UFRGS e a Covid-19

Uma tarde na casa dos outros durante a pandemia

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Foto: Flávio Dutra

Relato | JU acompanhou em campo a pesquisa nacional coordenada pela UFPel, ANVISA e Ibope que visa medir os índices de prevalência do novo coronavírus no país

Por Flávio Dutra – Jornal da Universidade

Depois de passarmos por algumas casas aparentemente vazias e de recebermos repetidas recusas desconfiadas, chegamos à residência de Lori e Guinter Brust, que aceitaram participar da pesquisa para medir os índices de prevalência do novo coronavírus. Enquanto Júlia se preparava para iniciar a gravação, Lori nos contou que uma das características da rua é de que ali moram muitas pessoas idosas. 

Assim, de acordo com ela, formou-se entre os vizinhos uma espécie de rede de proteção comunitária e que especialmente nessa tarde estava sendo testada: afinal, era incomum a ação de uma mulher que batia palmas em frente às casas, acompanhada de um homem com uma mochila preta e uma máquina fotográfica, que, ao serem atendidos, se paramentavam como se fossem enfermeiros à beira de entrar em uma CTI e, ao saírem, de novo na rua, protagonizavam “um striptease sanitário a céu aberto”, afirmou, divertindo-se. 

Essa rede ficou clara quando, enquanto Julia fazia as perguntas iniciais da pesquisa e eu fazia algumas fotos, o telefone começou a tocar insistentemente. Lori tentou desligar, não conseguiu e resolveu atender. Era Mirela, uma vizinha preocupada que ligava para ver se estava tudo bem, pois ouvira dizer que dois estranhos entraram na casa do casal de aposentados. 

Lori e Guinter moram na rua Lila Ripoll, no bairro que alguns dos moradores chamaram de Barra do Caí, outros de Passo da Mangueira ou, ainda, simplesmente de Sarandi. Localizada na zona norte de Porto Alegre, a região, ou o que a metodologia utilizada pelo Ibope chama de “setor censitário”, já havia sido pesquisada nas ondas anteriores, ainda que sempre em casas diferentes. 

Pesquisa de campo

Júlia Lima, a pesquisadora, tem dezenove anos e é estudante do último ano do ensino médio em uma escola estadual. Ela e cerca de mais dez pesquisadores teriam que percorrer algumas regiões da cidade naquele dia, entrando de casa em casa, conforme sistemática previamente estabelecida. Enquanto seus colegas seguiam trabalhando sozinhos, Júlia aceitou seguir na companhia da reportagem do JU. Assim, na tarde de uma segunda-feira (22/6), entramos em cinco casas, entre 14 e 20h, e relatamos aqui um pouco do que foi visto e registrado. 

A Evolução da Prevalência de Infecção por Covid-19 no Brasil é uma das pesquisas mais importantes no processo de estudo e compreensão das dinâmicas de funcionamento do novo coronavírus, tendo sido dirigida pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), e objetiva a busca de dados sobre os processos de contaminação do SARS-CoV-2. Por meio de uma base amostral, buscava testar pessoas para identificar os índices de prevalência do vírus. No Brasil, a pesquisa se deu em 133 municípios, sendo realizadas 250 amostras por município em cada uma das ondas de pesquisa.

Coordenada pelo Centro de Pesquisas Epidemiológicas da UFPel, foi primeiramente realizada no Rio Grande do Sul e, depois, ampliada para todo o país, com apoio do Ministério da Saúde e com logística do Ibope. Iniciada na metade de maio, teve a terceira e última etapa – as chamadas ondas – da coleta realizada entre os dias 21 e 23 de junho passado. 

Depois de diversos problemas na primeira fase de coleta de dados – pesquisadores chegaram a ser presos no Mato Grosso, em Goiás e no Espírito Santo – e de uma intensa campanha de mídia para explicar a importância da ação, aqui no estado o trabalho se desenvolveu de maneira relativamente tranquila. Ainda assim, houve problemas em áreas mais conflagradas pelo tráfico na zona leste da capital, onde a pesquisa, para prosseguir, precisou de autorização de lideranças da região. 

