aarea.co e NABORDA: arte online na quarentena

O ano de 2020 não está sendo como o esperado. A pandemia e a crise econômica gerada por ela mudaram drasticamente os planos de todos nós. A cultura foi um dos setores mais atingidos, uma vez que eventos presenciais são o principal ponto de encontro do público com a arte em geral.

https://youtu.be/IDd2aXot1Y8
VOCABULÁRIO COMBATIVO, do Coletivo Bijari, obra que está em “Pandemia”, revista virtual coletiva organizada pelo portal NaBorda, 2020. Projeções e fotos: @projetemos, Marília Pasculli, Pixel Zaniz.

Assim, com a impossibilidade de sairmos de casa quando não é absolutamente necessário, como fazer as pontes entre o público e as obras? Às pressas, muitas instituições se voltaram para o digital, promovendo tours virtuais a acervos e exposições, sem realmente refletir sobre as diferenças e desafios que o virtual impõe ao encontro do interlocutor com as obras que não foram desenvolvidas para essas plataformas.

A máxima do filósofo canadense Marshall McLuhan de que “o meio é a mensagem” expõe que mudar o meio pelo qual a obra é exposta também muda a forma que ela será recebida e interpretada. Apesar do mundo ter sido pego de surpresa pela imposição da quarentena, formas de integrar a arte e a internet como meio de circulação/veiculação não são fenômenos que nasceram a partir da dela. Algumas iniciativas já tinham como mote a quebra do cânone do espaço expositivo tradicional tendo a web como base de uma nova forma pensar este lugar.

É o caso do site aarea.co, uma plataforma que comissiona e apresenta trabalhos de arte criados especialmente para a web. Idealizado por Livia Benedetti e Marcela Vieira, o projeto lançado em fevereiro de 2017 visa trabalhar com artistas convidados que respondem ao desafio de conceber, normalmente pela primeira vez, uma obra cujo veículo exclusivo é a internet. Até o momento, 30 projetos foram apresentados e a forma escolhida de apresentação é inovadora por si mesma. Quando entra no site, o visitante não encontra dispositivos fixos, tais como textos de apresentação, links ou botões que não pertençam à proposta do artista, ou seja, o site se torna um trabalho de arte diferente a cada edição. Essa ausência de mediação que define seu formato faz do aarea uma iniciativa inédita de circulação de trabalhos de arte no ambiente virtual. Desde 2019, vem ganhando destaque, colaborando com instituições que desejavam apresentar obras em seus websites, como o Salón Nacional de Bogotá, a Bienal de Arquitetura de São Paulo e o CCA Wattis Institute.

Este ano, realizou a primeira residência online do Pivô Pesquisa e prepara uma curadoria para o Jeu de Paume, na França, com trabalhos de Letícia Ramos e Marguerite Humeau, prevista para estar no ar de setembro a dezembro. Do projeto já participaram nomes importantes do cenário nacional, como Jac Leirner, com a obra botão (2020) – que está disponível no momento no site, Cinthia Marcelle, com a obra A sonata dos espectros (2018), entre outros.

Cuerpo celeste, de Aline Motta e Rafael Galante, 2019. Trabalho comissionado por aarea.

Outra iniciativa que vale o destaque é a revista NABORDA, que em 2020 lançou uma edição temática Pandemia NABORDA, apresentando trabalhos nas mais diversas plataformas, todos girando em torno do tema escolhido. A edição reúne trabalhos de dezenas de artistas, de diferentes gerações, todos versando sobre esse momento tão difícil e assustador que estamos vivendo. Uma das obras mais fortes é Novos Empreendimentos (2020), de Eduardo Verderame, que faz dos milhares de túmulos, abertos às pressas para acomodar as vítimas do vírus, empreendimentos imobiliários de luxo.

Novos Empreendimentos (2020), de Eduardo Verderame, obra que está em “Pandemia”, revista virtual coletiva organizada pelo portal NaBorda, 2020. Foto: Cortesia NaBorda.

O NABORDA é um espaço virtual, portal revista museu, criado em 2011, desde então, lançou 5 edições da revista: Crise (2011), Corpo (2011), Vazadores (2014) Crise² (2017) e Pandemia (2020). Curou 3 exposições: Nove Coletivos Uma Cidade (2013), no SESC Consolação, em São Paulo-SP; Poética do Dissenso (2014)  e Zona de Poesia Árida (2015), no MAR – Museu de Arte do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro-RJ. Tem seu corpo editorial formado por Túlio Tavares, Eduzal, Eduardo Verderame e Yuri Martins Fontes e também por 9 coletivos de São Paulo: Bijari, Projeto Matilha, COBAIA, Contrafilé, EIA, Esqueleto Coletivo, Frente 3 de Fevereiro, Nova Pasta e Ocupeacidade. Em 2012, reuniram-se e fizeram uma série de intervenções urbanas em São Paulo-SP e os registros geraram uma exposição e um livro. Se apresentam como um recorte geracional de Arte e de experimentação artística, temático, realizado por artistas que se posicionam na borda do sistema de arte e do fazer artístico que contém um vasto acervo de trabalhos e pensamentos. Foi criado com o intuito de agregar e publicar trabalhos de pessoas e coletivos com ideais próximos,  com uma perspectiva de mundo convergente.

Esse ano vem se mostrando desafiador nos mais diversos sentidos e, para o seu enfrentamento é necessário se voltar para a inovação. Iniciativas que já vinham pensando e trabalhando com a internet, antes mesmo de ela ser nossa única opção, se tornam essenciais para manter viva e pulsante a arte. Elas podem pavimentar o caminho para que mais e mais possibilidades se tornem realidades e não nos percamos em meio a tantos empecilhos para o nosso encontro com as obras e os artistas.

ERRATA: em versão anterior, havíamos aferido que o Portal NABORDA era coordenado por Daniel Lima e Túlio Tavares, informação que foi retificada posteriormente.

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