O Aritmógrafo: apresentação e comentários

Texto de Guilherme Leon

Imagem gerada pelo Aritmógrafo

Neste texto farei uma breve apresentação do meu projeto, apresentado como trabalho de conclusão de curso para o bacharelado em artes visuais, chamado Aritmógrafo, que consiste em uma série de elementos:

  1. Um programa, escrito em Processing, que gera, proceduralmente, paisagens virtuais tridimensionais;
  2. Outro programa – também em Processing -, que gera, a partir das paisagens geradas, imagens dessas paisagens;
  3. Um bot no Twitter, que posta essas imagens na rede social;
  4. Um bot no Telegram, que oferece essas imagens para quem as requisitar;
  5. Um website, que apresenta as imagens online de forma randomizada;
  6. Outros trabalhos de arte, que discutem algumas temáticas relacionadas ao projeto.

Sobre o Aritmógrafo

Eu realizei uma formação em ciência da computação antes de entrar nas artes visuais, dando ênfase à questões de processamento de imagens e computação gráfica. Assim, à medida que meus estudos em computação avançavam, eu me aproximei da arte generativa, que seriam práticas artísticas produzidas por computadores de forma autônoma. No entanto, percebi que, no campo da ciência da computação, não havia espaço para tais explorações não-técnicas e decidi me matricular no curso de artes visuais, tentando rejeitar meu interesse pela programação. Na minha trajetória no Instituto de Artes, me dediquei exclusivamente à produção de arte analógica, evitando o uso de computadores, focando em pintura, desenho e gravura. Dessa maneira, eu comecei, assim como a maior parte dos artistas na contemporaneidade, a publicar meus trabalhos no Instagram, com uma certa regularidade – exigida pela plataforma para que se obtenha mais visualizações – e com uma grande atenção ao número de likes que cada postagem recebia: eu buscava adaptar a minha produção artística para maximizar as aprovações recebidas pela minha persona artística digital.

Chegando ao final do curso de artes visuais, eu já me encontrava interessado, novamente, pelo uso de computadores para produzir arte, mas, ao mesmo tempo, estava incomodado pela forma que a minha experiência nas redes sociais havia tomado. Assim, decidi criar um programa que gerasse paisagens – uma temática que havia sido abordada por mim durante todo o período da
graduação – mas me encontrava em dúvida em relação à forma de publicar essas imagens, pois não gostaria de repetir, acriticamente, o meu uso das redes sociais. Optei, então, por programar um bot no Twitter que postasse as imagens geradas autonomamente, buscando, assim, me libertar da associação entre a minha produção artística, as reações dos meus seguidores e a minha própria persona online.

O nome “Aritmógrafo” surgiu a partir da palavra fotografia, que se origina, etimologicamente, na combinação de duas palavras do grego: phôs-, que significa “luz” e -graphè, que significa “escrita” ou, ainda, “escrever”. O programa de computador que eu desenvolvi não trabalha com a luz para gerar imagens, mas opera a partir de números e de operações realizadas sobre eles. Dessa maneira, eu substituí o termo referente a luz pelo termo arithmós-, que denota, em grego, “número”, obtendo o termo Aritmografia e, portanto, Aritmógrafo veio a nomear meu projeto. Assim, com esse nome, o bot tomou forma e começou a realizar suas postagens nas redes sociais. A minha interferência no histórico de postagens é mínima; os erros de programação, as mudanças inesperadas e os bugs estão todos registrados no perfil do twitter. Assim, a página é utilizada como um arquivo que registra o processo do Aritmógrafo.

Acredito, também, que seja importante ressaltar que o Aritmógrafo, sendo um projeto, pode receber a adição de novos elementos, a substituição de alguns dos elementos e a modificação do funcionamento dos programas que o compõem. Dessa maneira, esse é um projeto de arte que acontece em processo, não possuindo uma forma definitiva. As temáticas que eu busco observar nesse projeto são relacionadas à natureza numérica e codificada das imagens digitais, à geração autônoma de imagens e de trabalhos de arte e às características da vivência dos
artistas nas redes sociais.