A rua que constituía o circuito de pesquisa que Julia deveria cumprir naquele dia era relativamente curta, com quatro quadras regulares, sendo uma delas parte de uma praça, sem casas. Nesse trecho, a previsão era realizar entrevistas em dez residências, com a possibilidade de voltar no dia seguinte caso não conseguisse atingir esse número. Julia começa o trabalho pela primeira casa de um dos lados da rua, seguindo um mapa predeterminado. 

Dali, segue até o fim da via, sempre pelo mesmo lado. Se é atendida na primeira casa e quem a atende aceita fazer o teste e responder à pesquisa, a sequência do trabalho é feita pulando nove casas e recomeçando a partir da décima residência. Caso os moradores desse domicílio não queiram participar, vai para o seguinte até que alguém aceite. Depois, retoma a mesma sequência. Se há um prédio no meio do caminho, bate nos apartamentos em uma ordem que vai do último ao primeiro apartamento. Quando a rua termina, atravessa e retoma o caminho no sentido inverso, com o mesmo método.

Na rua Lila Ripoll predominam casas construídas em loteamentos organizados pela prefeitura a partir dos anos 1950. Boa parte delas foi posteriormente reformada de acordo com o gosto e as condições econômicas de cada proprietário. As poucas residências que ainda mantêm traços originais são moradias de duas águas, com jardins pequenos na frente e na lateral, além de um pátio apertado nos fundos. Como boa parte do bairro, a via é uma região em que vivem predominantemente bancários, comerciários, vendedores, representantes comerciais, professores, motoristas de ônibus ou, ainda, pequenos comerciantes. 

Invariavelmente, as tentativas de acesso aos moradores pela pesquisadora iniciavam por palmas batidas junto ao portão das casas gradeadas; muitas vezes as moradias não tinham campainhas, o que dificultava o trabalho e, ao contrário, facilitava a negativa de quem de dentro percebia uma movimentação estranha e preferia não atender. 

Essa era a segunda onda em que Julia trabalhava nessa pesquisa, o que, pela exigência dos procedimentos, fazia com que andasse carregada e cheia de coisas pela rua. Em um braço, levava uma sacola plástica com Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) ainda não usados, novos, os quais vestia cada vez que se preparava para entrar em uma casa; no outro, uma sacola em que se lia “material infectado”, na qual depositava os EPIs ao sair; e, por fim, às costas, trazia uma mochila com os insumos necessários para a realização dos testes, assim como o tablet usado para o registro da pesquisa – que era toda lida e gravada, para tentar evitar distorções nas abordagens realizadas pelos diferentes pesquisadores.

Além da falta de campainhas para se anunciar ao chegar às casas, outra das dificuldades era o já falado receio dos moradores. Durante a tarde em que a reportagem do JU acompanhou o trabalho, nenhuma das cinco moradias em que entramos conhecia ou tinha ouvido falar da pesquisa. Em outras tantas, ninguém sequer abriu a porta e, em pelo menos três residências, moradores não quiseram participar, com justificativas como “não moro aqui”, “não sei onde está a chave do portão” ou, ainda, “não tenho tempo agora, pode voltar mais tarde?”. 

Para quem aceitava participar, depois de paramentados, entrávamos na casa ou, ao menos, no pátio. Júlia colocava os materiais para a realização do teste em cima de alguma mesa e iniciava as perguntas, seguindo um roteiro determinado e que deveria ser lido: questões básicas sobre a condição econômica, de trabalho e de estudo dos que moravam no endereço. 

Em dado momento, o software selecionava um dos moradores para a realização do teste e, em caso de resultado positivo, os outros também deveriam ser testados. Se houvesse esta situação, as autoridades de saúde seriam avisadas. Em nenhuma das casas que entramos houve resultados positivos. Além disso, curiosamente, todas as pessoas testadas foram mulheres entre dezoito e setenta anos de idade.

