• Movimento: a origem da física do cotidiano

  • Voltar
 by 
Figura 1. AMLEF019: Plano incli­nado para o estudo de decom­po­si­ção de forças.

O estudo do movi­mento dos corpos precede em muitos anos a sepa­ra­ção da física como um ramo da ciência. Regis­tros astronô­mi­cos datam de 3.000 AEC, mas pode-se dizer que, como teoria, o estudo do movi­mento se inicia com os gregos, espe­ci­al­mente Aris­tó­te­les. Pode-se dizer, por­tanto, que o movi­mento é uma das grandes bases da física.

Dedi­ca­mos este mês ao movi­mento em seus con­cei­tos clás­si­cos. Além dos corpos e da física coti­di­ana, abor­da­mos o som e a física de fluidos, que também se resumem a corpos em movi­mento, mas com tra­ta­men­tos bas­tante dis­tin­tos. Mas como esse estudo sis­te­má­tico do movi­mento começou? E como che­ga­mos até aqui?

Física Aristotélica

Figura 2. Ruínas do “San­tuá­rio das Ninfas”, onde Aris­tó­te­les leci­o­nou para Ale­xan­dre, o Grande; loca­li­zada em Mieza, na Macedô­nia, atu­al­mente Lêucade, na Grécia. Fonte: Jean Housen, CC BY-SA 4.0, via Wiki­me­dia Commons.

Para Aris­tó­te­les (384 — 322 AEC), movi­mento é um con­ceito amplo que repre­senta mudança não apenas de posição, mas de estado, quan­ti­dade ou forma. Segundo a Física Aris­to­té­lica, as “coisas ter­re­nas” seriam for­ma­das por 4 ele­men­tos (terra, água, ar e fogo) e a ascen­são e queda seriam a forma na qual estes ele­men­tos atingem seu “lugar natural”. Assim ele explica porque a fumaça sobe e uma pedra largada cai. Este prin­cí­pio se con­ser­vou até o século XVI.

Qual­quer movi­mento dife­rente do natural é con­si­de­rado forçado e se mantém apenas enquanto a força é apli­cada. É impor­tante per­ce­ber que, para Aris­tó­te­les e seus segui­do­res, uma força cons­tante apli­cada a um objeto gera uma velo­ci­dade cons­tante pro­por­ci­o­nal à força e inver­sa­mente pro­por­ci­o­nal à massa do objeto. Segundo essa con­cep­ção, uma pedra e uma pena caem com velo­ci­da­des dife­ren­tes, o que parece verdade em uma obser­va­ção cotidiana.

Física Medieval

Figura 3. Estátua de Avicena no Pavi­lhão de Eru­di­tos Persas, doado pelo Irã ao Centro Inter­na­ci­o­nal de Viena, onde ficam os escri­tó­rios da Orga­ni­za­ção das Nações Unidas (ONU). Fonte: Yamaha5, CC BY-SA 3.0, via Wiki­me­dia Commons.

Os con­cei­tos e des­cri­ções aris­to­té­li­cas foram bas­tante difun­di­dos e dura­dou­ros. No século XI o modelo foi ampli­ado pelo polí­mata persa Avicena (979 — 1037), cujas ideias se tor­na­ram a prin­ci­pal escola da Filo­so­fia Islâ­mica. Sua con­tri­bui­ção para o movi­mento dis­tin­gue os con­cei­tos de força e ten­dên­cia, que pos­si­bi­li­tam uma melhor expli­ca­ção do movi­mento de pro­jé­teis. Para ele, ao exercer força em um objeto, é trans­fe­rida uma ten­dên­cia de movi­mento e o objeto per­ma­nece se movendo até que a ten­dên­cia seja exau­rida. Esse con­ceito já traz indí­cios da ideia moderna de inércia e é con­si­de­rado por muitos um pre­cur­sor da Mecâ­nica New­to­ni­ana. Além disso, Avicena con­tri­buiu para a meto­do­lo­gia cien­tí­fica, suge­rindo a expe­ri­men­ta­ção como meio para inves­ti­ga­ção e pesquisa.

