UFRGS e a Covid-19

Alunas do Colégio de Aplicação, catadoras organizam campanha para montar galpão de reciclagem e empregar mais mulheres

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Foto: Arquivo pessoal

Sororidade| As irmãs Stefani e Paula Guedes criaram coletivo de recicladoras que garante renda para 10 mulheres da Vila dos Herdeiros atualmente e pretende dar trabalho para mais vizinhas desempregadas caso consigam um espaço maior para guardar os materiais

Por Fernanda da Costa, para o Jornal da Universidade

Após romperem os ciclos patriarcais nas próprias vidas e terem sucesso profissional com um salão de beleza que abriram em casa, as irmãs Stefani e Paula Guedes perceberam que precisavam apoiar outras mulheres na comunidade onde vivem, a Vila dos Herdeiros, no bairro Agronomia, zona leste de Porto Alegre. Para isso, decidiram encerrar os serviços da estética para criar um grupo de reciclagem no pátio da residência, o que permitiria dividir trabalho com vizinhas que eram chefes de família e estavam desempregadas. 

Foi assim que nasceu o Sabor da Vitória (SDV Reciclando) em 2018. Hoje, o coletivo garante renda para as irmãs e mais 10 mulheres, mas ainda é pouco diante da necessidade do território. Com a crise financeira provocada pela pandemia do coronavírus, outras mães de famílias monoparentais perderam o emprego e não têm perspectivas de serem contratadas em breve, o que motivou Stefani e Paula a criarem uma campanha de arrecadação de recursos para a compra de um terreno.

No local, elas pretendem instalar um galpão de reciclagem com uma prensa, o que permitirá ao grupo armazenar um maior volume de materiais recicláveis e, com isso, incluir mais mulheres no trabalho. Disponível numa plataforma de financiamentos coletivos, a campanha recebeu até o momento 4% dos R$ 200 mil necessários para a aquisição do espaço. 

“Chegam muitas gurias aqui pedindo emprego, e ficamos com o coração na mão, porque sabemos o que é passar fome, mas não temos muito espaço e os materiais recicláveis não são valorizados. Com esse terreno, poderemos incluir mais 20 mulheres no grupo e criar um espaço para nossos filhos ficarem, com uma biblioteca comunitária.”

Stefani Guedes

Além da garantia de renda, o grupo formado pelas irmãs também tem servido para discussões de gênero e para o enfrentamento da violência doméstica. “Eu e a Paula dávamos conta do salão [de beleza] sozinhas e estávamos conseguindo uma renda boa, mas víamos muitas vizinhas sofrendo violência, gurias novas sendo abusadas e oprimidas. Já chegamos a esconder mulheres agredidas que fugiram de casa, por isso decidimos criar o Sabor da Vitória”, conta a catadora.

No coletivo, as irmãs explicam como denunciar casos de violência e incentivam que todas estudem, além de manter uma caixinha para que uma integrante por ano possa tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH). “Com a pandemia, está difícil guardar dinheiro para isso, mas a ideia é que todas possam dirigir”, completa Stefani.

Antes do SDV Reciclando, as irmãs viviam em casamentos infelizes e perceberam que não iriam proporcionar melhores condições aos filhos do que tiveram na infância (Stefani é mãe de um, Paula, de três), então resolveram se separar. “A Paula sofreu violência por causa disso, porque o ex-marido não aceitava a separação. Naquela época a gente nem sabia que tinha uma delegacia da mulher para denunciar. Hoje falamos sobre isso no grupo. Se não tá bom com o marido, chuta o balde e já era. É as guria!, como a gente sempre fala”, diz a catadora. Após as separações, elas começaram a fazer lanches para vender, comercializaram roupas e acessórios e, por último, passaram a oferecer serviços estéticos em casa – trabalho que foi substituído pela reciclagem.

“Demos as mãos e estamos subindo juntas, por isso precisamos do terreno; queremos nos formalizar. Não conseguimos nos legalizar ainda porque aqui em casa, como é um beco, não se recebe carta. No asfalto [onde fica o espaço desejado], o correio chega, inclusive fica melhor para o comprador vir buscar os materiais reciclados de caminhão.”

Stefani Guedes
Grupo ganhou carro e reforma da casa

Alunas da Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio de Aplicação da UFRGS, as irmãs sempre batalharam pela visibilidade do SDV Reciclando. “A gente se enfiava em tudo quanto era espaço para falar e entregar panfletos. Queríamos mostrar que éramos um grupo de mulheres e a importância das catadoras”, conta Stefani.

Com isso, o grupo ganhou de uma doadora, neste ano, um carro para fazer a coleta dos materiais, e R$ 20 mil do programa Caldeirão do Hulck, da Rede Globo, para a reforma da casa onde trabalham atualmente (e em que moram Stefani e Paula). O auxílio financeiro foi conquistado graças a uma carta enviada à emissora de televisão pela aluna de Letras da UFRGS Giovanna Medeiros Torres, que é bolsista no EJA do Colégio de Aplicação.

Alunas do Colégio de Aplicação, as catadoras Stefani e Paula Guedes criaram coletivo de recicladoras para dar trabalho a mulheres desempregadas e realizam campanha para comprar um terreno (Fotos: Arquivo pessoal)
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