A Amazônia tecnológica da artista Hadna Abreu

Por: Gisele Neves Riker  

Não é novidade o desenvolvimento de obras de arte utilizando a ciência e a tecnologia como elementos essenciais na criação. Do Renascimento até os dias atuais, diversas abordagens científicas, técnicas de engenharia, mecânica e tecnologias se fizeram presente nas pesquisas, experimentações e criações de inúmeros artistas.  

No século XV a produção de Leonardo da Vinci já carregava características científicas, embora a metodologia de formulação e investigações de hipóteses só fosse desenvolvida nos séculos posteriores. Suas incríveis invenções como as máquinas voadoras inspiradas no voo dos animais e os robôs articulados, demonstram sua fascinação pela engenhosidade.  

Ao longo dos anos, artistas como Marcel Duchamp, Alexander Calder, Francis Picabia, Man Ray e Bruno Munari, também apresentaram em suas obras a vertente de entrelaçar arte, ciência e tecnologia.

Zanini reflete sobre a consolidação da tendência de utilizar movimentos elétricos nos objetos artísticos:

As tendências luminocinéticas e cinéticas reanimaram-se desde o final da década de 1940, abrangendo elevado número de artistas e de realizações não comparáveis com o cenário da primeira parte do século. Havia-se valorizado o objeto mecanizado, tradicionalmente situado em plano secundário ou simplesmente ignorado no quadro histórico maior da arte. Dúvidas, entretanto, permaneciam. Era frequente a resistência à introdução do movimento elétrico no objeto artístico. Temia-se a vulgarização nas limitações do que se tornaria um determinismo imposto pela máquina, e era corriqueira a falta de melhores condições tecnológicas. (ZANINI, 2018, p.79) 

Percebe-se nas palavras de Zanini o receio dos artistas em introduzir esta nova linguagem nas produções, acreditando que não poderiam mais voltar atrás e se utilizar de técnicas tradicionais para criar, temendo assim se tornarem dependentes da tecnologia. No Brasil desde a década de 40 Abraham Palatnik , artista e especialista na mecânica dos motores explosão, realizava estudos e experimentações em luminocinéticas, estimulado pelo seu mentor, o crítico de arte Mário Pedrosa . 

Aparelho cinecromático em construção, 2004

 

Foto: Vicente de Mello Fonte: Catálogo da exposição Abraham Palatnik: A reinvenção da pintura – Fundação Iberê Camargo

Esboços de Aparelhos cinecromáticos 1950/60 15 x 20,1 cm – Arquivo do artista

 

Fonte: Catálogo da exposição Abraham Palatnik: A reinvenção da pintura – Fundação Iberê Camargo

Essas investigações geraram a produção Azul e roxo em primeiro movimento. Obra em formato de caixa, acomoda 101 lâmpadas pintadas à mão, elas se movem em tempos diferentes por meio de um sistema complexo de roldanas conectadas através de 600 metros de fio a um pequeno motor elétrico, uma placa de resina cobre a caixa formando uma tela translúcida no objeto, sendo possível ao espectador observar o jogo de luz, cor e movimento apresentado por Palatnik.  

Mário Pedrosa batizou estas criações de Aparelhos Cinecromáticos. A produção de Abraham embora fruto de “experiências de poder intuitivo” foi pioneira no uso da tecnologia como parte da obra.  Através de seus estudos de física, mecânica e eletromagnetismo o artista ressignifica elementos do universo das máquinas apropriando-se de fios elétricos, lâmpadas, cilindros, roldanas, engrenagens, motores e imãs. Todos estes componentes conectados funcionam a favor da arte. Palatnik fundou assim, a vertente tecnológica da arte brasileira.  

Caminhos de Hadna Abreu 

Muitos anos se passaram desde o surgimento da Arte Cinética. Essa inclinação de criar pela tecnologia e transformá-la em elemento inevitável na arte não cessou e inúmeros artistas deram continuidade as experimentações, utilizando procedimentos tecnológicos variados, pautados pela engenharia, eletrônica e a ciência nas suas criações.  

Procuramos registrar aqui os caminhos percorridos por uma jovem artista visual manauara nesse universo tecnológico. Hadna Abreu é o primeiro nome a ser citado nas relações entre objetos artísticos e tecnologia no Amazonas. Licenciada em Artes Visuais pela Universidade Federal do Amazonas, atua na cena artística desde 2009 participando de exposições em Manaus, São Paulo e Bahia.  

Artista de muitas técnicas, Abreu desenha, pinta, modela e ilustra. Instituições como o Centro de Estudo Integrado da Biodiversidade Amazônica (CENBAM), Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA) e o Instituto Socioambiental (ISA) publicaram livros com suas ilustrações. Começou a criar obras que apresentam os aspectos da Amazônia entrelaçando tecnologia e ciência recentemente, mas desde criança realiza seus estudos.  

Suas pesquisas com tecnologia começaram em 2015 ao exibir na exposição Imaginárium, uma aquarela com um ponto de luz integrado ao desenho de um autorretrato.  Uma folha seca de árvore também compõe a obra, fixada a pequena aquarela cria uma sombra que interage com o desenho, tornando-o escuro o suficiente para o pequeno led vermelho localizado em um dos pontos do autorretrato, sobressair.

  

“Despertei ” (2015) , primeira aquarela com

ponto de luz integrado ao desenho. 

Foto: Anna Loyde. Fonte: Acervo pessoal da artista.

Por sua afinidade com a aquarela e ilustrações botânicas, Hadna foi convidada a ilustrar o livro Brilhos na Floresta dos pesquisadores Noemia Kazue Ishikawa, Takehide Ikeda, Aldevan Baniwa e Ana Carla Bruno. O livro publicado em 2019 apresenta uma nova espécie de cogumelos bioluminescentes da Amazônia.  

