Relação Profissional-Paciente Idoso
  Prof. José Roberto Goldim

 
Uma mulher de 82 anos adentrou o consultório do Dr. Mayerovitz. "Doutor", disse ela sofregamente, "não estou me sentindo bem".
"Sinto muito, Sra. Kupnik: algumas coisas a medicina mais avançada pode curar. Eu não tenho como torná-la mais jovem, a senhora compreende."
Ela respondeu de imediato: "Doutor, quem foi que lhe pediu para fazer-me mais jovem ? Tudo o que quero é que possa me dazer mais velha!"
Bonder N. O segredo judaico de resolução de problemas. 9 ed. Rio de Janeiro: Imago, 1995:80.


A fidelidade é o dever de lealdade e compromisso do terapeuta para com o paciente, que serve de base para o relacionamento entre ambos . A veracidade, isto é, a utilização verdadeira e honesta das informações, é um dever prima facie do terapeuta e base desta fidelidade.

 Muitas vezes, até mesmo por pressão das famílias, surge o dilema de dizer ou não a verdade para os pacientes idosos, com o objetivo de preservá-lo do impacto e da ansiedade. Na realidade, o dilema não é revelar ou não a verdade, mas sim qual a forma mais adequada de comunicá-la. Como escolher a maneira viável que possa causar o menor dano e impacto possível. Existem inúmeros estudos e propostas de como comunicar “más notícias” aos pacientes e suas famílias . Esta é uma habilidade que também pode e deve ser desenvolvida, e não negada, pelos profissionais de saúde. A não revelação da verdade pode impedir o paciente de tomar decisões importantes sobre o seu tratamento e sua vida pessoal. Da mesma forma, impede o paciente e  família de se prepararem para eventos prováveis, inclusive a morte.

O paciente também tem o direito de “não saber” isto é, o direito de não ser informado, caso manifeste expressamente esta sua vontade. O profissional de saúde tem que reconhecer claramente quando esta situação ocorre e buscar esclarecer com o paciente as suas conseqüências. O paciente deve ser consultado formalmente se esta é realmente a sua decisão. Após isto, a sua vontade deve ser respeitada. Nesta situação, deve ser solicitado que ele, ou ela, indique uma pessoa de sua confiança para que seja o interlocutor do profissional com a família. O próprio paciente, quando possível, deve comunicar à sua família sobre estas suas decisões.

Outros importantes aspectos da relação profisional-paciente são a privacidade e a confidencialidade. A privacidade é a limitação do acesso às informações de uma dada pessoa, ao acesso à própria pessoa, à sua intimidade, anonimato, sigilo, afastamento ou solidão. É a liberdade que esta pessoa tem de não ser observada sem a sua autorização. A confidencialidade, por sua vez,  é a garantia do resguardo  das informações dadas em confiança e a proteção contra a sua revelação não autorizada .

As quebras de privacidade ou de confidencialidade podem ocorrer na relação do profissional com terceiros, tais como com a família, cuidadores ou empresas seguradoras. Em todas estas relações deve ficar claro que a fidelidade do profissional é para com o paciente. A este cabe a decisão de quais dados devem ser revelados ou não. É extremamente importante que este compromisso seja preservado, mesmo quando o paciente esteja em estado de inconsciência e até mesmo após a sua morte. O princípio que deve nortear a liberação de informações é o da necessidade de ter que tipo de informações para tomar decisões ou desempenhar adequadamente sua tarefa, nada além disto.

Muitas vezes, só por que o paciente é um velho, todos acham-se no direito de ter acesso a todas as informações. Os cuidadores, não vinculados a família, são informados pelos próprios familiares de detalhes que não se justificam, configurando situações de exposição idevida da privacidade destas pessoas.

O ponto mais importante, talvez, na relação profissional-paciente idoso seja reconhecer que, mesmo em situações onde existam comprometimentos, esta pessoa tem o direito de ser reconhecida como tal. Mesmo em situações de muito comprometimento físico ou mental, as pessoas não perdem a sua dignidade, esta é uma característica inerente ao ser humano. O paciente não pode ser desqualificado, deixando de ser informado, deixando de ser ouvido. Muitas vezes um familiar, ou outro cuidador, assume o papel de interlocutor com  o profissional, interpretando e relatando  sentimentos e sensações que só a própria pessoa é capaz de sentir, alijando o velho do diálogo e desqualificando a expressão de suas necessidades e vontades.

O profissional que atende a um idoso deve sempre buscar a preservação do vínculo com o seu paciente. Este vínculo deve manter a perspectiva da integralidade da sua pessoa.



Material de Apoio - Envelhecimento
Página de Abertura - Bioética

Texto atualizado em 04/10/2000
(c)Goldim/2000