Algumas reflexões

Com esse projeto, eu trabalhei a síntese de imagens digitais, sua produção a partir de fórmulas matemáticas e sua natureza efêmera e codificada. José Luis Brea, em Las tres eras de la imagen, buscando entender a imagem na era de sua digitalização, escreve que “as [imagens] eletrônicas só estão no mundo indo-se, desaparecendo. Por momentos estão, mas sempre deixando de fazê-lo” (BREA, p. 67). Dessa maneira, busquei, com a programação do Aritmógrafo e no texto de meu trabalho de conclusão, explorar essa natureza codificada da imagem digital, que é um dado interpretado por uma tela. Uma temática cara para mim é a desmistificação da Caixa Preta (FLUSSER, 1985), a revelação dos códigos para o mundo.

Para a criação do Aritmógrafo, eu produzi um programa de rendering, que simula os trajetos que a luz faria para gerar uma imagem. Dessa maneira, esse programa realiza uma sequência de operações sobre um conjunto de dados (a representação tridimensional da paisagem) para gerar, como resultado, uma imagem (uma representação bidimensional da paisagem). Ressalto, novamente, que esse processo não envolve a luz, sendo apenas um processo matemático, questão que evidencia a natureza numérica das imagens digitais. Além disso, também é possível observar que os programas de computador tem partes que podem ser substituídas, ou, como escreveu Manovich: “Um objeto de new media consiste de partes independentes, onde cada uma consiste de partes independentes menores, e assim por diante, até o nível dos menores átomos” (MANOVICH, 2001, p. 31). Em consequência desse fato, é possível alterar apenas uma parte do Aritmógrafo para obter novos resultados, como cartografias das paisagens.

Cartografia gerada através de uma modificação do Aritmógrafo.

Como um último aspecto na discussão provocada pelo Aritmógrafo, eu refleti sobre a maneira como a vivência dos artistas transcorre nas redes sociais, questionando o casamento entre a produção artística e construção de um “eu” através do olhar dos outros. Acredito que a minha relação com as redes sociais se deu de forma turbulenta e avalio que a economia dos likes e das métricas de popularidade dos meus trabalhos de arte postados online gerou uma certa medida
de sofrimento. Da mesma maneira, Paula Sibilia coloca, no seu livro “O Show do Eu”, uma reflexão similar: “Não raro, essa administração da própria imagem on-line exige quantidades crescentes de tempo e energia, um esforço no qual se destaca o notável aumento da ansiedade por monitorar o número de aprovações recebidas em cada ocasião.” (SIBILIA, 2016, p. 42-43). Entendo, então, que o bot no Twitter do Aritmógrafo foi uma forma que eu encontrei de me contrapor, em certa medida, à essa lógica das redes sociais, buscando alterar a minha relação com essa forma de manifestação pública.

Para encerrar esse texto, é importante apontar uma contradição inerente à minha prática artística: a inevitabilidade de, no contexto atual, separar o “eu” dos trabalhos de arte e da sua presença nas redes digitais. Em função disso, eu tive de associar o Aritmógrafo ao meu nome de diversas maneiras, seja no texto do meu trabalho de conclusão de curso, seja no presente post. Adicionalmente, eu ainda não fui capaz de erodir completamente a relação que eu tenho com os números de seguidores e de likes que o Aritmógrafo recebe, sendo afetado, ainda que de forma
inconsciente, por essas métricas de popularidade digital. Buscarei, nas minhas práticas artísticas futuras, manter uma visão crítica acerca dos aspectos despercebidos da tecnologia e da forma como as relações que desenvolvemos com as redes sociais digitais nos afetam. Entretanto, ressalto que o meu objetivo não é combater ou evitar a tecnologia e as redes sociais – que hoje são parte inescapável do nosso contexto socioeconômico – mas difundir um uso crítico e consciente delas, além de provocar, naqueles que entram em contato com meu trabalho prático e textual, uma quebra da transparência do meio tecnológico.

Captura de tela com a página do Aritmógrafo no Twitter.

Referências:

BREA, José Luis. Las tres eras de la imagen. Madrid: Ediciones Akal, 2010.


FLUSSER, Vilém. Filosofia da Caixa Preta. São Paulo: Huitec, 1985.


MANOVICH, Lev. The Language of New Media. Cambridge: MIT Press, 2001.


SIBILIA, Paula. O Show do Eu. Rio de Janeiro, Editora Contraponto, 2016.

Acesse o TCC de Guilherme Leon aqui.

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