
Claire Bishop publicou na edição comemorativa de 50 anos da Artforum (Setembro, 2012) o artigo Digital Divide – Contemporary Art and New Media. Originalmente apresentado como conferência, despertou diversas reações dentro do meio por tocar de forma bastante direta e enfática em tópicos significativos da arte contemporânea, questionando a posição que a arte digital ocupa no discurso mainstream.
A questão norteadora do texto é a indiferença da poética da produção artística de new media em relação aos tensionamentos das relações sociais causados pela revolução tecnológica a partir dos anos 90. A arte digital era a promessa de futuro das artes visuais, mas apesar de recursos tecnológicos serem usados massivamente nos processos, para a autora, não costumam ser tema das produções. A pergunta que o texto faz é: por que o digital fica restrito ao meio de produção?
Se depender da artista brasileira Giselle Beiguelman, não está. Em I Lv Yr GIF a professora da USP nos apresenta a referência visual dos primeiros trabalhos de net art unida a recursos básicos de edição de imagem de um iPad, “remixando o passado e o futuro da internet em um delírio ótico em preto e branco”. O que é produzido aqui – através de um aplicativo – é um gif, que se apropria do banco de imagens de artistas que trabalham com gifs, e com a interação do touch do espectador é recriado e ativado novamente. Podemos reconhecer ali a obsolência de uma visualidade digital de um passado recente que ainda está presente, enquanto o banco de imagens nos promete um futuros de quase infinitas possibilidades de combinações.

A arte digital está fechando os olhos para o que é subjetivo na nossa relação com a tecnologia? Para Bishop, sim. Apesar dos motivos serem estruturais e ligados a questões de mercado, que serão abordadas em um texto futuro. Essa negação visual é para ela a reação inconsciente de uma sociedade da informação que se utiliza das ferramentas tecnológicas, mas nega a reflexão poética das transformações que causa.
Nem só de auto referência vivem as obras que abordam nossa relação com a imagem virtual. Diferente de Beiguelman que usa imagens de dentro do universo digital para falar dele, o artista Tom Lisboa se vale de uma forma estética reconhecível das redes sociais para trazer discussões sobre ela. Em #HELPYOURSELF ou estratégias de autoexposição o artista desenvolve uma “anti-selfie”, em que as partes da composição que cobrem o rosto do espectador podem ser reveladas de acordo com a sua decisão de se expor. Toda essa parte do processo é realizada com simples recurso de um folha de papel com formas impressas, desenvolvidas pelo artista. Após o processo a exposição pública do material é realizada através da hashtag do projeto, pela qual é possível localizar as imagens dos participantes nas redes sociais. A proposta é uma reflexão sobre o fenômeno contemporâneo da selfie pela ação contrária, ou seja, a da não ação.

Ao abordar os fluxos das interações de atividades culturais, através do envolvimento espectador com a obras – modelo responsivo x expositivo – outra pergunta que desponta no texto é: a premissa de um trabalho precisa assumir a forma de um objeto de arte para causar impacto no “mundo real”?
Com toda a movimentação gerada pela publicação outras importantes questões abordadas foram projetadas, como o destaque que a seleção visual adquire em meio a tantos estímulos que tendem a superficializar e homogeneizar nosso olhar para as imagens.
Sem dúvida, um texto crítico tem em seus objetivos despertar reflexão, certamente o de Claire Bishop expandiu esse lugar, provocando a reação vigorosa, que para muitos não se apresenta mais com tanta frequência em nosso tempo de equalização algorítmica. Diversas foram as manifestações de profissionais da arte como curadores, professores e artistas. Essas manifestações serão abordadas na próxima publicação do ConectartBR, não de deixe de acompanhar!