­né­simo da dis­tân­cia mais curta entre o Pólo Norte e a linha do Equador que passa por Paris. Essa unidade parece uma mons­tru­o­si­dade, mas era uma medida da natu­reza con­si­de­rada, na época, inde­pen­dente de vari­a­ções cli­má­ti­cas ou do humor de quem faz a medição. O pro­cesso de medição levou seis anos e coube a comi­ti­vas geo­dé­si­cas que enfren­ta­ram prisões, doenças e outros infor­tú­nios. As medidas foram rea­li­za­das ao longo de trechos retos de estra­das, uti­li­zando barras de platina padro­ni­za­das com com­pri­mento em toesas (unidade de com­pri­mento arcaica uti­li­zada na França) e tri­an­gu­la­ções. A partir da com­pa­ra­ção das medidas e do cálculo do acha­ta­mento da Terra foi pos­sí­vel extra­po­lar os resul­ta­dos e definir o metro. Além da unidade de medida, se definiu o uso de frações deci­mais para a escala como padrão, usadas até hoje, do “mili” (por mil) ao “kilo” (vezes mil).

Como medir o meri­di­ano não é muito prático, foram criadas barras de Platina-Irídio para servir de padrão de uso. Foi sele­ci­o­nada aquela cujo com­pri­mento mais se ade­quava à medida rea­li­zada e a esta se atri­buiu o nome de metro, sendo guar­dada nos Arqui­vos da Repú­blica de Paris. A partir deste metro, foram defi­ni­das outras uni­da­des para outras gran­de­zas: qui­lo­grama para medir massa, litro para volume et cetera. Assim como para o metro, um pro­tó­tipo foi criado para o qui­lo­grama. Este foi o período d’O Metro dos Arquivos.

A difusão dos sis­te­mas métri­cos não se deu apenas por con­ve­ni­ên­cia. Há de se lembrar que a França não era apenas uma grande potên­cia cien­tí­fica e cul­tu­ral do mundo oci­den­tal, mas uma potên­cia militar. Durante as Guerras Napo­leô­ni­cas, o Império Francês dominou grande parte da Europa con­ti­nen­tal, o que aumen­tou as rotas de comér­cio e ajudou na difusão de sis­te­mas métri­cos. A partir de 1840, o sistema métrico passou a ser o único per­mi­tido na França, o que ajudou a fazer com que, aos poucos, outros países ade­ris­sem a este. No Brasil, o sistema métrico se tornou oficial em 1875. É inte­res­sante per­ce­ber que a Ingla­terra, cujo his­tó­rico de rela­ções com a França não foi muito ami­gá­vel e que resis­tiu à expan­são napo­leô­nica, só foi aban­do­nar seu sistema de uni­da­des antigo, conhe­cido como medida impe­rial ou medida inglesa, em 1963; poucos países de origem anglo-saxã ainda mantém essa herança do Império Britânico.

Figura 4: Situ­a­ção polí­tica na Europa em 1812, com o Império Napo­leô­nico Francês em sua maior exten­são ter­ri­to­rial. Fonte: Ale­xan­der Alte­nhof, CC BY-SA 3.0, via Wiki­me­dia Commons.

Em 1875 ocorreu um marco impor­tante para a metro­lo­gia: rea­li­zou-se a Con­ven­ção do Metro, em Paris. Nesta, 17 países assi­na­ram um acordo de uti­li­za­ção con­junta do sistema métrico e pro­tó­ti­pos do metro e do qui­lo­grama foram dis­tri­buí­dos. Também foram criadas 3 orga­ni­za­ções para desen­vol­ver e admi­nis­trar os pesos e medidas. Este foi o pri­meiro passo para o desen­vol­vi­mento do Sistema Inter­na­ci­o­nal de Uni­da­des que uti­li­za­mos atualmente.

O SI: Sistema Internacional de Unidades (1960 — hoje)

Figura 5: Selo do Escri­tó­rio Inter­na­ci­o­nal de Pesos e Medidas (BIPM — Bureau inter­na­ti­o­nal des poids et mesures), incluindo refe­rên­cia ao metro com divi­sões deci­mais e a escrita “use o metro” em grego. Fonte: Domínio Público, via Wiki­me­dia Commons.

Já evo­luí­mos muito como comu­ni­dade cien­tí­fica, mas vale lembrar que, ini­ci­al­mente, as uni­da­des eram defi­ni­das em relação a membros de pessoas, pas­sando a con­si­de­rar partes do corpo de líderes rele­van­tes. Pos­te­ri­or­mente, as uni­da­des eram rela­ti­vas a mate­ri­ais e arte­fa­tos, mesmo que estes tives­sem sig­ni­fi­ca­dos em gran­de­zas natu­rais, como o Metro e o Qui­lo­grama dos Arqui­vos. Desde a Con­ven­ção do Metro de 1875, ocor­re­ram encon­tros regu­la­res, com cada vez mais par­ti­ci­pan­tes, revi­sões de uni­da­des e a inclu­são de outras uni­da­des no acordo (ampère, kelvin, mol e candela). Em 1960, com a ampla dis­se­mi­na­ção do sistema métrico KMS (qui­lo­grama, metro e segundo), foi publi­cado o Sistema Inter­na­ci­o­nal de Uni­da­des (SI), que hoje é aceito mun­di­al­mente, com poucas exce­ções, como o sistema padrão para as ciên­cias, comér­cio, indús­tria e tecnologia.