Ainda no século XII, Abu’l-Barakāt al-Baghdādī (1080 — 1164) incre­men­tou a des­cri­ção avi­ce­nista. Sua teoria do movi­mento faz dis­tin­ção entre velo­ci­dade e ace­le­ra­ção, con­ceito ainda não defi­nido por ele, e mostra que a força exer­cida sobre um objeto é pro­por­ci­o­nal ao incre­mento de velo­ci­dade, ao invés da velo­ci­dade, como pro­posto por Aris­tó­te­les. Con­si­dera-se que esta foi a pri­meira negação direta da Dinâ­mica Aris­to­té­lica, fun­dando a base para a Lei da Dinâ­mica Clás­sica. Os tra­ba­lhos de Avicena e Abu’l-Barakāt pro­va­vel­mente foram grandes influên­cias para o desen­vol­vi­mento da Teoria do Ímpeto, do filó­sofo francês Jean Buridan (1300 — 1358).

Física Clássica

Figura 4. Galileo Galilei demons­trando ao Doge de Veneza como usar um teles­có­pio. Fonte: Giu­seppe Bertini, Domínio Público, via Wiki­me­dia Commons.

O desen­vol­vi­mento do teles­có­pio e a pos­si­bi­li­dade de obser­var corpos celes­tes com maior defi­ni­ção levou à queda de uma das bases da Filo­so­fia Aris­to­té­lica. Apoiado pelo heli­o­cen­trismo de Copér­nico (1473 — 1543), Galileu (1564 — 1642) propõe que a Terra não é dife­rente dos outros pla­ne­tas e faz uma série de expe­ri­men­tos. Seus expe­ri­men­tos demons­tram que o tempo de queda de objetos inde­pende da sua massa ou de movi­men­tos hori­zon­tais. Além disso, Galileu afirma que as leis de movi­mento são inva­ri­an­tes para refe­ren­ci­ais iner­ci­ais, ou seja, para uma pessoa que está dentro de um veículo sem infor­ma­ções do exte­rior é impos­sí­vel saber se ele está parado ou se movendo com velo­ci­dade constante.

Figura 5. Réplica do segundo teles­có­pio refle­tor de Isaac Newton, de 1672. Fonte: Andrew Dunn, CC BY-SA 2.0, via Wiki­me­dia Commons.

Diver­sos cien­tis­tas desen­vol­ve­ram tra­ba­lhos no campo da mecâ­nica, mas foi Newton (1642 — 1726) que se con­sa­grou como pai da Mecâ­nica Clás­sica. Foi ele quem uni­fi­cou as três leis do movi­mento, que veremos mais adiante. A Mecâ­nica New­to­ni­ana segue imba­tí­vel para des­cre­ver a nossa física coti­di­ana, ou seja, de coisas não muito peque­nas nem muito rápidas.

Diver­sos cien­tis­tas desen­vol­ve­ram tra­ba­lhos no campo da mecâ­nica, mas a uni­fi­ca­ção das três leis do movi­mento de Newton cer­ta­mente foi um dos mais impor­tan­tes movi­men­tos para a Mecâ­nica Clás­sica. A Mecâ­nica New­to­ni­ana segue imba­tí­vel para des­cre­ver a nossa física coti­di­ana. Vale a pena acom­pa­nhar a expo­si­ção para ver com mais detalhes.

Gabriel Cury Perrone e Laila Berg da Nobrega / Equipe AMLEF 2022

Saiba MUITO mais, mesmo:


Referências:

  • Wiki­pe­dia:
    • His­tó­ria da mecâ­nica clás­sica (EN)
    • Mecâ­nica clás­sica (PT/EN)
    • Aris­tó­te­les (PT/EN)
    • Avicena (PT/EN)
    • Abu’l-Barakāt al-Baghdādī (PT/EN)
    • Galileu Galilei (PT/EN)
    • Isaac Newton (PT/EN)
Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *