Texto de Isadora Bortolossi
Em julho de 2018, iniciei um projeto de pesquisa no mestrado em Artes Visuais da UFPel (Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul) sobre como poetizar visualmente as relações sociais que se dão à distância e por meio da Internet. Na época, evidentemente, eu jamais poderia ter imaginado que, no futuro próximo, a pandemia do novo coronavírus em 2020 transformaria a Internet no meio de comunicação primordial para conservar as relações interpessoais em meio ao isolamento social – o que veio a impactar até mesmo o modo como passei a perceber minha própria pesquisa.
A escolha por este tema foi consideravelmente pautada por um relato pessoal de Grafton Tanner, autor estadunidense que conta um pouco de suas reflexões sobre a experiência de relacionar-se pela Internet na introdução do livro Babbling Corpse: Vaporwave and the Commodification of Ghosts (2016). Identifiquei-me pessoalmente com o relato de Tanner sobre como ele se sentia “socializando enquanto sozinho” ao interagir com outros indivíduos em plataformas da web. Tanner reflete:
É uma sensação confusa e misteriosa sentir-se socializando enquanto sozinho, rodeado de entidades invisíveis cuja presença ainda é sentida porém parece totalmente ausente. Essas entidades são nossos fantasmas do século XXI, desprovidos de suas conchas corpóreas e liberados a deslizar pelo ciberespaço na velocidade da luz e com precisão surpreendente 1 (2016, p. ix, tradução minha).
Tanner assim compara os indivíduos com quem nos relacionamos pela web com a ideia de fantasmas: seres que não possuem um corpo físico, porém cuja presença é sentida. Este conceito me levou a pesquisar e conhecer o filósofo contemporâneo Byung-Chul Han, um sul coreano formado na Alemanha e autor de uma série de obras a respeito da vida contemporânea e efeitos da tecnologia. Em No Enxame: Perspectivas do Digital (2018), Han também reflete sobre uma relação entre a comunicação à distância e os fantasmas, expondo a ideia de que estes seriam entidades que “roubam” as interações estabelecidas entre os indivíduos pelo envio de mensagens de maneira mediada (como por exemplo através da carta ou da Internet). O autor
afirma que, deste modo: “a carta se relaciona com fantasmas. Beijos escritos não chegam a sua destinação. No meio do caminho, eles são presos e esvaziados por fantasmas” (HAN, 2018, p. 95).
Estas duas citações, de Tanner e Han, foram o que me inspiraram a perceber os indivíduos com quem me relaciono pela Internet como fantasmas. Sejam eles mesmos seres fisicamente ausentes ou entidades que roubam as interações entre os indivíduos, estes conceitos me levaram a elaborar três categorias, ou estados, que identifico como parte da comunicação à distância (mais detalhes sobre estas categorias podem ser encontrados em minha dissertação e outras publicações). Estas ideias nortearam a produção de duas séries de desenhos digitais, as quais chamei de Glitches Fantasmagóricos e Estado de Distância.
Meu interesse pela Internet em si e práticas artísticas compartilhadas na grande rede me levou a utilizar processos da glitch art 2 sobre desenhos digitais de minha autoria, para versar a respeito da experiência de me comunicar com outros indivíduos na forma online. Ambas as séries tem como base tais desenhos, sendo que Glitches Fantasmagóricos se constitui apenas de imagens estáticas e Estado de Distância apresenta também algumas animações, criadas a partir das variações desses glitches.
Os fantasmas são figurativamente presentes nas imagens na forma de silhuetas sem rosto, repetições que se assemelham a ecos visuais e, mais frequentemente, como os as falhas causadas pelos glitches que interferem nas interações dos amantes.
Sendo que estas obras são digitais e, portanto, imateriais em si, surgiu a questão: como eu poderia expor estes trabalhos, que não possuem matéria física? A resposta foi a criação de um website, que serviria não somente como uma alternativa de exibição para estas imagens, mas como um sustento poético a todo o corpo deste trabalho, visto que estas criações estariam, então, apoiadas na própria mídia de que elas falam.
O Website Carta de Amor aos Fantasmas
Carta de Amor aos Fantasmas é, assim, o resultado do que elaborei como forma de exibir estes trabalhos. Não apenas servindo como uma galeria online, mas como uma obra em si, a qual é possível navegar e que exige um certo comprometimento do internauta para visualizar suas páginas.
