Feeling Cute, Might Delete It Later: Newmemeseum e o uso dos memes como ferramenta de crítica institucional

Texto de Malena Mendes

Meu trabalho de conclusão de curso propõe apresentar e discutir o uso de memes como crítica institucional por pessoas que têm como espaço de atuação a rede social Instagram. Dividido em três capítulos, busquei apresentar os memes, desde sua definição na área da biologia até sua referência por teóricos de outros campos de atuação, sinalizando as diferentes características abordadas pelos teóricos Limor Shifman (2012) e Patrick Davison (2020) que buscam delimitar os fatores para o sucesso de um meme. A pesquisa sobre prática de legitimação dos memes no mundo da arte é retomada neste momento para manifestar a sua inserção no espaço expositivo, assim como também é  dedicada uma apresentação dos impactos que a globalização e a internet trouxeram para o mundo da arte. Na segunda seção desse capítulo, apresento três contas no Instagram das quais destaco o uso dos memes como crítica institucional: The White Pube, Freeze_magazine e Newmemeseum.

Figura 1 — Brasil em 2020: Produção de pensamento crítico 

Fonte: NEWMEMESEUM (2020)

Dentre as diversas facetas que compõem a cultura digital contemporânea, o meme é inconfundivelmente uma das mais irreverentes. O termo meme, palavra derivada do grego mimema e que significa “aquilo que é imitado”, foi apresentado em 1976, pelo biólogo Richard Dawkins (Nairóbi, Quênia, 1941) em seu livro O Gene Egoísta. Limor Shifman (Israel, 1974), professora no departamento de Comunicação e Jornalismo da Universidade Hebraica de Jerusalém, é referência no estudo do poder e potencial dos memes. Shifman propõe que os memes na cultural visual sejam “uma pequena unidade de transmissão cultural, análoga aos genes que se espalham de pessoa para pessoa por cópia ou imitação, trazendo exemplos como bordões, melodias, moda e vestuário, assim como crenças abstratas (por exemplo, o conceito de Deus)” (SHIFMAN, 2013, p. 9). O entendimento dos memes passou por inúmeras alternâncias de sentido até que chegasse à compreensão atual, e para fins dessa pesquisa, me baseei no viés mais recente do pesquisador  Patrick Davison (DAVISON, 2020, p. 145) ressalta as características estéticas dos memes digitais, no qual divide em três componentes: “ideal (ideia passada adiante); o comportamento (a ação tomada pelo indivíduo); e a manifestação (fenômeno observável), tal como se apresenta no mundo objetivo”.

O humor também é uma das características principais de um meme. Charles Baudelaire (2017, p. 8) diz que o cômico é do ponto de vista artístico, uma imitação; o grotesco, uma criação. O cômico é uma imitação misturada com certa faculdade criadora, isto é, com uma idealidade artística”. Porém, embora o humor faça parte da natureza humana, nem todos vão vivenciá-lo da mesma maneira. Assim, existe uma diversidade enorme de memes para todos os gostos na cultura digital contemporânea, e interpretar e acessar seus códigos e valores exige envolvimento. De forma semelhante ao processo de alfabetização, para termos a capacidade de entender um meme é preciso consumir, interagir e replicá-lo de uma forma que o conjunto texto/imagem seja passível de entendimento em outras instâncias (TEOBALDO, 2020).

Em 2020, em meio a pandemia do Coronavírus, entra em recesso a forma tradicional de entrar em contato e consumir arte. Com os olhos voltados para o virtual, o perfil anônimo, Newmemeseum, surge na plataforma Instagram. Suas postagens abarcam diferentes propostas: crítica a curadores, artistas, movimentos da história canônica da arte, ao Brasil, ao governo de precariedade (LOREY, 2015) que se alastra cada vez mais, enfim, uma grande autocrítica a si mesmo como parte da comunidade e a todos que gerem e participam dessa dança.

Figura 2- Postagem do dia 20 de dezembro de 2020, “o brasil é um meme que nunca dorme”

Fonte: https://www.instagram.com/p/CIfzET7np1P/?igshid=e9loq2kj7gce NEWMEMESEUM (2021)

O anonimato é um aspecto muito importante para o sucesso das críticas do Newmemeseum. Ele permite com que as pessoas responsáveis pela criação do conteúdo não temam rechaço, ao mesmo tempo em que essa liberdade fortalece o vínculo entre os atores do sistema de arte a ponto que mediadores, produtores e outros demais personagens do sistema se sintam a vontade em compartilhar situações e vivências para serem expostas em forma de meme no perfil.

“Muitas vezes, nós nos esquecemos de que um perfil de rede social é uma ficção. A rede social é um lugar de criação autobiográfica. Cada um escolhe fotos, vídeos e conteúdos para compartilhar em suas páginas – cada um faz a curadoria de um “eu” que gostaria de tornar público – e isso ajuda a formar um personagem, que, definitivamente, está longe de dar conta da complexidade de uma pessoa real. Com um apanhado limitado de informações que um perfil oferece, tomamos o personagem da pessoa como a própria pessoa real e, a partir disso, emitimos uma série de julgamentos. Ao compreender isso – e ao compreender que nós, também, nos comportamos exatamente dessa maneira –, foi o que levou o New Memeseum a omitir a autoria. (NEWMEMESEUM. Entrevista concedida a Álvaro Seixas. C-AM-A. 2020)”

Andando pela corda bamba que entre o que é meme e crítica ao sistema da arte, a responsabilidade que é posta sobre estes criadores em relação a serem formadores de opinião é outro tópico muito importante para o Newmemeseum. Para eles, “estar participando de uma rede social é fazer parte de um espetáculo e, eles têm a intenção de apresentar as diferentes particularidades de cada agente” (NEWMEMESEUM, 2020)

Pensando na contribuição do Newmemeseum ao campo da crítica,  a artista Andrea Fraser (1965) diz que a crítica institucional, enquanto prática, não pode ser definida por um objeto ou instituição: “muito mais que isso, essa prática só pode ser definida por sua metodologia de especificidade do site criticamente reflexiva” (2014, p. 1). Por criticamente reflexiva, a autora sugere que como prática política, os objetivos de mudança da crítica institucional têm em vista as formas de autoridade que operam dentro do campo de trabalho, levando em consideração também, as relações do campo artístico com outros campos (FRASER, 2014).

