• EDIÇÃO ESPECIAL: Escalas de temperatura

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Escalas de Tem­pe­ra­tura não são nada além de uni­da­des de medida, ou seja, são dife­ren­tes repre­sen­ta­ções de uma mesma carac­te­rís­tica, como foi tratado no texto de Metro­lo­gia: His­to­ria das Escalas e Rela­ti­vismo. Assim como podemos des­cre­ver dis­tân­cia em metros, pés, passos ou campos de futebol, podemos também des­cre­ver a tem­pe­ra­tura em dife­ren­tes uni­da­des, como Celsius, Fah­re­nheit, Kelvin ou na bizarra Delisle, que diminui com o aquecimento.

Figura 1. Vari­a­ção térmica diária pela manhã

Diver­sos cien­tis­tas criaram suas escalas tér­mi­cas, depen­dendo do que lhes inte­res­sava e do seu con­texto his­tó­rico e cul­tu­ral. As mais uti­li­za­das atu­al­mente são as escalas Celsius, Fah­re­nheit e Kelvin, cada uma com sua fina­li­dade ou ideia.

Figura 2. Vari­a­ção térmica diária pela tarde

As estranhas escalas qualitativas

As escalas uti­li­za­das atu­al­mente são quan­ti­ta­ti­vas (que atri­buem valores) e bem defi­ni­das, mas nem sempre foi assim. Escalas qua­li­ta­ti­vas surgem natu­ral­mente, como as colo­qui­ais que des­cre­vem a tem­pe­ra­tura como “frio de ren­guear cusco”, “de pegar res­fri­ado”, “leva um casa­qui­nho”, “calor de lascar” ou “de fritar ovo em asfalto” (é só um dia comum em Porto Alegre). Parece bizarro? Parece, mas é uma pri­meira abor­da­gem, e alguns cien­tis­tas segui­ram essa linha — com um pouco mais de rigor.

Sir Isaac Newton, aquele mesmo da Mecâ­nica, criou a sua própria escala de tem­pe­ra­tura. Nela, a tem­pe­ra­tura de um “lago con­ge­lado”, do “ferro bri­lhando tão inten­sa­mente quanto pos­sí­vel”, ou até mesmo o “maior calor de um banho que se pode supor­tar por algum tempo quando a mão é mer­gu­lhada e mantida imóvel” eram mar­ca­ções feitas e usadas para deter­mi­nar a tem­pe­ra­tura dos objetos em seus estudos. Existem regis­tros ainda mais assus­ta­do­res, como “tão quente quanto sangue recém der­ra­mado”; agora as Uni­da­des Impe­ri­ais (milhas, pole­ga­das, …) não me parecem mais tão bizarras.

O surgimento de Escalas de Temperatura Quantitativas (com números)

Figura 3. Dife­ren­tes estados da água

Seguindo uma ten­dên­cia menos maso­quista, o cien­tista Anders Celsius propôs uma escala quan­ti­ta­tiva defi­nida por pro­pri­e­da­des da água, em 1742. Celsius publi­cou um artigo mos­trando que a tem­pe­ra­tura de fusão (der­re­ti­mento) do gelo não variava muito com a pressão atmos­fé­rica, e fez uma longa análise da vari­a­ção da tem­pe­ra­tura de ebu­li­ção (fervura) em função da pressão. Ele definiu sua escala, ini­ci­al­mente, atri­buindo 0 °C ao ponto de ebu­li­ção da água e 100 °C ao ponto de fusão. Porém, era pouco con­ve­ni­ente uti­li­zar estes valores e, em 1743, Carl Lin­na­eus revisou os estudos de Celsius e inver­teu sua escala, tornando‑a como conhe­ce­mos atualmente.

Daniel Fah­re­nheit também criou sua escala térmica quan­ti­ta­tiva, com muito mais divi­sões (graus) que a de Celsius. Para com­pa­rar­mos, a fusão da água é equi­va­lente a 32 °F, enquanto a ebu­li­ção foi deter­mi­nada como 212 °F, ou seja, tem uma vari­a­ção de 180 valores intei­ros nesse inter­valo, enquanto na escala Celsius possui uma vari­a­ção de “apenas” 100 valores.

Figura 4. Escalas ter­mo­mé­tri­cas: Fah­re­nheit, Celsius e Kelvin.

Mas por que 32 °F para o con­ge­la­mento da água? Porque, no norte da Europa, o inverno é bas­tante rigo­roso e os lagos con­ge­lam; então Fah­re­nheit uti­li­zou uma mistura de gelo, água e sal, com a qual ele marcou o 0 °F de sua escala, faci­li­tando estudos mete­o­ro­ló­gi­cos. Ele ainda marcou ~30 °F para a tem­pe­ra­tura da água que começa a con­ge­lar e 90° para a tem­pe­ra­tura da axila ou boca de uma pessoa sau­dá­vel. Com essa escala, se a tem­pe­ra­tura de uma pessoa chega aos três dígitos, ela está com febre. Por incrí­vel que pareça, há van­ta­gens no uso da Escala Fahrenheit.

As Escalas de Temperatura Termodinâmica e o Zero Absoluto

E se con­se­guís­se­mos chegar em um “frio infinto”? Qual seria o menor valor pos­sí­vel para a tem­pe­ra­tura de um corpo? Mais adiante veremos que existe um mínimo, o “zero abso­luto”. Com esse ponto de refe­rên­cia foram criadas novas escalas, cha­ma­das Escalas Abso­lu­tas, cujo Zero é o mínimo, sendo toda a escala posi­tiva. Em 1848, Lord Kelvin cal­cu­lou que a Tem­pe­ra­tura Mínima seria ‑273 °C e propôs sua escala baseada em dois prin­cí­pios: 0 seria o Zero Abso­luto, e incre­men­tos na escala seriam iguais aos da Escala Celsius. Assim surge a chamada “Escala Abso­luta Celsius”, pos­te­ri­or­mente deno­mi­nada Escala Kelvin, uti­li­zada até hoje no Sistema Inter­na­ci­o­nal de Uni­da­des, com alguns peque­nos ajustes.

Há um detalhe inte­res­sante que pode passar des­per­ce­bido. Como mos­tra­mos em nossas publi­ca­ções, os pri­mei­ros ins­tru­men­tos de medida de tem­pe­ra­tura sur­gi­ram na Idade Antiga. Daí até Galileu, pas­sa­ram-se 1500 anos, mesmo que talvez tenham ocor­rido outros estudos no Império Persa dos quais não temos infor­ma­ções. Do Termô­me­tro de Medici (1654) até a Escala Kelvin, mais dois séculos se pas­sa­ram. A ter­mo­me­tria é um pro­blema muito antigo, mas foi com a Ter­mo­di­nâ­mica, impul­si­o­nada pela Revo­lu­ção Indus­trial, que grandes avanços foram concretizados.

Maria Eduarda Belló e Gabriel Cury Perrone / Equipe AMLEF 2023

Referências:

  • Wiki­pé­dia:
  • NUSSENZVEIG, H. Moysés, Curso de Física Básica 2. Edição: 5.ed. Cidade: São Paulo, Edgard Blücher, 2014.
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