“Como é o cenário da arte online no Brasil?”
É a pergunta que o ConectartBR tenta responder através dos textos e informações disponibilizados neste site, canal de comunicação e veiculação da produção científica desenvolvida pelo Grupo de Pesquisa Territorialidades na Arte Contemporânea: Experiências Artísticas na Internet no Brasil. Uma das etapas dessa produção são as apresentações nos Salões de Iniciação Científica; entre os dias 21 e 25/10 a Universidade Federal do Rio Grande do Sul realizou o seu SIC e as bolsistas de Iniciação Científica Alessandra Greff Grade e Gabriela Lima Cunha apresentaram suas pesquisas. Este post e o seguinte são relatos concisos dos trabalhos apresentados.
A internet trouxe mudanças significativas para o campo da arte que associamos a noções de democratização do acesso e desterritorialização do espaços geográficos dominantes nos sistemas da arte. Buscando entender a movimentação da produção artística online nas instâncias de legitimação do sistema da arte contemporânea no Brasil e dos caminhos que percorrem os artistas que trabalham com internet, em busca de inserção e reconhecimento desenvolvi a pesquisa iniciada em 2018 partindo do estudo de currículo de um conjunto de artistas* já inseridos nas instâncias de legitimação.
A reflexão teórica das informações foi realizada ancorada em autores como Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, com o conceito de capitalismo artista e transestética, que se ancora na hibridização da arte, cultura e do consumo, e como afeta também as relações de trabalho dos artistas no contexto ao qual pertencem. A e-image, de José Luiz Brea, a imagem que já tem um original, com produtividade ilimitada e ubiquidade, distribuídas em milhões de tela simultaneamente. E, Bruna Fetter que atualiza o conceito de sistema da arte, proposto em 1990 por Maria Amelia Bulhões, com o uso de (Eco)sistemas da arte. A concepção de um grande sistema único representado por atores do mainstream global e distantes das realidades locais dá lugar a uma série de outros sistemas locais, que respondem a critérios e contextos específicos da realidade que os toca.
No desenvolvimento da pesquisa as informações coletadas foram organizadas em cinco segmentos: espaços expositivos, prêmios, bolsas, residências e curadorias. Os dados obtidos foram tabulados em planilhas e organizados em gráficos para auxiliar na interpretação. Cada currículo foi analisado individualmente com as informações disponibilizadas pelos artistas em suas páginas. A criação do ConectartBR acompanhou essa fase e o processo de coleta de dados foi o que nos motivou a criarmos os verbetes dos artistas no site, como um panorama que acompanha os artistas de destaque e dar visibilidade para aqueles que estão se inserindo.

A partir deles podemos identificar a aparente contradição entre a ideia de democratização de acesso e desterritorialização associada a internet e a observação de que, nas esferas de legitimação das práticas artísticas online no Brasil, se mantém a mesma estrutura geográfica hegemônica dominada pelo eixo São Paulo – Rio de Janeiro. Isso se evidencia na quantidade de exposições e nos espaços expositivos que abrigam essa produção, além de concentrar as premiações, bolsas e residências, mesmo estas sendo oriundas em grande parte de leis federais de incentivo à cultura. Esta situação se deve de alguma forma a concentração das instituições do sistema da arte nestes centros.
Observamos, ainda, nas práticas online um padrão de comportamento presente na arte contemporânea: os artistas desenvolvem múltiplas funções, como curadoria, ensino, pesquisa.

Assim, nesse cenário de sistemas da arte que se articulam dando corpo à uma unidade maior orientada por um consumo de imagens que se ressignificam e multiplicam constantemente, a promessa de acesso ilimitado à essa então emergente manifestação artística não se cumpre como esperado. As instâncias legitimadoras de maior reverberação, no cenário brasileiro, dependem diretamente de investimentos de políticas públicas voltadas para a cultura, que são executadas nos centros financeiros do país, onde também se encontra a concentração maior do mercado de arte.
Entretanto, percebe-se que nesta produção emergem artistas de diferentes regiões do País e muitos deles de áreas de periferia das grandes cidades, o que de certa forma evidencia uma possibilidade de abertura de portas neste espaço online. Destaca-se entre eles há uma forte preocupação com questões sociais e políticas que muitas vezes ficam à margem do circuito oficial da arte. A maioria deles possuem consciência dessas transações e estão atentos às estratégias poéticas que utilizam para evidenciar essas estruturas.
* Aleta Valente, Andrei Thomas, Cláudio Bueno, Eduardo Montelli, Gilberto Prado, Giselle Beiguelman, João Castilhos, Lucas Bambozzi, Malu Fragoso, Marcelo Amorin, Martha Gabriel, Rafael Marchetti, Suzete Venturelli, Tania Fraga, Tina Velho e Tom Lisboa.