A nota peculiar é que o que menos podemos fazer nesse tempo de afastamento condicionado que estamos vivendo é ir às casas dos outros ou, ainda mais raro, entrar em casas de estranhos. Além de acompanhar o trabalho e os métodos utilizados na pesquisa, e de assim poder observar as possíveis falhas ou, ao contrário, a qualidade dos procedimentos, a possibilidade de perceber como vivem as pessoas e como se relacionam com suas casas é sempre um exercício de atenção rico de viver.

Foto: Flávio Dutra

A primeira residência em que a pesquisa foi realizada foi a de Ieda Moraes, uma senhora de cerca de 70 anos que morava sozinha, ainda que os filhos vivessem em outras casas no mesmo terreno. Desconfiada, aceitou fazer o teste e responder à pesquisa, mesmo que não tenha saído de casa, a não ser para ir a algum médico que tivesse marcado. Na cozinha, o espaço em que ficamos, além dos costumeiros geladeira, fogão e mesa, havia uma bíblia aberta no livro Êxodo, um relógio despertador quase art déco e uma revista de palavras cruzadas ainda não completadas.

Foto: Flávio Dutra

Na segunda casa em que entramos, quem atendeu foi Nara Ramos. Estava sozinha, mas moram com ela o marido e uma das filhas, Evelyn. A sorteada para fazer o exame foi Evelyn, de 17 anos. Nara a chamou por telefone e Evelyn logo apareceu. Terminando o ensino médio, trabalha em uma loja, mas estava cumprindo a quarentena em casa. A entrevista e o teste foram de novo realizados na cozinha. Entre os detalhes, flores, uma mesa pequena e, como janela, um vitral filtrando a luz e criando um colorido diferente na       peça. Da sala, duas cadelas Terrier nos espiavam. Ansiosas, Nara e Evelyn comemoraram o resultado negativo.

Foto: Flávio Dutra

A moradia de Lori e Guinter Brust é um exemplo das casas que teve o projeto original completamente alterado, tendo sido seguidamente reformada, se transformando de um sobrado de madeira em um novo chalé de alvenaria, com peças mais amplas e iluminadas. Os dois não saem de casa nem para ir ao supermercado, sendo abastecidos com o que necessitam pelo filho, que faz as compras e resolve questões na rua. Guinter, que teve um AVC há pouco e ainda está se recuperando, está prestes a completar 80 anos em julho e, pensativo, tenta imaginar como será possível comemorar.

Foto: Flávio Dutra

Anoitecendo, chegamos à casa de Jaqueline Borges. Junto com ela, moram a filha, Luisa, e o marido, Leonel de Moura Brizola Filisbino. Percebendo minha intriga ao dizer o nome do companheiro, contou que os pais dele eram fanáticos pelo ex-governador e lhe deram esse prenome, sendo que seu único nome de família era mesmo Filisbino. Luisa, 18 anos, unhas de silicone expressivas e bem cuidadas, foi testada. Não entramos na casa, mas pela janela vi um também expressivo bule para café, de um tipo bastante tradicional, sobre o fogão. Novamente, percebendo a minha curiosidade, Jaqueline, a mãe, avisou: gostamos muito e bebemos muito café.

Foto: Flávio Dutra

Conseguimos ser recebidos na última casa, na verdade um apartamento, já noite fechada. O casal Flávia Dietrich e Itamar Silva ofereceu para a conversa uma espécie de minissalão de festas que tinha poucos móveis além de uma mesa para quatro lugares, geladeira e um sofá, uma janela para a garagem. Itamar, motorista de ônibus, tem ficado em casa, cuidando de sua saúde. Flávia é professora em escolas estaduais e se afastou em março com o início da quarentena. Seus alunos não têm aulas remotas, mas ela lhes encaminha algumas atividades e tarefas por e-mail ou whatsapp. Antes de começar a pesquisa, comentou: “Só atendi porque, pela janela, vi vocês passarem no começo da tarde quando saíram daquela casa ali na frente. Fiquei curiosa!”.

Confira no JU mais fotos da pesquisa: https://www.ufrgs.br/jornal/uma-tarde-na-casa-dos-outros-durante-a-pandemia/

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