Este momento de estudos e descobertas foi um marco na produção de Hadna pois ao ilustrar a pesquisa sobres estes seres raros e incríveis seres que emitem luz ao escurecer, a artista se depara com suas grandes paixões: Amazônia, Arte, Ciência e Tecnologia. É na exposição coletiva Contos de Uma Amazônia Fantástica (2018)  que Hadna une suas paixões e inspirada pelos fungos que brilham no escuro, a artista cria a série Anamapö palavra indígena da língua Baniwa que em português significa cogumelo. 

Ao escurecer, seja naturalmente ou se criando uma sombra sob a tela, as aquarelas se iluminam e emanam uma luz verde bem parecida com as que são emitidas pelos cogumelos bioluminescentes. Utilizando sensores de luz a artista apresenta duas obras em uma, devido a sua mudança de cor. A série oportuniza o espectador a interagir com a obra, tornando-se testemunha da transformação da cor aquarela para a cor luz.

Anamapö – Aquarela com sensor de luz. 

Foto: Anna Loyde. Fonte: Acervo pessoal da artista.

A evolução das técnicas com componentes eletrônicos pode ser presenciada na obra 5 cm3 de Amazônia que integra o Acervo Rotativo de obras em pequenos formatos. A obra foi apresentada na Exposição Amazona (2020) que aconteceu no Adelina Instituto em São Paulo. A obra interativa em formato de cubo, agrega além da aquarela inspirada nos pequenos e fascinantes fungos bioluminescentes e insetos da Amazônia, sensores luminescentes e sonoros. 

 Com o desejo de reproduzir o comportamento dos fungos bioluminescentes que emanam luz, e o som da floresta ao escurecer, a artista cria um objeto artístico interativo que ao ser manuseado criando-se uma sombra artificial com as mãos, suas luzes e sons são acionados.  

Três componentes eletrônicos são essenciais nesta produção: o fotoresistor, um sensor de luz que funciona conforme a intensidade de luz que incide sobre ele, o dimmer, dispositivo que controla a corrente elétrica e regula assim a intensidade da luz e a bateria recarregável. Outros processos são utilizados pela artista como planificar o cubo em uma placa de pvc para servir de suporte tanto dos componentes (placas, fios elétricos, entrada usb, mini cartão sd) no interior da caixa quanto das pequenas aquarelas.  

Cubo em processo de finalização. Cubo em processo de construção. 

Fonte: Acervo pessoal da artista. 

A obra 5 cm3 de Amazônia convida o espectador a acolher um pedaço cheio de vida da fascinante e mágica Amazônia. Pelo gesto de criar com as mãos uma pequena cobertura afim de que os sensores de luz e sons sejam acionados realizamos uma ação de abraçar este recorte poético e tecnológico da floresta. 

Relaciono o processo artístico dessa artista com o pensamento do filósofo chinês Yuk Hui quando critica a maneira como percebemos a tecnologia: 

“A maneira como vemos a tecnologia enquanto força exclusivamente produtiva e mecanismo capitalista voltado ao aumento da mais-valia nos impede de enxergar seu potencial decolonizador e de perceber a necessidade do desenvolvimento e da manutenção da tecnodiversidade.” (Hui, 2020)

Hadna jovem artista coexiste com a tecnologia e não alimenta receios da inovação. Consegue falar do natural unindo técnicas artísticas tradicionais com seus experimentos tecnológicos. Sua percepção da tecnologia como aliada para criar objetos artísticos fortalece a tecnodiversidade defendida por Hui, moldando assim seu estilo de criar que explora as possibilidades da tecnologia.  

Abreu também enxerga o potencial decolonizador da tecnologia apontado por Yuk Hui. Apresenta uma Amazônia real pelos olhos de uma mulher nortista e reivindica seu lugar de artista amazônida oferecendo ao mundo sua visão singular de um espaço que pode ser tocado e cuidado, diminuindo as distâncias criadas pelo pensamento colonial de uma Amazônia inacessível e intocável. Ao invés de enxergarmos a Amazônia pelo olhar aéreo dos satélites onde somente o verde das copas das árvores predomina Hadna captura os olhares para dentro da mata apontando pequenas delicadezas inteligentes da floresta.

5 cm cúbicos de Amazônia – Técnica mista – 5 x 5 x 5 cm – 2020.

Fonte: Catálogo da Exposição Amazona – Adelina Instituto.

Mais de 60 anos separam o primeiro Aparelho cinecromático de Palatnik do pequeno cubo com componentes eletrônicos de Abreu, porém, a semelhança entre os dois artistas é inevitável. Ambos se utilizam de fios e conexões montadas em caixas para reformular a pintura, transformando a tecnologia em aliada para criar objetos artísticos com efeitos de luz. Palatnik nos deixou em maio de 2020 aos 92 anos, vítima de Covid-19, com suas experiências cinéticas difundiu os caminhos das artes visuais entrelaçando arte, ciência e tecnologia. Acreditamos que a incrível jornada de Abraham Palatnik influenciará ainda a produção de Hadna Abreu que tem muitos caminhos a percorrer. 

Referências 

DOMINGUES, Diana. Arte, ciência e tecnologia: passado, presente e desafios. 1a ed. São Paulo: Editora UNESP, 2009. 

ZANINI, Walter. Walter Zanini: vanguardas, desmaterialização, tecnologias na arte/organização Eduardo de Jesus. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2018.
HUI, Yuk. Tecnodiversidade. São Paulo: Ubu Editora, 2020.

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