Se olharmos para a historiografia da crítica institucional, é possível destacar diversos trabalhos que reagiram a fatores políticos e econômicos que afetaram o mundo da arte. Dentre eles, destaco a produção do coletivo Guerrilha girls (1985), que ainda atua de forma extremamente política e sarcástica dentro dos museus, apontando a discrepância nos acervos da produção artística de mulheres versus a produção masculina.

No contexto brasileiro, o humor é uma peça essencial da cultura popular e funciona como uma distinção da internet “global”. “Muito antes da internet, o humor sempre desempenhou um papel político e social no Brasil, funcionando como um mecanismo de protesto e de representação da identidade cultural” (LUNARDI, 2020, p. 429). Rir de seus infortúnios abre espaço para que o debate de assuntos de cunho político e econômico se torne menos maçante, e potencialize o protesto. A crítica, por sua vez, em um processo de renovação de sentido, busca formas alternativas de impactar as relações entre os pares, emitindo uma fala que proporcione a sensação de pertencimento comunitário e resulte em mudanças nas estruturas sociais. Os memes surgem então como uma chave singular para alcançar esses anseios. No campo artístico brasileiro, existem artistas que já incorporam os memes em sua poética, seja como estratégia de inserção no sistema de arte, como faz o artista Álvaro Seixas, ou pensando na pedagogia do meme. como trabalha a artista Biarritzzz. Porém, o sistema nacional ainda carecia de um projeto que atuasse na prática da crítica no sentido em que Fraser propõe, isto é, entender que o objeto de nossas críticas, de nossos ataques, está sempre também dentro de nós (FRASER, 2014). 

Figura 3— postagem do @newmemeseum no dia 13 de abril de 2021 

Fonte: NEWMEMESEUM (2021)

Compreendendo a crescente relevância dos memes para a cultura e a arte contemporâneas, esta pesquisa não se propôs a esgotar caminhos, mas sim a fazer conexões iniciais e a apontar possibilidades de leitura e entendimento dos memes como arte. São passos iniciais, mas absolutamente importantes na construção dos processos de legitimação dessa prática perante diferentes atores e instituições do sistema.


REFERÊNCIAS

BAUDELAIRE, Charles. Sobre a Essência do Riso. Revista UFG. Tradução Zênia de Faria, v. 8, n. 2, 28 jul 2017. Tradução de: De l’essence du rire et généralement du comique dans les arts plastiques. Disponível em: https://www.revistas.ufg.br/revistaufg/article/view/48111. Acesso em: 9 mai. 2021.

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico, f. 156. 1988. 311 p.

BULHÕES, Maria Amélia. As Novas Regras do Jogo: o sistema da arte no Brasil. Porto Alegre: Zouk, 2014. 144 p.

DAVISON, Patrick. A linguagem dos memes de internet (dez anos depois). In: CHAGAS, Viktor (Coord.). A cultura dos memes: aspectos sociológicos e dimensões políticas de um fenômeno do mundo digital. 1. ed. Salvador: Edufba, 2020. 544 p, p. 139- 156

FRASER, Andrea. O que é Crítica Institucional ?. Revista Concinnitas. Tradução Daniel Jablonski, Rio de Janeiro, v. 15, n. 24, p. 1-4, 2014. Disponível em: epublicacoes.uerj.br/index.php/concinnitas/article/view/18731/13645. Acesso em: 1 out. 2020.

JORDÃO, Fabrícia. O Ativismo Institucional, as artes visuais e a redemocratização brasileira em busca de um espaço para o contemporâneo. In: ARTE ALÉM DA ARTE, 2. 2019. Anais eletrônicos […] Porto Alegre, 2019. 287-296 p. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/212560/001116316.pdf?sequence=1&isAllowed =y. Acesso em: 22 mar. 2021.

MONTEIRO LUNARDI, Gabriela; BURGESS, Jean. “É zoeira: as dinâmicas culturais do humor brasileiro na internet. In: CHAGAS, Viktor (Org.). A cultura dos memes: aspectos sociológicos e dimensões políticas de um fenômeno do mundo digital. Salvador: Edufba, 2020. 544 p, p. 427-458.

NEWMEMESEUM. Alvaro Seixas. C.A.M.A. 2020. Disponível em: https://c-a-ma.com/materia/alvaro-seixas/. Acesso em: 4 fev. 2021.

SHIFMAN, Limor. Memes in Digital Culture. MIT Press, v. 1, f. 100, 2013. 200 p.

TEOBALDO, Felipe. Dilema das redes: devo sair das redes sociais?. São PAulo, 14 out. 2020. Instagram: @teobaldx. São PAulo, 2020. Disponível em: https://www.instagram.com/tv/CGVcx84JJjQ/?igshid=15roy2col1g34. Acesso em: 3 mar. 2021.

 

Acesse o TCC de Malena Mendes aqui 

Translate »