Alunos da Medicina criam grupo de leitura para debater questões raciais

Por Júlia Provenzi / Jornal da Universidade
Depois da criação de contas no Twitter que acusavam fraudadores de cotas raciais em várias universidades federais do país em junho deste ano, não demorou para que surgisse uma também sobre a UFRGS. Isso fez com que, em um grupo formado por cerca de 50 alunas e alunos negros de Medicina em Porto Alegre, a discussão sobre cotas efervescesse. “Em momentos como este acontecem questionamentos que surgem mais quando as pessoas são pardas. No grupo ficou um conflito sobre o que é ser pardo”, diz Marcelo Garroni, do 3.º semestre do curso na UFRGS.
Foi então que Zíngara Alves, uma das participantes do grupo, deu a ideia: “Em vez de nos colocarmos uns contra os outros, por que a gente não estuda? Vamos fazer um grupo para começar a discutir isso”. A iniciativa foi inspirada em outras propostas semelhantes em outras universidades no país.
“Por que ficar sofrendo com dilemas ou discutindo questões que já foram resolvidas por pessoas há 20 anos? Já está escrito. Então devemos estudar e nos preocupar com os dilemas da nossa geração”, afirma Marcelo. Desde então, realizam-se encontros quinzenais às sextas-feiras por videoconferência para discussão de uma leitura – de autoria negra – decidida em votação no encontro anterior. A sala abre 30 min antes para quem quiser entrar e conversar. Além disso, uma pessoa é sorteada a cada reunião para apresentar uma pessoa negra inspiradora, como Emicida e Carolina Maria de Jesus.
O primeiro texto foi O pardo como dilema político, de Luiz Augusto Campos. Na semana seguinte foi debatido o texto A saúde psíquica da população negra, de Izildinha Batista, e o último foi o artigo Escolarizando homens negros, de Bell Hooks. Os participantes fazem a leitura durante a semana e, no dia do encontro, discutem o texto e apresentam vivências e reflexões.
“A gente invariavelmente vai aprendendo com os nossos pares. Em conversas de corredor, a gente se passa esse conhecimento. Podem não passar o nome do autor, mas vendo conteúdo no Youtube, no Instagram, a gente recebe conhecimento, então acaba tendo noção dos conceitos, mas saber quem estudou e onde procurar é importante.”
Marcelo Garroni
Muitas vezes, a universidade é o ambiente onde as pessoas debatem os estudos raciais pela primeira vez, como é o caso da estudante do 11.º semestre Fernanda Dias. “Minha família sempre me deixou consciente de que eu era preta, mas mesmo assim minha mãe fazia relaxamento no meu cabelo [processo usado para diminuir o volume] desde os 9 anos porque achava que eu seria mais bem aceita. Na escola, me chamavam de apelidos. Então eu sabia das questões pela prática, mas eu não cheguei a estudá-las.” Hoje, a futura médica usa o cabelo trançado, orgulhosa.
O estudante do 8.º semestre Caio Castro foi a primeira pessoa de sua família a ingressar em uma universidade pública e esteve presente na luta para que houvesse a comissão de aferição para evitar as fraudes nas cotas na UFRGS. “Desde que entrei, eu já estou engajado nas questões relativas ao movimento negro. Para isso existia uma consciência prévia que eu construí praticamente sozinho.”
Encontros oferecem rede de apoio a estudantes negros
Mas, além de uma ocasião para a educação racial, as reuniões são também um momento de acolhimento no qual os alunos podem se sentir seguros para compartilhar ideias, vivências e se identificarem com seus pares dentro do curso. “O grupo é uma estratégia de nós nos fortalecermos. Viemos de históricos familiares muito distintos. Colegas e amigos nossos estão sofrendo de coisas muito distintas, e criamos esse espaço para que a gente consiga se formar”, declara Marcelo.
“Nós nem nos damos conta do quão sobrecarregados ficamos. A prova disso é que a primeira reunião teve quase três horas de duração só para falar de coisas que nos tocam emocionalmente antes de ir para algo mais teórico”, diz Caio. O grupo tornou-se uma válvula de escape para expressar a revolta em um momento em que a população é impedida de ir para as ruas com a preocupação de ser um vetor do coronavírus.
Gustavo Santos, que está no 10.º semestre, fica feliz em ver graduandos que estão no início do curso engajados e dispostos a aprender. “Tem muita coisa que eles não têm ideia de que vão vivenciar ainda. Ao mesmo tempo que a gente alerta para coisas que eles vão viver, também nos colocamos à disposição para ajudar”, relata.
