O primeiro projeto Phototrails (2013) (Figura 1 e 2) usou 2,3 milhões de imagens de 13 cidades ao redor do mundo, era um projeto mais amplo que tinha como objetivo mostrar como certos padrões de imagens, de localizações e características visuais podem apontar questões sociais, culturais e políticas. Foram utilizadas fotos de usuários de Tel Aviv durante os dias de eventos nacionais na cidade, e fotos da área do Brooklyn durante o furacão Sandy. Manovich comenta no primeiro capítulo do seu livro, sobre como (2017, p. 2) “a partir das análise que eles fazem das imagens postadas no Instagram sugere que os assuntos e estilos das fotografias são fortemente influenciados pelos valores sociais, culturais e estéticos de uma certa localização ou demografia”.


No projeto seguinte chamado The Everyday (2014) essa afirmação se intensifica ainda mais. O trabalho The Exceptional and the Everyday: 144 Hours in Kiev (Figura 3) é considerado a primeira análise de dados do Instagram em um período de um movimento social, usando técnicas de visualização de dados. Foram exploradas 13,203 imagens da rede social compartilhadas por 6,165 pessoas na área central de Kiev na Ucrânia, durante a revolução ucraniana em 2014. Essa revolução diz respeito ao movimento Euromaidan, uma série de protestos que foi fortemente reprimida pelo governo de forma sangrenta e que durou cerca de 6 dias causando impactos em toda a Ucrânia. Os protestos eram organizados pelas redes sociais, em específico Twitter e Facebook, portanto sobre o uso dessas redes já haviam diversas pesquisas. Manovich e o seu grupo de pesquisadores se focaram no uso do Instagram, que não era um uso muito significante em números mas que podia trazer informações interessantes sobre pensamentos políticos e o envolvimento de diversas pessoas nesse cenário político.

Durante este período 9 das hashtags mais utilizadas tinham alguma relação com a Revolução (#maindan, #euromaidan, #revolution, etc) e foi estudado como era o uso dessas tags. Pois era comum ver ao pesquisar, que fotos de cenas críticas de embate com a polícia, queima de carros eram postadas lado a lado com selfies que não tinham uma relação óbvia com as hashtags do movimento. Vale a pena dar uma olhada neste material, temos não só todas as imagens analisadas disponíveis para nós mesmos explorarmos como também após essa coleta dos dados, cada pesquisador vai mais a fundo e produz artigos sobre esses dados. Como é o caso da pesquisadora Alise Tifentale que escreveu um texto sobre a iconografia da Revolução na Ucrânia, trabalhando que gramática visual e que padrões tinham nessa representação daquele período nas redes sociais.
On Broadway (2014) foi o projeto em que Manovich trabalhou majoritariamente com profissionais de Data Visualization, pessoas que entendiam muito de programação e desenvolvimento de software. Foi uma equipe, portanto, bastante técnica com pessoas como Daniel Goddemeyer que trabalha no projeto de pesquisa da inteligência artificial do Google. A motivação de Manovich para realizar esse projeto foi pensar, como que nós podemos representar o que é a vida em uma cidade no século 21. Como nos relacionar com o espaço urbano, que está sempre perpassado por localizações, metadados, imagens? Ele se inspirou no trabalho de Edward Ruscha (1966) chamado Every Building on the Sunset Strip, um livro de artista de 8.33 metros de largura, em que ele trás uma nova forma de ver e representar a cidade. Portanto, para esse projeto Manovich se questionou como representar a rua da Broadway (uma rua que é espinhal e atravessa diversos bairros na cidade) através de seus dados. O resultado final é uma interface (Figura 4) que compila as imagens do Google Street View, cores das fachadas, estatísticas de táxis, imagens do céu no Google Street View, estatísticas de redes sociais, renda média dos moradores da região, cores das fotos do Instagram, as fotos do Instagram compartilhadas e os bairros, tudo isso de uma forma interativa (podemos interagir com o mouse ou na instalação que eles criaram é possível com as mãos em uma tela touch-screen) permitindo que nós possamos navegar por este território e experienciar as diversas camadas de informações que existem nele.

Por fim, o último projeto que do Lev Manovich relacionado ao uso do Instagram é Selfiecity (2014) e Selfiecity London (2015) como os próprios nomes sugerem, trataram da representação dos auto-retratos e imagens de si (selfies) compartilhadas no Instagram (Figura 5 e 6). Os dois são parecidos, a diferença é que o primeiro projeto trabalhou com 5 cidades ao redor do mundo, que eram: Bangkok, Berlim, Moscou, Nova Iorque e São Paulo, e o segundo se focou na cidade de Londres apenas. Foram coletadas cerca de 120,000 fotos ao total, para o primeiro projeto, e analisadas para detectar gênero e idade. Algumas perguntas foram sendo feitas: Os paulistas sorriem mais que os nova-iorquinos? Será que os Instagrammers de Berlim viram a cabeça em um ângulo maior que os de Moscou para as selfies?

Para esse trabalho tão subjetivo inicialmente foram contratados trabalhadores de Mechanical Turk (um sistema de trabalho com tarefas simples e repetitivas de reconhecimento de informações) que visualizavam milhares de imagens e estimaram a idade e o gênero das pessoas. Então começaram a ir mais a fundo nos estudos, e analisar a distribuição de sorrisos por cidade e por gênero, os ângulos de virada da cabeça, entre outras informações. Alguns achados da pesquisa foram que as pessoas tiram menos selfies do que o esperado (apenas 3-5% das imagens coletadas das cidades eram selfies), em todas as cidades haviam mais selfies de mulheres do que homens, a selfie é praticada mais pelos jovens na faixa etária dos 20 anos, e Bangkok e São Paulo são as cidades com mais sorrisos por foto enquanto que em Moscou as pessoas se mostram mais reservadas. Esses dados e outros com os números, gráficos e mais detalhes é possível encontrar no site do projeto na sessão Findings.

Apresentado todos esses projetos, o que podemos perceber é que o assunto é infinito em suas possibilidades e existem muitos assuntos de pesquisas relacionados à essa rede social. Lev Manovich abre as possibilidades para isso, e não apenas trás dados, mas motiva pesquisas críticas sobre as informações levantadas. Ele resgata a História da Fotografia, comentando no seu livro Instagram and the Contemporary Image (2017, p.16) sobre “a função documental que já aparecia no surgimento da técnica em 1830 e se intensifica mais ainda hoje em dia com o Instagram com os metadados. Ele procura identificar que tipo de convenções são da própria tradição da fotografia e que novos padrões de composição estão sendo utilizados para essas fotos”.
Essa é uma abordagem que se faz hoje em dia em relação às redes sociais, e existem diversos artistas brasileiros que já estão se questionando sobre esses padrões estéticos e trazendo isso de uma forma reflexiva nos seus trabalhos também. Em um próximo texto, vamos trazer estudos de caso desses artistas, apresentando um pouco para vocês desse novo espaço que tem sido explorado pelo mundo da arte.
Este texto é o segundo de uma série: Leia a Parte 1 e Parte 3.