Inspirada no website Pink Lightning , obra da dupla canadense Purity Ring (formada por Megan James e Corin Roddick), a Carta de Amor aos Fantasmas emprega uma técnica similar de intencionalmente “esconder” os links e ícones que dão continuidade a experiência com o trabalho. Em Pink Lightning, a experiência é semi-linear no sentido de que há um caminho “correto” a ser seguido, onde os links “errados” levam o interator a um tipo de beco sem saída, a partir do qual é preciso reiniciar o site para que se possa sair dele. Em meu website, optei por caminhos não-lineares que, apesar de conterem um tipo de linearidade narrativa, sempre possuem algum link, ainda que escondido, que levam o observador adiante ou de volta a outra parte do caminho.
Segundo Lucia Leão, as obras hipermidiáticas, como são os websites, possuem ícones de navegação que, no caso de trabalhos poéticos, nem sempre são evidentes:
Em geral, os aplicativos hipermidiáticos costumam oferecer um sistema de ícones para a navegação. Isto é particularmente importante no auxílio ao usuário; porém, temos casos de
experimentos poéticos que ocultam esses botões e oferecem ao leitor o desafio da descoberta de como interagir com o aplicativo (2005, p. 28).
Neste trabalho, inclui as imagens que criei com o desenho e a glitch art e procurei desenvolver uma narrativa pessoal e baseada em um relacionamento romântico específico em minha vida – um que foi iniciado e se mantém por meio da Internet. Convidar o internauta a passear por esta narrativa é uma maneira de expor minha experiência desta relação que não apenas é interpessoal como também se dá com o próprio computador e a Internet.
Impacto da pandemia
É chocante, até assustador, pensar sobre o impacto que a pandemia teve sobre os relacionamentos interpessoais, que passaram a depender muito mais das tecnologias e da Internet para subsistirem, quando não era possível que as pessoas se encontrassem presencialmente. Esta condição até mesmo alterou a maneira como passei a perceber minha própria pesquisa, que foi iniciada por volta de um ano e meio antes do surgimento do novo coronavírus, causador da covid-19.
As relações interpessoais, durante a quarentena e mais do que nunca, foram quase que exclusivamente mediadas pela Internet, e “com o isolamento social provocado por estas medidas de prevenção, muitos de nós nos ‘fantasmagorizamos’ compulsoriamente uns para os outros” (BORTOLOSSI, 2021, p. 203). Neste contexto, a quantidade de informações e conteúdo a Internet, inclusive de arte, aumentou consideravelmente com a propagação de cursos, eventos,
transmissões ao vivo, vídeo conferências, etc, evidenciando a Internet como um meio ubíquo e desterritorializado de comunicação e interação à distância geográfica.
Poderíamos chamar de fantasmas quaisquer entidades que parecem ser sentidas, porém invisíveis para os olhos físicos. Pode-se argumentar que isto seja um exagero, mas penso que além de todas as definições que pude atribuir ao por que de usar “fantasmas” em minha pesquisa, também poderia adicionar que o coronavírus seria um destes fantasmas, um que nos forçou (e em muitos lugares do mundo, ainda força) a ficarmos distantes, reclusos, mas nunca em plena solidão – graças à Internet.
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Referências:
TANNER, Grafton. Babbling Corpse: Vaporwave and the Commodification of Ghosts. Hampshire: Zero Books, 2016.
HAN, Byung-Chul. No Enxame: perspectivas do digital. Tradução de Lucas Machado. Petrópolis: Vozes, 2018.
BORTOLOSSI, Isadora C. Carta de Amor aos Fantasmas: Glitch, Web Arte e Vaporwave na construção de uma poética visual sobre relacionar-se à distância. 238f. Dissertação (Mestrado em Artes Visuais – Linha de Pesquisa Processos de Criação e Poéticas do Cotidiano) – Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais, Universidade Federal de Pelotas.
LEÃO, Lucia. O Labirinto Da Hipermídia – Arquitetura e navegação no ciberespaço. 3a ed. São Paulo: Iluminuras, 2005.
Acesse A Carta de Amor aos Fantasmas aqui.
Vídeo Carta de Amor aos Fantasmas – Navegação A:
Vídeo Carta de Amor aos Fantasmas – Navegação B:
Acesse Ghostly Glitches (blog na plataforma Tumblr contendo todas as imagens das séries de desenhos) aqui.
Acesse Pink Lightning, de Purity Ring, aqui.