Fernanda, que já está no final do curso, confirma: “É muito difícil chegar em uma turma onde a maioria é branca e pensar: ‘cadê os outros?’; pessoas que saibam qual é a tua vivência e com quem tu te identificarias. Mesmo antes de conhecer de fato o Marcelo ou o Caio, já nos cumprimentamos nos corredores… Tentamos nos entrosar porque sabemos que precisamos desse apoio”. Antes, quando via situações de fraudes nas cotas, por exemplo, ela ignorava e focava nos estudos. Agora, por ter essa rede de apoio, essas discussões são facilitadas, e é maior o sentimento de que são legítimas.
Representatividade é importante para promover transformações sociais
Desde que entrou na universidade, Gustavo passou a perceber a diferença que ele faz em alguns espaços apenas por estar presente. Um dos momentos que o marcaram foi na cerimônia de troca de crachás, que é quando os alunos ingressam no internato, o ciclo final da faculdade. “Foi postada uma foto minha, entre outras três fotos de toda a cerimônia. Eu estava com uma trança nagô, uma trança típica africana. Foi aí que eu percebi que, de alguma maneira, já sou exemplo para outras pessoas”, conta. “Estamos tomando esses lugares e, estando inseridos, tentamos desmitificar essa cultura de um lugar que não costuma ter essa presença para um lugar que deve ter essa presença.”
“É comum entrarmos no hospital e acharem que somos enfermeiros ou técnicos, o que rebaixa as duas condições: a de um profissional que não é médico, mas é tão essencial quanto, e a de alguém que está tentando uma carreira na medicina e é negro. “
Gustavo Santos
A fraude nas cotas, discussão que motivou a criação do grupo, é um problema que não se esgota quando os fraudadores perdem a vaga na Universidade. Para Caio, o que existe é um apagamento. “O nosso número na faculdade, de acordo com as cotas, deveria ser muito mais alto. E isso atrapalha a nossa formação porque não estávamos conseguindo formar quórum para debater as nossas pautas, para nos manter motivados. Enquanto alunos que vêm muitas vezes de uma condição socioeconômica baixa, enfrentamos muitas dificuldades que nos impedem de ter um tempo extra além do que a gente dedica à faculdade para nos dedicarmos a estas questões, o que é extremamente importante.”
Entretanto, argumenta Fernanda, a luta para a aprovação das pautas do movimento negro cabe também aos brancos. A falta de identificação com a causa não pode ser impeditivo para o reconhecimento da importância e do engajamento nas causas dos movimentos sociais. “Eu, como mulher e negra, não tenho como fugir disso. Mas uma causa social te desperta para outra, é impossível pensar nas causas sociais isoladamente”, atesta a estudante. Sua opinião encontra eco na de Marcelo, que complementa: “Essa ideia precisa estar na educação. Mesmo quem não se identifica consegue reconhecer”.
Educação racial também é responsabilidades das pessoas brancas
Na UFRGS, o movimento negro organiza, anualmente, o Novembro Negro, que é uma iniciativa plural. Em uma das palestras a que Fernanda compareceu, entretanto, viu apenas três pessoas brancas. “É importante que as pessoas não vejam isso como um espaço da negritude. Ele é um espaço para a promoção do orgulho e da negritude, mas é um espaço em que todo mundo tem que estar junto”, afirma Marcelo.
“Sem os brancos, vamos resistir. O histórico da nossa ancestralidade é de resistência e luta. Mas somente com os brancos entrando na causa e desconstruindo essa lógica é que o racismo vai deixar de ser algo reproduzido automaticamente na estrutura da nossa sociedade.”
Marcelo Garroni
Caio afirma que, para os indivíduos brancos, existe um desconforto ao falar sobre racismo, o que não ocorre em outras causas sociais. “Para falar sobre feminismo, pessoas LGBT+, tu vê gente de todas as classes sociais e de todas as cores. Quando é para falar sobre racismo, só as pessoas negras estão lá.”
Para ele, esse desconforto impede que as pessoas brancas se engajem no movimento negro. Em junho, com a morte de João Pedro Matos Pinto e de George Floyd, eclodiram no Brasil e no mundo protestos antirracistas que tiveram a participação de vários setores da sociedade. “Foi um momento que fez a população branca começar a pensar em racismo; para a população negra, essa é uma questão que nunca deixa de machucar. É impossível uma pessoa negra no Brasil não pensar em racismo diariamente. George Floyd colocou uma lupa em dores que já estavam aqui”, declara Caio.
“As pessoas brancas têm que entender que se faz parte de 50% da população do país, por consequência reflete na realidade delas. Desperdiçamos muitos talentos, mão de obra, pessoas extraordinárias, por causa do racismo”, afirma Caio. A motivação para esse esforço é a de viver em um país melhor, com menos desigualdades e que permita a todos condições mais igualitárias.
