Eu, myself e a minha selfie

Artista Laís Pontes - Obra: The Girls on Instagram
Captura de tela da conta do Projeto “The Girls on Instagram”. Acesse aqui.

“………. publicou depois de muito tempo”, quanta vezes essa notificação não nos lembrou da existência de um amigo? O compartilhamento de experiências em tempo real faz com que tenhamos um repertório imagético de figuras humanas circulando constantemente em nossas telas. Mas, nem só da imagem dos outros vivem nossas redes sociais, a quantidade de imagens que publicamos de nós mesmos é proporcional à esse ritmo de circulação. Como não experimentar esta exposição quando temos filtros novos a todo momento? Sempre há uma novidade para fazer o autorretrato parecer menos o reflexo de Narciso e mais uma diversão inocente.

Diversas áreas do conhecimento se ocupam em tentar entender a complexa relação entre nós, seres humanos, com a nossa imagem.  A psicanálise usa o conceito de projeção para nos dizer que as coisas não são como são, são como somos. Cada indivíduo é resultado da interação de três fatores distintos: o que de fato a pessoa é; o que ela deseja ser; e o que os outros acreditam que ela seja. Em suma, com base em nossas próprias memórias e experiências, atribuímos aos outros sentimentos e intenções que na verdade pertencem a nós mesmos, projetando a nossa personalidade para o meio externo em que estamos inseridos. Mas o que isso tem a ver com nossa imagem, identidade e com a nossa interação nas redes sociais? 

Entre tantas relações possíveis se destaca a selfie. Esse autorretrato de compartilhamento virtual é onipresente, principalmente no Instagram. Para os filósofos franceses Gilles Lipovetsky e Jean Serroy na “era do individualismo hipermoderno, o eu não é mais detestável’, as redes sociais teriam trazido com elas práticas de exposição de si mais democráticas. Agora, “jovens, velhos, homens, mulheres, desempregados, homens de negócios de todo o mundo se mostram na internet através de blogs e redes sociais, imagens de webcam ou de celular.” Quando olhamos com mais cuidado percebemos como essas imagens de nós mesmos que inundam a internet são composições orquestradas para interação em um ambiente social. São máscaras que usamos.

Um assunto tão sensível e latente em nossa sociedade não passaria despercebido pela produção artística. A artista brasileira Laís Pontes explora o tema em diversos dos seus trabalhos, sendo uma constante em sua poética. Na série Virtual Mask, a artista cearense pretende discutir essa separação entre a imagem pública que construímos em nossas interações virtuais e o privado, fazendo isso através do uso de QR Codes sobre os rostos das personagens elaboradas durante o projeto Born Nowhere. Criando a máscara que tenta proteger essas identidades criadas. 

Artista Laís Pontes, Obra Born Nowhere.
Born Nowhere. Fonte: Site de Laís Pontes.

Em Born Nowhere usa o Facebook como uma plataforma para identidades de crowdsourcing. Utilizando autorretratos e os editando, a artista transforma  as características faciais para dar uma nova personalidade a essas imagens. Depois, convida os usuários a compartilhar seus próprios pensamentos sob a forma de comentários e interpretações das fotografias/personagens, com isso constrói uma estrutura flexível para a interação enquanto alimenta uma experiência sociocultural de interação direta. Os comentários do usuário informam e influenciam a criação de cada personagem/pessoa que recebe um nome, uma vida e traços de personalidade. A artista usa os comentários agregados do Facebook para construir as biografias e cada nova personagem é influenciada pela projeção daqueles que com ela interagem. 

Essa lógica de interação afetiva entre os usuários e personagens de Pontes dá a eles a classificação de internautas transestéticos, definida por Lipovetsky e Serroy como prosumer – produtor e consumidor de conteúdo online – que traz nas interações virtuais (curtir, comentar, compartilhar) a busca lúdica por vínculos. Nessa era a economia absorve e instrumentaliza a arte, faz com que ela se infiltre em todas as indústrias como estratégia estética para finalidade mercantil. Assim, ao mesmo tempo que essas interações são vínculos afetivos (mesmo que momentâneos) elas estão sendo capitalizadas, na medida em que provém dados que são utilizados transacionados pelas as redes sociais, que nada mais são do que empresas. Os trabalhos levantam tais questões e se colocam em uma posição de catalisadores de fissuras dessa lógica. 

É interessante observar como artistas que desenvolvem sua poética através da criação de perfis o fazem como metalinguagem. Nos trabalhos de Laís Pontes somos impelidos a dar vida às personagens e nessa criação narrativa projetamos algo da nossa própria identidade, criamos um vínculo afetivo não com um ser humano que conhecemos e cuja personalidade nos cativa, mas com uma e-imagem construída para nos cativar. Ao pensar essa relação somos obrigados a nos confrontar com a própria natureza da nossa personalidade que expomos nas redes. Sempre há algum filtro, ele não precisa ser visível como orelhas de cachorro, mais frequentemente ele é a imagem que fazemos de nós mesmos – a projeção do que desejamos ser – que encontrará a imagem que o outro tem de nós. Mesmo esse encontro de projeções não ocorrendo em território neutro, esses trabalhos se colocam como uma possibilidade de atuação poética e sensível; uma crítica contra esse terreno hostil á sensibilidades, que pode ser o ambiente virtual hipermoderno.

Acesse o site de Laís Pontes aqui.

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