Apesar de existirem desde cerca dos anos 60, as feiras de arte só começaram a ganhar popularidade – e relevância no mercado de arte – a partir de 2000. O seu crescimento, contudo, foi rápido e constante, e elas agora são parte quase essencial da economia e do mercado no campo das artes. No Brasil, as feiras de arte mais populares se encontram no eixo Rio-São Paulo, com nomes como a SP-Arte e a ArtRio.
Dado o caráter presencial deste tipo de evento, é de se questionar como as feiras de arte reagiriam em frente ao ao isolamento social e à quarentena, perante à pandemia do Covid-19. Muitas, como a FIAC de Paris e a Frieze London, na Inglaterra cancelaram as suas edições em 2020; outras, como a Frieze New York, a SP-Arte e a Art Basel optaram por realizar os eventos completamente online, mantendo o comércio e implementando tecnologias como a OVR (Online Viewing Room). Nesse artigo, busquei analisar o cenário das feiras de arte no Brasil: o que mudou, o que segue igual, o que sumiu e o que surgiu.
Pavilhão da Bienal, onde há quinze anos se realiza a SP-Arte (Foto: Jéssica Mangaba)
As feiras tradicionais
Já familiares com a tecnologia e o e-commerce, as principais feiras do país tiveram esse ponto de vantagem na hora de decidir como proceder em meio à essa situação inesperada: em 2019, tanto a SP-Arte quanto a ArtRio lançaram suas propostas de presença online: a ArtRio inaugurou o seu marketplace, que conecta diretamente os colecionadores com as galerias e conta com mais de 600 obras disponíveis; Já a SP-Arte apostou na SP-ARTE 365, que divulga suas galerias parceiras, trazendo uma maior exposição à elas, mas não possui serviço de compras próprio. Ambas as plataformas também publicam notícias, artigos, entrevistas e outros conteúdos como podcasts e vídeos. Nenhuma das feiras “tradicionais” foi, portanto, cancelada.
Realizada em agosto deste ano, a SP-Arte ocorreu completamente online, através da plataforma digital SP-Arte Viewing Room. De acordo com a organizadora do evento, Fernanda Feitosa em entrevista à Veja-SP: “Usamos a SP-Arte 365 como arcabouço da plataforma. Uma das funcionalidades, que teremos lá, permite mostrar uma exposição específica de uma galeria, com um número bom de obras, cerca de 30. Também será possível ver detalhes dos trabalhos, contactar galerias, tanto por e-mail quanto por WhatsApp.” O evento foi extremamente bem recebido, com mais de 56 mil visitantes brasileiros e internacionais visualizando as 3.600 obras disponíveis. Além disso, a programação cultural do evento contou com visitas guiadas virtuais, Open Studio, conversas com artistas, screenings, lives, aulas e palestras.
Art-Rio 2020 (foto: divulgação)
A Art-Rio apostou em uma abordagem diferente, propondo um modelo simultaneamente ao vivo e online. O evento, que ocorreu em outubro, teve sua versão presencial na Marina da Glória e expôs obras de cerca de 40 galerias. Apesar do grande enfoque nos protocolos de segurança, número de visitantes e tempo limitado de permanência, houve certa preocupação em relação à manutenção do evento presencial. A edição online foi gratuita, e contou com palestras, mesas redondas, performances e visitas guiadas.
Ideias novas em meio à quarentena
A crise econômica causada pela pandemia afetou muito o mercado de arte, mas também fomentou ideias inovadoras. Uma delas foi a Not Cancelled Brazil, projeto idealizado pela agência TREAT que consiste em uma feira completamente online. O evento ocorreu entre junho e julho, com a coordenação de Karla Osorio Netto e apoio da Associação Brasileira de Galerias Contemporâneas (ABACT), e reuniu 57 galerias brasileiras de nove cidades, entre elas a galeria Gentil Carioca, Almeida e Dale Galeria de Arte, Anita Schwartz Galeria de Arte, Bergamin & Gomide, Casa Triângulo, com obras de 106 artistas. O evento também contou com transmissões ao vivo, palestras e visitas guiadas.
Dada a resposta majoritariamente positiva aos eventos apresentados neste artigo, não é absurdo pensar que esta experiência online “forçada” pode mudar de várias maneiras o modus operandis das feiras de arte. A maior acessibilidade por parte do público, independente da sua localização, a facilidade com a comunicação entre colecionadores e galerias e a possibilidade de abrir as palestras, aulas, mesas redondas e visitas guiadas para uma plateia maior são algumas das características extremamente positivas propiciadas pela experiência online. É razoável acreditar que pelo menos alguns dos aprendizados decorrentes delas serão mantidos à medida que o mundo saia do forçado isolamento social que nos foi imposto pelo Covid19.
Referências:
FETTER, B. W. A feira de arte como plataforma: seu funcionamento e algumas repercussões. In: 25º Encontro da ANPAP (Associação Nacional dos Pesquisadores de Artes Visuais), 2016. Porto Alegre: ANPAP : UFSM, PPGART : UFRGS, PPGAV, 2016. p. 756-768.