Ainda pouco conhecido, Atelier livre completa 50 anos


Quem conhece, em Porto Alegre, o Atelier Livre da Prefeitura Municipal? Essa instituição dedicada às artes visuais, que completa 50 anos de ininterruptas atividades, tem significativo papel na área cultural da cidade. Ali ocorrem cursos, palestras, exposições e outros eventos, em um espaço informal, aberto a descobertas e experimentações, funcionando em três turnos.

Sua história começou quando, em 1960, Iberê Camargo, em um debate realizado no Teatro de Equipe, questionou o ambiente artístico local, criticando o marasmo cultural e apresentou a proposta de criação de um atelier aberto. Esse artista gaúcho, radicado no Rio de Janeiro desde os anos 40, já era naquele momento consagrado nacionalmente. Ele representava o sucesso nacional de um gaúcho, possuindo legitimidade para criticar o meio local. Camargo trabalhava dentro das tendências da arte abstrata, que se instalava no centro do país, e que negava a arte figurativa, aqui hegemônica. Desde os anos 50, na afirmação do modernismo no Rio Grande do Sul, destacaram-se o Grupo de Bagé e o Clube de Gravura, que promoveram uma produção figurativa, calcada em temáticas locais, com ênfase nas formas humanas, como tipos populares e cenas cotidianas, que remetiam para aspectos do meio físico e cultural da região.

Ainda naquele ano, ocorreram os Encontros com Iberê, promovidos pela Secretaria de Educação e Assistência, e o artista passou a ser uma espécie de ponto de apoio para algumas inquietações locais. Reagiam contra o rechaço à abstração que se difundia aqui, como um processo intencional de resistência à intensa penetração desse movimento no centro do País. Assim, mesmo depois de encerrado seu curso, e tendo ele voltado para o Rio de Janeiro, manteve contato com seu grupo de alunos, que continuou desenvolvendo atividades conjuntas. A partir dessas mobilizações, no ano seguinte foi criado o Atelier Livre, no alto do Mercado Público, sob a direção de Francisco Stockinger. Somente em 1962 o Atelier Livre tornou-se oficialmente integrante da Divisão de Cultura da Secretaria Municipal de Educação e Assistência, com doze artistas convidados atuando como professores. Naquele novo espaço de formação, de caráter mais amplo e democrático – por sua própria estrutura de cursos livres, abertos ao ingresso de alunos com níveis diferenciados de instrução –, desenvolveu-se preponderantemente a atividade de gravura e alguns cursos teóricos. O Atelier Livre representava uma alternativa para quem queria estudar arte; no entanto, não se pode dizer que ele rompeu com os cânones da modernidade regional que aqui se desenvolvia. Prova disso é que, em 1964, assumiu como seu diretor Danúbio Gonçalves, um dos líderes da reação contra a abstração.

gravura-1-2

Danúbio Gonçalves com alunos

Basicamente centrado na formação técnica e na experimentação do fazer, o ensino do Atelier Livre foi responsável pela formação de uma geração de novos artistas. Em 1978, ele passou a ocupar o local em que se encontra atualmente, em uma área de 1.716 metros quadrados, no Centro Municipal de Cultura, localizado na Avenida Erico Verissimo, 307. Ali são oferecidos cursos regulares de um ou dois anos, e também cursos extras de três meses, com artistas convidados, além de workshops eventuais. As matrículas são oferecidas duas vezes ao ano, encontrando-se abertas até o final da próxima semana para as aulas que se iniciam na segunda quinzena de agosto. As inscrições podem ser feitas pelo e-mail alivre@smc.prefpoa.com.br ou na Secretaria da instituição, na av. Erico Veríssimo, 307. Qualquer pessoa com mais de 16 anos pode participar, independente de grau de instrução, e com baixo custo ( oferecem, inclusive, bolsas para o pagamento da matrícula e do material necessário à realização dos trabalhos).

escultura-2-2

Trabalho em escultura

Os cursos se desenvolvem em três turnos – manhã, tarde e noite -, indo dos mais tradicionais, como pintura, escultura, desenho e gravura, aos com linguagens mais abertas. Nessa linha estão o de livro de artista, o laboratório de criação, o de contar e ouvir estórias e experiências em 3D. Também são oferecidos cursos mais específicos no laboratório digital, ou o de organização profissional do artista plástico, voltados a um público mais especializado. O trabalho se desenvolve de forma bastante flexível, podendo o aluno fazer seu próprio caminho, sem um currículo que o pressione.

No semestre passado, o Atelier atendeu 360 alunos nos cursos regulares e 450 incluindo os cursos extras, oferecidos com artistas convidados. Além dos cursos regulares e extras, ali se desenvolvem, ainda, outras atividades, como os seus tradicionais festivais. Neles participam artistas convidados do Brasil e do exterior, que fazem palestras e realizam workshops, tudo aberto à comunidade em geral e não só a seus alunos regularmente matriculados. Este ano o festival será em novembro. O Atelier Livre também realiza o projeto Artista Visitante, em que um artista convidado vem realizar atividades e trocas de experiências, trabalhando em conjunto com um dos professores do corpo permanente.

No Espaço Alternativo são expostos, regularmente, trabalhos de alunos, resultantes de algum dos cursos. No Saguão, outro local para exposição, é realizado, anualmente, o Salão dos Alunos, sempre em dezembro, sendo que o artista premiado do salão tem garantida uma exposição individual neste mesmo espaço no ano seguinte.

expo-de-alunos-116

Exposição no Espaço Alternativo

Como próxima atividade está prevista de 29 a 31 de agosto a Semana X, com debates e mesas-redondas com a participação do gravador Rubem Grilo, Maria Lucia Cattani, Vera Chaves Barcellos Maria Tomaselli, Niura Ribeiro, Wilson Cavalcanti e Fernanda Soares. Dia 31, das 11h às 18h, haverá um evento coordenado por Claudia Sperb de troca/venda de gravuras de artistas e alunos, além de um ciclo de filmes e vídeos e uma exposição didática com matrizes e álbuns e gravuras feitos no Atelier Livre.

Talvez seja importante lembrar de que em Porto Alegre, mesmo sendo uma capital periférica de um país de periferia, tem-se um meio de arte bastante ativo, que vale a pena desfrutar mais, valorizar mais e apoiar mais. Claro que, se o olhar estiver sempre voltado para a Europa ou os EUA, haverá uma sensação de insuficiência e descrédito no que acontece por aqui. Mas o sistema de arte é o espaço de criação, e nele estão inscritas as condições de produção, nele se estruturam valores e competências, nele enfim se estabelecem os paradigmas artísticos de uma época e de um local. Se houver um desejo de que aqui se desenvolva realmente uma produção de qualidade, é preciso participar mais. Nada pode ser feito sem uma ação conjunta. Qual o papel do público leigo ou dos especialistas? Talvez seja possível valorizar e cobrar a qualificação dos artistas, apoiar as instituições de difusão e legitimação, ver os trabalhos, informar-se sobre eles, adquirir obras de que gostem, sentir que fazem parte deste “mundo da arte”. Não existe arte sem uma comunidade participante, e cada vez mais isso se torna fundamental.

Texto publicado originalmente no Jornal Sul 21, em 4/ago/2012, 5h29min

http://www.sul21.com.br/jornal/anda-pouco-conhecido-atelier-livre-completa-50-anos-de-atividades/

 

Compartilhar