O SI também inclui a lista de pre­fi­xos que definem a escala. Alguns deles são ante­ri­o­res à publi­ca­ção deste sistema, como o “micro” (por milhão), o “mega” (vezes um milhão) e aqueles ado­ta­dos pelos sis­te­mas métri­cos. Algumas escalas maiores são bem conhe­ci­das, como o “giga” e o “tera”, que já estão apa­re­cendo em com­po­nen­tes de com­pu­ta­do­res pes­so­ais; da mesma forma, o nano ficou famoso para o público leigo quando a nano­tec­no­lo­gia começou a apa­re­cer nos jornais. Há ainda escalas muito maiores, até o “yotta”, para o sep­ti­lhão, e o “yocto”, para a sep­ti­li­o­né­sima parte, mas essas ainda estão longe de se tor­na­rem comuns.

Ao longo do tempo, as defi­ni­ções de uni­da­des foram mudando. Havia o inte­resse de definir as uni­da­des a partir de cons­tan­tes e medidas natu­rais, ao invés de arte­fa­tos, mas foi somente em 1960 que a pri­meira unidade natural foi defi­nida. O metro foi rede­fi­nido como: 1.650.763,73 vezes o com­pri­mento de onda da radi­a­ção lumi­nosa ver­me­lha-ala­ran­jada de um isótopo de criptô­nio, o Kr-86. Isso parece muito com­pli­cado, mas as defi­ni­ções de uni­da­des natu­rais apre­sen­tam van­ta­gens, pois dimi­nuem o rela­ti­vismo das uni­da­des, vin­cu­lando-as a pro­pri­e­da­des uni­ver­sais da natureza.

Figura 6: As sete uni­da­des de medida básicas do SI atu­a­li­za­das em 2019 e as cons­tan­tes às quais são vin­cu­la­das. Fonte: Luciana e Sá Alves e Gelson Rocha — Soci­e­dade Bra­si­leira de Metro­lo­gia, CC BY 4.0 CC By 4.0, via Wiki­me­dia Commons.

O metro ainda mudou de defi­ni­ção em 1983 para a dis­tân­cia per­cor­rida pela luz no vácuo em 1/299.792.458 segun­dos, e a escrita da defi­ni­ção já foi apri­mo­rada em 2019. Assim, essa unidade está vin­cu­lada a uma cons­tante uni­ver­sal e à defi­ni­ção de segundo. Este, que por sua vez teve defi­ni­ções a partir da duração de um dia solar médio e do ano solar, medidas demons­tra­das irre­gu­la­res, é defi­nido desde 1968 a partir da frequên­cia de tran­si­ção entre dois níveis de energia de uma átomo de césio-133 (defi­ni­ção de segundo). Já foi demons­trado que outros átomos pos­si­bi­li­tam uma medida mais precisa do que o césio, mas essa mudança ainda está por vir.

Atu­al­mente, há revi­sões perió­di­cas das uni­da­des e defi­ni­ções, a última ocor­rida em 2019. Contudo, mesmo que as con­ven­ções para escalas de medida tenham sido criadas para uni­ver­sa­li­zar as medidas, pos­si­bi­li­tando a repro­du­ção precisa de dosagem de remé­dios, medidas expe­ri­men­tais e pro­du­ções indus­tri­ais, assim como eli­mi­nar a con­fu­são em rela­ções comer­ci­ais, ainda há muita gente que não observa as uni­da­des. Se não tomar­mos cuidado, podemos causar pro­ble­mas, der­ru­bando até aviões. Então, valo­rize este tra­ba­lho cen­te­ná­rio, cuidado com as uni­da­des!

Curiosidade:

Até hoje uti­li­za­mos “uni­da­des” prá­ti­cas, como passos, para coisas que não exigem pre­ci­são, como a dis­tân­cia da bar­reira em uma cobrança de falta no futebol. Curi­o­sa­mente, certos jornais domi­ni­cais uti­li­za­vam uni­da­des bizar­ras para faci­li­tar, ou não, o enten­di­mento do público; os mais “expe­ri­en­tes” darão risadas ao lembrar que o dito jornal dava valores altos em quan­ti­da­des do carro Gol, e ainda usa grandes áreas ou com­pri­men­tos medidas em campos de futebol. Esta última, muito similar à uti­li­zada por Era­tós­te­nes de Cirene (276 AEC — 194 AEC) ao medir indi­re­ta­mente a cir­cun­fe­rên­cia da Terra em 252.000 Estádios.

Camila Raupp da Luz, Laila Berg da Nobrega e Gabriel Cury Perrone / Equipe AMLEF 2022

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felipe leme bandeira

5 de fevereiro de 2024 em 17:26.

otimo con­teudo

DOUGLAS TAYLOR GOMES DE OLIVEIRA

17 de setembro de 2024 em 21:57.

AS MEDIÇOES SAM PRIRMODIAIS DES DA ANTIGUIDADE COM MUDANÇAS DE POLEGADAS ‚PES,E OUTROS MAIS COM MEDIÇOES DA VELOCIDADE DA LUZ HOJE EM DIA CADA DIA APREDEMOS MAIS.

Ricardo Barbosa

14 de fevereiro de 2025 em 15:17.

Ótimo con­teúdo. Resumo da his­tó­ria sobre o assunto.

Fer­nando da Silva Rocha

10 de julho de 2025 em 10:08.

Desde do prin­cí­pio da huma­ni­dade usamos medidas , até nas coisas mais simples do nosso contidiano

Rodrigo de Men­donça Fernandes

26 de janeiro de 2026 em 09:42.

Adorei o con­teúdo muito útil..

Carlos de Oli­veira junior

13 de fevereiro de 2026 em 13:44.

A metro­do­lo­gia ainda e uma evo­lu­çao de vasto conhe­ci­mento para ser aprofundado

Carlos de Oli­veira junior

13 de fevereiro de 2026 em 13:46.

ok